31 agosto 2017

C7TV (2) - 1 a 4 de Setembro

"O mês de Setembro está de volta! As férias de muitos terminam, as aulas quase a começar. A Supertaça de Futebol Feminino e os jogos das selecções ocupam uma boa parte das agendas desportivas. No entanto, continua a existir espaço para visionar alguns bons filmes. Já sabem o que pretendem ver neste fim de semana? Pretendem ver filmes no conforto do lar? É exactamente para si que está indeciso ou disponível para aceitar a recomendação de um desconhecido que este texto foi escrito. Preparados para mais viagens cinematográficas na nossa companhia? Prometemos uma viagem pelos EUA, Holanda e Alemanha na companhia de um jornalista em crise e de uma jovem, sempre a partir do cinema, ou a ida às entranhas de uma estação televisiva disposta a tudo para conquistar o corpo e a mente das audiências. Temos ainda um mergulho pelas intrincadas relações entre homens e mulheres, seja na companhia de Cary Grant e Katharine Hepburn, ou de Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Diga-se que ainda temos mais para propor, com a programação televisiva a contar com algumas opções dignas de atenção, com a RTP 2, a RTP Memória e os Canais TV Cine e Séries a estarem em amplo destaque ao longo do texto".

28 agosto 2017

Resenha Crítica: "American Made" (Barry Seal: Traficante Americano)

 "American Made" (em Portugal: "Barry Seal: Traficante Americano") capta com acerto os absurdos do "American Dream" e da política externa dos EUA, sempre com algumas doses de humor e leveza à mistura, enquanto nos apresenta a Barry Seal (Tom Cruise). Este é um piloto inspirado numa figura real (moldada no filme para se ajustar às características de Tom "Maverick" Cruise) que conta com uma história de vida deveras cinematográfica e protagonizou uma série de episódios que entroncam em acontecimentos mais latos. Ao longo de "American Made" encontramos Barry Seal a trabalhar para a CIA, a Casa Branca e o Cartel de Medellín, bem como a protagonizar uma série de peripécias e a permitir que Tom Cruise componha um personagem digno da nossa atenção. Tom Cruise imprime carisma a Barry Seal ao mesmo tempo que exacerba o lado simultaneamente oportunista, ingénuo, espirituoso e afável deste piloto que nem sempre parece estar consciente das consequências e dos perigos que envolvem o seu estilo de vida. No início de "American Made", encontramos Barry Seal, então um piloto da TWA, a ser contactado por Schafer (Domhnall Gleeson), um funcionário de baixo escalão da CIA. Estamos em pleno ano de 1978, durante a Guerra Fria, com Barry a receber um avião particular e a ser contratado para participar em operações secretas ao serviço da CIA. Primeiro tira fotografias de reconhecimento a baixa altitude a diversos territórios e guerrilheiros da América Central que se opõem aos regimes apoiados pelos Estados Unidos da América, algo que efectua com enorme sucesso ao ponto de despertar a atenção de Jorge Ochoa (Alejandro Edda), um dos membros do Cartel de Medellín. Entre avanços e recuos, Barry acaba por se ver na situação de transportar armas dos EUA para Nicarágua ao mesmo tempo que tenta manter os negócios lucrativos com o Cartel de Medellín, com o protagonista a envolver-se em imbróglios que colocam a sua vida em perigo. Veja-se ainda quando Barry é instruído para transportar para os Estados Unidos da América alguns Contras que se opõem aos Sandinistas, tendo em vista a que os primeiros sejam treinados em Mena, naquele que é mais um episódio que permite explanar a ingerência yankee na política dos países da América Central.

27 agosto 2017

Resenha Crítica: "I Am Michael" (O Meu Nome é Michael)

