01 março 2017

Resenha Crítica: "Animal Político" (2016)

 Absurdo, irreverente e saudavelmente alucinado, "Animal Político" tem o condão de nos surpreender com um enredo que tanto tem de cómico como de trágico e ensandecido. Não falta uma vaca com problemas existenciais, um robô chamado "ice-borg" que se define como "o melhor mecanismo de busca espiritual do deserto", um monólito idêntico àquele que encontramos em "2001: A Space Odyssey", bem como um delirante episódio que invade a narrativa e permite expor paradigmaticamente que "Animal Político", a estreia de Tião na realização de longas-metragens, gosta de desafiar as expectativas e a tolerância do espectador. Primeiro a proposta de Tião estranha-se, depois começa a entranhar-se, mesmo quando temos a noção de que a crise existencial da protagonista ganha mais interesse não tanto devido à densidade psicológica do argumento, mas sim pelo facto destes problemas estarem a ser sentidos por uma vaca. A alienação em relação ao espaço que nos rodeia, a necessidade de nos encontrarmos com nós próprios, a solidão e as diatribes de uma crise existencial surgem como temáticas e elementos abordados em "Animal Político", quase sempre a partir da perspectiva de uma vaca, embora estas problemáticas contem com um pendor universal que remete e muito para o nosso quotidiano. Nesse sentido, a proposta de "Animal Político" passa por fazer com que o espectador reflicta sobre algumas questões relacionadas com a realidade que o rodeia, ainda que a partir da perspectiva de uma vaca que começa a enfrentar problemas de ordem existencial. É em plena noite de Natal que a protagonista começa a ser consumida por um sentimento de vazio e de deslocamento, algo que a apoquenta, sobretudo por considerar, pelo menos a nível inicial, que tem tudo aquilo que é necessário para ser feliz. Esta vive com uma família, composta por um casal de humanos e uma rapariga, gosta de fazer compras em centros comerciais, frequenta regularmente o ginásio e aprecia ir ao cabeleireiro, com "Animal Político" a contar com alguns trechos onde absurdo toma conta do enredo, ou não estivéssemos a observar uma vaca a envolver-se por locais pouco habituais para a sua espécie. Tião não poupa no humor e nas situações a roçarem o absurdo, enquanto coloca a protagonista a entrar no interior de uma peculiar jornada de descoberta. Antes de tomar a decisão de partir para um território desértico, a protagonista ainda decide alterar os hábitos alimentares e praticar yoga, bem como visitar galerias de arte, estudar e experimentar substâncias estupefacientes, embora nenhuma destas acções resulte, pelo que a quadrúpede opta por medidas drásticas. Perante esta conjuntura, a protagonista decide viajar até uma zona desértica e afastar-se temporariamente da humanidade, com o trabalho de Marcelo Lordello e Gustavo Zahn na cinematografia a realçar as tonalidades mais acastanhadas da zona desértica, bem como a imensidão destes cenários de grandes dimensões.


"Animal Político" poderia ser descrito, ainda que muito resumidamente, como um filme sobre uma vaca com problemas existenciais que perambula em direcção ao deserto em busca de respostas para as suas tormentas interiores. Tião consegue que a jornada nunca perca uma dimensão espiritual e existencialista ao mesmo tempo que incute uma faceta absurda e cómica a "Animal Político", com a protagonista do filme a conter no seu interior uma série de dúvidas e ansiedades que dizem muito a qualquer espectador. Veja-se os momentos em que encontramos a vaca a circular sozinha pelo centro comercial, ou a frequentar o ginásio para passar o tempo, com esta a encontrar-se rodeada de imensas pessoas, embora nem sempre esteja verdadeiramente acompanhada, com a solidão da personagem principal a surgir como um sentimento que afecta e muito o quotidiano dos seres humanos. Pelo meio temos um pequeno interlúdio, intitulado "A Pequena Caucasiana", que nos coloca diante da personagem do título, uma jovem ruiva, que apresenta uma desenvoltura notável a lutar pela sobrevivência no interior de uma ilha deserta, enquanto circula desnuda por este território. As questões raciais, as memórias da escravatura e a sensação de isolamento surgem bem presentes neste episódio, bem como a capacidade de Tião em pincelar "Animal Político" de tonalidades bizarras e pontuar a narrativa de comentários do foro social ao mesmo tempo que ficamos perante a personalidade deveras peculiar desta figura feminina interpretada com um enorme à vontade por Elisa Heidrich. No entanto, o grande destaque é a vaca com problemas existenciais, com as inquietações da protagonista a serem expostas em voiceover, um recurso que tanto permite uma ligação com o espectador como a espaços quase sabota o ritmo do filme, com o tom monocórdico de Rodrigo Bolzan a nem sempre trazer alguma verve ao discurso da personagem principal. Pedia-se um pouco mais de irreverência e inspiração na utilização deste recurso, embora este também esteja longe de "estragar" a nossa experiência a visionar esta obra cinematográfica que surpreende pela forma sagaz como conjuga a situação absurda de termos uma vaca que sofre de problemas existenciais com temáticas verosímeis e realistas. A partir de uma fase do enredo, a vaca ganha uma faceta antropomórfica (que é como quem diz, encontramos um intérprete vestido de vaca), algo inerente à nova fase da vida da protagonista, com Tião a saber utilizar este herbívoro para provocar estranheza e abordar situações que compelem o espectador a reflectir sobre temas que dialogam com o nosso quotidiano. Sem ter medo de desafiar o espectador ou de obrigá-lo a reflectir sobre aquilo que está a ser exibido, Tião tem em "Animal Político" uma estreia na realização de longas-metragens merecedora de alguma atenção, com o cineasta a apostar de forma certeira na ousadia de pincelar esta obra cinematográfica com elementos simultaneamente absurdos, existencialistas, simples, intrincados, dramáticos e recheados de humor.

Título original: "Animal Político".
Realizador: Tião.
Argumento: Tião.
Elenco: Rodrigo Bolzan (voz), Elisa Heidrich.

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