21 maio 2017

Resenha Crítica: "John From" (2015)

  A partir de um determinado momento de "John From", a imaginação de Rita (Júlia Palha), a protagonista, uma adolescente de quinze anos de idade, começa a tomar conta do corpo e da alma do filme. Desde um carro que se estaciona sozinho, passando por um nevoeiro que consome os cenários e exacerba a confusão que percorre a mente desta adolescente que se encontra apaixonada pelo vizinho, até uma janela que se move e um espaço urbano lisboeta que ganha características exóticas, "John From" balança aos ritmos da sua protagonista, com Rita a assumir um papel fulcral no interior da segunda longa-metragem realizada por João Nicolau. O cineasta permite que o enredo de "John From" ceda à imaginação da protagonista, enquanto nos compele a desfrutar da explosão de fantasia que permeia este universo narrativo ancorado em sentimentos bem reais, tais como o tédio sentido pelos adolescentes ao longo das férias de Verão, ou as sensações incontroláveis das paixonetas durante esta fase da vida em que tudo é vivido e sentido a um ritmo muito especial. O Verão praticamente compele os adolescentes a protagonizarem alguns momentos de lassidão, seja devido ao imenso calor, ou à quebra das rotinas escolares, ou à quantidade assinalável de tempo livre, com a temperatura elevada a contribuir para aquecer os sentimentos e os espaços por onde os personagens de "John From" circulam. Diga-se que João Nicolau é exímio a captar o torpor que envolve o quotidiano dos adolescentes durante as férias de Verão, com o cineasta a abordar uma série de temas e episódios mais latos a partir do caso particular da protagonista, enquanto concede espaço para Júlia Palha compor uma personagem dotada de alguma complexidade. Júlia Palha transmite com acerto as dúvidas e inquietações de Rita, uma adolescente que ainda se encontra a formar a sua personalidade e conta com uma rebeldia muito própria da idade, com a intérprete a incutir uma naturalidade e sinceridade notórias aos diálogos e às acções desta jovem. Por vezes parece que estamos diante de uma personagem que assume uma postura quase adulta, em outras ocasiões não podemos deixar de esboçar um sorriso devido às atitudes mais infantis de Rita, com a protagonista a encontrar-se num limbo entre o final da infância e a maioridade, ou seja, uma fase que é sempre muito marcada por imensas descobertas e uma forma muito peculiar de encarar as sensações e emoções. Rita terminou recentemente o namoro com Bruno, gosta de tocar piano no centro comunitário, de beber café e chapinhar os pés na varanda, com as férias de Verão desta jovem a contarem com doses significativas de monotonia, alguma diversão e uma série de episódios marcantes.


 A personagem interpretada por Júlia Palha habita com os pais (Adriano Luz e Leonor Silveira) num apartamento situado em Telheiras, onde passa os seus dias ao computador, ou na varanda (a apanhar banhos de Sol), muitas das vezes isolada ou na companhia de Sara (Clara Riedenstein), a sua melhor amiga, com a dupla a partilhar confidências e a protagonizar situações aparentemente banais que servem e muito para ilustrar o quotidiano destas jovens. João Nicolau acertou em cheio na escolha de Júlia Palha e Clara Ridenstein, com as actrizes a contarem com uma dinâmica extremamente convincente, algo inerente não só ao trabalho de ambas mas também ao bom argumento que têm à sua disposição. Note-se a sensação de sinceridade despertada pelos diálogos trocados entre Rita e Sara, ou a atenção aos pormenores aparentemente simples que envolvem as relações de amizade entre adolescentes. Essa atenção aos pormenores é visível quando encontramos Rita e Sara a dialogarem na rua durante a noite, ou a deixarem papelinhos com recados no elevador do prédio, ou a falarem ao telefone, com "John From" a trabalhar com acerto as dinâmicas entre estas jovens. As palavras trocadas ao telemóvel, seja por mensagem ou voz, contam com um papel de relevo no enredo, ou os telemóveis não surgissem como um veículo privilegiado para os adolescentes contactarem e expressarem os seus sentimentos. Veja-se quando João Nicolau repete uma acção a partir de um ponto de vista diferente, nomeadamente, quando Rita comenta que não respondeu a uma mensagem do ex-namorado, ou o momento em em que o pai da protagonista tenta apressá-la para que esta desligue o telemóvel, com o cineasta a ter a noção do papel fulcral destes aparelhos no quotidiano dos jovens (e não só). Diga-se que Rita e Sara falam imenso, tanto de forma presencial como ao telemóvel, com as adolescentes a frequentarem regularmente a casa uma da outra, para além de partilharem uma série de confidências, tais como a paixoneta que a primeira começa a nutrir por Filipe (Filipe Vargas), um fotógrafo que tem uma filha bebé. Filipe é vizinho de Rita, conta com bastante mais idade do que a jovem e nem sempre percebe os sentimentos da adolescente quando esta tenta conversar consigo. A exposição que Filipe efectua no centro comunitário do bairro, a partir das fotografias que tirou na Melanésia, fascina Rita ao ponto desta começar a pesquisar informação sobre os territórios dessa região. É a partir dessa informação que Rita contacta com a lenda de John From (que utiliza para mencionar Filipe quando fala em código com Sara), mas também com toda uma cultura que procura absorver (inclusive nas músicas que escuta, com a banda sonora a ter um papel de relevo ao longo do filme).


