10 abril 2017

Resenha Crítica: "Se Dio vuole" (Se Deus Quiser)

 Tommaso (Marco Giallini) é um cirurgião ateu, arrogante, pouco dado a grandes sentimentalismos, que não tem problemas em efectuar comentários depreciativos sobre aqueles que o rodeiam e em julgar previamente os elementos com quem contacta. Este é casado com Carla (Laura Morante), uma mulher que gosta de adoptar crianças oriundas de um contexto intrincado. Carla encontra-se deprimida, aprecia beber vinho às escondidas e prepara-se para expor a sua revolta em relação ao rumo da sua vida. O casal conta com dois filhos biológicos, Bianca (Ilaria Spada) e Andrea (Enrico Oetiker), ambos jovens adultos, com a primeira a não primar pela sagacidade e inteligência, enquanto que o segundo surpreende tudo e todos ao salientar que pretende abandonar o curso de medicina para ser padre. Tommaso ainda tenta fingir que apoia o filho, embora procure fazer de tudo para descobrir esqueletos no armário de Pietro (Alessandro Gassmann), o padre que contribuiu para Andrea descobrir o gosto por seguir os caminhos da fé. Com um passado nebuloso, um discurso irreverente, dinâmico e espirituoso, Pietro tem uma facilidade latente em atrair a atenção dos fiéis, embora desperte uma série de dúvidas em Tommaso, pelo menos até este último formar uma relação de respeito e amizade com o padre. Estes são alguns dos personagens que habitam o enredo de "Se Dio vuole", uma comédia desinspirada, previsível e insípida, que é incapaz de desenvolver boa parte das tramas e subtramas ou de deixar marca. É certo que "Se Dio vuole" beneficia e muito do talento e carisma de intérpretes como Marco Giallini e Alessandro Gassmann, com ambos a conseguirem espremer ao máximo o material que lhes é colocado à disposição, embora a dupla conte com uma missão quase impossível: salvar o filme da mediocridade. Se Tommaso é descrito como um cirurgião competente e implacável, já Edoardo Maria Falcone não apresenta a mesma precisão na sua estreia como realizador de longas-metragens, ou "Se Dio vuole" não contasse com toda a atmosfera de uma sitcom mal-enjorcada que foi elaborada por um cineasta sem marca ou "voz própria". Sem conseguir que a maioria dos personagens ultrapasse uma unidimensionalidade pouco recomendável, ou se solte dos estereótipos aos quais foram presos, "Se Dio vuole" raramente contribui para despertar alguns risos, para além de ser incapaz de abordar de forma minimamente decente boa parte das temáticas que são lançadas para o interior da narrativa, com os tropeços a sucederem-se em catadupa.


Quase tudo é tratado como uma anedota ou uma mera nota de rodapé, seja Bianca a tentar descobrir o catolicismo, ou Carla a procurar fugir à letargia do seu dia a dia, ou o hábito desta última adoptar crianças, ou o quotidiano de Tommaso no hospital, ou a crise conjugal do protagonista com a esposa. Diga-se que as dinâmicas familiares são desenvolvidas de forma insípida e pouco convincente, com as crises no interior da família de Tommaso a praticamente não serem sentidas. Junte-se a tudo isto uma banda sonora teimosamente repetitiva que teima em sobrepor-se aos eventos que estamos a observar e "Se Dio vuole" apenas se torna minimamente suportável graças a Alessandro Gassmann e Marco Giallini. Os melhores momentos do filme acontecem exactamente quando Giallini e Gassmann estão reunidos, com as diferenças entre Tommaso e Pietro a serem sentidas, bem como o efeito que este último provoca no cirurgião. O plano que Tommaso efectua para iniciar contacto com Pietro é completamente descabelado e marcado por alguns momentos de humor pouco certeiros, embora Marco Giallini e Alessandro Gassmann elevem estes trechos, pese a previsibilidade que envolve o efeito que o padre provoca no cirurgião, com os dois actores a não esquecerem a dimensão humana das figuras que interpretam. Pelo meio temos ainda a aborrecida falta de coragem de "Se Dio vuole" a resolver o dilema que envolve a procura de Tommaso em expor junto do filho que não aprecia a possibilidade deste último poder seguir pelo caminho do sacerdócio, bem como a incapacidade do filme em abordar de forma convincente o desejo de Andrea em ser padre, com tudo a ser demasiado previsível e anódino. Diga-se que Andrea é um dos vários personagens secundários que pouco convencem ao longo do filme. Não falta a filha superficial e pouco dada a grandes demonstrações de inteligência (Bianca); o genro que é encarado com desdém pelo sogro (Gianni, o esposo de Bianca); a esposa que se apercebe que a sua relação está num ponto morto (Carla), entre outros personagens que raramente se soltam de forma harmoniosa da sua faceta estereotipada. A falta de crença de Tommaso é testada por diversas vezes ao longo do filme, sobretudo a partir do momento em que forma amizade com Pietro. Já "Se Dio vuole" testa a nossa crença nos méritos das comédias oriundas de Itália, um país que conta com uma nobre tradição neste género. No caso, estamos diante de uma comédia italiana falhada, que promete ser esquecida a uma velocidade fulgurante, pese a capacidade de Alessandro Gassmann e Marco Giallini em conseguirem passar pelos pingos da chuva.

Título original: "Se Dio vuole".
Título em Portugal: "Se Deus Quiser".
Realizador: Edoardo Maria Falcone.
Argumento: Edoardo Maria Falcone e Marco Martani.
Elenco: Marco Giallini, Alessandro Gassmann, Enrico Oetiker, Ilaria Spada, Laura Morante.

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