26 julho 2017

Resenha Crítica: "London Town" (2016)

 "London Town" é um filme simples, que sabe utilizar essa simplicidade como um dos seus principais atributos. No seu cerne está a história de um adolescente que se encontra a formar a sua identidade, a conhecer o primeiro amor, a desafiar a autoridade paterna e a descobrir a banda The Clash, enquanto tem de lidar com uma série de responsabilidades típicas dos adultos. Em pano de fundo temos Inglaterra em plena década de 70, marcada pelos protestos populares, pela música punk e pela ameaça xenófoba da Frente Nacional Britânica, com "London Town" a utilizar o contexto histórico para adornar a história do protagonista e dialogar com o nosso tempo. É um filme que não procura desenvolver os seus temas de forma complexa, ou determinada, nem foge aos lugares-comuns, mas nem por isso é menos convincente na abordagem das suas temáticas, enquanto nos coloca diante de uma magnífica banda sonora, pontuada por uma série de músicas dos icónicos The Clash. O adolescente que mencionámos é Shay Baker, interpretado com acerto e confiança por Daniel Huttlestone, com o jovem intérprete a transmitir as dúvidas, inquietações e certezas que perpassam pela mente do protagonista. Shay vive com Nick Baker (Dougray Scott), o pai, num pequeno apartamento situado em Wanstead (nos subúrbios de Londres), bem como com Alice (Anya McKenna-Bruce ), a irmã, uma rapariga de seis anos de idade e uma personalidade afável. Sandrine (Natascha McElhone), a mãe de Shay e Alice, divorciou-se há bastantes anos de Nick, tendo partido para Londres em busca de uma carreira no mundo da música e de um estilo de vida libertino. Shay pondera reunir-se com a mãe, sobretudo após receber uma carta desta que contém uma cassete com uma série de músicas, entre as quais "(White Man) In Hammersmith Palais", da banda The Clash, liderada por Joe Strummer (Jonathan Rhys Meyers). É o primeiro contacto que Shay tem com esta banda, embora fique desde logo siderado com as letras e o estilo punk dos The Clash, algo que adensa o desejo que o jovem tem em contactar com a mãe. Nick não se exibe particularmente favorável, ou entusiasmado em relação à possibilidade dos filhos reunirem-se com Sandrine. "No child of mine is gonna live in a bloody squat with a bunch of hippies let alone, look at me let alone with a woman more interested in being her 14-year-old's mate than his mother" diz Nick para o filho, enquanto o jovem Shay completa o ritual típico da adolescência de desafiar a autoridade paterna.


 A relação entre Shay e Nick é desenvolvida com sobriedade e eficácia ao longo do filme, com o argumento a explorar com acerto as dinâmicas destes dois personagens, sempre sem se aventurar por conflitos com consequências marcantes. Dougray Scott imprime um tom ponderado e sensato a Nick, um indivíduo que possui uma loja de instrumentos musicais (centrada na venda de pianos), para além de trabalhar de noite como taxista, enquanto tenta pagar as contas a tempo e horas. Temos sintomas de crise, expostos através de Nick, ou dos protestos populares, ou da aderência gerada pela Frente Nacional Britânica, um partido de extrema direita. Estamos nos finais da década de 70, em plena governação de Margaret Thatcher e da popularidade de bandas como os The Clash, com as dinâmicas deste período histórico a mexerem com Shay, bem como com o enredo. Shay ajuda o pai a cuidar da casa e da loja de instrumentos musicais, mas anseia por algo de diferente para a sua vida. "Oh, I've got to get to London", diz para um amigo. E acaba mesmo por ir, ainda que temporariamente, nomeadamente, quando o pai lhe pede para adquirir algumas peças para a loja. É nessa viagem que Shay conhece Vivian Daniels (Nell Williams), uma adolescente que é fã dos The Clash, gosta de se vestir ao estilo punk e utiliza a irreverência e o atrevimento para esconder alguns segredos. A química entre Nell Williams e Daniel Huttlestone é convincente desde o primeiro momento em que Vivian e Shay entram em diálogo, com a dupla a protagonizar uma série de episódios pontuados por algum humor, aventura, romance e umas doses diminutas de drama. Shay fica desde logo encantado com Vivian, enquanto parece certo que a relação destes dois tem tudo para fruir em algo mais do que uma "simples" amizade. A descoberta do amor coincide com outras descobertas efectuadas por Shay, tais como o gosto pela música punk e pelos The Clash, enquanto vagueia pelos problemas típicos da adolescência e pelas responsabilidades dos adultos, sobretudo quando o pai sofre um acidente e tem de permanecer hospitalizado. Temporariamente sem a presença do pai, Shay é praticamente obrigado a tomar conta do lar, seja a trabalhar ou a cuidar de Alice, enquanto tenta manter os credores afastados e enfrenta os desafios colocados pelo destino. Pelo meio ainda aprende a conduzir o táxi do pai, vai a um concerto dos The Clash, participa em manifestações, reencontra-se com a mãe, inicia um romance com Vivian e forma uma estranha ligação com Joe Strummer, com "London Town" a pontuar estes episódios com uma mistura de humor e drama, sempre sem esticar os conflitos ou os problemas de forma a não perder a sua faceta de feel good movie.


