24 outubro 2016

Resenha Crítica: "Comoara" (Tesouro)

 Será que ainda existem tesouros por descobrir? As salas de cinema surgem como locais propícios para a descoberta de alguns tesouros cinematográficos, algo que "Comoara", o novo filme de Corneliu Porumboiu comprova de forma relativamente eficaz. É uma pequena preciosidade oriunda da Roménia, com "Comoara" a colocar-nos diante de uma dupla de protagonistas relativamente peculiar, que enceta uma busca desajeitada por um hipotético tesouro. A procura pelo tesouro é efectuada por Costi (Toma Cuzin) e Adrian (Adrian Purcărescu), dois indivíduos de personalidades distintas, com esta aventura a permitir explorar não só a história da propriedade onde o tesouro se encontra supostamente localizado, mas também alguns episódios relacionados com o passado e o presente da Roménia, para além de nos dar a conhecer alguns traços da personalidade da dupla de protagonistas de "Comoara". A existência do tesouro não é uma certeza, embora esse "pequeno" detalhe não impeça a dupla de protagonistas de se envolver numa aventura de contornos caricatos, com o estilo meio ingénuo e sonhador de Costi a combinar praticamente na perfeição com o desespero e maior arrogância de Adrian. Costi é um indivíduo casado com Raluca (Cristina Cuzina Toma), de quem tem um filho, o jovem Alin (Nicodim Toma), com o trio a contar com um quotidiano aparentemente calmo. Alin é um rapaz de seis anos de idade, relativamente sonhador, que gosta de ouvir o pai a ler histórias, sobretudo quando estas se encontram relacionadas com Robin Hood. Raluca é uma mãe cuidadosa e extremosa, que se preocupa com o facto de o filho estar a ser alvo das tropelias de um bullie. Costi trabalha numa instituição pública, algo que lhe dá alguma segurança financeira, embora viva de forma simples com a esposa e o filho, num apartamento situado em Bucareste. Corneliu Porumbiou aborda eficazmente a vida pessoal de Costi, com Toma Cuzin a conseguir transmitir o tom ponderado, afável e sonhador deste personagem, um indivíduo com quem nos identificamos com alguma facilidade. A própria habitação de Costi, decorada de forma simples e modesta, permite expor as características despretensiosas e humildes desta família, com "Comoara" a contar com um trabalho eficaz a nível da decoração dos cenários interiores, algo notório no caso do apartamento do protagonista, com este espaço a reflectir a personalidade e o estatuto social do personagem interpretado por Toma Cuzin. O quotidiano de Costi muda quando Adrian, o vizinho do quarto andar, pede-lhe dinheiro emprestado. Adrian outrora contou com uma editora, embora a chegada da crise financeira tenha contribuído para o encerramento da mesma. Este tem uma série de contas para pagar, embora não possua condições para cumprir com os compromissos assumidos com os bancos, inclusive naquilo que diz respeito à renda da casa. Costi fica espantado com a dívida do vizinho, bem como com a taxa de juro que Adrian se encontra a tentar pagar, com Corneliu Porumboiu a mandar uma bicada nos bancos e a expor a crise financeira e o desemprego que assolou o país. Diga-se que Poromboiu efectua ainda um retrato mordaz da polícia (que tem a necessidade de contratar um assaltante para abrir um cofre), do funcionalismo público (veja-se a forma como Costi se consegue escapulir ao trabalho), bem como da burocracia do país, com o argumento da autoria do cineasta a contar com algum humor negro e trechos onde absurdo se encontra bastante presente. Após exibir o seu desespero a Costi, Adrian decide revelar um segredo mirabolante. Antes de falecer, o avô de Adrian revelou que o bisavô do protagonista escondera um tesouro no interior da propriedade da família, um acto que fora efectuado antes dos comunistas expropriarem os antigos ocupantes deste espaço.

Adrian não sabe ao certo a localização do tesouro, embora encare a existência do mesmo como uma tábua de salvação para conseguir manter os seus bens e ultrapassar a crise financeira. Nesse sentido, Adrian propõe que Costi pague oitocentos euros para alugar um detector de metais e os serviços de um especialista para ajudá-los nesta empreitada, prometendo dividir metade do conteúdo do tesouro com o vizinho. Costi apresenta alguma relutância e cepticismo, embora embarque nesta aventura peculiar em busca de um suposto tesouro que se encontra algures numa propriedade em Islaz, um local que se encontra a onze quilómetros de Turnu Magurele. O terreno encontra-se actualmente dividido em duas partes, com uma parcela a corresponder a Adrian e outra ao irmão, embora, na prática, a propriedade ainda pertença à mãe do primeiro. Diga-se que este espaço conheceu uma série de alterações ao longo da história. Antes de ser nacionalizado pelos comunistas, este terreno era único, até ter sido transformado num jardim de infância. Posteriormente, este espaço foi utilizado quer como um bar de jogos (na parte do irmão de Adrian), quer como um clube de strip (na parte de Adrian), com a propriedade a contar com uma história imensa e um suposto tesouro. Costi contrata os serviços de Cornel (Corneliu Cozmei), um indivíduo que utiliza ilegalmente os materiais da empresa de detecção de metais do patrão, embora nem sempre pareça saber manejar estas máquinas. A busca é demorada, a espaços conta com episódios caricatos e assume contornos desesperantes, com Adrian a parecer estar sempre mais impaciente, enquanto Costi procura manter a calma. Adrian e Cornel chegam a entrar em conflito, com a personalidade forte de ambos a colidir, sobretudo quando se adensam as dúvidas em relação à localização e ao conteúdo do suposto tesouro. Os nervos e as dúvidas por vezes apoderam-se deste trio, embora Porumboiu premeie os personagens e os espectadores com uma conclusão que se adequa praticamente na perfeição ao tom de "Comoara", uma obra cinematográfica onde o "realismo", o absurdo e uma faceta a puxar para a fantasia se encontram presentes. O argumento consegue conjugar harmoniosamente estes ingredientes de características distintas, com o humor a encontrar-se presente em situações tão caricatas como Costi contactar uma empresa relacionada com a detecção de metais e não saber informações sobre a propriedade do vizinho, ou a polícia a necessitar dos serviços de Lica (Dan Chiriac), um ladrão, para abrir um cofre. Já o estilo meio sonhador de Costi permite alguns momentos que tanto têm de ingénuos como de ternos quando este personagem se encontra na presença do filho, algo clarividente no terceiro acto do filme. Por sua vez, Adrian apresenta uma personalidade menos afável, com a sua pouca saúde financeira a trair muitas das vezes o seu pragmatismo. Diga-se que os antepassados de Adrian contam com uma relação complicada com o passado da Roménia, enquanto este se digladia com alguns dos problemas do país no presente. Se outrora os familiares de Adrian foram expropriados devido à ascensão comunista, sobretudo com o "Regime Ceauşescu", já o protagonista está prestes a perder a habitação para os bancos, com as diferentes gerações desta família a lidarem com problemáticas diferentes que acabam por colocar em perigo a sua propriedade privada. Adrian Purcarescu conta com uma interpretação pontuada pela sobriedade, com Corneliu Porumboiu a conseguir que os seus intérpretes praticamente se transformem nos personagens e façam com que os espectadores se esqueçam que estamos diante de alguém que está a representar.

 "Comoara" remete ainda para elementos de outros filmes da chamada "Nova Vaga do Cinema Romeno", entre os quais se incluem obras cinematográficas de Corneliu Porumboiu, tais como "A fost sau n-a fost?" e "Când se lasã seara peste Bucuresti sau metabolism". No caso, "Comoara" remete sobretudo para "A fost sau n-a fost?". Não faltam os planos compostos de forma cuidada, que contam com uma duração relativamente longa, uma utilização assertiva dos sons diegéticos (a música não diegética praticamente não é utilizada), algumas doses de humor negro, temáticas que colocam em diálogo o passado e o presente da Roménia, comentários de cariz social, entre outros exemplos. O cuidado na composição dos planos é latente ao longo de "Comoara", com estes a surgirem muitas das vezes fixos, embora nem todos sejam completamente desprovidos de mobilidade, enquanto nos deparamos com uma dupla de protagonistas relativamente peculiar, que enceta desajeitadamente uma aventura em busca de um tesouro. Esta busca é efectuada num terreno de dimensões alargadas, com a temperatura relativamente fria a não ajudar em nada os protagonistas, até a noite cair e a incerteza se acercar da mente e da alma de Adrian, Costi e Cornel. Todos estão neste local com objectivos diferentes. Costi para comprovar a teoria do vizinho, ajudar o mesmo e ganhar algo pelo caminho (inclusive o respeito do filho). Adrian para resolver os seus problemas financeiros. Cornel para receber o dinheiro pelo serviço prestado a detectar os metais na área designada. O trio enceta uma tarefa que se encontra longe de ser fácil, com Adrian e Costi a estarem quase sempre em destaque, sobretudo este último. Costi procura manter uma faceta sonhadora e transportá-la para o filho, tendo em vista a que o rebento o encare como uma espécie de herói, enquanto procura enfrentar situações típicas do dia a dia, tais como pagar as contas, cumprir as tarefas laborais e efectuar os afazeres domésticos, com Toma Cuzin a surgir como um dos grandes destaques de "Comoara". Entre uma busca pelo tesouro que traz mais incertezas do que certezas, algumas contrariedades, humor negro e diversos comentários sobre o passado e o presente da Roménia, uma realização certeira de Corneliu Porumboiu e interpretações pontuadas pela sobriedade, "Comoara" faz justiça ao seu título e surge como um pequeno tesouro cinematográfico.

Título original: "Comoara".
Título em Portugal: "Tesouro".
Realizador: Corneliu Porumboiu.
Argumento: Corneliu Porumboiu.
Elenco: Toma Cuzin, Adrian Purcărescu, Corneliu Cozmei, Cristina Toma, Dan Chiriac.

22 outubro 2016

Sete anos de Rick's Cinema

 O Rick's Cinema completa hoje sete anos de vida, uma marca que me surpreende, sobretudo devido a alguns episódios que ocorreram ao longo do ano. Desde bloqueios criativos, passando por alguns reveses inesperados a nível profissional e pessoal, até a um questionar sobre a continuidade do blog, não faltaram peripécias ao longo deste ano que me deixaram perante a certeza de que não vale a pena efectuar planos a longo prazo. É impossível controlar tudo aquilo que nos rodeia, bem como o modo como reagimos aos revezes, pelo que não faz sentido estar a prometer algo passível de não ser cumprido (tendo em conta que é um blog individual, se eu falhar, tudo falha). Nesse sentido, os planos para o futuro do blog são praticamente nulos, ou melhor, passam por tentar que o Rick's Cinema continue activo até ao seu oitavo aniversário. No caso de continuar, a imagem para ilustrar este pequeno texto já exibe que a ideia passa por dar cada vez mais destaque ao cinema italiano (já estão a caminho textos sobre "Tutti i santi giorni", "La ragazza con la valiglia", "Cronaca Familiare", "Il sorpasso", entre outros). Por sua vez, as coberturas a festivais e mostras de cinema vão ficar praticamente de lado, tal como os visionamentos. A razão para esse afastamento é simples: quero ter tempo para degustar os filmes e reflectir sobre os mesmos, algo impossível de fazer numa cobertura exaustiva. Um grande obrigado a quem tem seguido este espaço, sobretudo às pessoas simpáticas que demonstram que se encontram atentas ao Rick's Cinema.

