24 janeiro 2017

Resenha Crítica: "La mafia uccide solo d'estate" (A máfia só mata no Verão)

 Não é mero acaso, ou coincidência do destino, que a primeira palavra proferida por Arturo Giammarresi (Pierfrancesco Diliberto durante a idade adulta; Alex Bisconti durante a juventude do personagem), o protagonista de "La mafia uccide solo d'estate", uma comédia de características muito italianas, tenha sido "máfia", ou as acções dos mafiosos não tivessem marcado e muito a vida deste aspirante a jornalista. Os pais de Arturo ficam claramente surpreendidos, enquanto o espectador não consegue deixar de esboçar um sorriso, sobretudo pelo facto do jovem ter apontado para Giacinto (Ninni Bruschetta), um padre que conta com uma personalidade deveras peculiar e ligações à máfia, com "La mafia uccide solo d'estate" a expor por diversas vezes que o crime organizado se encontra enraizado em Palermo, embora uma boa parte da população pretenda ignorar, ou desconheça esse facto. Os assassinatos são noticiados e acontecem em doses generosas, com os jornais a atribuírem a autoria dos crimes à máfia, apesar de diversos elementos da população local preferirem acreditar que os homicídios foram cometidos devido a motivações de ordem passional, uma linha de argumentação que desperta uma certa confusão na cabeça de Arturo e proporciona alguns momentos de humor. As características italianas de "La mafia uccide solo d'estate" remetem exactamente para a capacidade desta obra cinematográfica conseguir mesclar com enorme acerto a comédia e a tragédia (não faltam diversas mortes ao longo do filme), com as desventuras de Arturo, em particular, as suas tentativas de conquistar o coração de Flora (Ginevra Antona interpreta a personagem durante a infância; Cristiana Capotondi durante a idade adulta) a serem entrelaçadas com as acções violentas da máfia e episódios com um fundo histórico verídico. No início de "La mafia uccide solo d'estate", encontramos Arturo, já em idade adulta, a apresentar-nos a figura de Flora e a comentar que nunca teve coragem, nem a oportunidade de se declarar a esta mulher. Quais as razões que conduziram Arturo a não declarar o seu amor por Flora? O protagonista não deixa o espectador sem resposta ao salientar, ainda nos momentos iniciais de "La mafia uccide solo d'estate", que o facto de ser de Palermo condicionou e muito a possibilidade de manifestar os seus sentimentos junto daquela que sempre foi a sua grande paixoneta. Este é um território que conta com características muito particulares e propiciadoras do extravasar das emoções, algo que é exposto ao longo de "La mafia uccide solo d'estate" com enorme vida e algum humor, sempre sem descurar a violência que permeia Palermo no período compreendido entre 1969 (data da concepção de Arturo e do massacre da avenida Lazio, um evento relatado com um tom espirituoso pelo personagem principal) e 1992, ou seja, as balizas cronológicas em que decorre o enredo desta obra cinematográfica que mescla episódios e figuras reais com elementos ficcionais.


