11 abril 2017

Resenha Crítica: "La ragazza del mondo" (Worldly Girl)

  Elevado por um argumento certeiro e uma interpretação sublime de Sara Serraiocco, "La ragazza del mondo" articula eficazmente as temáticas inerentes às descobertas efectuadas por uma jovem adulta e às mudanças muito próprias desta idade com um romance proibido e uma reflexão sobre o mundo das Testemunhas de Jeová. "La ragazza del Mondo" não efectua juízos de valor, nem condena as crenças pelas quais se regem as Testemunhas de Jeová, embora permita um debate interessante sobre todo este mundo que conta com códigos de conduta muito próprios que começam a sufocar Giulia (Sara Serraiocco), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Marco Danieli. Cineasta a ter em clara atenção, Marco Danieli desenvolve com acerto as temáticas relacionadas com as descobertas efectuadas pela protagonista, uma jovem que se depara com questões e anseios relacionados com a sexualidade, a formação da identidade e o primeiro amor, com Sara Serraiocco a incutir um misto de fragilidade, força interior e delicadeza a Giulia. O talento da actriz é exacerbado pelos close-ups recorrentes, com Marco Danieli a deixar muitas das vezes que o rosto da intérprete sublinhe os dilemas com que a protagonista se depara ao longo do filme. Note-se a dificuldade que a protagonista tem em continuar com os estudos, apesar de ser uma das melhores alunas da turma e pretender avançar para o ensino superior, embora Celestino (Marco Leonardi) e Costanza (Stefania Montorsi), os seus pais, duas Testemunhas de Jeová imensamente conservadoras, tentem que esta prossiga pela via profissional (como administrativa na fábrica onde trabalha o progenitor), ou a impossibilidade destes elementos iniciarem relações com "pessoas do Mundo", algo que limita as decisões que Giulia necessita de tomar para o futuro. Giulia tem cerca de dezanove anos de idade, encontra-se inserida no interior de uma comunidade protectora, fechada, rígida e conservadora, conta com boas notas e é consumida por uma série de dúvidas e sentimentos incontroláveis. Como controlar os sentimentos e a curiosidade numa fase como a transição entre o final da adolescência e a chegada à maioridade, ou seja, quando ambos parecem incontroláveis? Como reprimir as sensações e emoções quando estas brotam do âmago da alma como se fossem lava no interior de um vulcão em erupção? Sara Serraiocco imprime uma postura discreta e contida a Giulia, uma jovem que vive pacificamente com os pais e a irmã, de acordo com os textos sagrados, pelo menos até se deparar com Libero (Michele Riondino), um indivíduo com um passado nebuloso e uma personalidade problemática e errática.


 Giulia e Libero travam conhecimento quando a primeira se desloca a casa da mãe do segundo (Alessandra Vanzi), uma senhora que se encontra desesperada pelo facto do filho, um ex-presidiário, condenado por tráfico de droga, tardar em encontrar um rumo. Libero contesta desde logo a presença de Giulia e de uma amiga da protagonista, duas Testemunhas de Jeová, com Michele Riondino a exibir a personalidade explosiva, truculenta e intensa deste indivíduo que desperta uma estranha atracção na personagem interpretada por Sara Serraiocco. A interacção entre Giulia e Libero acentua-se quando Celestino consegue um emprego para o segundo na fábrica. A primeira troca de diálogos entre Giulia e Libero na fábrica é um dos grandes momentos de "La ragazza del mondo", algo exacerbado pela dinâmica bastante convincente de Sara Serraiocco e Michele Riondino. Os planos fechados sobre os rostos de Sara Serraiocco e Michele Riondino deixam transparecer que existe algo mais a ser estabelecido no momento em que Giulia preenche a ficha de inscrição de Libero, com a primeira a exibir um certo nervosismo e atracção, enquanto o segundo lança um olhar penetrante e decidido junto da sua interlocutora. Giulia bem tenta reprimir os sentimentos que nutre por Libero, mas a entrada deste indivíduo na sua vida surge como uma espécie de gatilho que coloca em movimento todas as questões que a jovem procurava conter no interior do seu âmago. O próprio comportamento de Giulia assume algumas mudanças, algo notório quando decide participar num concurso de matemática, ou assume uma postura mais alegre junto da irmã mais nova (Martina Cerroni), ou decide depilar-se, ou enfrentar uma bullie. O primeiro beijo entre os personagens interpretados por Sara Serraiocco e Michele Riondino simboliza não só o quebrar dos grilhões que prendiam Giulia às regras da congregação, mas também a oficialização de uma relação proibida e problemática, ou os membros do casal não contassem com personalidades claramente distintas. O adágio popular diz que os opostos atraem-se. Diga-se que é isso que parece acontecer com Giulia e a Libero, embora essa atracção não seja suficiente para a relação estar livre de problemas. Libero é um indivíduo dado a envolver-se em confusões, por vezes algo violento apesar de não ser totalmente desprovido de sensibilidade. Este é relativamente mais velho do que Giulia, pertence a um mundo bem distinto em relação àquele em que a personagem interpretada por Sara Serraiocco se encontra inserida e desconhece as regras da comunidade das Testemunhas de Jeová, embora partilhe com a protagonista uma certa inexperiência e imaturidade. Giulia é uma jovem inteligente, sensível e tímida, que procura respeitar aqueles que a rodeiam e está a sair gradualmente da bolha na qual foi inserida durante toda a sua infância e adolescência. Ou seja, Giulia está a conhecer-se a si própria e ao mundo que a rodeia, fora dessa bolha da comunidade de Testemunhas de Jeová, numa fase ainda de formação, ou afirmação, com a protagonista a encontrar-se a formar a sua identidade, a descobrir o seu corpo e as relações sexuais ao mesmo tempo que tem de tomar decisões que vão ter impacto no seu futuro.


