15 março 2017

Resenha Crítica: "Ieri, oggi, domani" (Ontem, Hoje e Amanhã)

 Dotado de uma série de características das comédias à italiana, tais como a capacidade de mesclar o humor e a tragédia, a abordagem de temáticas de cariz social, os sentimentos expostos de forma exacerbada, os personagens que evidenciam um enorme desejo sexual, "Ieri, oggi, domani" consegue transmitir algumas das particularidades de Nápoles, Milão e Roma, com estas cidades a assumirem muitas das vezes um papel de relevo ao longo desta obra cinematográfica composta por três episódios realizados por Vittorio De Sica. A unir os três episódios encontram-se Marcello Mastroianni e Sophia Loren, cada um a interpretar um personagem distinto em cada capítulo de "Ieri, oggi, domani", com a dupla a exibir uma dinâmica sublime e uma versatilidade indelével quer quando forma um casal que concebe filhos a um ritmo desgastante, quer como dois amantes, quer como uma prostituta e um cliente muito peculiar. Marcello Mastroianni e Sophia Loren enchem o ecrã de carisma e talento, naquela que é a primeira colaboração da dupla com Vittorio De Sica (a actriz já tinha trabalhado com o cineasta em filmes como "L'oro di Napoli" e "La ciociara"), uma parceria que se repetiria em "Matrimonio all'italiana" e "I girasoli". As características dos personagens que Sophia Loren e Marcello Mastroianni interpretam são distintas, bem como os atributos de cada território onde se desenrola o enredo do filme. Veja-se a representação do território de Nápoles em "Adelina", o primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani", com Vittorio De Sica a transmitir a atmosfera deste espaço de forma bem viva e contagiante. Não falta a exposição das bancas de rua onde são vendidos produtos tão distintos como frutas ou cigarros contrabandeados, a exibição do mercado negro e dos edifícios e das cerimónias locais, com este espaço de Nápoles, em particular, o bairro de Forcella, a contar com um relevância indelével no interior da narrativa do primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani". Diga-se que "Adelina" traz um pouco à memória "L'oro di Napoli", uma longa-metragem realizada por Vittorio De Sica, lançada originalmente em 1954, que efectua um retrato vivaz da cidade de Nápoles e das suas gentes. Tal como nos seis episódios de "L'oro di Napoli", "Adelina" transmite as especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, igrejas e edifícios deste local.


 Com argumento de Eduardo De Filippo, o primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani" coloca o espectador diante de Adelina (Sophia Loren) e Carmine Sbaratti (Marcello Mastroianni), um casal depauperado que vive no interior de uma habitação pontuada por paredes e móveis claramente consumidos pelo tempo e pela humidade, com este espaço a reflectir paradigmaticamente os parcos recursos financeiros dos protagonistas, bem como o cuidado que existiu na decoração dos cenários interiores. Marcello Mastroianni e Sophia Loren parecem desfrutar imenso dos momentos em que interpretam Carmine e Adelina, com a dupla a contar com uma química deliciosamente convincente como este casal sem grandes condições financeiras. Sophia Loren incute uma faceta prática, pouco dada a grandes contemplações e ilusões a Adelina, uma mulher fogosa, de longos cabelos pretos, que se encontra sempre pronta para praguejar, falar alto e engravidar. Marcello Mastroianni transmite a personalidade resignada de Carmine, um indivíduo que tarda em encontrar emprego (está desempregado desde que terminou o serviço militar), que se depara com a necessidade de engravidar constantemente a esposa, algo que o começa a desgastar. Se Carmine está desempregado, já Adelina ganha a vida a vender tabaco contrabandeado, um trabalho que coloca a protagonista em problemas. O início do primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani" é marcado pela chegada das autoridades à casa de Adelina e Carmine, tendo em vista a cobrarem uma multa acrescida de juros, referente ao facto da protagonista ter sido apanhada a vender cigarros contrabandeados. Perante a pouca disponibilidade que o casal apresenta para pagar a multa, os representantes das autoridades decidem penhorar os bens da habitação de Adelina e Carmine, embora deparem-se com o facto da casa estar completamente vazia. O momento é pontuado por algum humor, com o estado degredado das paredes da casa dos protagonistas a ficar bem saliente, bem como o prazer que Carmine tem em enganar as autoridades. Os bens de Carmine e Adelina foram escondidos no interior das casas dos vizinhos, com Vittorio De Sica a exibir e transmitir o peculiar espírito de união e entreajuda dos habitantes de Forcella. A chegada das autoridades é acompanhada por movimentos dançantes do povo de Forcella, com estes elementos a acompanharem os ritmos da banda sonora, enquanto desafiam os representantes da lei e expõem os sentimentos de forma bem viva. No entanto, a alegria não dura muito tempo, já que a Adelina corre o risco de ser presa. A protagonista do primeiro episódio do filme não é presa de imediato devido ao facto de estar grávida do segundo rebento, com a lei a permitir que esta permaneça fora da prisão durante a gravidez e os meses de aleitamento. Perante esta descoberta, Adelina decide tomar medidas drásticas, ou seja, conceber rebentos para evitar ser encarcerada. A medida é delirante e rocambolesca, embora tenha sido inspirada no caso verídico de Concetta Muccardi, uma contrabandista napolitana que teve dezanove filhos, tendo em vista a evitar ser presa, com o argumento a explorar a premissa de forma relativamente eficaz, sempre com algum humor e exageros à mistura.


 Após diversas tentativas de fecundação bem sucedidas e uma imensidão de rebentos em casa, o plano de Adelina sofre um revés quando Carmine apresenta um desgaste latente, com Marcello Mastroianni a transmitir o cansaço deste indivíduo que está demasiado fraco para colocar "a máquina a funcionar". Por sua vez, Adelina encontra-se mais viçosa do que nunca, algo que desperta a atenção de tudo e todos, com Sophia Loren a demonstrar que a vendedora é um vulcão aparentemente inesgotável e cheio de vida. A incapacidade de Carmine em corresponder aos desejos de Adelina contribui para alguns momentos de humor. Veja-se quando o casal consulta um médico, com a vendedora a queixar-se da incapacidade do esposo em conseguir fecundá-la, algo que deixa o interlocutor perplexo, ou a forma como Carmine é recriminado pelas colegas de trabalho da esposa. Parece certo que o plano de Adelina tem tudo para falhar, ou o casal não estivesse com dificuldades quer para conceber filhos, quer para sustentar os rebentos, apesar de contarem com a ajuda de alguns amigos e conhecidos. Veja-se o caso de Pasquale (Aldo Giuffré), um indivíduo que vende castanhas numa banca de rua e apresenta um interesse notório na protagonista, apesar de ser amigo de Carmine. Temos ainda outros personagens secundários que assumem algum relevo no interior do primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani", tais como Domenico Verace (Agostino Salvietti), um advogado que despreza inicialmente a atitude impulsiva dos habitantes de Forcella, embora aceite trabalhar na defesa de Adelina, ou Amedeo (Lino Mattera), um amigo de Carmine que denota uma habilidade notória para a cantoria. O episódio conta ainda com algumas reviravoltas que permitem exibir quer a resiliência e compaixão do povo de Forcella, quer as características muito próprias deste bairro napolitano, sempre com alguns excessos à mistura. Se o povo de Forcella exibe um espírito de entreajuda notável e uma energia contagiante, apesar da pobreza da maioria dos seus habitantes, já Anna (Sophia Loren), a protagonista do segundo episódio de "Ieri, oggi, domani", é uma figura altiva e superficial, que conta com um elevado estatuto financeiro e social, bem como um desprezo indelével para com aqueles que a rodeiam. Pontuado pelo sagaz argumento de Cesare Zavattini, Lorenza Zanuso e Bella Billa (tendo como base o livro "Troppo ricca" de Alberto Moravia), "Anna", o segundo episódio do filme, coloca em evidência a superficialidade de uma figura feminina que não tem pejo em efectuar comentários que expõem a sua frivolidade e altivez. No início de "Anna" encontramos a personagem do título a conduzir um Rolls-Royce pelas estradas de Milão, enquanto efectua comentários depreciativos sobre aqueles que a rodeiam e expõe os seus planos para o futuro próximo. Vittorio De Sica aproveita estes momentos de condução para expor diversos espaços de Milão, com a câmara de filmar a acompanhar os movimentos do bólide de Anna, até esta se reunir com Renzo (Marcello Mastroianni), o seu amante. Marcello Mastroianni imprime um estilo simples, educado e ponderado a Renzo, um intelectual pouco dado a frivolidades ou caprichos, com o actor a sobressair quer pelo carisma que apresenta, quer pelo talento, quer pela versatilidade. Sophia Loren não se fica atrás de Marcello Mastroianni, bem pelo contrário, com a actriz a transmitir a elegância e superficialidade da personagem que interpreta, uma figura feminina que tanto gosta de dizer que pretende abandonar o estilo de vida dedicado aos luxos como parece contaminada pela necessidade de expor a sua opulência.