 Num determinado momento de "I Am Michael" (em Portugal: "O Meu Nome é Michael), o personagem do título comenta o seguinte: "We need to put out the message that being attracted to the same sex doesn't define who you are". Curiosamente, "I Am Michael" efectua precisamente o contrário, com Michael (James Franco) a ser definido ao longo do filme quer pela sua orientação sexual, quer pela sua religião. É uma opção questionável e simplista, que contribui acima de tudo para adensar o tom sensaborão que envolve as fundações de "I Am Michael", uma obra cinematográfica inspirada na história peculiar de Michael Glatze, um activista que defendeu os direitos LGBT até anunciar a renúncia à sua homossexualidade e tornar-se num pastor conservador. A história é caricata, complexa e sumarenta, embora Justin Kelly opte quase sempre por uma abordagem mais simples, anónima e anódina. Primeiro somos colocados perante o activismo de Michael, então director da popular XY Magazine, e da relação que este mantém com Bennett (Zachary Quinto). Posteriormente, "I Am Michael" coloca-nos diante das mudanças que ocorrem na mente do protagonista, nomeadamente, a partir do momento em que "descobre" Deus. A partir desse momento, Michael renega a sua homossexualidade e assume gradualmente uma postura conservadora e intolerante, com James Franco a entregar-se de corpo e alma a este personagem intrigante. James Franco transmite as inquietações de Michael e a incute credibilidade às facetas distintas deste indivíduo, com o actor a contar com uma interpretação relativamente sólida. O problema é que o argumento não ajuda James Franco, com a maioria das falas do protagonista a parecerem ter saído de um panfleto de defesa dos direitos LGBT, ou de um folheto pró-religião, algo que retira imenso poder aos acontecimentos retratados. A abordagem da relação entre Michael e Bennett também está longe de satisfazer, com a dinâmica destes personagens a ser acima de tudo definida pela orientação sexual do casal. É notório que existe alguma intimidade a marcar o relacionamento de Michael e Bennett, mas também falta desenvolvimento e evolução às dinâmicas do casal. Note-se ainda o momento em que Tyler (Charlie Carver), um jovem estudante de física, é inserido no interior da relação de Michael e Bennett, com "I Am Michael" a não exibir qualquer empenho em explorar as dinâmicas do trio para além da superfície.

26 agosto 2017

Resenha Crítica: "Stop Making Sense" (1984)

 É possível visionar "Stop Making Sense" de forma calma e ordeira? Essa é uma tarefa praticamente impossível de concretizar, com Jonathan Demme a realizar um filme-concerto que desperta uma enorme vontade de cantar, dançar e aplaudir, enquanto bombeia emoções, ritmo e energia. Jonathan Demme não se limita a filmar um concerto da banda Talking Heads, com o cineasta a conseguir que o cinema invada o espectáculo ao mesmo tempo que transmite as emoções e os ritmos deste evento. Os movimentos dos corpos são captados com engenho, tal como as expressões que percorrem os rostos e o suor que começa a escorrer pelo corpo dos artistas a partir do momento em que a fadiga se acumula, com "Stop Making Sense" a transmitir que existe muito esforço e dedicação por parte dos membros da banda para que o espectáculo se mantenha dinâmico, intenso e interessante. Diga-se que Jonathan Demme consegue ainda explanar eficazmente as dinâmicas de uma banda ao mesmo tempo que deixa um conjunto de artistas exibir a sua arte, com David Byrne a surgir como a figura que mais se destaca. Este é o vocalista, líder e fundador dos Talking Heads, com o cantor a encher o ecrã de carisma, talento e uma capacidade notória para utilizar o físico ao serviço das músicas que canta. Seja a segurar um candeeiro, ou a dançar com Lynn Mabry e Ednah Holt (duas vocalistas de apoio), ou a movimentar as pernas de forma desconjuntada, ou a mexer a cabeça de forma peculiar, David Byrne demonstra que sabe como dar espectáculo e exprimir-se perante o público. Essa situação é visível logo nos momentos iniciais, quando o vocalista aparece acompanhado de um rádio e salienta "Hi, I've got a tapewriter to play", com a câmara de filmar a focar os ténis brancos de David Byrne, bem como as suas pernas em movimento e o aparelho, enquanto sobe de forma gradual e exibe o rosto do cantor ao mesmo tempo que este começa a cantar a icónica "Psycho Killer", a exprimir as suas emoções e a prender a atenção do público.

24 agosto 2017

Resenha Crítica: "Una giornata particolare" (Um Dia Inesquecível)

 Sensível, delicado, pontuado por algumas doses de humor e um humanismo latente, "Una giornata particolare" mexe de forma certeira com as nossas emoções, enquanto aborda o contexto histórico com eficácia, deixa Marcello Mastroianni e Sophia Loren protagonizarem alguns momentos inesquecíveis e coloca-nos diante de uma série de acontecimentos marcantes que decorrem ao longo de um dia que se torna muito especial para a dupla de protagonistas desta obra cinematográfica realizada por Ettore Scola. O dia em que os protagonistas travam conhecimento coincide com a visita que Adolf Hitler efectua a Benito Mussollini, em Roma, a 8 de Maio de 1938, ou seja, durante a II Guerra Mundial, com o contexto histórico a influenciar e muito a vida de Antonietta (Sophia Loren) e Gabriele (Marcello Mastroianni), dois personagens atormentados quer pela solidão, quer pela incompreensão daqueles que os rodeiam. Esta visita é exposta logo nos momentos iniciais de "Una giornata particolare", com Ettore Scola a utilizar vídeos de notícias da época para retratar a pompa e circunstância com que Adolf Hitler foi recebido, até deixar a ficção tomar conta do enredo. Quase tudo e todos se mobilizam para estarem presentes na parada em honra de Adolf Hitler, um evento que reforça a aliança entre Itália e Alemanha, embora alguns personagens não se desloquem ao local, tais como Gabriele e Antonietta. É exactamente a partir de Gabriele e Antonietta e deste contexto histórico que Ettore Scola aborda temáticas relacionadas com o fascismo, o machismo, o papel da mulher na sociedade, a intolerância, a homofobia, sempre sem descurar o desenvolvimento da ligação que une de forma efémera os personagens interpretados por Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Marcello Mastroianni e Sophia Loren repetem uma parceria que contou com excelentes resultados em obras cinematográficas como "Ieri, oggi, domani" e "Matrimmonio all'italiana" (ambas de Vittorio De Sica), com Ettore Scola a aproveitar a química e o talento dos dois intérpretes para elevar "Una giornata particolare" e desenvolver de forma subtil a relação entre Antonietta e Gabriele. A subtileza é a palavra de ordem no efémero affair entre Antonietta e Gabriele, com Ettore Scola a dar tempo para que as particularidades dos personagens e as suas dinâmicas sejam devidamente desenvolvidas.

