06 abril 2017

Entrevista a Stefano Savio sobre a décima edição da Festa do Cinema Italiano

 Director artístico e programador da Festa do Cinema Italiano, um dos festivais de cinema mais entusiasmantes e interessantes do panorama nacional, Stefano Savio concedeu uma entrevista ao Rick's Cinema na qual abordou diversos assuntos relacionados com a décima edição do certame. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a unidade temática dos filmes que se encontram na secção competitiva, bem como com a retrospectiva dedicada a Dino Risi e os ingredientes do sucesso da Festa do Cinema Italiano. A articulação entre a Festa do Cinema Italiano e o FILMin foi outro dos temas abordados, tal como o Fórum de co-desenvolvimento e criação de projectos cinematográficos italo-portugueses, entre outros assuntos.


Rick's Cinema: A Festa do Cinema Italiano consegue crescer de ano para ano quer no número de espectadores, quer na qualidade e diversidade da sua programação cinematográfica. Quais são os ingredientes que contribuem para esta receita de sucesso?

Stefano Savio: O cinema italiano. A matéria-prima com que estamos a trabalhar. Temos uma boa e interessante cinematografia contemporânea. Nem todos os anos são iguais, mas nos últimos quinze anos contámos com alguns autores interessantes e uma filmografia mais regular. Temos ainda um grande tesouro, nomeadamente, o cinema clássico. É muito fácil seleccionar por lá, pois existe uma grande diversidade. A amplitude da oferta contribui para o sucesso da Festa do Cinema Italiano. Dentro de uma cinematografia nacional tanto podemos ir de um cinema de terror, de género, como o "Suspiria" do Dario Argento, ou para o mais experimental como o "Spira Mirabilis", ou efectuar uma retrospectiva sobre um autor da commedia all'italiana, ou homenagear uma personagem do cinema popular como o Bud Spencer. Esta variedade, que existe dentro do contexto limitado do cinema italiano, é provavelmente uma das chaves do sucesso. Nós conseguimos divulgar o evento com um conceito bastante firme, que é o cinema italiano, mas dentro do cinema italiano também podemos brincar e viajar muito entre vários contextos. No nosso caso jogamos não só com o cinema, mas também com a música, a literatura e a gastronomia, algo que permite enriquecer a oferta.


RC: Um dos elementos que sobressaem quando observamos a programação é a grande diversidade de propostas cinematográficas. É um desafio conseguir conciliar estas diferentes vertentes do cinema italiano na programação?

SS: Sim. Do nosso lado existe uma atenção em relação ao público. A Festa do Cinema Italiano tenta representar todos os diferentes espectadores do festival. Não se dedica unicamente aos cinéfilos, ou aos italianos que estão em Portugal, ou ao cinema mais popular. Temos uma coerência de qualidade, uma qualidade que respeita o espectador. A nossa tarefa passa fundamentalmente por imaginarmos diferentes tipos de espectadores e tentarmos encaixar cada um. Perguntamos: "Um espectador mais ligado ao cinema clássico gostaria disto?" Se a resposta é sim, então escolhemos o filme. O mesmo aplica-se a outro tipo de filmes. Enquanto organizador existe alguma preferência ou um olhar mais específico, mas tentamos sempre que a Festa do Cinema Italiano seja para um público que gosta de cinema e ao mesmo tempo para o espectador que se encontra a descobrir. Muitas das vezes temos público que gosta do evento, mas não é um espectador de cinema. Gosta do evento e descobre o cinema italiano. Não queremos fechar-nos numa programação demasiado ligada a um festival, a este mundo. Por isso procuramos ampliar o festival em cidades, em salas. É o único festival um pouco maior que está nas salas da UCI, que contam com um público mais generalista. Ao mesmo tempo temos a Cinemateca para ligar ao cinema clássico. A chave é respeitar o nosso público. No sentido de que o nosso público é bastante diversificado. Tanto temos espectadores que pretendem divertir-se e ver uma uma comédia, ou que querem ver os filmes de Dino Risi, ou as obras cinematográficas que estrearam em Locarno. São filmes diferentes, mas procuramos respeitar cada um deles e atribuir-lhes um percurso temático.


RC: Aproveito para pegar na deixa do percurso temático. A secção Competitiva é composta por seis longas-metragens, com quatro delas a abordarem temáticas ligadas aos adolescentes ou aos jovens adultos, algo notório no "Un bacio", "Fiore", "Piuma" e "La ragazza del mondo". Esta semelhança temática foi algo propositado para colocar os filmes a "dialogarem" entre si ou foi algo que se formou durante a selecção dos filmes?