21 outubro 2016

Resenha Crítica: "Smetto quando voglio" (Paro quando quiser - Génios à Rasca)

 Em "I soliti ignoti", Mario Monicelli colocou o espectador diante de um grupo composto por indivíduos com posses financeiras diminutas, pouco instruídos e incompetentes, que procuravam assaltar a "comadre" de uma loja de penhores. "I soliti ignoti" é um exemplo paradigmático das grandes comédias à italiana, com Mario Monicelli a encontrar o humor na tragédia, enquanto satiriza os filmes de assalto e coloca o espectador diante de um conjunto de personagens pouco instruídos, que efectuam pequenos roubos e vivem à margem da sociedade na periferia de Roma. No caso de "Smetto quando voglio" (em Portugal: "Paro quando quiser - Génios à Rasca"), a primeira longa-metragem realizada por Sydney Sibilia, o contexto é muito semelhante ao de "I soliti ignoti", embora conte com uma diferença: os protagonistas não são um grupo de indivíduos pouco instruídos, mas sim licenciados e mestres que caíram no desemprego ou em empregos precários. Não faltam pontos de união entre "I soliti ignoti" e "Smetto quando voglio", tais como os personagens à margem da sociedade, o aproveitamento de alguns espaços da cidade de Roma, um grupo de criminosos peculiares, a utilização de alguns estereótipos ao serviço da comédia, os planos rocambolescos, a capacidade de encontrar o humor em situações trágicas e os comentários de foro social. Os elementos que compõem o grupo de traficantes de "Smetto quando voglio" denotam um conhecimento acima da média em áreas tão distintas como antropologia, neurobiologia, arqueologia, macroeconomia, letras clássicas, embora não contem com experiência nos meandros do tráfico de substâncias estupefacientes. Esse desconhecimento não impede que os membros do grupo consigam criar uma smart drug que se revela um sucesso de vendas ao ponto destes indivíduos começarem a irritar traficantes poderosos e perigosos como Murena (Neri Marcorè) e despertarem a atenção das autoridades. No início de "Smetto quando voglio", somos colocados diante de um assalto a uma farmácia, enquanto Pietro Zinni (Edoardo Leo), o protagonista, expõe o contexto legal que o conduziu a reunir um grupo de amigos para entrar neste negócio que tem tanto de lucrativo como de perigoso: "Em Itália, para ser definida como uma droga, uma substância deve estar na lista de moléculas ilegais do Ministério da Saúde. Cocaína, Heroína, Anfetaminas, Metadona, Ecstasy, e mais ou menos 200 outras moléculas compõem esta lista. Se uma molécula não estiver nesta lista, pode-se fabricá-la, tomá-la, mas, acima de tudo, vendê-la". Nesta espécie de prólogo, encontramos o protagonista a entrar numa farmácia, bem como os restantes elementos do grupo, tendo em vista a furtarem o estabelecimento, embora a conjuntura que envolve este episódio apenas seja revelada numa fase mais adiantada da narrativa, com Sydney Sibilia a aproveitar os momentos iniciais para expor de forma prática e rápida o personagem principal e a forma como este procurou contornar as leis para iniciar um negócio lucrativo e perigoso. Pouco depois desta apresentação curta e rápida, a narrativa recua quatro meses, com Sydney Sibilia a colocar o espectador diante de todo o contexto que conduziu Pietro Zinni a entrar no negócio das smart drugs e a formar um grupo de traficantes peculiares. Pietro Zinni é um investigador universitário, formado em neurobiologia, que tem um mestrado em ciências neurológicas informáticas e outro em dinâmica molecular. Este procura fazer de tudo para convencer a comissão da universidade a conceder o financiamento necessário para uma investigação supostamente revolucionária na qual o investigador se encontra a trabalhar. No entanto, a crise financeira conduz a cortes nos investimentos e despesas da universidade, uma situação que afecta Pietro, com este a perder o concurso para a investigação, bem como o emprego como investigador.

 De um momento para o outro, Pietro não só perdeu o sonho de conseguir alguma independência financeira, aos trinta e sete anos de idade, mas também ficou desempregado. É certo que Pietro conta ainda com um trabalho como explicador, embora os alunos não encarem as aulas de apoio a sério, para além de não pagarem a verba estipulada devido à crise financeira, ou seja, a vida profissional do protagonista está numa fase completamente caótica. Diga-se que a vida pessoal de Pietro também está longe de atravessar uma fase bastante positiva. Pietro habita com Giulia (Valeria Solarino), a sua namorada, uma assistente social, num apartamento modesto, sem grandes luxos, com ambos a terem de efectuar um esforço enorme para pagarem as contas mensais. Sem emprego ou perspectivas profissionais risonhas, Pietro encontra-se num beco aparentemente sem saída, sobretudo a partir do momento em que mente à namorada ao revelar que conseguiu a bolsa de investigação. Perante a instabilidade financeira que marca o seu quotidiano, Pietro decide revoltar-se contra o sistema e utilizar os seus conhecimentos e dos seus amigos para aproveitar as brechas na lei italiana e criar smart drugs. Os amigos de Pietro também não se encontram numa situação favorável, com "Smetto quando voglio" a abordar, sempre com algum humor e exageros à mistura, uma problemática bastante contemporânea, ou seja, a incapacidade do mercado de trabalho absorver todos os licenciados e mestres que se formam nas universidades em busca de uma perspectiva profissional que nem sempre se confirma. Diga-se que este é um problema que afecta não só Itália, mas também outros países, com Portugal a não ser excepção. Os elementos do grupo de Pietro contam com cursos superiores e mestrados mas estão à margem da sociedade, tal como os personagens de "I soliti ignoti", embora estes últimos não contassem com as condições dos primeiros, tal como não apresentavam grande vontade para trabalhar. Se os protagonistas de "I soliti ignoti" não parecem ter beneficiado do denominado "milagre económico italiano", já os personagens principais de "Smetto quando voglio" depararam-se com um contexto no qual o acesso ao ensino superior é facilitado, mas a crise financeira, o desemprego e a precariedade laboral acabam por contribuir para que estes elementos também estejam à margem da sociedade. A formação académica serviu para que os protagonistas de "Smetto quando voglio" contassem com mais cultura geral e conhecimento em áreas específicas, embora não lhes tenha fornecido a experiência prática que é necessária para áreas de trabalho distintas em relação àquelas em que se formaram. Ou seja, Sydney Sibilia encontra o humor na tragédia e no drama ao mesmo tempo que efectua um comentário social e desperta alguns risos. Nas notas do realizador, que constam no press kit do filme, Sydney Sibilia salienta que o ponto de partida de "Smetto quando voglio" surgiu de um artigo de jornal sobre dois jovens que tinham concluído o mestrado e trabalhavam na empresa municipal de tratamento do lixo, com o cineasta a aproveitar uma problemática que afectou Itália para destrinçá-la de forma mordaz ao longo do enredo. Não faltam alguns exageros e situações caricatas, mas também comentários dotados de alguma inteligência e mordacidade, bem como alguns episódios pontuados pelo perigo, com "Smetto quando voglio" a apresentar uma atmosfera que tanto remete para as "comédias à italiana" como para obras de Guy Ritchie (como "Lock, Stock and Two Smoking Barrels": os criminosos, o tráfico de droga, o humor negro, a atmosfera estilizada, o bando que se envolve numa enrascada) e Steven Soderbergh (o remake de "Ocean's Eleven" parece ter servido como uma forte fonte de inspiração, uma situação notória quer no aproveitamento das idiossincrasias do grupo, a música cheia de estilo, o tom leve sem descurar o perigo que envolve os personagens principais). Os membros do grupo de Pietro contam com áreas de formação e empregos distintos, com esta heterogeneidade a permitir que "Smetto quando voglio" conte com um conjunto de personagens que se destaca ao longo do enredo, com cada elemento a reagir de forma distinta ao sucesso e aos percalços que envolvem esta incursão pelo tráfico de estupefacientes (convém ainda salientar que cada membro do grupo tem funções específicas no negócio).

 O primeiro elemento contactado por Pietro é Alberto Petrelli (Stefano Fresi), um especialista em química computacional, de barba farta, que trabalha num restaurante. Este é um indivíduo pouco habituado ao mundo da noite e das drogas, um pouco à imagem da maioria dos elementos do grupo, com este handicap a ser compensado com a presença de Andrea De Sanctis (Pietro Sermonti), um antropólogo que ensina os parceiros do gang a comportarem-se sem parecerem suspeitos. A juntar a estes elementos temos ainda Mattia Argeri (Valerio Aprea) e Giorgio Sironi (Lorenzo Lavia), dois latinistas que trabalham numa bomba de gasolina, que gostam de discutir em latim e entrarem em diálogos com os clientes sobre o tipo de discurso que estes apresentam. A completar o grupo encontram-se ainda Bartolomeo Bonelli (Libero De Rienzo) e Arturo Frantini (Paolo Calabresi). Bartolomeo é um especialista em macroeconomia dinâmica, que se envolve numa miríade de problemas, enquanto tenta fugir a um casamento que parece beneficiar os planos do grupo e despertar os receios do personagem. Arturo é um arqueólogo que trabalha de forma esporádica e recebe salários miseráveis, que serve como motorista do grupo e permite que estes utilizem material da universidade e dos museus (o armamento utilizado pelos protagonistas no ataque à farmácia remete e muito para os mosquetes dos personagens principais de "Lock, Stock and Two Smoking Barrels"). Pietro pretende aproveitar o conhecimento adquirido por estes elementos e criar as smart drugs mais populares do mercado, com o negócio a superar e muito as expectativas destes personagens, uma situação para a qual estes não estavam claramente preparados. A entrada de Pietro, Alberto, Andrea, Mattia, Giorgio, Bartolomeo e Arturo no mundo do tráfico conta com algumas doses de humor, tragédia e perigo à mistura. Veja-se o pouco à vontade que os elementos do grupo apresentam inicialmente nos espaços nocturnos, ou a forma quase infantil como lidam com o sucesso e a concorrência. Um elemento do grupo que não sabe lidar com o sucesso é Alberto, com Stefano Fresi a conseguir transmitir a dificuldade deste indivíduo em conviver com o excesso de dinheiro e a facilidade com que o químico sucumbe ao uso das drogas. Alberto apresenta uma atitude inicialmente calma e uma inteligência quase ao nível do protagonista, embora cometa erros como testar em demasia o produto que vende, gastar aquilo que não deve e assumir uma postura errática e extravagante. Sydney Sibilia aproveita eficazmente as dinâmicas do grupo de Pietro e as idiossincrasias que existem no interior do mesmo, enquanto concede espaço para os diversos elementos do elenco sobressaírem, sobretudo Edoardo Leo como uma espécie de Danny Ocean destambelhado. Edoardo Leo é o principal destaque do elenco, com o intérprete a conceder um estilo simultaneamente atrapalhado, inteligente e entusiasmado a Pietro, um líder peculiar, que é naïf ao ponto de cair nas mentiras dos seus alunos, embora consiga iniciar um negócio lucrativo. Por sua vez, Valeria Solarino interpreta eficazmente a personagem que apresenta a postura mais séria ao longo de "Smetto quando voglio", com a profissão de Giulia a colidir e muito com a nova actividade do namorado. A relação entre Pietro e Giulia conta com alguns problemas a partir do momento em que este se começa a ausentar constantemente de casa, com as mentiras do primeiro a prometerem despertar a ira da segunda. Já Valerio Aprea e Lorenzo Lavia protagonizam alguns dos momentos mais hilariantes do filme, com os actores a transmitirem a incapacidade dos personagens que interpretam em dialogarem de forma comum. Veja-se quando Giorgio e Mattia se encontram a discutir em latim, ou abordam a estrutura arquitectónica do hotel onde alugam um quarto, com "Smetto quando voglio" a utilizar alguns dos arquétipos e estereótipos associados aos intelectuais ao serviço da sátira.

