22 julho 2017

Resenha Crítica: "The History of Love" (A História do Amor)

 "The History of Love" (em Portugal: "A História do Amor") começa com um "era uma vez" a ser narrado em off, quase que a remeter para uma espécie de conto de fadas. Não é um conto de fadas que "The History of Love" nos apresenta, mas sim um melodrama açucarado e desastrado, pontuado por alguns momentos de humor e uma vontade imensa de nos comover. Por vezes parece que Radu Mihaileanu efectuou uma aposta para demonstrar quantas frases de efeito ou lamechas conseguiria colocar no interior de uma obra cinematográfica, ou pura e simplesmente não existiu arte e engenho da parte deste cineasta para criar algo que nos compelisse a acreditar verdadeiramente nos sentimentos e nas palavras dos personagens. "Léo, se a amas tens de deixá-la ir", "As histórias de amor nunca duram", "O amor só existe nos livros", estas são algumas frases de efeito com que somos presenteados ao longo desta obra cinematográfica, algo que a espaços contribui para atribuir uma artificialidade excessiva a "The History of Love" ao ponto de "sairmos" do enredo e começarmos apenas a ver actores e actrizes a representar. É certo que nem sempre isso acontece, para além de nem ser o pecado capital deste filme. O maior problema centra-se na incapacidade que Radu Mihaileanu demonstra para conjugar de forma harmoniosa a história de Léo Gursky no presente (2006) e no passado (antes e durante a II Guerra Mundial, bem como em 1995 e 1957) com o enredo relacionado com Alma Singer (Sophie Nélisse), uma adolescente que conta com quinze anos de idade. De um lado temos uma paixão que conta com a II Guerra Mundial e o Holocausto como pano de fundo, bem como a história de um idoso solitário a viver em Chinatown (2006), enquanto que no outro espectro temos um romance adolescente que parece saído de uma série do Disney Channel, ou seja, é uma mistura que não combina. Até poderia funcionar noutras mãos e a história destes personagens ainda se chega a "tocar", mas é tudo de forma demasiado artificial. Diga-se que um número considerável de personagens são unidos por um livro, ou por um passado em comum, ou por uma miríade de coincidências, enquanto "The History of Love" nos coloca diante de uma série de momentos que variam entre o romantismo, o drama, o humor e a lamechice. O livro que une uma parte considerável destes personagens chama-se "The History of Love", tendo sido escrito por Léo Gursky quando era mais jovem (interpretado por Mark Rendall durante a juventude), tendo em vista a relatar o seu romance com Alma Mereminski (Gemma Arterton), a mulher que jurou amar para toda a vida.

19 julho 2017

Resenha Crítica: "Dunkirk" (2017)

 Já entraram numa sala de cinema com uma vontade enorme de gostar de um filme? É algo que por vezes me acontece quando estou diante de filmes de cineastas que admiro, ou que contam com actores e actrizes por quem tenho uma especial simpatia. Christopher Nolan é um desses cineastas. Também não sei se já apanharam uma enorme desilusão em relação a algum desses filmes em que depositavam algumas esperanças. É algo que de vez em quando me acontece. "Dunkirk" é um desses casos em que gostava de me ter sentido arrebatado pelo filme, mas este apenas conseguiu despertar a minha indiferença. Parece contraditório dizer que um filme inspirado num episódio Histórico tão marcante como a Operação Dínamo, ocorrido de 26 de Maio a 4 de Junho de 1940, é capaz de despertar indiferença, mas é isso que acontece ao longo desta obra cinematográfica. A ideia inicial é interessante, pelo menos até o trabalho de montagem se tornar caótico a um ponto em que é praticamente impossível seguir todos os episódios com atenção ou preocupação, enquanto Christopher Nolan tenta incutir uma aura de thriller grandioso a "Dunkirk". O cineasta divide a acção pela terra, pelo mar e pelo ar, em diferentes escalas de tempo, enquanto nos apresenta a grupos distintos de personagens (e às suas perspectivas sobre os eventos que decorrem ao longo do filme). Em terra, temos elementos como Tommy (Fionn Whitehead), um soldado que encontramos no início do filme a tentar fugir dos bombardeamentos inimigos, até chegar a uma praia de Dunquerque que surge como um espaço desolador. Não faltam soldados à espera de serem resgatados, enquanto o mar tanto traz uma sensação de esperança e de liberdade como de clausura e desolação. Essa sensação quase claustrofóbica é adensada pelos ataques alemães e pela incerteza que perpassa pela alma destes soldados. É nas imediações deste espaço que Tommy conhece Gibson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Styles), com o trio a pretender regressar a Inglaterra com vida, algo apenas possível se conseguirem entrar a bordo de um barco. A coordenar as saídas dos soldados que se encontram nas praias, enquanto aguardam por regressar a Inglaterra, está o Comandante Bolton, um indivíduo aparentemente justo e cordial, com Kenneth Branagh a conceder alguma dimensão às poucas falas que o seu personagem tem ao longo do filme. Outro dos personagens que a espaços surge em destaque é Mr. Dawson (Mark Rylance), um indivíduo que representa um dos muitos civis que arriscaram as suas vidas ao utilizarem os seus barcos particulares para ajudarem a transportar os militares britânicos de regresso a casa.

18 julho 2017

Resenha Crítica: "À bras ouverts" (De Braços Abertos)

 "À bras ouverts" (em Portugal: "De Braços Abertos") tem despertado alguma polémica em França devido à forma ofensiva como retrata os ciganos. Esta polémica e a má recepção da crítica levou Christian Clavier a tentar defender o filme ao salientar que "À bras ouverts" não é um "amontoado de clichés". Até podemos ter imensa boa vontade para com Christian Clavier, mas o actor não poderia estar mais errado: "À bras ouverts" é um amontoado de clichés. Pior do que isso. Esses lugares-comuns remetem para os estereótipos associados à comunidade cigana, com os elementos desta etnia a serem representados de forma ofensiva e caricatural ao longo desta comédia. O problema não está no acto de fazer humor com temas polémicos ou minorias, mas sim na forma como estas piadas e estes estereótipos acabam por servir mais para achincalhar uma comunidade do que para efeitos cómicos, com Phillipe de Chauveron (do sucesso "Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?") a realizar uma obra cinematográfica pueril, básica, simplista e sofrível, que de comédia tem muito pouco e de cinema ainda menos. Nem chega àquele nível dourado de "é tão mau que é bom". É simplesmente medíocre, sem qualquer sentido de ritmo ou domínio dos timings da comédia, enquanto ficamos diante de uma série de caricaturas desprovidas de dimensão e massa humana. Essas caricaturas são interpretadas por actores e actrizes como Christian Clavier, Ary Abittan, Elsa Zylberstein, Cyril Lecomte, Marc Arnaud, com a maioria a dar uma pálida imagem e a compor personagens que queremos tirar rapidamente da memória. Christian Clavier interpreta Jean-Etienne Fougerole, um intelectual de esquerda, que vive numa mansão de luxo, tem uma fisionomia que a espaços nos faz recordar Fernando Rosas, é adepto do "faz o que eu digo, não faças o que eu faço" e defensor da etnia cigana. Jean-Etienne é colocado entre a espada e a parede quando é convidado para debater com Clément Barzach (Marc Arnaud), um intelectual conservador de direita, num programa televisivo que conta com uma audiência considerável. Autor do livro "À bras ouverts", onde defende que os mais privilegiados devem acolher nas suas casas os mais necessitados, bem como a inclusão da comunidade cigana no interior da sociedade francesa, Jean-Etienne é desafiado por Clément a passar das palavras aos actos. Jean-Etienne encoleriza-se, tenta dar respostas evasivas até ser praticamente obrigado a dizer que as portas da sua casa estão abertas, embora não acredite que alguém responda ao repto.

16 julho 2017

Resenha Crítica: "Cars 3" (Carros 3)

 É praticamente impossível visionarmos "Cars 3" e não pensarmos em diversos filme da saga "Rocky". Desde a crise de confiança do protagonista, passando pelo contraste entre o treino old school do personagem principal e a metodologia moderna e de ponta do rival, até à aceitação das limitações inerentes ao avançar da idade e à descoberta do prazer de treinar um novato, não faltam temas e situações que unem "Cars 3" aos filmes da icónica saga imortalizada por Sylvester Stallone. Temos ainda a abordagem de alguns problemas que afectam diversos desportistas que se deparam com o avançar da idade, nomeadamente, a perda de algumas qualidades e a inevitabilidade de terem de lidar com a entrada em cena de novatos com fome de títulos. No caso de Lightning McQueen (Owen Wilson), este percebe que a sua carreira está num impasse a partir do momento em que é colocado diante do ímpeto vencedor de Jackson Storm (Armie Hammer) e sofre um grave acidente de viação que coloca a sua vida em perigo (naquele que é um dos momentos mais pesados da saga). É algo a que McQueen não estava habituado, ou não estivéssemos diante de um piloto confiante nas suas capacidades, que colecciona um grande número de vitórias e parece praticamente imbatível, uma situação que muda quando começa a observar diversos colegas a retirarem-se das corridas e encontra um adversário temível. Storm é um carro preto, novato, que utiliza tecnologia moderna para treinar e apresenta uma confiança inabalável que parece começar a faltar a McQueen. O acidente e as derrotas levam a que o protagonista comece a duvidar de si próprio, embora pretenda regressar aos grandes palcos e vincar o seu valor no meio dos novatos. Nesse sentido, McQueen decide começar a treinar no novo centro de treino da Rust-eze, um espaço moderno, recheado dos melhores equipamentos. Este espaço foi construído com o dinheiro de Sterling (Nathan Fillion), um empresário de sucesso que comprou a Rust-eze, embora esteja longe de apresentar a mesma lealdade para com McQueen do que Rusty e Dusty, os antigos proprietários da marca que patrocina a equipa do protagonista. Se Rusty e Dusty mantinham uma relação de amizade com o protagonista, já Sterling encara McQueen como uma marca que deve ser preservada e utilizada para vender uma série de merchandising, ou seja, como a Pixar e a Disney encaram a franquia de "Cars", com as ideias do empresário a colidirem com as pretensões do piloto, sobretudo nas questões relacionadas com a carreira deste último.

