13 abril 2017

Resenha Crítica: "Lo chiamavano Trinità..." (Trinitá - Cowboy Insolente)

 Pontuado por lutas ao estilo dos combates de wrestling, uma dinâmica notável entre Terence Hill e Bud Spencer, um grupo de Mormons que evita utilizar a força física, diversos elementos dos spaghetti western mesclados com condimentos de comédia, estradas poeirentas, uma banda sonora marcante, "Lo chiamavano Trinità..." convida o espectador a envolver-se pelo interior de um enredo marcado por figuras peculiares, imenso humor, alguma violência propositadamente inofensiva e uma certa ingenuidade e malandrice, bem como pelas peripécias vividas pela dupla de protagonistas desta icónica obra cinematográfica. As estradas pelas quais os personagens circulam encontram-se recheadas de poeira, prontas a exibir que ainda estamos diante de um território em formação, caracterizado por gentes que não cumprem as leis e imenso calor, com os raios solares a baterem bem forte sobre os espaços onde se desenrola o enredo desta marcante obra cinematográfica. O calor invade o território e os sentimentos, ou não estivéssemos diante de um filme onde os personagens interpretados por Bud Spencer e Terence Hill assumem o papel de estranhos defensores de uma comunidade de Mormons. Não faltam alguns momentos a fazer recordar "Shichinin no samurai" (o plano para defender e treinar um grupo de elementos indefesos), "Yojimbo", "Per un pugno di dollari" (o estranho que chega e mexe com o quotidiano de um espaço citadino), "Per qualche dollaro in più" (a união de dois pistoleiros para combaterem um inimigo comum), entre outras situações que são abordadas quase sempre com algum humor à mistura. As próprias coreografias das lutas corpo a corpo, prontas a exacerbarem a faceta aparentemente indestrutível de Bud Spencer e a personalidade irreverente do personagem interpretado por Terence Hill (o humor físico é um dos "pratos" principais do filme), contribuem para esses momentos mais leves, tal como o trabalho de sonoplastia. Veja-se os sons efusivos dos socos desferidos pelos personagens interpretados por Terence Hill e Bud Spencer, com a dupla a apresentar uma dinâmica assinalável como dois irmãos peculiares, dados a entrarem em confusões e a desrespeitarem a lei. Terence Hill incute um carisma muito próprio a Trinità, um pistoleiro preguiçoso que é denominado de "braço direito do Diabo". Se o pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood em "Per un pugno di dollari" mantinha uma faceta lacónica, já Trinità evidencia uma enorme preguiça, sentido de humor, insolência e malandrice que o distinguem e muito em relação ao primeiro, embora ambos partilham uma enorme pontaria quando se encontram de pistola na mão.


Sempre pronto a comer um prato ou mais de feijão, incapaz de assumir compromissos a longo prazo, pouco dado a utilizar roupas cuidadas, ou a tomar banho, Trinità tem em Terence Hill um intérprete à altura, com o actor a contribuir para o apelo despertado por este personagem que evidencia uma velocidade inigualável a manejar a pistola e a envolver-se em zaragatas. Essa apetência de Trinità para se envolver em problemas é comprovada nos momentos iniciais do filme, quando o pistoleiro entra numa espelunca para comer uma pratada de feijão e acaba por libertar Chico (Michele Cimarosa), um mexicano ferido que se encontra sob a alçada de dois elementos pouco recomendáveis. Trinità dirige-se em seguida para uma pequena cidade, onde se depara com Bambino (Bud Spencer), o Xerife do espaço citadino, também conhecido como "o braço esquerdo do Diabo", a enfrentar três criminosos. Claro está que os criminosos perdem o duelo com Bambino, um ladrão de cavalos que assume temporariamente a condição de Xerife e conta com uma pontaria exímia e pouca paciência para aturar Trinità. Com barba farta, punhos de aço, aparentemente inquebrável e pouco dado a aceitar insultos, Bambino trabalha como Xerife após supostamente ter eliminado o representante da lei que iria assumir o posto, com a chegada de Trinità a mexer e muito com o quotidiano deste indivíduo. Bud Spencer é exímio a explanar a personalidade lacónica e mal humorada de Bambino, com o actor a trazer muito de si e da sua imagem de duro ao personagem que interpreta. As diferenças físicas de Trinità e Bambino são evidentes, bem como a personalidade distinta, embora os dois irmãos contem com valores muito próprios, uma habilidade latente para o disparo e para se envolverem em barafundas. Essa propensão para as confusões conduzem Bambino e Trinità a envolverem-se no interior do conflito que opõe o Major Harriman (Farley Granger) e um grupo de Mormons liderado por Jonathan (Steffen Zacharias). O conflito envolve as habituais disputas de terra no Velho Oeste, com "Lo chimavano Trinità" a colocar os personagens no interior de um território em formação onde o primado da lei não está completamente inculcado. Os agricultores Mormons procuram estabelecer-se pacificamente no interior deste terreno verdejante e aparentemente idílico e viverem de acordo com a sua religião. Harriman pretende expulsar os agricultores e utilizar o terreno para pastar os seus cavalos, algo que o leva a recorrer quer ao contingente de criminosos que se encontram ao seu serviço, quer a matadores de outros territórios, quer ao grupo de Mezcal (Remo Capitani), um mexicano rude e pouco dado a grandes contemplações.