SS: Foi algo que se formou. Percebemos depois que os filmes, vistos de seguida, poderiam funcionar como um bom apanhado sobre a forma como o cinema italiano retrata um período ou momento utópico como é a passagem da idade juvenil para a idade adulta. Os seis filmes contam com uma vertente temática que se liga. Não só temática mas também a nível do mood, que é muito nostálgico, claro e preciso sobre o desenvolvimento inerente a esta idade. O "Un bacio" conta com personagens que têm de enfrentar o mundo dos adultos, que é muitas das vezes mais feio e duro do que o seu. O "Piuma" também é um filme desse género. O "La ragazza del mondo" aborda essas temáticas mencionadas, ainda que inseridas no contexto religioso, em particular, na comunidade das Testemunhas de Jeová: a saída de uma comunidade protectora e a entrada no mundo dos adultos. No "La pelle dell'orso", uma caça ao urso protagonizada por um pai e o seu filho surge quase como uma passagem de uma geração à outra.
 Tirámos da competição os filmes que tivessem uma vertente demasiado comercial ou popular. Também tirámos os filmes que pudessem ter uma linguagem mais alternativa e inserimos os mesmos na secção Altre Visione. Tirando o "Orecchie", que conta com alguma atenção mais formal, quase todas as obras cinematográficas da secção competitiva respeitam a narratividade como um elemento bastante típico do cinema italiano. Todos contam com histórias bem contadas sobre uma idade determinante.


RC: A abrir temos "Fai bei sogni" de Marco Bellocchio, um cineasta com um cunho autoral forte. É a obra cinematográfica ideal para continuar a tradição de começar a Festa do Cinema Italiano da melhor forma? 

SS: Sim. Não só pelo peso do autor, mas também por ser um trabalho bem conseguido. A cada o ano o cinema italiano tem uma colheita. Entre os grandes autores consagrados, o Marco Bellocchio é o único que tinha um filme pronto. Havia também o Paolo Virzì, mas o "La pazza gioia" já tinha estreado em sala, pelo que não podia entrar na programação. Nos últimos dois filmes, entre os quais o "Sangue del mio sangue", que exibimos no ano passado, o Marco Bellocchio contou com uma vertente mais auto-reflexiva, mais pessoal. No caso de "Fai bei sogni", o Marco Bellocchio pega num livro que é um best-seller em Itália. Parte de uma história já bastante codificada, tira muitos elementos demasiado enfáticos e torna a história muito coerente e eficaz. O "Fai bei sogni" aborda a nossa necessidade de irmos à procura onde não queremos procurar. A nossa necessidade de nos lembrarmos daquilo que não queremos. O filme conta com um grande papel do Valerio Mastandrea, que, neste momento, juntamente com o Toni Servillo e o Luca Marinelli, é um dos actores mais interessantes do panorama italiano. É uma obra cinematográfica que estreou no Festival de Cannes, na Quinzena dos Realizadores onde talvez merecesse algo mais.


RC: O "Fai bei sogni" estreia em quatro cidades. Qual foi o papel da Alambique para que o filme estivesse presente na abertura do festival em quatro cidades em simultâneo? 

SS: Nós temos um pé num lado e o outro pé no outro. Também somos distribuidores e sabemos as suas necessidades. Sabemos que os festivais podem ser parceiros, mas, ainda para mais para as distribuidoras pequenas, que apostam em filmes alternativos, o festival também pode ser um antagonista muito forte. É isso que sentimos que está a acontecer. Os distribuidores estão, acho que justamente, a proteger os filmes dos festivais. Estes eventos podem sugar todo o público que o filme poderia ter em circuito comercial. Nesse sentido, procurámos integrar muito mais os distribuidores. É algo que economicamente faz sentido. Os distribuidores da Festa do Cinema Italiano inserem-se dentro da promoção deste filme.
 É preciso uma grande reflexão. Nós que estamos bastante inseridos nisto já avançámos e começámos a falar com salas e outras entidades. Os distribuidores têm de ter garantias dentro dos festivais. Uma antestreia no Cinema São Jorge pode potencialmente retirar quase metade dos espectadores que o filme poderia ter em circuito comercial. Isto não é bom para o distribuidor, que é quem investiu no filme. Temos de encontrar formas para que o distribuidor consiga rentabilizar a presença dos filmes no festival. Consideramos que é importante encontrar uma chave de leitura, uma possibilidade para que nenhum dos dois lados seja prejudicado. Ou seja, que o festival possa continuar a ter uma programação de qualidade e forte e, ao mesmo tempo, que o distribuidor não fique sem o público que teria em circuito comercial. Nós damos uma contrapartida forte aos distribuidores já que que conseguimos colocar os filmes em muitas cidades.