15 julho 2017

Resenha Crítica: "Baywatch: Marés Vivas" (2017)

 "Baywatch" é um filme que padece de problemas de identidade. Tanto quer ser uma paródia da série televisiva homónima como homenageia e utiliza de forma descarada alguns dos seus ingredientes. Entre esses elementos encontram-se os diálogos existencialistas, uma defesa feroz do feminismo, um guarda-roupa composto por vestimentas pesadas, personagens dotados de complexidade....ups, desculpem, filme errado. Não faltam corridas em slow-motion, decotes generosos, mamas e rabos a serem realçados pela câmara de filmar (é certo que já vimos muito mais de Alexandra Daddario em "True Detective", ou de Kelly Rohrbach em diversos ensaios fotográficos), actrizes e actores em forma (os músculos salientes de Dwayne Johnson e Zac Efron são recursos de peso ao serviço do humor), salvamentos espalhafatosos, imensa canastrice (por vezes propositada), diálogos manhosos e um caso pueril para a equipa de salva-vidas resolver. Diga-se que quando assume a sua faceta de comédia, ou exibe a sua parvoíce sem qualquer ponta de pudor, ou recorre à metalinguagem, "Baywatch" consegue despertar alguns risos e tem alguns momentos em que proporciona umas boas doses de escapismo. Veja-se os momentos em que encontramos alguns dos nadadores-salvadores a correrem em slow-motion, com os atributos físicos dos intérpretes a sobressaírem em grande estilo, sejam os seios ou os traseiros das actrizes, ou os músculos de Dwayne Johnson e Zac Efron, enquanto alguns personagens ironizam com a situação. Em alguns momentos parece que os personagens de "Baywatch" sabem que estão no interior de um filme inspirado numa série que se encontra completamente datada, com o argumento de Damian Shannon e Mark Swift a inserir de forma relativamente eficaz uma série de referências que remetem para o programa televisivo, ou envolvem comentários sobre o mesmo. Note-se os já mencionados comentários sobre os movimentos em slow-motion, ou Matt Brody (Zac Efron) a salientar que a teoria dos companheiros parece saída de uma série televisiva manhosa. A situação sai de controlo quando "Baywatch" se decide levar um pouco mais a sério, nomeadamente, a partir do momento em que Seth Gordon, o realizador desta obra cinematográfica, decide colocar Mitch Buchannon (Dwayne Johnson) e a sua equipa a investigarem um caso relacionado com tráfico de droga, mortes misteriosas e um plano maquiavélico para privatizar a praia que vigiam. Mitch é um nadador-salvador que encara a sua profissão com enorme seriedade e rigor (com uma inocência e determinação que a espaços quase que nos leva a questionar se não ingere unicórnios às refeições), enquanto dispara frases de efeito, emana canastrice como o seu homónimo interpretado por David Hasselhoff e conta com um físico digno de Hércules.

14 julho 2017

Resenha Crítica: "Ma vie de Courgette" (A Minha Vida de Courgette)

 É possível despir as emoções durante a visualização de um filme? "Ma vie de Courgette", a primeira longa-metragem realizada por Claude Barras, atesta de forma paradigmática que essa é uma tarefa praticamente impossível de alcançar, ou não estivéssemos perante um filme de animação que consegue mexer de forma indelével com as nossas emoções e o nosso estado de alma. É um filme terno e encantador, dotado de enorme sensibilidade e humanidade, que nos toca profundamente, seja ao nosso "eu" adulto ou ao lado mais juvenil, enquanto desperta uma miríade de emoções e aborda temáticas relevantes. Em cerca de uma hora e pouco de duração, "Ma vie de Courgette" leva-nos do riso às lágrimas, da melancolia à euforia, do pessimismo à esperança, enquanto nos deixa diante da história do pequeno Icare (Gaspard Schlatter), mais conhecido como Courgette. Este é um rapaz de nove anos de idade, algo tímido e sensível, que conta com cabelo azul, nariz vermelho e anda quase sempre acompanhado por um papagaio de papel. Não sabemos ao certo se o pai de Courgette desapareceu e nunca mais entrou em contacto com o rapaz, ou se faleceu, enquanto que a mãe do protagonista é viciada em bebidas alcoólicas, sobretudo cerveja, algo que afecta a relação entre o jovem e a progenitora. Nos momentos iniciais de "Ma vie de Courgette", encontramos Courgette no interior do seu quarto, enquanto brinca sozinho com um papagaio de papel (com um desenho de um super-herói que representa o pai), ou efectua um castelo com latas de cerveja vazias. Por sua vez, a mãe de Courgette encontra-se na sala, enquanto consome bebidas alcoólicas de forma compulsiva e pragueja com a televisão, até decidir entrar no quarto do filho e começar a discutir com o petiz, com as nuvens negras a cobrirem o céu e a exacerbarem a atmosfera desoladora que envolve os momentos iniciais do filme. Pouco depois, deixamos de ouvir esta mulher, até recebermos a notícia que faleceu, algo que conduz Raymond (Michel Vuillermoz), um polícia com um bigode saliente e uma personalidade afável, a transportar o protagonista em direcção ao orfanato local. Courgette leva consigo o papagaio de papel, bem como uma lata de cerveja (a única recordação material que guarda da mãe), enquanto se depara com uma realidade que não deseja, nem lhe agrada, embora os responsáveis do orfanato demonstrem uma enorme simpatia e prestabilidade. Veja-se o caso de Paul (Adrien Barazzone) e Rosy (Véronique Montel), um professor e uma auxiliar (e par romântico) que mantêm uma grande proximidade com os petizes, ou de Madame Papineau (Monica Budde), a directora, uma senhora relativamente simpática e cordial.

11 julho 2017

Resenha Crítica: "La fille inconnue" (2016)

 Disse para mim mesmo que tão depressa não voltaria a escrever sobre filmes que não gostei, ou que me desiludiram. O que eu quero fazer é uma coisa, outra diametralmente oposta é aquilo que consigo efectuar. É nessa tradição de me contradizer que decidi escrever uma resenha crítica sobre "La fille inconnue". Curiosamente, também em "La fille inconnue" existe essa dicotomia entre o que os irmãos Dardenne pretendem para o filme e o resultado final desta obra cinematográfica. Nenhum cineasta está livre de um tropeço, inclusive os irmãos Dardenne, algo que podemos comprovar em "La fille inconnue", um obra cinematográfica que se envolve pelas franjas do drama social e do filme de investigação, sempre de forma algo inconsequente, enquanto deixa um travo amargo na nossa mente. Esperávamos mais de um filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, mas aquilo que estes nos dão é uma obra cinematográfica que sabe aquilo que quer dizer, embora se desoriente imenso pelo caminho, com as subtramas e as reviravoltas a nem sempre provocarem o efeito pretendido. Essa situação é particularmente visível nos momentos finais de "La fille inconnue", quando as revelações nem sempre convencem, sobretudo quando somos colocados perante a chegada da irmã de uma figura que conta com um relevo indelével no interior do enredo, com o aparecimento desta personagem a surgir como um recurso demasiado artificial. Não é que estes momentos sejam desprovidos de sentido, mas são inseridos de forma pouco subtil e algo extemporânea no interior do enredo, embora se perceba a intenção dos irmãos Dardenne e se elogie as suas preocupações sociais (e a atenção dada à "população das margens"). O problema é que por muito bem intencionados que sejam nas suas preocupações, os cineastas nem sempre, ou muito raramente, conseguem criar uma harmonia entre a exposição do quotidiano de Jenny Davin (Adèle Haenel), uma médica, na clínica em que esta trabalha, ou a acompanhar os pacientes ao domicílio, com a investigação levada a cabo pela protagonista. Jenny nem sempre efectua os actos mais pragmáticos, ou toma as decisões mais compreensíveis, com Adèle Haenel a incutir sobriedade a esta médica e a surgir como um dos elementos em destaque no filme. Quando conhecemos Jenny, a médica encontra-se prestes a integrar os quadros de uma clínica mais luxuosa do que aquela em que trabalha, enquanto evidencia uma postura metódica a tratar dos doentes e tenta ensinar Julien (Olivier Bonnaud), o seu estagiário, um jovem adulto que nem sempre consegue deixar as emoções de lado no cumprimento do seu ofício.

