06 março 2017

Resenha Crítica: "Curumim" (2016)

 Realizado com mestria, inteligência e sentido de ritmo por Marcos Prado, "Curumim" evita percorrer o caminho fácil de expor a história de Marco Archer, um traficante e piloto de asa delta que foi condenado à pena de morte na Indonésia, como se este fosse um anti-herói romântico ou um indivíduo completamente imoral, com o cineasta a preferir prosseguir por uma trajectória mais pertinente e complexa que passa por não julgar a figura que dá o nome ao título deste documentário. Cabe ao espectador formar uma opinião em relação a Marco Archer, mais conhecido como Curumim, uma tarefa assaz complicada, ou não estivéssemos diante de uma figura que está longe de poder ser encarada meramente a "preto e branco". A descrição efectuada por Ade Tiro, a esposa de Juri Angione, um italiano que foi amigo e colega de prisão de Marco Archer, traduz um pouco aquilo que nos é dado a conhecer sobre Curumim, nomeadamente, "Ele é muito engraçado. Tem a personalidade de uma criança. Ele nunca está triste ou feliz". Com uma personalidade bastante cinematográfica, contendo no interior do seu ser uma série de defeitos carregados e um feitio peculiar, Marco Archer é exposto com um elemento que tanto tem de infantil como de trágico e pouco razoável ao longo deste documentário que mescla entrevistas (a antigos colegas do protagonista no cárcere, a amigos, conhecidos e outras figuras), vídeos filmados "à socapa" por Curumim no interior da prisão (com este indivíduo a exibir um grande cuidado quer com a colocação da câmara, quer em expor parte do seu quotidiano no interior do instituto prisional) e material de arquivo (cartas, reportagens, fotografias), enquanto coloca o espectador diante desta estranha figura que tanto repele como desperta a atenção. É visível que existiu toda uma pesquisa sobre Curumim e o meio que rodeou este elemento no período em que esteve enclausurado na prisão de Cilacap, situada na Ilha de Java, enquanto aguardava a execução, com o documentário a evitar abordar os assuntos pela superfície. Marco Archer foi detido no aeroporto internacional de Jacarta, em 2004, devido a transportar ilegalmente 13,5 Kg de cocaína. Após uma fuga com contornos de thriller de Hollywood, exposta de forma intensa e inquietante, Marco Archer foi preso e condenado à pena de morte devido a tráfico de droga, tendo sido executado a 17 de Janeiro de 2015, com "Curumim" a abordar uma série de assuntos relacionados quer com o protagonista, quer com a pena de morte, sempre sem procurar pregar ideias ao espectador. Nesse sentido, "Curumim" tem o mérito de permitir um debate interessante sobre assuntos como a pena de morte, ou a própria incoerência e cinismo das autoridades indonésias e do sistema jurídico local, com a prisão de Cilacap a surgir como um estabelecimento onde as drogas circulam com facilidade, sendo muitas das vezes difundidas pelos próprios guardas, algo exposto ao longo do documentário.


 Se é praticamente inquestionável que Marco Archer cometeu crimes graves durante a sua vida (estamos diante de um traficante de longa data, que quase nunca teve um trabalho a sério), também não deixa de ser notório que é condenado à morte num país pontuado por um sistema jurídico pouco uniforme. Veja-se o caso de Abu Bakar Bashir, um indivíduo acusado de estar envolvido no atentado bombista em Bali, em 2002, tendo uma pena inicialmente reduzida a nove anos de prisão. A juntar a esta visão incoerente da aplicação das penas, temos ainda os problemas relacionados com a corrupção, com o destino de diversos detidos a depender do valor que pagam aos polícias (para reduzirem a quantidade de droga encontrada), ao procurador (para reduzir a sentença) e ao juiz, com elementos como Juri a conseguirem uma pena mais leve devido ao facto de se terem "mexido bem" nos bastidores, algo que não aconteceu a Curumim, ou este não tivesse embarcado em mais uma jogada arriscada após estar na penúria. "Curumim" aborda a vida deste indivíduo, muitas das vezes com recurso às cartas escritas pelo mesmo, desde a infância conturbada, marcada por pouca atenção dos pais e imensas transgressões, passando pelos primeiros negócios relacionados com o tráfico de droga e o gosto pelo voo livre, até ao período em que esteve preso, com as filmagens efectuadas por Marco Archer a surgirem como um ingrediente fulcral do documentário. As filmagens permitem expor um pouco o quotidiano de Archer na prisão, bem como a personalidade extrovertida, rebelde, meio louca e peculiar da figura central do documentário. Não faltam momentos de Archer a cozinhar, cantar, dançar, mostrar que se preocupa com a presença da câmara (que certamente influencia a sua conduta nos trechos que grava) e a explanar a importância que dá ao facto da sua história estar a ser partilhada. No fundo, "Curumim" consegue não só evitar catalogações pueris sobre Marco Archer, mas também expor as limitações inerentes à pena de morte, abordar um pouco o quotidiano de uma prisão de alta segurança de características muito próprias (estamos diante de um espaço que conta inclusivamente com um local para jogar ténis) e expor a história deste indivíduo que acredita merecer uma segunda oportunidade. Marcos Prado tem ainda o mérito de conseguir efectuar entrevistas dotadas de interesse a elementos como Juri Angione (detido por transportar cocaína para subornar o advogado de Marco, de forma a evitar que o traficante fosse condenado a pena de morte), Rogerio "Rock and Roll" (outro detido que esteve na mesma instalação de Curumim), o Padre Charlie Burrows (que considera que o período de tempo em que os condenados aguardam pela execução pode ser considerado tortura), entre outras figuras que enriquecem esta obra cinematográfica. Estamos diante de um documentário emocionalmente poderoso, pertinente, recheado de interesse e pronto a estimular o sentido crítico do espectador em relação àquilo que é abordado ao longo do filme.

Título original: "Curumim".
Realizador: Marcos Prado.
Produção: Marcos Prado e José Padilha.
Pesquisa: Laura Hasse e Bruno Keusen. 
Entrevistados: Rogerio Paez (Rogerio "Rock and Roll"), Juri Angioni, Padre Charles Burrows, Ade Tiro, Roberto Saboya, Daniel Sabbá, Paulo Andrade Silva, Rio Helmi.

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