14 abril 2017

Resenha Crítica: "Indivisibili" (2016)

 Num determinado momento de "Indivisibili", Alfonso Fasano (Peppe Servillo), um médico que trabalha na Suíça, pergunta a Peppe (Massimiliano Rossi) e Titti (Antonia Truppo), os pais de Dasy (Angela Fontana) e Viola (Marianna Fontana), duas gémeas siamesas, se estes não têm vergonha pelo facto das jovens não terem sido separadas à nascença. O tom de Alfonso Fasano é de alguma reprovação e consternação, ou Peppe e Titti não utilizassem o facto de Dasy e Viola estarem corporalmente ligadas, embora não partilhem nenhum órgão vital (estão unidas pela zona da pélvis), para lucrarem com a situação. É Peppe quem trata das questões contratuais dos casamentos, baptizados e comunhões onde Dasy e Viola cantam, com os talentos vocais de ambas a serem apreciados, embora o interesse dos elementos do público esteja centrado no físico das gémeas, quase como se estas fossem aberrações. Fãs de Janis Joplin, Dasy e Viola estão longe de serem duas aberrações, bem pelo contrário. Estas são duas jovens de dezoito anos de idade, que estão a lidar com uma série de dilemas, desejos e ansiedades muito próprios de quem ainda se encontra numa fase de formação e afirmação da personalidade, com Angela Fontana e Marianna Fontana, irmãs gémeas na vida real, a transmitirem com enorme sagacidade aquilo que une e separa as personagens que interpretam. Angela Fontana coloca em evidência o lado mais destemido de Dasy, bem como o seu desejo de independência e o afecto que nutre pela irmã. Marianna Fontana imprime uma faceta mais frágil e temerosa a Viola, uma jovem que tem um apetite assinalável e teme a possibilidade de se separar da irmã. Ambas contam com um dom para a cantoria, uma beleza física notória, uma característica corporal que praticamente lhes permitiria entrar em "Freaks" e uma ingenuidade que as conduz a nem sempre questionarem os actos daqueles que as rodeiam. Note-se a facilidade com que acreditaram na mentira de que não poderiam ser separadas, ou a fuga pouco planeada que efectuam num determinado momento da narrativa. A entrada em cena de Alfonso Fasano, a salientar a possibilidade das protagonistas serem separadas com recurso a uma operação, é um momento fulcral quer para a vida das gémeas, quer para o enredo de "Indivisibili", a terceira longa-metragem realizada por Edoardo De Angelis, com as palavras do médico a irem ao encontro da vontade de Dasy em prosseguir com a sua vida de forma um pouco mais independente, sem ter que estar preocupada com os efeitos que os seus actos podem provocar na irmã. Veja-se no início do filme, quando encontramos Dasy a masturbar-se, enquanto Viola está a dormir, com os efeitos deste acto a serem sentidos pela segunda ao ponto desta começar a rezar devido a ter sonhado que pecou.


 O acto de Viola rezar não é algo meramente casual. A religião e os elementos religiosos estão muito presentes ao longo do filme quer pelas características intrínsecas às tradições do território de Nápoles, quer pela tentativa dos pais de Viola e Dasy de que estas sejam consideradas quase como santas, ou milagreiras, um desiderato que conta com o apoio de Don Salvatore (Gianfranco Gallo), um padre moralmente corrupto. Gianfranco Gallo sobressai como este padre mulherengo e aproveitador, que se prepara para abrir uma igreja e conta com o apoio de uma série de fiéis, com a religião e aqueles que se aproveitam da fé a não escaparem ao olhar mordaz de Edoardo De Angelis. Note-se o momento em que uma grua transporta uma estátua de Jesus Cristo (a fazer recordar uma das várias cenas icónicas de "La dolce vita"), um símbolo sagrado que vai ser utilizado por Don Salvatore num evento no qual as gémeas vão ser colocadas em destaque quase como se fossem duas santas, embora sejam apenas duas jovens que querem viver como alguém da sua idade. É uma estranha moralidade que guia figuras como Salvatore e Peppe, ou se preferirem, é uma dolorosa imoralidade que domina as atitudes destes dois personagens. De barba por fazer, cabelos descuidados, pouco dado a grandes demonstrações de simpatia, viciado no jogo e propenso a comportamentos erráticos, Peppe tem em Massimiliano Rossi um intérprete à altura, com o actor a compor um personagem que, embora não desperte grande empatia, conta com dimensão suficiente para percebermos as suas intenções, mesmo quando este procura evitar que Alfonso Fasano opere Dasy e Viola. A gestão da carreira de Dasy e Viola é efectuada por Peppe, com este indivíduo a tratar quer do reportório musical, quer da marcação dos espectáculos, quer dos produtos de merchandising (note-se a parafernália de produtos relacionados com as protagonistas que encontramos na casa dos seus familiares), para além de aproveitar a situação peculiar das filhas para tentar alçá-las praticamente à condição de curandeiras ou figuras santificadas. Já Titti aparece como uma figura relativamente apagada, claramente desgastada por uma relação sem grande amor com Peppe e uma vida regada a drogas. A ingenuidade de Viola e Dasy é contrastada com o desencanto que perpassa pela alma de Peppe e Titti, com o argumento, escrito por Nicola Guaglianone, Barbara Petronio e Edoardo De Angelis, a saber inserir e desenvolver as dicotomias que marcam a narrativa de "Indivisibili". Estamos diante de um filme de dicotomias arreigadas, sejam estas entre o sagrado e o profano, entre o céu (exposto de forma amiúde, quase que a enclausurar as protagonistas ou a transmitir um sentimento de esperança e liberdade) e a terra (e o rio, que a espaços tanto parece trazer o entusiasmo de uma nova vida como o desespero de uma possível morte), entre o lirismo e a crueza, entre o realismo e a fantasia, entre a beleza e o grotesco, com o território de Nápoles a surgir como um agregador destas diferenças.


