30 junho 2017

Resenha Crítica: "Corpo Celeste" (2011)

 Num determinado momento de "Corpo Celeste", Marta (Yle Vianello), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, tenta perceber o que significa a expressão: "Eli, Eli lema sabachthani". Mais tarde, a jovem pré-adolescente descobre que "Eli, Eli lema sabachthani" significa "Meu Deus, por que me abandonaste?", mas, no momento em que a protagonista efectua esta questão, Santa (Pasqualina Scuncia), a sua catequista, evita responder à pergunta. Mais do que procurar responder às questões da jovem, Santa tenta que os catequistas em formação decorem as orações e cumpram as regras, algo que contribui para alguns atritos entre esta e a protagonista. Marta é uma pré-adolescente questionadora e observadora, que conta com uns olhos azuis bastante expressivos e está a lidar com as mudanças do seu corpo, a descobrir a cidade onde nasceu e a contactar com uma nova cultura. É uma cultura de contradições, onde a modernidade e a tradição se reúnem, seja nos valores dos seus habitantes ou nos edifícios, com Alice Rohrwacher a conseguir evidenciar as dicotomias deste território e a forma como este influencia e é influenciado pelos seus cidadãos (algo que a cineasta repete em "Le meraviglie", a sua segunda longa-metragem). Veja-se o caso da igreja onde Marta tem as aulas de catequese, um espaço onde tanto são efectuadas práticas tradicionais como iniciativas modernas que visam conquistar os mais novos, com o próprio edifício religioso a conter no seu interior as marcas deste ziguezague entre a modernidade e a tradição. Note-se o crucifixo com néones azuis, bastante moderno embora seja visto com um certo despeito quer pelo padre da paróquia, quer por alguns paroquianos, com a ideia do primeiro em trazer um objecto mais tradicional a encher alguns crentes de alegria. Estamos em plena cidade de Reggio Calabria, exposta com uma mescla de encanto e desencanto por Alice Rohrwacher, quase sempre a partir do olhar de Marta. É Marta quem a câmara de filmar acompanha de forma atenta, com os planos a concentrarem-se imenso nesta jovem, bem como naquilo que esta observa, seja uma procissão, o interior da igreja ou os locais praticamente abandonados em que a população despeja o lixo, nomeadamente os espaços que pertencem a rios que se encontram quase secos. Este território também conta com uma certa secura, com as suas características a adensarem o sentimento de alienação e solidão de Marta, enquanto esta procura lidar com as mudanças e sensações típicas da idade, tais como as transformações corporais, para além de ter de suportar as constantes ausências da mãe (Rita, interpretada por Anita Caprioli) e o mau feitio da irmã (Rosa, interpretada por Maria Luisa De Crescenzo)

27 junho 2017

Resenha Crítica: "Bakemono no ko" (O Rapaz e o Monstro)

 A importância da amizade é uma temática transversal a diversos trabalhos de Mamoru Hosoda, tais como "One piece: Omatsuri danshaku to himitsu no shima", "Toki o kakeru shôjo" e "Samâ uôzu", com "Bakemono no ko" (em Portugal, "O Rapaz e o Monstro") a não ser diferente. Estamos diante de mais uma demonstração da capacidade de Mamoru Hosoda para abordar e desenvolver as relações de amizade com enorme precisão, bem como os efeitos que estas provocam nos personagens principais, sempre com algum humor, aventura, romance e situações dramáticas à mistura, enquanto consegue que nos afeiçoemos aos protagonistas deste filme de animação. Os protagonistas que despertam a nossa atenção e simpatia são Ren e Kumatetsu, dois underdogs que pertencem a mundos distintos. Ren é um jovem de nove anos de idade, solitário, rebelde e respondão, que perdeu recentemente a mãe e não sabe o paradeiro do pai, com as dúvidas e o sentimento de perda a conduzirem-no a fugir dos seus guardiões legais. Quando se encontrava a vaguear pelas ruas de Shibuya, praticamente sem rumo, Ren depara-se com Kumatetsu, uma criatura antropomórfica que conta com uma envergadura física considerável e uma fisionomia semelhante a um urso. Kumatetsu é uma criatura algo irresponsável, egoísta, solitária e violenta, que vive em Jutengai, uma cidade do mundo dos monstros, onde é um dos dois candidatos à posição de Grande Mestre. O outro candidato é Iōzen, um monstro que conta com uma destreza notória para o combate e evidencia ser mais responsável e ponderado do que Kumatetsu. Se Iōzen é um pai de família respeitado, que tem dois filhos, os jovens Ichirōhiko e Jirōmaru, bem como um conjunto de discípulos, já Kumatetsu tarda em encontrar quem o queira seguir, com excepção de Tatara, um monstro sarcástico, e Hyakushūbō, um monge de personalidade relativamente ponderada. Como já foi mencionado, o primeiro encontro entre Kumatetsu e Ren decorre em Shibuya, quando o monstro se encontra a vaguear pelo mundo dos humanos. Esta estranha coincidência compele Kumatetsu a convidar o jovem a juntar-se ao território dos monstros e a tornar-se o seu discípulo, embora Ren não pareça inicialmente entusiasmado com a ideia. Sem grandes motivos para permanecer em Shibuya, Ren acaba por aproveitar uma brecha entre os dois mundos para se escapulir em direcção ao território dos monstros, indo acompanhado por uma espécie de rato que surge como um dos seus companheiros inseparáveis ao longo do filme. É o início de "uma bela amizade" entre Kumatetsu e Ren, pontuada por discussões, imensa teimosia e uma relação de mestre e discípulo que se assemelha quase às dinâmicas entre pai e filho, com a dupla de protagonistas a formar uma ligação muito forte.

