24 agosto 2016

Em Setembro...

Contava efectuar uma paragem bastante longa, ou provavelmente não voltar a escrever no Rick's Cinema. No entanto, a realidade é bem mais complexa e caricata do que a ficção. Nesse sentido, se a realidade não voltar a atraiçoar os meus planos, o Rick's Cinema regressa em Setembro.  




08 agosto 2016

Uma pausa inevitável

 Nos próximos tempos o Rick's Cinema vai estar praticamente parado. O blog não vai acabar, não seria capaz de terminar de vez com este espaço. Foram horas e mais horas dedicadas ao blog para terminar de vez com o Rick's Cinema (a própria imagem que acompanha este texto indica que desistir não é uma opção). No entanto, também não sei precisar ao certo quando regressa e como regressa. Se tudo correr mal, o blog regressa depressa, se tudo correr bem, o regresso promete ser demorado. Por enquanto tudo é incerto quer para mim, quer para o blog. Primeiro preciso de me adaptar a novas rotinas. Posteriormente terei de repensar o funcionamento deste espaço. Não deixa também de ser relativamente irónico que o momento no qual percebo o quanto sou apaixonado por este hobby seja precisamente quando tenho de me afastar temporariamente do mesmo. Penso que qualquer pessoa adoraria que o seu blog funcionasse praticamente como o Omelete e o Cinema em Cena, ou seja, conseguisse ser rentável (pelo menos, eu gostava), com a grande paixão de uma vida a transformar-se no emprego de sonho. No entanto, esse desejo é impossível, pelo menos com este espaço e acredito que praticamente com qualquer blog de cinema nacional (e sites). É impossível não encarar esta paragem com um misto de alegria e nostalgia. No caso do regresso não se proporcionar, algo é certo e completamente sentido: não me esqueço das entrevistas efectuadas, dos momentos de bloqueio e da minha incompetência a rever textos, das resenhas escritas, dos visionamentos e das sensações únicas de cobrir festivais, das discussões acaloradas (seja com outros bloggers ou pessoal de algumas distribuidoras) e das amizades criadas, da colaboração com a Take, entre tantos outros momentos que simplesmente são impossíveis de esquecer de um dia para o outro. Muito obrigado a quem acompanhou e acompanha este espaço. Até já.  

Resenha Crítica: "Brutti, sporchi e cattivi" (Feios, Porcos e Maus)

 Entre a comédia à italiana e a tragédia, o drama e a sátira social, "Brutti, sporchi e cattivi" não tem problemas em abraçar os exageros e o grotesco, enquanto nos coloca diante de uma família completamente disfuncional que vive num bairro localizado nas margens da cidade de Roma. Ettore Scola não poderia ser mais claro ao exibir o centro da cidade em pano de fundo, ou, pelo menos, o seu espaço mais desenvolvido, enquanto deixa em primeiro plano as gentes sem grandes perspectivas de vida, empobrecidas, rudes e maioritariamente iletradas, que procuram acima de tudo sobreviver. O plano final assim o indica, ou não ficássemos diante de uma jovem grávida, sem grandes perspectivas de futuro a não ser repetir o estilo de vida dos familiares, enquanto encontramos o centro de Roma como pano de fundo, em particular a Basílica de São Pedro. Ficamos diante do contraste entre centro e periferia, entre esperança e desesperança, enquanto Ettore Scola apresenta tudo num jeito muito italiano, onde o humor e a tragédia se unem e a espaços chamam ainda o grotesco e o drama. Diga-se que não faltam elementos das comédias à italiana em "Brutti, sporchi e cattivi", com Ettore Scola a colocar-nos diante de situações cómicas a partir da tragédia, figuras depauperadas, traições, personagens com um desejo sexual bastante activo, enquanto nos deixa perante uma família de dimensões alargadas que vive num espaço claramente diminuto e degradado (tal como os valores dos elementos que habitam nesta casa). A exposição das margens de Roma como um território marcado pelo lixo, pela falta de condições e gentes empobrecidas é algo que Ettore Scola já tinha efectuado, ainda que num tom mais leve em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)". Em ambas as obras cinematográficas mencionadas não existe espaço para dúvidas de que o final está longe de transmitir esperança, com Ettore Scola a conseguir despertar uma miríade de sentimentos no âmago do espectador. É fácil sorrir em alguns momentos, mas também sentir desconforto ou simplesmente levar um murro no estômago, ou perceber que estes personagens estão destinados a viver no caos, ou a agredirem-se constantemente, seja a nível físico ou psicológico. A casa do protagonista, onde habita boa parte do núcleo familiar do mesmo, encontra-se claramente degradada, enquanto os elementos que vivem na mesma apresentam comportamentos rudes e violentos, não tendo problemas em disparar ofensas ou partirem para as agressões físicas, com o cadastro destes personagens a ser particularmente conhecido na esquadra local. Nem todos são personagens agradáveis, bem pelo contrário, a começar por Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi), o protagonista de "Brutti, sporchi e cattivi", um indivíduo que recebeu uma soma avultada de dinheiro devido a um acidente no trabalho que o deixou cego de um olho.

Giacinto não quer dividir o dinheiro com ninguém, nem mesmo com Matilde (Linda Moretti), a sua esposa, exibindo uma atitude peculiar e avarenta diante dos familiares, encarando os mesmos como inimigos. As noites de Giacinto são passadas praticamente em claro, com o protagonista a dormir acompanhado por uma espingarda, tendo em vista a evitar que furtem o dinheiro que tem escondido no interior da sua casa. Nino Manfredi é o actor que mais sobressai ao longo do enredo ao interpretar um indivíduo que tanto tem de violento como de patético, machista, beberrão e trágico, que agride a esposa e envolve-se com uma prostituta, tendo uma família alargada embora quase ninguém goste de si, com a própria progenitora de Giacinto a não ter problemas em aceitar o plano de envenenar este indivíduo. De cabelos acinzentados a descaírem para o branco, um físico pouco cuidado, tal como o seu visual, Nino Manfredi incute uma presença física notória a este personagem, beneficiando não só de um bom trabalho a nível de caracterização e de um argumento bem escrito, mas também do seu talento para a interpretação. Manfredi eleva Giacinto, conseguindo expressar o estilo agressivo e pouco polido deste personagem que apenas parece despertar a atenção de Iside (Maria Luisa Santella), uma prostituta anafada que o protagonista decide levar para a sua casa, tendo em vista a viver com a mesma, algo que coloca a família em polvorosa. Maria Luisa Santella apresenta uma enorme desenvoltura e capacidade para encarnar esta figura que adensa o lado grotesco da narrativa de "Brutti, sporchi e cattivi", com a intérprete a incutir uma naturalidade notória aos episódios protagonizados por esta mulher de seios avantajados, vestimentas peculiares e um físico robusto. Veja-se quando um pedaço de macarrão cai no seios de Iside e esta não tem problemas em apanhar o mesmo e comê-lo, ou quando um cunhado de Giacinto invade a cama do protagonista e começa a fornicar com a primeira, com Ettore Scola a parecer jogar com os limites dos personagens e do espectador, sempre sem ter receio de abraçar o grotesco. A habitação de Giacinto é uma barraca que se encontra superpovoada e desprovida de condições, contando com a presença dos dez filhos do primeiro e Matilde, para além de outros familiares. O design deste cenário interior é fulcral para adensar a atmosfera abrasiva que envolve estes personagens, com o espaço da casa a apresentar condições diminutas para contar com tantos elementos, algo que ainda piora no último terço. Veja-se a presença de colchões e tralha pelas várias divisórias da casa, enquanto a presença humana é notória, com este espaço habitacional a contar com mais de uma dezena de residentes. O próprio trabalho de Dario di Palma na cinematografia permite exponenciar essa sensação quase claustrofóbica que rodeia o espaço da casa, como se este local não conseguisse albergar todas as emoções que se vivem no seu interior. Diga-se que parece faltar quase tudo a estes personagens, incluindo valores morais e bom senso. Tudo isso está em falta, enquanto ficamos diante deste grupo de personagens peculiares, com quase todos a apresentarem personalidades muito próprias e comportamentos que parecem muitas das vezes serem fruto do meio duro onde habitam.

 Os sentimentos são expostos de forma bem viva, quase sem travão, enquanto a violência parece fazer parte do quotidiano de todos estes personagens, bem como o desejo sexual, com Giacinto a não ter problemas em fazer sexo com a esposa de um familiar, tal como um cunhado do protagonista não exibe grandes tabus ao invadir a cama do mesmo para fornicar com Iside. A maioria dos filhos de Giacinto e os restantes familiares do protagonista não trabalham ou não conseguem arranjar emprego, com quase todos a dependerem deste indivíduo e da sua mãe. A mãe de Giacinto é uma idosa de personalidade peculiar, que se locomove numa cadeira de rodas e passa os seus dias a ver televisão e a procurar aprender inglês através dos programas televisivos (protagonizando gags a falar inglês que a espaços trazem à memória a tentativa da personagem interpretada por Monica Vitti aprender inglês em "Dramma della gelosia"), com boa parte dos personagens a depender da pensão desta figura vetusta. Por sua vez, Linda Moretti interpreta uma personagem intempestiva e vingativa, de buço saliente, que sofre abusos por parte de Giacinto, com a actriz a conseguir expressar a rudeza de Matilde. A relação entre Giacinto e Matilde já conheceu melhores dias, ou pelo menos pensamos que outrora contou com momentos de felicidade. Giacinto não quer dividir as suas finanças com os familiares, enquanto a esposa depara-se com uma situação matrimonial ainda mais degradante quando o primeiro traz Iside para viver com a família, com a cama do casal a ser dividida pelo trio. Temos ainda elementos como Nando (Franco Merli), um dos filhos de Giacinto e Matilde, um jovem que se gosta de vestir de mulher e fornicar com figuras femininas, incluindo com a esposa de um familiar, com as trocas e baldrocas no interior deste espaço habitacional a serem mais do que muitas. A certa altura, Matilde decide organizar um plano para assassinar Giacinto, com a narrativa a ganhar contornos mais negros, embora nem tudo corra como o esperado, enquanto Ettore Scola explora as dinâmicas intrincadas e peculiares destes personagens. A violência parece fazer parte do quotidiano da maioria dos elementos que povoam o enredo de "Brutti, sporchi e cattivi", com quase todos os personagens a parecem incapazes de exibirem grandes demonstrações de afecto. Giacinto ainda exibe alguma estranha ternura para com Iside, embora pareça acima de tudo desejar fisicamente esta mulher, ou o desejo sexual não surgisse como uma das temáticas das comédias à italiana. Não faltam piadas com personagens a mexerem em seios ou traseiros, bem como discussões mais acaloradas ou buscas pelo local onde Giacinto escondeu o dinheiro. Giacinto encontra-se no cerne de quase toda a narrativa, enquanto Ettore Scola coloca-nos diante de um conjunto de personagens que parece ter perdido a habilidade para conviver harmoniosamente em sociedade, se é que estas figuras alguma vez tiveram essa sensibilidade, com o próprio espaço onde habitam a revelar-se algo abrasivo e propiciador destes comportamentos. 

O lixo, os ratos, as poucas condições de saneamento básico parecem fazer parte do espaço onde Giacinto e a sua família habitam, com este território das margens a contar com uma quantidade assinalável de barracas que se encontram longe de garantirem a qualidade de vida destes personagens. Veja-se o espaço onde ficam instalados os jovens durante o dia, transportados por Maria Libera (Marina Fasoli), uma das familiares de Giacinto e Matilde, um parque improvisado que conta com poucas ou nenhumas condições de segurança. As parcas condições dos homens e mulheres que habitam este espaço é uma das temáticas que marca a narrativa, enquanto Ettore Scola não parece apresentar problemas em recorrer ao grotesco e ao humor negro. Não falta um cão perneta, ratos a circularem pelas casas, mulheres com buço, um protagonista que roça o grotesco, casas com poucas condições e gentes com parcas perspectivas de vida, algo latente na figura da jovem Maria Libera. Esta é uma pré-adolescente ou adolescente que trabalha, conta com uma personalidade algo passiva e habita num espaço pouco propício para ganhar bases a nível de escolaridade que lhe permitam almejar um futuro mais risonho. A personagem interpretada por Marina Fasoli é uma das raras figuras que parecem pouco interessadas no dinheiro de Giacinto, enquanto os restantes familiares procuram roubar a quantia que este esconde, algo que adensa a paranóia deste indivíduo peculiar e agressivo. Maria Libera tem em Tommasina (Clarisse Monaco) uma figura que a intriga. Tommasina ganha a vida a despir-se para ensaios fotográficos, algo que orgulha a sua progenitora, embora seja alvo de troça dos jovens locais, ou não estivéssemos diante de um espaço conservador, onde a ascensão social parece praticamente impossível e o machismo parece inculcado em diversas figuras masculinas. Ettore Scola expõe-nos aos espaços degradados das margens de Roma, enquanto nos apresenta a um grupo peculiar de personagens, com Nino Manfredi a sobressair acima de todos os outros elementos do elenco ao dar vida a Giacinto, numa obra cinematográfica que tem muito das comédias à italiana, ou seja, pontuada por muito humor mas também por situações trágicas e dramáticas.  

Título original: "Brutti, sporchi e cattivi".
Título em Portugal: "Feios, Porcos e Maus".
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Sergio Citti, Ettore Scola, Ruggero Maccari.
Elenco: Nino Manfredi, Marcella Michelangeli, Marcella Battisti, Francesco Crescimone, Silvia Ferluga, Zoe Incrocci, Adriana Russo, Franco Merli, Maria Bosco, Clarisse Monaco,
Marina Fasoli.

07 agosto 2016

Resenha Crítica: "Gorbaciof" (2010)