Quem também tem interesses muito próprios é Bambino, com o Xerife a pretender furtar os cavalos de Harriman e a envolver-se numa série de conflitos, muitas das vezes ao lado de Trinità. O personagem interpretado por Terence Hill mexe por completo com o quotidiano deste espaço citadino onde as leis nem sempre são cumpridas e o crime perpassa pelos poros de diversos elementos. A começar pelos protagonistas, com Trinità e Bambino a estarem muito longe daquilo que podemos considerar como exemplos a seguir, com a dupla a reger-se por valores muito próprios, embora contem com alguns princípios que os conduzem a defender o grupo de Mormons. Bud Spencer e Terence Hill contam com uma dinâmica convincente e dominam por completo os timings dos momentos de humor (sobretudo quando são obrigados a utilizar o físico), com a dupla a contribuir para elevar este spaghetti western realizado por E.B. Clucher. É simplesmente inesquecível e extraordinário observar Bud Spencer a manter-se impecável ao levar pancada e a desferir socos sonoros que deixam os oponentes KO, ou Terence Hill a espalhar insolência como Trinità, com a dupla a divertir-se e a divertir-nos imenso pelo caminho como estes personagens saudavelmente alucinados. Já Remo Capitani e Farley Granger interpretam dois antagonistas que raramente fogem aos estereótipos, com Mezcal a apresentar atitudes pontuadas pela rispidez, pouca educação e exageros, enquanto o Major evidencia uma postura falsamente polida e marcada pela malícia. Se Trinità e Bambino contam com roupas leves, muitas das vezes rotas, prontas a exacerbar o descuido e descontracção destes personagens, bem como o calor que pontua o território, já Harriman aparece quase sempre de fato, com as roupas a contribuírem para explanar um pouco a personalidade destes elementos que se envolvem em diversos conflitos. Trinità é a descontracção em pessoa, enquanto Bambino apresenta uma postura mais séria, com ambos a denotarem um enorme talento para a arte de distribuir pancada. Desde cenas de pancadaria em saloons, passando por tiroteios nas imediações de restaurantes, até a lutas corpo a corpo que parecem saídas de um combate de wrestling, "Lo chiamavano Trinità..." consegue reunir harmoniosamente o humor e a acção, enquanto nos apresenta a uma dupla de protagonistas icónica, interpretada pelos carismáticos Terence Hill e Bud Spencer, com ambos a elevarem este spaghetti western recheado de elementos de comédia e situações marcantes.


Título original: "Lo chiamavano Trinità...".
Título em Portugal: "Trinitá - Cowboy Insolente".
Realizador: E.B. Clucher.
Argumento: E.B. Clucher.
Elenco: Terence Hill, Bud Spencer, Farley Granger, Steffen Zacharias, Remo Capitani.

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