24 junho 2017

Resenha Crítica: "Bacalaureat" (O Exame)

Filme dotado de sobriedade, complexidade e pertinência, "Bacalaureat" não concede respostas fáceis, faz questão de questionar o espectador, aborda temáticas merecedoras de reflexão e exibe a capacidade de Cristian Mungiu em transportar-nos para o interior da sua visão da Roménia. Ficamos diante de um retrato despido de grandes optimismos, algo desencantado e cru, com Cristian Mungiu a expor alguns problemas da Roménia contemporânea ao mesmo tempo que tece toda uma teia que envolve os personagens deste drama no qual os valores morais e os sonhos acabam muitas das vezes por serem derrotados e as trocas de favores parecem enraizadas no seio de uma nação. O tráfico de influências, escondido na capa de "troca de favores", é uma das temáticas centrais do filme, com Cristian Mungiu a não deixar de lado um comentário sobre a sociedade romena contemporânea. Um favor obriga a outro, enquanto diversos personagens são envolvidos no interior de uma teia capaz de prender aqueles que se deixam dominar pelas malhas do destino, com os pequenos compromissos a ganharem gradualmente proporções e repercussões inesperadas. Romeo (Adrian Titieni), o protagonista de "Bacalaureat", envolve-se numa intrincada troca de favores, tendo em vista a concretizar o desejo de que a filha obtenha a média necessária para estudar numa universidade em Inglaterra. Este pensa que se encontra a ajudar a familiar, algo que remete para outra das temáticas centrais do filme, nomeadamente, o papel dos pais, ou, se preferirem, o questionar daquilo que é ser pai. Qual a melhor forma de educar um filho? Quais os limites que um pai pode estar disposto a ultrapassar para ajudar um filho? O que leva alguém a corromper os seus valores morais? Romeo sempre protegeu Eliza (Maria-Victoria Dragus), a sua filha, uma situação que o conduziu a perspectivar que o melhor para o futuro do seu rebento seria que a jovem estudasse em Inglaterra. A razão para este desejo é complexa: embora outrora tenha regressado à Roménia, na companhia de Magda (Lia Bugnar), a sua esposa, Romeo apresenta um sentimento de descrença notório em relação ao futuro do seu país. É esse desencanto de Romeo e o seu sentido protector, que conduzem o protagonista a pretender que Eliza abandone a Roménia. Se Romeo parece acreditar piamente que a filha deve emigrar, já Eliza não apresenta as mesmas certezas do pai, bem pelo contrário. Esta é uma jovem aparentemente frágil e inteligente, que aos poucos se depara com a necessidade de se soltar da protecção excessiva do progenitor. Veja-se a decisão de Eliza em marcar a viagem de partida para uma data próxima ao início das aulas em Inglaterra, algo que contraria a ideia inicial do progenitor, ou as dúvidas que demonstra em relação a abandonar os amigos, ou as discussões com o pai devido ao facto deste não simpatizar com Marius (Rares Andrici), o namorado da jovem, ou o choque ao descobrir que Romeo mantém um caso extraconjugal.

19 junho 2017

Resenha Crítica: "A Single Man" (Um Homem Singular)

 "Se vai ser um mundo sem tempo para sentimentos, não é um mundo em que eu queira viver". É desta forma que George Falconer (Colin Firth), um professor universitário, responde a Grant Lefanu (Lee Pace), um colega de trabalho, após este último salientar que "Não haverá sentimentalismos quando os russos dispararem um míssil". São dois modos distintos de viver num Mundo em que a Guerra Fria é uma realidade e um conflito bélico entre os EUA e a União Soviética é uma forte possibilidade, com George a evidenciar uma postura menos temerosa e aparentemente mais descontraída, algo que destoa do colega, um indivíduo que reflecte alguma da paranóia da época. George é o protagonista de "A Single Man", um drama sensível e delicado, pontuado por momentos extremamente tocantes, embora conte com algumas doses de humor, com tudo a ser exposto e desenvolvido com enorme classe e uma estética aprumada. É uma estreia de grande nível de Tom Ford como realizador de longas-metragens, com o estilista a transportar o seu sentido estético para a Sétima Arte e a realizar uma obra cinematográfica em que o estilo serve a substância e vice-versa. Diga-se que "A Single Man" surge como um espelho de George, ou seja, complexo, profundamente humano, extremamente delicado, espirituoso e atento aos pormenores. Tudo parece ter sido pensado ao pormenor, seja o aproveitamento da paleta cromática e da iluminação, ou a atenção aos gestos, olhares e corpos dos personagens, ou aos elementos que marcam a decoração dos cenários. A atenção aos detalhes é ainda visível na forma muito própria como Tom Ford transmite a atmosfera da época em que se desenrola o enredo de "A Single Man". Estamos a 30 de Novembro de 1962, ou seja, em plena Guerra Fria, com a Crise dos Misseis de Cuba a encontrar-se bem presente na mente de alguns elementos, para além de existir uma certa paranóia em relação a um possível conflito nuclear entre EUA e URSS, como podemos observar na figura de Grant. O guarda-roupa, os carros, a decoração dos cenários interiores e os espaços exteriores evidenciam que existiu todo um cuidado para respeitar a época em que decorre o enredo, com estes elementos a tanto servirem para transmitir a atmosfera deste período como para incrementar a história de George, um indivíduo que se encontra preso ao passado e revela alguma incapacidade para combater as dores provocadas pela morte de Jim (Matthew Goode), aquele que foi o seu companheiro ao longo de dezasseis anos. Como ultrapassar a dor provocada por uma perda? George tarda em obter uma resposta para esta questão, com o protagonista a estar demasiado preso às memórias de outrora, enquanto demora em encontrar um motivo para viver sem a companhia do amado, com Colin Firth a compor um personagem que se encontra visivelmente deprimido e marcado pelo sentimento de perda.

15 junho 2017

Resenha Crítica: "O Grande Fúsi" (2015)

 Simples, sensível, estranho e delicado, "O Grande Fúsi" é um drama com traços de romance agridoce, que tem o mérito de saber conquistar a nossa atenção, enquanto nos coloca perante um protagonista pleno de humanidade, que apresenta uma postura letárgica até conhecer duas figuras femininas que mexem com o seu quotidiano e o modo como encara a vida. Esse protagonista é Fúsi (Gunnar Jónsson), um indivíduo prestes a completar quarenta e dois anos de idade, que ainda vive com a mãe e apresenta dificuldades notórias para comunicar com aqueles que o rodeiam. Fúsi trabalha no aeroporto a carregar e a descarregar material dos aviões, sendo alvo de bullying por parte dos colegas de emprego, com a maioria a aproveitar-se da personalidade introvertida e aparentemente passiva deste gigante com coração de manteiga. Com uma estampa física imponente, peso acima da média, uma barba saliente e cabelo comprido, Gunnar Jónsson consegue transmitir a personalidade introvertida, peculiar, passiva e terna do protagonista de "O Grande Fúsi", com o actor a conseguir que acreditemos nas dificuldades que Fúsi encontra para comunicar com aqueles que o rodeiam, ou a efectuar decisões que permitam romper com as suas rotinas repetitivas. Veja-se a normalidade com que este encara a permanência na casa da mãe, ou as dificuldades que apresenta para ocupar o tempo livre ou iniciar um romance. O quotidiano de Fúsi resume-se praticamente a comer cereais de chocolate, a coleccionar figuras para os seus jogos de tabuleiro (que permitam simular batalhas da II Guerra Mundial), a brincar com carros telecomandados e a ouvir música Heavy Metal, tendo em Mörður (Sigurjón Kjartansson) um dos seus poucos amigos. Fúsi ainda é virgem, apresenta uma inocência invulgar para a idade, com quase tudo e todos a questionarem as suas rotinas diárias, com excepção do próprio. Será possível que alguém com quarenta e dois anos de idade consiga viver desta maneira? "O Grande Fúsi" compele-nos a acreditar no protagonista e nos seus comportamentos, bem como no desconforto que este apresenta quando é colocado diante de situações distintas em relação àquelas que programa para o seu quotidiano. Diga-se que Fúsi é um homem muito preso ao seu mundo, pouco dado a grandes demonstrações de entusiasmo e a saídas extravagantes. Veja-se a forma como preenche as suas noites, nomeadamente, a efectuar pedidos de música para a rádio local, enquanto se encontra no carro a observar o mundo que o rodeia, ou as suas saídas para jantar sozinho num restaurante tailandês onde pede sempre o mesmo prato. Num determinado momento de "O Grande Fúsi", encontramos o protagonista a entrar no restaurante tailandês que frequenta regularmente. O dono do estabelecimento faz questão de retirar desde logo os talheres do lugar da frente, com este pequeno acto a reflectir o quotidiano solitário do personagem principal. O dia-a-dia de Fúsi muda quando conhece Hera (Franziska Una Dagsdóttir) e Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir), sobretudo esta última, com o protagonista a começar, ainda que gradualmente, a questionar o seu quotidiano a partir do momento em que convive com estas duas figuras femininas.

