03 agosto 2017

Resenha Crítica: "Blue Velvet" (Veludo Azul)

 A expressão "It's a strange world" é utilizada por quatro vezes ao longo de "Blue Velvet", algo que remete para atmosfera bizarra, peculiar e intensa que permeia o enredo desta hipnótica obra cinematográfica realizada por David Lynch. As marcas do cineasta encontram-se vincadas em quase todos os poros de "Blue Velvet", seja na forma como é capaz de simultaneamente hipnotizar e repelir o espectador, ou de inserir elementos surreais e violentos ao enredo, ou a controlar por completo os ritmos da narrativa e a explorar a paleta de cores ao serviço da história e da construção dos personagens, enquanto nos coloca diante de uma investigação que ganha contornos bizarros, inesperados e intensos. Essa investigação é protagonizada por Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), um jovem adulto aparentemente calmo, apreciador de cerveja Heineken, que conta com uma curiosidade notória e surge como uma espécie de detective de carácter dúbio dos filmes noir. Diga-se que "Blue Velvet" deixa-nos perante diversos elementos transversais aos filmes noir, tais como a femme fatale, a insegurança nos espaços citadinos, a atmosfera de malaise, a investigação intrincada, o clube nocturno, as figuras que se movem pelas sombras, os personagens de carácter ambíguo e um protagonista que se movimenta pelas margens da imoralidade. Jeffrey envolve-se com a ingénua, com a femme fatale e acaba pelo caminho por se deparar com psicopatas, polícias corruptos, assassinos, traficantes e outras figuras do género, ou seja, que apimentam e muito o regresso do protagonista a Lumberton. Nos momentos iniciais de "Blue Velvet" encontramos Jeffrey a regressar a Lumberton, a cidade que o viu nascer, tendo em vista a administrar os negócios do pai (Jack Harvey), um indivíduo que se encontra temporariamente hospitalizado. É um regresso atribulado, com Jeffrey a deparar-se com uma orelha humana no interior de um espaço verdejante, uma situação que o conduz a entregar este órgão vestibulococlear às autoridades, nomeadamente, ao detective John Williams (George Dickerson). Este agradece a prestabilidade de Jeffrey e promete averiguar o caso, embora tente que o protagonista não faça mais questões enquanto a investigação está em curso. Claro está que Jeffrey quer saber mais, seja sobre a identidade do elemento que ficou sem orelha, ou em relação à forma como este órgão foi retirado, com a entrada em cena de Sandy (Laura Dern), a filha de John, a facilitar a vida do protagonista.


 A jovem fornece uma série de informações a Jeffrey, para além de ajudar o protagonista em diversas incursões por locais perigosos e a colocar em prática alguns planos deveras peculiares, com estes dois personagens a formarem uma relação de amizade que aos poucos ganha contornos mais sérios. Sandy é uma estudante aparentemente inocente, que conta com longos cabelos loiros, ainda está a completar o ensino secundário, utiliza regularmente roupas cor-de-rosa que exacerbam a sua fragilidade e inexperiência, com Laura Dern (que mais tarde voltaria a colaborar com David Lynch no explosivo "Wild at Heart") a traduzir com competência as características desta "ingénua". É Sandy quem menciona o nome de Dorothy Vallens (Isabella Rossellini) junto de Jeffrey, com a entrada em cena desta última a mexer de que maneira com este indivíduo. Isabella Rossellini interpreta a femme fatale com acerto e a carisma, com a actriz a deixar a sua marca em "Blue Velvet" como esta perturbadora, sedutora e fragilizada cantora de um clube nocturno. Vários casos estranhos vão dar a Dorothy, embora Sandy não tenha grandes informações sobre esta mulher, algo que conduz Jeffrey a vasculhar a casa da cantora e a penetrar no interior de uma realidade que o leva às entranhas do submundo de Lumberton. Se Sandy conta com roupas maioritariamente cor-de-rosa, já Dorothy sobressai não só pelo mistério que envolve a sua figura, mas também pelo seu batom e verniz de tonalidades vermelhas (algo comum a diversas personagens de relevo de filmes de David Lynch, tal como em "Wild at Heart", "Lost Highway", "Mulholland Dr."), bem como por utilizar algumas indumentárias com o veludo azul do título. O veludo azul é muito apreciado por Frank (Dennis Hopper), um criminoso sádico, perigoso e grotesco que agride sexualmente a cantora, enquanto que a tonalidade vermelha remete não só para a sensualidade desta mulher, mas também para as tormentas que percorrem a sua alma e a sua mente, com Isabella Rossellini a compor uma personagem que deixa rasto. O momento em que encontramos Dorothy a cantar a música Blue Velvet em pleno Slow Club é carregado de doses consideráveis de sensualidade, com David Lynch a criar uma atmosfera inebriante e envolvente em volta deste número musical. As cortinas vermelhas do clube nocturno adensam a capacidade de sedução de Dorothy, as luzes azuis contribuem para a atmosfera envolvente que rodeia o número musical, enquanto Jeffrey e Sandy observam atentamente o espectáculo, sobretudo o protagonista, até se deslocarem ao apartamento da cantora.


