19 julho 2017

Resenha Crítica: "Dunkirk" (2017)

 Já entraram numa sala de cinema com uma vontade enorme de gostar de um filme? É algo que por vezes me acontece quando estou diante de filmes de cineastas que admiro, ou que contam com actores e actrizes por quem tenho uma especial simpatia. Christopher Nolan é um desses cineastas. Também não sei se já apanharam uma enorme desilusão em relação a algum desses filmes em que depositavam algumas esperanças. É algo que de vez em quando me acontece. "Dunkirk" é um desses casos em que gostava de me ter sentido arrebatado pelo filme, mas este apenas conseguiu despertar a minha indiferença. Parece contraditório dizer que um filme inspirado num episódio Histórico tão marcante como a Operação Dínamo, ocorrido de 26 de Maio a 4 de Junho de 1940, é capaz de despertar indiferença, mas é isso que acontece ao longo desta obra cinematográfica. A ideia inicial é interessante, pelo menos até o trabalho de montagem se tornar caótico a um ponto em que é praticamente impossível seguir todos os episódios com atenção ou preocupação, enquanto Christopher Nolan tenta incutir uma aura de thriller grandioso a "Dunkirk". O cineasta divide a acção pela terra, pelo mar e pelo ar, em diferentes escalas de tempo, enquanto nos apresenta a grupos distintos de personagens (e às suas perspectivas sobre os eventos que decorrem ao longo do filme). Em terra, temos elementos como Tommy (Fionn Whitehead), um soldado que encontramos no início do filme a tentar fugir dos bombardeamentos inimigos, até chegar a uma praia de Dunquerque que surge como um espaço desolador. Não faltam soldados à espera de serem resgatados, enquanto o mar tanto traz uma sensação de esperança e de liberdade como de clausura e desolação. Essa sensação quase claustrofóbica é adensada pelos ataques alemães e pela incerteza que perpassa pela alma destes soldados. É nas imediações deste espaço que Tommy conhece Gibson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Styles), com o trio a pretender regressar a Inglaterra com vida, algo apenas possível se conseguirem entrar a bordo de um barco. A coordenar as saídas dos soldados que se encontram nas praias, enquanto aguardam por regressar a Inglaterra, está o Comandante Bolton, um indivíduo aparentemente justo e cordial, com Kenneth Branagh a conceder alguma dimensão às poucas falas que o seu personagem tem ao longo do filme. Outro dos personagens que a espaços surge em destaque é Mr. Dawson (Mark Rylance), um indivíduo que representa um dos muitos civis que arriscaram as suas vidas ao utilizarem os seus barcos particulares para ajudarem a transportar os militares britânicos de regresso a casa.


 Mark Rylance incute honestidade a este personagem que se desloca desde Inglaterra até às praias de Dunquerque para salvar alguns dos soldados que se encontram encurralados neste local. A acompanhar Mr. Dawson encontram-se George (Barry Keoghan) e Peter (Tom Glynn-Carney), com o trio a ganhar ainda a companhia de um soldado (Cillian Murphy) que serve acima de tudo para Christopher Nolan expor de forma simplista os traumas que a guerra pode provocar. Se George, Peter e o soldado anónimo estão a avançar pelo mar, já Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) são dois pilotos da Royal Air Force que conduzem com perícia os seus Spitfires, enquanto procuram proteger os elementos do lado aliado que se encontram pelas águas ou em terra. Como já deu para perceber, o número de personagens que povoa o enredo de "Dunkirk" é alargado, com Christopher Nolan a tentar expor os diferentes espaços e elementos que envolveram o chamado "Milagre de Dunquerque". O problema é que os personagens praticamente não são desenvolvidos, uma situação que dificulta o desejo de nos preocuparmos com estes elementos que lidam de perto com a incerteza e o perigo. Diga-se que esta falta de desenvolvimento dos personagens é propositada, com "Dunkirk" a preferir destacar os grupos que lutam por um objectivo comum, a brutalidade que rodeia os conflitos bélicos e o acontecimento histórico representado, enquanto utiliza uma montagem caótica para nos colocar perante os diversos episódios que envolvem os elementos apresentados. Christopher Nolan pretende colocar o espectador diante das acções que decorrem em períodos de tempo relativamente distintos e em espaços diferentes, mas essa mistura é feita de forma demasiado anárquica, pronta a despertar a confusão e a fazer com que a nossa atenção seja facilmente desviada, enquanto ficamos perante uma série de personagens que participam num episódio marcante da II Guerra Mundial. A linha que divide a vida e a morte é bastante ténue para estes personagens, com as praias de Dunquerque a surgirem como espaços claustrofóbicos nos quais ninguém parece seguro. Note-se quando o pontão é atingido pelos pilotos da Luftwaffe, ou o momento em que os aviões do Eixo disparam sobre os militares aliados que se encontram na praia.


