29 maio 2016

Resenha Crítica: "The Big Short" (A Queda de Wall Street)

 Com um trabalho de montagem que permite dinamizar a narrativa, um tom enérgico, uma criatividade indelével na exposição de termos ligados ao mercado financeiro que pouco dizem aos leigos na matéria, "The Big Short" beneficia ainda do facto de contar com um elenco de peso, enquanto Adam McKay percebe que as temáticas que aborda e as repercussões que alguns episódios tiveram não são propriamente o material mais apelativo para uma obra cinematográfica, algo que conduz o cineasta a recorrer a uma série de artimanhas para prender o espectador. Nesse sentido, Adam McKay opta por medidas que vão desde interromper a narrativa e colocar celebridades como Margot Robbie ou Selena Gomez a explicarem determinados termos intrincados associados ao sector da banca, passando por exibir imagens icónicas dos períodos representados, ou deixar o personagem interpretado por Ryan Gosling a assumir as funções de narrador de serviço e a dialogar com o espectador, com o cineasta a conseguir expor o absurdo e a loucura de toda uma situação que se não fosse tão grave e séria até teria alguma piada. Um dos trunfos de Adam McKay é saber utilizar o humor, sempre sem perder a noção de que o caso que retrata é grave e afectou demasiadas pessoas para ser exposto de forma pueril, com o cineasta a exibir que estamos diante de uma narrativa onde não existem heróis, com quase tudo e todos a procurarem o lucro. Diga-se que quem tratou as temáticas abordadas em "The Big Short" de forma pueril foram os diversos elementos que contribuíram para a crise financeira de 2008, com Adam McKay a expor a maneira completamente destravada como bancos, agências de rating e o mercado financeiro actuavam, com poucos elementos a preverem o desastre que viria a acontecer, embora os sinais parecessem bem evidentes. Os empréstimos eram concedidos com enorme facilidade e sem grande critério, praticamente qualquer pessoa podia aspirar a comprar uma casa, até se gerar uma bolha imobiliária e uma crise cujos contornos e repercussões ainda continuam a ser sentidos. As temáticas de "The Big Short" e as terminologias utilizadas nem sempre são as mais palatáveis, bem pelo contrário, mas Adam McKay consegue abordar as mesmas com engenho e criatividade, enquanto demonstra que é um bom condutor de actores. É certo que a tarefa de McKay é facilitada quando se tem um elenco talentoso composto por intérpretes como Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, entre outros, que incrementam um enredo inspirado nos episódios que antecederam a crise financeira de 2008, embora o cineasta tenha o mérito de conseguir que os vários elementos funcionem em prol da narrativa.