22 agosto 2017

Resenha Crítica: "La madre" (A Mãe)

 A partir de um determinado momento de "La madre", a nova longa-metragem realizada por Alberto Morais, quase que apetece começar a contar o número de vezes que Miguel (Javier Mendo) telefona para a mãe e esta não atende o telemóvel. Miguel liga imensas vezes para a sua progenitora (Laia Marull), embora esta raramente atenda, com as chamadas a serem remetidas para o atendedor de chamadas, enquanto a falta de perspicácia do jovem começa a exasperar-nos. Percebemos que Miguel quer acreditar em Carmen, a sua mãe, uma figura constantemente ausente, mas, a partir de um determinado momento, a repetição excessiva destes telefonemas acaba por servir mais para expor o lado redundante de "La madre" do que para exacerbar o desespero do adolescente. É um exemplo paradigmático das redundâncias que marcam este drama previsível e insosso, com Alberto Morais a realizar um filme onde a esperança escasseia, seja para os personagens ou para o espectador que espera por um rasgo que permita a "La madre" não ser apenas mais uma obra cinematográfica que aborda a história de um adolescente que é colocado diante de problemas típicos dos adultos e habita num meio complicado. No início de "La madre", encontramos Miguel a vender pacotes de lenços de papel no interior de um parque de estacionamento, algo revelador das poucas condições financeiras deste jovem de catorze anos de idade. Miguel deveria estar a pensar em estudar, divertir-se e formar amizades, tal como os adolescentes da sua idade, embora "La madre" deixe bem claro que estamos perante um jovem que tem de lidar de perto com as dificuldades. Javier Mendo incute um tom lacónico e um olhar triste a Miguel, um adolescente que tem uma enorme propensão para cometer erros e um rosto desprovido de alegria. Miguel mantém uma relação conturbada com Carmen, uma mulher irresponsável e desempregada, que não parece conseguir tomar conta do filho, nem de si própria, com Laia Marull a transmitir a passividade e a personalidade errática desta personagem. O lar de Carmen e Miguel reflecte paradigmaticamente as dificuldades financeiras destes personagens, com "La madre" a deixar-nos diante de um espaço praticamente despido de luxos e de alegria, com o trabalho na decoração de cenários a revelar-se simples e eficaz. Quem se prepara para inserir mais incerteza a este lar são dois elementos do centro de detenção para menores, uma instituição onde Miguel já esteve instalado, com o protagonista a não pretender regressar a este local.

21 agosto 2017

Resenha Crítica: "Dog Eat Dog" (Como Cães Selvagens)

 "From the creator of Taxi Driver and Raging Bull". Esta frase marca um dos posters de "Dog Eat Dog" (em Portugal: "Como Cães Selvagens"), a nova longa-metragem realizada por Paul Schrader. Diga-se que essa frase atormentou a minha mente ao longo da visualização de "Dog Eat Dog". Como é que alguém que escreveu o argumento de duas obras-primas conseguiu encontrar potencial em algo tão desprovido de interesse como "Dog Eat Dog"? É certo que a carreira de Paul Schrader já conheceu melhores dias, mas é simplesmente frustrante verificar como o cineasta não consegue oferecer mais do que um thriller banal, marcado por diálogos maioritariamente risíveis, péssimos efeitos especiais, acção estilizada e personagens desprovidos de dimensão. Junte-se um Nicolas Cage capaz do melhor e do pior, com uma interpretação que apenas contribui para exacerbar a incoerência que incute à composição do personagem a quem dá vida e "Dog Eat Dog" começa a despertar um interesse semelhante a um acidente: sabemos que é mau, mas não conseguimos desviar o olhar. Outra das perguntas que me ocorreu após ter visionado "Dog Eat Dog" é a seguinte: Quem é que achou que seria boa ideia colocar Nicolas Cage a imitar a voz e os trejeitos de Humphrey Bogart? É algo simplesmente ridículo e caricato, que exibe a falta de rumo de um filme que pensa ser mais irreverente e audacioso do que é na realidade. Nicolas Cage interpreta Troy, um indivíduo que saiu recentemente da prisão e permite que o intérprete exiba alguns dos seus cageísmos. Troy gosta de recorrer aos serviços de prostitutas, admira Humphrey Bogart e protagoniza alguns crimes ao lado de Mad Dog (Willem Dafoe) e Diesel (Christopher Matthew Cook). Willem Dafoe é o grande trunfo do filme, com o actor a incutir um estilo niilista, tresloucado e cocaínado a Mad Dog, um personagem viciado em drogas e propenso a tomar as piores decisões.

