28 janeiro 2017

Resenha Crítica: "Cloro" (2015)

 O destino nem sempre é simpático e pode contribuir para alguns reveses que proporcionam um embate angustiante entre as responsabilidades inerentes à realidade e os sonhos e objectivos para o futuro, que o diga Jennifer (Sara Serraiocco), mais conhecida como Jenny, a protagonista de "Cloro", o filme que marca a estreia de Lamberto Sanfelice na realização de longas-metragens. As expectativas de Jenny entram muitas das vezes em confronto com a realidade, com a adolescente, prestes a completar dezoito anos de idade, a ser colocada diante da difícil tarefa de ter de crescer antes de tempo, ou melhor, de ter de assumir responsabilidades que vão muito além da sua maturidade, capacidade e disponibilidade, com Sara Serraiocco a transmitir a incerteza que marca a alma desta jovem. Com o avançar do enredo percebemos que o coração de Jenny fica dividido entre um passado que não pode recuperar, um presente que não pediu mas que faz parte da sua realidade e um futuro que idealizou, com "Cloro" a deixar-nos diante de uma jovem que é colocada perante um contexto complicado que praticamente a obriga a ter de redefinir as suas prioridades. No início de "Cloro" pouco ou nada sabemos sobre as razões que conduziram Alfio (Andrea Vergoni), o pai de Jenny e Fabrizio (Anatol Sassi), o irmão mais novo da protagonista, a deslocar-se com o núcleo familiar de Ostia para um chalé numa colina de uma pequena aldeia situada em Abruzzo. É certo que ficamos perante uma espécie de prólogo que traça uma oposição entre Ostia e Abruzzo, para além de expor, ainda que brevemente, a dicotomia entre a vida de Jenny antes e depois de partir com a família para o chalé, apesar dos detalhes sobre estes acontecimentos apenas ficarem mais explícitos com o avançar da narrativa. O chalé pertence a Tondino (Giorgio Colangeli), o irmão de Alfio e tio de Jenny e Fabrizio, um indivíduo que procura ajudar os familiares, apesar de nem sempre conseguir corresponder às expectativas da protagonista. Andrea Vergoni imprime um estilo passivo, praticamente desprovido de vida a Alfio, um indivíduo que padece de uma doença do foro psicológico que o impede de conseguir reagir aos acontecimentos e cuidar dos filhos, algo que apoquenta Jenny. O argumento dota Jenny de alguma complexidade, com a protagonista a apresentar um conjunto de atitudes e sentimentos que evidenciam que estamos diante de alguém que ainda não atingiu a sua maturidade, nem se encontra preparada para lidar com este conjunto alargado de contrariedades, apesar de tentar lutar pela concretização dos seus sonhos e cuidar do lar. Sara Serraiocco tanto expõe o lado mais responsável de Jenny, algo que leva a protagonista a abandonar temporariamente os estudos para trabalhar como empregada no Hotel Splendor e a tentar cuidar de Fabrizio, como exprime uma faceta mais egoísta e desesperada da personagem principal, ou esta não estivesse a experienciar uma situação deveras complicada. Veja-se quando Jenny exibe o seu desespero para com os actos pouco razoáveis do pai, ou tenta convencer o tio a cuidar temporariamente de Fabrizio, tendo em vista a poder libertar-se do ónus de tratar do petiz.


 Jenny gosta do irmão e sabe que tem de cuidar do rapaz, embora nem sempre consiga ter a paciência e o pragmatismo necessário para zelar pela educação do familiar, uma situação que a conduz a querer passar essa tarefa para o tio. Fabrizio ainda está na terceira classe, enquanto que Jenny teve de abandonar o último ano da escola técnica devido a necessitar de trabalhar para ajudar a pagar as contas da casa. A narrativa tem um momento de charneira quando Jenny matricula Fabrizio na escola e fala com a directora (Piera Degli Esposti) do estabelecimento de ensino. É nesse momento que descobrimos que a mãe de Jenny faleceu, bem como o facto do pai da jovem e de Fabrizio ter ficado desempregado, com a família a ter perdido a casa devido a dívidas ao banco. Junte-se o facto da morte da esposa e o desemprego terem arrasado com Alfio e percebemos como Jenny foi praticamente obrigada a assumir o estatuto e as obrigações de líder do lar (é esta que tem de cozinhar, fazer as compras, lavar o irmão e ajudar o mesmo a cumprir as tarefas). A doença de Alfio é abordada sem grande acerto ou complexidade, surgindo mais como uma dificuldade para Jenny do que para exprimir os problemas inerentes a uma depressão, com o argumento de Lamberto Sanfelice, Elisa Amoruso e Sara Lazzaro a descurar imenso os personagens secundários e algumas subtramas que abre para desenvolver de forma pueril. Veja-se o envolvimento de Jenny com Ivan (Ivan Franek), o indivíduo responsável por tratar do teleférico e da piscina do Hotel Splendor, uma relação que é inserida a martelo no interior da narrativa, ou a forma pueril como é exposta a procura da directora da escola em tentar informar-se sobre a situação de Fabrizio. Este é um jovem que ainda não tem a maturidade suficiente para compreender tudo aquilo que o rodeia, embora sinta as dificuldades que marcam o seu quotidiano. Fabrizio pretende permanecer ao lado da irmã, algo notório quando pede para que esta não o deixe sozinho com o pai, ou clama para não ficar aos cuidados do tio, apesar de Jenny parecer decidida a regressar a Ostia. Jenny sonha ser uma profissional de natação sincronizada, gosta de nadar e correr, anda quase sempre vestida com roupas informais e acompanhada pelos seus auscultadores, e apresenta uma certa hostilidade para com o novo território onde habita. A personagem interpretada por Sara Serraiocco pretende participar no campeonato ao lado de Flavia (Chiara Romano), uma das suas melhores amigas e companheira na natação sincronizada, com uma parte importante da vida desta adolescente a parecer ter ficado em Ostia. No entanto, os sonhos de Jenny estão em perigo de não se concretizarem, algo que contribui para despertar uma revolta enorme no interior do seu ser. Esta revolta-se contra o pai, exibe uma vontade notória de abandonar o emprego no Hotel Splendor, para além de discutir com o tio devido ao facto deste último colocar algumas reticências em trazer Fabrizio para junto da esposa e da filha adoptiva. As dicotomias entre as expectativas da protagonista e a realidade com que esta tem de lidar ganham um rival à altura quando somos colocados perante a informação de que a família de Jenny saiu de Ostia, uma frazione do município de Roma, situada num território costeiro, ou seja, junto da praia, algo bem distinto desta zona montanhosa isolada, marcada pela neve e pelo frio, onde a nadadora habita com o irmão e o pai.


