15 junho 2017

Resenha Crítica: "O Grande Fúsi" (2015)

 Simples, sensível, estranho e delicado, "O Grande Fúsi" é um drama com traços de romance agridoce, que tem o mérito de saber conquistar a nossa atenção, enquanto nos coloca perante um protagonista pleno de humanidade, que apresenta uma postura letárgica até conhecer duas figuras femininas que mexem com o seu quotidiano e o modo como encara a vida. Esse protagonista é Fúsi (Gunnar Jónsson), um indivíduo prestes a completar quarenta e dois anos de idade, que ainda vive com a mãe e apresenta dificuldades notórias para comunicar com aqueles que o rodeiam. Fúsi trabalha no aeroporto a carregar e a descarregar material dos aviões, sendo alvo de bullying por parte dos colegas de emprego, com a maioria a aproveitar-se da personalidade introvertida e aparentemente passiva deste gigante com coração de manteiga. Com uma estampa física imponente, peso acima da média, uma barba saliente e cabelo comprido, Gunnar Jónsson consegue transmitir a personalidade introvertida, peculiar, passiva e terna do protagonista de "O Grande Fúsi", com o actor a conseguir que acreditemos nas dificuldades que Fúsi encontra para comunicar com aqueles que o rodeiam, ou a efectuar decisões que permitam romper com as suas rotinas repetitivas. Veja-se a normalidade com que este encara a permanência na casa da mãe, ou as dificuldades que apresenta para ocupar o tempo livre ou iniciar um romance. O quotidiano de Fúsi resume-se praticamente a comer cereais de chocolate, a coleccionar figuras para os seus jogos de tabuleiro (que permitam simular batalhas da II Guerra Mundial), a brincar com carros telecomandados e a ouvir música Heavy Metal, tendo em Mörður (Sigurjón Kjartansson) um dos seus poucos amigos. Fúsi ainda é virgem, apresenta uma inocência invulgar para a idade, com quase tudo e todos a questionarem as suas rotinas diárias, com excepção do próprio. Será possível que alguém com quarenta e dois anos de idade consiga viver desta maneira? "O Grande Fúsi" compele-nos a acreditar no protagonista e nos seus comportamentos, bem como no desconforto que este apresenta quando é colocado diante de situações distintas em relação àquelas que programa para o seu quotidiano. Diga-se que Fúsi é um homem muito preso ao seu mundo, pouco dado a grandes demonstrações de entusiasmo e a saídas extravagantes. Veja-se a forma como preenche as suas noites, nomeadamente, a efectuar pedidos de música para a rádio local, enquanto se encontra no carro a observar o mundo que o rodeia, ou as suas saídas para jantar sozinho num restaurante tailandês onde pede sempre o mesmo prato. Num determinado momento de "O Grande Fúsi", encontramos o protagonista a entrar no restaurante tailandês que frequenta regularmente. O dono do estabelecimento faz questão de retirar desde logo os talheres do lugar da frente, com este pequeno acto a reflectir o quotidiano solitário do personagem principal. O dia-a-dia de Fúsi muda quando conhece Hera (Franziska Una Dagsdóttir) e Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir), sobretudo esta última, com o protagonista a começar, ainda que gradualmente, a questionar o seu quotidiano a partir do momento em que convive com estas duas figuras femininas.


