07 agosto 2017

Resenha Crítica: "Une vie" (A Vida de Uma Mulher)

 Ao longo de "Une vie" (em Portugal: "A Vida de Uma Mulher") é possível encontrarmos diversos planos que se centram em Jeanne (Judith Chemla), à janela, a observar o território que rodeia a sua casa. São planos que contribuem para exibir na perfeição a solidão desta personagem e a sua personalidade observadora, com o espaço exterior a ser exposto de forma algo desfocada e a transmitir simultaneamente uma sensação de liberdade e de clausura, enquanto a habitação tanto permite proteger esta mulher como proporcionar-lhe imensas desilusões e deixá-la presa aos seus pensamentos. Jeanne é uma personagem em constante descoberta, criada pelos pais numa espécie de redoma, sem conhecer a malícia ou dificuldades, que tem no casamento um momento fulcral da sua vida. Tudo parecia perfeito, com Julien (Swann Arlaud) a prometer amar Jeanne para toda a vida, enquanto esta aparenta acreditar nessas palavras, pelo menos até os actos do esposo começarem a destoar do discurso. Diga-se que "Une vie" é um filme de poucas palavras, com boa parte do poder dos seus acontecimentos a estar nos silêncios, nos rostos que muito exprimem e muito escondem, ou nas elipses que agilizam e dinamizam a narrativa, embora nem sempre sejam utilizadas de forma harmoniosa. Uma das personagens que se exprime muitas das vezes através do silêncio é Jeanne, uma mulher que aos poucos descobre um lado mais obscuro da Humanidade, um pouco a fazer recordar aquilo que acontece com Thierry (Vincent Lindon), o protagonista de "La loi du marché". Tal como Thierry, também Jeanne procura manter a dignidade em situações adversas, enquanto Stéphane Brizé "despe" os seus intérpretes e faz com que estes encarnem por completo os personagens que interpretam. Judith Chemla transmite ingenuidade e fragilidade como Jeanne, sempre sem uma expressividade excessiva, com o seu rosto a dizer imenso e a expor a forma cruel como a realidade começa a magoar a alma desta mulher. A começar pela relação com o esposo, com Julien a não ter problemas em exibir uma postura fria para com a sua cara-metade. Note-se quando Julien reclama com a esposa devido a esta gastar demasiada lenha e velas, uma situação que coloca em evidência que a doçura dos primeiros momentos do matrimónio está a conhecer a amargura das descobertas pouco agradáveis, típicas de um casal que não se conhecia bem antes de se casar. Até então, Jeanne apenas conhecera o calor proporcionado por Simon-Jacques (Jean-Pierre Darroussin) e Adélaïde (Yolande Moreau), os seus pais, um casal aparentemente feliz, financeiramente abonado, que conta com uma mentalidade relativamente aberta (para a época) e tenta proteger a filha, embora esse objectivo nem sempre seja fácil de alcançar.


 Aos poucos, Jeanne sente o ardor provocado pela mentira, um pouco à imagem de uma criança que está a perder a inocência e a descobrir a maldade e os revezes do destino. Note-se as infidelidades de Julien, seja com Rosalie (Nina Meurisse), a criada e irmã de leite de Jeanne, ou com Gilberte (Clotilde Hesme), uma amiga da esposa, algo que destroça a protagonista, com esta a começar a sentir que não pode confiar em ninguém. Pelo meio ainda engravida e descobre que a progenitora trai o pai, dois episódios que marcam o amadurecimento desta mulher que teima em não conseguir aceitar o cinismo do mundo que a rodeia. Jeanne é uma figura algo inocente, que gosta de ler, acredita na bondade do ser humano e não quer magoar aqueles que a rodeiam, que nem sempre compreendemos mas nem por isso deixamos de querer seguir, com Stéphane Brizé a envolver-se pelos meandros da França rural do Século XIX a partir da história desta mulher. É uma forma do cineasta se embrenhar por temáticas como a perda da inocência, a relevância da religião na sociedade deste período, o relacionamento entre uma mãe e o seu filho, o adultério, as relações matrimoniais e a recusa da protagonista em aceitar o cinismo do mundo que a rodeia, enquanto imensas cartas são trocadas e diversos sentimentos são expostos por Jeanne. Esta é a figura central de "Une vie" e o motor desta obra cinematográfica inspirada no livro homónimo de Guy de Maupassant, aquela que é seguida com afinco pela câmara de filmar, com Stéphane Brizé a partir do exemplo particular desta mulher para abordar temas mais latos, enquanto utiliza os silêncios com acerto e as elipses sem conta, peso e medida. Por um lado, as elipses permitem agilizar a exposição do enredo, cortar informação desnecessária e ainda contribuem para colocar a mente do espectador a trabalhar. Note-se quando somos colocados diante de três cadáveres, após ter sido fornecida informação sobre uma traição, uma situação que faz com que liguemos os pontos e elaboremos na nossa mente uma interpretação daquilo que terá acontecido. Por outro lado, essa utilização nem sempre criteriosa das elipses também acaba por contribuir para um certo descurar do desenvolvimento de alguns episódios ou dos personagens, ou para a omissão de alguma informação. Veja-se o parco desenvolvimento da relação entre Jeanne e Paul (Henri Hucheloup aos cinco anos; Rémi Bontemps aos doze anos; Finnegan Oldfield a partir dos vinte anos de idade), o seu filho, algo que contribui para retirar impacto a alguns episódios protagonizados por estes dois personagens. 


 A relação entre Jeanne e Paul está longe de ser marcada pela proximidade, com a primeira a amar o segundo, enquanto este demonstra um desprendimento notório em relação à progenitora. Paul é um dos vários personagens que raramente são desenvolvidos ao longo de "Une vie", tal como Gilberte e Georges de Fourville (Alain Beigel), um casal amigo da protagonista e do esposo, ou o próprio Julien. Diga-se que o esposo de Jeanne surge sobretudo como um elemento que permite realçar o choque da protagonista com a mentira e o lado negro da Humanidade, enquanto começa a perceber que o cônjuge está longe de ser quem esta idealizara. A relação do casal é marcada por um ou outro momento de proximidade e imensas situações em que a frieza impera, algo que contrasta com os calorosos trechos iniciais de "Une vie", nomeadamente, quando encontramos Jeanne a ajudar o pai no trabalho da terra, no terreno que rodeia a habitação desta família. As desilusões marcam a vida de Jeanne, mas não retiram a fé que a protagonista tem na Humanidade, sobretudo no seu filho, mesmo quando este lhe está a mentir, com Judith Chemla a compor uma personagem que é muitas das vezes traída pelo seu optimismo. Se Jeanne é enganada por alguns elementos que a rodeiam, já "Une vie" é traído por algumas redundâncias que Stéphane Brizé incute ao filme e a espaços apenas parecem contribuir para estender a duração da obra cinematográfica. Note-se a forma repetitiva como é exposta a informação de que Paul está a enganar Jeanne e a aproveitar-se da bondade da mãe, com Stéphane Brizé a tanto apostar numa agilização da exposição do enredo como a espaços parece tropeçar em algumas das armadilhas que tenta evitar a todo o custo. Diga-se que "Une vie" conta ainda com um trabalho competente a nível do guarda-roupa e da decoração dos cenários, com estes elementos a sobressaírem sobretudo pela subtileza com que são incutidos no interior da narrativa, algo que contribui quer para traduzir o período em que se desenrola o enredo do filme, quer para sublinhar alguns traços da personalidade dos personagens. Também a banda sonora prima pela subtileza, com Stéphane Brizé a aplicar este recurso com parcimónia e eficácia, com estas qualidades a poderem ser ainda aplicadas à forma como o cineasta utiliza a narração em off, sobretudo quando a protagonista está a escrever algumas das suas cartas, um meio essencial para Jeanne comunicar com aqueles que a rodeiam. Estamos diante de um drama de época que tanto faz questão de nos afastar como de aproximar, que nunca chega a atingir a grandeza que promete mas também não cai na mediocridade, pontuado por uma delicadeza notória e uma protagonista dotada de complexidade, com Stéphane Brizé a ter aqui uma obra cinematográfica que merece alguma da nossa atenção e interesse. 


Título original: "Une vie".
Título em Portugal: "A Vida de Uma Mulher".
Realizador: Stéphane Brizé.
Argumento: Stéphane Brizé e Florence Vignon.
Elenco: Judith Chemla, Yolande Moreau, Jean-Pierre Darroussin, Swann Arlaud, Nina Meurisse, Clotilde Hesme, Finnegan Oldfield, Alain Beigel, Henri Hucheloup, Rémi Bontemps, Finnegan Oldfield.

O filme é distribuído em Portugal pela Alambique Filmes: http://alambique.pt/filme/a-vida-de-uma-mulher

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