RC: A Festa do Cinema Italiano actua ainda no mercado como distribuidora. Obras cinematográficas como "Un bacio", "Se Dio vuole", "In guerra per amore" e "Suspiria" contam com distribuição da Festa do Cinema Italiano. Quais são os critérios que utilizam para seleccionar as obras cinematográficas que vão ser distribuídas pela Festa do Cinema Italiano? 

SS: Normalmente procuramos ocupar um espaço intermédio. Não queremos substituir as distribuidoras que já existem e contam com um papel bastante específico. Procuramos trazer para Portugal uma cinematografia italiana "do meio", que não é hiper-comercial mas também não é cinema de autor. É uma faixa de cinematografia que é muito difícil de trazer para cá. Os grandes distribuidores vão directamente para cima, para filmes como o "La vita è bella", ou obras do Paolo Sorrentino e coisas do género. As distribuidoras ligadas ao cinema independente apanham aquela faixa ligada aos festivais, por exemplo, filmes como o "Fai bei sogni" e o "Le confessioni". Para nós falta aquela faixa de filmes que fizeram sucesso em Itália e achamos que contam com qualidade para encontrar público em Portugal, embora estejam fora da rota. A nossa vantagem é que estamos completamente inseridos naquele mundo e sabemos seleccionar os filmes que ninguém iria distribuir fora de Itália e podem encontrar um público. As pessoas que não querem "Transformers", mas também não pretendem obras hiper-autorais. O "Se Dio vuole", o "In guerra per amore" e, até, o "Smetto quando voglio", que lançámos há pouco tempo, são todos filmes que se encaixam neste conceito.


RC: No caso do "In guerra per amore", o filme encerra ainda a 10ª Festa do Cinema Italiano, com a obra cinematográfica a remeter muito para os bons exemplares da commedia all'italiana. Podemos dizer que "In guerra per amore" é a confirmação do Pierfrancesco Diliberto como um realizador, argumentista e actor a ter em atenção?

SS: Sim, é interessante. O Pif já ganhou um prémio na Festa do Cinema Italiano, com o "La mafia uccide solo d'Estate". O "In guerra per amore" continua a interpretação narrativa e romântica do Pif em relação a um problema muito real, nomeadamente a máfia na Sicília. Este filme conta uma história de amor, mas no final o topos é o problema histórico. O "La mafia uccide solo d'Estate" aborda o passado recente da máfia. Já o "In guerra per amore" trata o problema histórico da máfia durante a II Guerra Mundial. Achámos isso muito inteligente, da parte de um autor que é muito conhecido em Itália pela televisão (nomeadamente, o programa "Il testimone"), que conseguiu conjugar dois mundos que nem sempre combinam bem: um romance muito pop, marcado pela comédia, com uma indagação social. O Pif coloca mesmo o dedo na ferida, não tem problemas em dizer os nomes dos mafiosos.



RC: Se "In guerra per amore" é um dos bons exemplares das comédias à italiana contemporâneas, já a secção Amarcord traz um dos autores que contribui para dar a conhecer a commedia all'italiana ao Mundo. Tendo em conta o nome da associação que organiza a Festa do Cinema Italiano, nomeadamente, Il sorpasso, podemos presumir que a escolha de Dino Risi reveste-se de uma especial importância?  

SS: Sim, claro, sobretudo o "Il sorpasso". Não somos nós a distribuir, é a Alambique Filmes. Há anos que estávamos à espera da ocasião para homenageá-lo. O ano passado conseguimos fazer com o "8 1/2", que era o nome do festival. Este ano voltamos com o "Il sorpasso", que é o nome da associação. O nome da organização remete para o enorme gosto por este filme. É algo muito pessoal. Esperámos que várias coisas se concretizassem no âmbito dos cem anos do nascimento do Dino Risi, tais como um grande projecto do Istituto Luce Cinecittà, que é a principal entidade que promove o cinema italiano, seja clássico ou contemporâneo, no estrangeiro, com o MoMa em Nova Iorque, com quem restauraram uma boa parte da obra do Dino Risi em 35 mm. Existiu ainda uma necessidade da Cinemateca Portuguesa utilizar novas cópias em 35mm, restauradas, embora não seja o caso do "Il sorpasso", que é exibido numa cópia digital.
 O Dino Risi é uma escolha bastante interessante. Não seleccionámos toda a obra de Dino Risi, que é enorme. Temos os clássicos, mais uma escolha que representa a obra de Dino Risi por décadas. Vão estar presentes alguns convidados conhecidos, tais como a Edwige Fenech, para apresentar o "Sono fotogenico", no qual ela é protagonista. O director de arte do "Perfumo di donna" também vai estar presente. Ele está de férias em Lisboa e aproveitámos para trazê-lo para a Festa do Cinema Italiano. Não foi possível trazer os dois filhos do Dino Risi. O Alessandro Gassman, o filho do Vittorio, infelizmente também não conseguiu vir.