O filme conta ainda com outros personagens que conseguem ter espaço para um ou outro momento de relevo ao longo do enredo, embora raramente evoluam ao longo da narrativa (diga-se que "Smetto quando voglio" não é um filme que sobressai pela complexidade dos personagens). Um desses personagens é Maurizio (Guglielmo Poggi), um jovem que não perde uma boa festa, ou uma oportunidade para se escapulir aos estudos. Vale ainda a pena realçar Seta (Sergio Solli), o estereótipo do professor universitário ultrapassado, que surge inicialmente como o orientador de Pietro embora pouco ou nada beneficie o seu aluno. O elenco consegue cumprir quer nas situações mais cómicas e rocambolescas, quer nos momentos mais sérios, embora, em alguns momentos resvale em alguns exageros. Diga-se que estes exageros parecem propositados, com o humor de "Smetto quando voglio" a variar entre o tom inteligente (o aproveitamento de um grupo de licenciados e mestres que se revoltam contra o sistema) e o boçal (não falta um pénis desenhado na face do protagonista quando este desmaia, ou piadas com urina, entre outras situações estapafúrdias), enquanto ficamos diante de um grupo de traficantes deveras peculiar. O sucesso do grupo tem tanto de inesperado como de propiciador de problemas, com os elementos do gang a não saberem lidar com o excesso de dinheiro e os luxos proporcionados pelo mesmo, com a postura de alguns personagens a mudar por completo, pelo menos até um elemento ser detido e Murena aparecer pelo caminho. A partir de um determinado momento, o grupo depara-se com uma série de problemas e situações rocambolescas, parecendo uma questão de tempo até a pouca preparação dos protagonistas nos meandros do tráfico levar a melhor em relação à inteligência para o fabrico e negociação de smart drugs, com Sydney Sibilia a saber aproveitar a premissa deste filme dotado de alguns momentos de humor e uma banda sonora cheia de estilo. O humor resulta em grande parte graças à interacção dos elementos do grupo e às situações peculiares em que são colocados, com o elenco principal a cumprir com aquilo que parece ter sido pedido. No entanto, a cinematografia e as opções estéticas estão longe de serem um dos pontos fortes do filme, com a utilização de filtros manhosos que já passaram de moda no Instagram a pouco beneficiarem a narrativa, com a paleta cromática e a exposição dos cenários a não ganharem nada com esta decisão desinspirada, bem pelo contrário. Pronto a beber nas raízes da "comédia à italiana", "Smetto quando voglio" utiliza um conjunto de problemáticas modernas ao serviço do humor, enquanto nos coloca diante de um gang peculiar formado por intelectuais que se decidem rebelar contra o sistema, com Edoardo Leo a aparecer como o elemento do elenco em maior destaque ao longo desta obra cinematográfica leve, divertida e eficaz a efectuar alguns comentários do foro social, sempre com alguns exageros e devaneios à mistura.

Título original: "Smetto quando voglio".
Título em Portugal: "Génios à Rasca - Paro quando quiser".
Título em inglês: "I Can Quit Whenever I Want". 
Realizador: Sydney Sibilia.
Argumento: Valerio Attanasio e Sydney Sibilia.
Elenco: Edoardo Leo, Stefano Fresi, Paolo Calabresi, Valerio Aprea, Libero De Rienzo, Lorenzo Lavia, Neri Marcorè, Valeria Solarino, Sergio Solli, Pietro Sermonti. 

19 outubro 2016

Resenha Crítica: "Nerve" (2016)

 Embora nunca chegue a aproveitar todo o potencial da sua premissa, "Nerve" surge como um techno-thriller enérgico, intenso, dinâmico, pronto a fazer com que questionemos o papel da Internet e a nossa atitude perante os fenómenos online, enquanto nos deixa diante de um grupo de jovens que utiliza o jogo do título quer para atingir popularidade, quer para ganhar dinheiro, quer para subir a sua auto-estima, quer para receber umas belas doses de adrenalina. Os perigos que rodeiam os participantes são mais do que muitos, embora estes jovens estejam dispostos a continuarem a jogar, mesmo que isso implique a possibilidade de colocarem a integridade física em risco para gáudio dos espectadores que se encontram entusiasmados por poderem lançar desafios às celebridades instantâneas criadas pelo jogo do título. As temáticas de "Nerve" remetem para os tempos contemporâneos, para a cultura de massas e para a forma como se criam celebridades instantâneas a partir de fenómenos pueris. Veja-se a maneira como se criam pseudo-celebridades em reality shows como Secret Story, Big Brother e afins, com Nerve a elevar a fasquia e a colocar a vida dos seus participantes em perigo. Diga-se que a premissa de "Nerve" não é nova, sobretudo se recuarmos para obras cinematográficas como "La decima vittima" de Elio Petri. Em "La decima vittima", a narrativa tem como pano de fundo um futuro próximo, onde existe uma espécie de jogo denominado de "Grande Caça", que utiliza a violência como um meio de evitar guerras entre as nações e entreter as massas. Alguns concorrentes encaram a Grande Caça como um meio para ganharem reconhecimento e dinheiro, outros para satisfazerem os seus ímpetos violentos, existindo um conjunto de regras que visam incrementar o nível de dificuldade do jogo e evitar que os participantes eliminem inocentes. Cada jogador tem dez missões, divididas equitativamente entre o papel de caçador e de presa. O caçador sabe quem tem de caçar, enquanto que a presa não é informada da identidade do primeiro, tendo de utilizar a sua capacidade de dedução. Poucos elementos conseguiram chegar vivos até ao final, com o feliz contemplado a receber um milhão de dólares e uma homenagem pública, com os concorrentes a serem admirados pelas audiências. No caso de "Nerve", estamos diante de uma espécie de aplicação, que funciona quase como um reality show musculado, onde temos dois grupos, os observadores e os jogadores. O observador tem de pagar uma verba para poder observar online as façanhas dos seus jogadores preferidos, enquanto estes últimos são colocados diante de desafios cada vez mais perigosos ao mesmo tempo que recebem automaticamente uma verba na conta bancária no caso de serem bem-sucedidos. Os desafios contam com um limite de tempo para serem cumpridos, com os participantes a serem obrigados a filmarem uma parte das suas missões, tendo em vista a comprovarem os seus feitos. Esta regra permite que Henry Joost e Ariel Schulman, a dupla de realizadores, insiram algumas cenas de vídeos supostamente gravados pelos personagens a partir dos seus telemóveis, com este recurso a permitir que os cineastas incutam um certo sentido de urgência aos episódios protagonizados pelos concorrentes. Diga-se que o trabalho de Michael Simmonds permite adensar a intensidade que pontua diversos desafios protagonizados pelos concorrentes do Nerve, com o director de fotografia a contribuir para o sentido de urgência que rodeia os episódios vividos pelos personagens e para transmitir a sensação de que Nova Iorque é uma cidade que literalmente nunca dorme. A juntar a tudo isto, "Nerve" deixa-nos ainda diante de alguns trechos onde é possível verificar como o público observa todos estes episódios protagonizados pelos jogadores, com a popularidade dos intervenientes a subir ou a descer consoante os actos que praticam. No fundo, estamos diante de uma espécie de reality show que decorre em plena cidade de Nova Iorque, onde tudo e todos parecem ser controlados, inclusive os familiares e amigos dos concorrentes, com o enredo de "Nerve" a conter uma faceta declaradamente "Orwelliana".

 Quanto mais avançam no jogo, mais dinheiro os jogadores recebem, embora, se desistirem ou denunciarem a existência do Nerve, os participantes arriscam-se a sofrer penalizações bastante graves, uma situação que se torna latente no último terço, quando o filme procura esconder que praticamente já não tem nada para dar para além de algumas doses de adrenalina, acção, reviravoltas nem sempre convincentes e uma interpretação de bom nível de Emma Roberts. Esta interpreta Venus Delmonico, mais conhecida como Vee, uma adolescente algo introvertida, que é fã dos Wu-Tang, gosta de tirar fotografias e tarda em ganhar coragem para revelar à sua progenitora (Juliette Lewis) que pretende sair de casa, abandonar Staten Island e frequentar a California Institute of the Arts, onde a sua candidatura foi aceite. Aparentemente pouco confiante em si própria, Vee não consegue falar com J.P. (Brian Marc), um jogador de futebol americano por quem tem um fraquinho, apesar deste praticamente ignorar a presença da fotógrafa. Vee conta com um núcleo de amigos restrito, do qual fazem parte Tommy (Miles Heizer - uma interpretação completamente deslavada), um hacker pouco comunicativo e pragmático, que gosta da protagonista apesar de nunca sair da "friend zone", e Sydney (Emily Meade), uma adolescente extrovertida, que aprecia ser o centro das atenções e parece disposta a tudo para ganhar popularidade no Nerve. Sydney, Tommy, Vee e companhia encontram-se prestes a concluírem o ensino secundário, com a terceira a contar com alguns planos para o futuro, enquanto a primeira procura sobretudo alcançar uns minutos de fama. É Sydney quem coloca Vee e o espectador a contactar de perto com este jogo no qual os concorrentes são estimulados a cumprirem uma série de desafios que tanto podem ser inocentes, como perigosos, ou constrangedores. Sydney é uma cheerleader, uma actividade que aproveita ao serviço do jogo, nomeadamente, para exibir o traseiro desnudo em directo, tendo em vista a satisfazer o pedido dos observadores. Tudo e todos ficam chocados e surpreendidos, enquanto Sydney exibe uma felicidade imensa por ter alcançado ainda mais seguidores, algo que a aproxima do topo das participantes mais populares. Sydney não poderia ser mais distinta de Vee, embora, com o avançar da narrativa, o espectador perceba que a primeira utiliza o jogo para elevar a sua auto-estima, enquanto esconde os seus receios e exibe a sua superficialidade. Emily Meade interpreta de forma satisfatória a típica personagem superficial que não respeita o espaço e a personalidade daqueles que a rodeiam, que personifica aqueles que estão dispostos a caírem no ridículo para ganharem um pouco de popularidade, algo notório quando contacta com J.P. para exibir o interesse de Vee no desportista, embora apenas consiga que este demonstre o desprezo que nutre pela protagonista. Vee é bem menos extrovertida do que a amiga, embora o episódio com J.P. contribua para que a protagonista opte por uma medida drástica: participar no Nerve. A decisão tanto tem de extemporânea como de libertadora, com Emma Roberts a conseguir explorar que a participação de Vee neste jogo contribui para que esta se solte dos grilhões que a prendiam ao passado e aos receios que criara internamente. Emma Roberts consegue exibir a timidez da personagem que interpreta, bem como as reservas iniciais de Vee em relação ao jogo, até explanar que os estímulos externos proporcionados pelo Nerve contribuem para que a protagonista consiga ganhar a coragem suficiente para, a partir de um determinado momento, lutar pela popularidade, pela sua vida e pela segurança daqueles que a rodeiam. Diga-se que ninguém está totalmente a salvo neste jogo, ou os participantes não tivessem fornecido todos os seus dados pessoais. Os dados das contas pessoais são totalmente transferidos para o Nerve, ou seja, aqueles que controlam o jogo conhecem toda a informação sobre os jogadores. Esta regra do Nerve remete para um problema do nosso quotidiano, em particular, a quantidade de dados pessoais que disponibilizamos publicamente, seja no Facebook ou no Twitter, ou pura e simplesmente nos e-mails que trocamos, ou a levantar dinheiro, ou até a escrever textos como este.

