02 março 2017

Resenha Crítica: "Big Jato"

 Como um torpedo que atinge o espectador com uma explosão de prosa e poesia, violência e lirismo, intensidade e letargia, sonhos por cumprir e expectativas fossilizadas, música e silêncios, momentos pontuados pela subtileza ou pelo descomedimento, imagens oníricas e trechos marcados pela crueza, "Big Jato", a quarta longa-metragem realizada por Cláudio Assis, envolve-se pelas entranhas do sertão nordestino, enquanto nos apresenta a uma série de personagens que captam o nosso interesse, em especial o jovem Francisco (Rafael Nicácio), mais conhecido como Xico, um adolescente de quinze anos de idade que sonha ser poeta. Inspirado no livro homónimo, da autoria de Xico Sá, no qual o escritor e cronista "(...) cria, a partir de suas memórias, um retrato afetivo de uma juventude passada no Cariri", "Big Jato" é um retrato simultaneamente cru e sensível de um território nordestino que parece prender aqueles que se encontram no seu interior, com a saída deste local a ser encarada mais como um acto de coragem do que de acobardamento. A questão passa não só pela luta hercúlea contra as adversidades inerentes às características fechadas e desérticas de Peixe de Pedra, uma pequena cidade ficcional (real no contexto da narrativa), mas também pela sensação de que este território é pouco propício à abertura de horizontes quer pelas particularidades intrínsecas a este local, quer pela mentalidade pouco aberta dos seus habitantes. Veja-se o caso de Francisco (Matheus Nachtergaele), o pai de Xico, um indivíduo conservador, incapaz de aceitar a paixão do protagonista pela poesia. O quotidiano de Francisco divide-se entre trabalhos pouco gratificantes e mal pagos a limpar as fossas dos espaços que ainda não contam com saneamento básico e noites regadas a cachaça. Diga-se que a noite está longe de ser uma boa conselheira de Francisco, um indivíduo de bigode saliente, cabelo desgrenhado e gestos rudes, que se desloca regularmente no interior do Big Jato, um camião-pipa que é utilizado para limpar as fossas. É um trabalho que está longe de ser agradável quer pelo preconceito em volta do mesmo, quer pelos problemas de saúde que pode despertar, embora Francisco esteja longe de se envergonhar da profissão que lhe permite fugir à miséria. Este encontra-se muitas das vezes acompanhado por Xico, o único rebento que se parece interessar por esta actividade, com a dupla a envolver-se por espaços pontuados pelo cheiro a esterco e condições pouco recomendáveis.


O trabalho a limpar fossas prejudica o corpo (note-se a tosse recorrente) e a mente de Francisco, um indivíduo que mantém uma relação conturbada com Nelson (Matheus Nachtergaele), o seu irmão. Matheus Nachtergaele tem uma interpretação dupla de grande nível, com o actor a dar vida quer a Francisco, quer a Nelson, dois irmãos com personalidades dicotómicas. Francisco é conservador, fã da banda The Beatles, despreza os ideais do irmão e a profissão do mesmo na rádio, gosta de não dar nas vistas e mantém um casamento estável com Maria (Marcélia Cartaxo), de quem tem quatro filhos (Xico, George, Deivid, Maria Helena). Nelson é um indivíduo pouco dado a seguir regras, anárquico, apaixonado pela música e por belas mulheres, que tem um trabalho peculiar na rádio local e conserva no interior da sua alma a mágoa de nunca ter conseguido sair definitivamente de Peixe de Pedra. A certa altura de "Big Jato", encontramos Nelson a dizer ao sobrinho que "sertanejo forte é o que parte, não o que fica". É um comentário que reflecte o desassossego e a angústia deste indivíduo que vive em constante turbulência, parecendo incapaz de se afastar dos problemas ou de se aproximar das responsabilidades, apesar de apresentar uma afeição indelével pelo sobrinho e um gosto notório pela música e pela expressão "lerilai". Se Francisco desencoraja o gosto de Xico pela poesia, já Nelson estimula o jovem a escrever e a prosseguir com a sua vocação, com Matheus Nachtergaele a compor dois personagens dotados de dimensão e complexidade. Com uma postura mais extrovertida, sorridente e exagerada como Nelson, Matheus Nachtergaele incute uma faceta mais rígida e cansada a Francisco, com o actor a sobressair como estes personagens que estão longe de serem representados a preto e branco. Francisco não gosta de ser contrariado, é bruto e conservador, encara a poesia como algo nefasto e desencoraja o filho a prosseguir por este caminho, apesar de gostar do rebento e pretender que o jovem não caia nas teias da miséria (a insistência na ideia de que Xico deve estudar matemática evidencia de forma paradigmática quer a faceta prática do pai do protagonista, quer a procura de Francisco para que o rebento não fique numa situação delicada). Nelson apresenta atitudes erráticas, gosta de manter as aparências e utilizar expressões inglesas sem grande critério, embora seja uma figura fulcral para o crescimento de Xico. Veja-se quando Nelson oferece uma máquina de escrever a Xico, ou fascina o adolescente com histórias irreais (como a banda "Os Betos" terem influenciado "The Beatles") que contribuem para despertar a imaginação do protagonista. O argumento de Hilton Lacerda e o trabalho de Cláudio Assis na realização contribuem e muito para o desempenho meritório de Matheus Nachtergaele, com o actor a ter material de sobra e condições para brilhar ao longo desta obra cinematográfica que procura evitar caminhos redutores. Sim, estamos diante da história de um jovem que se encontra em transição para a idade adulta e a conhecer uma série de transformações e descobertas inerentes a esta fase da sua vida, ou seja, temáticas mais do que batidas, mas Cláudio Assis consegue imprimir toda uma mescla de complexidade, simplicidade e poesia a "Big Jato" que contribuem para o tom muito próprio do filme.


Os ritmos, sentimentos e particularidades deste território do nordeste são eficazmente aproveitados por Cláudio Assis, com a cidade ficcional de Peixe de Pedra a surgir simultaneamente como casa e prisão dos seus habitantes. Por um lado, alguns elementos sentem necessidade de partirem para outros voos, por outro, como podemos percepcionar, quem abandona este território não o consegue largar da memória. É em Peixe de Pedra que Xico habita com a família, no interior de uma casa de decoração modesta e paredes corroídas pelo tempo, enquanto se descobre a si próprio e amadurece com os seus actos. Algo atrapalhado, questionador e naïf, capaz de se apaixonar com a mesma facilidade com que se desilude, Xico tem em Rafael Nicácio um intérprete competente a transmitir as características desta figura central de "Big Jato", um adolescente que mescla no seu interior a ansiedade de quem pretende descobrir aquilo que o rodeia com o receio de sair de vez do território de Peixe de Pedra, o local onde as suas memórias estão fossilizadas. Como acontece a qualquer adolescente, os sentimentos de Xico brotam muitas das vezes de forma incontrolada ou inesperada, algo notório quando o protagonista conhece Ana Paula (Pally Siqueira). A paixoneta não é correspondida, embora as atitudes de Xico deixem transparecer que estamos diante de um adolescente inexperiente e sensível, que se encontra a ziguezaguear entre os últimos dias da infância e a caminhada para a idade adulta. De óculos de massa, uma compleição física pouco atlética e uma atitude simultaneamente ingénua e corajosa, Xico procura conhecer-se e afirmar-se no interior de um meio que nem sempre propicia o cumprimento dos sonhos, com Cláudio Assis a abordar o crescimento deste personagem com um misto de realismo e fantasia. Os familiares de Xico não contam com as mesmas ambições do protagonista, com o jovem a contar com um dom para a poesia e uma ingenuidade que contrastam com o pragmatismo de George, um adolescente que trata das contas da família e procura investir nos estudos de matemática. Já Deivid ajuda a mãe a tratar da beleza das clientes, com quase tudo e todos a perceberem que o jovem é homossexual, embora Francisco tente ignorar a orientação sexual do filho. Por sua vez a jovem Maria Helena é demasiado nova para perceber todas as problemáticas que envolvem o dia a dia do seu lar, enquanto que a personagem interpretada pela talentosa Marcélia Cartaxo (a Querência do mui recomendável "A História da Eternidade") surge como um baluarte desta casa onde os sentimentos andam regularmente à flor da pele.


 Maria acumula as funções de dona de casa com as de vendedora de produtos de beleza e higiene pessoal, tais como sabonetes, perfumes, entre outros, algo que permite a entrada de um dinheiro extra no interior da habitação desta família que se depara com algumas privações. A capacidade de liderança de Maria torna-se bastante notória no último terço do enredo, ou numa cena onde os sentimentos são expostos de forma mais exaltada. O momento ocorre quando Francisco chega mais uma vez bêbado a casa, pronto a arrasar com o gosto de Xico pela escrita e a exibir uma postura rude e pouco compreensiva, com Maria a não ser de modas e a expor o seu desagrado para com o esposo, enquanto Marcélia Cartaxo dá um pequeno festival de interpretação. Palavras pouco agradáveis são proferidas, enquanto gestos mais ariscos são colocados em prática, com Maria a demonstrar algum cansaço em relação à incapacidade do esposo em mudar de comportamentos. A acalmia e a tempestade marcam o quotidiano desta família, algo que podemos comprovar nos momentos em que se encontram à mesa, com Xico a ser criado num meio onde as emoções andam muitas das vezes à flor da pele. Se Xico acredita na poesia e começa a sentir-se confiante ao ponto de declamar na rádio, já Francisco não partilha o gosto do filho pelos poemas, com o personagem interpretado por Matheus Nachtergaele a evidenciar um desprezo notório para com a literatura e o cinema. Para Francisco, "cinema é mentira", embora "Big Jato" comprove que a Sétima Arte é capaz de abordar temáticas que muito nos dizem e consegue despertar sentimentos bem reais, com Cláudio Assis a envolver-nos para o interior deste território que tem tanto de asfixiante como de belo e poético. A exacerbar essa poesia de "Big Jato" encontra-se a figura de Príncipe, interpretado pelo inigualável Jards Macalé, um indivíduo que parece saído de um conto de encantar, com Cláudio Assis a conseguir casar praticamente na perfeição o tom cru com o lirismo ao mesmo tempo que incute uma faceta quase de fantasia à história de Xico e do espaço que o rodeia. Entre descobertas típicas da adolescência, as dinâmicas intrincadas de uma família, paixões não correspondidas e sonhos prontos a serem cumpridos, "Big Jato" surge como mais uma pérola do cinema brasileiro contemporâneo.

Título original: "Big Jato".
Realizador: Cláudio Assis.
Argumento: Hilton Lacerda.
Elenco: Matheus Nachtergaele, Rafael Nicácio, Marcélia Cartaxo, Pally Siqueira, Jards Macalé.

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