13 junho 2017

Resenha Crítica: "Forushande" (O Vendedor)

 Um episódio traumático mexe com os sentimentos de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) e contribui para a abertura de uma série de fissuras nos alicerces do matrimónio deste casal. Estes são os protagonistas de "Forushande", um poderoso drama realizado por Asghar Farhadi, com o cineasta a transportar-nos para o interior de uma série de temáticas e elementos transversais a alguns dos seus trabalhos. Note-se a sensibilidade na abordagem das dinâmicas complexas que envolvem os relacionamentos amorosos, a presença de protagonistas que são colocados diante de dilemas morais, os desfechos com situações em aberto (a fazer recordar "Jodaeiye Nader az Simin" e "Le passé"), a forma orgânica como as particularidades do Irão são integradas no interior de temáticas amplamente universais (a remeter para o já mencionado "Jodaeiye Nader az Simin", tal como para "Darbareye Elly"), o aproveitamento exímio das características do território e dos cenários ao serviço do enredo e da exacerbação do estado de espírito dos personagens (todos as obras mencionadas), entre outros exemplos. Essa apetência para utilizar os cenários ao serviço do enredo e para sublinhar alguns traços da personalidade dos personagens é visível desde a fase inicial de "Forushande", quando encontramos Emad e Rana a terem de abandonar rapidamente o apartamento onde vivem devido a umas obras nas imediações que ameaçam fazer ruir o prédio. É um momento de grande agitação, com as fissuras a começarem a tomar conta das paredes, enquanto os vidros estalam e os habitantes do prédio tentam sair apressadamente das suas casas, com os planos de longa duração a contribuírem para atribuir um certo imediatismo a toda esta situação frenética. Os alicerces do apartamento de Rana e Emad são testados de forma violenta, enquanto a câmara de filmar encontra-se quase sempre em movimento, pronta a captar os acontecimentos e a transmitir os sentimentos fervilhantes dos elementos que abandonam rapidamente as suas casas. Este episódio inquietante surge como uma espécie de metáfora para os acontecimentos que envolvem a dupla de protagonistas ao longo de "Forushande", com Asghar Farhadi a testar os alicerces que unem Rana e Emad, um casal de classe média, de características simples, fortes valores morais e uma postura discreta e relativamente conservadora. Estamos diante de uma dupla de protagonistas dotada de complexidade e densidade, que conta com uma relação aparentemente sólida e marcada pela intimidade e compreensão, pelo menos até ocorrer um episódio traumático que mexe com a mente de Rana e Emad.

10 junho 2017

Entrevista a Stefano Savio sobre o Filmin

 Lançado em Portugal a 16 de Novembro de 2016, o Filmin continua a crescer de forma sustentada e a surpreender a cada dia que passa com uma programação marcada pela qualidade e diversidade. O bom gosto impera, tal como a capacidade para oferecer uma oferta variada aos subscritores, com as colecções a reflectirem a sensibilidade e criatividade da equipa que gere a plataforma. Não faltam clássicos de Luchino Visconti, Ettore Scola e Béla Tarr na programação, bem como algumas obras cinematográficas mais recentes que merecem toda a nossa atenção, com o catálogo a surgir como o reflexo do cuidado quer da equipa do Filmin, quer dos distribuidores que colaboram com esta plataforma. Pelo caminho, surgiu o Canal PT, uma ferramenta fundamental para quem quer visionar cinema português. Ou seja, não faltam motivos para termos interesse em entrevistar Stefano Savio, um dos gerentes e programadores do Filmin e director artístico da Festa do Cinema Italiano. O resultado da entrevista é deveras interessante graças à disponibilidade, conhecimento e sinceridade do entrevistado, com Stefano Savio a abordar assuntos relacionados com a programação do Filmin, a necessidade de envolver o espectador com a plataforma, a importância dos festivais, as colaborações com os distribuidores, a concorrência da pirataria, entre outros exemplos.