 "La mafia uccide solo d'estate" convida-nos a acompanhar quer a infância de Arturo, exposta em flashback, após este apresentar Flora, quer um período profissionalmente instável do protagonista durante a idade adulta (que marca o regresso da amada ao território de Palermo, após ter viajado com o pai para a Suíça, quando ainda era jovem), ou seja, dois períodos distintos da vida do personagem principal, embora a personalidade deste indivíduo não sofra grandes alterações. Alex Bisconti e Pierfrancesco Diliberto conseguem espelhar de forma competente o carácter atrapalhado, bem intencionado, imaginativo e sonhador de Arturo, um indivíduo que aos poucos começa a perceber o lado negro do território onde habita e a ganhar experiência de vida. Diga-se que a máfia acompanhou boa parte da existência de Arturo, nomeadamente, desde a concepção (exposta com imenso humor e violência à mistura), passando pela infância até à idade adulta, com Pierfrancesco Diliberto a entrelaçar a história do protagonista com a do crime organizado no território. Oriundo de Palermo, Pierfrancesco Diliberto, mais conhecido como Pif, estreia-se na realização de longas-metragens com um retrato bem vivo de um território que conhece bastante bem e lhe parece dizer imenso, enquanto aproveita para elogiar e homenagear aqueles que combateram a máfia e perderam a vida nesta luta ao mesmo tempo que expõe quer a violência que pontua este espaço, quer as especificidades desta comuna italiana da região siciliana. Pierfrancesco Diliberto não glorifica os mafiosos, bem pelo contrário, com o cineasta a utilizar muitas das vezes estes elementos ao serviço do humor (a maioria dos gangsters são eficazmente satirizados), enquanto expõe os actos destes criminosos. Veja-se os comentários sobre a ascensão de Salvatore Riina (Antonio Alveario) no seio da Cosa Nostra, com as acções do mafioso a serem sentidas, apesar do argumento nem sempre conseguir desenvolver os personagens secundários e os acontecimentos históricos na justa medida. Embora não seja completamente necessário conhecer profundamente as figuras históricas e o contexto que rodeia os episódios mencionados ao longo do enredo para compreender aquilo que é apresentado, também não deixa de ser notório que esse conhecimento prévio beneficia e muito a experiência do espectador que acompanha os acontecimentos que são relatados, já que o argumento raramente aprofunda esses elementos, nem parece ser o seu objectivo. No entanto, importa não descurar que diversos episódios históricos contam com uma relevância notória na vida do protagonista, com Pierfrancesco Diliberto a aproveitar alguns momentos que considera relevantes para mesclar vídeos de arquivo com pedaços propositadamente filmados como se tivessem ocorrido no período de tempo em que decorre o enredo. Essa situação é notória em momentos como o funeral de Carlo Alberto dalla Chiesa (Turi Giuffrida), um General que foi nomeado para enfrentar o fenómeno mafioso na Sicília, embora tenha sido assassinado por membros da Cosa Nostra, com "La mafia uccide solo d'estate" a reunir pedaço de vídeos de arquivo com trechos ficcionais. Outra das figuras históricas que é mencionada e exibida é Giulio Andreotti, Primeiro-Ministro italiano nos períodos de 1972 a 1973, 1976 a 1979 e 1989 a 1992, um político que Arturo admira durante boa parte do filme.


 Uma parcela significativa da infância de Arturo é marcada pela enorme curiosidade e uma certa ingenuidade do jovem, algo notório na forma cega como acredita em Giulio Andreotti, pelo menos até ser confrontado com a dura realidade das diferenças entre o discurso político e os factos. Arturo mascara-se no Carnaval como Andreotti, tem um poster do político na parede do quarto, gosta de ir a comícios onde este indivíduo está presente, com Alex Bisconti a transmitir que existe uma certa inocência nesta admiração que o protagonista tem pelo antigo deputado e Primeiro-Ministro italiano. Esta admiração nasce quando Arturo ouve Andreotti a relatar que pediu a esposa em casamento num cemitério, uma confissão que vai ao encontro dos anseios deste jovem que procura encontrar um meio de exprimir o seu amor por Flora, um desiderato amplamente difícil de concretizar. Flora é uma jovem de cabelos loiros, que conta com uma personalidade muito própria e uma importância inquestionável na vida de Arturo, com a rapariga a nem sempre dar a entender os sentimentos que nutre pelo protagonista. Alex Bisconti protagoniza uma série de situações que revelam quer o lado naïf do personagem que interpreta, quer a sua enorme curiosidade, quer a noção menos romântica que este começa a formar em relação ao território que o rodeia. O actor consegue destacar-se como este personagem que tarda em encontrar um meio para entrar correctamente em contacto com Flora, com o destino a pregar-lhe umas quantas partidas, bem como a sua inabilidade para lidar com raparigas e a forte concorrência de Fofò, um colega de escola que conta com uma matreirice notória. As rivalidades que ocorrem na escola, o primeiro amor, as brincadeiras entre jovens e a ingenuidade de algumas conversas dos petizes surgem como temáticas e elementos que são abordados com eficácia pelo argumento de Pierfrancesco Diliberto, Michele Astori, Marco Martani, com "La mafia uccide solo d'estate" a conjugar estes assuntos que muito dizem a qualquer espectador com os episódios relacionados com a máfia e o combate ao crime organizado no período de tempo em que se desenrola o enredo. A procura de Arturo conquistar Flora é o grande fio condutor do filme, enquanto o protagonista lida com uma série de situações que contribuem para o seu crescimento, bem como para conhecer um lado de Palermo que desconhecia. Veja-se quando Arturo entra em desgraça junto de Flora, após uma série de episódios que correram mal, com o jovem a procurar conquistar a atenção da amada com acções como ganhar um concurso que lhe permite escrever durante um mês no "Jornal de Palermo", entrevistar Carlo Alberto dalla Chiesa, entre outras actividades. A entrevista efectuada por Arturo a Carlo Alberto dalla Chiesa remete para o sonho do rapaz em ser jornalista, algo estimulado por Francesco (Claudio Gioè), um profissional da área que habita no mesmo prédio do protagonista, como arrendatário do apartamento que pertencia ao avô do jovem. Claudio Gioè interpreta uma figura que conta com alguma importância junto de Arturo, com o jornalista a expor uma visão menos romântica do jornalismo, enquanto o jovem encara o vizinho como um exemplo. Vale a pena salientar que Arturo percebe que a profissão de jornalista não é um mar de rosas quando recebe a notícia do homicídio de Carlo Alberto dalla Chiesa, pouco tempo depois de ter entrevistado o general e pensado que este estava errado em relação à presença crescente da máfia no território de Palermo.