 Com uma mancha na pele inerente a uma malformação capilar que lhe valeu a alcunha de Gorbaciof, (a remeter para Mikhail Gorbachev, o oitavo e último líder da União Soviética, um indivíduo que tinha uma marca semelhante), uma personalidade introvertida e um enorme vício pelo jogo, Marino Pacileo (Toni Servillo) é um caixeiro solitário, que trabalha num estabelecimento prisional situado em Poggioreale. Pacileo é o protagonista de "Gorbaciof", um drama que tanto tem de delicado como de violento, onde os gestos e os olhares contam com tanta ou mais importância do que as parcas palavras que ouvimos a serem emitidas pelo personagem principal ou Lila (Yang Mi). Esta é uma imigrante chinesa que se encontra a trabalhar no restaurante do pai (Hal Yamanouchi), um local onde decorrem jogos de póquer ilegais, com a jovem a despertar a atenção do protagonista, embora Lila não saiba uma única palavra de italiano. A dinâmica entre Pacileo e Lila é trabalhada de forma sublime por Stefano Incerti, com o cineasta a atribuir uma enorme atenção aos gestos destes personagens, enquanto beneficia da capacidade de Toni Servillo e Yang Mi conseguirem expressar-se facilmente através das expressões corporais, com o actor e a actriz a convencerem em relação aos estranhos e ternos sentimentos que se formam entre esta dupla. Yang Mi concede uma candura e sensibilidade a Lila que nos desarma com facilidade, com esta personagem a deparar-se com uma realidade nem sempre agradável no interior do território de Nápoles, com o próprio pai a parecer ter planos pouco recomendáveis para o futuro da jovem. Toni Servillo surge imponente, construindo um personagem que tanto tem de problemático como de sensível, com o actor a conseguir transmitir que estamos diante de uma figura que se encontra numa zona cinzenta, deambulando entre o bem e o mal. Gorbaciof tanto é capaz de roubar dinheiro e envolver-se em assaltos como proteger Lila e protagonizar alguns momentos de enorme candura ao lado da jovem, com a dupla a parecer complementar-se praticamente na perfeição. Ele é solitário, fala pouco, habita num espaço decorado de forma simples e não tem grandes amizades. Ela é bastante observadora, não fala italiano, apresenta uma sensibilidade latente e parece curiosa em relação a Pacileo. O momento-chave para o início desta peculiar relação de amizade - que parece conter no seu interior outro tipo de sentimentos - acontece quando Lila é alvo de comentários insultuosos por parte de dois clientes, com Pacileo a defendê-la e a avançar com violência contra a dupla. Diga-se que Pacileo conta uma compleição física relativamente imponente e uma força capaz de meter respeito, com o protagonista a não ter problemas em envolver-se em situações de pancadaria, embora demonstre por diversas vezes alguns sinais de fraqueza. O vício pelo jogo é a maior fraqueza de Pacileo, com este a contar com uma rotina monótona e solitária, pelo menos até conhecer Lila. A rotina de Pacileo centra-se sobretudo em dirigir-se de casa para o trabalho e, ao sair do espaço prisional, deslocar-se para diversos locais de jogo, tais como o restaurante chinês do pai de Lila, um estabelecimento onde decorrem jogos de póquer ilegais. Os jogos são organizados por um advogado (Geppy Gleijeses) moralmente corrupto, que conta quase sempre com a companhia de um capanga para recolher as verbas em falta, enquanto tudo decorre no interior de uma sala recôndita do restaurante. Muito dinheiro é colocado em jogo, enquanto as cartas ditam o azar ou a sorte de alguns jogadores, com Pacileo e o pai de Lila a perceberem da pior maneira que tudo pode mudar rapidamente de um momento para o outro.

 Mais do que jogar para ganhar dinheiro ou enriquecer, Pacileo parece jogar devido ao vício que formou em relação à jogatana, com este indivíduo a furtar regularmente o dinheiro do cofre da prisão, embora devolva o mesmo de forma amiúde, pelo menos enquanto ganha. Por sua vez, o pai de Lila mete-se numa enrascada que pode colocar a jovem em perigo, embora Gorbaciof exiba um instinto protector latente em relação à sua "protegida". A personagem interpretada por Yang Mi é uma das muitas jovens que partem da China sem saberem uma única palavra da língua do país para onde se deslocam, parecendo um "peixe fora de água" no interior deste território napolitano. O restaurante chinês onde Lila trabalha conta com um ambiente semelhante a tantos outros espaços do género com que nos deparamos pelas ruas, com o trabalho a nível da decoração do cenário e a atmosfera criada em volta do mesmo a contribuírem para essa sensação. Não falta a música genérica, a decoração muito própria dos restaurantes chineses baratos, embora o estabelecimento acabe por servir para outro tipo de actividades ilegais. A cinematografia adapta-se com sobriedade àquilo que o filme pede, com a câmara a tanto contribuir para adensar o sentido de urgência e intensidade em volta de alguns episódios, tais como o momento em que o pai de Lila perde um jogo e fica subentendido que o advogado encara a jovem como um bem que está em disputa, ou para incrementar a estranha ternura de alguns trechos protagonizados pelos personagens interpretados por Toni Servillo e Yang Mi. Diga-se que o trabalho de câmara é ainda essencial para nos apresentar de forma rápida e prática a alguns cenários, algo notório quando Gorbaciof entra no restaurante, a câmara de filmar desloca-se ligeiramente para a esquerda para exibir a sala onde se encontram sentados os clientes, até avançar pela cozinha e pelo espaço que permite chegar ao local de jogo, com o personagem interpretado por Toni Servillo a ser quase sempre acompanhado por Stefano Incerti e Pasquale Mari (director de fotografia). O restaurante encontra-se localizado num espaço de Nápoles, em particular, na Campânia, conhecido pela sua natureza multiétnica, com a presença asiática a ser sentida. Veja-se quando encontramos um grupo de origem asiática a jogar às cartas numa rua, ou o restaurante do pai de Lila. A personalidade dura de alguns italianos, tais como Pacileo, remete para a dureza deste espaço algo periférico, com o protagonista a contactar de perto com uma realidade pontuada pela crueza. Esta situação é desde logo visível pela forma muitas das vezes rude e directa como Pacileo dialoga, com o passado deste indivíduo a nem sempre ter sido fácil, com a ida a um cemitério para visitar o túmulo de um familiar a indicar isso mesmo (o próprio facto de dormir numa cama de casal pode indicar que este é viúvo, ou simplesmente que este blogger é um nabo a interpretar filmes). Diga-se que o quotidiano de Pacileo passa por matar a fome com comida rápida, jogar (seja em máquinas, no bingo ou póquer) e trabalhar, com os seus desfalques a prometerem trazer-lhe problemas, sobretudo quando começa a perder no póquer e a contrair empréstimos. Os momentos de maior felicidade de Pacileo acontecem quando este se encontra ao lado de Lila, com a banda sonora, o argumento, o trabalho dos actores e de Stefano Incerti a contribuírem para incutir uma enorme naturalidade e estranha ternura a esta dinâmica entre os personagens interpretados por Toni Servillo e Yang Mi, algo que contribui para que sejamos conquistados por esta dupla. Veja-se quando encontramos Lila e Pacileo a divertirem-se numa loja e no espaço do aeroporto, ou quando visitam o jardim zoológico durante a noite.

 Os passeios protagonizados por Lila e Pacileo permitem aumentar a intimidade entre estes dois personagens, com a relação de proximidade entre ambos a ser construída à base de gestos, olhares, silêncios e emoções, enquanto Stefano Incerti desenvolve a dinâmica destas duas figuras de forma sublime. A certa altura de "Gorbaciof", torna-se praticamente impossível não torcer para que Pacileo e Lila encontrem a felicidade e ultrapassem as adversidades, embora esse desejo pareça improvável ou praticamente impossível de ser concretizado. Pacileo envolve-se por um caminho negro, sobretudo a partir do momento em que se endivida junto de um guarda prisional corrupto (Nello Mascia) e do advogado, para além de furtar divisas do cofre da prisão, ou seja, o percurso problemático que percorre não augura nada de bom para o seu futuro. A juntar a tudo isso, a violência permeia o quotidiano de Pacileo, com o próprio a envolver-se em confusões escusadas que prometem colocar em perigo o objectivo de ser feliz ao lado de Lila. No final, o poder dos close-ups fica paradigmaticamente representado quando ficamos quer diante do olhar de Pacileo, quer de Lila. O estado de espírito de ambos os personagens é distinto, embora estejam a pensar um no outro, enquanto ficamos com a certeza do sucesso de Stefano Incerti na construção destes dois elementos e das suas dinâmicas. Com um sorriso que a espaços traz à memória o personagem interpretado por Conrad Veidt em "The Man Who Laughs", com o riso do protagonista a nem sempre ser sinónimo de alegria, Gorbaciof permite a Toni Servillo ter espaço para compor um personagem que capta facilmente a nossa atenção, mesmo quando comete actos pouco recomendáveis. Por sua vez, Yang Mi consegue exprimir o mistério, ingenuidade e ternura de Lila, uma jovem que desperta a atenção do protagonista, com muito a ser sentido e pouco a ser dito entre esta e Pacileo. Já elementos secundários como Geppy Gleijeses (o advogado corrupto unidimensional que permite explanar a teia de corrupção que existe neste território), Hal Yamanouchi (como um indivíduo que parece pouco preocupado com a filha), Nello Mascia (como o polícia corrupto que promete envolver o protagonista numa enrascada ainda maior) não têm grande espaço para sobressair, apesar das acções dos personagens que interpretam contarem com alguma relevância para o destino de Lila e Pacileo. Stefano Incerti quase que nos brinda com um filme praticamente sem diálogos, com as falas de Lila e Pacileo a serem reduzidas ao máximo, algo que permite explanar quer o talento de Yang Mi, quer de Toni Servillo, com a actriz e o actor a conseguirem exprimir de forma sublime aquilo que vai no interior da alma dos personagens que interpretam ao longo deste drama bastante recomendável. 

