28 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "O Outro Lado do Paraíso"

 Num determinado momento de "O Outro Lado do Paraíso", Fernando (Davi Galdeano), o protagonista e narrador desta delicada obra cinematográfica realizada por André Ristum, salienta o seguinte: "O sentido da vida pode não ser alcançar um sonho, mas apenas lutar por ele com todas as forças. E é essa busca incessante que nos alimenta, enquanto nos dura a vida". O comentário traduz praticamente na perfeição a mensagem de "O Outro Lado do Paraíso" e aquilo que move alguns dos personagens. Um desses personagens é Antonio Trindade (Eduardo Moscovis), o progenitor de Fernando, um indivíduo idealista e sonhador, que almeja não só conseguir dar uma vida melhor à sua esposa e aos seus três filhos, mas também encontrar um local quase perfeito para habitar com o seu núcleo familiar. Esse desejo parece concretizar-se quando, após receber um sinal quase bíblico, Antonio decide sair do interior de Minas para Brasília, um destino que parecia ser praticamente perfeito para construir o sonho de Evilath (não faltam referências bíblicas ao longo do filme, tais como a luta utópica por encontrar o país de Evilath e a figura de uma cobra que aparece em dois momentos fulcrais da vida de Antonio), ou o enredo não tivesse os primórdios da década de 60 como pano de fundo, ou seja, poucos anos depois da fundação desta cidade que ainda está a dar os seus primeiros passos. O contexto histórico fervilhante, tão propício a sonhos como a desilusões, pronto a despertar sentimentos exacerbados e uma multitude de sentimentos, raramente é esquecido ao longo do filme, bem como as referências religiosas e políticas, com André Ristum a deixar bem explícito que as contingências deste período mexeram e muito com o quotidiano da família de Fernando. Diga-se que André Ristum efectua um trabalho competente quer na procura de transmitir a atmosfera da época, quer na exposição dos acontecimentos históricos (sempre com algumas liberdades à mistura), com o realizador a utilizar assertivamente elementos como os jornais, a televisão e a rádio para exibir episódios que ocorreram no seio deste período de tempo conturbado da História do Brasil. Estes elementos surgem como um meio ágil e prático de fornecer informação sobre o contexto histórico, com André Ristum a recorrer muitas das vezes a materiais de arquivo, algo que permite evitar diálogos excessivamente expositivos sobre esta conjuntura política intensa. Estamos na antevéspera do Golpe de Estado de 1964, no Brasil, que culminou na destituição de João Goulart (Jango), o Presidente democraticamente eleito (entrou no cargo após a renúncia de Jânio Quadros, algo exposto em formato de animação nos créditos iniciais do filme), com "O Outro Lado do Paraíso" a transmitir as paixões e ódios despertadas por esta figura quase lendária da política brasileira, bem como o fervilhar de emoções que pontuou este período.


 Desde tentativas de reformas por parte de Jango, até a protestos efectuados pelos militares e a greves organizadas por elementos que simpatizam com o comunismo, "O Outro Lado do Paraíso" expõe de forma eficaz que os acontecimentos históricos influenciaram e muito a vida de Fernando e dos seus familiares. A influência da conjuntura histórica na vida dos personagens é exibida muitas das vezes a partir do olhar de Fernando, mais conhecido como Nando, um pré-adolescente de doze anos, que se encontra a lidar com acontecimentos típicos dos adultos, enquanto se depara com uma série de descobertas inerentes à sua idade, tais como o primeiro amor (na figura de Iara, interpretada por uma radiante Maju Souza), desilusões, formação de gostos, com Davi Galdeano a transmitir o misto de inocência e maturidade que marca a personalidade do protagonista. A exposição dos acontecimentos a partir do ponto de vista de um indivíduo que os presencia e presenciou na pré-adolescência ajuda a explicar o tom quase de fábula, por vezes pontuado por algum lirismo, que André Ristum incute a "O Outro Lado do Paraíso", com o cineasta a efectuar acima de tudo um drama de características mais leves, que evita caminhar por representações demasiado viscerais dos acontecimentos. Veja-se a forma quase en passant como a repressão militar é abordada, ou a abordagem superficial da presença de um personagem na prisão, com o foco de "O Outro Lado do Paraíso" a estar acima de tudo na história de Nando e na relação deste personagem com o pai. Note-se ainda que o argumento de "O Outro Lado do Paraíso" é inspirado na obra literária homónima da autoria de Luiz Fernando Emediato, com o livro a contar com um pendor autobiográfico, algo que pode ter contribuído para o tom muito particular como os sentimentos são expostos e vividos por Fernando ao longo do filme. Davi Galdeano é uma das agradáveis surpresas de "O Outro Lado do Paraíso", com o jovem actor a surgir como uma das pedras de toque do filme ao contribuir com uma interpretação competente e uma química convincente com Eduardo Moscovis e Maju Souza. A relação de enorme proximidade e cumplicidade entre pai e filho é um dos temas centrais do filme, com André Ristum a desenvolver assertivamente as dinâmicas que envolvem os personagens interpretados por Eduardo Moscovis e Davi Galdeano, uma dupla que convence, com o segundo a compor um personagem que se torna praticamente num exemplo a seguir pelo protagonista, enquanto o jovem actor evidencia a afeição que Nando tem por Antonio.