19 agosto 2017

Resenha Crítica: "Mulholland Dr." (2001)

 A tonalidade vermelha está muito presente em "Mulholland Dr.", seja no batom ou no verniz das unhas de algumas personagens, ou nas cortinas e outros adereços dos cenários, ou nas luzes que envolvem os espaços por onde circulam as figuras que pontuam o enredo desta obra cinematográfica inebriante, envolvente, surreal e dotada de diversos elementos noir e de imenso mistério. Não é uma novidade nos filmes de David Lynch, tanto a utilização certeira da cor vermelha como as características surreais e noir, com "Mulholland Dr." a confirmar a genialidade do cineasta e a sua capacidade para nos deixar à deriva, presos às sensações despertadas por aquilo que estamos a observar e inquietos em relação a todos os pormenores que envolvem esta obra cinematográfica. Quem tem uma apetência notória para utilizar a cor vermelha é Rita (Laura Harring), uma espécie de femme fatale que no início do filme é alvo de uma tentativa de assassinato e ainda sofre um acidente de viação nas imediações de Mulholland Drive. Rita sobrevive, mas fica temporariamente sem memória, embora tenha a sensação de que a sua vida está em perigo, uma situação que a compele a esconder-se no interior de um apartamento que se encontra aparentemente desabitado. Pouco tempo depois, também Betty (Naomi Watts) chega ao apartamento, com a habitação a pertencer à tia desta personagem. Betty é uma aspirante a actriz, aparentemente algo inocente e optimista, que viajou até Los Angeles para efectuar testes para integrar o elenco de uma obra cinematográfica. A aspirante a actriz pensa inicialmente que Rita é uma amiga da tia, até ligar a esta última e perceber que precisa de obter mais informação em relação à estranha que se encontra no interior do apartamento. Com longos cabelos negros, batom vermelho saliente, unhas pintadas de encarnado e uma postura a fazer recordar uma femme fatale dos filmes noir, Laura Harring incute algum mistério, sensualidade e aparente fragilidade à personagem que interpreta. Por sua vez, Naomi Watts transmite alguma da inocência e da vivacidade de Betty, uma jovem adulta de cabelos loiros, uma personalidade aparentemente afável e uma faceta de detective dos filmes noir, com a aspirante a actriz a formar uma forte ligação com Rita. Naomi Watts e Laura Harring convencem-nos da grande proximidade que se forma entre Betty e Rita, com David Lynch a estabelecer eficazmente as dinâmicas entre estas personagens, até começar a desvendar alguns dos segredos que envolvem a dupla.

15 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wild at Heart" (Um Coração Selvagem)

 Não faltam gritos, sentimentos expostos de forma exagerada, situações peculiares, referências a "The Wizard of Oz", imensa violência, episódios surreais, figuras que escapam ao cumprimento da lei, interpretações propositadamente artificiais, revelações escabrosas, cigarros tragados em grande velocidade e uma banda sonora que realça os ritmos intensos e selvagens do filme e dos personagens em "Wild at Heart", uma delirante obra cinematográfica realizada por David Lynch. É o Heavy Metal e o Rock and Roll a apoderarem-se da alma e do coração do filme, bem como do âmago de Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula Pace Fortune (Laura Dern), um casal explosivo que conta com dinâmicas muito próprias, um enorme apetite sexual e uma grande propensão para expor os sentimentos de forma exagerada. Estamos diante de uma dupla de protagonistas que protagoniza uma série de momentos dignos de atenção, seja uma tórrida cena de sexo, ou danças que envolvem movimentos de luta, com Nicolas Cage (pronto a converter qualquer um ao cageísmo) e Laura Dern (em nova colaboração com David Lynch após o marcante "Blue Velvet") a contarem com desempenhos meritórios. Nicolas Cage imprime uma faceta deliciosamente exagerada, errática, peculiar e rebelde a Sailor Ripley (um nome genial para um personagem), um indivíduo que anda quase sempre acompanhado de um casaco de pele de cobra (que considera um símbolo da sua individualidade e da sua crença na liberdade pessoal). Laura Dern incute uma mescla de infantilidade e arrojo a Lula, uma jovem adulta com um enorme apetite sexual, um gosto notório pela música e pela aventura, uma personalidade estouvada e uma paixão forte por Sailor. É em aventuras e problemas que Lula e Sailor se envolvem, sobretudo após este último sair da prisão, vinte e dois meses depois de ter sido encarcerado. No início de "Wild at Heart" encontramos um assassino a tentar eliminar Sailor, a mando de Marietta (Diane Ladd), a mãe de Lula, embora o protagonista acabe por levar a melhor e consiga matar o criminoso. Marietta procura fazer de tudo para separar o casal, em grande parte devido a pensar que Sailor sabe algo mais do que deixa transparecer em relação à morte do progenitor de Lula, enquanto a jovem encontra-se longe de aceder às pretensões da mãe, algo notório quando enceta uma longa viagem ao lado do amado, com a dupla a ser seguida de perto pelos elementos que a primeira envia para eliminar o protagonista.