Título original: "Gorbaciof".
Realizador: Stefano Incerti.
Argumento: Stefano Incerti e Diego De Silva.
Elenco: Toni ServilloYang Mi, Geppy Gleijeses, Nello Mascia, Hal Yamanouchi.

03 agosto 2016

Resenha Crítica: "Fargo" (1996)

  Realizado com enorme mestria, criatividade e classe pelos irmãos Coen, "Fargo" coloca-nos diante de um rapto rocambolesco e uma investigação peculiar, sempre com algum humor negro e violência à mistura. Os cenários pontuados pela neve transmitem uma certa frieza e exacerbam as características inóspitas de alguns locais onde se desenrola o enredo, embora "Fargo" seja um filme que desperta os sentimentos mais quentes, enquanto nos deleita com alguns elementos típicos das obras cinematográficas realizadas por Joel e Ethan Coen. Não falta um rapto, os personagens que procuram obter dinheiro fácil, o papel relevante do destino, os diálogos bem escritos, um sentido de humor afiado, a capacidade de Joel e Ethan Coen conseguirem extrair boas interpretações por parte do elenco principal, a procura de explorar espaços muito próprios dos EUA, os nomes bizarros, a violência, entre outros exemplos. Um desses personagens com nomes peculiares é Jerry Lundegaard (William H. Macy), um vendedor de automóveis aparentemente panhonha, algo trapalhão e pouco competente no cumprimento das actividades em que se envolve. Jerry orquestra um plano para raptarem a sua esposa, tendo em vista a dividir a verba do resgate com os criminosos que contratou para efectuarem essa tarefa, embora tudo fuja rapidamente do seu controlo. O verdadeiro alvo de Jerry é Wade Gustafson (Harve Presnell), o seu sogro, um empresário financeiramente abastado e poderoso, com o protagonista a tentar extorquir o familiar a todo o custo, mesmo que isso implique simular o rapto da esposa. Jean Lundegaard, a esposa de Jerry, não tem conhecimento do plano do marido, com Kristin Rudrüd a incutir um tom apagado e ingénuo a esta dona de casa que dedica boa parte do seu tempo ao esposo e ao filho. Se William H. Macy introduz um tom aparentemente confiável a Jerry, que aos poucos se desfaz quando este comete actos como planear o rapto da esposa, enganar clientes e efectuar uma fraude, já Harve Presnell não tem problemas em assumir com gosto a personalidade rude, arrogante e peculiar de Wade, um fã de hóquei no gelo, que despreza por completo o genro. Este desprezo de Wade em relação a Jerry torna-se latente quando o segundo propõe um negócio ao sogro, embora este último ironize com as pretensões megalómanas do genro. Jerry necessita de obter fundos quer para esconder uma fraude financeira que cometeu no local de trabalho, quer para efectuar um investimento num parque de estacionamento, com William H. Macy a interpretar um dos vários personagens peculiares que marcam a narrativa de "Fargo", um thriller neo-noir que contém elementos de comédia negra, com um rapto a trazer uma série de consequências imprevisíveis e a envolver uma miríade de figuras. Entre essas figuras encontram-se Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), os criminosos contratados por Jerry, com este último a dirigir-se inicialmente à cidade de Fargo, localizada na Dakota do Norte, tendo em vista a acertar os últimos pormenores relacionados com o rapto de Jean. Jerry entrega um carro a Carl e Gaear, nomeadamente, um Oldsmobile Cutlass Ciera, de 1987 (o ano em que decorre a narrativa), prometendo ainda pagar quarenta mil dólares aos raptores, ou seja, metade do preço do resgate. Diga-se que o protagonista pretende ainda enganar Carl e Gaear, com a dupla a não saber que o plano envolve uma verba muito mais elevada, ou o primeiro não salientasse ao sogro que os raptores pediram um milhão de dólares.

Carl e Gaear apresentam características bastante distintas mas igualmente ameaçadoras, com Steve Buscemi e Peter Stormare a conseguirem expor aquilo que une e separa estes dois criminosos. Steve Buscemi incute um estilo falador e extrovertido ao personagem que interpreta, com Carl a não conseguir estar em silêncio, mesmo quando promete o contrário, com o actor a aproveitar o bom argumento da autoria dos irmãos Coen para compor uma figura deveras peculiar. A agressividade de Gaear fica paradigmaticamente demonstrada quando este assassina um polícia e dois transeuntes que viram o crime a ser cometido, com Peter Stormare a não precisar de grandes diálogos para exibir a personalidade violenta e lacónica do personagem que interpreta. O assassinato ocorre numa estrada de Brainerd, com o cenário a encontrar-se coberto de neve, uma característica que permite exacerbar a violência e a tensão inerente ao triplo homicídio, enquanto Carl e Gaear demonstram paradigmaticamente que tanto apresentam características patéticas como perigosas, que o digam aqueles que se envolvem no seu caminho. Carl e Gaear envolvem-se com prostitutas, encontram-se numa casa isolada com a refém, deixam pistas pelos locais por onde circulam, enquanto aguardam ansiosamente pelo dinheiro, embora a relação profissional de ambos seja problemática. O próprio rapto é marcado pela falta de subtileza dos assaltantes, bem como por uma queda aparatosa e caricata, com o futuro de Jean a estar em jogo, embora Jerry apenas esteja preocupado é com o dinheiro que pode embolsar com esta jogada, enquanto o filho do protagonista teme pela vida da progenitora. Em paralelo com estes episódios, temos ainda a investigação que se encontra a ser protagonizada por Marge Gunderson (Frances McDormand), a chefe do departamento da polícia de Brainerd, o território onde ocorre o assassinato de um agente e de mais dois elementos às mãos de Carl e Gaear. Se Jerry, Carl e Gaear surgem como figuras que cedem ao desejo de dinheiro fácil, já Marge mantém os seus fortes valores morais intactos, com a polícia a apresentar um sentido de justiça e dever acima de qualquer suspeita. Marge trabalha em Brainerd, um espaço citadino relativamente pequeno, com esta representante das autoridades a parecer estar quase sempre à frente dos seus colegas no que diz respeito a reunir pistas. A personagem interpretada por Frances McDormand encontra-se grávida de Norm (John Carroll Lynch), o esposo, um indivíduo com pouco sucesso a nível profissional, com o casal a contar com uma relação pouco calorosa, marcada por alguma frieza de parte a parte na exposição dos sentimentos, bem como por alguns momentos de silêncio constrangedores, embora o casamento esteja bastante seguro. A intrujice de Jerry e a investigação de Marge acabam por se cruzar num determinado momento da narrativa, com esta mulher a surgir como uma figura intrépida, que se desloca a uma miríade de locais, enquanto procura encontrar os dois criminosos, qual detective dos filmes noir que se envolve numa investigação intrincada.