 Tudo parece estar controlado pelos elementos que decidem o jogo, com estes a utilizarem essa informação para saberem dos gostos, medos e desejos dos jogadores, com "Nerve" a abordar ainda as atrocidades que algumas pessoas podem efectuar quando se encontram escondidas atrás de um falso anonimato. Esta capacidade dos criadores do jogo e dos espectadores conseguirem aceder à informação pessoal dos concorrentes quase que nos remete quer para o Facebook (veja-se como os nossos likes contribuem para o tipo de publicidade que esta rede social nos coloca), quer para fenómenos como "Pokemon GO" (classificado por Oliver Stone como "a new level of invasion"), ou o próprio Google (utilizando novamente as palavras de Stone: "The profits are enormous here for places like Google. They’ve invested a huge amount of money in data mining what you are buying, what you like, your behaviour"). Esta faceta do jogo permite expor uma problemática contemporânea, embora o argumento explore a mesma de forma superficial, com "Nerve" a sucumbir muitas das vezes às tentações deste universo narrativo que rodeia os personagens e é apresentado ao espectador. Veja-se o terceiro acto de "Nerve", pontuado por um ritmo frenético e situações violentas e intensas, mas pueris e incoerentes, com Henry Joost e Ariel Schulman a não apresentarem arcaboiço para desenvolverem sustentadamente as temáticas que lançam. Um dos elementos fundamentais do filme é a relação ambígua que se forma entre Vee e Ian (Dave Franco), um jogador que esta conhece na sua primeira missão, em particular, beijar um estranho. O estranho que é beijado por Vee é Ian, naquele que é um momento apreciado pelos observadores do jogo, que logo procuram que a dupla protagonize mais alguns episódios em conjunto. Ian tem de cantar "You Got It" a Vee (um momento deveras peculiar de Dave Franco), enquanto conquista a atenção da adolescente, sob o olhar desaprovador de Tommy, com este último a ser temporariamente descartado, tratando da segurança da amiga à distância. Os néones do restaurante-bar onde Ian e Vee se encontram pela primeira vez permitem criar toda uma atmosfera estranhamente sedutora, com as tonalidades azuis e rosa a permearem o cenário, enquanto os sentimentos se começam a soltar. Vee começa a apreciar o jogo e a sentir uma estranha atracção por Ian, com Dave Franco a imprimir uma faceta bem disposta, afável e misteriosa ao personagem que interpreta, um jogador que conta com alguns segredos. A química entre Franco e Roberts é satisfatória, com a dupla a convencer minimamente de que existe algo de especial que cresce no interior dos personagens que interpretam, enquanto Vee e Ian protagonizam uma aventura recheada de adrenalina. Vee e Ian têm de efectuar uma série de missões, com a parceria a beneficiar ambas as partes, já que a dupla parece ter caído no "goto" dos espectadores. Inicialmente as missões são relativamente inofensivas, tais como utilizar roupa de uma loja e sair deste local após um participante ter furtado as vestes de Ian e Vee, ou a protagonista efectuar uma tatuagem. O aumento da popularidade de Ian e Vee contribui para exponenciar a dificuldade das missões de ambos, enquanto alguns segredos começam a ser deslindados e amizades colocadas em causa. Veja-se o aumentar da tensão entre Vee e Sydney, ou o aparecimento de concorrentes como Ty (Machine Gun Kelly), um indivíduo aparentemente disposto a tudo para ganhar o jogo, que raramente é devidamente desenvolvido ao longo do enredo (não ajuda o intérprete ser relativamente canastrão). Tal como em qualquer jogo, os elementos que participam do Nerve sabem que apenas um concorrente pode vencer, uma situação que adensa as rivalidades, enquanto a moralidade que rodeia todo este evento começa a ser questionada por Vee, sobretudo no último terço, quando protagonista percebe que se envolveu em algo claramente perigoso.

 Emma Roberts explana com acerto as dúvidas desta personagem que parece ganhar mais confiança em si própria a partir de um jogo perigoso, com a actriz a convencer quer quando a protagonista assume uma atitude mais impulsiva, quer a partir do momento em que Vee ganha consciência daquilo que a rodeia. O próprio papel dos espectadores do jogo começa a ser questionado, sobretudo quando praticamente compelem os concorrentes a colocarem as vidas em risco e a cometerem assassinato. Tendo como base o livro homónimo da autoria de Jeanne Ryan, "Nerve", procura questionar o papel da cultura de massas, dos reality shows, a forma como utilizamos a internet, os relacionamentos modernos, as celebridades "instantâneas" que desaparecem com a mesma facilidade com que são criadas, com a dupla de realizadores a saber que está a abordar temáticas relevantes, que dizem muito sobre o nosso tempo. Nem sempre tudo convence, sobretudo a puerilidade de personagens como Ty, Sydney, um grupo de hackers e a mãe da protagonista, ou a incapacidade de Henry Joost e Ariel Schulman em levarem mais adiante as temáticas que abordam. O último terço ganha características mais frenéticas e violentas, mas falta capacidade para reflexão, para deixar o espectador sentir os actos cometidos sobre os personagens ou por estes elementos, bem como os perigos da informação pessoal cair no domínio público. A partir de um determinado momento, as reviravoltas sucedem-se a um ritmo alucinante, quando se pedia um pouco mais de ponderação e coerência, sobretudo quando Henry Joost e Ariel Schulman viram o tabuleiro do jogo e decidem expor a faceta negativa do Nerve. A dupla sabe utilizar a tecnologia moderna ao serviço do enredo, com o próprio trabalho de câmara e a banda sonora a transmitirem o sentido de urgência e a agitação que envolvem os desafios dos concorrentes. Veja-se os momentos em que Vee e Ian decidem participar numa viagem de mota, com o segundo a encontrar-se de olhos vendados, enquanto a primeira guia o seu colega de aventuras durante a noite, com o trabalho de câmara e montagem a contribuir para transmitir a adrenalina e o perigo que envolve todo este episódio. A relação entre Vee e Ian conta sempre com algumas doses de avanços e recuos, com o mistério a rodear o segundo, enquanto o jogo adensa as rivalidades dos jogadores. Diga-se que o jogo quase que nos traz à memória aquele posts no Facebook e no Instagram em busca de likes fáceis, com as próprias redes sociais a surgirem como espaços que podem adensar certas rivalidades mesquinhas ao invés de aproximar. No entanto, "Nerve" faz questão de não apresentar uma versão maniqueísta da Internet e das redes sociais, com o foco do filme a estar e bem nos personagens principais e nos seus actos. O filme remete ainda para o ritmo frenético com que vivemos o nosso dia-a-dia, bem como para a vacuidade a nível de valores de alguns jovens que procuram a fama fácil e a aceitação generalizada daqueles que os rodeiam, com o argumento a predispor-se a abordar temas relevantes, embora nem sempre consiga conjugar as suas ambições temáticas com a necessidade de chegar a um público mais lato. Pronto a abordar algumas questões relevantes sobre os dados que fornecemos, a explanar a sede de alguns elementos para ganharem fama de forma rápida e quase instantânea, a discutir o papel da Internet, a expor o papel perigoso de alguns jogos online aparentemente inócuos, "Nerve" compensa alguns deslizes com uma ambição notória, com este techno-thriller a convencer em diversos momentos, a saber aproveitar os espaços da cidade de Nova Iorque ao serviço do enredo e a apropriar uma miríade de estilos para transmitir o quotidiano dos personagens principais (a própria escolha da banda sonora remete exactamente para a procura de chegar às "entranhas" destes personagens).

Título original: "Nerve".
Título em Portugal: "Nerve: Alto Risco".
Realizadores: Henry Joost e Ariel Schulman.
Argumento: Jessica Sharzer.
Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emily Meade, Miles Heizer, Juliette Lewis.

18 outubro 2016

Resenha Crítica: "Avril et le monde truqué" (Abril e o Mundo Extraordinário)

 Num determinado momento de "Avril et le monde truqué", podemos encontrar Darwin (Philippe Katerine), um gato, a salientar que fala devido a ser um projecto falhado dos pais da personagem do título (Marion Cotillard). O projecto remete para as invenções de Gustave Franklin, o bisavô da protagonista, um cientista que trabalhou numa fórmula para criar soldados invulneráveis. Darwin não é um soldado indestrutível, mas sim um gato que fala, conta com uma inteligência acima da média e aparece como o grande companheiro de aventuras de Avril, a personagem principal de "Avril et le monde truqué", a primeira longa-metragem de animação realizada por Christian Desmares e Franck Ekinci. Avril e Darwin vivem numa cidade de Paris distinta daquela que estamos habituados a ver representada, com "Avril et le monde truqué" a colocar o espectador diante de um universo narrativo onde não faltam cientistas desaparecidos, a continuação da Dinastia Napoleónica, um contexto Histórico alternativo, um gato e lagartos que falam, uma capital francesa dominada pelas tonalidades cinzentas e a presença regular do smog. Christian Desmares e Franck Ekinci estabelecem de forma eficaz a conjuntura que rodeia os personagens, enquanto desenvolvem as personalidades dos elementos que povoam a narrativa, com a dupla de cineastas a procurar surpreender o espectador ao mesmo tempo que o transporta para o interior de um contexto histórico alternativo onde os atrasos científicos e a modernidade parecem andar lado a lado. A equipa de animação não poupou esforços na criação de uma miríade de cenários e engenhos que atribuem credibilidade a esta realidade alternativa que nos é apresentada, com "Avril et le monde truqué" a apostar imenso nas tonalidades frias que permitem exacerbar a atmosfera de malaise que contamina a cidade de Paris entre o período da Governação de Napoleão III e 1941 (o período em que se desenrola boa parte da narrativa). Inspirado livremente nos trabalhos de Jacques Tardi, um artista que colaborou no design gráfico do filme, "Avril et le monde truqué" surge como uma obra cinematográfica marcada por influências steampunk (aparelhos a vapor, História alternativa, tecnologia anacrónica, entre outros exemplos), dotada de inteligência, criatividade e emotividade, um universo narrativo bem construído e detalhado, com o contexto histórico alternativo que nos é apresentado a ser explorado com uma eficácia notória. Os animais falantes e o contexto alternativo remetem para as experiências de Gustave Franklin, o bisavô da personagem do título. No prólogo, encontramos Gustave, um cientista jovem e ambicioso, a trabalhar na invenção de um soro que visa a criação de soldados indestrutíveis. A encomenda foi efectuada por Napoleão III, o Imperador de França, que pretende utilizar estes soldados para vencer a Guerra Franco-Prussiana. Gustave elabora um soro que permite que os animais dialoguem com os humanos, mas não consegue inventar a fórmula para a criação de soldados invencíveis, algo que irrita Napoleão III. Nesse sentido, o Imperador dá ordens a Bazaine, um militar, para eliminar Rodrigue (Benoît Brière) e Chimène (Anne Coesens), dois lagartos que falam graças ao soro criado por Gustave, embora os disparos do segundo conduzam à destruição do laboratório e à morte dos três seres humanos que se encontram presentes nesse espaço. Este evento altera o rumo da História, com Napoleão IV a assumir o poder e a assinar um acordo de paz com a Prússia, enquanto um estranho fenómeno conduz ao desaparecimento dos cientistas mais proeminentes, tais como Einstein, Hertz e Marconi. A abdução dos cientistas tem efeitos nefastos para o Mundo, com a população a não poder usufruir de uma série de avanços tecnológicos e científicos proporcionados por estes elementos que desapareceram.

Quando a narrativa avança para 1931, o espectador é colocado diante de um contexto angustiante, marcado por uma atmosfera de malaise e poucos avanços tecnológicos, onde ainda não existem motores de combustão, electricidade, aviões e rádios, com o carvão e a madeira a serem os combustíveis mais utilizados. O aproveitamento excessivo da madeira e do carvão promete conduzir a um desastre de proporções elevadas, com "Avril et le monde truqué" a transmitir uma mensagem clara do foro ambientalista, tendo em vista a expor os perigos da exploração descontrolada dos recursos naturais, com os realizadores, argumentistas e Jacques Tardi (envolvido na criação do universo gráfico do filme) a aproveitarem o facto do enredo se desenrolar no passado para exibirem e denunciarem problemas do presente (troquem carvão por petróleo, ou observem a poluição de diversos espaços citadinos). Perante a escassez de madeira, a França entra em conflito com a Liga das Américas, tendo em vista a obter este recurso natural, embora não tenha armamento moderno que permita uma vitória clara no conflito. Nesse sentido, a França procura reunir os cientistas que não desapareceram, tendo em vista a utilizar os serviços destes homens e mulheres para a construção de armamento moderno, algo que não é aceite por todos os investigadores. Os familiares de Avril, um grupo de cientistas que trabalha de forma clandestina num laboratório pequeno, situado num local recôndito, surgem como alguns dos intelectuais que se recusam a trabalhar para o Imperador. Avril é filha de Paul (Olivier Gourmet) e Annette (Macha Grenon), um casal de cientistas, com o elemento masculino a ser filho de Prosper Franklin (Jean Rochefort), um indivíduo vetusto, que é o rebento de Gustave. Annette apresenta sempre uma faceta mais séria, enquanto Paul conta com uma personalidade menos rígida, com o casal a trabalhar com Prosper no fabrico do soro que supostamente possibilitará a imortalidade e a capacidade de ultrapassar as doenças, embora tardem em acertar na fórmula. Esses testes realizados pelos familiares de Avril conduziram a que Darwin, o gato de família, consiga falar, com o felino a apresentar uma personalidade deveras mordaz e sábia, com o argumento a transformá-lo numa das figuras mais simpáticas e relevantes da narrativa. De olhos bem vivos e arregalados, gestos felinos, um gosto assinalável pela leitura e uma personalidade forte, Darwin é o grande companheiro de aventuras de Avril, apresentando uma inteligência notória e um sentido de humor certeiro, com a equipa de animadores, realizadores e argumentistas a terem aqui uma das várias criações das quais se podem orgulhar. Diga-se que o argumento estabelece de forma eficaz as motivações dos protagonistas, os seus objectivos e as suas relações, bem como as engenhocas elaboradas pelos personagens. Não falta uma casa capaz de se locomover ou deslocar debaixo de água, uma fortaleza subaquática, lagartos mutantes, uma espécie de selva onde são efectuadas experiências que tanto têm de avançadas como de perigosas, com "Avril et le monde truqué" a elaborar um comentário sobre a relevância dos avanços científicos e a necessidade destes serem utilizados de forma responsável. Por um lado, os progressos científicos são essenciais para a Humanidade, por outro podem provocar graves problemas, sobretudo quando são utilizados para uma agenda pouco recomendável, com "Avril et le monde truqué" a apresentar uma abordagem complexa destas temáticas, expondo quer os efeitos positivos, quer o lado negativo dos avanços da ciência. Veja-se que o soro no qual os familiares de Avril trabalham pode contribuir quer para efeitos positivos, quer para situações nefastas, com os planos de um dos antagonistas a indicar isso mesmo (quase a remeter para a Bomba Atómica). No entanto, sem esses avanços, Paris torna-se numa capital dominada pelas tonalidades cinzentas e negras e pela poluição, com o smog a consumir todos os poros desta cidade que conta com a presença de duas Torres Eiffel, tecnologia anacrónica e uma apertada vigilância que reprime o livre pensamento. 

Um dos personagens que procura preservar a sua liberdade criativa é Prosper, um cientista inteligente, peculiar, pronto a desenvolver as invenções mais estrambólicas e a amar a presença da única árvore que consegue visitar. O avô de Avril conta com uma visão positivista da ciência e a espaços opta por algumas decisões destrambelhadas, com Prosper a destacar-se por diversas vezes ao longo da narrativa quer pelas invenções que efectua, quer pela sua personalidade, quer pelo seu papel junto da neta. Prosper é perseguido pelas autoridades, representadas sobretudo por Pizoni (Bouli Lanners), um inspector obstinado e trapalhão, que, em conjunto com os homens sob o seu comando, encetam uma perseguição aos Franklin, algo que resulta numa fuga pontuada por alguns momentos intensos. O avô da protagonista consegue fugir no seu veículo, enquanto Paul, Annette e Avril utilizam um dirigível negro, da polícia, tendo em vista a alcançarem um teleférico a vapor que liga Paris a Berlim. O teleférico a vapor é um dos meios de transporte utilizados pelos personagens, com "Avril et le monde truqué" a colocar o espectador diante de uma série de invenções que mesclam inovação e tecnologia ultrapassada. Veja-se ainda o veículo a vapor de Prosper, ou a casa "móvel" criada por este personagem. No entanto, regressemos aos pais de Avril. Um estranho conjunto de nuvens negras atacam Paul e Annette, com os cientistas a desaparecerem misteriosamente. A protagonista pensa que os pais faleceram, embora o verdadeiro destino deste casal apenas seja revelado um pouco mais tarde. Avril consegue fugir das autoridades, após ter sido praticamente colocada num orfanato, contando com a preciosa companhia de Darwin, enquanto a narrativa avança para 1941. Pizoni, entretanto despromovido para agente, continua obcecado por Prosper e Avril, embora desconheça o paradeiro de ambos. O cientista continua foragido, enquanto a jovem vive com Darwin no interior de uma estátua metálica. Avril procura concluir o soro iniciado pelos seus familiares, tendo em vista a salvar Darwin, com o gato a encontrar-se doente devido à poluição que permeia o ar da capital francesa. A poluição contamina a cidade de Paris, algo notório quando observamos as tonalidades cinzentas deste espaço, ou alguns cidadãos a utilizarem máscaras de gás para evitarem os efeitos negativos de respirarem este ar nocivo para a saúde humana. A protagonista não utiliza máscara, nem roupas caras, com a jovem a apresentar uma personalidade forte, uma enorme simplicidade, inteligência e desenvoltura. O quotidiano de Avril passa por roubar livros para Darwin colocar a leitura em dia, furtar produtos químicos para efectuar invenções, embora a jovem não saiba que se encontra a ser seguida quer por Julius (Marc-André Grondin), um delinquente, quer por Rodrigue e Chimène, com os planos destes dois últimos a serem revelados numa fase mais adiantada da narrativa. Julius é o arquétipo do personagem que inicialmente conta com más intenções mas acaba por mudar e apaixonar-se pela protagonista. Este tinha como missão descobrir o esconderijo de Avril e encontrar Prosper, a mando de Pizoni, embora perceba que os planos do agente contam com uma faceta pouco recomendável. Por sua vez, Rodrigue e Chimène, um casal de lagartos mutantes, apresentam projectos muito próprios para o planeta Terra e para a utilização dos avanços científicos, com "Avril et le monde truqué" a exibir o perigo dos extremismos e dos avanços tecnológicos caírem em mãos erradas.

 A partir de um determinado momento do filme, Avril tem de descobrir a fórmula para criar o soro que os seus progenitores tentaram desenvolver, voltar a contactar com o avô, descobrir o paradeiro dos pais, escapar de Pizoni, ou seja, envolver-se no interior de aventuras recheadas de fugas, reviravoltas e perigos, enquanto forma laços de proximidade com Julius e depara-se com locais e tecnologia que desconhecia. Veja-se quando Avril se envolve por uma selva recheada de tonalidades verdes, imensas medidas de segurança, ar puro, avanços científicos e a certeza que um dos líderes do local congeminou um plano sinistro, com o último terço a colocar-nos diante de um cenário bem distinto em relação à cidade de Paris ("Avril et le monde truqué" não tem problemas em assumir a sua faceta de ficção-científica). Embora os planos de um dos antagonistas estejam longe de serem os mais originais, e Pizoni raramente simbolize uma ameaça, surgindo como uma mistura de Dupont e Dupond, "Avril et le monde truqué" conta com um leque de personagens relativamente interessante de acompanhar, com Avril a surgir como uma figura feminina inteligente, capaz de se desenvencilhar dos perigos e resolver uma miríade de problemas. Esta mantém uma relação de amizade com Darwin que tanto é capaz de contribuir para alguns trechos de humor como proporcionar alguns momentos mais tocantes, com "Avril et le monde truqué" a saber mexer com o espectador. Diga-se que não faltam ainda alguns momentos mais violentos, com algumas perdas a fazerem parte do processo de crescimento da protagonista, bem como alguns reencontros e a relação com Julius, enquanto ficamos diante de uma figura feminina que procura enfrentar uma série de adversidades. Recheado de elementos steampunk, temáticas relevantes sobre o papel da ciência e da utilização dos avanços científicos, mensagens sobre os perigos da poluição, um universo narrativo bastante detalhado, um trabalho de animação adequado à ambição do argumento e um grupo de personagens interessante de acompanhar, "Avril et le monde truqué" aparece como um bom exemplar dos filmes de animação dotados de inteligência que conseguem chegar simultaneamente ao público mais jovem e aos adultos

Título original: "Avril et le monde truqué".
Título em Portugal: "Abril e o Mundo Extraordinário".
Realizadores: Christian Desmares e Franck Ekinci.
Argumento: Franck Ekinci e Benjamin Legrand.
Elenco vocal: Marion Cotillard, Jean Rochefort, Philippe Katerine, Olivier Gourmet, Benoît Brière, Anne Coesens, Marc-André Grondin, Macha Grenon.

15 outubro 2016

Resenha Crítica: "Café Society" (2016)

 Dotado de falas marcantes, diversas traições, frustrações amorosas, imensa música jazz, uma representação muito própria de Nova Iorque, uma mordacidade indelével, um trabalho sublime de Vittorio Storaro na cinematografia, interpretações de bom nível por parte do elenco principal, "Café Society" é mais uma viagem aos fascinantes universos narrativos das obras cinematográficas de Woody Allen, com o realizador e argumentista a dotar o filme de algumas das suas imagens de marca. No caso de "Café Society", Woody Allen transporta-nos para Hollywood e Nova Iorque em plenos anos 30, com os cenários e o guarda-roupa a remeterem para a época, bem como a miríade de referências cinematográficas que o realizador insere no interior do filme. "Café Society" é, também, uma obra cinematográfica sobre os bastidores de Hollywood e um período muito próprio da Sétima Arte, com Allen a não poupar em referências que vão desde filmes como "The Woman in Red" e "Swing Time", passando por menções a intérpretes como Barbara Stanwyck, Errol Flynn (e as suas conquistas amorosas), Greta Garbo, Paul Muni, Ginger Rogers, entre outros exemplos, com o cineasta a exibir mais uma vez a sua cinefilia. O foco do enredo de "Café Society" centra-se sobretudo em Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), um indivíduo oriundo de Nova Iorque, de uma família de origens judaicas, que pretende triunfar em Hollywood, uma pouco à imagem de diversos jovens da sua idade. Jesse Eisenberg consegue expressar o espírito sonhador, meio naïf e sem rumo de Bobby, bem como o pouco à vontade que este personagem apresenta inicialmente com as mulheres, com excepção de Vonnie (Kristen Stewart), a secretária de Phil (Steve Carell), o tio do protagonista. Esse pouco à vontade de Bobby com as mulheres é particularmente visível quando o protagonista contrata os serviços de Candy (Anna Camp), uma prostituta novata, com ambos a demonstrarem uma atrapalhação latente, algo que resulta num dos vários momentos de humor do filme. Não faltam piadas que envolvem as raízes judaicas de Bobby e Candy, as frustrações de cariz sexual, o nervosismo, as falas mordazes, tudo muito ao jeito de Woody Allen, com Jesse Eisenberg a conseguir emular o estilo deste último. Diga-se que Bobby não aprecia a "encomenda" do serviço de prostitutas, embora Ben (Corey Stoll), o irmão mais velho do protagonista, tenha fornecido o contacto ao caçula. Ben é um gangster violento, pouco dado a cumprir a lei, que lidera um bando criminoso e permite a Woody Allen criar um um gag recorrente que passa pelo assassino colocar os corpos das suas vítimas no interior de cimento em estado líquido. Bobby não sabe de todos os negócios ilegais do irmão, com o núcleo familiar do protagonista a ser problemático e fervilhante. Rose (Jeannie Berlin) e Marty (Ken Stott), os pais de Bobby, passam boa parte do tempo a discutir, com ambos a procurarem respeitar a cultura Judaica, sobretudo o segundo, um indivíduo que despreza Phil, o irmão da esposa. Evelyn (Sari Lennick), a irmã do meio de Bobby, é uma professora primária, que se corresponde bastante com o protagonista e é casada com Leonard (Stephen Kunken), um intelectual que gosta de resolver todos os problemas através da via do diálogo, algo que contrasta com o irmão mais velho da esposa. O quotidiano desta família é uma confusão pegada, com Bobby a decidir aventurar-se por Hollywood, pedindo inicialmente apoio a Phil, um indivíduo bem-sucedido, que trabalha como agente de boa parte das estrelas de Hollywood. Steve Carell compõe um personagem intenso na exposição dos sentimentos, com o actor a criar uma figura aparentemente confiante e dinâmica, que mantém uma extensa rede de contactos e participa numa miríade de festas de luxo.

 Phil é casado e pai de filhos, embora mantenha um affair com uma das suas funcionárias, uma situação que promete gerar um triângulo amoroso onde Woody Allen exibe o seu humor negro e a sua capacidade para se envolver nos meandros dos sentimentos humanos. Steve Carell atribui credibilidade quer à faceta mais exuberante, quer mais frágil de Phil, um indivíduo poderoso, que inicialmente procura evitar reunir-se com o sobrinho, uma situação que remete para o afastamento do empresário em relação ao resto da família. Phil acaba por transportar o sobrinho para o interior de festas de luxo em Hollywood, enquanto lhe dá a conhecer uma série de contactos, até integrar o familiar num cargo menor. O personagem interpretado por Steve Carell incumbe Vonnie, a sua secretária, de dar a conhecer diversos espaços de Hollywood a Bobby, com a jovem a formar uma ligação com o protagonista que se torna em algo mais forte. A química entre Jesse Eisenberg e Kristen Stewart é latente, com a actriz a continuar a exibir que está numa fase muito positiva da sua carreira. De roupas inicialmente simples mas cheias de estilo, uma personalidade vincada e pouco fútil, Vonnie parece quase um duplo de Kristen Stewart, com a actriz a contar com uma dinâmica assinalável com Jesse Eisenberg. Diga-se que Stewart e Eisenberg já tinham formado par romântico quer no recomendável "Adventureland", quer no sofrível "American Ultra", com a actriz e o actor a convencerem o espectador em relação aos laços que se formam entre Vonnie e Bobby. O problema é que esta encontra-se envolvida com um homem casado, com Woody Allen a abordar mais uma vez com grande estilo e sentimento as habituais traições e frustrações amorosas que povoam as suas obras cinematográficas. As frustrações de cariz sexual, as traições, o fascínio despertado pela cidade de Nova Iorque, as temáticas do foro existencialista, os elementos da cultura judaica, a música jazz, a presença de um narrador (Woody Allen) bastante activo, os personagens ligados ao meio cultural e artístico, a análise muito própria dos sentimentos humanos aparecem como alguns dos ingredientes que pontuam "Café Society" e diversas obras cinematográficas de Woody Allen, com Vonnie e Bobby a surgirem como mais um par amoroso problemático cuja relação parece fadada ao fracasso. Woody Allen desenvolve a relação de Vonnie e Bobby de forma inspirada e certeira, com os diálogos trocados pelos personagens a beneficiarem não só da habilidade do cineasta para a escrita de argumentos mas também da química entre Kristen Stewart e Jesse Eisenberg. Este romance permite ainda que Woody Allen nos transporte para os bares, os restaurantes (boa decoração dos cenários interiores), os cinemas e as praias como se estivéssemos em plenos anos 30, enquanto explora a faceta intrincada deste envolvimento amoroso. Bobby não sabe, a nível inicial, quem é o amante de Vonnie. Esta namora com alguém muito próximo do protagonista, com o destino a fazer das suas e a implicar uma série de personagens que povoam a narrativa de "Café Society". Num determinado momento de "Café Society", Bobby salienta o seguinte: "Life is a comedy written by a sadistic comedy writer". A frase tem muito de Woody Allen e das obras cinematográficas do cineasta (e da sua genialidade), com "Café Society" a não ter problemas em reflectir sobre a vida e as relações humanas, ou o papel mordaz do destino. Esta frase de Bobby remete para a forma distinta com que o personagem começou a encarar a vida (e a evolução do protagonista ao longo do enredo), com Jesse Eisenberg a transmitir que estamos diante de uma figura que aprendeu que o destino pode ser mordaz e conter doses assinaláveis de humor negro.

 Meio nervoso, incapaz de compreender totalmente as mulheres, capaz de cometer traições e ser traído, Bobby cresce do ponto de vista mental em Hollywood, um espaço onde conhece um amor bastante forte e diversas desilusões. Bobby decide dirigir o clube nocturno adquirido por Ben, com este último a tratar da parte mais violenta, enquanto o protagonista, com o apoio de Rad (Parker Posey) e Steve (Paul Schneider), um casal que conheceu na sua estadia pela Califórnia, consegue transformar este estabelecimento num espaço de referência em Nova Iorque. O clube nocturno permite que Woody Allen transmita como idealiza os espaços do género deste período (e a forma como eram frequentados e o seu tipo de clientela, em particular, a nata da sociedade), enquanto transforma Bobby numa espécie de Rick Blaine que, apesar de ter procurado seguir em frente com a sua vida, não consegue esquecer Ilsa, neste caso, Vonnie. Não falta um episódio em que o protagonista é surpreendido no local de trabalho e fica visivelmente perturbado, com Woody Allen a elaborar o seu "momento Casablanca", enquanto aproveita o cenário do clube nocturno ao serviço da narrativa. Apesar de ter alcançado o estatuto de homem de negócios de sucesso, Bobby continua a lidar com a constante turbulência do seu núcleo familiar explosivo. Veja-se o caso dos episódios protagonizados por Ben, um criminoso inconsciente em relação às consequências dos crimes que comete, parecendo saído de um filme de gangsters dos anos 30, com Corey Stoll a exprimir a violência deste indivíduo pouco recomendável. Woody Allen conta com um elenco competente, com Jesse Eisenberg a surgir como uma espécie de duplo do cineasta, enquanto Kristen Stewart continua a surpreender pela positiva. Stewart expõe habilmente e naturalmente a faceta misteriosa desta personagem inteligente, elegante e inicialmente pouco pedante, que tem de se decidir entre uma das duas figuras por quem se encontra apaixonada (um pouco a fazer recordar o dilema da personagem interpretada por Diane Keaton em "Manhattan"). Kristen Stewart consegue convencer o espectador do dilema de Vonnie, bem como das mudanças desta personagem ao longo do enredo e as dificuldades que esta figura feminina encontra para não sucumbir à futilidade do mundo que a rodeia. Por sua vez, Steve Carell assume com competência o papel de agente de actores com uma carreira bem-sucedida, que se mexe como poucos nos meandros de Hollywood e acaba por se envolver num triângulo amoroso inesperado, embora a dinâmica entre o actor e Kristen Stewart nunca convença ao nível da química emanada por Vonnie e Bobby. Eisenberg consegue transmitir o entusiasmo do personagem que interpreta ao perceber que no interior da sua alma brota algo de muito especial, com Bobby a procurar refazer a sua vida de forma séria em Nova Iorque, embora "Café Society" não poupe nos encontros e desencontros, algo que dificulta a tarefa do protagonista.

 O elenco conta ainda com outros intérpretes que encontram espaço para sobressair, tais como Corey Stoll (a facilidade com que elimina aqueles que se colocam no seu caminho traz à memória o irmão do personagem interpretado por Martin Landau em "Crimes and Misdemeanors"), ou Stephen Kunken como um intelectual pouco expedito, com "Café Society" a contar com um leque alargado de personagens. Diga-se que nem todos os intérpretes conseguem dar um ar da sua graça, que o diga Blake Lively, a intérprete de Veronica, uma loira que tanto tem de bela como de amorfa, que ganha uma relevância notória na vida de Bobby, apesar de Woody Allen raramente conceder tempo para a actriz criar uma personagem que evolua de forma homogénea na narrativa. Já Vittorio Storaro tem espaço de sobra para exibir que é uma adição de peso às equipas de Woody Allen, com o grande mestre da cinematografia a contribuir para alguns planos belíssimos. Veja-se o momento em que Vonnie e Bobby trocam um beijo no Central Park, ou o trecho em que falha a electricidade na casa do segundo quando se reúne com a primeira, com a iluminação proveniente das velas a criar toda uma atmosfera romântica e intimista. Temos ainda a forma luzidia e solarenga como os cenários de Beverly Hills são exibidos, ou a exposição de um crepúsculo belíssimo que envolve Nova Iorque, com Woody Allen a ter em Vittorio Storaro um parceiro de peso. As salas de cinema recebem quase todos os anos um novo filme de Woody Allen, com o cineasta a apresentar uma proficuidade que apenas praticamente é igualada pela sua genialidade, mesmo quando sabemos que aquilo que nos está a apresentar já foi dado com mais classe e vigor, com "Café Society" a não estar ao nível de algumas obras-primas do realizador, embora esteja longe de merecer passar despercebido diante da miríade de estreias que invadem as salas de cinema. Entre traições, frustrações, relações amorosas que se formam e despedaçam, uma banda sonora pontuada por ritmos de jazz e interpretações de bom nível de intérpretes como Jesse Eisenberg, Kristen Stewart e Steve Carell, "Café Society" transporta-nos para o interior de Nova Iorque e Hollywood dos anos 30, ou melhor, para estes espaços como Woody Allen encara os mesmos, ou seja, de forma muito própria e especial, com o cineasta a demonstrar mais uma vez que a sua proficuidade é muito bem-vinda.

Título original: "Café Society".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Steve Carell, Corey Stoll, Stephen Kunken, Parker Posey, Paul Schneider, Jeannie Berlin, Ken Stott, Anna Camp, Blake Lively.

