01 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Sciuscià" (Vítimas da Tormenta)

 O destino é duro e inflexível para com os personagens principais de "Sciuscià", os jovens Giuseppe Filippucci (Rinaldo Smordoni) e Pasquale Maggi (Franco Interlenghi), dois rapazes que contam com uma amizade aparentemente inseparável, vivem em condições miseráveis e sonham adquirir um cavalo. É um sonho que parece saído de um conto de encantar, embora o quotidiano de Giuseppe e Pasquale esteja longe de contar com grandes pedaços de alegria, com o contexto que rodeia os dois personagens a afectar e muito o modo de vida dos petizes. Estamos em plena cidade de Roma no período após a Segunda Guerra Mundial, com Giuseppe e Pasquale a sentirem a destruição que afectou o território, a economia e a sociedade italiana, enquanto Vittorio De Sica realiza um drama neo-realista de excelência. "Sciuscià" partilha diversos elementos transversais a alguns filmes neo-realistas, tais como a utilização e aproveitamento dos cenários exteriores, filmagens em espaços interiores que não fazem parte dos estúdios (mesclados com cenas filmadas em estúdio), um elenco composto por actores e actrizes maioritariamente amadores ou desconhecidos, uma atenção latente aos desfavorecidos e ao drama daqueles que se encontram em situações extremas, os comentários de foro social, entre outros exemplos. É, também, um dos primeiros filmes de Vittorio De Sica a obter um reconhecimento considerável, sobretudo a nível internacional, com o cineasta a apresentar um retrato pungente sobre a vida de dois jovens engraxadores de sapatos que vivem em condições precárias e são obrigados a descurarem os estudos, tal como boa parte das crianças deste período. Essa necessidade das crianças órfãs ou de famílias desfavorecidas terem de trabalhar é exposta desde o início de "Sciuscià", quando encontramos os rapazes a dialogarem quase como se fossem adultos, apesar de manterem um tom relativamente infantil, enquanto laboram como engraxadores para ganharem a vida. Vittorio De Sica transporta-nos para o interior de uma cidade de Roma que se encontra ferida no seu orgulho, destruída na sua moral, marcada pela presença de soldados aliados, gentes depauperadas e negócios ilegais, com o cineasta a conseguir captar a atmosfera da época e transportá-la para o interior da mente e da alma do espectador. O cineasta incute ainda elementos de drama prisional e fuga da prisão a "Sciuscià", enquanto coloca a amizade da dupla de protagonistas à prova e desfere rudes golpes no estômago do espectador ao exibir como estes jovens são afectados por uma série de episódios desfavoráveis e um contexto arrasador. A amizade de Giuseppe e Pasquale sofre fissuras irreparáveis com o avançar da narrativa, enquanto os sonhos destes jovens se quebram diante de uma realidade difícil de combater. Estes dois rapazes trabalham como engraxadores, com Giuseppe a viver com a família, enquanto Pasquale é órfão, com a dupla a contar com parcas condições financeiras. Giuseppe ajuda financeiramente os seus familiares, tendo em Pasquale um amigo inseparável que dorme na sua casa. Pasquale é um pouco mais velho e experiente do que Giuseppe, com este último a encarar o amigo como uma espécie de mentor, com ambos a parecerem inseparáveis. Giuseppe conta ainda com uma forte amizade com Nannarella (Anna Pedoni), uma jovem delicada, que nutre sentimentos afectuosos pelo rapaz, embora ambos sejam separados a partir do momento em que o protagonista é detido.