Marge não sabe inicialmente que a esposa de Jerry foi raptada, enquanto este procura que a polícia se afaste da sua loja de automóveis, algo que parece improvável, ou a dupla de criminosos não utilizasse um veículo com a matrícula do estabelecimento do protagonista. A representante das autoridades envolve-se numa série de peripécias, tais como encontrar um antigo colega de escola que apresenta problemas do foro psicológico, enquanto Frances McDormand brinda o espectador com uma interpretação notável. A actriz incute um tom simultaneamente simples e inteligente a esta polícia que enceta uma investigação com contornos caricatos e perigosos, com Marge a ser mais competente do que aparenta, enquanto Frances McDormand tem um desempenho muito recomendável quer nos trechos mais sérios, quer naqueles que contam com algum humor. Veja-se a dinâmica muito própria de Frances McDormand e John Carrol Lynch, com ambos a exacerbarem o estranho desconforto que a espaços parece pontuar a relação dos personagens que interpretam, ou a habilidade da primeira a incutir um tom deliciosamente peculiar às falas de Marge, sobretudo quando esta surpreende tudo e todos com aquilo que tem para dizer. Esse estilo muito próprio de Marge é visível quando esta resolve mudar repentinamente de assunto, trocando as voltas aos seus interlocutores e ao espectador. Veja-se quando Marge resolve perguntar se uma loja está aberta, tendo em vista a comprar minhocas para o esposo, ou pedir informações a um colega de trabalho sobre a localização de um restaurante barato, após um diálogo sobre a investigação. O argumento dos irmãos Coen é dotado de criatividade e um conjunto de diálogos que sobressaem com facilidade, enquanto a dupla aproveita para explorar sagazmente este universo narrativo dotado de figuras peculiares, situações bizarras e imensa violência. Essa criatividade dos Coen torna-se notória logo no início do filme, em particular, quando é salientado que "Fargo" aborda um caso verídico, algo que contrasta com os créditos finais onde é exposto que os personagens são ficcionais, com os realizadores e argumentistas a procurarem jogar com a percepção do espectador em relação aos episódios apresentados, enquanto realizam um filme neo-noir dotado de uma estrutura narrativa onde as tramas e as subtramas contam quase sempre com algum interesse, mesmo quando não se encontram directamente relacionadas com o caso do rapto. Os eventos que marcam o filme apresentam características rocambolescas que figurariam que nem uma luva num tablóide, com os irmãos Coen a explorarem sagazmente um universo narrativo onde a violência e o humor negro andam lado a lado e uma mala recheada de dinheiro se pode perder diante de um destino nem sempre agradável.

O dinheiro surge como um dos grandes estímulos de diversos personagens, seja Jerry ou a dupla de criminosos, algo que tolda muitas das vezes o discernimento dos mesmos. O próprio sogro de Jerry também apresenta um interesse indelével no dinheiro e no lucro fácil, algo latente quando descura inicialmente um negócio do genro que parece trazer água no bico, pelo menos até perceber que a proposta é rentável, embora não tenha problemas em tirar o protagonista da jogada. Esta miríade de personagens secundários, aliada à qualidade do argumento, permite que alguns intérpretes se destaquem ao longo do enredo de "Fargo", tais como John Carroll Lynch como o estranho esposo de Marge, um indivíduo que pouco comunica; Steve Park como Mike Yanagita, um antigo colega da protagonista, um tipo perturbado que é conhecido pela sua faceta de stalker; Shep Proudfoot (Steeve Reevis), um mecânico violento que forneceu o contacto de Grimsrud a Jerry, bem como os já mencionados Peter Stormare, Steve Buscemi e Harve Presnell. No entanto, William H. Macy e Frances McDormand são os principais destaques do elenco de "Fargo". Macy pela capacidade de explorar quer o lado mais maldoso de Jerry, quer a personalidade mais ingénua e idiota do protagonista, enquanto os elogios a McDormand já foram efectuados ao longo do texto embora mereçam sempre ser reforçados. McDormand transmite o sentido de dever da personagem que interpreta, bem como a personalidade muito própria desta representante das autoridades, com a actriz a apresentar ainda uma habilidade notável para controlar os timings dos momentos de humor, uma situação notória quer nas suas expressões, quer na forma como expõe os diálogos. Recheado de personagens peculiares, eventos rocambolescos, episódios dotados de alguma violência, algum humor negro e tensão, uma cinematografia aprimorada e uma banda sonora que contribui para incrementar a narrativa, "Fargo" surpreende, agarra a nossa atenção e delicia-nos, enquanto os irmãos Coen realizam uma das grandes obras cinematográficas da década de 90.

Título original: "Fargo". 
Título no Brasil: "Fargo - Uma Comédia de Erros".
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Harve Presnell, Peter Stormare.

02 agosto 2016

Resenha Crítica: "The Postman Always Rings Twice" (1946)

 A loira fatal, tão frágil e ao mesmo tempo tão sedutora. O tipo imoral, que é seduzido, tenta seduzir e deixa-se levar pelo destino e pela femme fatale, procurando despertar a atenção da mesma. As sombras que envolvem os cenários e as almas. O fumo dos cigarros que desaparece com tanta facilidade como a felicidade ou os valores morais de alguns personagens. A atmosfera de malaise. Os personagens de carácter ambíguo. O crime, as reviravoltas e as traições. A narração do protagonista na primeira pessoa a expor o seu estado de espírito. O desejo que se acerca da alma e parece inebriar os sentidos. Tudo isto está presente em "The Postman Always Rings Twice", uma obra cinematográfica realizada por Tay Garnett, tendo como base o livro homónimo da autoria de James M. Cain, com o cineasta a brindar o espectador com um filme noir magnífico que conta com diversas características deste subgénero, algo assinalado nos exemplos mencionados no início do texto. O destino dos personagens principais não é o melhor, nem esperaríamos outra coisa, ou estes não se envolvessem por caminhos labirínticos onde a imoralidade e o medo começam a consumir as suas almas. A cinematografia é sublime, bem como a banda sonora e até o guarda-roupa, com a personagem interpretada por Lana Turner a tanto surgir com vestes brancas que lhe dão um falso ar de loira angelical como aparece de vestimentas negras no último terço, algo que praticamente nos leva a conseguir prever o seu destino e o seu estado de alma. Tay Garnett seduz-nos para o interior deste universo narrativo negro, consegue que partilhemos a imoralidade da sua dupla de protagonistas e os seus medos, faz com que sejamos seduzidos por Lana Turner e compelidos a acreditar que a personagem que esta interpreta também foi seduzida. Turner dá vida a Cora Smith, a femme fatale, uma mulher que se encontra presa a um casamento sem amor com Nick (Cecil Kellaway), um indivíduo mais velho do que a protagonista. Nick sabia que esta não se encontrava apaixonada, embora essa situação não o tenha impedido de contrair matrimónio com a loira sensual, misteriosa e ambiciosa. É fácil perceber as razões para Cora conseguir encantar Nick, com Lana Turner a atribuir características de femme fatale à personagem que interpreta. O seu olhar é hipnotizador e magnético. A sua beleza é visível ao olhar da maioria dos homens, com as suas vestes a contribuírem para adensar todo o encanto que desperta nas figuras masculinas. Inicialmente surge de roupas brancas (o que não deixe de ser irónico, já que transmite uma falsa ideia de pureza), mais tarde estará de luto, com as tonalidades negras a surgirem como um indicador que permite prever o destino de Cora. Se esta é uma mulher sem grandes escrúpulos, já Nick, o seu esposo, é um indivíduo de personalidade afável, algo castiço, beberrão, sempre pronto a cortar nas despesas a não ser que estas sejam para o bem estar de Cora. Nick é um indivíduo pouco ambicioso, que evita arriscar nos seus negócios, um restaurante e um posto de gasolina, embora a contratação de Frank Chambers (John Garfield) traga toda uma dose de intrigas e traições para o seio da sua habitação, um espaço situado no interior do local de trabalho. O personagem interpretado por John Garfield é um indivíduo sem grandes objectivos de vida, que anda de local em local, sem se estabelecer muito tempo num emprego, pelo menos até se deparar com Cora.

 Frank não encara o anúncio de emprego do restaurante de Nick com seriedade, pese a simpatia do dono do estabelecimento. No entanto, quando observa um rolo de batom a ir em sua direcção, Frank logo olha com atenção para o local de onde surgiu este objecto. A câmara aproxima-se das pernas de Cora, a face de espanto de Frank é exposta, até a personagem interpretada por Lana Turner ser exibida pela primeira vez em corpo inteiro. Deslumbra o protagonista e o espectador, preparando-se para fazer com que o primeiro fique com "a cabeça à roda". A banda sonora, o trabalho de montagem e a cinematografia contribuem para incrementar este momento de enorme impacto onde Cora e Frank evidenciam ter sentido uma atracção mútua. Cora surge com uma touca ou toalha a tapar os seus belos e cuidados cabelos loiros, uma camisola atada que lhe permite ter a barriga destapada e uns calções deveras curtinhos. Frank pega no rolo do batom e entrega a Cora. A iluminação proveniente dos estores não engana, Frank já está preso a esta mulher e ainda nem sabe da "missa a metade". A loira vai dar a volta à cabeça deste indivíduo, enquanto o personagem interpretado por John Garfield também procura seduzi-la, com ambos a parecerem "farinha do mesmo saco", protagonizando um perigoso jogo de sedução onde é notório que não conseguem ficar indiferentes à presença um do outro. O close-up no rosto de Lana Turner, no momento em que Cora se depara com Frank pela primeira vez, permite transmitir imenso sobre esta personagem que tanto tem de frágil como de sedutora e maliciosa, com a actriz a ter uma interpretação sublime como esta mulher que decide tomar medidas drásticas para se livrar do marido. A dinâmica entre John Garfield e Lana Turner é assinalável (consta que na vida real também tiveram um affair), com ambos a contribuírem para nos convencerem em relação à atracção mútua que é sentida pelos personagens que interpretam, duas figuras hábeis na arte da sedução e dissimulação. John Garfield atribui um estilo meio durão a Frank, típico dos protagonistas dos filmes noir, embora, tal como estes, seja facilmente seduzido pela femme fatale, apesar de também procurar despertar o interesse desta. A relação entre Cora e Frank mescla o mais puro dos venenos com o mais fervilhante dos desejos, com os instintos primitivos a parecerem levar muitas das vezes a melhor sobre a racionalidade, com o argumento de Harry Ruskin e Niven Busch (marcado por falas típicas dos noir) a explorar esta situação de forma exímia. Cora procura desprezar Frank, embora não consiga ficar indiferente em relação a este indivíduo. Frank procura inicialmente controlar-se, embora o esforço não seja muito, surgindo como um indivíduo bem falante, capaz de vender facilmente a "banha da cobra", roubando um beijo a Cora pouco tempo depois de a conhecer. No meio destes dois surge Nick, o esposo de Cora e dono deste restaurante e gasolineira, um indivíduo que sabe que a esposa contraiu matrimónio devido a interesse, embora procure zelar pelo bem estar desta. Cecil Kellaway consegue fazer com que Nick desperte a nossa simpatia, com o actor a contar com uma interpretação eficaz como este indivíduo demasiado compreensivo, embora o intérprete seja quase sempre abafado pelas chamas emanadas por John Garfield e Lana Turner, com a dupla a incendiar o ecrã como este casal explosivo. Ele é impulsivo, decidido e não conta com grandes objectivos profissionais, com o seu maior plano para o imediato a passar sobretudo por conseguir conquistar Cora. Ela é ambiciosa, quer mandar no restaurante e ser a dona do mesmo, embora também ceda ao desejo, apesar de não ter problemas em travar uma fuga por não querer viver na incerteza. Quando estão na praia, durante a noite, Frank e Cora parecem soltar alguns dos seus sentimentos, com o regresso a casa a ser marcado por mais um beijo e a certeza que o interesse é mútuo. O avançar da relação entre Frank e Cora conduz a que esta resolva pensar num plano para eliminar o esposo, uma situação que promete trazer problemas a ambos os personagens, com as consequências deste acto a incitar uma divisão entre o casal adúltero.

Não vão faltar ainda elementos de filme de tribunal a "The Postman Always Rings Twice", algo que permite a personagens como Kyle Sackett (Leon Ames), o promotor do Ministério Público, e Arthur Keats (Hume Cronyn), o advogado de Cora, sobressaírem. Sackett é um indivíduo aparentemente sagaz e duro, que suspeita dos protagonistas desde a primeira tentativa, ainda que falhada, de assassinato a Nick. Keats é um advogado que se insere na perfeição no meio da imoralidade que rodeia o enredo, com Hume Cronyn a conceder a este personagem uma safadeza típica de alguém que é inteligente o suficiente para saber as leis ao pormenor para contornar as mesmas e utilizá-las com a minúcia de um jogador de xadrez. Tay Garnett explora este universo narrativo negro com enorme minúcia e atenção aos pormenores. Desde o desenvolvimento da tensão sexual entre Frank e Cora, passando pela inquietação em volta da tentativa de assassinato, até ao último terço onde a atmosfera de malaise toma conta de todos os poros do filme, tudo parece funcionar, com o cineasta a alicerçar-se ainda no magnífico trabalho de Sidney Wagner na cinematografia. Os close-ups são aproveitados e arquitectados de forma exímia, o jogo entre luz e sombras é utilizado com enorme simbolismo e sapiência, com tudo a parecer funcionar de forma imaculada ao longo desta obra cinematográfica onde o destino tem um papel importante e os actos dos seres humanos nem sempre são os mais recomendáveis. A atmosfera é muitas das vezes tensa, tal como o jogo de sedução entre Frank e Cora, com John Garfield e Lana Turner a atribuírem credibilidade aos actos dos personagens que interpretam, com esta jogatana com os sentimentos a desembocar numa teia de crimes e mentiras. Frank passa a viver na casa de Cora e Nick, situada no interior do restaurante, parecendo formar amizade com este último embora esteja é interessado na esposa do seu patrão. A espaços a relação entre Frank e Cora traz à memória o enredo de "Double Indemnity" (também inspirado num livro de James M. Cain), onde a protagonista também procurou convencer Walter Neff (Fred MacMurray), o amante, a eliminar o esposo, numa obra onde também não faltam traições, a femme fatale, a utilização do chiaroscuro, entre outros elementos associados aos noir. A tensão também faz parte da narrativa de "The Postman Always Rings Twice", seja devido à preparação de um assassinato, ou à atmosfera associada a um julgamento, ou inerente a um gato que sobe umas escadas no pior dos momentos, com Tay Garnett a conseguir inquietar-nos em alguns trechos desta magnífica obra cinematográfica. Com um enredo tão sedutor como a personagem interpretada por Lana Turner, "The Postman Always Rings Twice" prende-nos a este universo narrativo negro, marcado por mentiras, traições, mortes, actos imorais, sedução e uma atmosfera de malaise tão típica deste subgénero, com Tay Garnett a realizar um dos bons exemplares do mesmo.

Título original: "The Postman Always Rings Twice".
Título em Portugal: "O Destino Bate à Porta".
Realizador: Tay Garnett.
Argumento: Harry Ruskin e Niven Busch.
Elenco: Lana Turner, John Garfield, Cecil Kellaway, Hume Cronyn.

01 agosto 2016

Resenha Crítica: "The Man Who Wasn't There" (O Barbeiro)

 Quase sempre acompanhado pelo seu cigarro, pouco dado a grandes diálogos ou demonstrações de afecto, Ed Crane (Billy Bob Thornton), o protagonista de "The Man Who Wasn't There" é um barbeiro lacónico e fumador, que trabalha para Frank (Michael Badalucco), o seu cunhado, um indivíduo que fala pelos cotovelos. A barbearia onde Frank e Ed trabalham é um espaço de proporções relativamente diminutas, embora seja frequentada por uma miríade de clientes, com o segundo a demonstrar logo no início do filme que domina o seu ofício de forma quase mecânica e impecável. Veja-se quando Ed exibe os cortes de cabelo mais pedidos pelos clientes, num momento que tanto tem de cómico como de deprimente, ou o protagonista não contasse com um quotidiano aparentemente desprovido de interesse. Ed é casado com Doris (Frances McDormand), a contabilista da Nirdlingers, uma loja que vende perfumes, meias, maquilhagem, bem como outros produtos do género, com o matrimónio deste casal a ser marcado por alguma frieza e poucas demonstrações de afecto. Essa frieza é visível quando Ed descreve alguns episódios do dia-a-dia com a esposa, com a relação entre ambos a ser marcada sobretudo pela comodidade e pelo facto dos cônjuges não se chatearem muito um com o outro. Doris mantém um affair com Dave Brewster (James Gandolfini), o seu chefe, um indivíduo que é casado com Ann Nirdlinger Brewster (Katherine Borowitz), uma figura feminina relativamente apática, que não desconfia que se encontra a ser traída e acredita na existência de extraterrestres. Se Ed é um indivíduo lacónico e aparentemente passivo, já Dave aparece como uma figura completamente dicotómica do barbeiro, com James Gandolfini a compor um personagem extrovertido e gabarola, que gosta de contar piadas e dialogar sobre o seu passado como militar. A loja de Dave pertence a Ann, com o primeiro e Doris a procurarem esconder o affair de tudo e todos, embora Ed descubra a traição, algo que expõe junto do espectador, apesar de inicialmente não efectuar nada para resolver o caso. Billy Bob Thornton incute um estilo letárgico a Ed (algo que consegue expor nas suas expressões faciais, bem como na forma de dialogar), o protagonista e narrador de serviço de "The Man Who Wasn't There", com o actor a interpretar um personagem aparentemente pouco dado a aventuras, pelo menos até aparecer um cliente com uma proposta que parece simultaneamente disparatada e sedutora. O cliente é Creighton Tolliver (Jon Polito), um empresário bastante falador, que procura convencer alguém a investir dez mil dólares num negócio relacionado com a lavagem a seco. Tolliver pretende constituir uma sociedade para abrir uma lavandaria especializada na lavagem a seco, considerando que este negócio é o futuro, enquanto Ed ouve a proposta com alguma atenção, embora inicialmente encare a mesma como uma tentativa de venda da banha da cobra. No entanto, Ed decide arriscar e compromete-se a investir os dez mil dólares, com o protagonista a encetar um plano rocambolesco para obter essa quantia. Ed envia uma carta anónima a Dave, tendo em vista a tentar extorquir este último, ameaçando revelar a Ann que o empresário mantém um affair com Doris. Dave fica desesperado e acaba por ceder a quantia, enquanto Ed pensa ter efectuado o plano aparentemente perfeito, com o protagonista a revelar um apreço pela obtenção de dinheiro fácil que é muito típico dos filmes dos irmãos Coen.

"The Man Who Wasn't There" conta com diversos ingredientes dos filmes noir e de conspiração, bem como de thrillers, com os irmãos Coen utilizarem esses componentes de forma muito própria, com a obra cinematográfica em análise a possuir vários elementos transversais aos trabalhos da dupla. Não faltam as traições, a busca pelo dinheiro fácil, um argumento aprumado, a violência, o narrador a expor alguns dos acontecimentos ou o seu estado de espírito em voice-over (de forma bastante pormenorizada), a utilização exímia da banda sonora (novamente a cargo de Carter Burwell), os apelidos estranhos, o destino a imiscuir-se de forma inexorável no quotidiano dos personagens, o estilo de humor muito peculiar, a atenção aos pormenores, um protagonista aparentemente comum que se envolve em situações intrincadas, entre outros exemplos. Temos ainda a procura dos irmãos Coen em abordarem situações muito específicas de territórios e gentes dos EUA, com "The Man Who Wasn't There" a desenrolar-se em 1949, na cidade de Santa Rosa na Califórnia, com a dupla a abordar alguns elementos inerentes a este período (não falta inclusive uma menção ao facto dos russos terem explodido uma bomba nuclear), bem como das obras cinematográficas lançadas nesta década e na seguinte. Veja-se o guarda-roupa de Doris, ou os cigarros utilizados por Ed (Chesterfield, como se fossem da época), ou a decoração da habitação do casal, com Joel e Ethan Coen a exibirem todo um cuidado na representação da época. Diga-se que existe todo um cuidado colocado na decoração dos cenários interiores, com a barbearia onde Ed e Frank trabalham a ser um exemplo paradigmático dessa situação. Este é um espaço que conta com jornais e revistas, diversas cadeiras para os clientes se sentarem enquanto esperam, dois espelhos, imensos pincéis, pentes, tesouras, ventoinhas, algo que atribui credibilidade ao local de trabalho de Ed e ao seu quotidiano a cortar o cabelo de estranhos. Ed tenta manter uma distância notória dos clientes, enquanto Frank apresenta sempre um estilo falador, com ambos a contarem com estilos antagónicos a exercerem o seu ofício no interior desta barbearia, com os irmãos Coen a concederem um tom credível aos episódios protagonizados neste espaço. Não faltam ainda alguns momentos de humor no interior da barbearia, algo notório quando Ed tenta cortar o cabelo de Tolliver, enquanto este último não pára quieto, dialogando de forma demasiado entusiasmada, algo que parece desagradar ao protagonista (as expressões que Billy Bob Thornton incute ao barbeiro conduzem a que muitas das vezes apenas nos apercebamos do estado de espírito do protagonista quando este aborda as situações em voice-over). Quase todos os personagens de "The Man Who Wasn´t There" parecem contar com um gostinho especial para dialogar, algo que a espaços irrita Ed, com Billy Bob Thornton a interpretar um indivíduo preciso e conciso na hora de falar, que traz à memória os protagonistas dos filmes noir. A influência dos filmes noir é latente, algo que vai desde a utilização exímia do chiaroscuro, a fotografia a preto e branco, a escolha de ângulos inusitados e a narração em off por parte do personagem principal, passando pelas figuras de carácter ambíguo e fumadoras, até à personalidade do protagonista e à atmosfera de malaise. Fumador, lacónico, moralmente ambíguo, com uma relação complicada com as mulheres e propenso a envolver-se em confusões, Ed permite que Billy Bob Thornton sobressaia no interior desta narrativa povoada por uma miríade de personagens, com o actor a deixar transparecer o estilo letárgico do elemento que interpreta, enquanto expõe as falas com uma subtileza latente. Veja-se quando encontramos Ed a apresentar uma calma surpreendente quando escuta Dave a evidenciar a sua preocupação devido ao facto de alguém pretender extorqui-lo, com o empresário a desconfiar de Tolliver, um indivíduo que outrora contactara o personagem interpretado por James Gandolfini, ou a impassibilidade do protagonista perante as notícias menos agradáveis sobre a sua esposa. Frances McDormand, uma colaboradora habitual dos irmãos Coen (esposa de Joel Coen), insere-se praticamente na perfeição no interior dos universos narrativos criados pela dupla, com a actriz a incutir um estilo aparentemente distante a esta personagem que mantém um affair com o seu chefe e conta com problemas relacionados com o consumo excessivo de álcool. Doris aprecia jogar bingo, um hobbie que pratica com regularidade, contando muitas das vezes com a companhia de Ed, embora este não seja um entusiasta do jogo, com o casal a raramente parecer estar em sintonia.