Rick's Cinema: Em cerca de sete meses o Filmin conta com uma programação recheada de filmes de qualidade e evidencia um crescimento sustentado. Podemos falar que têm entre mãos um bebé cheio de saúde que tem um potencial tremendo para ser bem sucedido? Qual o balanço que faz destes cerca de sete meses em funcionamento? 

Stefano Savio: É um bebé que ainda precisa de bastante sustentação. É um projecto com enormes potencialidades, mas precisa ainda de muita coisa para concretizar estas potencialidades. Nós achamos que falta um hábito ao espectador, ao consumidor, ao apaixonado pelo cinema de encarar o Filmin como uma oportunidade. Falta ainda algum coisa técnica. No sentido de que o Filmin possa estar presente em plataformas ou canais que permitam uma maior abrangência. O nosso catálogo ainda tem de crescer. São trabalhos que andam em paralelo para que Filmin possa crescer e tornar-se uma realidade com mais impacto.
 Nós também crescemos com o Filmin, é algo que fazemos em conjunto. Achamos que o Filmin pode ganhar força, sobretudo quando é uma colaboração entre várias entidades. Não é só a nossa linha editorial. É uma colaboração forte entre todos os operadores, entre quem gosta de cinema. Neste momento, o trabalho mais importante é partilhar esta ferramenta com todos aqueles que fazem, vêem, gostam e divulgam cinema. É o percurso a fazer para colocar o Filmin no mapa. Com aquilo que oferece neste momento, o serviço já é bom, mas temos de crescer, de nos dar a conhecer e de nos tornarmos numa alternativa viável. Para isso temos de trabalhar no catálogo e a nível da comunicação. Temos um bom número de subscritores, embora considere que se pode conseguir ainda mais. Temos algumas distribuidoras que ainda não conseguimos alcançar, mas o catálogo, que tem cerca de seiscentos e cinquenta títulos, vai aumentar ainda mais. Esperamos que nos próximos meses o nosso catálogo tenha mais de mil títulos, começa a ser uma oferta importante.
  O Filmin precisa de muita colaboração, de que as pessoas entrem na lógica de que este é um serviço real. Muitas pessoas falam do Filmin, mas ainda estão a estudar se vale ou não a pena subscrever. Existe uma certa inércia inicial. Também temos de fazer mais publicidade, mais lançamentos. Nós procuramos investir. Já apostámos no cinema português, algo que está a correr bem. Vamos apostar em algumas coisas em exclusivo, acho que também pode funcionar bem. As colaborações com os festivais vão crescer cada vez mais. A nossa linha editorial está cada vez mais apurada. Procuramos entrar pela Smart TV e para outras estruturas que permitem fornecer um produto melhor. Vamos efectivamente para a frente. Não pode correr mal. O Filmin é um projecto ainda pequenino, mas é um dos poucos do mercado que tem potencial de crescimento. Não sei dizer quando, se daqui a um, ou dois ou três anos, mas as coisas vão virar para aquele lado. É aguentar, ter força, tentar convencer as pessoas, mas o percurso irá para aquele lado como um tipo de serviço, como uma nova janela para o cinema de autor encontrar público.

RC: Quais são os principais desafios para trazer novos aderentes e manter os subscritores fidelizados? A pirataria é um concorrente bastante feroz?

