16 outubro 2017

Crítica: "Zombillénium" (2017)

 É uma enorme vantagem visionar um filme de animação numa sessão com crianças e pré-adolescentes, sobretudo quando a obra em questão é francamente direccionada para esta faixa etária, ainda que com imensos piscares de olho aos adultos. A vantagem é óbvia: as reacções do público são espontâneas e sinceras. Os risos surgiram em diversas ocasiões e um "bué da fixe" por parte de uns petizes no final da sessão assinalaram algo evidente: "Zombillénium" é um filme deveras simpático. Diga-se que essa simpatia é conquistada devido à criatividade e competência dos envolvidos. Os temas são desenvolvidos com simplicidade e sinceridade, sejam estes relacionados com a paternidade, a igualdade, a tolerância, o luto, ou os direitos dos trabalhadores, enquanto os personagens contam com personalidades e fisionomias que prendem facilmente a atenção, com Arthur de Pins e Alexis Ducord, a dupla de realizadores, a criarem um universo narrativo convincente.

 O título remete para um parque de diversões que conta com vampiros, lobisomens, bruxas, esqueletos, zombies e afins como trabalhadores, com os primeiros a estarem no topo da hierarquia, enquanto os últimos estão na parte inferior da pirâmide social deste espaço gerido por Francis. Este é um vampiro sensato, que responde directamente ao Diabo e encara o parque como um meio essencial para manter as diversas criaturas afastadas do Inferno e salvaguardar os zombies. Quando Hector, um inspector rigoroso, viúvo, tenta fechar o parque, Francis não tem outra alternativa a não ser morder o pescoço deste indivíduo. Por sua vez, um lobisomem também morde Hector, algo que conduz o protagonista a ficar com a forma de um demónio semelhante a Hellboy e a ser obrigado a trabalhar no parque de diversões, embora ainda tente escapulir-se, pois Lucie, a sua filha, ficou orfã. A jovem sofre com a perda do pai, ao passo que Hector tem de se adaptar às dinâmicas do parque, forma amizades e rivalidades e tenta ajudar a salvar este espaço de uma crise financeira.

15 outubro 2017

Crítica: "Compte tes blessures" (2016)

 Kévin Azaïs tem em Vincent um personagem que marca uma carreira, com o actor a conseguir explanar as diferentes vertentes deste jovem complexo e intrigante. O intérprete começa por expor a faceta segura, intensa, inquieta, revoltada e carismática de Vincent como vocalista e líder de uma banda de hard rock. Mais tarde, exibe o lado inseguro e frágil do protagonista quando está na presença de Hervé (Nathan Willcocks), o seu pai, com quem vive num apartamento, após o falecimento da mãe. Posteriormente transmite a delicadeza, a capacidade de sedução e a irreverência do personagem principal de "Compte tes blessures", nomeadamente, quando está na companhia de Julia (Monia Chokri), a namorada do progenitor. Azaïs convence em todos os momentos anteriormente mencionados ao mesmo tempo que se exibe como um intérprete exímio a expressar-se quase sem proferir uma única palavra.

O corpo de Azaïs tanto pode servir para expor o lado mais intimidativo e rebelde de Vincent como a sua fragilidade, enquanto o seu olhar transmite uma imensidão de sentimentos, com Morgan Simon a aproveitar ao máximo o talento do seu intérprete. Estreante na realização de longas-metragens, Simon tem em "Compte tes blessures" uma cápsula de sentimento e emoção, uma espécie de tatuagem que marca a pele, avança pela carne e prende-se à nossa alma. É filme para não deixar ninguém indiferente, que inebria, choca, mexe com as emoções, que se lixa para as convenções e atira-se furiosamente ao espectador para lhe dar algo inesquecível. Marcante é um adjectivo que peca por escasso e por ser demasiado fácil para descrever esta obra cinematográfica, ou não estivéssemos diante de um filme em que uma reunião familiar pode contar com mais intensidade e agressividade do que um concerto de hard rock. Nem a música de Julio Iglesias está a salvo, com a banda sonora a ser utilizada com tanta inspiração como são desenvolvidas as ligações destes personagens.

14 outubro 2017

Crítica: "Le fils de Jean" (2016)

 "Le fils de Jean" tem uma reviravolta sacana. Não salva o filme, é completamente previsível e açucarada, mas ao menos contribui para que este assuma a sua faceta melodramática e dê o devido destaque aos únicos personagens dignos de interesse. Esses personagens são Mathieu (Pierre Deladonchamps) e Pierre (Gabriel Arcand). O primeiro não sabe quem é o seu pai, pelo menos até receber a notícia de que este era canadiano e faleceu recentemente. Descobre ainda que tem dois irmãos, Ben (Pierre-Yves Cardinal) e Sam (Patrick Hivon), algo que o conduz a deslocar-se de Paris a Montreal, onde vai decorrer o funeral.

Quem dá a notícia é Pierre, um amigo de longa data de Jean, o falecido. É o personagem interpretado por Arcand quem recebe o protagonista em Montreal, onde trabalha como médico e habita com Angie (Marie-Thérèse Fortin), a sua esposa, com quem teve duas filhas. Uma das filhas do casal é Bettina, uma das poucas pessoas que recebe Mathieu de forma afável, com Catherine de Léan a ter algum espaço para sobressair. O protagonista pretende conhecer os irmãos a todo o custo, embora raramente acreditamos neste desejo, enquanto Pierre tenta impedir que o primeiro revele a sua identidade junto dos familiares. Quais as razões para Pierre evitar que o protagonista divulgue que é filho de Jean? Quais os segredos que esconde? São perguntas que efectuamos, com as respostas a serem concedidas de forma gradual, até à reviravolta em que tudo é exposto de forma escancarada. 

13 outubro 2017

Crítica: "Avant la fin de l'été" (2017)

 Entre as fronteiras do documentário e da ficção, "Avant la fin de l'été" surge como um road movie que tem no seu cerne os fortes laços que ligam Arash, Ashkan e Hossein, três amigos de longa data, que vivem em Paris e são originários do Irão. Estes são os protagonistas deste exemplar de docuficção realizado por Maryam Goormaghtigh, com a cineasta a acompanhar o trio ao longo de uma viagem por diversos territórios de França. O périplo conta com algumas doses de melancolia, ou Arash não pretendesse regressar à sua Terra Natal, após cinco anos a viver em solo gaulês. Ashkan e Hossein encaram a viagem como a derradeira oportunidade para dissuadirem o amigo de partir, enquanto Arash parece inicialmente decidido a abandonar um país onde não conseguiu formar laços.

Ashkan e Hossein parecem perfeitamente adaptados ao território, embora tenham consciência que vivem de acordo com valores distintos em relação àqueles com que foram educados. Arash sente falta de algo que o preencha. É um tipo algo solitário e reservado, que gosta de se divertir, mas não dá muito nas vistas, que conta com um físico imponente e um guarda-roupa que exacerba a sua personalidade afável. Ao longo do filme acompanhamos Arash, Ashkan e Hossein, enquanto viajam de carro, falam sobre mulheres, religião, o passado, as ansiedades em relação ao futuro, com os diálogos a contarem com algumas doses de improviso e a transmitirem sinceridade, com "Avant la fin de l'été" a esgueirar-se de mansinho pelas barreiras do documentário e da ficção. O que é ensaiado ou escrito no argumento? O que é real? São perguntas que fazemos, enquanto ficamos diante de alguns episódios singelos, mas dotados de algumas doses de humanidade. Note-se quando encontramos Hossein e Ashkan na praia, a observarem Arash ao longe, enquanto salientam as saudades que vão ter deste último, ou as sestas peculiares que fazem ao ar livre. 

12 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "Le Cercle Rouge" (O Círculo Vermelho)

 Entre traições, alianças, um furto minuciosamente preparado, fugas às autoridades e interpretações de grande nível, "Le Cercle Rouge" desafia regularmente as nossas expectativas em relação aos personagens e aos seus destinos, enquanto Jean-Pierre Melville mescla harmoniosamente elementos dos filmes noir, de gangsters e de assalto. Em certa medida, "Le Cercle Rouge" quase que nos remete para "Du rififi chez les hommes", um filme realizado por Jules Dassin onde também ficamos perante temáticas como as relações de lealdade e traições entre um grupo de assaltantes, bem como a colocação em prática de um furto meticulosamente arquitectado. "Le Cercle Rouge" remete ainda para outras obras cinematográficas de Melville, tais como "Bob le Flambeur" e "Le Samouraï", com o cineasta e argumentista a voltar a colocar-nos diante de criminosos com valores muito próprios.