A personagem interpretada por Frances McDormand sempre foi bastante meticulosa no cumprimento do seu trabalho, embora um pedido de Dave conduza Doris a contribuir para um desfalque na firma, com este acto a trazer consequências intrincadas para esta mulher, sobretudo quando ocorre um assassinato. A narrativa de "The Man Who Wasn't There" sofre uma série de reviravoltas, com os irmãos Coen a aproveitarem essa situação para surpreenderem o espectador em relação ao rumo do enredo e introduzirem uma série de personagens secundários que têm oportunidade para se evidenciarem ao longo do filme. Veja-se o caso de Rachel (Scarlett Johansson), uma adolescente com algum talento para tocar piano, que surge como uma espécie de "Lolita" que desperta a atenção do protagonista. Scarlett Johansson incute um tom aparentemente ingénuo à personagem que interpreta, enquanto Ed parece ter sentimentos ambíguos em relação a esta jovem. Diga-se que algumas das poucas demonstrações de entusiasmo de Ed acontecem quando o barbeiro se encontra junto desta jovem, uma situação que percebemos de forma paradigmática quando este resolve transportar Rachel para ser avaliada por um conceituado professor de piano. Ed aprecia ouvir a jovem a tocar piano, em particular, as sonatas de Beethoven, com as músicas tocadas neste instrumento musical a pontuarem por diversas vezes o enredo de "The Man Who Wasn't There". Rachel é filha de Walter Abundas (Richard Jenkins), um indivíduo de personalidade calma, que é amigo de Ed. Walter aconselha o barbeiro a procurar um bom advogado para que o protagonista prepare a defesa de uma personagem relevante, algo que proporciona mais um momento mordaz por parte dos irmãos Coen, com Ed a seleccionar um elemento disposto a quase tudo para vencer. O advogado seleccionado é Freddy Riedenschneider (Tony Shalhoub), um profissional conhecido por receber honorários elevados e contar com uma conduta nem sempre recomendável, com Tony Shalhoub a incutir um tom excessivamente confiante e arrogante a este personagem. Diga-se que quase todos os personagens de "The Man Who Wasn't There" não apresentam problemas em dialogar, com excepção do protagonista, algo que é aproveitado pelos irmãos Coen, com estes a explorarem o contraste entre Ed e as figuras que o rodeiam. Veja-se quando Creighton Tolliver procura insinuar-se sexualmente junto de Ed, com este último a apresentar um tom completamente lacónico, mantendo a mesma expressão durante algum tempo, até salientar que o primeiro ultrapassou as marcas. Os timings dos momentos de humor são bem geridos, com um diálogo demasiado pormenorizado, ou a atenção a situações extremamente específicas (os penteados expostos em série, a roda de um carro a girar, a câmara "presa" ao protagonista durante uns segundos para expor o seu desconforto), ou a interacção entre os personagens, a contribuírem para alguns trechos mais leves, com os irmãos Coen a controlarem estas situações de forma exímia. A dupla de realizadores e argumentistas demonstra também uma atenção notória aos pormenores, seja Ed a depilar a esposa, ou o cabelo a ser cortado quando um cliente se mexe em demasia, ou o estilo simpático mas fanfarrão de Dave, ou a infantilidade de Frank, com os detalhes a ganharem uma relevância enorme no interior da narrativa, contribuindo e muito para atribuir dimensão e características muito específicas a diversos personagens.

 Um dos personagens secundários que conta com características muito próprias é Riedenschneider, um advogado que divaga com facilidade, aprecia boa comida e gosta de desfrutar de certos luxos, com Tony Shalhoub a ter espaço para sobressair ao longo de momentos muito específicos do filme. Por sua vez, Michael Badalucco incute um estilo simultaneamente bem intencionado e infantil a Frank, com o actor a transmitir a personalidade extrovertida deste personagem que tanto é capaz de montar um porco e participar num concurso de comida de tartes que decorre numa festa familiar como demonstra um espírito de sacrifício enorme para ajudar Doris, a sua irmã. Outro dos elementos do elenco secundário que tem espaço para sobressair é Jon Polito como um empresário que coloca o capachinho quando é necessário falar de negócios, que procura um sócio "silencioso", ou seja, que invista o dinheiro e não se imiscua em demasia na empresa, com o actor a incutir um tom pouco confiável a este personagem que fala imenso e outrora tentou fazer negócios com Dave. Não podemos ainda deixar de realçar Katherine Borowitz, com a actriz a interpretar uma figura paranóica em relação à presença dos extraterrestres e às teorias da conspiração sobre os mesmos, com estes elementos ligados ao paranormal a marcarem alguns trechos da narrativa, algo que contribui para conceder um tom meio surreal a determinados momentos de "The Man Who Wasn't There". No final, o grande destaque vai para Billy Bob Thornton, com o actor a imprimir um estilo fatalista ao personagem que interpreta, um barbeiro pouco falador, moralmente ambíguo, que se envolve em situações deveras intrincadas e tem de lidar com uma série de reviravoltas na sua vida. Ao longo do filme, o fumo dos cigarros tragados por Ed parece contaminar os cenários e os estados de alma. O fumo emanado pelos cigarros remete para a fugacidade da vida de diversos personagens, bem como para o quotidiano aparentemente banal do protagonista, enquanto "The Man Who Whasn't There" surge como um exemplo paradigmático da criatividade dos Coen, com estes a conseguirem mesclar assertivamente vários elementos de diversos géneros e subgéneros cinematográficos e reuni-los num filme com um tom que muito tem da dupla.

Título original: "The Man Who Wasn't There".
Título em Portugal: "O Barbeiro".
Título no Brasil: "O Homem que Não Estava Lá".
Realizador: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen.
Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Jon Polito, Michael Badalucco, Tony Shalhoub, Scarlett Johansson, Katherine Borowitz, Richard Jenkins.

Quatro críticas mais lidas - Julho de 2016

1º - Resenha Crítica: "Equals" (Iguais)














2º - Resenha Crítica: "Deadpool" (2016)














3º - Resenha Crítica: "Demolition" (2015)














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