 Em certa medida, o espaço citadino de Milão, exposto no segundo episódio de "Ieri, oggi, domani", parece propiciar a alienação e a solidão (Vittorio De Sica volta a aproveitar os cenários exteriores de forma assertiva), algo que contrasta com o calor humano de Forcella. A própria genuinidade dos habitantes de Forcella contrasta com a frivolidade apresentada por Anna, uma figura feminina que raramente parece estar verdadeiramente em sintonia com Renzo. Ela é casada com um empresário rico, veste-se de forma elegante (Sophia Loren aparece magnificamente adornada por vestimentas da Christian Dior), maquilha-se com um aprumo notório e conduz um Rolls-Royce. Ele trabalha para ganhar a vida, conduz um Fiat 600 e denota uma mistura de admiração e receio em relação à amante. Uma boa parte do enredo do segundo episódio de "Ieri, oggi, domani" desenrola-se no interior do carro de Anna, enquanto Vittorio De Sica não só dá a conhecer diversos espaços de Milão mas também a personalidade de cada elemento da dupla de protagonistas. Veja-se a forma distinta como Anna e Renzo conduzem. Anna não se preocupa em avançar contra os carros que se encontram no caminho. Renzo afasta-se de um jovem para não atropelá-lo, com este acto a contribuir para um acidente que danifica o Rolls-Royce de Anna e traz ao de cima a verdadeira personalidade desta mulher. O discurso doce de Anna, marcado por promessas vãs a salientar que pretende abandonar tudo, é trocado por uma arrogância contundente, com o método de condução de cada elemento da dupla de protagonistas a surgir como uma espécie de metáfora para a atitude de cada um em relação à vida. Marcado por uma falta de sinceridade cortante, o affair de Anna e Renzo está longe de contar com o calor evidenciado por Adelina e Carmine, tal como apresenta características bem distintas em relação ao envolvimento de Mara (Sophia Loren) e Augusto Rusconi (Marcello Mastroianni), a dupla de protagonistas do terceiro episódio de "Ieri, oggi, domani". O último episódio de "Ieri, oggi, domani", intitulado de "Mara", coloca o espectador diante da relação peculiar da personagem do título, uma prostituta, com Augusto, o seu cliente, um empresário oriundo de Bolonha, bem como das dúvidas de Umberto (Gianni Ridolfi), um seminarista que exibe algum interesse na protagonista, algo que o conduz a colocar em causa o seu futuro como padre. Gianni Ridolfi transmite as dúvidas e timidez de Umberto, um jovem que visita a casa dos avós, um casal vetusto que conta um terraço contíguo ao de Mara. Com longos cabelos castanhos, roupas de cores bem vivas (prontas a realçarem as suas formas corporais) e uma lista de clientes importantes, Mara é uma figura feminina bem intencionada, que tanto é capaz de discutir com alguém como logo a seguir ajudar essa pessoa, com Sophia Loren a interpretar uma personagem de características relativamente distintas de Adelina e Anna.


 A habitação de Mara, situada na cidade de Roma, evidencia mais uma vez o cuidado colocado na decoração dos cenários interiores ao serviço do enredo, com a casa desta mulher a transmitir imenso a personalidade muito própria da sua arrendatária. Dotado de largas dimensões, este espaço habitacional conta com uma decoração moderna e diversos objectos cor de rosa, uma tonalidade conotada com a sensualidade e a sedução, bem como com o amor e os afectos, ou seja, que condiz com a personagem principal e adensa as características da mesma. Um dos clientes que frequenta regularmente a casa de Mara é Augusto, um empresário irrequieto, extrovertido e caricatural, que conta com um enorme apetite sexual e uma personalidade algo infantil. Os intentos deste indivíduo são regularmente adiados pela avó (Tina Pica) do seminarista, uma idosa que despreza Mara, embora esta figura vetusta acabe por pedir ajuda à protagonista, nomeadamente, quando Umberto pretende recuar nas intenções de ser padre. O capítulo é marcado por uma série de momentos memoráveis, tais como Mara a encenar uma espécie de striptease ao som da canção "Abajour" (a banda sonora tem uma importância notória no interior da narrativa), enquanto Augusto delira, uiva e entusiasma-se, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren a protagonizarem uma das grandes cenas de "Ieri, oggi, domani". A relação de Mara e Augusto é marcada pelo desejo de cariz sexual, com o segundo a pretender fazer algo que começou a desgastar Carmine, o protagonista de "Adelina", enquanto a primeira aparece como uma prostituta devota e disposta a cumprir as promessas, com "Ieri, oggi, domani" a lidar com a sexualidade e a prostituição com algum humor e inspiração. Mara e Augusto contam com uma relação sui generis, ainda que dotada de algum sentimento e imenso desejo, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren a comporem duas figuras prontas a exporem as emoções fervilhantes que percorrem esta ligação que tem a cidade de Roma como pano de fundo. O espaço da cidade de Roma é visível a partir do terraço da protagonista, enquanto ficamos diante de mais um capítulo marcado por uma dinâmica imaculada entre Marcello Mastroianni e Sophia Loren, com a dupla a saber mudar os registos consoante as necessidades do enredo. Pontuado por uma abordagem inspirada sobre as especificidades dos relacionamentos entre homens e mulheres, "Ieri, oggi, domani" mescla eficazmente alguns elementos de humor, drama e romance, enquanto nos deixa diante das especificidades de três espaços citadinos e do talento de Vittorio De Sica como realizador.

Título original: "Ieri, oggi, domani".
Título em Português: "Ontem, Hoje e Amanhã".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Eduardo De Filippo ("Adelina"), Isabella Quarantotti ("Adelina"), Cesare Zavattini ("Anna" e "Mara"), Bella Billa ("Anna"), Lorenza Zanuso ("Anna").
Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Agostino Salvietti, Aldo Giuffrè, Lino Mattera, Gianni Ridolfi, Tina Pica.

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