Tal como em "Le Samouraï", Alain Delon interpreta um criminoso lacónico e competente, que anda quase sempre acompanhado pela sua gabardina. Não estamos perante Jef Costello, mas sim de Corey, um criminoso que passou os últimos cinco anos na prisão. No início do filme, Corey ainda se encontra no interior da prisão, em Marselha, onde é convidado a efectuar um assalto a uma joalharia. O plano é apresentado por um polícia corrupto (Pierre Collet), cujo cunhado trabalhou para uma firma que instalou o sistema de segurança da joalharia, tendo acesso a informações privilegiadas sobre o estabelecimento. O polícia procura lucrar com esta informação através de Corey, considerando que o presidiário é a pessoa ideal para efectuar o assalto com sucesso. De feições algo rígidas, poucas falas, roupas discretas e implacável nas suas acções, Corey rege-se por alguns valores de lealdade, tendo uma atitude pouco temerosa diante das adversidades. Essa impassibilidade diante do perigo e o desejo de vingança ajudam a explicar o facto de Corey dirigir-se à casa de Rico (André Ekyan) assim que recebe ordem de soltura. Rico é um gangster que gere uma rede alargada de criminosos, tendo estado envolvido no assalto que conduziu à detenção do protagonista.

11 outubro 2017

Crítica: "Kiss and Cry" (2017)

 Em "Kiss and Cry", Sarah Bramms interpreta uma personagem inspirada em si própria, nomeadamente, Sarah, uma jovem de quinze anos de idade, que lida com as expectativas elevadas da sua mãe (Dinara Drukarova), os desejos e inquietações típicos da adolescência e a rigidez das regras inerentes à patinagem artística. "Kiss and Cry" aborda estas temáticas de forma simples e eficaz, sem se perder em demasia ou entrar por caminhos escorregadios, sempre num tom quase documental. É um exemplar competente da chamada docuficção, com Chloé Mahieu e Lila Pinell, as realizadoras desta longa-metragem, a fazerem com que a ficção invada a realidade e vice-versa, para além de contarem com uma série de intérpretes não profissionais a dar vida a versões de si próprios. 

Entre esses elementos encontra-se Xavier Dias a interpretar um treinador rígido, bastante ríspido nas expressões que utiliza e apaixonado pela patinagem no gelo. Também Ilana Bramms, irmã de Sarah na vida real, interpreta a irmã da protagonista, enquanto cabe a Dinara Drukarova surgir como uma das poucas actrizes profissionais contratadas, nomeadamente, para dar vida à progenitora da personagem principal. Drukarova transmite eficazmente a obsessão da sua personagem em relação ao sucesso da filha, com as atitudes desta mulher a adensarem a pressão sobre a patinadora. As interpretações são convincentes, sobretudo de Bramms, com a intérprete a colocar em evidência as dúvidas que começam a assolar a mente da adolescente e o desejo que esta tem de descobrir todo um mundo que extravasa o ringue de patinagem e os treinos. Diga-se que inicialmente Sarah não é bem recebida em Colmar, o local onde regressa na companhia da mãe e da irmã, tendo em vista a treinar no clube de patinagem artística. 

10 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "L'armée des ombres" (O Exército das Sombras)

 Com uma enorme crueza, uma mescla de elementos históricos e ficção, uma paleta de cores que acentua a dureza e frieza do meio que rodeia os protagonistas, "L'armée des ombres" coloca-nos diante de um grupo da Resistência Francesa que procura sobreviver em plena II Guerra Mundial. Mais do que procurar apresentar uma visão romântica do combate da Resistência aos Nazis, "L'armée des ombres" coloca o espectador perante um conjunto de personagens que vive em constante sobressalto, enquanto cada elemento é obrigado a tomar decisões complicadas, sejam estas fugir, manter o silêncio, denunciar ou eliminar companheiros.

Tendo como base o livro homónimo da autoria de Joseph Kessel, um membro da Resistência Francesa, "L'armée des ombres" é o terceiro filme onde a França Ocupada surge como pano de fundo para o enredo de uma obra cinematográfica realizada por Jean-Pierre Melville (as outras duas são "Le Silence de la mer" e "Léon Morin, prêtre"). O enredo tem início a 20 de Outubro de 1942, com Melville a efectuar uma representação relativamente fiel da época e a abordar a luta pela sobrevivência de um grupo da Resistência, enquanto explana a complexidade destas células. Cada um tem de seguir as ordens à risca, o silêncio entre estes elementos por vezes é de "ouro", enquanto as suas vidas são colocadas constantemente em perigo ao serviço de uma causa que consideram maior.

09 outubro 2017

Crítica: "Corniche Kennedy" (2016)

 Ela observa-os ao longe. Tenta roubar um telemóvel e filmá-los na praia. Eles atiram-se do alto das rochas em direcção ao mar Mediterrâneo. O confronto é inevitável. Segue-se uma discussão e um desafio. Ela enfrenta os seus medos, atira-se ao mar e conhece uma sensação de liberdade. Rapidamente passa a integrar o grupo. Ela é Suzanne, uma adolescente que se encontra a finalizar o ensino secundário e conta com uma família que lhe proporciona todas as condições para prosseguir com os estudos. Suzanne é interpretada de forma sublime por Lola Créton, com a actriz a transmitir o desejo de libertação desta jovem, bem como a sua ânsia de descobrir, amar, andar ao sabor do vento, nadar e desafiar as regras.

Do grupo de adolescentes sobressaem Mehdi (Alain Demaria) e Marco (Kamel Kadri), dois amigos de longa data que começam a sentir algo mais forte por Suzanne, enquanto esta apresenta uma postura ambígua para com a dupla. A relação do trio é exposta de forma convincente e desenvolvida com acerto, com a química entre Kadri, Demaria e Créton a ser notória, enquanto ficamos diante do quotidiano destes personagens, seja a estabelecerem laços, a transgredirem regras e leis, ou a desfrutarem da beleza do território que os rodeia e a enfrentarem os perigos. O mar transmite simultaneamente uma sensação de libertação e clausura. Este é um espaço onde os personagens se evadem da realidade e extravasam os seus sentimentos, com o trabalho de Isabelle Razavet na cinematografia a realçar a vivacidade da água e as suas tonalidades azuis cristalinas, a violência do embate entre os corpos e o mar, e as sensações inquietas que perpassam pela mente destes jovens que mergulham entre os últimos laivos da irresponsabilidade juvenil e a inevitabilidade da chegada à idade adulta.

08 outubro 2017

Crítica: "Tour de France" (2016)

 "Tour de France" tem na interacção entre a dupla de protagonistas o seu melhor atributo. De um lado temos Gérard Depardieu, tanto capaz de explanar o lado rude e conservador de Serge como de evidenciar a faceta sensível e comovente deste viúvo esquecido pela sociedade. Do outro temos Sadek como Far'Hook, um rapper inteligente, islamita, algo tímido e pacífico, que defende os seus valores e construiu uma imagem misteriosa em redor da sua figura. Este foi ameaçado de morte por um grupo rival, algo que o leva a sair temporariamente de Paris enquanto aguarda que a situação acalme e chegue o dia do seu primeiro grande concerto. Bilal, o produtor do músico, aproveita a ocasião para pedir-lhe que acompanhe Serge, o seu progenitor, com quem mantém uma relação afastada, numa viagem pelos caminhos do pintor Joseph Vernet.

Estão estabelecidas as bases para "Tour de France" assumir a sua faceta de filme sobre uma amizade improvável e de choque de gerações e culturas, ainda que mesclado com ingredientes de drama familiar e road movie pontuado por comentários de foro social. Nem sempre tudo resulta, seja a incapacidade do filme desenvolver as suas temáticas de forma complexa, ou a dificuldade de se soltar dos lugares-comuns e dos grilhões da previsibilidade, ou os momentos "videoclip" e os trechos filmados com o telemóvel, embora seja praticamente impossível negar as boas intenções do realizador Rachid Djaïdani. Estas são visíveis nas mensagens de tolerância, bem como na abordagem de temáticas relevantes que estão na ordem do dia, tais como a xenofobia (quer aquela que é exibida de forma direta, quer a que aparece disfarçada de comentários aparentemente banais), a intolerância e a solidão, ainda que tudo seja desenvolvido de forma demasiado simplista, algo que retira força aos comentários.

07 outubro 2017

18ª Festa do Cinema Francês: "Le Samouraï" (O Ofício de Matar)

 Os quinze minutos iniciais de "Le samouraï" permitem identificar alguns traços fundamentais do filme: um protagonista lacónico, fumador e solitário; um aproveitamento exímio dos cenários interiores e exteriores; uma atmosfera de malaise e a certeza de que o crime pontua todos os poros desta longa-metragem. A influência dos filmes noir é notória, com esta cidade de Paris que nos é apresentada a aparecer como um espaço marcado pela insegurança, personagens moralmente ambíguos e um número considerável de crimes. Dos filmes noir temos ainda a noite como testemunha de diversos episódios relevantes, a presença do clube nocturno, representantes das autoridades que cometem actos pouco recomendáveis, as traições, a relação intrincada entre o protagonista e as mulheres, o fumo a marcar os cenários e a ritmar os sentimentos, entre outros exemplos.