 Os sentimentos que Rita nutre por Filipe começam a mexer com a mente e o corpo da jovem, com "John From" a abordar com algum humor e sensibilidade as peripécias que envolvem a paixão desta adolescente pelo vizinho. Note-se a forma atrapalhada como Rita tenta dialogar com Filipe no supermercado, ou a maneira peculiar como se pinta para parecer que pertence a uma das tribos das regiões da Melanésia. Esta paixão transfigura Rita e a faceta quase documental de "John From", com o batimento cardíaco do filme a depender do estado de espírito da sua protagonista. O último terço de "John From" é pontuado por uma faceta mais fantasiosa e exótica, com a imaginação e ingenuidade de Rita a tomarem conta da alma do filme, seja nas atitudes dos personagens, no guarda-roupa, na banda sonora, ou até nas características dos cenários (o bairro de Telheiras no qual a adolescente habita conhece uma metamorfose clara). A luz do Sol marca os cenários externos (boa utilização da luz natural), embora a partir de um determinado momento seja impossível deixar de reparar num nevoeiro que traz consigo todo um mistério e exacerba a profusão de sentimentos difusos que envolvem a mente de Rita. Observe-se o momento em que Filipe tira fotografias durante a noite, acompanhado de perto por Rita, com o nevoeiro a contribuir para a criação de uma atmosfera misteriosa e envolvente que é exacerbada pelas tonalidades quentes das luzes avermelhadas e amareladas que marcam alguns dos espaços por onde a dupla circula. A tonalidade vermelha está muito presente ao longo do filme, seja nas roupas de Rita, ou no elevador onde esta troca recados com Sara, com a utilização recorrente desta cor a não parecer ao acaso, ou esta não remetesse para a inquietação e para a paixão que marcam a protagonista. "John From" aborda com a sensibilidade necessária os sentimentos que pontuam a paixão que Rita desenvolve por Filipe, enquanto nos deixa diante de uma série de temas e situações que envolvem os jovens da faixa etária da protagonista, tais como a forma como gerem o tempo livre, as relações de amizade, a falta de comunicação com os pais (mesmo quando se dão bem com os mesmos), a maneira muito própria de comunicarem (seja de forma presencial ou por telemóvel), a intensidade com que lidam com as emoções e sensações que afloram a mente e o corpo, as descobertas, entre outras. É um filme que desperta simpatia e empatia, que conta com uma protagonista carismática e dotada de alguma complexidade, com "John From" a ter uma facilidade enorme em compelir-nos a acreditar nos sentimentos e falas desta adolescente que assume um papel central na alma desta obra cinematográfica que enriquece e muito o currículo de João Nicolau.


Título original: "John From".
Realizador: João Nicolau.
Argumento: João Nicolau e Mariana Ricardo.
Elenco: Júlia Palha, Clara Riedenstein, Filipe Vargas, Leonor Silveira, Adriano Luz.

1 comentário:

ajanelaencantada disse...

Excelente entrevista. E grande projecto. Felicidades para todos!