08 julho 2017

Resenha Crítica: "Paterson" (2016)

 Paterson (Adam Driver) é um indivíduo ponderado, sensato, calmo e observador, que encontra poesia nos locais mais simples e improváveis. Este trabalha como motorista de autocarros, escreve poemas nos tempos livres, passeia o cão todas as noites e ama profundamente Laura (Golshifteh Farahani), a sua esposa. Laura é uma mulher sonhadora, criativa e terna, que aprecia a poesia do esposo e compreende-o na perfeição, com o casal a contar com uma união bastante forte, algo exposto de forma credível e encantadora ao longo desta longa-metragem realizada por Jim Jarmusch. Essa união é visível nos pequenos actos de Paterson e Laura, com Adam Driver e Golshifteh Farahani a inserirem credibilidade e candura às dinâmicas dos personagens que interpretam, enquanto acompanhamos o casal ao longo de um período de cerca de sete dias. Note-se a forma terna como Paterson encoraja as ideias da esposa, ou a maneira sincera como esta pesquisa informação relacionada com poetas como Dante e Petrarca para incentivar o marido a escrever, com uma simples troca de olhares a dizer muito sobre a cumplicidade que pontua a relação destes personagens. Essa intimidade é adensada pela atenção que Jim Jarmusch concede aos pequenos pormenores que envolvem o dia-a-dia de Paterson e Laura e transmitem imenso sobre a personalidade destes personagens. Veja-se quando encontramos caixinhas adornadas a preceito no interior da lancheira de Paterson, ou uma tangerina com a casca pintada, com as refeições deste indivíduo a serem preparadas e primorosamente decoradas por Laura. Temos ainda os momentos em que Laura decide inventar receitas, ou aprender a tocar guitarra, com Paterson a aderir às ideias da esposa e a incentivá-la. Adam Driver imprime uma ponderação notória a Paterson, com o actor a transformar-se neste poeta de gestos simples, palavras certeiras e postura observadora. Um simples pacotinho de fósforos permite que Paterson deixe a imaginação fluir, enquanto traduz as suas ideias e sentimentos em poemas que deixam transparecer a sua personalidade fascinante. Golshifteh Farahani imprime uma faceta cândida e sonhadora a Laura, com esta mulher a contar com sonhos bem vivos, uma doçura que nos encanta e uma criatividade deveras peculiar. Veja-se os cortinados às bolinhas efectuados por esta mulher, ou os quadros manhosos com as pinturas que efectua de Marvin, um bulldog inglês bastante expressivo e carismático, que gosta de dormir no sofá, comandar os passeios e, tal como a maioria dos cães, aprecia um bom pedaço de papel, inclusive se este material estiver num caderno. 

07 julho 2017

Resenha Crítica: "Le meraviglie" (O País das Maravilhas)

 Não é obra do acaso, nem mera coincidência, que os planos finais de "Le meraviglie" destaquem a propriedade da família de protagonistas. É o sublinhar da importância deste cenário para os personagens principais, seja como uma espécie de "castelo" que é administrado de forma muito própria, ou como um espaço que em alguns momentos transmite a falsa sensação de que não é influenciado pelo contexto que o rodeia, ou como um limbo no qual os sonhos são aprisionados. Estes planos permitem ainda exprimir a relevância deste cenário para as características simultaneamente ancoradas na realidade e fabulescas da segunda longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, com a cineasta a desenvolver com acerto as dinâmicas da família que habita nesta casa e a abordar a vida no campo sem romancear o quotidiano nos espaços rurais. Parece algo contraditório salientar que "Le meraviglie" tanto conta com uma faceta de fábula e dotada de algum lirismo como transmite o quotidiano da vida no campo de forma objectiva e ancorada na realidade, mas é precisamente isso que acontece ao longo do filme, com Alice Rohrwacher a conciliar habilmente estas dicotomias. Diga-se que estas contradições andam de braço dado com as idiossincrasias do território onde fica localizado o "castelo" em que se desenrola boa parte do enredo, com o "rei" a procurar que as ameaças externas não influenciem a sua propriedade, embora essa tarefa seja praticamente impossível de concretizar. Localizada num território rural nas imediações da Umbria, esta propriedade tem em Wolfgang (Sam Louwyck), um imigrante de origem alemã ou belga, o seu "rei". Este é um indivíduo de barba saliente, pouco dado a aceitar grandes alterações nas suas rotinas, que educa as filhas de forma peculiar e tenta ser fiel aos seus ideais, mesmo que estes contem com umas boas doses de ingenuidade. Wolfgang é casado com Angelica (Alba Rohrwacher), de quem tem quatro filhas, as jovens Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), Marinella (Agnese Graziani), Luna (Maris Stella Morrow) e Caterina (Eva Lea Pace Morrow). Temos o "rei", as "princesas", a "rainha" conciliadora, a "fada" (já lá vamos) e um "castelo" dotado de uma dimensão considerável, onde existem divisórias para a família habitar e tratar da produção de mel e terrenos para as ovelhas circularem. É uma habitação dotada de características rústicas, com as marcas das histórias das quais foi protagonista e cenário a serem evidentes, sejam estas os espaços restaurados ou as paredes recheadas de tijolos despidos, algo que ajuda a exacerbar a sensação de que a família de Gelsomina habita no interior de um "castelo" que se encontra entre o presente e o passado. As dinâmicas da família que vive no interior desta habitação são muito específicas, com as jovens, todas menores de idade, a ajudarem os pais nas tarefas diárias, tais como a produção de mel, enquanto os progenitores, sobretudo Wolfgang, procuram afastar as raparigas do mundo exterior. Esta é uma tarefa complicada, sobretudo quando a curiosidade começa a apoderar-se de Gelsomina e a contaminar os sentidos desta jovem de doze anos de idade.

03 julho 2017

Resenha Crítica: "Hymyilevä mies" (O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki)

 Existem filmes que nos conquistam quando menos esperamos. "Hymyilevä mies" (em Portugal: "O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki") é um desses casos, com a segunda longa-metragem realizada por Juho Kuosmanen a contribuir para revigorar o nosso prazer em efectuar descobertas entre as várias estreias semanais e a paixão que temos pelo cinema. É uma obra cinematográfica que nos conquista pela forma genuína como retrata as relações humanas e o amor que une Olli Mäki (Jarkko Lahti) e Raija (Oona Airola), bem como pela sua cinematografia cuidada e pela subtileza na abordagem das temáticas, com Juho Kuosmanen a realizar um filme que tem o mundo do boxe como pano de fundo, embora no seu cerne esteja a história de uma boa pessoa que se apaixona por outra boa pessoa. Olli Mäki (Jarkko Lahti) é um pugilista que podemos definir como uma boa pessoa. Este apaixona-se por Raija (Oona Airola) que, curiosamente, também é uma boa pessoa, com a relação que se forma entre ambos a contar com contornos ternos e sinceros. A sinceridade e simplicidade são outras características que marcam a personalidade de Olli e Raija, com Jarkko Lahti e Oona Airola a contribuírem para transmitir a sensação de que estamos diante de duas figuras genuínas. A dinâmica entre Jarkko Lahti e Oona Airola é essencial para acreditarmos na forma como o amor que Olli Mäki nutre por Raija é capaz de mexer por completo com o protagonista, com o casal a complementar-se praticamente na perfeição e a despertar um sentimento de empatia. Jarkko Lahti consegue por imensas vezes pregar-nos uma partida ao fazer com que nos esqueçamos temporariamente que estamos diante de um intérprete a compor um personagem, com o actor a transmitir as dúvidas que assolam a mente de Olli Mäki, a evidenciar a simplicidade do antigo padeiro e a compelir-nos a acreditar neste pugilista. Diga-se que é fácil revermo-nos neste personagem, nas suas dúvidas e anseios. Quantos de nós não tivemos medo ou dúvidas em algum momento das nossas vidas? Quem nunca sentiu o fervor incontrolável do amor a circular pelas veias e a toldar por completo a nossa mente? A partir do momento em que encontramos Olli a observar Raija durante uma conferência de imprensa, percebemos que o foco deste personagem não está totalmente no evento em que vai participar e está a promover, mas sim na mulher que ama. O evento é um combate que opõe Olli Mäki a Davey Moore (John Bosco Jr.), um boxeador oriundo dos EUA, campeão em título na categoria de Peso Pena, que se desloca até à Finlândia para enfrentar o protagonista, com este acontecimento a adquirir contornos mediáticos que surpreendem o protagonista.

