21 abril 2017

Resenha Crítica: "Il boom" (Negócio à Italiana)

 Sem dinheiro para grandes investimentos, aventuras, ou devaneios, Giovanni Alberti (Alberto Sordi), o protagonista de "Il boom", é um pequeno empreiteiro que gasta mais do que aquilo que recebe quer para saciar os seus vícios, quer para agradar a Silvia (Gianna Maria Canale), a sua esposa, uma mulher pouco dada à contenção financeira. Filha de um general (Federico Giordano) conservador, Silvia é uma das poucas pessoas que inicialmente não sabem das dívidas do personagem interpretado por Alberto Sordi, enquanto este procura esconder tudo da cara-metade. Por sua vez, Silvia raramente tem demonstrações de afecto para com o esposo, com Gianna Maria Canale a incutir uma faceta frívola a esta mulher, com o matrimónio do casal a parecer estar dependente da situação financeira de Giovanni. O empresário esforça-se para oferecer todas as comodidades e luxos à esposa, embora não tenha dinheiro para pagar os mesmos, algo que o conduz a mentir constantemente à mãe do seu filho, tendo em vista a procurar manter o casamento. Protagonista de comédias à italiana como "La grande guerra", "Il vedovo", "Mafioso", entre outras, Alberto Sordi tem em "Il boom" mais uma demonstração do seu talento para o humor, com o actor a criar um personagem que tanto tem de patético como de trágico e incorrigível. Giovanni é um gastador incurável que pretende não só manter o casamento com Silvia, mas também continuar a contar com um círculo de amigos com um estatuto social e económico elevado. Esse desejo de manter as aparências conduz Giovanni, ainda nos momentos iniciais de "Il boom", a procurar adiar o pagamento das dívidas que tem para com a La Fides, uma empresa especializada em empréstimos. Os amigos e conhecidos rejeitam os pedidos de empréstimo ou possíveis oportunidades de investimento apresentadas por Giovanni, enquanto que o protagonista recusa entrar em contenção financeira. Giovanni continua a praticar ténis, a comprar vestidos dispendiosos para a esposa, a utilizar um carro caro e a participar em jantares de elementos com um estatuto social e financeiro superior ao seu, com a habitação deste personagem, um espaço dotado de diversos luxos, largas dimensões, um terraço com uma bela vista, a simbolizar paradigmaticamente o desejo de grandeza do protagonista de "Il boom". Diga-se que a casa, situada em Roma, representa uma falsa opulência, com Giovanni a exibir algo que não tem condições para manter ao mesmo tempo que tenta evitar de forma desesperada que a esposa descubra a verdade, ou seja, que estão na falência. Alberto Sordi compõe um personagem falador, expressivo na exposição dos sentimentos, que é capaz de despertar o sorriso do espectador mas também o sentimento de vergonha alheia e de angústia, com Giovanni a aparecer como um protagonista dotado de alguma densidade. Este conta no seu interior com diversas ansiedades e contradições dos elementos que tardam em acompanhar a ascensão social e económica daqueles que os rodeiam, com "Il boom" a surgir como uma sátira mordaz da sociedade transalpina entre os anos 50 e o início dos anos 60. 


 Se em filmes como "Sciuscià", "Ladri di biciclette" e "Umberto D.", Vittorio De Sica apresentou um tom dramático a abordar temáticas inerentes à sociedade italiana do período após a II Guerra Mundial, sempre com um enfoque em figuras que contam com dificuldades financeiras, enquanto expunha uma série de problemas da época, já em "Il boom", o cineasta incute um cariz de commedia all'italiana à obra cinematográfica que realiza, sendo apoiado pelo sólido argumento de Cesare Zavattini (um colaborador habitual do realizador). Marcado por comentários mordazes sobre a sociedade de Itália do chamado "milagre económico", uma mistura de humor e tragédia muito típica das comédias à italiana e mais uma demonstração do talento de Alberto Sordi para criar personagens aparentemente comuns que mesclam no seu interior uma faceta simultaneamente cómica e trágica, "Il boom" aborda eficazmente as mudanças sociais e culturais da época, bem como o desejo de ascensão social de alguns elementos que não foram bafejados pela fortuna. O território urbano de Itália também conhece mudanças, algo exposto de forma eficaz no início do filme, nomeadamente, durante os créditos iniciais, quando ficamos diante dos néones que cobrem os estabelecimentos, dos edifícios de grandes marcas internacionais e das estradas que se encontram recheadas de carros (símbolo de prosperidade e modernidade). Temos ainda o gosto que diversos personagens nutrem pelo twist, uma dança típica dos EUA que se expandiu para vários países, tais como Itália, uma situação que reflecte, mais uma vez, a abertura à cultura yankee, bem como aos novos ritmos e danças que marcam os territórios citadinos do país onde se desenrola o enredo do filme (algo que remete para obras cinematográficas como "Il sorpasso", onde também encontramos um grupo de personagens a dançar ao som do twist, com cineastas como Vittorio De Sica e Dino Risi a saberem captar a atmosfera da época). Toda esta atmosfera de suposta modernidade e prosperidade parece afectar o corpo e a mente daqueles que não conseguem ascender a nível profissional, social e financeiro, algo abordado em "Il boom", a partir da figura de Giovanni, mas também em obras cinematográficas como "Io la conoscevo bene". No caso da última obra mencionada, realizada por Antonio Pietrangeli, o espectador é colocado perante Adriana (Stefania Sandrelli), uma aspirante a actriz, que deseja ser famosa, embora apenas perceba tardiamente que o mundo no qual pretende entrar está longe de ser um local aprazível. Adriana queria apreciar os prazeres da vida, ser bem sucedida como actriz e desfrutar dos novos luxos que pontuam a sociedade italiana, embora encontre uma realidade bem distinta daquela que criara na sua mente quando saíra de casa dos pais. Giovanni também quer apreciar os luxos e desfrutar dos mesmos, sobretudo por esta ser uma forma de conseguir manter o casamento com Silvia, embora esteja a caminhar para um abismo financeiro.