 Os cenários exteriores reforçam essas idiossincrasias do território napolitano e as dicotomias que marcam o enredo do filme, com Edoardo De Angelis a expor assertivamente os diversos espaços deste subúrbio e forma como estes influenciam e são influenciados pelos seus habitantes (as filmagens decorreram em Castel Volturno, um cenário que é descrito pelo cineasta da seguinte maneira: "It’s an area that’s a pale, mortified imitation of a lost beauty, and the perfect material for building the cage from which my little songbirds desperately seek to escape.”). Veja-se a cerimónia religiosa que decorre no último terço de "Indivisibili", um evento que tanto tem de sagrado como de profano, com Edoardo De Angelis a exibir o mesmo com uma atmosfera próxima a um pesadelo dotado de algum lirismo. É um território que atrai e repele, que tanto apresenta uma certa beleza como alguma hostilidade, com a situação intrincada em que se encontram Viola e Dasy a contribuir e muito para essa estranheza que pontua os cenários exteriores de "Indivisibili". Este espaço acaba praticamente por surgir como uma espécie de gaiola que prende Dasy e Viola (os planos estão muitas das vezes arquitectados de forma a transmitir a sensação de que as protagonistas estão enclausuradas entre o céu, a terra e o rio), duas figuras femininas que se pretendem soltar desta condição que as impede de conquistarem a sua independência, com Edoardo De Angelis a utilizar o estado das protagonistas como um meio para abordar temáticas como a formação e afirmação da identidade, a sexualidade, a relação dos jovens adultos com os pais, a cumplicidade entre duas irmãs, entre outras. No fundo, estamos diante de uma obra cinematográfica que no seu cerne aborda uma série de questões inerentes aos jovens adultos, ainda que a partir do prisma destas gémeas siamesas que se encontram numa situação deveras peculiar. A separação simboliza uma liberdade que Dasy e Viola nunca tiveram, bem como uma alteração de rotinas de longa data, com a dupla a encarar esta hipótese de forma distinta. Se Dasy é a face mais decidida em avançar com a operação e a separação, algo adensado pela noção que esta tem do interesse que desperta nos homens, inclusive em figuras pouco confiáveis como Marco Ferreri (Gaetano Bruno), um empresário e proxeneta, já Viola não esconde os seus receios, embora as dúvidas afectem ambas as irmãs 


 Dasy e Viola encontram-se unidas quer a nível corporal, quer emocional, embora contem com personalidades distintas e desejos e ansiedades muito próprios de quem ainda tem dezoito anos de idade. Estas foram educadas no interior de um núcleo familiar recheado de problemas e figuras nem sempre recomendáveis, com ambas a procurarem trilhar um caminho distinto em relação àquele que Peppe planeara para as duas. A fuga ao plano dos pais traz alguns desafios para as duas protagonistas, com Dasy e Viola a protagonizarem algumas situações que contribuem quer para o crescimento de ambas, quer para o fortalecimento dos laços que as unem. Esses laços que unem Dasy e Viola, a par da densidade atribuída pelo argumento e das interpretações de Angela e Marianna Fontana, contribuem para a afeição que nutrimos por estas personagens, duas jovens que se encontram a lidar com uma série de sentimentos típicos da transição da adolescência para a idade adulta. Aos poucos, estas são obrigadas a tomar uma série de decisões drásticas, enquanto perdem uma certa inocência que parecia marcar a forma como encaravam o mundo que as rodeia. Ou seja, as duas protagonistas lidam com as dores de crescimento, com estas a surgirem ainda acompanhadas pela angústia inerente a uma possível separação, com "Indivisibili" a abordar estes temas com acerto e inspiração, sempre com imensa música à mistura. Dasy e Viola cantam uma série de músicas que tanto têm de popularuchas como de contagiantes (as próprias roupas das protagonistas remetem para esse tom muito próprio e leve das canções que interpretam), enquanto nos embalam para o interior de uma experiência cinematográfica que vagueia entre a fantasia e a crueza, o lirismo e o grotesco, com Edoardo De Angelis a ter em "Indivisibili" um filme deveras recomendável que dignifica o seu currículo e figura entre os grandes exemplares da programação da décima Festa do Cinema Italiano.   

Título original: "Indivisibili". 
Título em inglês: "Indivisible". 
Realizador: Edoardo De Angelis.
Argumento: Nicola Guaglianone, Barbara Petronio e Edoardo De Angelis.
Elenco: Angela Fontana, Marianna Fontana, Massimiliano Rossi, Antonia Truppo, Peppe Servillo, Gianfranco Gallo.

Sem comentários: