13 dezembro 2017

Resenha Crítica: "20th Century Women" (Mulheres do Século XX)

Num determinado momento do desenvolvimento de "20th Century Women", Dorothea (Annette Bening), uma das protagonistas, salienta o seguinte em voice-over: "It's 1979. I'm 55 years old, and in 1999, I will die of cancer from the smoking (...) They don't know this is the end of punk. They don't know that Reagan's coming. It's impossible to imagine that kids will stop dreaming about nuclear war, and have nightmares about the weather. It's impossible to imagine HIV, what will happen with skateboard tricks, the internet (...)". É um momento dotado de sensibilidade, que permite expor alguns pormenores sobre o contexto histórico e criar uma sensação de melancolia, ou não ficássemos perante uma demonstração da efemeridade da vida e da puerilidade das nossas certezas em relação ao futuro. Também ficamos diante de uma fala que permite realçar a excelência do argumento de Mike Mills, com o realizador e argumentista a elaborar um filme sensível, delicado, terno e profundamente humano, que valoriza o trabalho dos actores e tem nas dinâmicas entre os personagens um dos seus maiores atributos.

Tal como em "Beginners", Mills volta a inserir elementos autobiográficos no interior do enredo de um filme da sua autoria. Se "Beginners" aborda a "saída do armário" do pai do cineasta, sempre com algum humor e enorme sensibilidade, já o foco de "20th Century Women" está em algumas das mulheres da vida de Mills, tais como a progenitora e as irmãs. Nesse sentido, Jamie (Lucas Jade Zumann), um dos protagonistas, aparece praticamente como o alter-ego do cineasta, enquanto Dorothea surge como uma figura inspirada na progenitora deste último. Dorothea é divorciada, proto-feminista, fuma imenso, gosta de se vestir de forma simples e moderna, aprecia fazer obras em casa e apresenta alguma abertura no relacionamento com Jamie, o seu filho, embora nem sempre esteja certa da sua capacidade para educar o rebento. Annette Bening incute complexidade, carisma e personalidade a esta personagem, com a actriz a colocar em evidência o sentido de humor, a sagacidade e inteligência desta mulher que tenta reprimir as suas fraquezas e a solidão.

11 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Jackie" (2016)

 "I believe that the characters we read about on the page end up being more real than the men who stand beside us", diz Jacqueline "Jackie" Kennedy (Natalie Portman) a um padre (John Hurt). É uma frase que ecoa ao longo de "Jackie", uma obra cinematográfica que coloca em diálogo os factos e a ficção, a lenda e a realidade, enquanto acompanha a personagem do título nos dias que se seguiram ao assassinato do esposo, o Presidente John F. Kennedy (Caspar Phillipson). O homicídio ocorreu a 22 de Novembro de 1963 e paira por quase todos os poros de "Jackie", com o filme realizado por Pablo Larraín a apresentar uma perspectiva muito particular sobre a forma como Jacqueline lidou com este episódio e os acontecimentos que se sucederam ao mesmo. É um retrato emotivo e profundo, que tem Jackie no seu cerne, com Larraín a explorar questões relacionadas com a construção da imagem, o diálogo entre a lenda e os factos, a dicotomia entre o público e o privado.

Numa fase prematura do filme, encontramos Jackie a receber um jornalista (Billy Crudup) no interior da sua casa, em Hyannis Port, tendo em vista a conceder uma entrevista. Esta conversa surge como ponto de partida para uma série de flashbacks, expostos a partir do ponto de vista de Jackie, que permitem explanar quer o modo como esta viveu os acontecimentos, quer a maneira como pretende que os eventos sejam transmitidos para o público. A câmara é colocada de forma frontal, quase sempre fechada sobre os rostos, pronta a exacerbar os objectivos distintos dos dois personagens e as suas feições, algo adensado pelos diálogos trocados entre ambos. "You understand that I will be editing this conversation? Just in case I don't say exactly what I mean", salienta Jackie num tom de voz glacial, tendo em vista a avisar o seu interlocutor de que ela é que dita as regras. "With all due respect, that seems very unlikely, Mrs. Kennedy", responde o jornalista num tom sarcástico, próprio de quem conhece a fama da entrevistada, embora, aos poucos, seja surpreendido pela mesma.

07 dezembro 2017

Crítica: "Night Shift" (1982)

 A premissa de "Night Shift" é absurda, mas relativamente bem aproveitada, com a simplicidade do argumento a ser compensada pela ingenuidade que marca os diversos episódios do enredo e pelas interpretações de Michael Keaton, Henry Winkler e Shelley Long. Qual é a premissa? Dois empregados de uma morgue resolvem envolver-se pelos meandros do proxenetismo, com a dupla a utilizar o local de trabalho para efectuar negócios. A ideia do espaço de uma morgue nova-iorquina como centro de operações para um negócio ligado ao proxenetismo tem tanto de desconcertante como de apelativa, algo exacerbado pelos episódios rocambolescos que são vividos pelos personagens principais. Ambos são inexperientes, não calculam os sarilhos em que se estão a meter e encaram o negócio com uma leveza que exprime paradigmaticamente o tom naïf desta obra cinematográfica.

Não existe qualquer tentativa de entrar pelos meandros do drama social, ou de abordar com aspereza o lado negro da prostituição e a imoralidade do proxenetismo, embora estes sejam mencionados, com "Night Shift" a colocar-nos diante de uma realidade que apenas existe no interior desta obra cinematográfica. É certo que logo no início do enredo somos colocados diante do assassinato de um proxeneta, mas o choque e a violência raramente são sentidos ao longo do filme, embora sejamos capazes de acreditar nos personagens e nos seus sentimentos. Os dois trabalhadores da morgue são Chuck (Henry Winkler) e Bill Blazejowski (Michael Keaton), uma dupla de personalidade bastante distinta. Winkler exacerba o lado introvertido, contido e polido do seu personagem, um antigo corretor da bolsa de valores que se encontra noivo de Charlotte (Gina Hecht), uma mulher algo frígida e pouco dada a conseguir conter o seu gosto por doces. Se Hecht imprime um estilo frio a Charlotte, já Keaton (no seu primeiro papel de relevo numa obra cinematográfica) insere uma personalidade extrovertida, intensa, faladora e peculiar a Bill, o novo colega de turno de Chuck. 

05 dezembro 2017

Crítica: "Teströl és lélekröl" (Corpo e Alma)

 O amor pode muitas das vezes ser encontrado nos locais mais improváveis, que o digam Endre (Géza Morcsányi) e Mária (Alexandra Borbély), a dupla de protagonistas de "Teströl és lélekröl", um filme terno, belo, delicado e peculiar, que é capaz de contrastar a frieza e a crueza de um matadouro com os sentimentos calorosos que marcam o iniciar de uma relação que floresce de modo invulgar. Os sonhos são o palco privilegiado para estes dois personagens soltarem os sentimentos e iniciarem uma relação de proximidade que começa progressivamente a encontrar paralelo na realidade. Demora algum tempo a florescer, é certo, mas aos poucos começamos a perceber que existe alguma coisa muito especial e profundamente humana a rodear a relação de Endre e Mária, algo desenvolvido com enorme sensibilidade pela realizadora e argumentista Ildikó Enyedi.

A cineasta dota estes personagens de espessura, de pequenos traços que gradualmente ganham enorme relevância, de alguns gestos que contribuem para a empatia que formamos com os mesmos, ou para a interpretação que efectuamos dos episódios que estes protagonizam. A realizadora desenvolve a personalidade destes elementos com conta, peso e medida, para além de estabelecer com acerto as suas rotinas no local de trabalho. O trabalho de Máté Herbai na cinematografia permite realçar a faceta fria e algo impessoal de alguns espaços do matadouro, com o tom vermelho do sangue, pronto a realçar a morte, a contrastar com as cores mais esbatidas deste espaço. A morte é presença regular neste cenário, com "Teströl és lélekröl" a não poupar em um ou outro momento que a espaços revira o nosso estômago, seja quando uma vaca é decapitada ou encontramos as peças de carne a serem cortadas. Diga-se que este é um filme de contrastes, com a crueza do fim da vida a ser colocada em diálogo com a candura dos sonhos da dupla de protagonistas, ou de alguns momentos que estes partilham.

02 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Ah-ga-ssi" (A Criada)

 "Ah-ga-ssi" é um filme de enganos e seduções, que inebria, contagia, repele e ludibria. O desejo está sempre muito presente, algo notório nas dinâmicas do trio de protagonistas, com Park Chan-wook a partir de uma premissa aparentemente simples para criar uma obra cinematográfica dotada de mistério, erotismo, alguma complexidade e uma mescla de classe, vulgaridade e extravagância que potencia as peripécias que são apresentadas. A premissa é a seguinte: um vigarista pretende seduzir uma rica herdeira japonesa, tendo em vista a roubar-lhe a fortuna e interná-la num hospício. Ele é conhecido como "Conde Fujiwara" (Ha Jung-woo). Ela é Izumi Hideko (Kim Min-hee). A ajudar o protagonista está Sook-hee (Kim Tae-ri), uma jovem coreana que trabalha para um grupo de pequenos criminosos e farsantes, sendo contratada como criada de Hideko. As três partes distintas do enredo incidem acima de tudo sobre este trio, com Park Chan-wook a inserir dinamismo à estrutura narrativa desta memorável obra cinematográfica e às ligações deste grupo de personagens.

Não faltam perspectivas distintas dos acontecimentos, algo que traz algumas surpresas e contribui para dar a conhecer novas facetas e planos dos personagens, bem como uma série de flashbacks que entram regularmente em acção e permitem discernir informação fulcral. O trabalho de montagem contribui para este dinamismo, enquanto o trabalho de câmara adensa o mistério, a tensão e a sensação de inquietação que pontua os episódios. Observe-se o momento em que Sook-hee abre a porta dos aposentos de Kouzuki (Cho Jin-woong), o tio da herdeira, com a câmara a avançar em direcção deste último e de Hideko, num movimento que adensa o efeito de surpresa, enquanto a banda sonora potencia o mistério. Sook-hee logo é proibida de entrar nesta divisória, ou não estivéssemos no interior de uma habitação dotada de imensos segredos, alguns deles escabrosos. A habitação tem uma dimensão imponente, mescla um estilo inglês e japonês e conta com uma série de luxos, algo que reforça o estatuto social de Kouzuki, um indivíduo cheio de taras, que vende livros raros, muitos deles falsificados.

30 novembro 2017

Resenha Crítica: "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone)

 Num determinado momento de "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone), encontramos Young-hee (Kim Min-hee), a protagonista, a questionar Sang-won (Moon Sung-keun), um realizador com quem manteve um affair, sobre a forma como este pretende desenvolver o seu próximo filme. O cineasta responde o seguinte: "Como forem surgindo as ideias, sem muito planeamento. Filmo a primeira cena e deixo ela levar-me". Estas palavras levam a personagem principal ao desespero, sobretudo a partir do momento em que percebe que o enredo da nova obra de Sang-won é inspirado em alguém que este amou, nomeadamente, Young-hee. Se existiam dúvidas de que o enredo de "Bamui haebyun-eoseo honja" conta no seu interior com diversos elementos da vida de Hong Sang-soo, estas ficam claramente dissipadas nesta troca de diálogos, com o realizador-personagem a surgir quase como um duplo do autor, inclusive no método de desenvolver as obras cinematográficas. É possível dissociar a obra de arte do artista que a concebeu, mas neste caso é algo praticamente impossível de efectuar, sobretudo devido ao facto deste último inserir episódios da sua vida privada no cerne do seu trabalho. Vale a pena recordar que Hong Sang-soo e Kim Min-hee iniciaram um affair quando o primeiro era casado, uma situação que gerou um certo burburinho na Coreia do Sul e aparece de certa forma plasmada no interior da história de Young-hee, uma actriz que protagonizou um enorme escândalo ao manter um caso com um realizador comprometido.

26 novembro 2017

Resenha Crítica: "120 battements par minute" (120 Batimentos por Minuto)

 Tudo termina praticamente como começa, ou seja, com um protesto protagonizado por militantes do Act Up-Paris, um grupo activista que luta contra a SIDA. São momentos de pura energia, pontuados pelo extravasar das emoções e demonstrações categóricas da procura destes elementos em serem ouvidos e encarados com seriedade por aqueles que os rodeiam. No início observamos tudo como algo pulsante. No final somos assolados por uma sensação agridoce. Fomos atirados para o interior da jornada destes personagens e envolvidos para o meio das suas batalhas, conquistas, derrotas, debates, relações, desejos e para o triste destino de alguns elementos contaminados com o vírus da SIDA. É uma experiência plena esta que Robin Campillo proporciona ao longo de "120 battements par minute", que capta o fervor dos debates entre os membros do Act Up-Paris e o contexto histórico, com as temáticas a serem desenvolvidas com precisão, muitas das vezes com um toque surpreendente de humor, embora o drama também esteja bastante presente, com quase tudo a centrar-se nos objectivos do grupo e num romance deveras intenso.

O enredo desenrola-se no início dos anos 90, em Paris, numa fase em que a SIDA ceifa vidas a uma velocidade assustadora, embora exista uma enorme indiferença e desconhecimento em relação a este assunto. A certa altura do filme, encontramos uma jovem a dizer que não precisa de utilizar preservativo, pois não é homossexual. É um momento revoltante e revelador de desconhecimento, que logo é contrastado com a atitude sagaz de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), um dos protagonistas do filme, nomeadamente, beijar Nathan (Arnaud Valois), um militante que se juntou recentemente ao Act Up-Paris. Esta jovem é essencial para transmitir o pensamento generalizado da época, embora o foco de Robin Campillo esteja acima de tudo nas lutas e nas dinâmicas deste grupo, sempre sem retratar os seus membros como elementos unidimensionais. Existem personagens dotados de dimensão em "120 battements par minute" e intérpretes capazes de atribuírem massa humana a estas figuras que deixam marca no enredo e na nossa mente. Note-se as diversas cenas que envolvem as reuniões semanais do Act-Up Paris, marcadas por debates intensos e regras muito próprias, com Robin Campillo e Jeanne Lapoirie (a directora de fotografia) a captarem o fervilhar e a alma destes encontros.

25 novembro 2017

Resenha Crítica: "Posoki" (Táxi Sófia)

 Composto por episódios maioritariamente filmados em planos-sequência ou de longa duração, algo que lhes atribui um tom imediato, "Posoki" (em Portugal: "Táxi Sófia") coloca-nos diante de um retrato da sociedade, economia, política e cultura da Bulgária a partir do contacto entre seis taxistas e os seus clientes, ou entre os primeiros e outros intervenientes. A espaços quase que traz "Taxi" de Jafar Panahi à memória, uma obra onde o cineasta iraniano conduz um táxi pelas ruas de Teerão e filma as conversas com os clientes ou a sobrinha, com estes diálogos a permitirem traçar um fresco sobre a realidade local. Quase todos os episódios de "Posoki" decorrem durante uma noite, enquanto ficamos perante diversos acontecimentos que dão a conhecer alguns traços da personalidade destes taxistas e dos seus clientes, bem como da cidade de Sófia, onde se desenrola uma boa parte do enredo. Nada é exposto de forma unidimensional, bem pelo contrário, com o realizador Stephan Komandarev a apresentar-nos a um grupo heterogéneo de personagens e de acontecimentos ao mesmo tempo que efectua alguns comentários de foro social. 

Tanto encontramos taxistas cumpridores como outros que escapam às regras, ou clientes que variam entre a afabilidade e a falta de educação, com "Posoki" a contar com uma série de eventos maioritariamente verosímeis que permitem o despertar de uma certa empatia com alguns personagens e os seus sentimentos. Note-se o segmento em que encontramos um cirurgião a ser transportado por Radoslava (Irini Zhambonas), uma taxista, até ao hospital. Estes fumam e falam durante o percurso, seja sobre um transplante de coração que o médico vai ter de efectuar a um doente, ou em relação ao facto do primeiro ir emigrar, nomeadamente, para Hamburgo. "A Bulgária é o país dos optimistas (...). Todos os realistas e pessimistas já foram embora", diz o cirurgião num tom desencantado que permite expor a vaga emigratória dos búlgaros para outros países, tendo em vista a escaparem do estado caótico em que se encontra a sua nação. Essa crise económica e de valores é exposta de forma bem viva logo no prólogo, naquele que é um trecho inquietante, tenso e marcante, cujas repercussões são sentidas ao longo do enredo. 

22 novembro 2017

Resenha Crítica: "A Ciambra" (2017)

 A câmara agita-se frequentemente em "A Ciambra", enquanto segue os personagens atentamente, sempre num tom observador, inquieto e documental, num estilo que traz "Mediterranea" à memória, a primeira longa-metragem realizada por Jonas Carpignano. O pendor social está bem presente, tal como o gosto do cineasta em utilizar a universalidade da música pop para dialogar com o espectador, sublinhar as emoções de diversos episódios e expressar os gostos musicais de alguns personagens. A unir estas duas obras cinematográficas encontra-se ainda a inclusão de situações da vida pessoal dos intérpretes no interior da história dos protagonistas, bem como a presença de Pio Amato (a dar vida uma versão de si próprio) e Ayiva (Koudous Seihon), com a relação de amizade e proximidade da dupla a ser um dos ingredientes de peso de "A Ciambra".

Se em "Mediterranea" ficámos diante de Ayiva e Abas, dois migrantes do Burkina Faso que chegaram a Itália em busca de melhores condições de vida, já em "A Ciambra" o enredo centra-se em Pio, um adolescente de catorze anos de idade, de etnia cigana, que se encontra a lidar com dilemas típicos da idade, ainda que inseridos no contexto intrincado em que está envolvido. O silêncio é raro no interior da sua casa, um espaço extremamente povoado, onde quase todos falam alto e o agregado familiar conta com rotinas muito próprias. Note-se uma refeição regada a álcool e tabaco, em que a maioria fuma e bebe, sejam estes adultos ou petizes. Carpignano envolve-se pelo interior deste espaço, capta os diálogos muito próprios destes personagens e o barulho que provocam, aborda as suas dinâmicas e os seus rostos, com Pio a estar no centro de quase tudo. O seu rosto transmite uma certa inocência, mas também rebeldia e a espaços alguma melancolia, ou a infância não lhe tivesse fugido de forma demasiado rápida, enquanto as responsabilidades da idade adulta batem-lhe regularmente à porta, com Pio Amato a dominar frequentemente as atenções quer como intérprete, quer como personagem.

19 novembro 2017

Crítica: "Western" (2017)

 O título de "Western" remete não só para o encontro entre a Europa Ocidental e do Leste que observamos o longo do filme, mas também para o género cinematográfico que partilha o nome com o título da nova longa-metragem realizada por Valeska Grisebach. Não temos a grandiosidade do Monument Valley em planos bem abertos, embora não faltem elementos como a cidade de fronteira, o protagonista lacónico, bem como um estaleiro que a espaços traz à memória os postos da cavalaria de obras como "She Wore a Yellow Ribbon" ou "Fort Apache". O estaleiro pertence a uma empresa da construção civil oriunda da Alemanha, que foi contratada para uma obra intrincada numa zona rural da Bulgária, com o espaço onde estes elementos vivem e trabalham a ser exposto e aproveitado ao pormenor, sendo exibido muitas das vezes em planos abertos que permitem exacerbar as características simultaneamente belas e hostis deste território. Não faltam espaços verdejantes e plantações de tabaco, bem como uma série de caminhos não alcatroados que dificultam a circulação dos veículos e uma sensação de isolamento que é quebrada em alguns momentos pela presença dos locais. 

 A presença do calor e do Sol é sentida, quase que a trazer a falsa sensação de um ambiente acolhedor, embora ao longo do filme não faltem situações tensas, seja no interior deste grupo de trabalhadores, ou inerentes ao choque de culturas entre alguém que vem de fora e aqueles que já se encontram no território. Esse embate é um dos temas primordiais do filme: a língua separa os alemães dos búlgaros, tal como os seus hábitos, objectivos e preconceitos. A própria presença da bandeira alemã, colocada a sinalizar o estaleiro, indica desde logo um sentimento de tomada do território (e uma sensação de intrusão), com diversos trabalhadores a apresentarem em alguns momentos uma postura a roçar o chauvinismo e a xenofobia. Note-se quando encontramos Vincent (Reinhardt Wetrek), o elemento que controla a obra, a salientar que regressaram 70 anos depois (numa alusão à II Guerra Mundial), ou a forma como este personagem não tem problemas em desviar água para poder manter a obra a funcionar, ou a sua atitude desprezível e machista para com Vyara (Viara Borisova) num episódio definidor que ocorre no início do filme. 

18 novembro 2017

Resenha Crítica: "Geu-hu" (O Dia Seguinte)

 Vamos imaginar que os filmes de Hong Sang-soo são efectuados com a mesma receita. Nessa receita é provável que encontremos estes ingredientes: personagens ligados ao meio cultural; diálogos muitas das vezes improvisados (seja sobre assuntos mais profundos ou completamente banais); momentos em que os protagonistas bebem soju em doses consideráveis e trocam imensas palavras; desgostos amorosos ou traições; relações intrincadas entre homens e mulheres; os inevitáveis zooms inquietos, imagem de marca desde "Tale of Cinema"; os jogos com o tempo da narrativa; a presença de intérpretes que já trabalharam com o realizador. Qualquer um pode pegar nestes ingredientes, mas poucos conseguem ter a capacidade de Hong Sang-soo para atribuir-lhes um tom único, muito particular e extremamente envolvente, algo que se repete em "Geu-hu" (em Portugal: "O Dia Seguinte"), uma das três obras cinematográficas do realizador que estrearam em 2017.

 A proficuidade é outra das imagens de marca do cineasta, bem como a sua capacidade para colocar-nos diante de personagens que apenas parecem existir nos seus filmes. Um desses personagens é Kim Bongwan (Kwon Hae-hyo), o peculiar dono de uma pequena editora. No início do filme encontramos o protagonista a ser confrontado por Song Haejoo (Cho Yunhee), a sua esposa. Ela pretende saber se está a ser traída. Ele fica sem saber o que dizer, com as expressões faciais de Kwon Hae-hyo a permitirem exprimir não só a perplexidade de Bongwan, mas também uma sensação de nervosismo e desconforto. Pouco depois, Bongwan sai de casa, ainda de madrugada, até o passado entrar sem aviso no presente e ficarmos perante alguns episódios relacionados com o caso do protagonista com Lee Changsook (Kim Sae-byeok), uma antiga funcionária. Se os sonhos entram muitas das vezes sem aviso no interior das obras de Hong Sang-soo, também estes trechos relacionados com os episódios de outrora irrompem inesperadamente por "Geu-hu" e permitem uma ligação entre o presente e um passado que continua bem vivo e a deixar rasto.

16 novembro 2017

Críticas sobre filmes estreados em 2017 (circuito comercial)

Janeiro:

- Miss Sloane.
- Silence (brevemente).

Fevereiro:

- 20th Century Women.
- Jackie.

Março:

- Personal Shopper.
- Neruda (brevemente). 
- Valley of Love.
- Ah-ga-ssi.

Abril:

- Fai bei sogni.
- Se Dio vuole.
- Ugetsu monogatari (reposição).
- Ma Loute.

Maio:

- Perfetti sconosciutti.
- Get Out (brevemente).
- Ma vie de Courgette.
- I Am Not Your Negro (brevemente). 

Junho:

- Mulholland Dr. (reposição).
- Zangiku monogatarai (reposição).
- Hymyilevä mies.
- Le confessioni.
- Paterson.

Julho:

- Baywatch
- Cars 3.
- Dunkirk.
- Lady Macbeth.
- The History of Love.
- Valerian and the City of a Thousand Planets.


Agosto:

- À bras ouverts.
- London Town
- Princess.
- Hampstead.
- Une vie.
- Wiener-Dog.
- Wind River.
- Sangailes vasara.
- Les parapluies de Cherbourg (reposição).
- Les demoiselles de Rochefort (reposição).
- Dog Eat Dog.
- La madre.
- Stop Making Sense.
- American Made.
- I Am Michael


Setembro:

- High-Rise.
- Logan Lucky.
- The Trip to Spain.
- The Limehouse Golem.
- La fille de Brest.
- The Bad Batch.
- It.
- Kingsman: The Golden Circle.
- Home Again.
- Once Upon a Time in Venice.

Outubro:

- Lumière!.
- Les fantômes d'Ismaël.
- A Floresta das Almas Perdidas (brevemente).
- The Big Sick.
- The Love Witch.
- Toivon tuolla puolen.
- Qualcosa di nuovo.  

Novembro:

- Geu-hu.
- Verão Danado.
- Centro Histórico.
- Posoki

Dezembro:

- 120 battements par minute.
- Teströl és lélekröl.
- It Comes at Night.

14 novembro 2017

Resenha Crítica: "Loulou" (1980)

 A relação de Nelly (Isabelle Huppert) e Loulou (Gérard Depardieu) alimenta-se do desejo e da incerteza, dos prazeres efémeros e do improviso. Parece estar sempre por um fio, embora o seu fim também não esteja à vista, com as diferenças entre ambos a ficarem bem estabelecidas, tal como aquilo que os une. Estes são os dois personagens principais de "Loulou", um romance embebido de drama, no qual o pragmatismo e a razão são regularmente despedaçados pelo doce sabor da incerteza e a ferocidade da libido. É essa curiosidade pela indefinição que parece compelir Nelly a envolver-se com Loulou, algo que a leva a trair André (Guy Marchand), o seu esposo, após mais uma discussão violenta.

O primeiro encontro entre os protagonistas ocorre numa discoteca. Ela estava na companhia do marido. Ele resolveu tentar seduzir a protagonista. Dançam, separam-se temporariamente, até esta ceder rapidamente ao prazer e à curiosidade, sem pensar muito nas consequências do seu acto, ou naquilo que vai fazer após o Sol nascer e trazer consigo as lembranças daquilo que foi feito com a complacência da Lua. O que fizeram estes dois durante a noite? Trocam mais uns passos de dança, com os corpos bastante aproximados, naquele que é o aquecimento para o movimento seguinte. Pouco depois vão fazer sexo, mas a sensualidade e o erotismo são deixados de lado, sobretudo a partir do momento em que a cama se parte. É o resumo paradigmático da ligação que se forma entre Nelly e Loulou, ou seja, instável e quebradiça, com o realizador Maurice Pialat a desenvolver a relação destes personagens de forma credível, sem acordes em falso ou excessos melodramáticos.

12 novembro 2017

Resenha Crítica: "It Comes at Night" (Ele Vem à Noite)

 Trey Edward Shults insere uma atmosfera opressiva, misteriosa, inquietante e desoladora a "It Comes at Night", enquanto joga com as nossas emoções e sensações, opta quase sempre pela subtileza, utiliza o poder da sugestão, sabe despertar um nervoso miudinho no interior da nossa mente e deixa-nos diante dos ténues equilíbrios de uma família que vive praticamente em cativeiro. O que é dito tem quase tanta relevância como aquilo que não é mencionado, com o rosto da maioria dos intérpretes a surgir como um meio fulcral para que os personagens expressem as suas emoções ou reprimam as convulsões que vagueiam pelo âmago da alma. A começar por Joel Edgerton, um intérprete que insere um estilo duro, inflexível e intenso a Paul, um pai de família que leva a protecção dos seus entes queridos ao extremo. As expressões do rosto de Edgerton permitem discernir o peso da responsabilidade que o antigo professor de História colocou aos seus ombros, bem como os receios que contaminam o seu estado de espírito, algo que atribui uma carga acrescida a este personagem. Paul é casado com Sarah (Carmen Ejogo), de quem tem um filho adolescente (Kelvin Harrison Jr.), com o quotidiano do trio a ser marcado por um conjunto de regras rigorosas impostas pelo primeiro, algo que remete para o receio de ser contaminado, ou atacado por invasores que pretendam os recursos aprovisionados. O contexto que os rodeia propicia este tipo de comportamento e a desconfiança, ou não estivéssemos perante uma realidade pós-apocalíptica em que uma estranha e perigosa doença devastou uma parte considerável do planeta e da população.

09 novembro 2017

Resenha Crítica: "Assault on Precinct 13" (Assalto à 13.ª Esquadra)

 O filme de cerco está no sangue de John Carpenter, com o cineasta a demonstrar uma perícia indelével a inquietar o espectador e os personagens, enquanto utiliza os espaços fechados com mestria e cria uma atmosfera opressora e fervilhante em volta do enredo. Esse gosto pelo filme de cerco é exposto desde logo em "Assault on Precinct 13" (em Portugal: "Assalto à 13.ª Esquadra"), a segunda longa-metragem de John Carpenter, o "Rio Bravo" deste admirador de Howard Hawks, com as referências a acumularem-se e a serem utilizadas ao serviço do enredo. Seja uma parceria improvável, a mulher hawksiana, a utilização certeira do cenário fechado de uma esquadra, ou situações como o sangue que escorre e revela informação preciosa, ou uma arma que é atirada de forma sagaz a um aliado, não faltam elementos a unir "Assault on Precinct 13" a "Rio Bravo". Não estamos no interior de uma cidade de fronteira do Velho Oeste (embora por vezes pareça), mas sim em Anderson, um gueto de Los Angeles, onde se encontra localizada a esquadra do distrito nove, da divisão treze, aquela que se prepara para ser cercada e palco de uma intensa luta pela sobrevivência.

O crime e a insegurança encontram-se presentes em quase todos os poros de "Assault on Precinct 13", com John Carpenter a arquitectar o receio e o medo, a jogar com a nossa percepção dos eventos que estão a ser apresentados e a demonstrar que não está aqui para brincadeiras. É certo que deixa o humor entrar em alguns trechos do enredo, mas é quase sempre Sol de pouca dura, sobretudo quando a noite aparece, as luzes são cortadas e a atmosfera de incerteza é exacerbada a níveis consideráveis. Tudo é pensado ao pormenor, sempre com uma falsa simplicidade e uma grande precisão, com a insegurança a ser a palavra de ordem, enquanto os acontecimentos se sucedem e culminam num cerco. Esse cerco é antecedido de uma breve apresentação do contexto que rodeia a cidade e dos eventos que conduziram diversos personagens a esta esquadra. Um desses personagens é Ethan Bishop (Austin Stoker), um indivíduo afável, correcto no cumprimento do dever, que é designado para cumprir a sua primeira tarefa como tenente, nomeadamente, supervisionar uma esquadra que se encontra a ser desmantelada. No interior da esquadra encontram-se elementos como Leigh (Laurie Zimmer) e Julie (Nancy Kyes), duas secretárias, bem como o Sargento Chaney (Henry Brandon), com a primeira a surgir em grande destaque quer pela sua personalidade bem definida, quer pela capacidade para enfrentar os desafios.

07 novembro 2017

Resenha Crítica: "Arabesque" (1966)

 David Pollock (Gregory Peck), um professor da Universidade de Oxford, especialista em hieróglifos, tem uma técnica rápida e prática para acordar os alunos que adormecem a meio das aulas, nomeadamente, dizer a palavra sexo, algo que desperta rapidamente a atenção dos seus ouvintes. Em "Arabesque", Stanley Donen não grita a palavra sexo para despertar a atenção do espectador, mas opta por incutir uma série de fugas alucinantes, alianças trocadas, reviravoltas, enganos, imensos momentos de humor, correria e alguma acção a esta obra cinematográfica delirante e cheia de ritmo, que reúne no seu interior diversos elementos de comédia e espionagem, enquanto aproveita para tentar distrair-nos em relação ao facto de que a conspiração internacional que marca boa parte do enredo nem sempre faz sentido (já para não salientar o whitewashing à bruta). Se a conspiração internacional desafia imenso o sentido de credibilidade do espectador, já a dinâmica entre Gregory Peck e Sophia Loren convence e de que maneira, com a dupla a contribuir para elevar e muito os diversos momentos que protagonizam, sejam estes um episódio pontuado pelo humor, sedução e tensão que decorre no interior de uma banheira, ou uma fuga perigosa por um jardim zoológico.

Gregory Peck imprime um estilo simultaneamente polido e espirituoso a David, um professor universitário que acaba por se ver envolvido no interior de uma conspiração internacional de características rocambolescas, nomeadamente, quando é contratado para decifrar um criptograma, enquanto que Sophia Loren incute alguma ambiguidade e imensa sensualidade a Yasmin Yazir, uma personagem misteriosa que ganha toda outra dimensão graças ao carisma e talento da actriz. Yasmin tem uma série de ligações inicialmente pouco claras com diversos elementos que pretendem descobrir a mensagem que se encontra escondida no criptograma que David tenta decifrar. Note-se a relação que Yasmin mantém com Nejim Beshraavi (Alan Badel), um empresário do sector da construção naval, notoriamente endinheirado, que se opõe de forma violenta a Hassan Jena (Carl Duering), o Primeiro-Ministro do Egipto. Beshraavi inicia o contacto com David Pollock através de Sylvester Pennington Sloane (John Merivale), um dos seus capangas, tendo em vista a que o professor decifre o conteúdo de um criptograma, ou a mensagem secreta não estivesse escrita em hieróglifos (que poderiam ser decifrados por qualquer especialista da área, embora o protagonista pareça ser o único que está qualificado para desempenhar essa tarefa). David ainda rejeita encontrar-se com Beshraavi, pelo menos até ser contactado por Hassan Jena, com o político a incumbir o protagonista de descobrir os planos do inimigo.

05 novembro 2017

Resenha Crítica: "The Fog" (1980)

 John Carpenter tem uma apetência especial para colocar os personagens em situações intrincadas, sobretudo quando estes se encontram em espaços circunscritos, tais como uma esquadra ("Assault on Precinct 13"), ou uma casa ("Halloween"), ou uma prisão de segurança máxima ("Escape From New York"), ou uma estação situada na Antárctida ("The Thing"). No caso de "The Fog" (em Portugal: "O Nevoeiro"), a quarta longa-metragem realizada por John Carpenter, os habitantes da cidade costeira de Antonio Bay têm de enfrentar uma ameaça sobrenatural e misteriosa, nomeadamente, um nevoeiro que percorre diversos espaços deste território e traz consigo uma série de criaturas ameaçadoras. É uma ameaça que não podemos observar na totalidade, nem os personagens, ou a fisionomia destas figuras fantasmagóricas não estivesse encoberta pelas sombras, algo que exacerba a sua faceta aterrorizadora, enquanto diversos espaços circunscritos são palco de acontecimentos intensos.

A tensão apodera-se de forma amiúde do corpo e da alma de "The Fog", com John Carpenter a conseguir jogar com os receios do espectador e dos personagens. O nevoeiro do título traz consigo o medo, a incerteza e um grupo de seres fantasmagóricos, com os objectivos destas criaturas a remeterem para uma lenda que é exposta numa espécie de prólogo. Diga-se que o prólogo é uma forma hábil de John Carpenter incutir desde o início uma faceta misteriosa e inquietante a "The Fog", enquanto cria uma atmosfera opressora e claustrofóbica em volta dos acontecimentos que rodeiam o enredo. A lenda é contada por Mr. Machen (John Houseman) a um grupo de petizes, na praia, quando o relógio marca cinco para a meia noite e o calendário está quase a virar para o dia 21 de Abril, uma data comemorativa para os habitantes de Antonio Bay, uma cidade que se prepara para completar cem anos de existência. Foi exactamente a 21 de Abril, ainda que há cem anos (mais precisamente em 1880), que o navio Elizabeth Dane se afundou, após os seus tripulantes terem sido ludibriados por uma estranha luz que penetrou pelo interior de um denso nevoeiro. Mais tarde descobrimos que este acidente não ocorreu ao acaso, com a história dos tripulantes do Elizabeth Dane a entroncar nos episódios que se sucedem ao longo de "The Fog" e a trazer repercussões para os herdeiros daqueles que fundaram este espaço com recurso a um ardil que provocou a morte alheia.

02 novembro 2017

Resenha Crítica: "It's Always Fair Weather" (1955)

 Pontuado por uma série de números musicais cheios de ritmo, diversificados e magnificamente coreografados, uma química indelével entre o trio de protagonistas e um sentimento agridoce a envolver a reunião dos personagens principais, "It's Always Fair Weather" coloca-nos diante de Ted Riley (Gene Kelly), Doug Hallerton (Dan Dailey) e Angie Valentine (Michael Kidd), três antigos militares que se reencontram dez anos depois de se terem separado e jurado amizade para toda a vida. Claro está que esse reencontro não decorre inicialmente como estes esperavam, com o esquecimento em relação aos motivos que os conduzia a brindar em honra de "Old Bootsie" a marcar de forma simbólica um momento menos risonho desta amizade que parecia ter tudo para perdurar. Estamos diante de um musical de sabores melancólicos e algo pragmáticos, ainda que mesclados com diversos momentos de humor, romance e até de pancadaria, com Stanley Donen e Gene Kelly a acertarem nesta reunião de tons no interior daquela que seria a última parceria de ambos como realizadores.

Se a parceria de Gene Kelly e Stanley Donen não resistiu às desavenças no set de filmagens de "It's Always Fair Weather", já a amizade de Doug, Angie e Ted parece inicialmente inquebrável, algo paradigmaticamente demonstrado num número musical que envolve uma noite louca em Nova Iorque, onde o trio dança, bebe, canta e diverte-se, após o personagem interpretado pelo primeiro ter sofrido uma desilusão amorosa. Gene Kelly, Dan Dailey e Michael Kidd avançam pelas ruas, enquanto correm, utilizam tampas de caixotes do lixo para sapatearem, ou um táxi para dançarem, com o trio a exibir um talento notório para estes números musicais ao mesmo tempo que exprime de forma muito eficaz os laços fortes que unem os personagens que interpretam. É uma noite de grande folia que termina praticamente onde começou, nomeadamente, no bar do Tim (David Burns), um estabelecimento nova iorquino que os três ex-militares frequentavam antes de terem partido para a Europa, tendo em vista a participarem na II Guerra Mundial. Segue-se mais um número musical, marcado por tons relativamente brandos e melancólicos, após o trio tomar consciência de que está de regresso à vida de civil, enquanto efectua juras de amizade para toda a vida. Ficamos diante de um momento que exprime paradigmaticamente uma faceta por vezes mais contida de "It's Always Fair Weather", com a canção "The Time For Parting", cantada pelo trio de protagonistas em pleno Tim's Bar, a transmitir a sensação de que um ciclo está a terminar e outro na iminência de começar.

30 outubro 2017

Crítica: "Le vénérable W." (2017)

 O monge budista Wirathu, líder do movimento ultranacionalista Ma Ba Tha, está no cerne de "Le vénérable W.", bem como o poder destrutivo do racismo e do ódio. Na capa da revista "Time" de 1 de Julho de 2013, encontramos o rosto deste indivíduo em destaque, acompanhado pelo título: "The Face of Budhist Terror". É uma descrição acertada, que provavelmente até peca por ser demasiado branda, ou não estivéssemos diante de uma figura abjecta, fria e assustadora, que não tem problemas em soltar um pérfido sorriso após proferir as mais variadas barbaridades, ou exibir um semblante carregado de convicção, algo demonstrado por diversas vezes ao longo do documentário. O "Bin Laden budista" é o elemento escolhido para encerrar a "Trilogia do Mal" de Barbet Schroeder, iniciada em 1974 com o documentário "Général Idi Amin Dada: Autoportrait", ao qual se seguiu "L'avocat de la terreur" (2007), um trio de filmes que permite que o cineasta se envolva pelas entranhas das trevas.

Se o budismo aparece muitas das vezes associado a um modo de vida pacifista e tolerante, já os valores de Wirathu são diametralmente opostos. O seu apreço por Donald Trump não surpreende, tal como a sua capacidade de utilizar notícias falsas para incitar o ódio e a revolta, enquanto o seu sentimento anti-muçulmano conta com doses carregadas de malícia e xenofobia. Schroeder deixa este indivíduo falar à vontade, sem contrariá-lo ou limitar o seu discurso, enquanto ficamos a observar o mal a transcorrer a partir das palavras, os actos e os gestos do monge. É uma medida certeira, que permite deixá-lo a expressar as suas ideias ao mesmo tempo que desperta a nossa perplexidade e coloca em evidência os traços da sua personalidade. Note-se quando pega no telemóvel para expor com demasiado entusiasmo um filme que reencena a violação e o assassinato de uma mulher budista, algo efectuado para despertar a indignação, ou os sermões públicos onde incita os seguidores a excluírem os muçulmanos e os seus estabelecimentos.

29 outubro 2017

Doclisboa 2017 - Entrevista a Fernanda Pessoa sobre "Histórias que nosso cinema (não) contava"

 A cineasta Fernanda Pessoa esteve em Portugal para apresentar "Histórias que nosso cinema (não) contava" na edição de 2017 do Doclisboa. O Rick's Cinema aproveitou a presença da realizadora no certame para efectuar algumas perguntas sobre este recomendável documentário. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o interesse de Fernanda Pessoa pela "pornochanchada", a forma como a crítica recebia estes filmes, a ligação forte destas obras com o presente, o estado de conservação de algumas destas fitas, entre outros assuntos. A fotografia ficou a cargo de Roni Nunes. A condução e a transcrição ficou a cargo deste blogger e o mérito pelas respostas extremamente interessantes é todo da realizadora.
 

Rick's Cinema: A "pornochanchada" está no centro de "Histórias que nosso cinema (não) contava" e da exposição Prazeres Proibidos. Como surgiu o seu interesse neste género que é muitas das vezes encarado com algum desdém?

Fernanda Pessoa: Na verdade, o meu interesse começa bem antes de ter a ideia de trabalhar sobre esse tema. Quando estava no último ano da faculdade de cinema, eu trabalhava nos arquivos de fotografia de cinema brasileiro de um montador do período, que se chama Máximo Barro, que montou uma série de filmes dos anos 70. O acervo de fotografias da minha universidade era basicamente o acervo do Máximo. Então existiam muitas fotos dessa época. Eu precisava de assistir a esses filmes para saber de onde é que vinham essas fotografias e começar a catalogá-las. Então comecei a ter um conhecimento muito grande daquela cinematografia que não se estuda muito no Brasil. Na Faculdade de Cinema quando chegamos nos anos 70 falam que a "pornochanchada" é muito ruim e no máximo assistes um filme e acabou. Não vês mais nada, não aprofundas esse assunto.
 Teve um filme que despertou a minha vontade de trabalhar em cima destas obras do ponto de vista histórico, que se chama "E agora José?", um filme que eu uso. O filme tem um subtítulo super politizado: "A Tortura do Sexo", que, para mim, já conta com imensa contradição que está aí no género. Eu vi esse filme e falei "tem aqui alguma coisa que a gente não está olhando". Fiquei com isso na cabeça. Isso em 2010. Em 2012, fui fazer o mestrado em França e fiz uma aula sobre reutilização de imagens de cinema experimental. Foi aí que tive a ideia de começar a observar esses filmes com um olhar histórico. Então, fui rever todos os filmes que tinha visto para o meu trabalho, procurando esses traços de História. Eu nasci em 1986, um ano depois da abertura democrática. Eu não vivi esse período, então queria aprender algo sobre o mesmo a partir desses filmes. Foi assim que surgiu a minha vontade de trabalhar em cima deles.


RC: Essa exposição coloca em diálogo os papéis da censura com as imagens e os sons. Quais eram os principais temas que eram alvo da censura? A censura teve alguma influência nos temas abordados nestes filmes? 

FP: Quando falamos na censura durante a Ditadura Militar no Brasil, pensamos acima de tudo em censura política, porque muitos cineastas foram perseguidos pela questão política. Os censores eram treinados para encontrarem mensagens subversivas, comunistas, etc, que se encontravam escondidas nos filmes. O que nos esquecemos muitas das vezes é que também existia uma censura moral muito forte. As obras da "pornochanchada" passaram acima de tudo por uma censura moral. Uma censura moralizadora e educadora. Não podia ter cenas em que as pessoas urinavam em via pública. Os palavrões eram cortados. No caso das cenas de sexo, inicialmente a censura só deixava destapar um seio, depois os dois, até que para o final já podiam mostrar quase tudo. A censura também vai evoluindo. Eles também procuravam coisas políticas, mas nestes filmes bem menos. Eles pensavam que estas obras cinematográficas não tinham teor político.
 Uma coisa que é interessante é que os realizadores começaram a inserir planos para serem censurados. Todos os filmes tinham pelo menos um plano que era censurado. Então eles pensavam: "Vou fazer um plano bem ousado para eles cortarem este plano e o resto poder continuar". Mas, como a censura não era tão objectiva, era muito personalizada, dependia do censor que pegava no filme para censurar, muitas das vezes esse plano ficava e outro que eles não imaginavam acabava por sair. Daria para pensar numa história da evolução desses planos. De como esses filmes foram ficando cada vez mais ousados, porque os realizadores estavam a tentar enganar a censura e esta encontra-se a ir para outros lados. Eles estão a tentar entender a censura e esta encontra-se a reagir de uma forma contrária àquela que tinham imaginado. 

28 outubro 2017

Crítica: "Martírio" (2016)

 "Martírio" é um documentário relevante e revoltante, pronto a despertar reflexão, informar, desfazer equívocos, despertar consciências e dar voz àqueles que são largamente silenciados, nomeadamente, os Guarani Kaiowá. É um regresso do realizador Vincent Carelli (que assina o filme ao lado de Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho) aos documentários que envolvem temáticas e problemáticas relacionadas com os indígenas, naquele que é o segundo capítulo de uma trilogia iniciada com "Corumbiara". No caso de "Martírio", o cineasta coloca em diálogo o passado e o presente, enquanto expõe as tentativas dos Guarani Kaiowá para reconquistarem algumas terras que pertenceram aos seus antepassados e viverem com a dignidade que lhes é constantemente roubada em actos de imensa desumanidade.

É uma luta desigual, que perdura há um largo número de anos, sempre com o mesmo lado a ser prejudicado, ou seja, o dos indígenas – com estes a terem de lidar com políticas desastrosas, a força do lobby rural e um conjunto de actos que desafiam, e muito, os Direitos Humanos. Na sua entrevista à Revista Trip, Carelli salienta que "Aqui não é a Síria, não é possível esses homicídios a bala em pleno século XXI!". Ao visionarmos o documentário compreendemos ainda mais o significado desta frase, tal a violência física e emocional que é infligida sobre as tribos sem que estas sejam defendidos de forma efectiva. Nesse sentido é de elogiar um filme como "Martírio", que consegue expor a complexidade que envolve estes assuntos e sobressair para além das boas intenções, com o realizador a demonstrar que efectuou todo um cuidado e meritório trabalho de investigação e recolha de informação.

27 outubro 2017

Crítica: "Nothingwood" (2017)

 Algures no Afeganistão existe um realizador bastante profícuo, que não se cansa de explanar o seu amor pela Sétima Arte, mesmo que para isso tenha de colocar a sua vida em perigo. Os conflitos ameaçam tudo e todos, a destruição e a morte pairam pelo território, mas este cineasta quer é fazer aquilo que mais gosta, ou seja, realizar filmes, algo exposto de forma bem viva ao longo de "Nothingwood". Com diversos trabalhos para a rádio e a televisão sobre o Afeganistão, a realizadora Sonia Kronlund centra uma parte considerável das atenções do documentário em Salim Shaheen, um cineasta afegão peculiar e carismático, apaixonado pelo cinema e pelo espectáculo, que não sabe ler nem escrever, exerce a sua profissão praticamente sem recursos e apresenta uma joie de vivre surpreendente. O contexto é delicado, embora Shaheen procure exercer o seu ofício sem medos, pronto a confiar o seu destino a uma entidade superiora, enquanto arrasta consigo uma energia notória e conta com uma equipa sui generis.

O território onde decorrem as filmagens conta com a presença de minas? Não importa, Shaheen aventura-se pelo mesmo na companhia da sua equipa. Tudo é muito rudimentar, quase amador, desenvolvido com orçamentos limitadíssimos e enormes doses de carolice, enquanto o realizador expõe a sua faceta extrovertida, infantil e bonacheirona, embora a espaços seja notório que está a representar para a câmara. A equipa alinha no jogo, enquanto ficamos diante da abordagem de episódios que permitem não só incutir uma faceta leve e pitoresca ao filme, mas também abordar temáticas relacionadas com o papel da mulher, a presença dos Talibans, a homossexualidade, a guerra, entre outras. Note-se quando encontramos Kronlund a efectuar questões subtis sobre a ausência de figuras femininas (o protagonista nunca deixa as suas duas esposas e as suas filhas aparecerem), ou a expor situações relacionadas com a dificuldade das mulheres em entrarem no mundo do espectáculo, com este "silêncio" a reforçar o conservadorismo desta sociedade.

26 outubro 2017

Crítica: "Qualcosa di nuovo" (Algo de Novo)

 Comédia de enganos que não ludibria ninguém, "Qualcosa di nuovo" não tem estofo para cumprir os objectivos mínimos, pese a simpatia despertada pelos seus intérpretes. É certo que dão vida a lugares-comuns ambulantes, embora consigam incutir alguma energia aos personagens que interpretam, enquanto protagonizam uma série de episódios que variam entre o pueril, redundante, o suportável e o excruciante. Falamos de Lucia (Paola Cortellesi), Maria (Micaela Ramazzotti) e Luca (Eduardo Valdarnini). A primeira é uma cantora de jazz divorciada, algo frígida e introvertida. A segunda é divorciada, tem dois filhos e envolve-se regularmente em conquistas de uma noite. As duas são amigas desde o liceu, trocam regularmente confidências e exibem as suas diferenças de forma amiúde. O terceiro é um estudante de dezanove anos de idade, que terminou recentemente um namoro e está a finalizar o ensino secundário.

Os destinos dos três personagens reúnem-se após uma noite de farra em que Maria acorda sem saber lá muito bem o que aconteceu, tendo levado mais um estranho para a sua casa. Para o caso de não terem adivinhado, o desconhecido é Luca, com o jovem a demonstrar uma enorme surpresa pelo seu feito. Um mal-entendido leva a que o estudante pense que Lucia é Maria e que Maria é Lucia, com estas a tentarem manter a mentira. Aos poucos gera-se uma espécie de triângulo amoroso, com as duas amigas a envolverem-se com o estudante, embora mantenham este caso em segredo uma da outra, apesar de parecer quase certo que mais tarde ou mais cedo vão descobrir que se encontram a protagonizar um romance com o mesmo indivíduo.

25 outubro 2017

Crítica: "Histórias que nosso cinema (não) contava" (2017)

 Sem recurso à narração em off, ou a talking heads, "Histórias que nosso cinema (não) contava" efectua uma releitura histórica da Ditadura Militar no Brasil com recurso a alguns trechos de obras cinematográficas da chamada "pornochanchada", um género muito em voga no Brasil durante os anos 70. A montagem ritma o diálogo entre os filmes, enquanto a realizadora Fernanda Pessoa recupera um pedaço do património histórico do cinema brasileiro e coloca primorosamente as imagens e os sons a conversarem entre si. Nota-se que existiu todo um cuidado de pesquisa e selecção das obras, bem como uma tentativa de realçar filmes e cineastas nem sempre conhecidos, ou devidamente valorizados, com o documentário em análise a surgir quer como um meio para viajarmos temporariamente à década de 70, quer como uma porta de entrada para uma filmografia que anseia por ser reencontrada.

Entre os exemplares seleccionados encontram-se pedaços de obras como "Aventuras Amorosas de um Padeiro" (Waldir Onofre), onde encontramos um grupo de mulheres a apreciarem atentamente os corpos dos trabalhadores das obras, enquanto estes falam sobre as suas conquistas. O sexo e o desejo estão muito presente ao longo destas películas, tal como a objectificação da mulher, com o trecho mencionado a ser um exemplo disso. Também o machismo é particularmente notório nestas obras, bem como a nudez gratuita e o sexo. Os próprios títulos contam imensas vezes com conotações sexuais ou duplo sentido, como podemos verificar na ficha de fitas utilizadas. "Elas são do Baralho" (Sílvio de Abreu) é um desses exemplares, tal como "Palácio de Vênus" (Ody Fraga), com este último a brindar-nos com a representação do planeamento de uma greve por parte de um grupo de prostitutas.

24 outubro 2017

Crítica: "No Intenso Agora" (2017)

 A melancolia apodera-se de forma amiúde de "No Intenso Agora", ou não estivéssemos diante de um documentário que nos coloca diante do desfazer dos sonhos e do fracasso de algumas revoluções, bem como pelos efeitos da passagem do tempo e das recordações. O ponto de partida é algo de muito pessoal, nomeadamente, os vídeos amadores elaborados pela mãe de João Moreira Salles, com o realizador a saber conciliar essa faceta imensamente particular com a abordagem de temáticas mais abrangentes. Esses filmes familiares remetem para uma viagem que a progenitora do cineasta efectuou à China, em 1966, durante o primeiro ano da Revolução Cultural Chinesa, com Salles a mesclar a visão da progenitora com os textos de Alberto Moravia e alguns comentários muito próprios que elabora sobre o período.

Os livros vermelhos na mão dos jovens, o culto quase religioso dedicado a Mao, as tonalidades encarnadas que rodeiam os cenários e a iconografia comunista fazem parte deste espaço que causou algum espanto na mãe do realizador, sobretudo por ser um país oposto a tudo aquilo a que estava habituada, algo exposto nas imagens que captou e no discurso do cineasta. Ficamos perante o fulgor da Revolução Cultural Chinesa e de uma certa sensação de amargura com traços de melancolia por sabermos o seu desfecho, com este sentimento a ser transversal aos outros episódios históricos retratados ao longo do filme. Salles reúne acuradamente filmes amadores, fotografias, imagens de arquivo e discursos da rádio para abordar uma série de acontecimentos relacionados com o Maio de 68, a Primavera de Praga, os conflitos entre a ditadura militar do Brasil e o movimento estudantil e a Revolução Cultural Chinesa, sempre de forma dinâmica e a colocar em diálogo os eventos que marcaram este período.

23 outubro 2017

Crítica: "The Love Witch" (A Feiticeira do Amor)

 O vermelho é a cor dominante de "The Love Witch", uma tonalidade que exacerba a sedução, a morte, o desejo, a inquietação, o perigo e o sangue. Note-se logo nos momentos iniciais, quando encontramos Elaine (Samantha Robinson), a protagonista, a utilizar um vestido vermelho, com o seu batom, o verniz das suas unhas e o seu carro a partilharem esta cor. O cor-de-rosa também é utilizado de forma amiúde pela personagem principal, com esta tonalidade a encontrar-se associada à ingenuidade, fragilidade e delicadeza. Estamos perante duas cores que permitem exacerbar de forma rápida e eficaz os contrastes que permeiam os comportamentos e a personalidade desta bruxa, com Elaine a tanto ter um lado mortal, sensual e perigoso como uma faceta de ingénua, frágil e trágica.

Como já podem ter reparado, a paleta de cores é utilizada com enorme fulgor e inspiração ao longo de "The Love Witch", quase a fazer recordar a série "Bewitched", ou um melodrama de Douglas Sirk filmado em technicolor, com Anna Biller, a responsável pela realização, argumento, montagem e produção, a exibir um enorme cuidado neste quesito. Uma atenção que é colocada ainda na decoração dos cenários interiores. Observe-se a casa onde a protagonista se instala. A habitação sobressai quer pelas tonalidades vermelhas e azuis garridas, quer pelos quadros, candeeiros, vasos e potes associados à bruxaria ou aos seus rituais, com a sua decoração a contribuir para Biller transmitir a extravagância que envolve algumas das práticas ligadas à feitiçaria, bem como a explosão de cores que rodeia o mundo destes personagens. 

22 outubro 2017

Oito anos de Rick's Cinema

 Não existe muito para dizer quando um blog atinge oito anos de duração, ou talvez até exista imenso para escrever. Acima de tudo são oito anos de imensa aprendizagem, com algumas paragens pelo meio e uma obsessão enorme pelo cinema e pela escrita. É tempo de sobra para já me sentir embaraçado com o resultado de alguns textos da aurora deste espaço, bem como para colocar em confronto os meus gostos e as minhas ideias iniciais para o blog. Ao todo já são mais de mil e seiscentas críticas publicadas (confesso que praticamente só estou à vontade com os textos de 2015 para a frente), mais entrevistas do que pensava alguma vez fazer quando abri este espaço e uma imensa sede de descoberta. O Rick's Cinema transformou-se no meu diário cinéfilo, bem como num espaço que utilizo para tentar evoluir a nível da escrita e da análise de filmes. Esse inconformismo contribui e muito para a manutenção deste espaço, tal como esta estranha ligação com o cinema e uma enorme vontade de comunicar através da escrita. Obrigado a quem tem acompanhado esta longa viagem.

21 outubro 2017

Crítica: "Toivon tuolla puolen" (O Outro Lado da Esperança)

 A presença do fumo emanado pelos cigarros é largamente sentida ao longo de "Toivon tuolla puolen". É um vício para os personagens e um recurso fundamental para Aki Kaurismäki, ou este sombreado cinzento que enevoa os cenários não permitisse adensar a faceta efémera de alguns episódios e sentimentos, ou reforçar a incerteza em volta do destino dos protagonistas. Note-se um jogo de póquer que sobressai quer pelas expressões sérias e os diálogos concisos dos intervenientes, quer pela fumaça que rodeia o cenário onde Wikström (Sakari Kuosmanen), um dos protagonistas, decide apostar o dinheiro que ganhou após ter vendido o recheio do seu negócio. A inquietação rodeia este momento que é elevado pelo sublime trabalho de fotografia de Timo Salminen, pronto a deixar que a presença do fumo nunca seja esquecida e a incerteza paire pelo ar, enquanto Sakari Kuosmanen expõe algumas particularidades deste personagem. 

Kuosmanen imprime um olhar questionador e penetrante ao personagem que interpreta, bem como uma faceta séria e directa, quase desprovida de expressões, mas não totalmente despojada de sentimentos quentes. No início do filme encontramos Wikström a separar-se da esposa (Kaija Pakarinen), uma mulher alcoólica. O fumo dos cigarros, o álcool e o silêncio pontuam este episódio, com os gestos destes personagens a explanarem de forma paradigmática a distância que marca a relação, enquanto ficamos diante de alguns traços das suas personalidades. Não existem gritos, tensão ou raiva, simplesmente o desapego, com Kaurismäki a realçar o poder do silêncio. Mais tarde, o nosso protagonista decide adquirir um restaurante manhoso, que conta com um retrato de Jimmy Hendrix e um grupo peculiar de funcionários, embora nem sempre pareça estar preparado para gerir este espaço. É um cenário de relevo, decorado e aproveitado de forma certeira, que Wikström procura tornar financeiramente rentável, um desiderato que proporciona algumas peripécias dotadas de humor.

20 outubro 2017

Crítica: "Napalm" (2017)

 "A história de um 'encontro breve', em 1958, entre um membro francês da primeira delegação da Europa Ocidental oficialmente convidada para a Coreia do Norte, após a devastadora Guerra da Coreia, e uma enfermeira do hospital da Cruz Vermelha em Pyongyang".

É esta a sinopse de "Napalm" no site do Doclisboa, onde integra a secção "Da Terra à Lua". O melhor que se pode dizer é que é um documentário sobre a memória e as recordações de Claude Lanzmann sobre esse encontro (é ele o francês da sinopse), com o cineasta a expor de forma bastante descritiva e pessoal os acontecimentos que conduziram à sua entrada na Coreia do Norte e ao seu "breve encontro" com a enfermeira Kim Kun-sun. A espaços esse longo monólogo também permite explanar levemente alguns traços do contexto político, social e cultural da época, embora não escamoteie que estamos diante do resultado de um trabalho efectuado de forma bastante convencional, preguiçosa e indulgente.

Boa parte do documentário resume-se a close-ups da face do cineasta, por vezes intercalados por algumas imagens de arquivo, enquanto este recorda o passado, quase sempre no mesmo tom de voz, com o foco a estar maioritariamente centrado na sua pessoa e na enfermeira que conheceu na Coreia do Norte. Nem chega a ser um exemplo de um caso particular que serve para abordar algo mais lato, já que quando se embrenha pelo romance, quase tudo o resto parece acessório para o cineasta, algo que sabota os primeiros trinta minutos relativamente recomendáveis do filme. Note-se quando encontramos Lanzmann e a sua equipa a filmarem às escondidas na Coreia do Norte, em 2015, na sua terceira visita ao território, efectuada para desenvolver o documentário, com a câmara a movimentar-se de forma desengonçada e o som a ser captado com alguma dificuldade. Esses trechos, intercalados com imagens de arquivo e fotografias, permitem efectuar um diálogo entre o presente e o passado deste território, com as marcas da Guerra da Coreia a poderem ter sido apagadas do "corpo" desta nação, embora ainda permaneçam na sua alma.

18 outubro 2017

Crítica: "The Big Sick" (Amor de Improviso)

 "Uhuu" grita Emily (Zoe Kazan) após Kumail (Kumail Nanjiani) ter questionado se estava alguém do Paquistão na plateia. Este episódio ocorre durante um espectáculo de stand-up comedy e permite não só interromper o número do segundo, um comediante e motorista da Uber, mas também dar o ponto de partida para a relação terna e peculiar destes dois personagens. O romance é desenvolvido com sensibilidade, doses assinaláveis de humor e beneficia imenso da química entre Nanjiani e Kazan, uma dupla que tem o dom de nos convencer de que existe algo forte a brotar entre estes dois jovens. Ambos transmitem afabilidade, contam com inseguranças e ambicionam algo mais da vida, enquanto partilham uma certa dose de imaturidade e uma enorme capacidade para despertar a nossa simpatia.

A intercalar estes momentos entre o casal encontram-se os espectáculos de stand-up e os episódios nos bastidores do clube onde o protagonista trabalha, mas também as reuniões de Kumail com a família. Estes são oriundos do Paquistão, tal como o personagem principal, ou seja, onde os casamentos são arranjados, com "The Big Sick" a abordar esta temática e os choques culturais, sempre sem apresentar uma postura pejorativa do "outro lado". É certo que o filme usa e abusa das repetições de encontros do comediante com potenciais noivas, algo que começa por ser um gag bem arquitectado, até se gastar e tornar-se apenas redundante. No entanto, estes encontros também permitem expor as dinâmicas muito peculiares desta família e colocar em evidência que Kumail vai ter de tomar uma decisão difícil, seja esta contrariar a tradição ou terminar o namoro.

17 outubro 2017

Crítica: "Jeune femme" (2017)

 Nem sempre é fácil atingir a independência, ou sentir confiança em nós próprios, que o diga Paula (Laetitia Dosch), a protagonista de "Jeune femme", uma mulher de trinta e um anos de idade, olhos bipolares e expressivos, uma personalidade explosiva e uma dificuldade notória para lidar com a solidão. No início do filme encontramo-la a bater na porta da casa de Joachim (Grégoire Monsaingeon), o seu companheiro, após ter sido abandonada pelo mesmo. A violência e o descontrolo são enormes, tal como a desilusão pelo final abrupto da relação, algo notório quando embate com a cabeça na porta e abre uma ferida na testa.

Pouco depois, ficamos perante um close-up que nos deixa diante do rosto da personagem principal, quando esta se encontra no hospital. Paula discute com o médico e procura escapulir-se do local, enquanto a sua voz expressa uma certa instabilidade emocional, uma dor lancinante que percorre a alma e exacerba uma sensação de incerteza em relação ao futuro. O destaque ao seu rosto e à sua voz não acontece ao acaso, com o corpo, a alma, os sentimentos e a personalidade de Paula a estarem no centro de quase tudo. É a jornada desta personagem que acompanhamos ao longo da primeira longa-metragem realizada por Léonor Serraille, enquanto a Jeune femme protagoniza uma série de episódios que a marcam e conhece ou reencontra uma miríade de pessoas que influenciam a sua existência.

16 outubro 2017

Crítica: "Zombillénium" (2017)

 É uma enorme vantagem visionar um filme de animação numa sessão com crianças e pré-adolescentes, sobretudo quando a obra em questão é francamente direccionada para esta faixa etária, ainda que com imensos piscares de olho aos adultos. A vantagem é óbvia: as reacções do público são espontâneas e sinceras. Os risos surgiram em diversas ocasiões e um "bué da fixe" por parte de uns petizes no final da sessão assinalaram algo evidente: "Zombillénium" é um filme deveras simpático. Diga-se que essa simpatia é conquistada devido à criatividade e competência dos envolvidos. Os temas são desenvolvidos com simplicidade e sinceridade, sejam estes relacionados com a paternidade, a igualdade, a tolerância, o luto, ou os direitos dos trabalhadores, enquanto os personagens contam com personalidades e fisionomias que prendem facilmente a atenção, com Arthur de Pins e Alexis Ducord, a dupla de realizadores, a criarem um universo narrativo convincente.

 O título remete para um parque de diversões que conta com vampiros, lobisomens, bruxas, esqueletos, zombies e afins como trabalhadores, com os primeiros a estarem no topo da hierarquia, enquanto os últimos estão na parte inferior da pirâmide social deste espaço gerido por Francis. Este é um vampiro sensato, que responde directamente ao Diabo e encara o parque como um meio essencial para manter as diversas criaturas afastadas do Inferno e salvaguardar os zombies. Quando Hector, um inspector rigoroso, viúvo, tenta fechar o parque, Francis não tem outra alternativa a não ser morder o pescoço deste indivíduo. Por sua vez, um lobisomem também morde Hector, algo que conduz o protagonista a ficar com a forma de um demónio semelhante a Hellboy e a ser obrigado a trabalhar no parque de diversões, embora ainda tente escapulir-se, pois Lucie, a sua filha, ficou orfã. A jovem sofre com a perda do pai, ao passo que Hector tem de se adaptar às dinâmicas do parque, forma amizades e rivalidades e tenta ajudar a salvar este espaço de uma crise financeira.

15 outubro 2017

Crítica: "Compte tes blessures" (2016)

 Kévin Azaïs tem em Vincent um personagem que marca uma carreira, com o actor a conseguir explanar as diferentes vertentes deste jovem complexo e intrigante. O intérprete começa por expor a faceta segura, intensa, inquieta, revoltada e carismática de Vincent como vocalista e líder de uma banda de hard rock. Mais tarde, exibe o lado inseguro e frágil do protagonista quando está na presença de Hervé (Nathan Willcocks), o seu pai, com quem vive num apartamento, após o falecimento da mãe. Posteriormente transmite a delicadeza, a capacidade de sedução e a irreverência do personagem principal de "Compte tes blessures", nomeadamente, quando está na companhia de Julia (Monia Chokri), a namorada do progenitor. Azaïs convence em todos os momentos anteriormente mencionados ao mesmo tempo que se exibe como um intérprete exímio a expressar-se quase sem proferir uma única palavra.

O corpo de Azaïs tanto pode servir para expor o lado mais intimidativo e rebelde de Vincent como a sua fragilidade, enquanto o seu olhar transmite uma imensidão de sentimentos, com Morgan Simon a aproveitar ao máximo o talento do seu intérprete. Estreante na realização de longas-metragens, Simon tem em "Compte tes blessures" uma cápsula de sentimento e emoção, uma espécie de tatuagem que marca a pele, avança pela carne e prende-se à nossa alma. É filme para não deixar ninguém indiferente, que inebria, choca, mexe com as emoções, que se lixa para as convenções e atira-se furiosamente ao espectador para lhe dar algo inesquecível. Marcante é um adjectivo que peca por escasso e por ser demasiado fácil para descrever esta obra cinematográfica, ou não estivéssemos diante de um filme em que uma reunião familiar pode contar com mais intensidade e agressividade do que um concerto de hard rock. Nem a música de Julio Iglesias está a salvo, com a banda sonora a ser utilizada com tanta inspiração como são desenvolvidas as ligações destes personagens.