 A vida de Giovanni sofre uma reviravolta a partir do momento em que este é confrontado com uma oferta que tanto tem de cruel e desumana como de tentadora e alucinada: vender o olho esquerdo a Bausetti (Ettore Geri), um milionário que construiu fortuna nos negócios da construção civil. O Sr. Bausetti sofreu um acidente que o levou a perder o olho esquerdo. A Srª Bausetti (Elena Nicolai) propõe a Giovanni que este venda o olho esquerdo ao Srº Bausetti, com o casal a oferecer uma verba avultada para que o protagonista aceite o negócio que culminará num transplante. É uma oferta escabrosa, que envolve muito dinheiro, alguma imoralidade e um desespero desmedido, com Giovanni a relutar imenso, apesar de parecer quase certo que não tem outra hipótese a não ser desfazer-se do olho esquerdo para poder pagar as dívidas, manter o casamento e ficar milionário. O encontro entre a Srª Bausetti e Giovanni é um dos bons momentos do filme, com Vittorio De Sica a contribuir para que os actores e actrizes que compõem o elenco protagonizem algumas cenas que ficam na memória. O cineasta ludibria inicialmente o espectador e o protagonista ao dar a entender que a Srª Bausetti pretende iniciar um affair com Giovanni, até esta revelar as suas reais intenções, algo que desperta a surpresa do personagem principal. Temos ainda uma festa organizada por Giovanni, um evento que assume contornos delirantes, sobretudo a partir do momento em que o protagonista bebe em demasia e resolve dizer aquilo que pensa sobre o sogro, o cunhado e os restantes convidados, com Alberto Sordi a roubar por completo as atenções neste episódio que tanto tem de cómico como de profundamente triste. O desprezo que Giovanni sente em relação a boa parte dos convidados torna-se evidente, com este indivíduo a exibir uma faceta politicamente incorrecta mas sincera, embora o próprio acabe por estar inserido neste meio, apesar de tardar em alcançar os benefícios do "milagre económico". O desejo de enriquecer assume uma força muito forte no interior da mente do protagonista, um indivíduo que pretende manter um casamento marcado pelo consumismo e frieza, com "Il boom" a expor o desejo de ascensão rápida deste empresário, bem como a sua personalidade peculiar e o amor que nutre por Silvia. O humor é utilizado para efectuar alguns comentários sobre uma sociedade que parece descontrolada, marcada por imensas contradições (note-se a dicotomia entre o ser e o parecer, ou a confluência entre os novos e os velhos valores, algo notório quando, no interior de toda esta suposta modernidade, encontramos o protagonista e a esposa num certame religioso), com Giovanni a simbolizar esses excessos e devaneios, ou não estivéssemos diante de uma figura que gasta mais do que tem, parece pouco disposta a entrar em contenção financeira, tendo um estilo de vida pontuado por imensos luxos que não são coadunáveis com o salário que recebe. Com interpretações sólidas do elenco principal, sobretudo de Alberto Sordi, "Il boom" surge como uma comédia de costumes muito italiana, ou o humor não partisse da situação trágica de um indivíduo que se endivida de forma compulsiva, com Vittorio De Sica a traçar um retrato mordaz deste período, enquanto exibe os devaneios de uma sociedade consumista, muitas das vezes fútil, sempre com alguma boa disposição à mistura. 


Título original: "Il boom".
Título em Portugal: "Negócio à Italiana".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Cesare Zavattini.
Elenco: Alberto Sordi, Gianna Maria Canale, Ettore Geri, Elena Nicolai.

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