30 junho 2017

Resenha Crítica: "Corpo Celeste" (2011)

 Num determinado momento de "Corpo Celeste", Marta (Yle Vianello), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, tenta perceber o que significa a expressão: "Eli, Eli lema sabachthani". Mais tarde, a jovem pré-adolescente descobre que "Eli, Eli lema sabachthani" significa "Meu Deus, por que me abandonaste?", mas, no momento em que a protagonista efectua esta questão, Santa (Pasqualina Scuncia), a sua catequista, evita responder à pergunta. Mais do que procurar responder às questões da jovem, Santa tenta que os catequistas em formação decorem as orações e cumpram as regras, algo que contribui para alguns atritos entre esta e a protagonista. Marta é uma pré-adolescente questionadora e observadora, que conta com uns olhos azuis bastante expressivos e está a lidar com as mudanças do seu corpo, a descobrir a cidade onde nasceu e a contactar com uma nova cultura. É uma cultura de contradições, onde a modernidade e a tradição se reúnem, seja nos valores dos seus habitantes ou nos edifícios, com Alice Rohrwacher a conseguir evidenciar as dicotomias deste território e a forma como este influencia e é influenciado pelos seus cidadãos (algo que a cineasta repete em "Le meraviglie", a sua segunda longa-metragem). Veja-se o caso da igreja onde Marta tem as aulas de catequese, um espaço onde tanto são efectuadas práticas tradicionais como iniciativas modernas que visam conquistar os mais novos, com o próprio edifício religioso a conter no seu interior as marcas deste ziguezague entre a modernidade e a tradição. Note-se o crucifixo com néones azuis, bastante moderno embora seja visto com um certo despeito quer pelo padre da paróquia, quer por alguns paroquianos, com a ideia do primeiro em trazer um objecto mais tradicional a encher alguns crentes de alegria. Estamos em plena cidade de Reggio Calabria, exposta com uma mescla de encanto e desencanto por Alice Rohrwacher, quase sempre a partir do olhar de Marta. É Marta quem a câmara de filmar acompanha de forma atenta, com os planos a concentrarem-se imenso nesta jovem, bem como naquilo que esta observa, seja uma procissão, o interior da igreja ou os locais praticamente abandonados em que a população despeja o lixo, nomeadamente os espaços que pertencem a rios que se encontram quase secos. Este território também conta com uma certa secura, com as suas características a adensarem o sentimento de alienação e solidão de Marta, enquanto esta procura lidar com as mudanças e sensações típicas da idade, tais como as transformações corporais, para além de ter de suportar as constantes ausências da mãe (Rita, interpretada por Anita Caprioli) e o mau feitio da irmã (Rosa, interpretada por Maria Luisa De Crescenzo)

27 junho 2017

Resenha Crítica: "Bakemono no ko" (O Rapaz e o Monstro)

 A importância da amizade é uma temática transversal a diversos trabalhos de Mamoru Hosoda, tais como "One piece: Omatsuri danshaku to himitsu no shima", "Toki o kakeru shôjo" e "Samâ uôzu", com "Bakemono no ko" (em Portugal, "O Rapaz e o Monstro") a não ser diferente. Estamos diante de mais uma demonstração da capacidade de Mamoru Hosoda para abordar e desenvolver as relações de amizade com enorme precisão, bem como os efeitos que estas provocam nos personagens principais, sempre com algum humor, aventura, romance e situações dramáticas à mistura, enquanto consegue que nos afeiçoemos aos protagonistas deste filme de animação. Os protagonistas que despertam a nossa atenção e simpatia são Ren e Kumatetsu, dois underdogs que pertencem a mundos distintos. Ren é um jovem de nove anos de idade, solitário, rebelde e respondão, que perdeu recentemente a mãe e não sabe o paradeiro do pai, com as dúvidas e o sentimento de perda a conduzirem-no a fugir dos seus guardiões legais. Quando se encontrava a vaguear pelas ruas de Shibuya, praticamente sem rumo, Ren depara-se com Kumatetsu, uma criatura antropomórfica que conta com uma envergadura física considerável e uma fisionomia semelhante a um urso. Kumatetsu é uma criatura algo irresponsável, egoísta, solitária e violenta, que vive em Jutengai, uma cidade do mundo dos monstros, onde é um dos dois candidatos à posição de Grande Mestre. O outro candidato é Iōzen, um monstro que conta com uma destreza notória para o combate e evidencia ser mais responsável e ponderado do que Kumatetsu. Se Iōzen é um pai de família respeitado, que tem dois filhos, os jovens Ichirōhiko e Jirōmaru, bem como um conjunto de discípulos, já Kumatetsu tarda em encontrar quem o queira seguir, com excepção de Tatara, um monstro sarcástico, e Hyakushūbō, um monge de personalidade relativamente ponderada. Como já foi mencionado, o primeiro encontro entre Kumatetsu e Ren decorre em Shibuya, quando o monstro se encontra a vaguear pelo mundo dos humanos. Esta estranha coincidência compele Kumatetsu a convidar o jovem a juntar-se ao território dos monstros e a tornar-se o seu discípulo, embora Ren não pareça inicialmente entusiasmado com a ideia. Sem grandes motivos para permanecer em Shibuya, Ren acaba por aproveitar uma brecha entre os dois mundos para se escapulir em direcção ao território dos monstros, indo acompanhado por uma espécie de rato que surge como um dos seus companheiros inseparáveis ao longo do filme. É o início de "uma bela amizade" entre Kumatetsu e Ren, pontuada por discussões, imensa teimosia e uma relação de mestre e discípulo que se assemelha quase às dinâmicas entre pai e filho, com a dupla de protagonistas a formar uma ligação muito forte.

24 junho 2017

Resenha Crítica: "Bacalaureat" (O Exame)

Filme dotado de sobriedade, complexidade e pertinência, "Bacalaureat" não concede respostas fáceis, faz questão de questionar o espectador, aborda temáticas merecedoras de reflexão e exibe a capacidade de Cristian Mungiu em transportar-nos para o interior da sua visão da Roménia. Ficamos diante de um retrato despido de grandes optimismos, algo desencantado e cru, com Cristian Mungiu a expor alguns problemas da Roménia contemporânea ao mesmo tempo que tece toda uma teia que envolve os personagens deste drama no qual os valores morais e os sonhos acabam muitas das vezes por serem derrotados e as trocas de favores parecem enraizadas no seio de uma nação. O tráfico de influências, escondido na capa de "troca de favores", é uma das temáticas centrais do filme, com Cristian Mungiu a não deixar de lado um comentário sobre a sociedade romena contemporânea. Um favor obriga a outro, enquanto diversos personagens são envolvidos no interior de uma teia capaz de prender aqueles que se deixam dominar pelas malhas do destino, com os pequenos compromissos a ganharem gradualmente proporções e repercussões inesperadas. Romeo (Adrian Titieni), o protagonista de "Bacalaureat", envolve-se numa intrincada troca de favores, tendo em vista a concretizar o desejo de que a filha obtenha a média necessária para estudar numa universidade em Inglaterra. Este pensa que se encontra a ajudar a familiar, algo que remete para outra das temáticas centrais do filme, nomeadamente, o papel dos pais, ou, se preferirem, o questionar daquilo que é ser pai. Qual a melhor forma de educar um filho? Quais os limites que um pai pode estar disposto a ultrapassar para ajudar um filho? O que leva alguém a corromper os seus valores morais? Romeo sempre protegeu Eliza (Maria-Victoria Dragus), a sua filha, uma situação que o conduziu a perspectivar que o melhor para o futuro do seu rebento seria que a jovem estudasse em Inglaterra. A razão para este desejo é complexa: embora outrora tenha regressado à Roménia, na companhia de Magda (Lia Bugnar), a sua esposa, Romeo apresenta um sentimento de descrença notório em relação ao futuro do seu país. É esse desencanto de Romeo e o seu sentido protector, que conduzem o protagonista a pretender que Eliza abandone a Roménia. Se Romeo parece acreditar piamente que a filha deve emigrar, já Eliza não apresenta as mesmas certezas do pai, bem pelo contrário. Esta é uma jovem aparentemente frágil e inteligente, que aos poucos se depara com a necessidade de se soltar da protecção excessiva do progenitor. Veja-se a decisão de Eliza em marcar a viagem de partida para uma data próxima ao início das aulas em Inglaterra, algo que contraria a ideia inicial do progenitor, ou as dúvidas que demonstra em relação a abandonar os amigos, ou as discussões com o pai devido ao facto deste não simpatizar com Marius (Rares Andrici), o namorado da jovem, ou o choque ao descobrir que Romeo mantém um caso extraconjugal.