 O personagem interpretado por Kyle MacLachlan (outro colaborador regular de David Lynch) consegue esconder-se no interior da casa de Dorothy, tendo em vista a obter informações sobre esta mulher, embora os planos do protagonista saiam relativamente frustrados. Jeffrey acaba por ouvir e ver mais do que esperava, enquanto Dorothy assume uma postura agressiva quando descobre a presença do estranho, com as dinâmicas que envolvem estes dois personagens a contarem com doses generosas de bizarria, mistério, tensão e erotismo. Veja-se quando Dorothy obriga Jeffrey a despir-se, com a tensão a rodear o momento em que esta mulher descobre o protagonista a espiar no interior do armário, ou a entrada em cena de Frank. Dennis Hopper insere um tom repulsivo, violento, imprevisível e desprezível ao personagem que interpreta, com o intérprete a protagonizar uma série de momentos marcantes como este criminoso aparentemente incontrolável que conta com alguns contactos relevantes, inclusive no interior da polícia. É praticamente impossível permanecer indiferente quando Frank agride Dorothy e assume uma postura dominadora e sádica sobre esta mulher, com Isabella Rossellini a exprimir o receio e a fragilidade da personagem que interpreta ao mesmo tempo que Dennis Hopper deixa sobressair as características repulsivas do criminoso. Existe algo de perturbador a envolver as dinâmicas entre Frank e Dorothy, com as agressões do primeiro a sucederem-se e a marcarem esta cantora no corpo e na mente. Jeffrey acredita que Frank mantém o esposo e o filho de Dorothy em cativeiro, uma teoria que faz algum sentido, com o protagonista a interessar-se pelo caso desta mulher e a sentir-se atraído pela mesma. Aos poucos, Jeffrey embrenha-se no interior de um caso bem mais intrincado do que esperava encontrar quando começou a investigar a casa de Dorothy, com o protagonista a contactar de perto com uma série de figuras pouco recomendáveis e a envolver-se com duas mulheres de características distintas. A relação de Jeffrey e Dorothy envolve alguma irracionalidade e um desejo quase selvagem e incontrolável, enquanto que o relacionamento que o primeiro forma com Sandy conta com doses consideráveis de inocência e algumas mentiras do protagonista para com a jovem. A investigação acaba por unir Jeffrey a estas duas mulheres de personalidades distintas, enquanto este indivíduo se embrenha pelo submundo do crime do território onde habita.


 No início de "Blue Velvet", encontramos a câmara de filmar a "rastejar" sorrateiramente pelas ervas, até se envolver pelos meandros dos insectos que escavacam o solo. Estes surgem como uma espécie de metáfora para os elementos pouco recomendáveis com quem Jeffrey contacta ao longo do filme, com o protagonista a deparar-se com uma realidade aparentemente escondida no interior do submundo de Lumberton. A violência permeia alguns dos episódios protagonizados por Jeffrey, seja durante a noite, quando todas as regras e leis parecem ser esquecidas, ou em plena luz do dia, quando as mortes inesperadas continuam a chegar. O personagem interpretado por Dennis Hopper adensa a faceta violenta dos subúrbios de Lumberton, ou não estivéssemos diante de uma figura de comportamentos e gestos grotescos. Veja-se quando encontramos Frank a apertar violentamente os mamilos de Dorothy, ou a desferir socos na face desta mulher, ou a obrigá-la a ter sexo consigo, com Dennis Hopper a compor uma figura que desperta o nosso desprezo. Já Kyle MacLachlan conta com um personagem mais complexo, com o actor a exprimir habilmente os medos, desejos e anseios do protagonista. Com uma curiosidade evidente, uma faceta voyeurista e uma propensão para se envolver em confusões e perigos, Jeffrey surge como uma espécie de detective dos filmes noir, que nem sempre comete os actos mais pragmáticos ou dotados de moralidade, que descobre, em simultâneo com o espectador, um lado distinto e bizarro do território que o rodeia. A estranheza e os momentos marcantes pontuam diversos episódios da investigação protagonizada por Jeffrey, com David Lynch a envolver o espectador para o interior desta obra cinematográfica intensa e perturbadora, pronta a estimular os sentimentos e as sensações mais díspares e uma série de teorias, marcada por uma banda sonora sublime de Angelo Badalamenti, uma utilização certeira da paleta de cores e interpretações de grande nível de Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini e Dennis Hopper.


Título original: "Blue Velvet".
Título em Portugal: "Veludo Azul".
Realizador: David Lynch.
Argumento: David Lynch.
Elenco: Isabella Rossellini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper, Laura Dern, George Dickerson.

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