14 outubro 2016

Resenha Crítica: "La ragazza del lago" (2007)

 Nunca é demais repetir que contar com Toni Servillo como protagonista é meio caminho andado para uma obra cinematográfica funcionar, ou, pelo menos, ser elevada pelo trabalho do intérprete. "La ragazza del lago" não é excepção, com Andrea Molaioli a realizar um filme que mistura investigação policial e mistério, enquanto nos deixa diante de um assassinato que mexe com o quotidiano de uma série de personagens. Imensos elementos são investigados e inquiridos, diversas mentiras são desmascaradas, alguns segredos adensam o mistério em volta de um assassinato, enquanto Giovanni Sanzio (Toni Servillo), um comissário experiente e competente, procura resolver o caso ao mesmo tempo que tenta manter a estabilidade do lar. Toni Servillo transmite a experiência de Giovanni, bem como os lados distintos deste personagem que protagoniza uma investigação intrincada e enfrenta um grave drama familiar. No trabalho, Giovanni apresenta uma postura segura e justa, embora também cometa erros de julgamento, apesar de tentar evitá-los ao máximo. Em casa, o protagonista evidencia algumas fragilidades emocionais, algo notório nos comportamentos que assume quando está acompanhado por Francesca (Giulia Michelini), a sua filha, uma adolescente rebelde. A relação entre Giovanni e a filha é relativamente complicada, com o primeiro a procurar proteger a segunda, enquanto a jovem tenta demonstrar que já tem maturidade para compreender a doença delicada da progenitora (Anna Bonaiuto), com Andrea Molaioli a procurar intercalar a investigação problemática que o comissário protagoniza com elementos relacionados com a sua vida privada. Esta conjugação da vida laboral e pessoal de Giovanni permite atribuir uma dimensão mais alargada ao protagonista ao mesmo tempo que evidencia a tentativa de Molaioli em evitar que a narrativa se concentre apenas na investigação, embora a doença da esposa do comissário esteja longe de surgir como uma temática abordada na justa medida. A mulher de Giovanni padece de Alzheimer, algo que a impede de reconhecer o marido e a filha, uma situação que conduziu o protagonista a internar a esposa. Esta situação contribui para um ou outro momento mais dramático, embora a doença da esposa de Giovanni nunca seja abordada com a devida complexidade e relevância, bem pelo contrário. É certo que permite expor um lado mais sensível do protagonista, com o olhar de Toni Servillo, quando Giovanni percebe que a esposa não o reconhece, a ser simplesmente arrasador, apesar do enredo "viver" perfeitamente sem esta subtrama que parece sempre algo desgarrada da restante narrativa. A estrutura narrativa está longe de surpreender, embora o enredo não desiluda, apesar de a espaços quase clamarmos por um pouco mais de irreverência ou que seja introduzido um sentido de urgência palpável a uma investigação onde quase tudo e todos são suspeitos, com excepção dos elementos das autoridades. Não faltam imensas mentiras, segredos, figuras a serem interrogadas, com o elenco secundário a ter espaço para sobressair, ou a investigação não conhecesse alguns avanços e recuos. A morte de Anna (Alessia Piovan), uma jovem misteriosa que praticamente apenas conhecemos através das informações reunidas pelas autoridades, traz algumas doses de mistério e intriga ao enredo de "La ragazza del lago", com as forças policiais a depararem-se com o corpo da falecida junto ao lago de Fusine, naquele que é um episódio que promete mexer com o quotidiano de diversos personagens.

Os planos bem abertos permitem expor que estamos diante de um território aparentemente idílico, pontuado pela presença das montanhas, diversos arvoredos, um lago e imensos espaços verdejantes, com este local a transmitir uma miríade de sensações. Tanto parece que estamos diante de um espaço aparentemente agradável para passear, como diante de um território que transmite uma certa sensação de isolamento, desesperança e mistério. Os planos mais aproximados permitem que o espectador fique diante do corpo praticamente desnudo da falecida, com esta a encontrar-se coberta por um casaco azul, uma cor fria que enche de desesperança as tonalidades verdes que circundam os espaços que rodeiam o lago. Os objectivos que conduziram alguém a cometer este assassinato, ou a personalidade desta jovem, são inicialmente um mistério para o espectador e para Giovanni, com Andrea Molaioli a lançar gradualmente pequenas pistas em volta de todo este caso. Os primeiros suspeitos a serem investigados são Mario (Franco Ravera) e o pai deste indivíduo, dois elementos que vivem nas redondezas do espaço onde ocorreu o assassinato. Mario é descrito como um indivíduo que padece de perturbações mentais e conta com uma relação problemática com o progenitor (Omero Antonutti), enquanto este último despreza o primeiro e apresenta uma personalidade deveras abrasiva. O pai de Mario é paraplégico, locomovendo-se numa cadeira de rodas, embora tenha uma força braçal e uma personalidade que o colocam facilmente na larga lista de suspeitos. Ambos são suspeitos, tal como Roberto Biasiutti (Denis Fasolo), o namorado de Anna, um operário que se coloca praticamente a jeito para figurar na lista de figuras a averiguar com enorme atenção. Denis Fasolo imprime um estilo intempestivo e insolente a Roberto, um jovem que assume uma série de atitudes que despertam uma miríade de dúvidas em volta da sua pessoa, algo que o coloca como um dos suspeitos pelo assassinato de Anna, sobretudo quando decide fugir das autoridades num momento que tanto evidencia desespero como receio e dor. Outro dos elementos investigados é o treinador de hóquei de Anna, com esta jovem a ter abandonado a modalidade sem justificação, uma situação que é esclarecida mais tarde. Diga-se que, ao longo do filme, ficamos a descobrir diversos elementos sobre Anna a partir de terceiros. Um desses elementos que fornece informações sobre Anna é Davide Nadal (Marco Baliani), o progenitor da falecida, um indivíduo com uma estranha obsessão pela filha, algo que podemos comprovar nos vídeos caseiros que este filmou, onde apresenta uma fixação latente pelo corpo da jovem. Davide é outro dos suspeitos, com "La ragazza del lago" a manter durante algum tempo o mistério em volta da identidade do elemento que cometeu o assassinato de Anna. Temos ainda Silvia Nadal, a meia-irmã de Anna, uma figura relativamente afastada do padrasto, com a familiar da falecida a apresentar uma postura particularmente fria naquilo que diz respeito a todo este caso. A investigação protagonizada por Giovanni e a sua equipa envolve o diálogo com uma miríade de figuras e a certeza de que as informações reunidas nem sempre batem certo, algo que se torna latente quando somos colocados diante de Corrado (Fabrizio Gifuni) e Chiara (Valeria Golino), um casal que se encontra separado, que outrora conviveu com Anna devido a esta última ter sido babysitter do rebento da dupla. Corrado apresenta uma postura aparentemente segura, pronta a ludibriar tudo e todos. Chiara parece menos disposta para conversar, embora admita que sentia ciúmes pelo facto do filho apenas parecer calmo e feliz quando estava acompanhado por Anna. No entanto, o filho de Chiara e Corrado faleceu num acidente deveras estranho, com este a ser um dos vários fiapos que Giovanni tem de segurar para não se perder nesta investigação sinuosa. Em determinados momentos de "La ragazza del lago", quase todos os personagens investigados são suspeitos, ou despertam as nossas dúvidas, com Andrea Molaioli a conseguir que este caso labiríntico desperte o nosso interesse, enquanto nos intriga em relação às figuras que povoam a narrativa.

As dúvidas são mais do que muitas, bem como os personagens que são interrogados e os objectos de Anna que são encontrados. O mistério em volta da figura do assassino existe, embora a espaços falte um pouco de sentido de urgência, ou perigo, a rodear todo este caso, com Andrea Molaioli a optar por privilegiar um tom mais calmo e contemplativo. Diga-se que praticamente nunca duvidamos que Giovanni vai conseguir resolver o caso, com "La ragazza del lago" a deixar subentendido, por diversas vezes, que tudo irá contar com uma resolução, embora consiga envolver-nos para o interior da investigação. A banda sonora a espaços adensa a atmosfera de mistério que rodeia a investigação, algo comprovado quando Giovanni se desloca com os seus colaboradores até ao lago onde se encontra o corpo de Anna. O personagem interpretado por Toni Servillo está no centro de quase todos os episódios de relevo que decorrem no interior do enredo, com o actor a explanar as diferentes vertentes deste comissário que se depara com um caso intrincado que ocorre num pequeno espaço da região de Friuli-Venezia Giulia. Diga-se que quase tudo e todos se parecem conhecer no interior deste território rural, embora muitos segredos permaneçam escondidos no seio da aparente calmaria que permeia o local. A paz neste espaço do Norte de Itália é apenas aparente, algo notório quando nos deparamos com o assassinato de Anna, bem como com os segredos guardados por diversos elementos. Veja-se o caso de Corrado, um indivíduo que mantém em sigilo alguns episódios sobre a morte do seu filho, tal como esconde diversas informações sobre a relação que mantinha com Anna. Diga-se que quase todos os personagens mentem, ou omitem factos, com o próprio Giovanni a não conseguir dizer toda a verdade sobre a doença da esposa à jovem Francesca, tal como não comenta inicialmente tudo o que sabe sobre Anna quando dialoga com Roberto. A relação entre Giovanni e os jovens é relativamente problemática, com o comissário a procurar manter uma postura discreta, embora nem sempre consiga esconder as suas emoções, ou o medo de falhar. Se contasse com um pouco mais de arrojo, incutisse um sentido de urgência à investigação protagonizada por Giovanni e apresentasse uma abordagem mais assertiva da temática relacionada com a doença da esposa do protagonista, "La ragazza del lago" certamente conseguiria ultrapassar a mediania na qual a espaços se deixa enlamear. No entanto, embora prefira muitas das vezes seguir por caminhos previsíveis e pouco ousados, Andrea Molaioli tem em "La ragazza del lago", uma estreia relativamente interessante na realização de longas-metragens, com o cineasta a conseguir abordar a complexidade inerente à personalidade do protagonista, enquanto nos deixa diante de uma investigação onde quase tudo e todos são suspeitos, algo que permite incutir algum mistério em relação à identidade do elemento que eliminou Anna. Pelo caminho, "La ragazza del lago" brinda-nos com mais uma interpretação de bom nível de Toni Servillo, um actor capaz de aliar talento, carisma e uma capacidade indelével para elevar os personagens a quem dá vida, para além de contarmos com um trabalho praticamente imaculado a nível de cinematografia, com as especificidades deste espaço do Norte de Itália a serem captadas e utilizadas assertivamente ao serviço do enredo deste filme onde um assassinato mexe por completo com o quotidiano de uma série de personagens. 

Título original: "La ragazza del lago". 
Título em inglês: "The Girl by the Lake". 
Realizador: Andrea Molaioli.
Argumento: Sandro Petraglia (inspirado no livro "Se deg ikke tilbake!" de Karim Fossum).
Elenco: Toni Servillo, Fabrizio Gifuni, Valeria Golino, Denis Fasolo, Alessia Piovan, Franco Ravera,
Giulia Michelini.