19 junho 2017

Resenha Crítica: "A Single Man" (Um Homem Singular)

 "Se vai ser um mundo sem tempo para sentimentos, não é um mundo em que eu queira viver". É desta forma que George Falconer (Colin Firth), um professor universitário, responde a Grant Lefanu (Lee Pace), um colega de trabalho, após este último salientar que "Não haverá sentimentalismos quando os russos dispararem um míssil". São dois modos distintos de viver num Mundo em que a Guerra Fria é uma realidade e um conflito bélico entre os EUA e a União Soviética é uma forte possibilidade, com George a evidenciar uma postura menos temerosa e aparentemente mais descontraída, algo que destoa do colega, um indivíduo que reflecte alguma da paranóia da época. George é o protagonista de "A Single Man", um drama sensível e delicado, pontuado por momentos extremamente tocantes, embora conte com algumas doses de humor, com tudo a ser exposto e desenvolvido com enorme classe e uma estética aprumada. É uma estreia de grande nível de Tom Ford como realizador de longas-metragens, com o estilista a transportar o seu sentido estético para a Sétima Arte e a realizar uma obra cinematográfica em que o estilo serve a substância e vice-versa. Diga-se que "A Single Man" surge como um espelho de George, ou seja, complexo, profundamente humano, extremamente delicado, espirituoso e atento aos pormenores. Tudo parece ter sido pensado ao pormenor, seja o aproveitamento da paleta cromática e da iluminação, ou a atenção aos gestos, olhares e corpos dos personagens, ou aos elementos que marcam a decoração dos cenários. A atenção aos detalhes é ainda visível na forma muito própria como Tom Ford transmite a atmosfera da época em que se desenrola o enredo de "A Single Man". Estamos a 30 de Novembro de 1962, ou seja, em plena Guerra Fria, com a Crise dos Misseis de Cuba a encontrar-se bem presente na mente de alguns elementos, para além de existir uma certa paranóia em relação a um possível conflito nuclear entre EUA e URSS, como podemos observar na figura de Grant. O guarda-roupa, os carros, a decoração dos cenários interiores e os espaços exteriores evidenciam que existiu todo um cuidado para respeitar a época em que decorre o enredo, com estes elementos a tanto servirem para transmitir a atmosfera deste período como para incrementar a história de George, um indivíduo que se encontra preso ao passado e revela alguma incapacidade para combater as dores provocadas pela morte de Jim (Matthew Goode), aquele que foi o seu companheiro ao longo de dezasseis anos. Como ultrapassar a dor provocada por uma perda? George tarda em obter uma resposta para esta questão, com o protagonista a estar demasiado preso às memórias de outrora, enquanto demora em encontrar um motivo para viver sem a companhia do amado, com Colin Firth a compor um personagem que se encontra visivelmente deprimido e marcado pelo sentimento de perda.

15 junho 2017

Resenha Crítica: "O Grande Fúsi" (2015)

 Simples, sensível, estranho e delicado, "O Grande Fúsi" é um drama com traços de romance agridoce, que tem o mérito de saber conquistar a nossa atenção, enquanto nos coloca perante um protagonista pleno de humanidade, que apresenta uma postura letárgica até conhecer duas figuras femininas que mexem com o seu quotidiano e o modo como encara a vida. Esse protagonista é Fúsi (Gunnar Jónsson), um indivíduo prestes a completar quarenta e dois anos de idade, que ainda vive com a mãe e apresenta dificuldades notórias para comunicar com aqueles que o rodeiam. Fúsi trabalha no aeroporto a carregar e a descarregar material dos aviões, sendo alvo de bullying por parte dos colegas de emprego, com a maioria a aproveitar-se da personalidade introvertida e aparentemente passiva deste gigante com coração de manteiga. Com uma estampa física imponente, peso acima da média, uma barba saliente e cabelo comprido, Gunnar Jónsson consegue transmitir a personalidade introvertida, peculiar, passiva e terna do protagonista de "O Grande Fúsi", com o actor a conseguir que acreditemos nas dificuldades que Fúsi encontra para comunicar com aqueles que o rodeiam, ou a efectuar decisões que permitam romper com as suas rotinas repetitivas. Veja-se a normalidade com que este encara a permanência na casa da mãe, ou as dificuldades que apresenta para ocupar o tempo livre ou iniciar um romance. O quotidiano de Fúsi resume-se praticamente a comer cereais de chocolate, a coleccionar figuras para os seus jogos de tabuleiro (que permitam simular batalhas da II Guerra Mundial), a brincar com carros telecomandados e a ouvir música Heavy Metal, tendo em Mörður (Sigurjón Kjartansson) um dos seus poucos amigos. Fúsi ainda é virgem, apresenta uma inocência invulgar para a idade, com quase tudo e todos a questionarem as suas rotinas diárias, com excepção do próprio. Será possível que alguém com quarenta e dois anos de idade consiga viver desta maneira? "O Grande Fúsi" compele-nos a acreditar no protagonista e nos seus comportamentos, bem como no desconforto que este apresenta quando é colocado diante de situações distintas em relação àquelas que programa para o seu quotidiano. Diga-se que Fúsi é um homem muito preso ao seu mundo, pouco dado a grandes demonstrações de entusiasmo e a saídas extravagantes. Veja-se a forma como preenche as suas noites, nomeadamente, a efectuar pedidos de música para a rádio local, enquanto se encontra no carro a observar o mundo que o rodeia, ou as suas saídas para jantar sozinho num restaurante tailandês onde pede sempre o mesmo prato. Num determinado momento de "O Grande Fúsi", encontramos o protagonista a entrar no restaurante tailandês que frequenta regularmente. O dono do estabelecimento faz questão de retirar desde logo os talheres do lugar da frente, com este pequeno acto a reflectir o quotidiano solitário do personagem principal. O dia-a-dia de Fúsi muda quando conhece Hera (Franziska Una Dagsdóttir) e Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir), sobretudo esta última, com o protagonista a começar, ainda que gradualmente, a questionar o seu quotidiano a partir do momento em que convive com estas duas figuras femininas.

13 junho 2017

Resenha Crítica: "Forushande" (O Vendedor)

 Um episódio traumático mexe com os sentimentos de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) e contribui para a abertura de uma série de fissuras nos alicerces do matrimónio deste casal. Estes são os protagonistas de "Forushande", um poderoso drama realizado por Asghar Farhadi, com o cineasta a transportar-nos para o interior de uma série de temáticas e elementos transversais a alguns dos seus trabalhos. Note-se a sensibilidade na abordagem das dinâmicas complexas que envolvem os relacionamentos amorosos, a presença de protagonistas que são colocados diante de dilemas morais, os desfechos com situações em aberto (a fazer recordar "Jodaeiye Nader az Simin" e "Le passé"), a forma orgânica como as particularidades do Irão são integradas no interior de temáticas amplamente universais (a remeter para o já mencionado "Jodaeiye Nader az Simin", tal como para "Darbareye Elly"), o aproveitamento exímio das características do território e dos cenários ao serviço do enredo e da exacerbação do estado de espírito dos personagens (todos as obras mencionadas), entre outros exemplos. Essa apetência para utilizar os cenários ao serviço do enredo e para sublinhar alguns traços da personalidade dos personagens é visível desde a fase inicial de "Forushande", quando encontramos Emad e Rana a terem de abandonar rapidamente o apartamento onde vivem devido a umas obras nas imediações que ameaçam fazer ruir o prédio. É um momento de grande agitação, com as fissuras a começarem a tomar conta das paredes, enquanto os vidros estalam e os habitantes do prédio tentam sair apressadamente das suas casas, com os planos de longa duração a contribuírem para atribuir um certo imediatismo a toda esta situação frenética. Os alicerces do apartamento de Rana e Emad são testados de forma violenta, enquanto a câmara de filmar encontra-se quase sempre em movimento, pronta a captar os acontecimentos e a transmitir os sentimentos fervilhantes dos elementos que abandonam rapidamente as suas casas. Este episódio inquietante surge como uma espécie de metáfora para os acontecimentos que envolvem a dupla de protagonistas ao longo de "Forushande", com Asghar Farhadi a testar os alicerces que unem Rana e Emad, um casal de classe média, de características simples, fortes valores morais e uma postura discreta e relativamente conservadora. Estamos diante de uma dupla de protagonistas dotada de complexidade e densidade, que conta com uma relação aparentemente sólida e marcada pela intimidade e compreensão, pelo menos até ocorrer um episódio traumático que mexe com a mente de Rana e Emad.

10 junho 2017

Entrevista a Stefano Savio sobre o Filmin

 Lançado em Portugal a 16 de Novembro de 2016, o Filmin continua a crescer de forma sustentada e a surpreender a cada dia que passa com uma programação marcada pela qualidade e diversidade. O bom gosto impera, tal como a capacidade para oferecer uma oferta variada aos subscritores, com as colecções a reflectirem a sensibilidade e criatividade da equipa que gere a plataforma. Não faltam clássicos de Luchino Visconti, Ettore Scola e Béla Tarr na programação, bem como algumas obras cinematográficas mais recentes que merecem toda a nossa atenção, com o catálogo a surgir como o reflexo do cuidado quer da equipa do Filmin, quer dos distribuidores que colaboram com esta plataforma. Pelo caminho, surgiu o Canal PT, uma ferramenta fundamental para quem quer visionar cinema português. Ou seja, não faltam motivos para termos interesse em entrevistar Stefano Savio, um dos gerentes e programadores do Filmin e director artístico da Festa do Cinema Italiano. O resultado da entrevista é deveras interessante graças à disponibilidade, conhecimento e sinceridade do entrevistado, com Stefano Savio a abordar assuntos relacionados com a programação do Filmin, a necessidade de envolver o espectador com a plataforma, a importância dos festivais, as colaborações com os distribuidores, a concorrência da pirataria, entre outros exemplos.


Rick's Cinema: Em cerca de sete meses o Filmin conta com uma programação recheada de filmes de qualidade e evidencia um crescimento sustentado. Podemos falar que têm entre mãos um bebé cheio de saúde que tem um potencial tremendo para ser bem sucedido? Qual o balanço que faz destes cerca de sete meses em funcionamento? 