RC: Em 2013, a secção Amarcord deu destaque aos polizzioteschi e aos spaghetti western. Em 2014 a retrospectiva foi dedicada a Mario Bava, algo que permitiu uma incursão pelo giallo. O homenageado da secção Amarcord em 2015 foi Sergio Leone, ou seja, o spaghetti western esteve em destaque. O ano passado foi Ettore Scola o homenageado, com a commedia all'italiana a estar bem representada. Este ano a retrospectiva a Dino Risi promete trazer mais alguns exemplares marcantes da commedia all'italiana. Este destaque dado ao cinema di genere na secção Amarcord é algo propositado?

SS: Acho que sim. No nosso festival ainda não enfrentámos o "grande" cinema italiano, nomes incontornáveis como o Pier Paolo Pasolini, o Michelangelo Antonioni, o Luchino Visconti. Não digo que seja o menos óbvio, mas procuramos ir ao encontro de algo que seja menos falado ou consagrado. Iremos chegar aos nomes mais clássicos, não há dúvida nenhuma, mas achamos interessante pegar no cinema di genere, também pela alma do festival. É um festival popular. Achamos que o cinema popular italiano tem um impacto muito importante, mesmo fora de Itália, considerámos importante ir atrás dessa faceta. Não quer dizer que na próxima edição não avancemos para o Pasolini e, depois, para o Antonioni.


RC: O Fórum de co-desenvolvimento e criação de projectos cinematográficos italo-portugueses é um dos destaques da décima edição da Festa do Cinema Italiano. Podemos esperar co-produções entre Portugal e Itália que contem com o apadrinhamento da Festa do Cinema Italiano?

SS: É claramente o nosso percurso. Começámos como uma mostra de cinema. Depois passámos a dar mais visibilidade ao cinema italiano com a distribuição e avançámos para vários países. Estamos há dois anos a tentar fazer de intermediários entre o ICA e o MiBACT para formalizar esse projecto, até porque efectivamente as co-produções entre Portugal e Itália quase que se contam com uma mão, são muito escassas. Temos uma Itália muito forte economicamente, a nível de investimento em obras cinematográficas, sobretudo nos últimos anos, enquanto que Portugal conta com uma grande visibilidade internacional, tem realizadores com óptimas competências técnicas e autorais.
 Achamos que é uma necessidade produtiva para Itália mas também para Portugal, que sempre se ligou mais com a França, até por ligações históricas. É só o princípio. Estamos muito felizes, quase todos os grandes produtores portugueses vão estar presentes. Temos a presença de muitos produtores italianos, que já estão a desenvolver projectos com Portugal. Estamos a fazer o casamento. Estão vários projectos muito interessantes em cima da mesa que podem dar bons resultados. O nosso papel é de intermediários que procuram colocar na mesma mesa as pessoas certas a conversar entre elas. Esperamos daqui a uns anos ter no festival algumas estreias resultantes deste casamento.


RC: O FILMin vai exibir diversos filmes em simultâneo com a Festa do Cinema Italiano. Quais são as vossas expectativas desta articulação entre o FILMin e a Festa do Cinema Italiano? 

SS: Cada um desfruta do outro. Nesta fase estamos a aproveitar a Festa do Cinema Italiano para ajudar o FILMin, no sentido em que o primeiro tem mais experiência, enquanto que o segundo é um projecto em crescimento. Temos procurado efectuar parcerias com todos os festivais. Esta foi a mais fácil de todas (risos). A ideia passa por uma abertura a nível de público. Sabemos que muito público dos festivais é um público potencial do FILMin, bem como que muitas pessoas não podem vir a Lisboa ou a outras cidades para ver os filmes. Para além disso, a parceria permite ainda ligar o FILMin num sentido quase de exclusividade e de proximidade forte com este tipo de conteúdo.
 O FILMin é um projecto muito forte, que precisa de um tempo para crescer, mas tem potencialidades incríveis. As colaborações vão ser cada vez mais fortes. O FILMin daqui a algum tempo vai tornar-se uma alternativa forte para todos, sejam os espectadores, os distribuidores, ou os festivais. No próximo mês vamos efectuar um investimento promocional forte no FILMin. Queremos avançar com um canal de cinema português, já juntámos muitos filmes portugueses, alguns que quase não se encontram. Pretendemos lançar o FILMin como uma ferramenta indispensável, pelo menos para o cinema português. Acho que o FILMin tem todas as cartas para crescer.


RC: Muito obrigado pela atenção disponibilizada.

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