 Os dois rapazes contam com roupas desgastadas, poucas condições financeiras e sonham comprar Bersagliere, um cavalo branco. Diga-se que esse sonho chega a concretizar-se, nomeadamente, quando Attilio, o irmão mais velho de Giuseppe, transporta a dupla de protagonistas para o seio de um golpe que mexe com a vida dos personagens principais. Giuseppe e Pasquale foram incumbidos de venderem dois cobertores dos EUA, oriundos do mercado negro, a uma cartomante, uma tarefa aparentemente anódina que logo ganha contornos mais nebulosos. Tudo muda quando o irmão de Giuseppe aparece acompanhado por dois criminosos, com o trio a utilizar os jovens como isco para roubar a cartomante, enquanto a dupla promete não revelar aquilo que viu. O dinheiro oferecido por Attilio permite que Giuseppe e Pasquale atinjam a soma necessária para adquirirem Bersagliere. O cavalo surge como um símbolo de liberdade e inocência, como um meio dos dois rapazes se evadirem do quotidiano duro e cru, embora a alegria de Giuseppe e Pasquale não dure muito tempo, com a crueza da realidade a embater de frente com os sonhos da dupla. Os jovens protagonizam alguns momentos de candura enquanto cavalgam e exibem Bersagliere pelas ruas ("Sciuscià" conta ainda com alguns "salpicos" de humor), até serem confrontados pelas autoridades devido ao roubo da cartomante. Giuseppe e Pasquale são detidos e encarcerados numa instituição destinada a menores devido a tentarem manter o silêncio em relação àquilo que diz respeito à identidade dos elementos que roubaram a cartomante, uma situação que promete trazer diversos problemas à dupla de protagonistas. A partir do momento em que Pasquale e Giuseppe são detidos, "Sciuscià" adquire contornos distintos, com Vittorio De Sica a envolver-se pelos meandros do drama prisional, enquanto troca as ruas de Roma pelo cenário fechado da prisão. O espaço prisional conta com um contingente numeroso de jovens, uma situação que reflecte o índice elevado de criminalidade juvenil e a realidade caótica de Itália no pós-Guerra. Este excesso de prisioneiros leva a que Giuseppe e Pasquale sejam colocados em celas separadas, enquanto são obrigados a habituarem-se a toda uma nova realidade. A prisão conta quer com guardas corruptos, ou dados a cometerem ilegalidades, quer com oficiais como Bartoli que exibem uma preocupação genuína no que diz respeito à educação e bem-estar dos jovens, com Vittorio De Sica a expor uma visão complexa do meio no qual os protagonistas estão inseridos. O argumento (que conta com o cunho de Cesare Zavattini, um colaborador habitual de Vittorio De Sica) explora questões ligadas às dinâmicas entre prisioneiros, aborda a desumanização que ocorre no interior destas prisões e a corrupção no seio dos polícias que laboram no instituto prisional, expõe a forma como o dia-a-dia nestas espécies de centro de correcção influenciam aqueles que se encontram aprisionados, as desigualdades sociais (representada paradigmaticamente na defesa distinta de dois personagens em tribunal), entre outras temáticas. A prisão é representada como um local pontuado pela austeridade, frieza e degradação, que parece destinado a embrutecer os prisioneiros ao invés de reeducá-los ou prepará-los para uma possível reinserção na sociedade, com Vittorio De Sica a expor as parcas condições destes espaços e a efectuar um comentário crítico sobre a incapacidade da sociedade em cuidar dos jovens. A integração no espaço prisional contribui para o adensar das fissuras entre Giuseppe e Pasquale, com a amizade destes personagens a conhecer um rombo indelével quando um dos rapazes cede e revela a identidade dos criminosos. A lealdade e o silêncio surgem como elementos valorizados pelos presos, enquanto a delação é encarada como uma afronta e uma traição, com um dos personagens principais a cometer este acto. As sombras começam a tomar de assalto a luz (os contornos das grades são realçados de forma amiúde, simbolizando a prisão ou um destino menos agradável), com o lado mais apolíneo destes jovens a ser colocado à prova no interior do espaço prisional, bem como a amizade que unia a dupla de protagonistas.