  A relação dos dois irmãos é relativamente complicada, com ambos a apresentarem uma afeição mutua e a protagonizarem alguns episódios de maior leveza, embora todo o contexto que os rodeia ajude a propiciar diversas desavenças. A natação é uma das poucas actividades que preenchem a alma de Jenny e acalmam a jovem, algo notório quando esta aproveita as noites para nadar na piscina do hotel e alienar-se da realidade que a rodeia. As cenas de Jenny a nadar contam com alguma beleza, com a câmara a acompanhar quase sempre os movimentos e os sentimentos da protagonista. A câmara encontra-se regularmente em movimento (muitas das vezes na mão), enquanto capta o quotidiano de Jenny e as particularidades do território onde esta habita, com "Cloro" a brindar o espectador com alguns planos bem arquitectados (e um ou outro movimento de câmara apenas para o show off, uma situação notória no "travelling óptico" a exibir o espaço onde Alfio ficou internado). Veja-se os planos bem abertos que nos deixam diante do espaço montanhoso e coberto de neve que rodeia o chalé onde Jenny habita, com as tonalidades frias a parecerem contaminar os corpos e as almas destes personagens, ou os momentos em que ficamos perante a protagonista a nadar na piscina (existe ainda algum mistério no momento em que câmara se afasta e ficamos diante de uma perspectiva voyeurista de Jenny e Flavia a nadarem, algo que remete para o facto de alguém estar a espiar as duas jovens, com o espectador a ser praticamente transformado num cúmplice desse acto). O território parece algo abrasivo, embora Jenny também não demonstre disposição para aceitar a mudança para esta aldeia situada em Abruzzo, bem pelo contrário, com este espaço a simbolizar um corte com o passado da protagonista, nomeadamente, com a adolescência. O cloro é utilizado pela protagonista para limpar as sanitas do espaço do hotel, para além de ser aplicado na água para purificação da mesma em espaços como piscinas. No caso do filme, Jenny não pode apagar os episódios do passado recente, tendo de conviver com os mesmos enquanto aprende que a chegada à idade adulta é acompanhada por uma série de responsabilidades que obrigam a alguns compromissos, com a protagonista a ter de conciliar as obrigações com os desejos para os tempos vindouros. Lamberto Sanfelice aborda de forma bastante satisfatória o drama desta personagem, enquanto coloca em oposição o presente e o passado de Jenny, uma figura feminina complexa que aos poucos começa a perceber que está a mudar. A certa altura de "Cloro", encontramos Jenny a dialogar online com Flavia, com esta última a encontrar-se a pintar as unhas e a tentar convencer a amiga a utilizar um fato de banho com uma alça. Jenny fica em silêncio, com o rosto da protagonista a transmitir que esta parece ter percebido que a sua alma está dividida entre o presente de que não pode fugir e um sonho que aparenta cada vez mais fazer parte do passado. Este é também um filme de silêncios, com os gestos e as expressões dos personagens a terem muitas das vezes tanto ou mais valor do que os seus diálogos, algo notório no trecho mencionado, com Lamberto Sanfelice a optar em alguns momentos pela subtileza na abordagem de algumas temáticas (por exemplo, não exibir a tentativa de suicídio de Alfio, preferindo antes colocar em destaque uma corda que ficou caída no chalé) e na exposição dos sentimentos das figuras que povoam o enredo. Pouco dado a falsos sentimentalismos, "Cloro" conta com alguns tropeços, embora seja um drama relativamente competente, capaz de abordar com eficácia a transição intrincada da protagonista para a idade adulta, com Lamberto Sanfelice a beneficiar e muito da interpretação de grande nível de Sara Serraiocco.  


Título original: "Cloro".
Realizador: Lamberto Sanfelice.
Argumento: Lamberto Sanfelice, Elisa Amoruso, Sara Lazzaro.
Elenco: Sara Serraiocco, Anatol Sassi, Andrea Vergoni, Ivan Franek, Giorgio Colangeli.

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