 Christian Bale interpreta Michael Burry, um neurologista com um olho de vidro, que padece de Síndroma de Asperger, apresenta uma enorme dificuldade em comunicar com as outras pessoas (o trabalho do actor a nível da voz e alguns diálogos permitem expor isso mesmo), embora tenha uma habilidade indelével para "ler os números" e interpretar a realidade económica. Bale transmite o tom peculiar deste personagem, uma figura de expressões nem sempre discerníveis, que toma decisões sem consultar os outros, tendo fundado a Scion Capital, uma empresa de investimentos privados. Burry trabalha descalço, ao som de música heavy metal, apresenta um estilo meio peculiar, percebendo uma situação que parecia impossível ao olhar daqueles que o rodeavam, algo que o conduziu a apostar na queda do sistema, ou se preferirem, contra o mercado imobiliário. As terminologias são complexas (o título original do filme remete para a chamada "venda a descoberto"), algo que ajuda a explicar como todos estes casos retratados passaram praticamente ao lado de quase tudo e todos ao longo dos anos, pelo menos até a "bolha" rebentar. Michael Burry não é o único personagem de "The Big Short" a apostar contra o mercado financeiro, ou melhor, contra o sistema imobiliário. Jared Vennett (Ryan Gosling), um vendedor de acções do Deutsche Bank, tenta alertar elementos como Mark Baum (Steve Carell) para investirem em credit default swaps. Conhecido pela sua personalidade desconfiada, pelo pragmatismo e frontalidade, Mark Baum é o manager do FrontPoint Capital, um fundo de cobertura que se encontra inserido no interior da Morgan Stanley. A morte do irmão afectou Baum, com Steve Carell a interpretar um indivíduo que se irrita com facilidade, inteligente e arguto nos negócios, que sempre acreditou na queda do sistema financeiro e decidiu apostar contra Wall Street. Se Ryan Gosling incute um estilo desprendido, sacana e pouco escrupuloso a Vennett, já Carell consegue transmitir que Mark encontra-se verdadeiramente preocupado com as repercussões deste caso, em particular, com as consequências que vão ser sentidas pelos inocentes. Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois pequenos investidores que fundaram a Brownfield Capital, também decidem investir contra o sistema, com a dupla a contar com o apoio do experiente Ben Rickert (Brad Pitt), um indivíduo excêntrico e conhecedor do mercado. Ao longo do filme encontramos diversos negócios a serem concluídos, muitos nervos à flor da pele, enquanto ficamos perplexos diante de alguns episódios representados, com "The Big Short" a surgir como um testamento, ainda que ficcional, da chico-espertice daqueles que contribuíram para uma crise financeira que causou lastro pelo Mundo. Elementos como Vennett (inspirado em Greg Lippmann), Baum (baseado em Steve Eisman), Geller (inspirado em Charlie Ledley), Shipley (baseado em Jamie Mai), Rickert (inspirado em Ben Hockett) e Burry souberam interpretar os acontecimentos, algo que conduziu a que lucrassem com a queda do sistema em Wall Street, enquanto milhares ficaram sem empregos, casas e diversos bens, embora imensos indivíduos responsáveis pela crise tenham praticamente "passado ao lado da chuva".

 A certa altura de "The Big Short", encontramos Charlie e Jamie a entrarem nos gabinetes do Lehman Brothers, após a crise eclodir, com este espaço a encontrar-se completamente desértico. Outrora um dos maiores bancos de investimento dos EUA, o Lehman Brothers caiu com estrondo e comprovou a crise no mercado do crédito imobiliário de alto risco. No entanto, outros bancos foram resgatados graças ao dinheiro dos contribuintes, com estes resgates a instituições bancárias e medidas do género a continuarem na ordem do dia em países como Portugal, algo que evidencia os contornos alargados desta crise. "The Big Short" embrenha-se pelos meandros dos mercados, enquanto surge como um testamento relevante sobre os bastidores de uma crise que ainda não foi totalmente ultrapassada, ao mesmo tempo que nos apresenta a diversos personagens que se envolvem numa série de negociatas para ganharem algo com a estupidez alheia. Adam McKay deixa elementos como Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt e Christian Bale sobressaírem, com os intérpretes a conseguirem explorar as características muito próprias dos personagens a quem dão vida. Veja-se o estilo nervoso e revoltado de Mark, ou a incapacidade de Michael em contar uma piada ou perceber uma anedota, ou o entusiasmo de Charlie e Jamie em relação a este mundo onde acabam de entrar. É certo que nem todos os personagens são aproveitados, algo latente em figuras como os funcionários de Mark e Michael, ou a esposa do personagem interpretado por Steve Carell, embora o elenco principal consiga destacar-se a interpretar estes elementos que se surpreendem com o panorama caótico que encontram, com a maioria dos reguladores e dos banqueiros a parecer ignorar os indicadores negativos que lhes chegavam. Nesse sentido, chega a ser quase revoltante verificar a forma despreocupada e negligente como diversos elementos encaravam os empréstimos de alto risco, ou as operações financeiras que efectuavam, com quase tudo e todos a parecerem viver numa ilusão de prosperidade condenada a terminar. O argumento de "The Big Short" foi inspirado no livro homónimo da autoria de Michael Lewis, com Adam McKay e Charles Randolph, a dupla de argumentistas, a procurarem evitar conceder lições rápidas sobre o "mercado financeiro para totós", conseguindo construir algo fluido, capaz de mesclar a tragédia e a sátira, bem como de prender a atenção, mesmo quando não percebemos nada das terminologias apresentadas. Apesar das temáticas e o caso que retrata não serem propriamente apetecíveis, "The Big Short" consegue contrariar uma possível rejeição inicial ao surgir como uma obra cinematográfica dotada de algumas doses de irreverência, criatividade e humor, com Adam McKay a comprovar o seu valor como realizador num registo relativamente distinto em relação a comédias como "Anchorman: The Legend of Ron Burgundy", "Step Brothers", "The Other Guys", entre outras.

