18 abril 2017

Resenha Crítica: "Pericle il nero" (2016)

 Num determinado momento de "Pericle il nero", encontramos o personagem do título a procurar controlar as emoções, embora praticamente não consiga evitar a queda de lágrimas e a demonstração de algum desespero, enquanto se encontra numa praia de Calais, com este cenário a traduzir paradigmaticamente o estado de espírito desta figura enigmática. As nuvens acinzentadas cobrem o céu, bem como as tonalidades frias, com as características deste cenário a reforçarem a incerteza que envolve o futuro de Pericle (Riccardo Scamarcio), mas também a negritude que rodeia o quotidiano do protagonista de "Pericle il nero", a terceira longa-metragem de ficção realizada por Stefano Mordini. Diga-se que as cores luzidias e quentes estão longe de pontuarem "Pericle il nero", com a fotografia do filme a sobressair muitas das vezes pela capacidade de captar a desesperança que marca uma parte do quotidiano do protagonista. A hostilidade marca o mundo pelo qual Pericle se move, embora, quando se esforce para sair do mesmo, também lide com a aspereza da humanidade, seja numa simples fila da padaria ou a tentar encontrar abrigo junto dos poucos familiares que lhe restam. Como almejar um futuro luzidio quando o passado é marcado pelo negrume? A violência percorre o corpo, a alma, a mente e o sangue que circula pelas veias de Pericle, um gangster lacónico e misterioso, de origem napolitana, que inicialmente desperta a nossa repulsa em relação aos actos que pratica. Pericle não tem como objectivo eliminar as suas vítimas, bem pelo contrário, preferindo antes humilhá-las com actos que deixam marcas na corpo e na alma dos elementos que viola. Quase sempre acompanhado por sacos de areia, que utiliza para desferir golpes na cabeça das suas vítimas e imobilizá-las temporariamente, Pericle tem como hábito sodomizar os seus alvos, ou melhor, ou, para ser mais preciso, obriga os elementos que desobedecem a Don Luigi (Gigio Morra), o seu chefe, a terem sexo anal. É um acto cruel e repugnante, embora Pericle pareça encarar a profissão com a mesma naturalidade com que efectua uns biscates como actor de filmes pornográficos, com Riccardo Scamarcio a conseguir transmitir a faceta negra deste personagem solitário e atormentado. Como seguir com atenção um personagem que comete actos tão repugnantes? Stefano Mordini provoca desde logo o choque ao expor os actos hediondos do protagonista, uma figura misteriosa e pouco recomendável, até começar a desvendar, ainda que parcialmente, a verdadeira personalidade deste criminoso. O cineasta consegue desfazer a imagem inicial que criamos em relação ao criminoso, ainda que a mesma não seja esquecida, com "Pericle il nero" a colocar-nos diante de uma figura deveras complexa e intrigante. Estamos diante de um criminoso que se situa numa zona cinzenta, que tanto sonha ter uma família e efectua actos surpreendentemente delicados como apresenta uma brutalidade e um carácter errático, com Riccardo Scamarcio a conseguir evidenciar a complexidade deste personagem recheado de contradições e uma alma atormentada.


Riccardo Scamarcio traduz habilmente quer a faceta mais atormentada de Pericle, quer o lado mais sensível, quer a sua personalidade mais dura e implacável, com Stefano Mordini a conseguir extrair uma interpretação bastante convincente da parte deste talentoso actor. As tormentas de Pericle e os seus pensamentos mais profundos são expostos em voiceover (por vezes existe informação importante que é acrescentada, em outros casos o filme ganhava mais em deixar o espectador descobrir aquilo que vai na mente do protagonista), ou não estivéssemos perante um indivíduo solitário, que perdeu a família bastante cedo e foi educado de forma pouco recomendável por Don Luigi. Pericle pouco ou nada se recorda da infância, ou da mãe, falecida quando o protagonista ainda era bastante jovem, embora conserve religiosamente um retrato da progenitora e preserve o túmulo da mesma com algum zelo. O túmulo da mãe de Pericle encontra-se em Nápoles, enquanto este personagem vive e trabalha na Bélgica, nomeadamente em Liége, onde Don Luigi exerce uma enorme influência e conta com diversos negócios ligados ao fabrico de pizza. A invasão de um espaço sagrado, nomeadamente, uma igreja, para sodomizar o padre a mando de Don Luigi, leva Pericle a deparar-se com Signorinella (Maria Luisa Santella), uma mafiosa napolitana, irmã de Don Gualtiero (Giuseppe Sardella), um criminoso poderoso que mantém uma relação pontuada por alguma rivalidade com o personagem interpretado por Gigio Morra. Signorinella demonstra que conheceu a falecida mãe de Pericle, enquanto este último assusta-se ao ponto de deixar a mafiosa em mau estado. Pericle pensa que Signorinella faleceu, com este acto a colocá-lo em problemas junto dos homens ao serviço de Don Gualtiero. O criminoso ainda procura abrigo junto de uma família de tunisinos, bem como de Nené (Lucia Ragni), a sua tia, uma das poucas familiares com quem contacta, embora logo tenha de fugir, ou não estivesse a ser perseguido quer pelos elementos ao serviço de Don Gualtiero, quer pelos gangsters que trabalham para Don Luigi. Sem ter para onde ir, marcado para morrer, com pouco dinheiro no bolso e parcas perspectivas para o futuro, Pericle encontra em Calais, num local perto da praia, um estranho porto de abrigo. A visão inicial da cidade nem é a mais simpática, com uma série de tendas a indicar um elevado número de gentes que vivem nas ruas, enquanto as autoridades procuram desde logo rechaçar elementos que se encontrem ilegalmente no território ou possíveis criminosos. O quotidiano de Pericle conhece uma lufada de ar fresco quando este se depara com Anastasia (Marina Foïs), uma mulher divorciada, mãe de dois filhos, que vive num apartamento modesto e trabalha numa padaria onde é explorada pelo seu chefe. Esta é uma mulher experiente, que inicialmente rechaça os avanços de Pericle, até começar a ceder a este estranho indivíduo. Não existe uma grande paixão a marcar a relação destes dois personagens, mas como poderia existir? Pericle é um criminoso pouco dado a demonstrações bem vivas de afecto, que praticamente nunca foi brindado com ternura, enquanto Anastasia está longe de ter um quotidiano marcado pela felicidade, com os seus dias a serem gastos a trabalhar e a cuidar dos filhos, tendo na leitura uma forma de descanso.