 O envolvimento com Libero, inicialmente secreto, coloca em perigo a relação de Giulia com os pais e a irmã, bem como com os outros membros da comunidade de Testemunhas de Jeová, sobretudo quando estes tomam conhecimento do namoro. De acordo com as regras desta comunidade, quem inicia relações de cariz sexual com homens ou mulheres que não são Testemunhas de Jeová é desassociado, ou seja expulso, com todos os elementos desta congregação a passarem a ignorar por completo a existência da pessoa que foi afastada deste grupo. Diga-se que Giulia ainda é sujeita a uma espécie de interrogatório por parte dos elementos que vão decidir a sua permanência ou expulsão da comunidade, algo que proporciona um momento de grande tensão e violência emocional, com Sara Serraiocco a transmitir o desconforto que assola a mente e a alma da personagem que interpreta. Giulia é julgada por homens (existe um machismo latente neste grupo, algo que o filme demonstra com eficácia) e depara-se com a cruel situação de ter de expor a sua intimidade para provar a inocência em relação a algo que deveria apenas dizer respeito ao foro privado da jovem, enquanto Marco Danieli arquitecta um dos trechos mais intensos de "La ragazza del mondo". As regras das Testemunhas de Jeová e as práticas dos membros desta comunidade são abordadas de forma convincente, com Marco Danieli a exibir todo um respeito para com uma congregação muito particular (notório na forma bastante humana como retrata o pai da protagonista, um elemento relativamente pacato e simpático) ao mesmo tempo que não foge ao debate e ao levantamento de questões relevantes sobre o modo como este grupo aborda temas como a sexualidade, o convívio em sociedade, a vida em família, os estudos, entre outros. Estes assuntos são abordados tendo Giulia como elemento central. São as "dores" de crescimento desta personagem que observamos, enquanto Giulia deixa de lado os equilíbrios excessivos da sua comunidade e começa a conhecer todo um mundo novo que também está longe de ser perfeito. O argumento, escrito por Marco Danieli e Antonio Manca, desenvolve eficazmente os dilemas de Giulia, com esta a balançar inicialmente entre os valores conservadores com que foi educada e a busca por conhecer uma realidade onde não tenha uma rede a prender o seu livre arbítrio. É certo que Giulia nem sempre parece ter uma noção completamente pragmática das consequências desta relação com Libero, mas também não deixa de ser notório que a jovem sente a necessidade de se soltar de uma realidade que asfixia a sua liberdade.


 Marcada por alguma ingenuidade, fruto da inexperiência do casal, a relação de Giulia e Libero conhece alguns desenvolvimentos pontuados por uma série de reviravoltas inesperadas, com os revezes a acumularem-se, enquanto que o desejo que une os dois personagens não parece chegar para que a união perdure a longo prazo. Libero tarda em largar os laços com o mundo das drogas e acaba por arrastar Giulia para o interior de situações delicadas, com a relação do casal a ser colocada à prova ao longo do filme. Não é que Giulia e Libero não protagonizem alguns momentos de maior intimidade e calor humano, bem pelo contrário. Veja-se quando encontramos Giulia e Libero no interior de águas pontuadas pelo vapor, com o trabalho meticuloso de Emanuele Pasquet na cinematografia a sobressair e a fazer realçar quer a intimidade do casal, quer a ideia de que o romance intrincado destes dois personagens é tão fugaz como a água que evapora diante do olhar de ambos. No entanto, em determinados momentos é praticamente impossível que não nos questionemos em relação às razões que continuam a prender Giulia a Libero, um indivíduo cujas atitudes erráticas e impulsivas acabam muitas das vezes por deitar a perder algumas das suas boas intenções para com a amada. Libero ama Giulia, embora nem sempre compreenda a amada, com os personagens interpretados por Sara Serraiocco e Michele Riondino a protagonizarem uma experiência amorosa intensa e uma série de episódios que contribuem para o crescimento de ambos como ser humanos. Giulia encontra em Libero alguém que ama e deseja, que lhe facilita a entrada pela porta da liberdade e lhe permite tomar uma posição forte diante daqueles que a rodeiam, com a jovem a descobrir todo um conjunto de sensações e emoções, sejam positivas ou negativas, que lhe pareciam vedadas. É uma personagem dotada de dimensão e relevância, elevada quer pelo argumento, quer pelo trabalho de Sara Serraiocco, com a actriz a confirmar os bons apontamentos deixados em "Salvo" e "Cloro". Com um uso certeiro dos close-ups, uma abordagem eficaz das temáticas que envolvem a personagem principal e a comunidade de Testemunhas de Jeová, uma interpretação sublime de Sara Serraiocco e uma química muito convincente da dupla de protagonistas, "La ragazza del mondo" é uma estreia de grande nível de Marco Danieli na realização de longas-metragens.

Título original: "La ragazza del mondo".
Título em inglês: "Worldly Girl".
Realizador: Marco Danieli.
Argumento: Marco Danieli e Antonio Manca.
Elenco: Sara Serraiocco, Michele Riondino, Marco Leonardi, Stefania Montorsi, Alessandra Vanzi, Martina Cerroni.

Sem comentários: