05 março 2017

Resenha Crítica: "BR 716" (Barata Ribeiro, 716)

 Nos momentos iniciais de "BR 716", Felipe (Caio Blat), o protagonista do filme, salienta o seguinte: "(...) Tinha acabado de descobrir que existem três tipos de angústia. A que resiste ao primeiro whisky. A que resiste ao segundo whisky. E a que resiste ao terceiro whisky. Por isso foi muito difícil para mim escrever o roteiro desse filme que vocês vão assistir em seguida. Eu não lembro dos factos. Eu lembro de impressões. Eu não sei se as coisas aconteceram assim. Eu não lembro, eu estava bêbado porra. Bêbado não lembra". Está dado o mote para a atmosfera inebriante de "BR 716", uma obra cinematográfica de impressões e sensações, na qual imensas doses de álcool e tabaco são consumidas, enquanto ficamos diante de um grupo de jovens que quer viver e sentir, que ama, erra, trai e depara-se com situações inesperadas que acabam por marcar as suas vidas. Boémios, irreverentes, amantes de álcool, poesia e música, os elementos que compõem o grupo de conhecidos de Felipe protagonizam algo de muito especial e intenso, embora quase todos pareçam viver no interior de uma bolha que os impede de observar atentamente o tumulto político e social que os rodeia. Não é que estes jovens não saibam aquilo que os rodeia, embora tentem ignorar os acontecimentos, com "BR 716" a conter no seu texto e subtexto uma vertente política que é essencial para transmitir a atmosfera da época, com o enredo a desenrolar-se maioritariamente entre 1963 e 1964, ou seja, um período tumultuoso da História do Brasil que culminaria no Golpe de Estado e na instauração da Ditadura Militar (o momento em que Auro Moura de Andrade declara que a Presidência da República está vaga é simplesmente cortante). "Eles vão fechar a Câmara. Eles vão fechar o Congresso. Eles vão acabar com a liberdade de imprensa" diz Penan (Gabriel Antunes), um amigo de Felipe, num tom desencantado, enquanto visiona as notícias televisivas ("BR 716" mescla de forma competente alguns vídeos de arquivo com os trechos da obra cinematográfica). É o choque com a realidade, embora, durante boa parte do filme, Penan e os amigos pareçam encapsulados no interior de uma conjuntura distinta, com excepção dos momentos em que recebem as visitas de Silvio (Sergio Guizé), um jovem politizado, de esquerda, para quem "o povo unido jamais será vencido". Silvio é um dos vários integrantes deste grupo que tem no apartamento de Felipe a sua sede não oficial, uma situação que conduz o personagem interpretado por Caio Blat a estar quase sempre no centro dos acontecimentos, com o actor a corresponder com mais uma interpretação de grande nível. Caio Blat compõe um personagem que parece encapsular algumas das ansiedades, gostos, devaneios, sonhos e emoções dos jovens da época, enquanto o intérprete compõe uma figura que parece saído quer de um filme de François Truffaut (as traições atordoantes, as paixões que quase consomem a alma), quer de Woody Allen (o desejo, as frustrações de cariz sexual, a narração muito própria do protagonista, a música clássica), embora tenha sido inspirado, em parte, na juventude de Domingos de Oliveira, o realizador desta esfuziante obra cinematográfica.


 Felipe é licenciado em engenharia, embora não pretenda prosseguir profissionalmente nesta área, para desgosto do pai (Daniel Dantas) e da mãe, com o jovem a preferir perseguir o sonho de ser escritor, de fazer cinema e teatro. É divorciado, gosta de beber imenso e de fumar, algo notório quando observamos a sua casa, pontuada por diversas garrafas de bebidas alcoólicas e cinzeiros preenchidos por cigarros, mas também uma decoração que evidencia o gosto ecléctico do personagem. Tanto encontramos um quadro a replicar o auto-retrato de Vincent Van Gogh como um desenho centrado em Clark Kent, enquanto que o gira-discos de Felipe é utilizado para serem ouvidas músicas de características antagónicas, tais como as sinfonias de Beethoven ou canções como "Guantanamera", "La bamba", "Corazón de mélon", entre outras, com a banda sonora a contribuir e muito para transmitir o aroma de uma época, bem como os sentimento dos personagens. O guarda-roupa e a decoração da casa do protagonista também remetem para a época retratada, com este espaço habitacional a reflectir o bom trabalho de Ronald Teixeira na direcção de arte. Sede não oficial deste grupo heterogéneo, a casa de Felipe conta com uma sala espaçosa, ou não fosse uma das divisórias mais frequentadas desta habitação localizada no local do título, na Rua Barata Ribeiro, no número 716, com o protagonista a não ter problemas em gastar as poupanças para pagar estas festas diárias. Dizem que Felipe é engraçado, apesar deste se considerar um indivíduo triste, embora o mais certo é que fique a meio caminho destas duas descrições, ou este não alternasse entre um discurso mais ponderado quando está junto do pai com algumas explosões emocionais, com "BR 716" a colocar-nos diante de um protagonista que é um vulcão de emoções. Não suporta a ideia de Adriana (Maria Ribeiro), a ex-mulher, manter um envolvimento com João Manoel (Álamo Facó), o seu melhor amigo, algo que demonstra quer quando lhe contam a notícia, quer quando encontra os dois personagens mencionados. O encontro é pontuado por uma cacofonia de emoções, com Felipe a não conseguir conter a dor, algo expresso de forma exímia por Caio Blat, com o actor a dar um espectáculo de interpretação. Felipe assume uma postura agressiva, passiva, tolerante, incontrolável, ou seja, completamente contraditória, enquanto a câmara de filmar acompanha as emoções dos personagens, seja a vaguear em volta destas figuras ou a seguir as mesmas. A anteceder este encontro e a entrecortar o mesmo encontramos um recurso recorrente de Domingos de Oliveira, que passa pela colocação de breves depoimentos dos personagens, quase como se estivéssemos num documentário. Nesse sentido, encontramos Adriana a falar um pouco sobre a relação com Felipe, mas também João Manuel a comentar a situação delicada que envolve este trio que parece saído de uma relação tumultuosa dos filmes de François Truffaut. Não estamos diante de Jules, Jim e Catherine, mas sim de algo mais leve, com o trio a continuar a encontrar-se nas festas de Felipe, com o protagonista a ter uma facilidade enorme em se apaixonar, que o digam Gilda (Sophie Charlotte) e Sara (Aleta Valente).


Gilda é uma jovem belíssima que almeja fazer carreira no mundo da música, com Sophie Charlotte a convencer como esta mulher com um sorriso pronto a encantar, uma simpatia que deslumbra e uma aura que faz justiça à sua homónima imortalizada por Rita Hayworth no magistral filme noir de Charles Vidor. Diz que não é uma sedutora, nem nunca seduziu, que coloca o amor à disposição, "se você quiser, você pega, se não quiser não pega" e, aquilo que é certo, é que Felipe "pega", embora a paixão do protagonista seja efémera. Observe-se o momento em que Gilda canta para Felipe, com a câmara de filmar a enamorar-se pela primeira, enquanto o segundo apaixona-se por Sara. Narrador e protagonista, autor e personagem, Felipe relata alguns dos acontecimentos de forma bem viva, seja para o espectador, ou para Cacá, um amigo que reencontra nos momentos iniciais do filme e de quem se despede numa fase mais adiantada. A narração de Caio Blat é pontuada por um estilo bem vivo e sincero, algo notório quando Felipe expõe que esteve bêbado durante uma boa parte do período de tempo dos acontecimentos que relata, ou evidencia os erros que cometeu com Gilda. A completar esta trupe encontram-se ainda elementos como Elizabeth (Lívia de Bueno), uma psicanalista elegante, aparentemente calma, que quer ser feliz e se sente responsável por Bel (Glauce Guima), uma mulher que ama, embora não consiga controlá-la. Bel é uma figura intensa, emocionalmente instável, quase louca (todos evitam que esta seja internada com medo de que Bel nunca mais saia do hospício), que mantém uma relação peculiar com Elizabeth. Veja-se quando destrói diversos objectos da casa de Elizabeth, o local onde mora, um acto que tem tanto de ensandecido como de desesperado. De cabelos desgrenhados, óculos de massa que condizem muito com a época, Glauce Guima tem uma interpretação de bom nível como Bel, uma mulher incapaz de se conter, por vezes algo bruta a expor as suas opiniões, que pertence ao grupo de Felipe, tal como Elizabeth, Penan, Silvio e Carlinhos (um jornalista que não tem problemas em "atirar-se" a Adriana, interpretado por Pedro Cardoso). As noites destes personagens são regadas a álcool, bem como os dias, enquanto a câmara segue atentamente este grupo e o espectador é colocado diante das suas ambições e desilusões. Uns escrevem argumentos como Felipe, ou compõem poesia como Sara, ou cantam como Gilda, ou lutam pelos ideais que acreditam como Silvio (um admirador de Jango), enquanto crescem com as suas experiências e aproveitam este período das suas vidas.


A câmara de filmar envolve-se pelos meandros da vida boémia destes personagens, enquanto a capta com enorme engenho, com o trabalho de Luca Pougy e Felipe Roque, na direcção de fotografia, a contribuir para a atmosfera vivaz desta obra cinematográfica maioritariamente filmada a preto e branco (quase todas as cenas que decorrem entre 1963 e 1964). Não faltam ainda alguns planos arquitectados com algum primor, que contribuem para elevar "BR 716". Veja-se quando encontramos Elizabeth a falar com Bel ao telefone, com a primeira a encontrar-se acompanhada por Felipe, na casa do mesmo, enquanto ficamos diante de um plongê absoluto que exibe o estado delicado em que se encontram os personagens interpretados por Caio Blat e Lívia de Bueno. Temos ainda momentos em que a "câmara de filmar" se apaixona por aquilo que retrata e transmite essa sensação para o espectador, algo notório quando Gilda canta e Sophie Charlotte encanta, com a actriz, ou melhor, a personagem que esta interpreta, a conquistar as atenções. Por sua vez, as atenções de Felipe recaem em Sara, com a paixão deste personagem por Gilda a ser tão efémera como o fumo emanado pelos cigarros do protagonista desta longa-metragem que conquista e envolve. Felipe procura o amor total, enquanto Domingos de Oliveira cria uma obra cinematográfica capaz de mesclar o drama e o humor, as paixões e separações, com o cineasta efectuar um retrato bem vivo e pessoal de uma época que se mantém viva no plano das memórias e neste recomendável filme, embora tenha sido destroçada com o Golpe de Estado. É um filme dotado de inspiração e inspirador, que nos transporta para o interior de um grupo que representa a boémia copacabanense, com Domingos de Oliveira a fazer praticamente com que sejamos habitantes temporários deste apartamento localizado na Rua Barata Ribeiro, um microcosmos no qual estão representados os sonhos, desejos, vitórias e derrotas de uma geração. Quem sai vitorioso é Domingos de Oliveira e o seu "BR 716", bem como a edição de 2017 do FESTin ao trazer um exemplar que dignifica e muito a sua programação.

Título original: "BR 716".
Realizador: Domingos de Oliveira.
Argumento: Domingos de Oliveira.
Elenco: Caio Blat, Sophie Charlotte, Maria Ribeiro, Livia de Bueno, Álamo Facó, Matheus Souza, Glauce Guima, Gabriel Antunes, Aleta Valente, Sergio Guizé, Daniel Dantas.

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