03 abril 2017

Resenha Crítica: "Fai bei sogni" (Sonhos Cor-de-Rosa)

 Numa fase relativamente adiantada do enredo de "Fai bei sogni", encontramos Massimo (Valerio Mastandrea), em idade adulta, a aceitar o convite de Elisa (Bérénice Bejo), uma médica que ganha algum relevo na vida do jornalista, para dançar. Até então Massimo procurara manter uma postura discreta, contida e distanciada, pouco dada a demonstrações de afecto ou à formação de laços, tendo em vista a evitar voltar a sentir a dor de uma perda, algo quebrado, ainda que de forma inicialmente relutante, na festa do sexagésimo aniversário de casamento dos avós de Elisa. É um momento de extroversão dos sentimentos que se encontravam aprisionados no interior de feridas mal saradas que teimavam em consumir a mente do protagonista, com este episódio, ritmado pela canção "Surfin' Bird", a marcar uma ruptura de Massimo em relação ao passado e a permitir que Valerio Mastandrea brilhe em bom nível. Valerio Mastandrea deixa transparecer a carga libertadora que envolve esta dança, com o actor a convencer quer neste momento efusivo e delirante, quer quando imprime uma postura mais séria e contida ao protagonista. Note-se a eficácia com que Valerio Mastandrea exprime os sentimentos de Massimo com poucas falas, ou transmite as tormentas que apoquentam este jornalista que se encontra demasiado preso às dores do passado. Essa reticência de Massimo em dançar, também demonstrada quando o protagonista está a trabalhar como repórter de guerra em Sarajevo, remete exactamente para um episódio relevante da infância deste indivíduo, quando tinha nove anos de idade (interpretado por Nicolò Cabras), nomeadamente, a ocasião em que dança com a mãe (Barbara Rochi). É um momento pontuado por alguma candura e inocência, que decorre no início do filme e simboliza um dos últimos pedaços de alegria entre mãe e filho. A ligação forte que existe entre Massimo e a mãe é estabelecida de forma certeira por Marco Bellocchio, o realizador desta obra cinematográfica, com Barbara Rochi e Nicolò Cabras a revelarem uma dinâmica convincente, algo que é fulcral para "Fai bei sogni" funcionar. Note-se que os trechos que remetem para a infância e adolescência do protagonista são essenciais (embora não estejam livres de uma ou outra situação redundante) para atribuírem peso aos comportamentos do personagem principal quando a narrativa deambula pela década de 90, ou seja, durante a idade adulta do jornalista, para além de permitirem dar a conhecer as inquietações deste indivíduo. 


 A separar os dois momentos de dança mencionados encontra-se um longo período de tempo e um episódio traumático que mexeu com a alma e a mente de Massimo, nomeadamente, a morte da progenitora, em 1969, com "Fai bei sogni" a perambular entre o passado e o presente, enquanto nos deixa diante das particularidades deste personagem interpretado com enorme acerto por Nicolò Cabras (infância), Dario Dal Pero (adolescência) e Valerio Mastandrea (idade adulta). Nicolò Cabras e Dario Dal Pero exibem a ingenuidade e revolta de Massimo, enquanto o jovem lida com a ausência da mãe e um sentimento de vazio que encobre a sua alma ao mesmo tempo que enfrenta uma série de questões relacionadas com a religião, a família, a morte e o luto. Com apenas nove anos de idade, Massimo encontra-se encoberto pela dor e solidão, com o pai (Guido Caprino) a tentar educar e proteger o filho, apesar de nem sempre compreender o petiz, algo que conduz o rapaz a refugiar-se na figura de Belfagor, uma espécie de amigo imaginário dominador e assustador. O demónio aparece com um visual semelhante ao da figura homónima da série televisiva "Belfagor ovvero Il fantasma del Louvre" (ou, simplesmente, "Belphegor"), que Massimo visionava com a companhia da mãe, naquela que é uma das várias referências que Marco Bellocchio efectua aos elementos que marcaram os períodos distintos em que decorre o enredo. Essas referências são incutidas de forma harmoniosa no interior da narrativa, sendo inseridas a partir da decoração dos cenários (bom trabalho neste capítulo), da banda sonora (muitas das vezes relevante para a narrativa), ou de situações que envolvem os protagonistas. Veja-se a relevância que a televisão tem nas famílias italianas do final da década de 60, exposta através de Massimo e dos familiares do protagonista, ou as músicas que são ouvidas pelos personagens, com o twist, os Deep Purple, Rolling Stones e afins a estarem na moda (algo notório quando o personagem principal, já durante a adolescência, visita Enrico, um amigo que conta com uma série de discos de vinil). Temos ainda as referências ao Torino Football Club, o clube de eleição do protagonista, com os plantéis, ou alguns eventos associados a esta equipa, a permitirem uma ligação entre a história da agremiação e a vida de Massimo. O Stadio Comunale di Torino (agora Stadio Olimpico Grande Torino) encontra-se situado praticamente em frente à casa do protagonista, com o estádio a surgir como um espaço marcante do território de Torino, embora o passado grandioso desta agremiação tarde em repetir-se no presente, com Massimo a manter um interesse genuíno por esta equipa. 