SS: A pirataria pode ser um concorrente. É um concorrente forte, mas é específico. Não é uma questão de conteúdo. As pessoas que querem o conteúdo e o serviço que está no Filmin podem encontrá-lo facilmente na pirataria, mas não é tão lógico, nem tão imediato. É uma questão de tempo. No sentido de "Como é que invisto o meu tempo livre ou o meu tempo cinematográfico?". Por exemplo, quero dedicar quatro horas da minha semana ao cinema. Quando tens uma alternativa muito rápida e barata, que seja mais consensual, é muito fácil ocupares o teu tempo com aquela coisa. Não é uma questão económica, a subscrição é o preço de duas cervejas, mas de identidade ou dedicação. O Filmin poderia funcionar como funciona o ginásio. Eu tenho a subscrição e aproveito para descobrir tudo aquilo que está lá dentro. Com um conteúdo amplo, com cerca de quinhentos títulos, posso a cada semana ver três ou quatro filmes interessantes que estão ali dentro. Agora, quando vais ao ginásio, a não ser que não tenhas vontade de fazer esforço, é por teres alguma necessidade: queres ir à praia, ou cuidar da saúde. Tens uma componente forte que te compele a ir ao ginásio. O Filmin é uma alternativa, mas as pessoas ainda não se casaram de forma tão forte como com essa necessidade que encontram no ginásio.
 Aquilo que para nós é importante e é um desafio, é fazer perceber que o Filmin é uma alternativa muito boa. Quando a pessoa se "casa" e se dedica ao Filmin, essa relação quase que se autoalimenta. Reparei que desde o princípio houve cerca de duas centenas de subscritores que já tinham esta ideia. Estavam à espera do Filmin, assim que ele chegou nem esperaram um segundo para fazer subscrição. Agora temos de procurar público que encare o Filmin como um espaço ao qual se quer dedicar dentro do próprio tempo livre. Nós temos de criar um bocado de envolvimento dentro do projecto, um envolvimento pessoal, que eu acho que é aquilo que dá o gosto. O primeiro percurso a fazer é ter uma comunicação forte e directa com os nossos espectadores, utilizando canais algo diferentes como a proximidade e localização. O cinema português funciona muito bem nesse sentido, já que liga o público, não é uma coisa internacional e global, mas sim uma realidade local, própria, íntima.
 Existe também uma preocupação da nossa parte de respeitarmos o calendário cultural de Portugal, mostrar que o Filmin é uma coisa portuguesa, que é próxima, que não é um projecto que vem de fora. Esse é o trabalho mais complicado, temos de fazer isso com o envolvimento de todos, sejam estes as operadoras, as produtoras e as distribuidoras. Temos de criar uma intimidade entre nós e quem quer gostar do Filmin, esta é a coisa mais complicada, mas também é a nossa única esperança contra monstros como a Netflix que têm uma base maior do que a nossa. Temos de avançar para o outro lado, na criação de intimidade, partilha e envolvência. Como fazê-lo? Estamos a tentar várias coisas. Uma aproximação física, um contacto com as pessoas, o blog. Sei que em Portugal a inércia é um pouco mais forte do que nos outros países, estamos conscientes que não será uma coisa simples. É um projecto que estou super orgulhoso de ter.




RC: O Miguel Esteves Cardoso comentou o seguinte sobre o catálogo do Filmin: "A selecção está cheia de certezas e surpresas como se o único critério fosse a sensibilidade e a inteligência". Para além da sensibilidade e da inteligência, quais são os principais critérios de selecção dos filmes que constam no catálogo do Filmin?

SS: Temos colaborado com as distribuidoras, que trazem o seu catálogo para o Filmin. Muita da sensibilidade que ali está representada é a das distribuidoras, como a Alambique Filmes, a Midas Filmes, a Lanterna de Pedra, entre outras. Dentro do catálogo temos uma linha editorial de não colocarmos filmes que não têm nada a ver connosco, apesar de termos de dar amplitude ao catálogo. No Filmin existem filmes que não são grandes obras, mas também temos de dar esse leque de oferta. A nossa sensibilidade é aquela de ordenar os filmes de uma maneira mais inteligente. Com o material que temos, procuramos conseguir misturá-lo de forma a criar algo ainda mais interessante. As colecções tornam a nossa programação mais interessante, torna-se algo muito importante para conhecermos os filmes que disponibilizamos. Temos de ver os filmes e depois misturá-los de uma maneira que seja mais produtiva. O nosso trabalho é continuar a dar vida aos filmes. Temos sempre de encontrar maneiras de forma a que os filmes voltem a ter um sentido. Nós fazemos isso com as colecções, bem como com algumas linhas editoriais. Por exemplo, agora estamos a trabalhar numa colecção que explora o lado freak da ruralidade. É muito interessante, desbloqueia várias coisas juntas: reúnes filmes muito diferentes, crias novas ligações entre as obras, apanha pontos de vista diferentes sobre o tema. Acho que isto cria alguma dinâmica.
 Vamos começar a ter filmes que se encontram fora do mercado português, então neste caso podemos seleccionar obras que consideramos ser mais adequadas. Percebemos que os documentários funcionam bem em Filmin, bem como os biopics ou de pendor histórico, ou filmes que retratam temáticas específicas. As curtas-metragens funcionaram muito bem. No caso dos filmes de terror ainda não percebemos se funciona ou não. Procuramos manter uma linha editorial que dá a cada espectador a própria liberdade de escolher. Pode escolher ver os filmes do Béla Tarr, ou ver quatro comédias francesas. Dentro daquele limite, tentamos dar uma certa liberdade de escolha, não queremos ser elitistas. Nesse sentido, a Festa do Cinema Italiano ajudou-nos, já que não quer ser elitista. Procuramos dar um limite de qualidade e escolher um pouco de tudo, tendo em vista a colocar no sitio certo: aquele filme com o público errado não funciona, com o público certo, o filme funciona. O nosso trabalho é o de criar percursos para o espectador, por isso acabamos por ganhar um pouco de autorialidade. Temos de criar uma ligação com os nossos espectadores para que acreditem que aquilo que está lá foi inserido com um sentido.

08 junho 2017

Resenha Crítica: "Chevalier" (2015)

 "Chevalier" é o título da terceira longa-metragem realizada por Athina Rachel Tsangari e do jogo disputado pelos personagens que pontuam esta obra cinematográfica que aborda os comportamentos masculinos com enorme acidez e sentido crítico, com a cineasta a colocar os protagonistas em ebulição enquanto estes revelam inadvertidamente as suas inseguranças e tentam demonstrar algumas das suas supostas qualidades. É um grupo heterogéneo, embora quase todos os elementos contem com ligações entre si, algumas mais claras do que outras, com "Chevalier" a revelar gradualmente os laços que unem os personagens principais e aquilo que os separa. Inicialmente parece que estamos diante de um grupo de amigos que se reúne para pescar, conviver e libertar a sua "masculinidade" em pleno mar Egeu, longe daqueles que os rodeiam e dos códigos de conduta que marcam o quotidiano dos seis personagens principais, embora, aos poucos, seja notório que existe algum ressentimento e rivalidade a marcar as relações de Yorgos (Panos Koronis), Josef (Vangelis Mourikis), Dimitris (Makis Papadimitriou), Yannis (Yorgos Pirpassopoulos), Christos (Sakis Rouvas) e um indivíduo que apenas conhecemos como Doutor (Yiorgos Kendros). O elenco contribui com interpretações sólidas, com cada intérprete a conseguir transmitir as especificidades dos personagens que interpretam e explanar que aos poucos cada elemento deste grupo parece ter sido consumido por um estranho sentimento de competitividade que remete e muito para o neoliberalismo selvagem e para alguns problemas intrínsecos à nossa sociedade. Diga-se que Athina Rachel Tsangari aborda essa competitividade selvagem com laivos de genialidade, sobretudo quando deixa o absurdo tomar conta do enredo e desarma o espectador com situações que tanto têm de surreais e exageradas como de plenamente plausíveis. Veja-se quando encontramos um personagem a agradecer à esposa por ter mentido ao telemóvel, com o casal a transmitir a falsa ideia de que a relação vive uma fase saudável, quando acontece precisamente o contrário, algo que remete para a dicotomia entre o ser e o parecer que marca a nossa sociedade. Claro que Athina Rachel Tsangari leva a competitividade dos elementos deste grupo ao extremo, ou não estivéssemos perante personagens que a partir de determinado momento começam a comparar erecções e o tamanho do pénis (a forma como alguns elementos tentam colocar a "máquina a trabalhar" é simultaneamente cómica e deprimente), ou a avaliar o modo de dormir de cada um. Esta competitividade explosiva advém do Chevalier, um jogo proposto por Christos que consiste em cada elemento lançar um desafio que permita uma competição entre os diversos integrantes do grupo, nomeadamente, provas físicas, ou um desafio mental, com os concorrentes a avaliarem-se uns aos outros.