 Nando tem uma enorme paixão pela escrita, denota uma certa ingenuidade e gosta de ler, sendo muitas das vezes incentivado por Iolanda (Adriana Lodi), a sua professora e mãe de Iara, a manter os hábitos de leitura. Este começa a interessar-se por assuntos e livros relacionados com a política ao mesmo tempo que nutre uma certa admiração pelo pai. Antonio procura estimular o gosto do filho pela leitura e pela escrita ao mesmo tempo que lhe transmite uma série de valores e tenta sustentar o lar. Eduardo Moscovis tem uma interpretação digna do seu estatuto, com o actor a imprimir um estilo simultaneamente idealista, duro e sensível a Antonio, um indivíduo pouco politizado, embora seja admirador de Jango, que labora na construção civil e procura conservar o bem estar do seu núcleo familiar, enquanto tenta realizar o sonho de encontrar um local praticamente perfeito para viver e trabalhar. Antonio pensa inicialmente que Brasília pode ser o seu Evilath, tendo idealizado que esta cidade em construção conta com oportunidades de trabalho em abundância e proporciona boas condições de vida aos habitantes, embora os sonhos deste indivíduo acabem por embater de frente com a realidade. O personagem interpretado por Eduardo Moscovis viaja para Brasília acompanhado de Nancy (Simone Iliescu), a sua esposa, de quem três filhos, Sueli (Camila Márdila - a irmã mais velha), Nando e Tuniquinho (Henrique Bernardes - o mais novo). A relação entre Nancy e Antonio, embora nem sempre seja desenvolvida na justa medida, é estabelecida de forma simples, eficaz e delicada, com o momento em que os dois dançam, ao som de uma música popular, a transmitir paradigmaticamente a cumplicidade deste casal. Nando surge como o protagonista e o narrador de serviço (quer quando é jovem, quer em idade adulta, com este recurso a contribuir para o tom quase de fábula ou conto de encantar do filme), com o pré-adolescente a aparecer como um dos personagens que despertam mais interesse em "O Outro Lado do Paraíso", ou este aspirante a escritor e amante da leitura não estivesse a observar aqueles que o rodeiam e o território de Brasília com um olhar que mescla uma certa inocência e um desabrochar para a maturidade. Já Tuniquinho pouco ou nada é desenvolvido, aparecendo quase como uma nota de rodapé, enquanto que Sueli tem algum espaço para sobressair, sobretudo quando se envolve com Ricardo (Iuri Saraiva), um militar conservador que embate de frente com Antonio. Diga-se que, apesar de não ser politicamente engajado, ou comunista, Antonio procura lutar pelos seus direitos e dos seus colegas de trabalho, com este indivíduo a partilhar os ideais comunistas de diversos elementos que o rodeiam no interior de Brasília.


 Embora tenha como pano de fundo um contexto que se torna cada vez mais duro e conturbado, "O Outro Lado do Paraíso" conta com diversos momentos pontuados por alguma leveza, tais como a relação entre Iara e Nando, com o segundo a começar a apaixonar-se pela primeira, algo que permite abordagem de temáticas como o primeiro amor e a inocência deste período da vida dos dois personagens. Nando ainda hesita em avançar com este namoro, ou não tivesse deixado a sua melhor amiga em Minas Gerais, com o jovem a evidenciar inicialmente alguma relutância em abandonar todos os seus amigos e conhecidos para ir viver em Brasília. O espaço de Brasília que nos é exposto remete praticamente para as cidades em construção dos westerns, onde estava em jogo não só o desenvolvimento do território, mas também a identidade do mesmo, com a fotografia a realçar as areias de tonalidades alaranjadas e a poeira que muitas das vezes cobre este cenário. É neste espaço que Antonio procura cumprir alguns dos seus sonhos, seja a conseguir trabalho, ou a encontrar um espaço estável para a sua família, ou a lutar pelos direitos daqueles que o rodeiam, enquanto "O Outro Lado do Paraíso" coloca este indivíduo, bem como o seu filho, diante das expectativas desfeitas e dos sonhos que não se concretizam. Apesar de ter sido desenvolvido antes do Impeachment a Dilma Rousseff, não deixa de ser extremamente curioso e até algo irónico a forma como esta obra cinematográfica que se desenrola maioritariamente na antecâmara do Golpe Militar dialogue de maneira tão forte com o presente, sempre num tom leve, quase de fábula, enquanto nos deixa diante de um jovem que se depara com uma série de acontecimentos que marcaram a sua família e o seu país. Obra cinematográfica doce, salpicada com o travo amargo dos sonhos que se despedaçam diante da dura realidade, "O Outro Lado do Paraíso" surge como um filme pontuado por alguma delicadeza e uma atmosfera que varia entre o realismo e o tom de fábula, contando com uma banda sonora belíssima, um trabalho de fotografia cuidado e interpretações de bom nível de Davi Galdeano e Eduardo Moscovis.

Título original: "O Outro Lado do Paraíso".
Realizador: André Ristum.
Argumento: André Ristum, Marcelo Müller, Ricardo Tiezzi, José Rezende.
Elenco: Eduardo Moscovis, Davi Galdeano, Simone Iliescu, Camila Márdila, Adriana Lodi, Jonas Bloch.

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