Stefano Savio: É um bebé que ainda precisa de bastante sustentação. É um projecto com enormes potencialidades, mas precisa ainda de muita coisa para concretizar estas potencialidades. Nós achamos que falta um hábito ao espectador, ao consumidor, ao apaixonado pelo cinema de encarar o Filmin como uma oportunidade. Falta ainda algum coisa técnica. No sentido de que o Filmin possa estar presente em plataformas ou canais que permitam uma maior abrangência. O nosso catálogo ainda tem de crescer. São trabalhos que andam em paralelo para que Filmin possa crescer e tornar-se uma realidade com mais impacto.
 Nós também crescemos com o Filmin, é algo que fazemos em conjunto. Achamos que o Filmin pode ganhar força, sobretudo quando é uma colaboração entre várias entidades. Não é só a nossa linha editorial. É uma colaboração forte entre todos os operadores, entre quem gosta de cinema. Neste momento, o trabalho mais importante é partilhar esta ferramenta com todos aqueles que fazem, vêem, gostam e divulgam cinema. É o percurso a fazer para colocar o Filmin no mapa. Com aquilo que oferece neste momento, o serviço já é bom, mas temos de crescer, de nos dar a conhecer e de nos tornarmos numa alternativa viável. Para isso temos de trabalhar no catálogo e a nível da comunicação. Temos um bom número de subscritores, embora considere que se pode conseguir ainda mais. Temos algumas distribuidoras que ainda não conseguimos alcançar, mas o catálogo, que tem cerca de seiscentos e cinquenta títulos, vai aumentar ainda mais. Esperamos que nos próximos meses o nosso catálogo tenha mais de mil títulos, começa a ser uma oferta importante.
  O Filmin precisa de muita colaboração, de que as pessoas entrem na lógica de que este é um serviço real. Muitas pessoas falam do Filmin, mas ainda estão a estudar se vale ou não a pena subscrever. Existe uma certa inércia inicial. Também temos de fazer mais publicidade, mais lançamentos. Nós procuramos investir. Já apostámos no cinema português, algo que está a correr bem. Vamos apostar em algumas coisas em exclusivo, acho que também pode funcionar bem. As colaborações com os festivais vão crescer cada vez mais. A nossa linha editorial está cada vez mais apurada. Procuramos entrar pela Smart TV e para outras estruturas que permitem fornecer um produto melhor. Vamos efectivamente para a frente. Não pode correr mal. O Filmin é um projecto ainda pequenino, mas é um dos poucos do mercado que tem potencial de crescimento. Não sei dizer quando, se daqui a um, ou dois ou três anos, mas as coisas vão virar para aquele lado. É aguentar, ter força, tentar convencer as pessoas, mas o percurso irá para aquele lado como um tipo de serviço, como uma nova janela para o cinema de autor encontrar público.

RC: Quais são os principais desafios para trazer novos aderentes e manter os subscritores fidelizados? A pirataria é um concorrente bastante feroz?

SS: A pirataria pode ser um concorrente. É um concorrente forte, mas é específico. Não é uma questão de conteúdo. As pessoas que querem o conteúdo e o serviço que está no Filmin podem encontrá-lo facilmente na pirataria, mas não é tão lógico, nem tão imediato. É uma questão de tempo. No sentido de "Como é que invisto o meu tempo livre ou o meu tempo cinematográfico?". Por exemplo, quero dedicar quatro horas da minha semana ao cinema. Quando tens uma alternativa muito rápida e barata, que seja mais consensual, é muito fácil ocupares o teu tempo com aquela coisa. Não é uma questão económica, a subscrição é o preço de duas cervejas, mas de identidade ou dedicação. O Filmin poderia funcionar como funciona o ginásio. Eu tenho a subscrição e aproveito para descobrir tudo aquilo que está lá dentro. Com um conteúdo amplo, com cerca de quinhentos títulos, posso a cada semana ver três ou quatro filmes interessantes que estão ali dentro. Agora, quando vais ao ginásio, a não ser que não tenhas vontade de fazer esforço, é por teres alguma necessidade: queres ir à praia, ou cuidar da saúde. Tens uma componente forte que te compele a ir ao ginásio. O Filmin é uma alternativa, mas as pessoas ainda não se casaram de forma tão forte como com essa necessidade que encontram no ginásio.
 Aquilo que para nós é importante e é um desafio, é fazer perceber que o Filmin é uma alternativa muito boa. Quando a pessoa se "casa" e se dedica ao Filmin, essa relação quase que se autoalimenta. Reparei que desde o princípio houve cerca de duas centenas de subscritores que já tinham esta ideia. Estavam à espera do Filmin, assim que ele chegou nem esperaram um segundo para fazer subscrição. Agora temos de procurar público que encare o Filmin como um espaço ao qual se quer dedicar dentro do próprio tempo livre. Nós temos de criar um bocado de envolvimento dentro do projecto, um envolvimento pessoal, que eu acho que é aquilo que dá o gosto. O primeiro percurso a fazer é ter uma comunicação forte e directa com os nossos espectadores, utilizando canais algo diferentes como a proximidade e localização. O cinema português funciona muito bem nesse sentido, já que liga o público, não é uma coisa internacional e global, mas sim uma realidade local, própria, íntima.
 Existe também uma preocupação da nossa parte de respeitarmos o calendário cultural de Portugal, mostrar que o Filmin é uma coisa portuguesa, que é próxima, que não é um projecto que vem de fora. Esse é o trabalho mais complicado, temos de fazer isso com o envolvimento de todos, sejam estes as operadoras, as produtoras e as distribuidoras. Temos de criar uma intimidade entre nós e quem quer gostar do Filmin, esta é a coisa mais complicada, mas também é a nossa única esperança contra monstros como a Netflix que têm uma base maior do que a nossa. Temos de avançar para o outro lado, na criação de intimidade, partilha e envolvência. Como fazê-lo? Estamos a tentar várias coisas. Uma aproximação física, um contacto com as pessoas, o blog. Sei que em Portugal a inércia é um pouco mais forte do que nos outros países, estamos conscientes que não será uma coisa simples. É um projecto que estou super orgulhoso de ter.




RC: O Miguel Esteves Cardoso comentou o seguinte sobre o catálogo do Filmin: "A selecção está cheia de certezas e surpresas como se o único critério fosse a sensibilidade e a inteligência". Para além da sensibilidade e da inteligência, quais são os principais critérios de selecção dos filmes que constam no catálogo do Filmin?

SS: Temos colaborado com as distribuidoras, que trazem o seu catálogo para o Filmin. Muita da sensibilidade que ali está representada é a das distribuidoras, como a Alambique Filmes, a Midas Filmes, a Lanterna de Pedra, entre outras. Dentro do catálogo temos uma linha editorial de não colocarmos filmes que não têm nada a ver connosco, apesar de termos de dar amplitude ao catálogo. No Filmin existem filmes que não são grandes obras, mas também temos de dar esse leque de oferta. A nossa sensibilidade é aquela de ordenar os filmes de uma maneira mais inteligente. Com o material que temos, procuramos conseguir misturá-lo de forma a criar algo ainda mais interessante. As colecções tornam a nossa programação mais interessante, torna-se algo muito importante para conhecermos os filmes que disponibilizamos. Temos de ver os filmes e depois misturá-los de uma maneira que seja mais produtiva. O nosso trabalho é continuar a dar vida aos filmes. Temos sempre de encontrar maneiras de forma a que os filmes voltem a ter um sentido. Nós fazemos isso com as colecções, bem como com algumas linhas editoriais. Por exemplo, agora estamos a trabalhar numa colecção que explora o lado freak da ruralidade. É muito interessante, desbloqueia várias coisas juntas: reúnes filmes muito diferentes, crias novas ligações entre as obras, apanha pontos de vista diferentes sobre o tema. Acho que isto cria alguma dinâmica.
 Vamos começar a ter filmes que se encontram fora do mercado português, então neste caso podemos seleccionar obras que consideramos ser mais adequadas. Percebemos que os documentários funcionam bem em Filmin, bem como os biopics ou de pendor histórico, ou filmes que retratam temáticas específicas. As curtas-metragens funcionaram muito bem. No caso dos filmes de terror ainda não percebemos se funciona ou não. Procuramos manter uma linha editorial que dá a cada espectador a própria liberdade de escolher. Pode escolher ver os filmes do Béla Tarr, ou ver quatro comédias francesas. Dentro daquele limite, tentamos dar uma certa liberdade de escolha, não queremos ser elitistas. Nesse sentido, a Festa do Cinema Italiano ajudou-nos, já que não quer ser elitista. Procuramos dar um limite de qualidade e escolher um pouco de tudo, tendo em vista a colocar no sitio certo: aquele filme com o público errado não funciona, com o público certo, o filme funciona. O nosso trabalho é o de criar percursos para o espectador, por isso acabamos por ganhar um pouco de autorialidade. Temos de criar uma ligação com os nossos espectadores para que acreditem que aquilo que está lá foi inserido com um sentido.