12 outubro 2016

Resenha Crítica: "Estate violenta" (Um Verão Violento)

 Verão violento, de sentimentos efervescentes, emoções inquietas e separações difíceis de aceitar, onde um casal improvável se forma e a Segunda Guerra Mundial afecta a vida de quase tudo e todos, mesmo daqueles que não esperam sentir as consequências da mesma. Este não é um Verão qualquer, embora o calor seja notório e a praia um local visitado de forma recorrente por parte de alguns personagens. É o Verão de 1943. O Verão de "Estate violenta", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Valerio Zurlini, com o cineasta a aproveitar o contexto histórico, social e económico deste período para desenvolver um melodrama sublime, onde os sentimentos tanto são contidos de forma exemplar como expostos com uma ferocidade impossível de esconder. Zurlini revela desde a sua segunda longa-metragem uma habilidade notória para extrair boas interpretações por parte do elenco principal, com o cineasta a saber aproveitar o talento dos seus actores e actrizes, bem como as dinâmicas que se formam entre os personagens que estes se interpretam. Carlo Caremoli (Jean-Louis Trintignant) e Roberta Parmesan (Eleonora Rossi Drago) surgem no centro de quase tudo aquilo que acontece em "Estate violenta". Estes formam o casal improvável, aquele que aquece os nossos sentimentos, que nos agarra para o interior da narrativa e nos faz apaixonar pela forma sublime como tudo se desenvolve entre a dupla de protagonistas. A atenção aos gestos e aos olhares trocados por estes personagens é enorme, com Valerio Zurlini a surgir como um poeta dos sentimentos e das imagens em movimento, esculpindo momentos que nos inebriam e envolvem de forma indelével. Veja-se quando, num determinado momento de "Estate violenta", encontramos Carlo e Roberta a dançarem ao som de "Temptation" de Bing Crosby. Carlo dança com Rossana (Jacqueline Sassard), uma jovem interessada no protagonista. Roberta dança com um amigo de Carlo. A música afecta o corpo e a alma destes elementos, bem como a parca e sedutora iluminação, com o cenário da mansão de Carlo, rodeada por um belo jardim, a surgir como o palco de um episódio sublime de "Estate violenta". Carlo e Roberta dançam com outros parceiros mas não conseguem desviar o olhar um do outro, parecendo certo que é apenas uma questão de tempo até os protagonistas soltarem os sentimentos contidos no interior das suas almas, qual vulcão pronto a entrar em erupção. É uma relação pontuada pelo desejo e sentimentos fortes, embora os receios de Roberta sejam imensos, enquanto Carlo respeita, admira e deseja esta mulher. Este é mais jovem do que Roberta, habita numa mansão luxuosa e desfruta dos benefícios do facto de ser filho de Ettore Caremoli (Enrico Maria Salerno), um fascista que conta com uma personalidade distinta do rebento. Se Carlo é um jovem relativamente sensato, embora algo mimado, já Ettore é um indivíduo preso às suas convicções e aos seus ideais pouco recomendáveis, com o primeiro a ser muitas das vezes julgado pelos actos do segundo, embora beneficie da preponderância social do progenitor. Carlo escapa inicialmente de participar da Segunda Guerra Mundial devido aos conhecimentos do progenitor, chegando no início do filme a Riccione, um espaço onde conta com vários amigos que desfrutam dos prazeres da vida e pouco ou nada parecem afectados pelo conflito bélico. O enredo de "Estate violenta" tem como pano de fundo a Invasão Aliada da Sicília, com os bombardeios a serem sentidos, bem como a presença militar. Diga-se que "Estate violenta" não escamoteia o contexto histórico, com Valerio Zurlini a deixar o mesmo em pano de fundo, até evidenciar o quão duramente este pode afectar a dupla de protagonistas. A vida de Roberta foi bastante afectada pela Segunda Guerra Mundial. Esta perdeu o esposo no conflito bélico mencionado, tendo uma filha deste homem, a jovem Colomba, com ambas a habitarem numa casa de dimensões alargadas, com a progenitora da primeira (Lilla Brignone), uma figura altiva, austera, pouco dada a grandes demonstrações de sentimentos ou afectos. 

 Lilla Brignone expõe com facilidade a altivez da personagem que interpreta, uma mulher conservadora, que gosta de manter as aparências e entra facilmente em choque com a filha. Veja-se quando pede para que Roberta se comporte como uma mulher de trinta anos que tem uma filha, com as desavenças a aumentarem a partir do momento em que a protagonista se aproxima de Carlo. O primeiro encontro entre Carlo e Roberta acontece na praia, nomeadamente, quando Colomba se assusta com a aproximação perigosa de um avião, com o veículo a praticamente tocar ao de leve na areia e a efectuar um barulho que ecoa por este cenário. Colomba começa a fugir descontroladamente, com Carlo a conseguir segurar a rapariga que estranhamente simpatiza com este indivíduo. É assim que Carlo e Roberta entram em contacto pela primeira vez, com o grupo de amigos do primeiro a não ter problemas em fazer piadas sobre a diferença de idades da dupla, enquanto a progenitora da segunda exibe um conjunto de preconceitos em relação ao jovem devido ao facto do progenitor do mesmo ser um fascista. Roberta apresenta alguns receios em relação a este indivíduo, embora, aos poucos, comece a conquistar Carlo e a deixar-se conquistar pelo protagonista. Eleonora Rossi Drago interpreta de forma sublime esta personagem marcada pelo destino, de enorme beleza e personalidade, capaz de transmitir imenso com o seu olhar e receosa de soltar os seus sentimentos em relação a Carlo. Veja-se quando Carlo convida Roberta para viajar até San Marino, tendo em vista a comprarem café, algo complicado de adquirir em Itália durante o período da Segunda Guerra Mundial, com o jovem a estar habituado a lidar com o mercado negro. Roberta rejeita inicialmente o convite, embora acabe por ceder, com este passeio a contribuir para que a protagonista conheça melhor este indivíduo e vice-versa. Jean-Louis Trintignant transmite a polidez e ponderação de Carlo, um indivíduo que não concorda com os ideais do progenitor, embora encare os mesmos com alguma ligeireza, que se gosta de vestir bem, divertir e começa a nutrir sentimentos fortes por Roberta. Trintignant tem uma química marcante, envolvente e arrebatadora com Drago, com o actor e actriz a evidenciarem e a transmitirem a procura de Carlo e Roberta conterem os sentimentos, apesar do casal nem sempre ser bem sucedido nesse quesito. Quem não fica satisfeita com este romance é Rosanna, uma jovem de longos e sedosos cabelos negros, com uma beleza desarmante e uma personalidade pouco comedida, que faz parte do grupo de amigos de Carlo. Rosanna demonstra desde o início do filme que se encontra interessada em Carlo, embora as atenções deste indivíduo recaiam quase sempre em Roberta, algo que este evidencia, mesmo quando está junto do grupo. Estes jovens divertem-se imenso, seja a passearem na praia, a visitarem o circo, a efectuarem festas privadas, pelo menos até a narrativa chegar aos acontecimentos de 25 de Julho de 1943, que coincidiram com a reunião na qual alguns membros do Grande Conselho Fascista italiano votaram a favor da destituição do ditador Benito Mussolini. O contexto histórico é aproveitado de forma eficaz, com os tumultos, os bombardeios, o recolher obrigatório, o forte policiamento e presença militar a serem sentidos ao longo do filme, sobretudo a partir dos acontecimentos de 25 de Julho. Veja-se a forma como a casa do protagonista é alvo de despejo, com Valerio Zurlini a efectuar uma utilização eficaz dos cenários interiores. Os cenários interiores permitem evidenciar que tanto Roberta como Carlo descendem de famílias com algumas posses e tradições, embora os protagonistas não pareçam capazes de se comportar como os familiares desejam, sobretudo a primeira. Veja-se o relacionamento que se forma entre Roberta e Carlo, com estes a não se preocuparem com a idade ou as diferenças políticas, enquanto Valerio Zurlini desenvolve o romance destes personagens de forma sublime e aproveita ao máximo as dinâmicas convincentes entre Eleonora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant.

A química entre a dupla de protagonistas é visível ao longo de uma série de momentos marcantes de "Estate violenta". Veja-se o momento em que Roberta e Carlo trocam olhares ao som de "Tempation", ou um dança onde é impossível não reparar nos gestos subtis que são trocados pela dupla, ou um encontro nocturno que é interrompido pela presença dos militares, ou uma cena na praia na qual os protagonistas expõem que se encontram a viver uma paixão arrebatadora. Diga-se que o casal acaba por se aproximar ainda mais a partir do momento em que Maddalena (Federica Ranchi), a cunhada de Roberta, chega de Catanzaro para habitar com a protagonista. Maddalena é da idade de Carlo e do grupo de amigos do mesmo, com esta a apresentar uma personalidade relativamente arisca, embora consiga adaptar-se relativamente bem a estes elementos. Nesse sentido, Maddalena acaba por ser inserida no grupo, embora traga também consigo Roberta, algo que proporciona mais momentos que contribuem para a aproximação entre a protagonista e Carlo. Valerio Zurlini consegue desenvolver a relação "proibida" destes personagens de forma sublime, com tudo a desenrolar-se de forma aparentemente natural, mesmo quando o perigo começa a rodear o namoro de Carlo e Roberta. A partir de um determinado momento de "Estate violenta", Carlo e Roberta procuram acima de tudo desfrutar ao máximo das oportunidades em que estão juntos, com ambos a saberem que, mais tarde ou mais cedo, poderão ser afectados pelo contexto político e militar que os rodeia. Não é um contexto fácil, com Carlo e Roberta a contarem com contrariedades a mais para ultrapassarem, seja quando procuram escolher os actos mais pragmáticos, ou quando se deixam conduzir pelos ímpetos e optam por decisões nem sempre objectivas. A banda sonora não poupa no tom melodramático, contribuindo para adensar quer os momentos românticos, quer as situações mais dramáticas, quer os perigos que rodeiam o casal de protagonistas. Veja-se quando assistimos a um bombardeio efectuado por um conjunto de aviões, com Roberta e Carlo a serem obrigados a mudarem temporariamente de planos, com o destino a exibir uma certa malvadez para com a dupla. O namoro de Carlo e Roberta permite que Valerio Zurlini exponha algumas das hipocrisias da sociedade da época, em particular, os preconceitos relacionados com o envolvimento amoroso entre um homem mais novo e uma mulher mais velha, uma situação que não acontece quando o elemento masculino conta com uma idade superior à figura feminina, com o cineasta a abordar uma temática relevante e pertinente. Diga-se que Zurlini concede espaço para Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago comporem personagens com densidade, dotados de alguma complexidade, com o cineasta a rodear-se ainda de uma equipa competente. Veja-se o magnífico trabalho de iluminação e composição dos planos quando a canção "Temptation" invade o ecrã de poesia e sentimentos arrebatadores, com o contraste entre a luz e as sombras a contribuir para essa atmosfera de tensão sexual e desejo que se forma entre Carlo e Roberta (o trabalho de Tino Santoni na fotografia é mais uma vez exemplar). "Estate violenta" transporta-nos para o interior de um romance intenso, que é vivido em tempos de Guerra e enorme turbulência política, social e militar, com Valerio Zurlini a explorar eficazmente a forma como o contexto afecta a vida da dupla de protagonistas, enquanto nos deixa diante de uma obra cinematográfica pontuada por alguns momentos sublimes, emocionalmente intensos e interpretações de grande nível, com Eleonora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant a contarem com uma química marcante.

Título original: "Estate violenta".
Título em Portugal: "Um Verão Violento".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Valerio Zurlini, Suso Cecchi d'Amico, Giorgio Prosperi.
Elenco: Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintignant, Enrico Maria Salerno, Jacqueline Sassard, Lilla Brignone.