14 agosto 2017

Resenha Crítica: "Sangailes vasara" (O Verão de Sangailé)

 "Sangailes vasara" (em Portugal: "O Verão de Sangailé") é um filme dotado de alguns planos belíssimos, uma atmosfera luzidia e uma vontade enorme de ser doce. A espaços parece que estamos a entrar no interior de um conto de encantar, pontuado por enorme inocência e pela típica história de amadurecimento e ultrapassagem dos medos. A banda sonora também ajuda a essa sensação de leveza, romantismo e doçura, tal como a chegada regular dos raios de Sol, capazes de aquecerem o coração, a alma e os sentimentos. O problema é quando "Sangailes vasara" tenta encontrar a beleza e o romantismo onde estes não existem, com Alante Kavaite, a realizadora e argumentista, a parecer mais preocupada em incutir um tom onírico e sedutor ao filme do que em abordar as temáticas com complexidade. É uma oportunidade perdida, mas Alante Kavaite prefere evitar o choque e prosseguir por um caminho mais simples ou açucarado, algo notório na forma quase romântica e extremamente irresponsável como são expostas as auto-mutilações de Sangailé (Julija Steponaityte). Esta é uma jovem de dezassete anos de idade, algo reservada e solitária, que se encontra de férias de Verão e tem como hobbies observar os aviões a circularem num espectáculo aeronáutico, procrastinar e protagonizar longos períodos de silêncio. É nestas férias que Sangailé conhece o tédio, o amor, a amizade e a coragem para ultrapassar alguns dos seus medos e afirmar a sua personalidade, com o momento em que trava conhecimento com Austé (Aiste Dirziute), uma jovem que trabalha no refeitório da estação eléctrica, a mudar por completo a sua vida. Austé conta com vários amigos, gosta de desenhar roupas, aprecia tirar fotografias, tem algum talento para cozinhar bolos e denota ser afável. Sangailé e Austé travam conhecimento durante um espectáculo aeronáutico, com a segunda a fazer com que a protagonista ganhe um concurso, embora esta rejeite o prémio, nomeadamente, voar com o campeão Jurgis Kairysi. A razão é simples e explicada numa fase mais adiantada do enredo: Sangailé tem vertigens (embora, ultrapasse rapidamente este sintoma). Mais tarde, Sangailé reúne-se com Austé, com a dupla a formar uma relação de enorme amizade e proximidade que culmina num romance adolescente pontuado por sentimentos quentes e diversas situações marcantes, com Julija Steponaityte e Aiste Dirziute a contarem com uma dinâmica relativamente competente. 

12 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wind River" (2017)

 Na sua superfície, "Wind River" é um thriller que envolve uma investigação intrincada no interior de uma reserva indígena. No seu núcleo, é um filme sobre o sentimento de perda e a dor provocada pela morte de alguém que amamos. É, também, um filme sobre um território de fronteira marcado pela forte presença da neve e da solidão, com Taylor Sheridan a não poupar nos planos bem abertos que nos deixam perante o isolamento, a desesperança e as características algo opressoras desta reserva situada no estado do Wyoming. As árvores estão despidas, as cores frias predominam, os predadores andam à solta, a falta de elementos que façam cumprir a lei dificulta o combate ao crime, enquanto que a neve cobre praticamente todos os poros da segunda longa-metragem realizada por Taylor Sheridan, quase que a dar o mote para a frieza e desolação que marcam alguns dos cenários que são apresentados e a acentuar uma certa sensação de insegurança e instabilidade. A banda sonora adensa essa atmosfera de insegurança, com o trabalho de Nick Cave e Warren Ellis a tanto contribuir para despertar um sentimento de melancolia e de desesperança como de receio e opressão. Diga-se que a insegurança contamina quase todos os poros desta reserva, algo que podemos comprovar desde os momentos iniciais do filme, com Taylor Sheridan a deixar um aperitivo para a violência que vai permear uma parte significativa desta obra cinematográfica. Nos momentos iniciais de "Wind River" somos colocados perante Natalie (Kelsey Asbille), uma índia de dezoito anos de idade, enquanto esta corre de forma desesperada e avança por um cenário hostil, pontuado pela presença forte da neve e do frio. Mais tarde descobrimos que esta faleceu. Antes de obtermos essa informação, "Wind River" deixa-nos perante Cory Lambert (Jeremy Renner), um caçador com ares de cowboy solitário, a disparar de forma certeira sobre um grupo de lobos. O sangue tinge a neve e realça a perícia de Cory para caçar predadores, algo que conduz as autoridades locais a designarem o protagonista para eliminar um ou mais pumas que estão a dar cabo do gado de Dan (Apesanahkwat), o pai de Wilma (Julia Jones), a ex-mulher do caçador. Regularmente vestido com roupas castanhas, uma tonalidade que remete para o isolamento e para a disciplina do protagonista, Jeremy Renner incute seriedade, dureza e melancolia a Cory, um caçador letal e perspicaz, especialista em analisar pistas, que nem sempre consegue dar a atenção devida a Casey (Teo Briones), o seu filho, embora ame o rapaz, enquanto lida com a dor provocada pela morte da filha.

08 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wiener-Dog - Uma Vida de Cão"

 "Wiener-Dog" não funciona como comédia negra. Também não funciona como comédia de costumes, nem acerta quando tenta avançar por caminhos mais dramáticos. Os seus personagens são completamente desinteressantes, o seu argumento é de uma pobreza franciscana e a realização de Todd Solondz é demasiado insossa, enquanto que os actores e as actrizes que constam na ficha do elenco apenas se limitam a compor caricaturas superficiais e desprovidas de dimensão. É um filme que nos deixa com a amarga sensação de apenas termos perdido tempo da nossa vida, que se acha mais divertido e inteligente do que é na realidade, que quer à força provocar o choque e o riso, mas apenas desperta indiferença. Tal como em "Happiness", Todd Solondz coloca-nos diante de um núcleo alargado de personagens, ainda que o enredo de "Wiener-Dog" esteja dividido em quatro histórias, com todos estes capítulos a serem unidos pela presença de uma cadela da raça dachshund. Diga-se que a pobre cadelinha surge como uma mera desculpa para Todd Solondz colar quatro histórias sensaboronas com cuspo, enquanto procura satirizar alguns elementos da sociedade dos EUA. No primeiro capítulo, "Wiener-Dog" coloca-nos perante Danny (Tracy Letts), um indivíduo financeiramente abonado que decide adquirir uma dachshund para Remi (Keaton Nigel Cooke), o seu filho, um rapaz que outrora padeceu de cancro. Por sua vez, Dina (Julie Delpy), a esposa de Danny e mãe de Remi, exibe desde logo a sua insatisfação pela presença da cadela, enquanto que o rapaz demonstra um certo entusiasmo por contar com a companhia desta criatura dotada de enormes doses de fofura. Não demora muito tempo para percebermos que Danny e Dina não gostam de cães, nem sabem lidar com os mesmos, algo notório quando deixam a cadela fechada numa espécie de gaiola e exibem uma faceta questionável para com o animal de estimação. É uma maneira simplista de Todd Solondz satirizar aquele grupo de pessoas que compra cães, mas não tem paciência, nem tempo para educá-los e acompanhá-los, com "Wiener-Dog" a deixar-nos diante de um casal desagradável e de um jovem extremamente ingénuo, com o trio a não despertar o nosso mínimo interesse ou atenção. Diga-se que a crítica efectuada por Todd Solondz até é pertinente (continua-me a fazer confusão quando percebo que algumas pessoas compram ou adoptam cães sem saberem minimamente as características das raças, algo que gera muitas das vezes abandonos ou devoluções), mas é efectuada sem a mínima inspiração ou mordacidade, algo que retira algum do possível impacto a esta história.

07 agosto 2017

Resenha Crítica: "Une vie" (A Vida de Uma Mulher)

 Ao longo de "Une vie" (em Portugal: "A Vida de Uma Mulher") é possível encontrarmos diversos planos que se centram em Jeanne (Judith Chemla), à janela, a observar o território que rodeia a sua casa. São planos que contribuem para exibir na perfeição a solidão desta personagem e a sua personalidade observadora, com o espaço exterior a ser exposto de forma algo desfocada e a transmitir simultaneamente uma sensação de liberdade e de clausura, enquanto a habitação tanto permite proteger esta mulher como proporcionar-lhe imensas desilusões e deixá-la presa aos seus pensamentos. Jeanne é uma personagem em constante descoberta, criada pelos pais numa espécie de redoma, sem conhecer a malícia ou dificuldades, que tem no casamento um momento fulcral da sua vida. Tudo parecia perfeito, com Julien (Swann Arlaud) a prometer amar Jeanne para toda a vida, enquanto esta aparenta acreditar nessas palavras, pelo menos até os actos do esposo começarem a destoar do discurso. Diga-se que "Une vie" é um filme de poucas palavras, com boa parte do poder dos seus acontecimentos a estar nos silêncios, nos rostos que muito exprimem e muito escondem, ou nas elipses que agilizam e dinamizam a narrativa, embora nem sempre sejam utilizadas de forma harmoniosa. Uma das personagens que se exprime muitas das vezes através do silêncio é Jeanne, uma mulher que aos poucos descobre um lado mais obscuro da Humanidade, um pouco a fazer recordar aquilo que acontece com Thierry (Vincent Lindon), o protagonista de "La loi du marché". Tal como Thierry, também Jeanne procura manter a dignidade em situações adversas, enquanto Stéphane Brizé "despe" os seus intérpretes e faz com que estes encarnem por completo os personagens que interpretam. Judith Chemla transmite ingenuidade e fragilidade como Jeanne, sempre sem uma expressividade excessiva, com o seu rosto a dizer imenso e a expor a forma cruel como a realidade começa a magoar a alma desta mulher. A começar pela relação com o esposo, com Julien a não ter problemas em exibir uma postura fria para com a sua cara-metade. Note-se quando Julien reclama com a esposa devido a esta gastar demasiada lenha e velas, uma situação que coloca em evidência que a doçura dos primeiros momentos do matrimónio está a conhecer a amargura das descobertas pouco agradáveis, típicas de um casal que não se conhecia bem antes de se casar. Até então, Jeanne apenas conhecera o calor proporcionado por Simon-Jacques (Jean-Pierre Darroussin) e Adélaïde (Yolande Moreau), os seus pais, um casal aparentemente feliz, financeiramente abonado, que conta com uma mentalidade relativamente aberta (para a época) e tenta proteger a filha, embora esse objectivo nem sempre seja fácil de alcançar.

05 agosto 2017

Resenha Crítica: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar"

 "Hampstead" (em Portugal: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar") é um filme banal, marcado por uma pífia utilização dos lugares-comuns, uma enorme vontade de exibir a sua faceta feel good e uma incapacidade gritante para desenvolver algumas das temáticas que lança para o interior do enredo. No entanto, "Hampstead" ganha todo um outro interesse se encararmos esta obra cinematográfica como um exercício que nos permite observar a forma sagaz como Diane Keaton e Brendan Gleeson ultrapassam as armadilhas de um argumento pouco inspirado ao mesmo tempo que conseguem incutir vida e sensibilidade aos personagens que interpretam. Diane Keaton dá vida a Emily Walters, uma viúva na casa dos sessenta ou setenta anos de idade, que colecciona problemas financeiros, descura por completo a organização da sua casa e é mãe de Philip (James Norton), um indivíduo que parece ter nascido da união entre um casal de argumentistas que resolveu procriar num momento de desinspiração. Emily trabalha como voluntária numa loja solidária, a espaços contacta com o filho (uma figura ausente, que de vez em quando aparece para nos recordar que a protagonista tem problemas financeiros) e desperta a atenção de James (Jason Watkins), um contabilista com uma apetência notória para protagonizar situações embaraçosas. Embora não seja completamente solitária, Emily encontra-se algo deslocada em relação às figuras que a rodeiam em Hampstead, um espaço onde quase todos são ricos e gostam de organizar petições (de acordo com o filme). Diga-se que Emily conta em alguns momentos com a companhia das suas vizinhas, sobretudo Fiona (Lesley Manville), uma dondoca que procura encontrar um companheiro para a viúva, gosta de efectuar despesas fúteis e é imensamente superficial, com Lesley Manville a limitar-se a incutir o máximo de estereótipos e de frivolidade a esta mulher. Por sua vez, Brendan Gleeson interpreta Donald Horner, uma espécie de cliché do rabugento de bom coração, um indivíduo solitário que vive há dezassete anos numa cabana situada no Hampstead Heath, tendo construído esta habitação sem qualquer acordo legal. Donald gosta de pescar e de plantar os seus alimentos, enquanto procura viver de forma calma e solitária no bosque, se possível bem longe da Humanidade, embora esta faça questão de o importunar. O sossego de Donald termina a partir do momento em que começa a ser assediado por uma empresa de construção civil que pretende construir uma série de apartamentos de luxo no terreno onde este se encontra a habitar, uma situação que lhe proporciona algumas dores de cabeça. 