Hera é uma rapariga com cerca de seis anos de idade, que se mudou recentemente com o pai para o mesmo prédio de Fúsi. O primeiro diálogo entre o protagonista e a vizinha é desarmante, com esta a efectuar questões num estilo muito próprio dos jovens, ou seja, sem qualquer travão moral. O diálogo ocorre quando o protagonista se encontra a subir as escadas, acompanhado pelo seu novo carro telecomandado, com Hera a questionar se Fúsi comprou o brinquedo para oferecer ao filho ou ao sobrinho, enquanto o personagem do título fica claramente sem saber o que dizer. Posteriormente, Hera ainda questiona a solidão de Fúsi, até formar amizade com este indivíduo peculiar, algo que promete trazer problemas ao protagonista, sobretudo devido ao facto do pai da jovem pensar que o vizinho tem problemas do foro mental. O progenitor de Hera acaba por reflectir, de forma mais vigorosa, a incapacidade que alguns personagens evidenciam para compreenderem o modo de vida de Fúsi. Veja-se as situações degradantes com que Fúsi tem de lidar no trabalho, apenas por ser diferente dos colegas. Sjöfn também conta com os seus problemas, embora consiga esconder os mesmos, pelo menos a nível inicial, com esta mulher a trazer ao de cima uma faceta escondida do protagonista, com Gunnar Jónsson a explanar a enorme humanidade deste indivíduo gigantesco que é capaz de apresentar uma sensibilidade desarmante. Fúsi e Sjöfn travam conhecimento quando este procurava ganhar coragem para frequentar as aulas de música que recebeu como vale-presente de Rolf (Arnar Jónsson), o namorado da sua mãe (Fjóla, interpretada por Margrét Helga Jóhannsdóttir). A neve rodeia o cenário que envolve o local onde decorrem as aulas, fruto de uma tempestade, com Sjöfn a pedir boleia a Fúsi, algo que deixa o protagonista deveras surpreendido. Esta procura fazer perguntas a Fúsi, enquanto o protagonista exibe algum embasbacamento devido a não estar habituado a lidar com mulheres da sua idade, ou a conversar com as mesmas. Sjöfn aparece inicialmente como uma lufada de ar fresco na vida do protagonista, sobretudo após saírem juntos pela primeira vez, jantarem no restaurante favorito de Fúsi, ouvirem música de Dolly Parton e dialogarem na casa da personagem interpretada por Ilmur Kristjánsdóttir. A relação entre Sjöfn e Fúsi não é marcada por uma paixão esfuziante, embora permita unir, ainda que temporariamente, duas almas quebradas pelo destino e por problemas de difícil resolução. Ilmur Kristjánsdóttir exibe quer a faceta bastante vivaz de Sjöfn, quer o lado mais delicado e frágil desta mulher que padece de depressão, ou distúrbio bipolar. Tanto encontramos Sjöfn a pretender sair com Fúsi e a fazer planos para o futuro como a isolar-se ou a alterar completamente aquilo que combinou, com "O Grande Fúsi" a trocar-nos as voltas em relação à apresentação inicial desta personagem.


Sjöfn não conta inicialmente toda a verdade sobre a sua vida particular e profissional, nomeadamente, o facto de trabalhar na recolha do lixo e padecer de uma depressão, com o protagonista a deparar-se com uma situação que não esperava, ou seja, ter de assumir a iniciativa para conseguir ajudar esta mulher por quem nutre sentimentos que ultrapassam e muito a amizade. O argumento nem sempre consegue abordar a depressão de Sjöfn com a devida complexidade, com a doença desta figura feminina a parecer servir acima de tudo como um artifício para expor a personalidade compreensiva do protagonista e como este é compelido a desafiar as suas rotinas para ajudar a mulher que ama. É certo que percebemos a intenção de Dagur Kári, o realizador e argumentista, ou seja, trocar as voltas ao espectador e expor que Fúsi não é tão fraco como parecia, tal como Sjöfn está longe de ser uma força da natureza, mas toda esta temática poderia e deveria ter sido abordada com um pouco mais de densidade. Veja-se quando Sjöfn padece de uma crise que a impede de trabalhar, com Dagur Kári a preocupar-se acima de tudo em expor como Fúsi encara esta situação. As tentativas que Fúsi efectua para ajudar Sjöfn permitem exibir o lado mais sensível do protagonista, bem como a forma como a interacção com esta mulher contribui para que o personagem principal comece a mudar a percepção que formara em relação ao meio que o rodeia. A relação formada por Fúsi e Sjöfn é pontuada por alguma troca de afectos e situações complicadas, com a chegada da segunda a obrigar o primeiro a reflectir sobre o seu modo de vida. Ficamos diante de um interessante estudo de personagem, pontuado por grandes doses de humanidade e um protagonista capaz de conquistar a nossa atenção, com "O Grande Fúsi" a compelir-nos a dedicar a nossa atenção a Fúsi e àqueles que o rodeiam. Gunnar Jónsson é um elemento essencial para "O Grande Fúsi" funcionar, com o actor a transformar-se por completo nesta figura capaz de protagonizar situações dramáticas, românticas e até dotadas de algum humor. Veja-se o cuidado que Gunnar Jónsson coloca na maneira de Fúsi dialogar, permitindo evidenciar o lado pouco comunicativo do protagonista e as dificuldades que denota para expor os seus sentimentos. Fúsi entrou numa espiral descendente que parece persistir acima de tudo devido à inércia desta figura que teria tudo para intimidar aqueles que se colocam no seu caminho, embora este é que se amedronte inicialmente com as adversidades, sejam estas no local de trabalho, ou inerentes ao seu estilo de vida. Uma das personagens que continua a ter uma influência notória na vida do protagonista é Fjóla, a mãe de Fúsi, uma cabeleireira sexualmente activa, que mantém uma relação com Rolf cujos alicerces parecem demasiado frágeis para resultar em algo duradoiro. Diga-se que a relação entre Rolf e Fjóla contribui para um momento pontuado pela estranheza e humor, em particular, quando Fúsi encontra a mãe a fornicar com o namorado, uma situação que provoca algum constrangimento no protagonista. Esse constrangimento é visível quando Fúsi dialoga com Mörður, com este último a surgir como um dos poucos confidentes do protagonista.