Marina Foïs imprime um tom desencantado e experiente a Anastasia, com a actriz a contribuir para incutir alguma credibilidade à relação que a personagem que interpreta mantém com Pericle. O momento em que tentam ter relações sexuais diz muito quer da personalidade paciente e pacífica de Anastasia, quer da incapacidade de Pericle em prosseguir com o acto sexual. Mais uma vez Stefano Mordini destrói as expectativas do espectador, com o cineasta a criar um momento intimo entre Pericle e Anastasia até arrasar com o mesmo e expor as fragilidades emocionais do protagonista. O argumento de Stefano Mordini, Francesca Marciano e Valia Santella aborda eficazmente a forma como a estadia em casa de Anastasia começa a despertar um lado mais sensível de Pericle, com este indivíduo a deparar-se praticamente pela primeira vez com a possibilidade real de viver, ainda que temporariamente, em família, sem ter que lidar com o julgamento alheio. No passado, Pericle ainda chegou a evidenciar interesse em Anna (Valentina Acca), a filha de Luigi, uma mulher relativamente superficial, mãe de dois filhos, divorciada, que vive às custas do progenitor, embora esse sentimento nunca tenha sido correspondido. A violência sempre marcou o mundo de Luigi e Pericle, com este último a praticamente apenas ter conhecido as regras da máfia, embora nunca tenha feito nada para se afastar das mesmas. O traço negro que pontua a espinha dorsal de Pericle deixa a transparecer que estamos diante de um indivíduo que parece marcado para matar ou morrer, que, como salienta cruelmente Don Luigi, "nunca deveria ter nascido", algo que Stefano Mordini praticamente confirma quando encontramos o protagonista a ser perseguido pelo seu passado. É impossível apagar o passado, mas não é de todo tarefa inverosímil tentar contrariar aquilo que esperam do nosso futuro, que o diga Pericle, sobretudo a partir do momento em que é compelido a confrontar aqueles que representam outros tempos da sua vida. O último terço é marcado pela tensão e violência, com Pericle a exibir o seu lado negro, mas também a sua estranha prestabilidade, enquanto a câmara de filmar parece bailar ao sabor das emoções. A câmara de filmar encontra-se muitas das vezes em movimento, seja a acompanhar uma fuga ou a expor os sentimentos mais inquietos do protagonista, com "Pericle il nero" a compelir-nos a seguir esta figura negra, que é desenvolvida com eficácia e exposta com um misto de desencanto e esperança. Como fugir aos grilhões do passado? Como evitar a morte certa? Como evitar um destino que parece marcado desde o nascimento? Como escapar às catalogações que nos colocam? É possível que estas questões tenham percorrido a mente de Pericle ao longo deste drama onde a crueza e a aspereza parecem as palavras de ordem, bem como as interpretações marcadas pela competência, sobretudo de Riccardo Scamarcio, com o actor a contribuir para elevar esta obra cinematográfica.

Título original: "Pericle il nero".
Realizador: Stefano Mordini.
Argumento: Stefano Mordini, Francesca Marciano, Valia Santella.
Elenco: Riccardo Scamarcio, Marina Foïs, Gigio Morra, Valentina Acca, Lucia Ragni, Giuseppe Sardella.

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