09 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "L'oro di Napoli" (O Ouro de Nápoles)

  Retrato bem vivo da cidade de Nápoles e das suas gentes, "L'oro di Napoli" surge como uma espécie de visita guiada a Nápoles, conduzida com acerto por Vittorio De Sica, com o cineasta a expor uma visão muito própria das especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, cemitérios, igrejas e edifícios deste local. Nápoles é a grande protagonista do filme, com esta cidade a aparecer como o ponto de união entre os seis episódios de "L'oro di Napoli", com cada capítulo a contar com histórias e intérpretes distintos. A ficção invade o território real de Nápoles, com Vittorio De Sica a filmar imensas vezes nos espaços desta cidade, enquanto aproveita as singularidades da mesma ao serviço do enredo. O humor está presente ao longo de alguns episódios do filme, mas também o drama e a tragédia, com cada capítulo a deixar o espectador na presença de pequenos fragmentos das especificidades deste território. Entre casamentos fadados à desgraça, traições, revoltas contra símbolos da opressão, um indivíduo que vende sabedoria e outro que se encontra caído em desgraça, "L'oro di Napoli" coloca o espectador perante um mosaico de personagens muito particular, com cada capítulo a contar com intérpretes de peso como protagonistas. Vittorio De Sica interpreta o protagonista de um dos episódios do filme, nomeadamente, o quarto ("I giocatori"), com o cineasta a dar vida a Prospero, um conde caído em desgraça devido ao vicio pelo jogo. Proibido pela esposa de jogar, financeiramente exaurido, sem conseguir que os empregados lhe emprestem um cêntimo, Prospero limita-se a jogar com Gennarino (Pierino Bilancioni), um jovem rapaz que é filho do porteiro. Vittorio De Sica compõe uma figura que tanto tem de trágica como de cómica, ou Prospero não partilhasse o vício pelo jogo com o cineasta e intérprete. O cineasta transpõe um dos vícios que marcou a sua vida para o personagem que interpreta, enquanto Prospero desperta sensações mistas e contraditórias no interior da alma do espectador. Por um lado é impossível não soltar um sorriso quando encontramos Prospero a exibir um desespero notório por perder constantemente para Gennarino, um jovem que despreza os discursos e atitudes do conde, por outro é impossível não perceber que estamos diante de uma figura trágica que se deixou consumir pelos vícios. Vittorio De Sica compõe um personagem que mantém uma postura altiva, embora pouco tenha para apostar, com esta figura trágica a permitir que o actor e cineasta exiba mais uma vez o seu carisma e talento para a representação. Prospero gosta de apostar mas não tem jeito, nem sorte, nem cabeça fria, com um rapazinho a conseguir humilhá-lo sem grande esforço, enquanto "L'oro di Napoli" exibe um problema bem real, nomeadamente, o vício pelo jogo, ainda que inserido no interior da realidade napolitana.


 Tal como em "I giocatori", também "Pizze a credito", o segundo episódio do filme, apresenta uma mescla de comédia e tragédia, com "L'oro di Napoli" a contar com algumas características das commedia all'italiana (tais como encontrar o humor em situações dramáticas, os comentários de foro social, os personagens com um desejo sexual exacerbado, entre outros exemplos). Se em "I giocatori" temos um conde falido que procura saciar de forma patética a sua sede de jogar e apostar, já em "Pizze a credito" encontramos um casal de pizzeiros que tenta encontrar um anel de casamento. Mordaz, pontuado por doses consideráveis de humor negro e a presença carismática e talentosa de Sophia Loren, "Pizze a credito" aborda temáticas tão distintas como o adultério, o luto e a manutenção de um pequeno negócio, para além de expor as dinâmicas muito próprias das gentes de Materdei, um rione de Nápoles. Sophia Loren interpreta Sofia, uma mulher adúltera que é casada com Rosario (Giacomo Furia), um pizzeiro que gere o seu negócio com grande rigor, com a dupla a trabalhar numa pequena banca de rua onde são vendidas pizzas a crédito. O quotidiano do casal é virado do avesso quando Rosario percebe que Sofia perdeu o anel de casamento, uma situação que apoquenta o protagonista de forma notória. Sofia coloca a hipótese do anel ter caído no interior da massa da pizza, embora saiba que se esqueceu do objecto no local de trabalho do amante (Alberto Farnese), com quem se encontrara no início do episódio. Perante essa hipótese aventada pela protagonista, Rosario e Sofia circulam pelas ruas de Nápoles em busca do anel, enquanto entram em contacto com uma série de clientes que compraram pizzas. Vittorio De Sica, apoiado pelo sólido e recomendável argumento de Cesare Zavattini e Giuseppe Marotta, aproveita este périplo protagonizado por Sofia e Rosario para expor as idiossincrasias das gentes de Nápoles e criar uma série de encontros que variam entre episódios pontuados por um tom caricato ou dotado de humor negro. Veja-se quando o casal contacta com Don Peppino (Paolo Stoppa), pouco tempo depois da esposa deste indivíduo ter falecido. O ambiente é pontuado pela tragédia, inerente ao facto de Peppino ter ficado viúvo, mas também pelo humor negro devido a Sofia e Rosario procurarem questionar este indivíduo sobre o paradeiro do anel. O casal circula pelas ruas, quase sempre acompanhado por uma multidão, com Vittorio De Sica a aproveitar mais uma vez os espaços de Nápoles e a expor as particularidades das gentes desta cidade. Marcado por imensos diálogos, sentimentos expostos de forma exacerbada, uma mescla certeira e muito italiana de humor e tragédia, "Pizze a credito" surge como um dos episódios mais inspirados de "L'oro di Napoli", com Vittorio De Sica a ter aqui uma commedia all'italiana de curta duração. É, também, um episódio do filme onde a protagonista sobressai em grande nível, com Sophia Loren a elevar e muito as cenas nas quais está presente como a fogosa Sofia, uma esposa adúltera que desperta facilmente as atenções das figuras masculinas.