04 agosto 2017

Resenha Crítica: "Verão Danado" (2017)

 O dia é a noite e a noite é o dia para os personagens de "Verão Danado", quase como se estes estivessem presos no interior de um movimento perpétuo que se move às custas dos prazeres fugazes, da energia contida que clama por ser extravasada e da falta de perspectivas para o futuro. A noite é aproveitada para festejar, conviver, coleccionar conquistas, discussões, libertar energia, fortalecer amizades ou travar conhecimentos, com as emoções a palpitarem ao ritmo da batida da música que acompanha cada festa, enquanto o álcool, o tabaco e os charros são de consumo quase que obrigatório e as regras são temporariamente esquecidas. O dia também é aproveitado, mas praticamente como um aquecimento para a noite, ou não estivéssemos diante de um grupo de jovens adultos que se encontram quase todos licenciados e desempregados, muitos sem perspectivas de futuro, que procuram desfrutar dos prazeres da juventude, inebriar a angústia e conter os sonhos ao mesmo tempo que lidam de forma muito própria com a passagem do tempo. Tanto procuram desfrutar de cada segundo como se fosse o último como tratam o avançar do relógio como uma mera formalidade que permite perpetuar os momentos de lassidão, enquanto protagonizam uma série de episódios ao longo deste Verão danado, que lhes aquece a alma e inquieta o espírito. É a chamada "geração sem remuneração", com Pedro Cabeleira, um estreante na realização de longas-metragens, a colocar-nos diante de um filme que pulsa vida, cinema e emoções, enquanto nos deixa diante da "noite-a-noite" de Chico (Pedro Marujo), um jovem adulto, licenciado em filosofia, ou seja, desempregado. De barba saliente, uma propensão notória para fazer questões (sejam estas pertinentes ou inconvenientes) e meter conversa com jovens da sua idade, Chico vive numa espécie de limbo, preso às indefinições em relação ao seu futuro e às sensações inebriantes e sedutoras dos prazeres efémeros. Fuma imenso, seja cigarros ou charros, bebe sem travões quando está em festas, colecciona conquistas e protagoniza uma série de episódios e diálogos típicos de alguém da sua idade. Diga-se que um dos méritos de "Verão Danado" é fazer com que acreditemos nos diálogos dos personagens ao ponto de parecer que estamos mesmo diante de jovens adultos a falarem uns com os outros. Mérito para o elenco e para o argumento, bem como para a capacidade de Pedro Cabeleira em criar todo um ambiente credível em volta dos personagens e do meio que os rodeia.

03 agosto 2017

Resenha Crítica: "Blue Velvet" (Veludo Azul)

 A expressão "It's a strange world" é utilizada por quatro vezes ao longo de "Blue Velvet", algo que remete para atmosfera bizarra, peculiar e intensa que permeia o enredo desta hipnótica obra cinematográfica realizada por David Lynch. As marcas do cineasta encontram-se vincadas em quase todos os poros de "Blue Velvet", seja na forma como é capaz de simultaneamente hipnotizar e repelir o espectador, ou de inserir elementos surreais e violentos ao enredo, ou a controlar por completo os ritmos da narrativa e a explorar a paleta de cores ao serviço da história e da construção dos personagens, enquanto nos coloca diante de uma investigação que ganha contornos bizarros, inesperados e intensos. Essa investigação é protagonizada por Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), um jovem adulto aparentemente calmo, apreciador de cerveja Heineken, que conta com uma curiosidade notória e surge como uma espécie de detective de carácter dúbio dos filmes noir. Diga-se que "Blue Velvet" deixa-nos perante diversos elementos transversais aos filmes noir, tais como a femme fatale, a insegurança nos espaços citadinos, a atmosfera de malaise, a investigação intrincada, o clube nocturno, as figuras que se movem pelas sombras, os personagens de carácter ambíguo e um protagonista que se movimenta pelas margens da imoralidade. Jeffrey envolve-se com a ingénua, com a femme fatale e acaba pelo caminho por se deparar com psicopatas, polícias corruptos, assassinos, traficantes e outras figuras do género, ou seja, que apimentam e muito o regresso do protagonista a Lumberton. Nos momentos iniciais de "Blue Velvet" encontramos Jeffrey a regressar a Lumberton, a cidade que o viu nascer, tendo em vista a administrar os negócios do pai (Jack Harvey), um indivíduo que se encontra temporariamente hospitalizado. É um regresso atribulado, com Jeffrey a deparar-se com uma orelha humana no interior de um espaço verdejante, uma situação que o conduz a entregar este órgão vestibulococlear às autoridades, nomeadamente, ao detective John Williams (George Dickerson). Este agradece a prestabilidade de Jeffrey e promete averiguar o caso, embora tente que o protagonista não faça mais questões enquanto a investigação está em curso. Claro está que Jeffrey quer saber mais, seja sobre a identidade do elemento que ficou sem orelha, ou em relação à forma como este órgão foi retirado, com a entrada em cena de Sandy (Laura Dern), a filha de John, a facilitar a vida do protagonista.