04 junho 2017

Resenha Crítica: "Nocturnal Animals" (Animais Noturnos)

 A chegada do manuscrito de um livro escrito por Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), o seu ex-marido, altera momentaneamente a vida de Susan Morrow (Amy Adams), com a protagonista de "Nocturnal Animals" a sentir-se compelida a reflectir sobre o seu passado e o seu presente, enquanto se embrenha pela intensa história da obra literária. É entre o presente, o passado e a história do livro escrito por Edward Sheffield que se desenrola o enredo de "Nocturnal Animals", a segunda longa-metragem realizada por Tom Ford, com o cineasta a confirmar que os excelentes apontamentos deixados em "A Single Man" não foram obra do acaso. O estilo e a substância são enormes aliados em "Nocturnal Animals", com Tom Ford e a sua equipa a criarem uma atmosfera que tanto tem de inebriante como de inquietante, ou não estivéssemos diante de um thriller psicológico onde a violência emocional é muitas das vezes sentida e as vinganças trazem os resultados mais inesperados ou reflectem o virar de uma página negra de alguém que se sentiu traído. É uma vingança que emerge da solidão e desesperança, que surge praticamente como símbolo do findar de um amor que se quebrou de forma dolorosa, com "Nocturnal Animals" a contar com uma atmosfera de malaise muito típica dos filmes noir. Diga-se que estamos diante de um neo-noir com traços de thriller psicológico, com Tom Ford a colocar-nos diante de um enredo pontuado por personagens de carácter dúbio, traições e um certo pessimismo a envolver as relações humanas. A habitação de Susan reflecte esse pessimismo, mas também a frieza da relação que esta mantém com Hutton Morrow (Armie Hammer), o seu esposo, com o casal a suportar um matrimónio marcado pela falta de amor, bem como pela necessidade de manter as aparências. É uma mansão dotada de imenso espaço e decoração moderna, pontuada por tonalidades drenadas de vida que adensam a solidão sentida por Susan e a falta de afecto e desejo que grassa por esta casa, com o trabalho de Meg Everist na decoração dos cenários e de Christopher Brown na direcção de arte a contribuir para elevar "Nocturnal Animals". A própria iluminação, ou falta dela, contribui não só para incrementar essa atmosfera algo pessimista que envolve a casa de Susan, mas também para adensar a faceta intrigante desta obra cinematográfica e o hábito da personagem interpretada por Amy Adams de ficar acordada durante a noite, enquanto permanece presa aos seus pensamentos e à leitura do manuscrito.

01 junho 2017

Resenha Crítica: "Tramps" (2016)

 Com uma dupla de protagonistas capaz de despertar empatia, uma história dotada de enorme simplicidade e precisão, "Tramps", a segunda longa-metragem realizada por Adam Leon, é modesta nas suas ambições mas imensamente certeira a agarrar a nossa atenção e a proporcionar uma experiência cinematográfica leve e agradável. É certo que o seu desfecho e algumas das suas reviravoltas são previsíveis ou esperadas quase desde o início, embora "Tramps" não tenha a pretensão de "enganar" o espectador. Estamos diante de uma espécie de relação em que a confiança impera, com Adam Leon a entregar ao espectador uma obra cinematográfica dotada de sinceridade, situações rocambolescas, algum romance, humor e uma banda sonora que sublinha de forma eficaz os sentimentos que rodeiam os episódios protagonizados por Danny (Callum Turner) e Ellie (Grace Van Patten). Em troca, Adam Leon espera e consegue que sejamos compelidos a acreditar em Danny e Ellie e nas peripécias que estes dois jovens protagonizam, bem como nos sentimentos que nutrem um pelo outro. Estes são os "Tramps" do título, dois jovens adultos sem grande rumo, financeiramente pouco abonados, que se vestem de forma simples e agem muitas das vezes sem ponderação. Ellie e Danny travam conhecimento no decorrer de uma entrega misteriosa, com "Tramps" a abordar com acerto a típica relação improvável que se forma no interior de um contexto intrincado. Danny tem de substituir temporariamente Darren (Michal Vondel), o seu irmão, após a detenção deste último, algo que praticamente obriga o protagonista a ter de transportar uma pasta e entregá-la a um receptor que ainda não conhece. Se Danny é praticamente obrigado a participar nesta tarefa devido à argumentação utilizada pelo irmão (pretende receber mil e quinhentos dólares) e a mãe (Margaret Collin), já Ellie tem no dinheiro o principal factor para se envolver na entrega da pasta. Actualmente desempregada, rebelde e dona de uma personalidade muito própria, Ellie está encarregue de conduzir o veículo que transporta Danny até à plataforma da estação de metro. O plano parecia simples e fácil de executar, embora não previsse um erro humano, nomeadamente, o facto de Danny entregar a pasta à pessoa errada, algo que o obriga a ter de recuperar o objecto. Ellie acaba por praticamente ser obrigada a participar na recuperação da pasta, com Scott (Mike Birbiglia), o elemento que a contratou, a apenas pagar a verba combinada no caso do apetrecho chegar ao destinatário ou destinatária.