08 junho 2017

Resenha Crítica: "Chevalier" (2015)

 "Chevalier" é o título da terceira longa-metragem realizada por Athina Rachel Tsangari e do jogo disputado pelos personagens que pontuam esta obra cinematográfica que aborda os comportamentos masculinos com enorme acidez e sentido crítico, com a cineasta a colocar os protagonistas em ebulição enquanto estes revelam inadvertidamente as suas inseguranças e tentam demonstrar algumas das suas supostas qualidades. É um grupo heterogéneo, embora quase todos os elementos contem com ligações entre si, algumas mais claras do que outras, com "Chevalier" a revelar gradualmente os laços que unem os personagens principais e aquilo que os separa. Inicialmente parece que estamos diante de um grupo de amigos que se reúne para pescar, conviver e libertar a sua "masculinidade" em pleno mar Egeu, longe daqueles que os rodeiam e dos códigos de conduta que marcam o quotidiano dos seis personagens principais, embora, aos poucos, seja notório que existe algum ressentimento e rivalidade a marcar as relações de Yorgos (Panos Koronis), Josef (Vangelis Mourikis), Dimitris (Makis Papadimitriou), Yannis (Yorgos Pirpassopoulos), Christos (Sakis Rouvas) e um indivíduo que apenas conhecemos como Doutor (Yiorgos Kendros). O elenco contribui com interpretações sólidas, com cada intérprete a conseguir transmitir as especificidades dos personagens que interpretam e explanar que aos poucos cada elemento deste grupo parece ter sido consumido por um estranho sentimento de competitividade que remete e muito para o neoliberalismo selvagem e para alguns problemas intrínsecos à nossa sociedade. Diga-se que Athina Rachel Tsangari aborda essa competitividade selvagem com laivos de genialidade, sobretudo quando deixa o absurdo tomar conta do enredo e desarma o espectador com situações que tanto têm de surreais e exageradas como de plenamente plausíveis. Veja-se quando encontramos um personagem a agradecer à esposa por ter mentido ao telemóvel, com o casal a transmitir a falsa ideia de que a relação vive uma fase saudável, quando acontece precisamente o contrário, algo que remete para a dicotomia entre o ser e o parecer que marca a nossa sociedade. Claro que Athina Rachel Tsangari leva a competitividade dos elementos deste grupo ao extremo, ou não estivéssemos perante personagens que a partir de determinado momento começam a comparar erecções e o tamanho do pénis (a forma como alguns elementos tentam colocar a "máquina a trabalhar" é simultaneamente cómica e deprimente), ou a avaliar o modo de dormir de cada um. Esta competitividade explosiva advém do Chevalier, um jogo proposto por Christos que consiste em cada elemento lançar um desafio que permita uma competição entre os diversos integrantes do grupo, nomeadamente, provas físicas, ou um desafio mental, com os concorrentes a avaliarem-se uns aos outros.

04 junho 2017

Resenha Crítica: "Nocturnal Animals" (Animais Noturnos)

 A chegada do manuscrito de um livro escrito por Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), o seu ex-marido, altera momentaneamente a vida de Susan Morrow (Amy Adams), com a protagonista de "Nocturnal Animals" a sentir-se compelida a reflectir sobre o seu passado e o seu presente, enquanto se embrenha pela intensa história da obra literária. É entre o presente, o passado e a história do livro escrito por Edward Sheffield que se desenrola o enredo de "Nocturnal Animals", a segunda longa-metragem realizada por Tom Ford, com o cineasta a confirmar que os excelentes apontamentos deixados em "A Single Man" não foram obra do acaso. O estilo e a substância são enormes aliados em "Nocturnal Animals", com Tom Ford e a sua equipa a criarem uma atmosfera que tanto tem de inebriante como de inquietante, ou não estivéssemos diante de um thriller psicológico onde a violência emocional é muitas das vezes sentida e as vinganças trazem os resultados mais inesperados ou reflectem o virar de uma página negra de alguém que se sentiu traído. É uma vingança que emerge da solidão e desesperança, que surge praticamente como símbolo do findar de um amor que se quebrou de forma dolorosa, com "Nocturnal Animals" a contar com uma atmosfera de malaise muito típica dos filmes noir. Diga-se que estamos diante de um neo-noir com traços de thriller psicológico, com Tom Ford a colocar-nos diante de um enredo pontuado por personagens de carácter dúbio, traições e um certo pessimismo a envolver as relações humanas. A habitação de Susan reflecte esse pessimismo, mas também a frieza da relação que esta mantém com Hutton Morrow (Armie Hammer), o seu esposo, com o casal a suportar um matrimónio marcado pela falta de amor, bem como pela necessidade de manter as aparências. É uma mansão dotada de imenso espaço e decoração moderna, pontuada por tonalidades drenadas de vida que adensam a solidão sentida por Susan e a falta de afecto e desejo que grassa por esta casa, com o trabalho de Meg Everist na decoração dos cenários e de Christopher Brown na direcção de arte a contribuir para elevar "Nocturnal Animals". A própria iluminação, ou falta dela, contribui não só para incrementar essa atmosfera algo pessimista que envolve a casa de Susan, mas também para adensar a faceta intrigante desta obra cinematográfica e o hábito da personagem interpretada por Amy Adams de ficar acordada durante a noite, enquanto permanece presa aos seus pensamentos e à leitura do manuscrito.

01 junho 2017

Resenha Crítica: "Tramps" (2016)

 Com uma dupla de protagonistas capaz de despertar empatia, uma história dotada de enorme simplicidade e precisão, "Tramps", a segunda longa-metragem realizada por Adam Leon, é modesta nas suas ambições mas imensamente certeira a agarrar a nossa atenção e a proporcionar uma experiência cinematográfica leve e agradável. É certo que o seu desfecho e algumas das suas reviravoltas são previsíveis ou esperadas quase desde o início, embora "Tramps" não tenha a pretensão de "enganar" o espectador. Estamos diante de uma espécie de relação em que a confiança impera, com Adam Leon a entregar ao espectador uma obra cinematográfica dotada de sinceridade, situações rocambolescas, algum romance, humor e uma banda sonora que sublinha de forma eficaz os sentimentos que rodeiam os episódios protagonizados por Danny (Callum Turner) e Ellie (Grace Van Patten). Em troca, Adam Leon espera e consegue que sejamos compelidos a acreditar em Danny e Ellie e nas peripécias que estes dois jovens protagonizam, bem como nos sentimentos que nutrem um pelo outro. Estes são os "Tramps" do título, dois jovens adultos sem grande rumo, financeiramente pouco abonados, que se vestem de forma simples e agem muitas das vezes sem ponderação. Ellie e Danny travam conhecimento no decorrer de uma entrega misteriosa, com "Tramps" a abordar com acerto a típica relação improvável que se forma no interior de um contexto intrincado. Danny tem de substituir temporariamente Darren (Michal Vondel), o seu irmão, após a detenção deste último, algo que praticamente obriga o protagonista a ter de transportar uma pasta e entregá-la a um receptor que ainda não conhece. Se Danny é praticamente obrigado a participar nesta tarefa devido à argumentação utilizada pelo irmão (pretende receber mil e quinhentos dólares) e a mãe (Margaret Collin), já Ellie tem no dinheiro o principal factor para se envolver na entrega da pasta. Actualmente desempregada, rebelde e dona de uma personalidade muito própria, Ellie está encarregue de conduzir o veículo que transporta Danny até à plataforma da estação de metro. O plano parecia simples e fácil de executar, embora não previsse um erro humano, nomeadamente, o facto de Danny entregar a pasta à pessoa errada, algo que o obriga a ter de recuperar o objecto. Ellie acaba por praticamente ser obrigada a participar na recuperação da pasta, com Scott (Mike Birbiglia), o elemento que a contratou, a apenas pagar a verba combinada no caso do apetrecho chegar ao destinatário ou destinatária. 

28 maio 2017

Resenha Crítica: "Miss Sloane" (2016)

 No início de "Miss Sloane", a personagem do título (Jessica Chastain) descreve o lobismo da seguinte forma: "Lobbying is about foresight. About anticipating your opponent's moves and devising counter measures. The winner plots one step ahead of the opposition. And plays her trump card just after they play theirs. It's about making sure you surprise them. And they don't surprise you". Está longe de ser uma descrição apaixonada, embora permita expor na perfeição a faceta pragmática e ambiciosa da protagonista, uma lobista que navega habilmente pelas margens da lei e pelas águas da imoralidade. Elizabeth Sloane é uma lobista conhecida pela astúcia e eloquência, para quem os prazeres da vida parecem meras obrigações, sejam estes sexo, ou tomar alguma refeição, ou esta não tivesse abdicado de quase tudo para se focar apenas na progressão da carreira. Estamos diante de uma protagonista forte, que parece ter sempre a carta certa para jogar, gosta de dominar o meio que a rodeia e evitar surpresas, embora a espaços evidencie alguns laivos de solidão, arrependimento e fragilidade, com Jessica Chastain a não descurar a dimensão humana desta personagem. Jessica Chastain consegue transmitir através dos seus gestos e expressões a acutilância, experiência e ambição desta lobista que muitas das vezes não parece olhar a meios para atingir os fins e raramente se deixa antecipar pelos seus opositores. É o show de Jessica Chastain que John Madden nos apresenta em "Miss Sloane", com o cineasta a deixar a actriz explanar o seu talento para a interpretação e compor uma das personagens mais marcantes da sua carreira. Diga-se que o cineasta concede uma atenção notória ao trabalho dos actores algo que permite a diversos elementos do elenco secundário sobressaírem, tais como Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Michael Stuhlbarg, John Lithgow, entre outros, enquanto incute uma aura de thriller a esta obra cinematográfica que envolve um duelo de vontades entre duas firmas ligadas aos lobbies, nomeadamente, a Cole Kravitz & Waterman, uma empresa que trabalha para convencer os senadores a chumbarem a Heaton-Harris, uma lei que visa fiscalizar o acesso ao armamento, e a Peterson Wyatt, uma organização que luta para conseguir aprovar este regulamento. Elizabeth Sloane trabalha inicialmente para a Cole Kravitz & Waterman, embora um convite de Rodolfo Schmidt (Mark Strong), o líder da Peterson Wyatt, para se juntar a uma causa aparentemente perdida, contribua para que a protagonista mude de firma e abrace a tentativa de aprovar a Heaton-Harris.