 Tal como Massimo, o Torino também foi marcado pela tragédia, nomeadamente, a 4 de Maio de 1949, quando o avião que transportava a equipa de Lisboa para Turim embateu no muro posterior do terraplano da Basílica de Superga, um episódio negro que levou à morte de todos os passageiros. Diga-se que é exactamente num evento relacionado com o assinalar dessa data pouco feliz da história do Torino que Massimo se reúne com o pai, em plena década de 90, um período em que dialogam com pouca frequência. A relação entre Massimo e o pai é marcada por uma incompreensão mútua e uma mentira que o segundo efectua para proteger o rebento, enquanto este último parece preferir acreditar numa história pouco credível do que numa verdade ainda mais dolorosa. Marco Bellocchio aborda também as complicações inerentes às relações entre um pai e o seu filho e vice-versa, com Massimo e o progenitor a nem sempre conseguirem manter uma convivência pacífica. O regresso de Massimo à habitação dos pais, ainda que de forma temporária, em 1999, para vender a casa, é uma ocasião privilegiada para o protagonista recordar e confrontar o passado, com o enredo a deambular quer pelo final da década de 60, quer pelos anos 70 (a adolescência do protagonista), quer pelos anos 90 (nomeadamente, 1992, 1993, 1995 e 1999), enquanto nos dá a conhecer este elemento e algumas das especificidades que envolvem a realidade italiana ao longo das balizas cronológicas em que decorre a narrativa. Entre avanços e recuos no tempo, "Fai bei sogni" não nos traz "sonhos cor-de-rosa", mas sim a história de um indivíduo que tarda em conseguir superar o luto inerente à morte da mãe. Foi uma perda que deixou marcas indeléveis em Massimo, que marcou uma fase decisiva da infância do protagonista, bem como a adolescência e a idade adulta. Este teve de aprender a lidar com o facto de não poder contar com a mãe ao seu lado, nem com o amor maternal, ele que até então apresentara carências enormes, com "Fai bei sogni" a abordar o papel que uma progenitora ou a sua ausência têm na educação dos filhos, com Massimo a parecer incapaz de ultrapassar a dor provocada pela partida prematura desta figura feminina que marcou a sua vida. Em idade adulta, Massimo utiliza o distanciamento, mascarado de frieza, como mecanismo de defesa, tendo em vista a evitar sofrer, embora anseie ser amado ou apreciado. Se na infância esse apoio aparece inesperadamente na figura de Belfagor, já em idade adulta a companhia do protagonista aparece numa fase mais avançada da narrativa, embora ainda a tempo de deixar que Bérénice Bejo encha o ecrã de graciosidade, calor e simpatia, com Elisa a contribuir para Massimo libertar-se dos grilhões do passado.


 Valerio Mastandrea imprime um cunho discreto e entorpecido a Massimo, um jornalista fã do Torino, pouco dado a grandes conversas e incapaz de manter uma relação a longo prazo. Diga-se que Massimo também demonstra pouco disponibilidade para exprimir de forma aberta os sentimentos, com excepção das ocasiões em que escreve uma carta a um leitor ou aceita participar numa dança que ocorre no interior da festa de sessenta anos do matrimónio dos avós de Elisa. A exposição do conteúdo da carta que Massimo escreve como resposta a um leitor é um dos momentos mais poderosos desta obra cinematográfica, com a missiva a comprimir em algumas palavras aquilo que o protagonista sentiu após a morte da mãe. Diga-se que é um texto que contrasta com o estilo de escrita que associam ao jornalista, com Massimo a ser até então elogiado pelo discurso bastante directo, sem floreados e pouco emocional, mesmo quando escreve sobre o Torino, uma das suas grandes paixões. Esse distanciamento não é obra do acaso ou a morte não tivesse marcado e muito a vida de Massimo. Note-se os trechos de 1992 e 1993, com Massimo a lidar de perto quer com um suicídio, quer com os eventos sangrentos da Guerra da Bósnia, enquanto trabalha como jornalista do "La Stampa", para além da mencionada perda da progenitora. O luto, as temáticas associadas à religião e às relações familiares surgem como elementos que ligam "Fai bei sogni" com outros trabalhos de Marco Bellochio, tais como "L'ora di religione" e "Sangue del mio sangue", com o cineasta a ter nesta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Massimo Gramellini (de pendor auto-biográfico) um drama sensível que se envolve quer pelos meandros da mente de um indivíduo marcado por uma perda, quer por diversos períodos distintos de Itália. "Fai Bei Sogni" deambula pelo tempo, enquanto aborda de forma sensível e eficiente algumas temáticas e elementos relacionados com o luto, tais como o sentimento de perda e as marcas deixadas pela morte de um ente querido, ao mesmo tempo que nos deixa diante de um protagonista que tarda em abrir o coração, confrontar o passado e enfrentar os seus medos, sejam estes receios a descoberta de respostas dolorosas ou a retirada das defesas que impedem a entrada em cena do amor.


Título original: "Fai bei sogni".
Título em Portugal: "Sonhos Cor-de-Rosa".
Realizador: Marco Bellocchio.
Argumento: Marco Bellocchio, Valia Santella, Edoardo Albinati.
Elenco: Valerio Mastandrea, Nicolò Cabras, Dario Dal Pero, Bérénice Bejo, Guido Caprino, Barbara Ronchi.

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