 Não deixa de ser algo irónico que um filme que reverencia uma banda como os The Clash não procure cometer riscos, com Derrick Borte a preferir realizar tudo de forma certinha, simples e simpática. No entanto, Derrick Borte é competente a efectuar aquilo a que se propõe, nomeadamente, abordar a história de um adolescente que se encontra naquele período intrincado entre a infância e a idade adulta, sempre tendo o contexto histórico e os The Clash como pano de fundo. Não é a história de Joe Strummer ou dos The Clash que é apresentada, tal como não é efectuada uma abordagem exaustiva aos episódios históricos, com tudo a servir o propósito de abordar a caminhada de Shay em direcção à idade adulta. É certo que ainda existe algum cuidado a representar o período histórico, seja no guarda-roupa, nos cartazes que marcam as ruas ou na decoração das casas, ou no comportamento dos personagens, mas o principal interesse de "London Town" está em Shay e nas estranhas coincidências que ligam este adolescente a Joe Strummer. Note-se o encontro fortuito entre ambos na prisão, ou quando Shay está a conduzir o táxi do pai, enquanto Jonathan Rhys Meyers rouba por completo as atenções. Jonathan Rhys Meyers é um dos destaques do elenco, com o actor a incutir energia, rebeldia, carisma e irreverência ao seu Joe Strummer. Também Natascha McElhone tem algum espaço para sobressair, sobretudo quando Shay é praticamente obrigado a visitar a mãe, com a actriz a colocar em evidência o lado irresponsável desta personagem pouco dada a seguir quaisquer regras ou responsabilidades. O maior destaque do elenco é o jovem Daniel Huttlestone, com o actor a transmitir a curiosidade que o protagonista tem em descobrir todo "um mundo" novo no centro de Londres, enquanto conhece pela primeira vez o amor e protagoniza uma série de episódios que prometem marcar a sua existência. Temos ainda alguns comentários sobre a sociedade inglesa deste período, com a xenofobia, o desemprego e as dificuldades financeiras da classe trabalhadora a surgirem em pano de fundo, ainda que de forma quase ilustrativa. Entre músicas dos The Clash, comentários do foro social, um romance típico da adolescência, descobertas efectuadas pelo protagonista e interpretações sólidas, "London Town" surge como uma obra simples e eficaz no cumprimento dos seus propósitos, enquanto nos compele a seguir os seus personagens com alguma atenção e interesse. 


Título original: "London Town".
Realizador: Derrick Borte.
Argumento: Matt Brown.
Elenco: Daniel Huttlestone, Dougray Scott, Natascha McElhone, Nell Williams, Jonathan Rhys Meyers, Anya McKenna-Bruce.

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