 Se "Pizze a credito" é marcado por uma atmosfera fervilhante, com os sentimentos a serem expostos de forma bem viva, já "Il funeralino" apresenta uma faceta mais contida e uma carga maioritariamente dramática. Os diálogos são escassos, com "Il funeralino" a colocar o espectador diante de um cortejo fúnebre que circula por diversas ruas e estradas de Nápoles. O cortejo fúnebre é demorado, enquanto que a desolação de uma mãe (Teresa De Vita) que perdeu o filho é sentida. Teresa De Vita pouco dialoga, com a actriz a conseguir expressar as dores desta mãe através dos gestos e da postura que imprime à protagonista do terceiro episódio do filme. Também Silvana Mangano tem oportunidade para se destacar em "L'oro di Napoli", em particular, no quinto episódio do filme, intitulado de "Teresa", no qual interpreta a personagem do título, uma prostituta que se casa com Don Nicola (Erno Crisa), um empresário endinheirado. Nicola apenas entra directamente em contacto com Teresa no dia do casamento, algo que esta última considera estranho. A ténue felicidade da protagonista termina quando Nicola revela os motivos para ter contraído matrimónio com uma desconhecida, algo que arrasa moralmente com Teresa, com Silvana Mangano a expor eficientemente a desolação que percorre o corpo e a alma da personagem que interpreta. Os momentos finais de "Teresa" são arrasadores, com Vittorio De Sica a colocar a personagem do título diante do dilema cruel de ter de voltar à prostituição ou aceitar permanecer no interior de um casamento sem amor. Quem também tem de lidar com uma situação deveras complicada é Don Saverio Petrillo (Totò), o protagonista de "Il guappo" (primeiro episódio), um pazzariello que não está disposto a tolerar a atitude coerciva e arrogante de Don Carmine Savarone (Pasquale Cennamo), um guappo que lhe faz a vida negra e praticamente lidera o seu lar. As refeições são confeccionadas ao gosto de Carmine, a esposa de Saverio (Lianella Carell) passa boa parte do tempo a engomar colarinhos para o guappo, enquanto que os filhos do casal parecem obedecer mais ao primeiro do que aos progenitores. Esta influência de Carmine no interior da casa dos Petrillo remete para o momento em que o primeiro ficou viúvo, há dez anos, quando o guappo aproveitou a hospitalidade do pazzariello e da esposa para dominar o lar do casal. Saverio aproveita a ocasião em que Carmine pensa que padece de problemas cardíacos para tomar medidas extremas, que resultam num momento catártico onde Totò exibe algum do seu talento para o humor. Não falta ainda uma reviravolta que surpreende o protagonista, bem como uma demonstração do poder da união familiar, com "Il guappo" a abrir "L'oro di Napoli" com chave de ouro. 


 "Il guappo" é mais um episódio com tons muito napolitanos quer na exposição dos sentimentos, quer nas características dos protagonistas, quer nos espaços por onde circulam os personagens, um pouco à imagem de "Il professore", o último capítulo de "L'oro di Napoli". Em "Il professore", Eduardo De Filippo interpreta Don Ersilio Miccio, um indivíduo que vende sabedoria aos seus clientes. Eduardo De Filippo transmite a postura confiante e sapiente do protagonista, uma figura que parece ter uma resposta para quase tudo aquilo que apoquenta os seus clientes, seja um indivíduo que pretende efectuar uma cicatriz no rosto de alguém, ou um grupo que procura travar os ímpetos de um nobre arrogante. O elenco principal de "L'oro di Napoli" sobressai em bom nível, com Vittorio De Sica a apresentar-nos a um mosaico de personagens que consegue despertar o interesse e atenção, enquanto ficamos diante de episódios de características distintas que permitem que o filme contenha uma série de elementos aparentemente antagónicos que se complementam e se assemelham às idiossincrasias do território de Nápoles. Ficamos diante das diferenças e semelhanças entre os habitantes de Nápoles, sejam estes de grupos sociais mais elevados ou de escalões mais baixos, com Vittorio De Sica a mesclar o humor, a tragédia e o drama ao longo destes episódios de características distintas onde são abordadas temáticas como o adultério, o vício pelo jogo, a mortalidade infantil, o desejo de cariz sexual, bem como as relações conjugais, com o espaço citadino do título a surgir como personagem e protagonista desta recomendável obra cinematográfica.


Título original: "L'oro di Napoli".
Título em Portugal: "O Ouro de Nápoles".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Cesare Zavattini, Giuseppe Marotta, Vittorio De Sica (inspirado na recolha de contos de Giuseppe Marotta).
Elenco: Totò, Vittorio De Sica, Sophia Loren, Giacomo Furia, Silvana Mangano, Lianella Carell, Eduardo De Filippo, Paolo Stoppa, Pierino Bilancione, Alberto Farnese, Erno Crisa.

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