 O título do filme remete para um frase proferida pelo pai de Arturo, com este a salientar que "a máfia só mata no Verão", tendo em vista a procurar descansar o rebento. No entanto, Arturo acaba por descobrir da pior maneira que a máfia existe e mata o ano inteiro, com a Cosa Nostra a encontrar-se claramente enraizada no interior do território de Palermo. Não faltam mortes violentas (algumas exposta com humor, nomeadamente, quando mafiosos eliminam outros criminosos, outras com seriedade, em particular, quando é assassinado alguém que lutou contra a máfia), ligações perigosas entre o Estado e a máfia, notícias de crimes financeiros, mas também diversos momentos de humor ao longo de "La mafia uccide solo d'estate", enquanto ficamos diante das tentativas de Arturo em exibir o seu interesse por Flora. No presente, Arturo (interpretado com arte e engenho por Pierfrancesco Diliberto, com o actor a apresentar um timing eficaz nos momentos de humor) encontra-se sem grandes perspectivas de emprego, conseguindo um trabalho como pianista no programa de Jean Pierre (Maurizio Marchetti), um indivíduo de gestos e expressões exageradas, até reencontrar Flora, com esta a trabalhar como assistente de Salvo Lima (Totò Borgese), um deputado que proporciona uma espécie de gag devido a repetir constantemente que "A Sicília precisa da Europa e a Europa precisa da Sicília", algo que realça o discurso vazio e repetitivo deste político. O reencontro entre estes dois personagens é pontuado por diversos momentos de humor, outros mais sérios e uma parceria profissional que parece fadada ao fracasso, enquanto esperamos que Arturo declare o seu amor por Flora, com Pierfrancesco Diliberto e Cristiana Capotondi a apresentarem uma química relativamente convincente. O humor está muito presente ao longo do filme, seja através da ironia introduzida pela narração de Pierfrancesco Diliberto (como Arturo), ou da representação dos gangsters, ou das relações entre os personagens, enquanto a violência marca diversos actos dos mafiosos. Entre notícias dos actos sangrentos da Cosa Nostra, crimes financeiros, ligações perigosas e a procura de alguns elementos corajosos, tais como os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, ou o General Carlo Alberto dalla Chiesa, tentarem travar e condenar os mafiosos, "La mafia uccide solo d'estate" marca uma estreia digna de atenção por parte de Pierfrancesco Diliberto na realização de longas-metragens, com o realizador e argumentista a apresentar uma abordagem apelativa sobre este contexto histórico conturbado ao mesmo tempo que nos deixa diante da procura do protagonista em conquistar o coração da amada, sempre com algum humor e ingenuidade à mistura, acabando pelo caminho por despertar a admiração do indivíduo que escreve este texto.


Título original: "La mafia uccide solo d'estate".
Título em Portugal (exibido no 8 ½ Festa do Cinema Italiano): "A máfia só mata no Verão".
Realizador: Pierfrancesco Diliberto.
Argumento: Pierfrancesco Diliberto, Michele Astori, Marco Martani.
Elenco: Pierfrancesco Diliberto, Alex Bisconti, Cristiana Capotondi, Maurizio Marchetti, Antonio Alveario, Rosario Lisma, Barbara Tabita, Ginevra Antona, Ninni Bruschetta.

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