  Dagur Kári estabelece e explora eficazmente o quotidiano e a personalidade peculiar do protagonista, bem como as dificuldades que Fúsi apresenta para enfrentar as mudanças, com Gunnar Jónsson a dominar o filme por completo e a surgir como uma peça-chave para que "O Grande Fúsi" mantenha o nosso interesse. Também Ilmur Kristjánsdóttir conta com uma interpretação competente, com a relação que se forma entre Fúsi e Sjöfn a desafiar as convenções dos romances. Diga-se que, apesar de desafiar algumas convenções dos romances, "O Grande Fúsi" aborda temáticas relativamente universais, sempre sem descurar as especificidades do território islandês. Não faltam temáticas como o isolamento, a timidez, a depressão, os filhos que permanecem imenso tempo na casa dos pais, o bullying, as dificuldades de comunicação, entre outras que contam com um cariz relativamente universal. O bullying é um dos temas abordados pelo filme, sendo exposto através dos comportamentos dos colegas de trabalho de Fúsi. Veja-se quando convidam Fúsi para uma festa e não têm problemas em humilhá-lo, ou começam a gozar deliberadamente com o excesso de peso e virgindade do colega de trabalho, algo que permite efectuar um comentário bastante directo sobre a dificuldade destes elementos em aceitarem alguém que consideram diferente. Aos poucos, Fúsi começa a perceber que tem de se impor e lutar, seja por aquilo em que acredita, ou pelo respeito daqueles que o rodeiam, com Dagur Kári a pontuar a narrativa de pequenos episódios que contribuem para algumas mudanças do protagonista, embora a sua essência nunca seja descurada. O argumento é eficaz a desenvolver a evolução de Fúsi ao longo do enredo e a forma como as relações que este forma com outras pessoas, sobretudo Sjöfn, contribuem para compeli-lo a abandonar a letargia que consume a sua alma, com o personagem do título a surgir como um desajustado de boa índole que aos poucos conquista a nossa atenção e simpatia. Os cenários exteriores de "O Grande Fúsi" são muitas das vezes pontuados pela presença da neve e do frio, embora Fúsi esteja longe de ser um protagonista de sentimentos gélidos, bem pelo contrário, com Gunnar Jónson a compor um personagem que exibe toda a sua sensibilidade e humanidade ao longo deste drama simples e sóbrio, dotado de alguns momentos de humor, romance e uma banda sonora certeira.


Título original: "Fúsi".
Título em Portugal: "O Grande Fúsi".
Título em inglês: "Virgin Mountain".
Realizador: Dagur Kári.
Argumento: Dagur Kári.
Elenco: Gunnar Jónsson, Ilmur Kristjánsdóttir, Margrét Helga Jóhannsdóttir, Franziska Una Dagsdóttir, Sigurjón Kjartansson, Arnar Jónsson.

Visto no Filmin: https://www.filmin.pt/filme/o-grande-fusi

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