No início do filme encontramos Jef (Alain Delon), o protagonista, a fumar um cigarro de forma vagarosa e silenciosa, enquanto se encontra deitado. O fumo contamina o apartamento e reforça quer o mistério que rodeia o protagonista, quer a efemeridade da vida deste samurai fora de época. As tonalidades cinzentas e desprovidas de vida estão bem presentes, bem como as paredes pontuadas pela humidade, com a paleta de cores, associada à simplicidade com que a habitação se encontra decorada, a permitir realçar que Jef é um indivíduo simples, frio, solitário, lacónico e calculista. Ficamos desde logo com uma demonstração do cuidado colocado no design de produção, com o apartamento a exacerbar eficazmente diversos traços da personalidade deste personagem. Outro dos cenários interiores em destaque é um clube nocturno dotado de um ambiente inebriante, onde ficamos perante uma demonstração da frieza de Jef, nomeadamente, quando assassina o dono deste espaço, após preparar minuciosamente uma série de álibis.

06 outubro 2017

Crítica: "Ôtez-moi d'un doute" (Só Para Ter a Certeza)

  Num determinado momento de "Ôtez-moi d'un doute", encontramos Erwan (François Damiens) e Joseph (André Wilms) a traçarem um plano para furtarem waffles de uma roulotte. Este último finge que necessita de ajuda, enquanto o primeiro tenta surripiar comida e bebida. Inicialmente esboçamos um sorriso. No entanto, rapidamente saímos do riso para o aperto na garganta, nomeadamente, a partir do momento em que percebemos que Joseph tem mesmo de ser hospitalizado. Serve este exemplo para realçar um dos bons trechos do filme e um dos seus principais atributos: a capacidade de mesclar os momentos mais leves e cómicos com outros mais sérios e dramáticos. Outra das qualidades de "Ôtez-moi d'un doute" passa pela preocupação que exibe quer para com os personagens, quer para com as dinâmicas que estes formam entre si, com Carine Tardieu a colocar-nos diante de um feel good movie dotado de humanidade e delicadeza.

Boa parte dos personagens que nos são apresentados são aquilo a que chamamos boas pessoas. Não quer dizer que não cometam erros, bem pelo contrário, mas exibem uma humanidade que nos desarma e agarra, com Tardieu a ter o mérito de conseguir que nos importemos com os mesmos. Essa preocupação e a afinidade que geramos com os personagens contribui exactamente para aquele nó na garganta que sentimos no momento mencionado no início do texto, mas também para perdoarmos alguns dos excessos do último terço, quando "Ôtez-moi d'un doute" tenta afastar por completo quaisquer traços de drama e assume de forma escancarada a sua faceta mais leve. Quem está no centro de quase todos os episódios do filme é Erwan, um viúvo que trabalha a desarmar explosivos. Convive diariamente com o perigo, embora a sua vida pessoal seja bem mais inquietante e explosiva do que o seu emprego, sobretudo a partir do momento em que tem de descobrir a identidade quer do seu pai biológico, quer do progenitor da sua neta.

05 outubro 2017

Crítica: "Les fantômes d'Ismaël" (Os Fantasmas de Ismael)

 É de elogiar quando um realizador atinge um estatuto que lhe permite ter uma liberdade quase total ao ponto de poder realizar os filmes como bem pretende. Assim começam e terminam os elogios a "Les fantômes d'Ismaël", o filme de abertura da edição de 2017 do Festival de Cannes. A sua presença em diversos certames de prestígio é apenas justificável se focarmos a nossa atenção nos nomes de todos os envolvidos e esquecermos o resultado final da nova longa-metragem realizada por Arnaud Desplechin. O elenco é composto por nomes como Mathieu Almaric (actor-fetiche de Desplechin), Marion Cotillard, Louis Garrel, Charlotte Gainsbourg, Alba Rohrwacher, ou seja, um grupo dotado de enorme talento. O nome de Desplechin também é motivo de sobra para despertar a nossa curiosidade, embora o cineasta falhe redondamente. 

 O que poderia falhar? É algo que perguntamos antes do início do filme. Infelizmente, falha quase tudo. Comecemos por abordar a incapacidade de Desplechin em materializar a sua ambição. "Les fantômes d'Ismaël" quer abordar as crises de criatividade e as tormentas de um realizador, quer aventurar-se pelos meandros intrincados de uma espécie de triângulo amoroso, quer explorar as dinâmicas complexas das relações familiares, quer apresentar a história de um filme. Também quer ter ingredientes hitchcockianos, com a mulher que regressa dos mortos a atormentar a mente do protagonista e a mexer com os seus sentimentos, qual Judy diante Scottie. Diga-se que "Les fantômes d'Ismaël" também se quer envolver pelos meandros do melodrama, da comédia e do drama familiar. É certo que quer, mas não consegue, enquanto somos brindados com um desperdício colossal que desespera, desilude, desgasta e inquieta. 

04 outubro 2017

Resenha Crítica: "L'économie du couple" (A Economia do Amor)

 "L'économie du couple" convida-nos a observar de perto o ocaso do matrimónio de Marie (Bérénice Bejo) e Boris (Cédric Kahn): quando tudo parece servir de motivo para discussão, os momentos de afecto são trocados por diálogos recheados de ressentimento e os defeitos que eram encarados com uma certa bonomia passam a ser vistos com desdém e raiva. As feridas abertas na alma tardam em sarar, enquanto outras são desferidas de rompante e trazem consequências desagradáveis e dolorosas, com a nova longa-metragem realizada por Joachim Lafosse a explorar o quão intrincado, intenso e violento pode ser o final de um casamento. Outrora existiu amor. Agora ainda existe algo forte a marcar a relação, mas também imensa dor e uma certa sensação de desilusão.

A unir Marie e Boris estão Jade (Jade Soentjens) e Margaux (Margaux Soentjens), as suas filhas, duas gémeas de tenra idade, bem como uma casa que contém no seu interior o resultado de quinze anos de uma vida em comum. A habitação do casal é o cenário primordial e um dos grandes protagonistas do filme, com a sua decoração a traduzir quer as mudanças inseridas pela dupla para transformá-la no seu lar, quer o cuidado colocado no design de produção. No fundo, estamos perante um cenário que conserva no seu interior as memórias da degradação do casamento, que tanto é capaz de transmitir e proporcionar conforto como opressão e dor. Embora estejam quase a separar-se, Marie e Boris têm de conviver temporariamente na mesma casa, com esta situação incómoda a remeter para o facto de este tardar em conseguir alugar um apartamento.

02 outubro 2017

Resenha Crítica: "Lady Macbeth" (2016)

 Frieza e distância. Estes são dois ingredientes essenciais de "Lady Macbeth", a primeira longa-metragem realizada por William Oldroyd. É um drama de época de fino recorte, propositadamente frio e intrigante, que nos deixa diante de uma personagem principal incapaz de despertar simpatia ou empatia. Parece frágil e indefesa, mas o desejo de libertação e a busca pelo prazer contribuem para que protagonize uma série de atrocidades e solte o seu lado mais negro. A morte aproxima-se do seu quotidiano e do enredo, enquanto somos surpreendidos com os actos da protagonista, sobretudo a partir do momento em que o libido dilacera a razão. Essa protagonista é Katherine (Florence Pugh), uma jovem que se encontra presa a um casamento de conveniência e às convenções de uma sociedade machista e conservadora. 

Estamos na Inglaterra rural, em 1865, com Katherine a encontrar-se casada com Alexander (Paul Hilton), um indivíduo com o dobro da sua idade, que a trata praticamente como mercadoria. Boris (Christopher Fairbank), o pai de Alexander, também está longe de exibir alguma simpatia ou qualquer pingo de humanidade para com a nora. Quando Alexander parte em negócios, Katherine fica sozinha com as suas criadas, o sogro e uma série de funcionários que cuidam da vasta propriedade do esposo, entre os quais Sebastian (Cosmo Jarvis), um cavalariço que desperta o desejo sexual da protagonista. Dialogam pouco, mas o desejo é mútuo, com ambos a embrenharem-se numa relação que adquire contornos obsessivos e negros. O despertar sexual de Katherine aparece acompanhado pela morte, com a propriedade de Alexander a surgir como o palco de uma série de episódios hediondos.  

01 outubro 2017

Crítica: "Lumière!" (2016)

 "Lumière!" recupera e dá nova vida a cento e catorze obras filmadas com recurso ao cinematógrafo, todas exemplarmente restauradas e reunidas no interior de capítulos temáticos que permitem uma espécie de visita guiada a um pedaço inaugural e fundamental da História do Cinema. Ou seja, estamos perante um documento de enorme valia, que nos transporta a algumas das memórias mais profundas do cinema e da sua linguagem, sempre com a excelente companhia de Thierry Frémaux. Director do Festival de Cannes e do Instituto Lumière, Frémaux assume aqui o papel de realizador, narrador, professor e guia, com os seus comentários a contarem com pertinência, ritmo, demonstrações de conhecimento e paixão pelo cinema. Não estamos diante de um discurso que resume aquilo que podemos encontrar na Wikipedia, ou meramente descritivo, mas sim algo simultaneamente pessoal, simples e informativo, por vezes pontuado por algum humor e um entusiasmo sentido. 

Ao longo do documentário, Frémaux coloca-nos não só perante as grandes linhas temáticas dos Lumière e dos seus operadores, mas também pelas descobertas e experiências que estes pioneiros efectuaram. Note-se os travellings que são expostos de forma amiúde (na época denominados de panorâmica), o aproveitamento da profundidade de campo, os enquadramentos precisos, a procura de dar movimento aos planos fixos ou o experimentalismo. Um simples plano fixo a captar um grupo de peixes no aquário permite incutir movimento às imagens, jogar com a iluminação e as sombras, e provocar uma certa sensação de encanto. Temos ainda a "invenção" dos remakes, com "La Sortie de l'Usine Lumière à Lyon" a contar com três versões, ou a introdução do suspense e dos gags humorísticos, com "Lumière!" a expor um período fervilhante onde as possibilidades do cinematógrafo e do cinema estavam a ser testadas.

27 setembro 2017

Resenha Crítica: "Hotel" (2004)

 Sem recorrer a sustos rápidos, ou a soluções fáceis, "Hotel" embala-nos de mansinho, seja para sentirmos o impacto dos gritos finais, da entrada nas trevas, ou para sermos consumidos por uma certa sensação de dúvida. O mistério é inserido de forma subtil, seja em pequenas pistas, ou com recurso ao design de som ou ao meticuloso trabalho de câmara. É uma obra pontuada por elementos de drama e mistério, que a espaços exibe a sua faceta de terror, sempre com enorme contenção, algumas doses de secura e uma ambiguidade latente. Existe uma estranha sensação de perigo e uma atmosfera enigmática a envolver alguns dos episódios que decorrem no interior ou nas redondezas do hotel do título, um estabelecimento situado nos Alpes austríacos, que conta com um ambiente aparentemente pacífico. Diga-se que a falta de respostas sobre o desaparecimento de Eva, uma recepcionista, traduz eficazmente algum do mistério que rodeia este espaço. Será que Eva fugiu? Será que foi morta? Quais as causas para o seu desaparecimento? Quem é contratada para o seu lugar é Irene (Franziska Weisz), uma mulher na casa dos vinte e poucos anos de idade, de cabelos loiros, algo curiosa e reservada, que tenta aferir aquilo que aconteceu à sua antecessora, embora apenas receba respostas fugidias, ou misteriosas, prontas a transmitir a ideia de desconhecimento, ou receio. É o quotidiano desta mulher no espaço hoteleiro e no território que o rodeia que acompanhamos em "Hotel", com Franziska Weisz a estar quase sempre em foco, enquanto incute uma faceta simultaneamente receosa, decidida e curiosa a Irene. O elenco é bastante competente, embora o destaque óbvio seja Franziska Weisz, com a intérprete a transmitir eficazmente quer a forma contida como Irene "vive" os episódios que protagoniza, quer algumas das inquietações que fervilham no âmago desta mulher. 

25 setembro 2017

Resenha Crítica: "Once Upon a Time in Venice" (Era Uma Vez em Los Angeles)

 Muitas das vezes escrevemos que um actor entrou num filme "para o cheque". Nada contra o facto de um intérprete querer encher os bolsos. O problema é quando temos de ver o resultado desse trabalho. "Once Upon a Time in Venice" é um desses filmes em que quase todos os elementos do elenco transmitem a ideia de que apenas estão a trabalhar para o cheque. Bruce Willis até parece estar a divertir-se imenso a interpretar uma caricatura de si próprio, tal como Jason Momoa, mas esse sentimento está longe de se reflectir nas nossas pessoas. Diga-se que o filme reflecte paradigmaticamente a fase menos fulgurante da carreira de Bruce Willis: feito maioritariamente para o mercado de VOD; realizado por um cineasta medíocre ou que não tem poder para controlar a vedeta (uma opção não exclui a outra); pontuado por um argumento vulgar e personagens desprovidos de complexidade. O realizador que não consegue domar a vedeta é Mark Cullen, um cineasta que se revela incapaz de elevar "Once Upon a Time in Venice" acima da mediocridade. Talvez o adjectivo seja demasiado severo, ou não estivéssemos acima de tudo perante um filme preguiçoso, que vive à sombra dos sucessos do passado de Willis e parece uma desculpa para uma parte considerável do elenco desfrutar de umas férias remuneradas. Willis interpreta Steve, um detective privado relativamente despreocupado e incompetente, que apenas exibe alguma perspicácia quando a duração do filme já vai longa. Este habita e trabalha em Venice Beach, um local dotado de contrastes, praias, belas mulheres e calor, que nos é inicialmente apresentado por John (Thomas Middleditch), o assistente do protagonista e narrador de serviço (a narração em off é utilizada de forma pouco pragmática).

23 setembro 2017

Resenha Crítica: "Il padre d'Italia" (2017)

 Ela cai-lhe nos braços. Ele leva-a para o hospital. Ela está sem rumo, tal como ele. Ela é Mia (Isabella Ragonese), uma cantora de pouco sucesso, que se encontra grávida, não sabe quem é o pai da criança e tarda em tomar precauções para proteger o rebento. Ele é Paolo (Luca Marinelli), um indivíduo que trabalha numa loja de móveis pré-fabricados, que ainda não ultrapassou o final da relação com Mario (Mario Sgueglia), o seu companheiro durante oito anos. Entre Paolo e Mia forma-se algo inicialmente estranho que aos poucos desemboca numa ligação forte. Luca Marinelli imprime uma postura introvertida, pragmática, solitária e algo pessimista a Paolo, algo que diferencia e muito este personagem de Mia. Por sua vez, Isabella Ragonese incute um tom extrovertido e despassarado a Mia, um espírito livre que vê quase tudo e todos a fecharem-lhe a porta. O namorado troca-a por outra, um ex-namorado morreu, enquanto que a família aceita-a temporariamente de volta, embora a postura conservadora dos familiares conduza a que a tempestade pareça aproximar-se a qualquer momento. Isabella Ragonese é uma actriz de grande competência, algo que volta a demonstrar em "Il padre d'Italia", um drama que beneficia e muito do talento da sua dupla de protagonistas. Nesse sentido, a actriz é essencial para transmitir a faceta vivaz e problemática deste espírito livre que nem sempre toma as melhores opções. Os tons loiros e rosados pontuam o seu cabelo de raízes escuras, com esta mistura de cores a espelhar a rebeldia de Mia e a confusão que vai no interior da alma desta cantora que começa a mexer e muito com o quotidiano de Paolo. Voltemos ao momento em que Mia cai nos braços de Paolo. Ambos estavam numa discoteca, com a luz vermelha a acentuar a inquietação e as mudanças fervilhantes que se aproximam, nomeadamente, a partir do episódio em que Mia desmaia e Paolo transporta-a até ao hospital. Esta melhora rapidamente e expõe o seu desagrado por ter perdido a carteira e os documentos, enquanto consegue convencer Paolo a levá-la de Torino até Asti, em particular, ao local onde supostamente vai ensaiar com a banda do namorado. Em Asti, Paolo depara-se desde logo com uma das muitas rejeições que Mia recebe: o namorado já está com outra, pronto a descartá-la.

19 setembro 2017

Resenha Crítica: "Home Again" (Uma Casa Cheia)

 Uma quarentona em crise, que se separou recentemente, recebe em casa três indivíduos mais jovens. Esta poderia ser a premissa de um filme pornográfico, ou de uma sitcom, ou de uma comédia romântica. É a premissa de "Home Again", um filme que não está em exibição no PornHub ou em sites do género, mas sim nas salas de cinema. Diga-se que "Home Again" não é um filme pornográfico, mas os seus diálogos e o seu argumento são maus ao ponto de parecerem perfeitos para uma obra de um género que outrora figurava nos cantos recônditos dos clubes de vídeo. Por sua vez, "Home Again", a primeira longa-metragem realizada por Hallie Meyers-Shyer (a filha de Nancy Meyers) teria de constar numa secção dedicada aos desastres colossais. Os diálogos são exasperantes, os personagens contam com a densidade de uma folha de papel, as situações de maior tensão raramente são sentidas ou desenvolvidas, os dilemas da protagonista são expostos de forma simplista e a banda sonora parece ter saído de um template que serve para qualquer comédia romântica. Junte-se uma miríade de momentos de humor que provocam mais bocejos do que risos e tudo piora. É tudo demasiado insípido e pouco genuíno, com Meyers-Shyer a realizar um mau filme de Nancy Meyers. Já Reese Witherspoon prova que gosta de dar uns quantos passos atrás na carreira, com a actriz a voltar a estampar-se ao comprido numa comédia. Witherspoon dá vida a Alice, uma mulher que se mudou com as jovens Isabel (Lola Flanery) e Rosie (Eden Grace Redfield), as suas filhas, para Los Angeles, tendo em vista a afastar-se temporariamente de Austen (Michael Sheen), o seu esposo.

18 setembro 2017

Resenha Crítica: "Kingsman: The Golden Circle" (Kingsman: O Círculo Dourado)

 Existe algo de extremamente apelativo em "Kingsman: The Golden Circle", seja a sua capacidade de manter o tom irreverente, enérgico, saudavelmente demente e politicamente incorrecto do primeiro filme, ou as coreografias de excelência das cenas de acção e o cuidado colocado no design de produção, ou as dinâmicas entre Taron Egerton e Colin Firth. É uma sequela que sabe aquilo que quer, ou seja, manter a alma do filme original, desenvolver os personagens apresentados em "Kingsman: The Secret Service" e colocá-los em situações novas, sempre com algumas doses de insolência e extravagância. Matthew Vaughn assume sem qualquer ponta de vergonha e com imenso descaramento que estamos diante de um filme de espionagem que simultaneamente utiliza e subverte as convenções do género, com o cineasta a conseguir balancear com um acerto notável o lado mais leve de "Kingsman: The Golden Circle" com a sua faceta mais séria e dramática. A destruição das bases da Kingsman e a aniquilação de uma boa parte dos seus operativos aparecem como um meio para Matthew Vaughn colocar Eggsy (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong) a deslocarem-se até aos EUA, tendo em vista a contactarem com a Statesman, a versão americana da agência de espionagem. Se a agência britânica tem uma alfaiataria de fachada e os seus integrantes assumem uma faceta de gentlemans, já os agentes yankees contam com uma postura de cowboys e têm no álcool e no whisky um negócio que aquece, e muito, o espírito. As adições são de luxo, com Jeff Bridges, Channing Tatum, Halle Berry e Pedro Pascal a darem vida e personalidade aos peculiares agentes da Statesman. Do lado dos antagonistas temos Poppy, a líder do Golden Circle, com Julianne Moore a inserir um estilo desequilibrado, mortífero, deliciosamente negro e caricatural a esta traficante que pretende que o seu negócio seja legalizado e coloca a humanidade em risco, em particular, aqueles que consomem drogas.

13 setembro 2017

Resenha Crítica: "Big Trouble in Little China" (As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim)

 "Big Trouble in Little China" (em Portugal: "As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim") é um filme que sabe aquilo que quer, nomeadamente, proporcionar uma esfuziante dose de entretenimento ao espectador. Também sabe aquilo que não quer, ou seja, levar-se totalmente a sério ou entrar por questões complexas. É um filme que encontra no caos o seu porto de abrigo, que tem na falta de sentido o seu sentido e na aventura e na fantasia os seus ingredientes mais preciosos, enquanto nos deixa diante de uma história onde não faltam lendas chinesas, artes marciais, estereótipos, a desconstrução da figura do "macho", algumas doses de romance e humor, bem como a habitual capacidade de John Carpenter para colocar os personagens em problemas no interior de espaços fechados (e o prazer de deixar umas pontas soltas no final do filme). Tal como em diversos filmes deste magnífico cineasta, a banda sonora tem um papel de relevo para sublinhar os acontecimentos que nos são apresentados, com a música a transmitir a mescla de aventura, fantasia e leveza que pontua esta obra cinematográfica dotada de uma série de episódios marcantes. Num determinado de "Big Trouble in Little China" encontramos Jack Burton (Kurt Russell) a aventurar-se pelo covil de Lo Pan (James Hong), o antagonista, um feiticeiro lendário, enquanto efectua uma entrada triunfal, acompanhado de diversos personagens, entre os quais Wang Chi (Dennis Dun), um amigo. Tudo parecia correr bem, até Jack expor a sua faceta desastrada e disparar de forma descoordenada para o ar, uma situação que conduz a que algumas pedras caiam em cima da sua cabeça e deixem-no temporariamente fora de combate. Não é o primeiro, nem o último momento em que John Carpenter aproveita a figura de Jack Burton para desconstruir a figura do herói e do "macho", enquanto permite que Kurt Russell componha um personagem icónico, com o actor a imprimir um tom extrovertido, desprendido e sardónico ao protagonista de "Big Trouble in Little China", um camionista com uma enorme propensão para se envolver em confusões e um gosto notório por camisolas de manga de cava. Note-se logo no início do filme, após o prólogo, quando encontramos Jack Burton a jogar com Wang Chi e mais outros elementos no interior de um estabelecimento situado na Chinatown de San Francisco, com o primeiro a exibir a sua faceta peculiar e algo fanfarrona.

12 setembro 2017

Resenha Crítica: "It" (2017)

 "It" é acima de tudo um filme sobre a ultrapassagem dos medos. É, também, uma obra cinematográfica sobre os laços que ligam um grupo de jovens e os rituais de passagem que fazem com que as crianças amadureçam. A atmosfera que rodeia o enredo tem muito de "The Goonies", ou não estivéssemos diante de um grupo de jovens que se encontram à margem, denominado de "The Losers Club", que conta com diversas idiossincrasias no seu núcleo e tem de lidar com algo que aparentemente ultrapassa as capacidades dos seus integrantes. Se em "The Goonies", o grupo do título tenta encontrar um tesouro, já em "It" os "Losers" têm de enfrentar uma ameaça que se alimenta dos medos dos jovens, nomeadamente, uma criatura que aparece quase sempre como o visual do palhaço Pennywise. Este é um ser que aparece de vinte e sete em vinte e sete anos e assume a forma dos maiores receios das crianças, seja um palhaço, ou uma figura que parece saída de uma pintura de Edward Munch. Diga-se que esta não é a única ameaça que os personagens principais de "It" enfrentam, com o realizador Andy Muschietti a conjugar com acerto o terror que advém da presença desta criatura com o receio inerente à acção de alguns seres humanos. Nesse sentido, o argumento (inspirado na obra literária homónima de Stephen King) explora com acerto a presença dos bullies, bem como temáticas como o abuso sexual de menores, o luto, a hipocondria, com quase todos os jovens a terem de ultrapassar os seus receios e lidarem com as dores de crescimento. "It" não poupa nos sustos, nem em algum "fogo de artifício", mas é nas dinâmicas que se estabelecem entre os jovens que mais acerta. É simplesmente admirável verificar o cuidado que Andy Muschietti colocou no estabelecimento de cada um dos personagens principais e nas ligações que estes formam, enquanto desenvolve as suas dinâmicas e revela-se um excelente condutor de actores. Andy Muschietti parte de alguns dos lugares-comuns para desenvolver algo que ganha vida, alma e sentido, sobretudo os personagens que povoam "It". 

10 setembro 2017

1917 no Ecrã: "Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov" (As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques)

 O Ciclo 1917 no Ecrã abriu na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema com "As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques" (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov), uma obra cinematográfica realizada por Lev Kuleshov. Com acompanhamento ao piano de Mário Laginha e apresentação de Peter Bagrov, a sessão contou com uma sala bem composta e bom cinema, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica de inestimável valor, que continua a manter uma vitalidade impressionante e a fazer sorrir o público. Estamos perante uma sátira à ignorância de alguns cidadãos dos EUA em relação à União Soviética, com Mr. John West (Porfiri Podobed), o protagonista, a surgir como a face mais visível desse desconhecimento. Este parte para a União Soviética na companhia do cowboy Jeddy (Boris Barnet), um amigo, funcionário e guarda-costas que tem uma habilidade inata para se envolver em confusões e desferir um número considerável de tiros. A preparação para a viagem conta com algumas situações hilariantes. Note-se as revistas que oferecem a Mr. West para alertá-lo sobre os bolcheviques (todos representados como figuras cavernículas com grandes bigodaças e enormes foices e martelos), ou os receios excessivos de Madge, a esposa do protagonista, ou o treino que Jeddy efectua para sobreviver na Rússia, nomeadamente, praticar o disparo. Na União Soviética, os destinos de Jeddy e Mr. West separam-se temporariamente. O primeiro protagoniza uma perseguição hilariante e uma fuga onde a mestria de Lev Kuleshov fica demonstrada. O segundo é alvo de um golpe por parte de um grupo de malfeitores de características peculiares. É a oportunidade para Lev Kuleshov utilizar elementos dos filmes dos EUA, sejam os westerns, as comédias, as obras que envolvem golpes, ou o burlesco, enquanto ficamos diante das aventuras de Jeddy e Mr. West no "País dos Bolcheviques". Mr. West e Jeddy chegam cheios de preconceitos, sobretudo o primeiro, mas, aos poucos, começam a conhecer este país para além dos clichés e a soltar-se dos lugares-comuns que guardavam no interior das suas mentes.

09 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Bad Batch - Terra Sem Lei"

 "When you shit here in comfort, your shit goes away (...) You shit. It leaves. You know why it leaves?" diz "The Dream" (Keanu Reeves) para Arlen (Suki Waterhouse), a protagonista de "The Bad Batch". São falas que resumem bem a mescla de estranheza e puerilidade que atravessa "The Bad Batch", com Ana Lily Amirpour a alternar momentos de alguma inspiração e comentários pertinentes com diálogos risíveis e uma auto-indulgência que sabota por completo o ritmo do filme. É uma auto-indulgência exasperante, que contribui para retirar ritmo, tensão e mistério a "The Bad Batch", com Ana Lily Amirpour a não saber separar aquilo que interessa para o enredo e para o filme e os elementos que considera interessantes. O que não deixa de despertar uma sensação agridoce ou não estivéssemos diante de um filme capaz de questionar a nossa moralidade em situações extremas, ou aquilo que é certo e errado, o bem e o mal, enquanto provoca, explana a relação de uma mulher com o corpo, expõe alguns comentários sobre a nossa sociedade e o tratamento dado aos imigrantes ilegais, quase sempre com uma atmosfera distópica à la "Mad Max". Diga-se que a saga "Mad Max" parece ter sido uma das grandes fontes de inspiração (para não chamar outra coisa) de Ana Lily Amirpour. Desde o território desértico onde o primado da lei é algo que não existe, passando pela distopia, as figuras deformadas ou peculiares, a "fábrica de grávidas", até à atmosfera de desesperança, "The Bad Batch" exibe que Ana Lily Amirpour tem as obras de George Miller em muito boa conta. Não temos suínos a contribuírem com fezes, mas a merda também marca o enredo de "The Bad Batch", seja aquela que é mencionada nos diálogos ou a que contribui para Arlen conseguir escapulir-se de um grupo de canibais que estão instalados numa zona árida e hostil.

07 setembro 2017

Resenha Crítica: "La fille de Brest" (150 Miligramas)

 Eis um filme que se preocupa com os personagens e o trabalho dos actores, que apresenta uma protagonista dotada de complexidade e insere uma emoção palpável aos acontecimentos retratados. Falamos de "La fille de Brest" (em Portugal: "150 Miligramas"), uma obra cinematográfica inspirada em episódios e acontecimentos reais, nomeadamente, a luta que Irène Frachon (Sidse Babett Knudsen) travou para comprovar e denunciar os efeitos secundários do Mediator, um medicamento fabricado e comercializado pelos laboratórios da Servier. O medicamento em questão provoca doenças cardíacas, embora tenha sido comercializado por mais de trinta anos e prescrito por um número significativo de especialistas. O enredo começa em Abril de 2009 e acompanha um conjunto de episódios que marcaram esta luta intrincada entre Irène e uma grande empresa farmacêutica. Todos nós gostamos de uma boa luta entre David e Golias (a não ser que estejamos no grupo deste último). Emmanuelle Bercot está consciente disso e expõe os acontecimentos de "La fille de Brest" a partir da perspectiva de Irène Frachon, uma pneumologista que inicia uma batalha hercúlea. Esta situação leva a que Sidse Babett Knudsen, uma intérprete que é sinónimo de fiabilidade, esteja quase sempre em destaque, com a actriz a brindar o espectador com uma interpretação maravilhosa. Sidse Babett Knudsen imprime humanidade e sensibilidade a esta mulher de personalidade vivaz e emotiva, que pensa acima de tudo no bem-estar e na segurança dos seus doentes. É médica num hospital de pouco estatuto, não é uma investigadora, mas isso não a impede de lutar pelos seus objectivos, bem pelo contrário. Emmanuelle Bercot não descura o desenvolvimento das diferentes vertentes desta médica, seja a sua faceta de esposa e mãe, ou o seu lado de pneumologista e colega. Irène tem uma relação de proximidade com o esposo e os filhos, com a habitação desta família a aparecer como um espaço onde a harmonia e a leveza predominam. No hospital, situado em Brest, Irène tem de conciliar os combates em várias frentes, seja a luta contra as doenças dos pacientes, ou a participação na investigação que visa comprovar os efeitos nocivos do Mediator.

05 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Limehouse Golem" (Os Crimes de Limehouse)

 Bill Nighy incute credibilidade, carisma e um tom ponderado a John Kildare um inspector experiente que é incumbido de investigar um caso que envolve uma série de homicídios. Embora seja um veterano, Kildare nunca liderou uma investigação relacionada com assassinatos, com tudo e todos a encararem o protagonista como uma espécie de "bode expiatório" para um possível fracasso na captura do homicida. O serial killer é denominado de Golem e protagonizou um número considerável de homicídios que aparentemente não contam com ligação entre si, algo que dificulta a tarefa do protagonista. Estamos em Inglaterra, em 1880, com a decoração Vitoriana, o smog e os assassinatos a marcarem o enredo de "The Limehouse Golem" (em Portugal: "Os Crimes de Limehouse"), bem como a atmosfera de suspeição, com Dan Leno (Douglas Booth), George Gissing (Morgan Watkins), Karl Marx (Henry Goodman) e John Cree (Sam Reid) a surgirem como os principais suspeitos destas mortes hediondas. Diga-se que John Cree foi recentemente vítima de assassinato, com Elizabeth (Olivia Cooke), a sua esposa, a ser a principal suspeita ao ponto de ser detida e julgada em tribunal. Os dois casos interligam-se, sobretudo por Kildare simpatizar com Elizabeth, mais conhecida como Lizzie, com o inspector a procurar salvar a artista da pena de morte ao mesmo tempo que tenta encontrar provas que incriminem um dos suspeitos. O protagonista parece acreditar que John Cree é o culpado, mas será que o falecido é mesmo o Golem? Os flashbacks acumulam-se, bem como a descoberta de provas e os interrogatórios aos suspeitos, enquanto descobrimos mais informações sobre Elizabeth e o caso que envolve o serial killer, com "The Limehouse Golem" a deambular entre a história desta mulher e a investigação. Dito assim parece que estamos diante de um whodunit de época e é precisamente isso que Juan Carlos Medina efectua, embora o cineasta não consiga escapar às armadilhas do subgénero, com as atenções a recaírem acima de tudo na descoberta da identidade do assassino, ou na possibilidade de ocorrer uma reviravolta após percebermos que existe um suspeito mais forte do que os outros.

03 setembro 2017

Resenha Crítica: "Logan Lucky" (Sorte à Logan)

 Não faltam prisioneiros amotinados que não acreditam no tempo excessivo que George R. R. Martin está a demorar para terminar de escrever o novo livro da saga "Game of Thrones", um grupo de "hillbillies" que planeia um assalto que aparentemente tem tudo para correr mal, dispositivos explosivos efectuados com recurso a sacos de gomas, personagens peculiares, uma banda sonora cheia de estilo e uma série de reviravoltas em "Logan Lucky", o filme que retirou Steven Soderbergh do seu curto exílio da realização cinematográfica. É um regresso em grande estilo e de grande nível, muito à "Ocean's Eleven" e a trazer à memória alguns dos bons exemplares dos filmes de assalto (sobretudo aqueles dotados de imenso humor à mistura), ainda que os protagonistas de "Logan Lucky" não tenham nem metade da perícia do grupo de Danny Ocean. Diga-se que em alguns momentos "Logan Lucky" quase que parece um "anti-Ocean's Eleven", ou Steven Soderbergh não despisse os seus protagonistas de glamour, inteligência e de capacidade para efectuarem planos intrincados. Um desses personagens principais é Jimmy Logan (Channing Tatum), um antigo trabalhador da construção civil. Outrora um jogador promissor de futebol americano, Jimmy caiu recentemente no desemprego devido ao facto dos seus superiores terem descoberto que este padece de um problema no joelho, algo que limita os seus movimentos. Jimmy é pai de Sadie (Farrah Mackenzie), uma jovem que vive com Bobbie Jo (Katie Holmes), a ex-mulher do protagonista, com Channing Tatum e Farrah Mackenzie a transmitirem que existe uma ligação forte a unir os personagens que interpretam. Diga-se que essa ligação entre pai e filha é estabelecida eficazmente desde os momentos iniciais do filme, com Steven Soderbergh a exibir imensa perícia a explanar rapidamente algumas das características dos personagens. Note-se quando Jimmy envolve-se numa cena de pancadaria no interior de um bar, com o olhar de Channing Tatum a permitir discernir a léguas que o protagonista vai partir para a luta e tem uma personalidade algo impulsiva. Channing Tatum insere um estilo simples, duro e pleno de humanidade a Jimmy, com o actor a incutir um sotaque tipicamente sulista a este indivíduo pouco polido e algo azarado.

01 setembro 2017

Resenha Crítica: "The Trip to Spain" (A Viagem a Espanha)

 Num determinado momento de "The Trip", encontramos Rob Brydon a salientar "It's 2010, everything's been done before. All you can do the same but better or differently". "The Trip to Spain" está consciente disso, ou seja, não tenta fazer melhor do que "The Trip", ou "The Trip to Italy", os dois filmes anteriores da "saga", mas aparece como algo relativamente diferente e igualmente hilariante. Desta vez não encontramos as versões ficcionais e exageradas de Rob Brydon e Steve Coogan a viajarem pelo Norte de Inglaterra (como em "The Trip") ou por Itália (como em "The Trip to Italy"), mas sim por diversos territórios de Espanha, enquanto os protagonistas efectuam imitações, escarnecem um do outro, expõem os seus feitos e as suas fraquezas, provam boa comida e exibem um talento notório para a improvisação. "The Trip to Spain" é um hino à improvisação e à arte de fazer comédia, que beneficia imenso da mestria com que Steve Coogan e Rob Brydon dominam os timings humorísticos e transmitem a intimidade que marca a relação de amizade da dupla de protagonistas. É, também, um retrato sobre a masculinidade e a forma como os homens encaram o avançar da idade, a paternidade, o amor e a amizade, com "The Trip to Spain" a colocar-nos diante de dois indivíduos que se conhecem há bastante tempo. "The Trip to Spain" joga com o facto de já conhecermos estes personagens e as suas peculiaridades, seja o prazer que Rob tem em imitar a voz de Roger Moore, Michael Caine e Al Pacino, ou os comentários sardónicos de Steve, com Michael Winterbottom a criar a agradável sensação de que estamos a revisitar velhos amigos ao mesmo tempo que atribui novas camadas a estes personagens. Diga-se que essa sensação de familiaridade faz com que esperemos com ansiedade pelas reacções de Steve às imitações de Rob, ou aguardemos com alguma curiosidade pelo regresso do "homem na caixa", entre outros exemplos.

28 agosto 2017

Resenha Crítica: "American Made" (Barry Seal: Traficante Americano)

 "American Made" (em Portugal: "Barry Seal: Traficante Americano") capta com acerto os absurdos do "American Dream" e da política externa dos EUA, sempre com algumas doses de humor e leveza à mistura, enquanto nos apresenta a Barry Seal (Tom Cruise). Este é um piloto inspirado numa figura real (moldada no filme para se ajustar às características de Tom "Maverick" Cruise) que conta com uma história de vida deveras cinematográfica e protagonizou uma série de episódios que entroncam em acontecimentos mais latos. Ao longo de "American Made" encontramos Barry Seal a trabalhar para a CIA, a Casa Branca e o Cartel de Medellín, bem como a protagonizar uma série de peripécias e a permitir que Tom Cruise componha um personagem digno da nossa atenção. Tom Cruise imprime carisma a Barry Seal ao mesmo tempo que exacerba o lado simultaneamente oportunista, ingénuo, espirituoso e afável deste piloto que nem sempre parece estar consciente das consequências e dos perigos que envolvem o seu estilo de vida. No início de "American Made", encontramos Barry Seal, então um piloto da TWA, a ser contactado por Schafer (Domhnall Gleeson), um funcionário de baixo escalão da CIA. Estamos em pleno ano de 1978, durante a Guerra Fria, com Barry a receber um avião particular e a ser contratado para participar em operações secretas ao serviço da CIA. Primeiro tira fotografias de reconhecimento a baixa altitude a diversos territórios e guerrilheiros da América Central que se opõem aos regimes apoiados pelos Estados Unidos da América, algo que efectua com enorme sucesso ao ponto de despertar a atenção de Jorge Ochoa (Alejandro Edda), um dos membros do Cartel de Medellín. Entre avanços e recuos, Barry acaba por se ver na situação de transportar armas dos EUA para Nicarágua ao mesmo tempo que tenta manter os negócios lucrativos com o Cartel de Medellín, com o protagonista a envolver-se em imbróglios que colocam a sua vida em perigo. Veja-se ainda quando Barry é instruído para transportar para os Estados Unidos da América alguns Contras que se opõem aos Sandinistas, tendo em vista a que os primeiros sejam treinados em Mena, naquele que é mais um episódio que permite explanar a ingerência yankee na política dos países da América Central.

27 agosto 2017

Resenha Crítica: "I Am Michael" (O Meu Nome é Michael)

 Num determinado momento de "I Am Michael" (em Portugal: "O Meu Nome é Michael), o personagem do título comenta o seguinte: "We need to put out the message that being attracted to the same sex doesn't define who you are". Curiosamente, "I Am Michael" efectua precisamente o contrário, com Michael (James Franco) a ser definido ao longo do filme quer pela sua orientação sexual, quer pela sua religião. É uma opção questionável e simplista, que contribui acima de tudo para adensar o tom sensaborão que envolve as fundações de "I Am Michael", uma obra cinematográfica inspirada na história peculiar de Michael Glatze, um activista que defendeu os direitos LGBT até anunciar a renúncia à sua homossexualidade e tornar-se num pastor conservador. A história é caricata, complexa e sumarenta, embora Justin Kelly opte quase sempre por uma abordagem mais simples, anónima e anódina. Primeiro somos colocados perante o activismo de Michael, então director da popular XY Magazine, e da relação que este mantém com Bennett (Zachary Quinto). Posteriormente, "I Am Michael" coloca-nos diante das mudanças que ocorrem na mente do protagonista, nomeadamente, a partir do momento em que "descobre" Deus. A partir desse momento, Michael renega a sua homossexualidade e assume gradualmente uma postura conservadora e intolerante, com James Franco a entregar-se de corpo e alma a este personagem intrigante. James Franco transmite as inquietações de Michael e a incute credibilidade às facetas distintas deste indivíduo, com o actor a contar com uma interpretação relativamente sólida. O problema é que o argumento não ajuda James Franco, com a maioria das falas do protagonista a parecerem ter saído de um panfleto de defesa dos direitos LGBT, ou de um folheto pró-religião, algo que retira imenso poder aos acontecimentos retratados. A abordagem da relação entre Michael e Bennett também está longe de satisfazer, com a dinâmica destes personagens a ser acima de tudo definida pela orientação sexual do casal. É notório que existe alguma intimidade a marcar o relacionamento de Michael e Bennett, mas também falta desenvolvimento e evolução às dinâmicas do casal. Note-se ainda o momento em que Tyler (Charlie Carver), um jovem estudante de física, é inserido no interior da relação de Michael e Bennett, com "I Am Michael" a não exibir qualquer empenho em explorar as dinâmicas do trio para além da superfície.

26 agosto 2017

Resenha Crítica: "Stop Making Sense" (1984)

 É possível visionar "Stop Making Sense" de forma calma e ordeira? Essa é uma tarefa praticamente impossível de concretizar, com Jonathan Demme a realizar um filme-concerto que desperta uma enorme vontade de cantar, dançar e aplaudir, enquanto bombeia emoções, ritmo e energia. Jonathan Demme não se limita a filmar um concerto da banda Talking Heads, com o cineasta a conseguir que o cinema invada o espectáculo ao mesmo tempo que transmite as emoções e os ritmos deste evento. Os movimentos dos corpos são captados com engenho, tal como as expressões que percorrem os rostos e o suor que começa a escorrer pelo corpo dos artistas a partir do momento em que a fadiga se acumula, com "Stop Making Sense" a transmitir que existe muito esforço e dedicação por parte dos membros da banda para que o espectáculo se mantenha dinâmico, intenso e interessante. Diga-se que Jonathan Demme consegue ainda explanar eficazmente as dinâmicas de uma banda ao mesmo tempo que deixa um conjunto de artistas exibir a sua arte, com David Byrne a surgir como a figura que mais se destaca. Este é o vocalista, líder e fundador dos Talking Heads, com o cantor a encher o ecrã de carisma, talento e uma capacidade notória para utilizar o físico ao serviço das músicas que canta. Seja a segurar um candeeiro, ou a dançar com Lynn Mabry e Ednah Holt (duas vocalistas de apoio), ou a movimentar as pernas de forma desconjuntada, ou a mexer a cabeça de forma peculiar, David Byrne demonstra que sabe como dar espectáculo e exprimir-se perante o público. Essa situação é visível logo nos momentos iniciais, quando o vocalista aparece acompanhado de um rádio e salienta "Hi, I've got a tapewriter to play", com a câmara de filmar a focar os ténis brancos de David Byrne, bem como as suas pernas em movimento e o aparelho, enquanto sobe de forma gradual e exibe o rosto do cantor ao mesmo tempo que este começa a cantar a icónica "Psycho Killer", a exprimir as suas emoções e a prender a atenção do público.

24 agosto 2017

Resenha Crítica: "Una giornata particolare" (Um Dia Inesquecível)

 Sensível, delicado, pontuado por algumas doses de humor e um humanismo latente, "Una giornata particolare" mexe de forma certeira com as nossas emoções, enquanto aborda o contexto histórico com eficácia, deixa Marcello Mastroianni e Sophia Loren protagonizarem alguns momentos inesquecíveis e coloca-nos diante de uma série de acontecimentos marcantes que decorrem ao longo de um dia que se torna muito especial para a dupla de protagonistas desta obra cinematográfica realizada por Ettore Scola. O dia em que os protagonistas travam conhecimento coincide com a visita que Adolf Hitler efectua a Benito Mussollini, em Roma, a 8 de Maio de 1938, ou seja, durante a II Guerra Mundial, com o contexto histórico a influenciar e muito a vida de Antonietta (Sophia Loren) e Gabriele (Marcello Mastroianni), dois personagens atormentados quer pela solidão, quer pela incompreensão daqueles que os rodeiam. Esta visita é exposta logo nos momentos iniciais de "Una giornata particolare", com Ettore Scola a utilizar vídeos de notícias da época para retratar a pompa e circunstância com que Adolf Hitler foi recebido, até deixar a ficção tomar conta do enredo. Quase tudo e todos se mobilizam para estarem presentes na parada em honra de Adolf Hitler, um evento que reforça a aliança entre Itália e Alemanha, embora alguns personagens não se desloquem ao local, tais como Gabriele e Antonietta. É exactamente a partir de Gabriele e Antonietta e deste contexto histórico que Ettore Scola aborda temáticas relacionadas com o fascismo, o machismo, o papel da mulher na sociedade, a intolerância, a homofobia, sempre sem descurar o desenvolvimento da ligação que une de forma efémera os personagens interpretados por Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Marcello Mastroianni e Sophia Loren repetem uma parceria que contou com excelentes resultados em obras cinematográficas como "Ieri, oggi, domani" e "Matrimmonio all'italiana" (ambas de Vittorio De Sica), com Ettore Scola a aproveitar a química e o talento dos dois intérpretes para elevar "Una giornata particolare" e desenvolver de forma subtil a relação entre Antonietta e Gabriele. A subtileza é a palavra de ordem no efémero affair entre Antonietta e Gabriele, com Ettore Scola a dar tempo para que as particularidades dos personagens e as suas dinâmicas sejam devidamente desenvolvidas.

22 agosto 2017

Resenha Crítica: "La madre" (A Mãe)

 A partir de um determinado momento de "La madre", a nova longa-metragem realizada por Alberto Morais, quase que apetece começar a contar o número de vezes que Miguel (Javier Mendo) telefona para a mãe e esta não atende o telemóvel. Miguel liga imensas vezes para a sua progenitora (Laia Marull), embora esta raramente atenda, com as chamadas a serem remetidas para o atendedor de chamadas, enquanto a falta de perspicácia do jovem começa a exasperar-nos. Percebemos que Miguel quer acreditar em Carmen, a sua mãe, uma figura constantemente ausente, mas, a partir de um determinado momento, a repetição excessiva destes telefonemas acaba por servir mais para expor o lado redundante de "La madre" do que para exacerbar o desespero do adolescente. É um exemplo paradigmático das redundâncias que marcam este drama previsível e insosso, com Alberto Morais a realizar um filme onde a esperança escasseia, seja para os personagens ou para o espectador que espera por um rasgo que permita a "La madre" não ser apenas mais uma obra cinematográfica que aborda a história de um adolescente que é colocado diante de problemas típicos dos adultos e habita num meio complicado. No início de "La madre", encontramos Miguel a vender pacotes de lenços de papel no interior de um parque de estacionamento, algo revelador das poucas condições financeiras deste jovem de catorze anos de idade. Miguel deveria estar a pensar em estudar, divertir-se e formar amizades, tal como os adolescentes da sua idade, embora "La madre" deixe bem claro que estamos perante um jovem que tem de lidar de perto com as dificuldades. Javier Mendo incute um tom lacónico e um olhar triste a Miguel, um adolescente que tem uma enorme propensão para cometer erros e um rosto desprovido de alegria. Miguel mantém uma relação conturbada com Carmen, uma mulher irresponsável e desempregada, que não parece conseguir tomar conta do filho, nem de si própria, com Laia Marull a transmitir a passividade e a personalidade errática desta personagem. O lar de Carmen e Miguel reflecte paradigmaticamente as dificuldades financeiras destes personagens, com "La madre" a deixar-nos diante de um espaço praticamente despido de luxos e de alegria, com o trabalho na decoração de cenários a revelar-se simples e eficaz. Quem se prepara para inserir mais incerteza a este lar são dois elementos do centro de detenção para menores, uma instituição onde Miguel já esteve instalado, com o protagonista a não pretender regressar a este local.

21 agosto 2017

Resenha Crítica: "Dog Eat Dog" (Como Cães Selvagens)

 "From the creator of Taxi Driver and Raging Bull". Esta frase marca um dos posters de "Dog Eat Dog" (em Portugal: "Como Cães Selvagens"), a nova longa-metragem realizada por Paul Schrader. Diga-se que essa frase atormentou a minha mente ao longo da visualização de "Dog Eat Dog". Como é que alguém que escreveu o argumento de duas obras-primas conseguiu encontrar potencial em algo tão desprovido de interesse como "Dog Eat Dog"? É certo que a carreira de Paul Schrader já conheceu melhores dias, mas é simplesmente frustrante verificar como o cineasta não consegue oferecer mais do que um thriller banal, marcado por diálogos maioritariamente risíveis, péssimos efeitos especiais, acção estilizada e personagens desprovidos de dimensão. Junte-se um Nicolas Cage capaz do melhor e do pior, com uma interpretação que apenas contribui para exacerbar a incoerência que incute à composição do personagem a quem dá vida e "Dog Eat Dog" começa a despertar um interesse semelhante a um acidente: sabemos que é mau, mas não conseguimos desviar o olhar. Outra das perguntas que me ocorreu após ter visionado "Dog Eat Dog" é a seguinte: Quem é que achou que seria boa ideia colocar Nicolas Cage a imitar a voz e os trejeitos de Humphrey Bogart? É algo simplesmente ridículo e caricato, que exibe a falta de rumo de um filme que pensa ser mais irreverente e audacioso do que é na realidade. Nicolas Cage interpreta Troy, um indivíduo que saiu recentemente da prisão e permite que o intérprete exiba alguns dos seus cageísmos. Troy gosta de recorrer aos serviços de prostitutas, admira Humphrey Bogart e protagoniza alguns crimes ao lado de Mad Dog (Willem Dafoe) e Diesel (Christopher Matthew Cook). Willem Dafoe é o grande trunfo do filme, com o actor a incutir um estilo niilista, tresloucado e cocaínado a Mad Dog, um personagem viciado em drogas e propenso a tomar as piores decisões.

19 agosto 2017

Resenha Crítica: "Mulholland Dr." (2001)

 A tonalidade vermelha está muito presente em "Mulholland Dr.", seja no batom ou no verniz das unhas de algumas personagens, ou nas cortinas e outros adereços dos cenários, ou nas luzes que envolvem os espaços por onde circulam as figuras que pontuam o enredo desta obra cinematográfica inebriante, envolvente, surreal e dotada de diversos elementos noir e de imenso mistério. Não é uma novidade nos filmes de David Lynch, tanto a utilização certeira da cor vermelha como as características surreais e noir, com "Mulholland Dr." a confirmar a genialidade do cineasta e a sua capacidade para nos deixar à deriva, presos às sensações despertadas por aquilo que estamos a observar e inquietos em relação a todos os pormenores que envolvem esta obra cinematográfica. Quem tem uma apetência notória para utilizar a cor vermelha é Rita (Laura Harring), uma espécie de femme fatale que no início do filme é alvo de uma tentativa de assassinato e ainda sofre um acidente de viação nas imediações de Mulholland Drive. Rita sobrevive, mas fica temporariamente sem memória, embora tenha a sensação de que a sua vida está em perigo, uma situação que a compele a esconder-se no interior de um apartamento que se encontra aparentemente desabitado. Pouco tempo depois, também Betty (Naomi Watts) chega ao apartamento, com a habitação a pertencer à tia desta personagem. Betty é uma aspirante a actriz, aparentemente algo inocente e optimista, que viajou até Los Angeles para efectuar testes para integrar o elenco de uma obra cinematográfica. A aspirante a actriz pensa inicialmente que Rita é uma amiga da tia, até ligar a esta última e perceber que precisa de obter mais informação em relação à estranha que se encontra no interior do apartamento. Com longos cabelos negros, batom vermelho saliente, unhas pintadas de encarnado e uma postura a fazer recordar uma femme fatale dos filmes noir, Laura Harring incute algum mistério, sensualidade e aparente fragilidade à personagem que interpreta. Por sua vez, Naomi Watts transmite alguma da inocência e da vivacidade de Betty, uma jovem adulta de cabelos loiros, uma personalidade aparentemente afável e uma faceta de detective dos filmes noir, com a aspirante a actriz a formar uma forte ligação com Rita. Naomi Watts e Laura Harring convencem-nos da grande proximidade que se forma entre Betty e Rita, com David Lynch a estabelecer eficazmente as dinâmicas entre estas personagens, até começar a desvendar alguns dos segredos que envolvem a dupla.