 Rinaldo Smordoni transmite o tom inicialmente mais naïf de Giuseppe e a forma paulatina como este personagem começa a desenvencilhar-se no interior da prisão e a iniciar amizade com elementos pouco recomendáveis como Riccardo Arcangeli (Bruno Ortenzi), um adolescente aparentemente violento, que se encontra detido devido a assaltos à mão armada. Se Pasquale parecia funcionar quase como um irmão mais velho de Giuseppe no espaço exterior da prisão, já Riccardo assume essas funções no estabelecimento prisional, com Bruno Ortenzi a transmitir o tom matreiro e experiente do personagem que interpreta. Por sua vez, Franco Interlenghi evidencia a incapacidade de Pasquale em manter totalmente a frieza no espaço prisional, até o protagonista começar a encarar este estabelecimento como um local onde encontra comodidades que não tinha quando trabalhava (uma situação que remete para as dificuldades sentidas pelo protagonista de "Umberto D.", um idoso que procura permanecer algum tempo internado no hospital para poder poupar dinheiro e comer várias refeições, ou para o progenitor do personagem principal de "Germania anno zero", um indivíduo doente que apenas se consegue alimentar de forma condigna quando é hospitalizado). A forma como Pasquale se acomoda ao espaço prisional evidencia a situação de pobreza extrema deste personagem, bem como um certo sentimento de descrença do jovem em relação à possibilidade de fintar o destino, com Vittorio De Sica a realçar paradigmaticamente as dificuldades encontradas pelo protagonista no seio da cidade de Roma, enquanto efectua um comentário bem directo sobre alguns problemas da sociedade do período após a Segunda Guerra Mundial. Pasquale acaba por se envolver numa série de confusões e mal-entendidos que prometem enfurecer Giuseppe e terminar em desgraça, com Vittorio De Sica a não ter grande complacência para com os seus personagens, com o desfecho a exacerbar algumas das características melodramáticas do filme. O cineasta aborda as dificuldades do povo italiano no pós-Guerra, quase sempre a partir do olhar de dois jovens que se deparam com um quotidiano adverso quer na cidade de Roma, quer no interior da prisão. A cinematografia permite transmitir a sensação de desolação e desesperança que envolve a prisão, com as sombras a reflectirem as grades e a imprimirem a sensação de que este cenário começa a apoderar-se daqueles que vivem neste estabelecimento, enquanto os quartos surgem expostos como espaços diminutos onde os presos se encontram praticamente amontoados. Cada cela tem de conter cinco jovens, uma regra que permite a criação de grupos, com cada amontoado de rapazes a contar com uma espécie de líder ou figuras mais carismáticas. Veja-se a mencionada amizade entre Giuseppe e Riccardo, ou a afinidade de Pasquale com Raffaele (Annielo Mele), um rapaz debilitado e afável, que padece de tuberculose.


 O ambiente na prisão é pontuado pela crueza. A comida está longe de satisfazer as necessidades dos jovens, os médicos enfrentam a falta de apetrechos para cumprirem o seu trabalho, para além de existir uma violência física e psicológica a rodear o quotidiano dos prisioneiros. É certo que existem alguns oficiais e médicos que se preocupam com os jovens, embora o futuro de boa parte destes rapazes seja pouco animador. A própria banda sonora de Alessandro Cicognini começa por adornar "Sciuscià" com ritmos aparentemente sonhadores e brandos, quando os jovens pensam adquirir o cavalo, até assumir a faceta mais intensa e fatalista que rodeia o enredo. Vittorio De Sica capta as dores provocadas por uma amizade quebrada e da confiança que se perde ao mesmo tempo que deixa bem claro que o destino é particularmente funesto para com a dupla de protagonistas, duas crianças que deveriam estar a divertir-se e a estudar, embora, ao invés disso, tenham de trabalhar e lidar com assuntos da responsabilidade dos adultos ("Sciuscià" aborda temáticas mais latas a partir das situações protagonizadas por Giuseppe e Pasquale). É impossível manter a indiferença em relação à amizade e ao desfazer dos laços destes dois jovens, bem como à forma como Pasquale resvala de forma inapelável pelas armadilhas que lhe são colocadas pelo destino. Vittorio De Sica beneficia da dinâmica convincente entre Rinaldo Smordoni e Franco Interlenghi, com a dupla a transmitir os laços fortes que unem os personagens que interpretam, bem como aquilo que os começa a separar, com esta construção sublime do duo de protagonistas a contribuir e muito para o investimento emocional do espectador no enredo. Não faltam ainda diversos traços de melodrama, com Vittorio De Sica a conduzir a narrativa com mestria, enquanto envolve o espectador para o interior de um drama poderoso, onde dois jovens enfrentam uma realidade hostil e são obrigados a efectuar decisões difíceis. Tocante, sublime, pontuado por um retrato pungente das dificuldades sentidas pelas crianças desfavorecidas de Itália no período após a II Guerra Mundial, "Sciuscià" começa quase como um conto de encantar e termina como uma tragédia, com Vittorio De Sica a realizar um drama pontuado por alguns momentos que tardam em sair da memória, enquanto extrai interpretações de relevo por parte de Rinaldo Smordoni e Franco Interlenghi. 


Título original: "Sciuscià".
Título no Brasil: "Vítimas da Tormenta".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Sergio Amidei, Adolfo Franci, Cesare Giulio Viola, Cesare Zavattini.
Elenco: Rinaldo Smordoni, Franco Interlenghi, Bruno Ortenzi, Annielo Mele, Emilio Cigoli, Anna Pedoni.

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