 Estamos diante da representação de um episódio Histórico que envolveu a evacuação de mais de trezentos mil soldados aliados que se encontravam praticamente encurralados pelas forças do Eixo (o inimigo raramente é exibido, com "Dunkirk" a preferir expor as acções dos alemães), algo que ocorreu num período de tempo relativamente curto e ajuda a explicar o sentido de urgência que Christopher Nolan procura incutir a alguns episódios (quase como se estivéssemos diante de um filme de suspense em que conhecemos o desfecho antes de tempo). Veja-se o episódio em que o barco onde Tommy, Gibson e Alex estão instalados é atingido pelas forças do Eixo, com a morte a querer aproximar-se dos militares que se encontram neste veículo marítimo, enquanto o instinto de sobrevivência de cada elemento parece surgir ao de cima. Note-se ainda os trechos nos quais o soldado interpretado por Cillian Murphy começa a exibir alguns comportamentos perigosos que mexem com as dinâmicas entre Mr. Dawson, Peter (o filho mais novo do personagem interpretado por Mark Rylance) e George, ou as cenas que decorrem no espaço aéreo. Temos ainda os planos bem abertos que realçam a atmosfera desoladora e opressora que envolve alguns episódios na praia, com Christopher Nolan a fazer questão de tentar inserir uma certa tensão ao enredo, enquanto coloca os soldados a tentarem sobreviver e efectuar um milagre. A espaços a tensão é palpável, enquanto em outras ocasiões esta raramente é sentida, embora tudo piore quando a música de Hans Zimmer se sobrepõe aos episódios representados e praticamente faz questão de nos dizer como nos devemos sentir. A juntar a tudo isto, Christopher Nolan decidiu efectuar um filme de guerra sem sangue e vísceras, algo que nos deixa diante de uma obra cinematográfica demasiado clean e pouco representativa da brutalidade e da complexidade que envolveu este episódio marcante da II Guerra Mundial. Christopher Nolan confunde suspense com barulho, pensa que caos é dinamismo, descura o nosso envolvimento com os personagens, enquanto se esquece que já sabemos o resultado final do "Milagre de Dunquerque". Ou seja, se não nos envolvemos com a história e os personagens, muito dificilmente conseguiremos abraçar todo o espalhafato que "Dunkirk" tem para nos dar. Christopher Nolan não se preocupa com isso, enquanto realiza um filme que fica entre a vontade de fazer algo diferente em relação aos blockbusters "anónimos" e a zona de conforto das obras cinematográficas de largo orçamento. "Dunkirk" tem um ou outro bom apontamento, não é um filme nulo, mas Christopher Nolan já nos deu muito melhor. Isso ou a minha relação com as obras de Christopher Nolan chegou àquela famosa fase em que um dos elementos diz para o outro: "o problema não és tu, sou eu" e parte à sua vida.


Título original: "Dunkirk".
Realizador: Christopher Nolan.
Argumento: Christopher Nolan.
Elenco: Mark Rylance, Fionn Whitehead, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, Harry Styles, Aneurin Barnard, James D'Arcy, Barry Keoghan, Kenneth Branagh, Cillian Murphy.

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