25 maio 2017

Resenha Crítica: "După dealuri" (Para Lá das Colinas)

 Quando encontramos Voichita (Cosmina Stratan) a salientar para Alina (Cristina Flutur), aquela que outrora fora a sua melhor amiga, que as "pessoas mudam", percebemos claramente que existe algo a separar estas duas personagens. Esses sinais de separação foram dados desde cedo, embora não impeçam Voichita de tentar ajudar Alina, enquanto esta última procura recuperar a relação que mantinha quando vivia com a primeira no orfanato. A relação destas duas personagens é uma das peças fulcrais de "După dealuri", bem como as dinâmicas no interior de um convento ortodoxo, as marcas de um amor não correspondido, os efeitos nefastos da ignorância e do medo, com Cristian Mungiu a aproveitar ainda para efectuar um comentário sobre a sociedade da Roménia contemporânea. É no espaço do convento onde se desenrola uma série de episódios fundamentais de "După dealuri", com a amizade de Voichita e Alina a ser colocada à prova, tal como a fé da primeira. Voichita decidiu dedicar a sua vida a Deus, tendo como habitação um convento ortodoxo, situado em Dealu Nou, onde conta com uma série de regras que cumpre com enorme rigor, com Cosmina Stratan a transmitir a faceta contida e discreta desta freira. O rosto de Cosmina Stratan contribui e muito para evidenciar a fragilidade de Voichita, uma jovem mulher de voz apagada, relativamente calma e bastante crente, que se veste quase sempre de preto e obedece praticamente a todas as ordens do padre (Valeriu Andriuţă) que lidera o convento. Diga-se que, num determinado momento de "După dealuri" o desespero e as dúvidas a espaços tomam conta de Voichita, algo expresso de forma bastante natural e credível pela actriz, com Cosmina Stratan a convencer e de que maneira como esta freira que tenta salvar a amiga. Alina foi viver para a Alemanha, onde trabalhou quer como governanta, quer como empregada de um bar, embora tarde em esquecer a amiga. Cristina Flutur imprime um tom inicialmente indecifrável a Alina, uma personagem bastante solitária, aparentemente mais prática do que Voichita, que pouco contacta com o irmão (Ionut Ghinea) e tenta recuperar a companhia da amiga, embora não compreenda totalmente as mudanças que esta última conheceu no período de tempo em que se encontraram separadas. A força física de Alina é notória, fruto de outrora ter praticado karaté, apesar da sua mente e a sua alma parecerem claramente fragilizadas. Alina sabe disso, ou pelo menos parece compreender que atravessa uma fase mais delicada, algo que a conduz a pretender ter Voichita do seu lado, ou esta não tivesse sido durante muito tempo um dos grandes baluartes da sua existência.

21 maio 2017

Resenha Crítica: "John From" (2015)

  A partir de um determinado momento de "John From", a imaginação de Rita (Júlia Palha), a protagonista, uma adolescente de quinze anos de idade, começa a tomar conta do corpo e da alma do filme. Desde um carro que se estaciona sozinho, passando por um nevoeiro que consome os cenários e exacerba a confusão que percorre a mente desta adolescente que se encontra apaixonada pelo vizinho, até uma janela que se move e um espaço urbano lisboeta que ganha características exóticas, "John From" balança aos ritmos da sua protagonista, com Rita a assumir um papel fulcral no interior da segunda longa-metragem realizada por João Nicolau. O cineasta permite que o enredo de "John From" ceda à imaginação da protagonista, enquanto nos compele a desfrutar da explosão de fantasia que permeia este universo narrativo ancorado em sentimentos bem reais, tais como o tédio sentido pelos adolescentes ao longo das férias de Verão, ou as sensações incontroláveis das paixonetas durante esta fase da vida em que tudo é vivido e sentido a um ritmo muito especial. O Verão praticamente compele os adolescentes a protagonizarem alguns momentos de lassidão, seja devido ao imenso calor, ou à quebra das rotinas escolares, ou à quantidade assinalável de tempo livre, com a temperatura elevada a contribuir para aquecer os sentimentos e os espaços por onde os personagens de "John From" circulam. Diga-se que João Nicolau é exímio a captar o torpor que envolve o quotidiano dos adolescentes durante as férias de Verão, com o cineasta a abordar uma série de temas e episódios mais latos a partir do caso particular da protagonista, enquanto concede espaço para Júlia Palha compor uma personagem dotada de alguma complexidade. Júlia Palha transmite com acerto as dúvidas e inquietações de Rita, uma adolescente que ainda se encontra a formar a sua personalidade e conta com uma rebeldia muito própria da idade, com a intérprete a incutir uma naturalidade e sinceridade notórias aos diálogos e às acções desta jovem. Por vezes parece que estamos diante de uma personagem que assume uma postura quase adulta, em outras ocasiões não podemos deixar de esboçar um sorriso devido às atitudes mais infantis de Rita, com a protagonista a encontrar-se num limbo entre o final da infância e a maioridade, ou seja, uma fase que é sempre muito marcada por imensas descobertas e uma forma muito peculiar de encarar as sensações e emoções. Rita terminou recentemente o namoro com Bruno, gosta de tocar piano no centro comunitário, de beber café e chapinhar os pés na varanda, com as férias de Verão desta jovem a contarem com doses significativas de monotonia, alguma diversão e uma série de episódios marcantes.

18 maio 2017

Resenha Crítica: "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias)

 Drama pontuado por uma crueza indelével e um retrato áspero da Roménia de 1987, ou seja, da fase final da Governação do ditador Nicolae Ceaușescu (cuja presença nunca é vista, ou mencionada, embora as suas políticas sejam sentidas), "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (para facilitar a escrita, iremos o utilizar o título em português, nomeadamente, "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias") transporta o espectador para o interior da dura realidade de Otilia Mihartescu (Anamaria Marinca) e Gabriela Dragut (Laura Vasiliu), duas estudantes universitárias, sempre tendo em atenção as dinâmicas do período histórico representado. Gabriela, mais conhecida por Găbița, divide o quarto com Otilia no interior de um dormitório universitário pontuado por quartos diminutos, corredores estreitos, poucos luxos e imenso contrabando. Laura Vasiliu incute um tom de voz relativamente baixo e frágil a Găbița, enquanto transmite a personalidade algo apagada, nervosa, precipitada e egoísta (a forma como coloca a amiga em perigo é de uma enorme irresponsabilidade) desta personagem que procura efectuar um aborto ilegal (o título remete para o tempo que Găbița tem de gravidez). Găbița conta com a ajuda e apoio de Otilia, embora o espírito de camaradagem desta última acabe por colocar a personagem interpretada por Anamaria Marinca diante de uma série de perigos e episódios emocionalmente devastadores. Otilia é uma estudante universitária relativamente independente, que apresenta uma personalidade mais forte e pragmática do que Găbița, bem como um maior à vontade a lidar com os acontecimentos e as adversidades, algo transmitido por Anamaria Marinca, com a actriz a surgir como uma das figuras centrais da narrativa e do olhar de Cristian Mungiu, o realizador deste drama onde a luz é envolta pelo cinzentismo da temperatura e dos sentimentos. A actriz tem uma interpretação marcada pela contenção na exposição dos sentimentos, embora Otilia nem sempre consiga manter a calma, sobretudo quando é colocada diante de uma situação extrema. Diga-se que os personagens que lidam com problemas de difícil resolução ou dilemas que desafiam os seus limites surgem como algo que une "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" com outros trabalhos de Cristian Mungiu, tais como "Occident", "După dealuri" e "Bacalaureat". Não faltam ainda outras temáticas e elementos a unirem as obras mencionadas, tais como a ausência de música não diegética, os planos-sequência executados com enorme rigor, a câmara de filmar quase sempre pronta a acompanhar as emoções dos protagonistas, os personagens filmados de costas, o bom aproveitamento dos actores e actrizes que compõem o elenco, os cenários utilizados com enorme acerto, a abordagem de temas relacionados com a sociedade romena ao mesmo tempo que são levantadas questões relativamente universais. A atmosfera que rodeia a representação do território da Roménia está longe de ser a mais apolínea, ou optimista, com este espaço a parecer combinar praticamente na perfeição com o estado de espírito dos personagens. As árvores surgem despidas de folhas, o céu dotado de um cinzentismo arrasador, enquanto os jovens recorrem ao contrabando e a serviços ilegais para obterem os seus intentos, sejam estes comprar tabaco ou cometer um aborto. Otilia e Găbița fumam, compram produtos contrabandeados (não faltam referências a marcas de tabaco, sabonetes, a produtos de beleza, entre outros) e apresentam uma camaradagem típica de quem habita no mesmo local, embora contem com diversas diferenças a nível de personalidade e gostos.