Título original: "The Big Short".
Título em Portugal: "A Queda de Wall Street".
Realizador: Adam McKay.
Argumento: Charles Randolph e Adam McKay.
Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, John Magaro, Finn Wittrock.

27 maio 2016

Resenha Crítica: "Heat" (1995)

 Neil McCauley (Robert De Niro) é um assaltante experiente, um estratega nato, inteligente, aparentemente frio, que construiu uma equipa capaz de realizar os assaltos mais intrincados. McCauley tem como lema: "Queres ser bem sucedido? Não tenhas laços afectivos. Não tenhas nada na vida que não possas largar se vires a polícia chegar". É um indivíduo aparentemente duro e implacável, com valores muito próprios, que se prepara para protagonizar um jogo entre "o gato e o rato" com Vincent Hanna (Al Pacino), o tenente da divisão de roubos e homicídios da polícia de Los Angeles. A cidade de Los Angeles surge como cenário e protagonista de "Heat", a quinta longa-metragem realizada por Michael Mann, com o cineasta a apresentar este espaço urbano de forma simultaneamente bela e violenta. Tanto podemos ser colocados perante assaltos meticulosamente planeados, ou tiroteios intensos e mortais, como diante de planos que exacerbam a grandiosidade e beleza de Los Angeles, uma cidade pontuada por diversas dicotomias. Michael Mann utiliza as ruas, as estradas, os bancos, as habitações, os clubes nocturnos de Los Angeles ao serviço do enredo, parecendo procurar transportar a alma desta cidade para o grande ecrã, ou uma versão da mesma, enquanto nos apresenta a uma série de personagens que marcam esta obra cinematográfica que mescla elementos dos filmes policiais e de gangsters. Neil e Vincent encontram-se entre essas figuras marcantes, com a dupla de protagonistas a apresentar diversos elementos em comum, embora o primeiro dedique a sua vida ao crime, enquanto o segundo procura travar e deter indivíduos como o personagem interpretado por Robert De Niro. Vincent e Neil são obstinados e intrépidos, lideram equipas que se dedicam às causas que defendem, apresentam valores muito próprios e deixam que os seus ofícios afectem em demasia a vida privada. Diga-se que a atenção que Michael Mann concede à vida privada dos protagonistas é algo que exibe o cuidado colocado no desenvolvimento destas figuras e dos seus relacionamentos, com o cineasta a procurar incutir alguma complexidade a uma obra cinematográfica que sabe mesclar praticamente na perfeição as cenas de acção de cortar a respiração com o desenvolvimento dos personagens. É exactamente esse desenvolvimento dos personagens que potencia dois momentos protagonizados por McCauley e Hanna, com o conhecimento prévio que temos destes elementos a contribuir e muito para a intensidade destes trechos. Michael Mann comete a "maldade" de reunir os dois protagonistas quando o filme já se encontra com mais de uma hora de duração, algo que revela a coragem e confiança do cineasta, mas também o cuidado no desenvolvimento dos personagens. Existe algo mais intrincado do que uma mera disputa entre polícias e criminosos, ou entre o bem e o mal, com McCauley e Hanna a surgirem como duas figuras complexas, que a certa altura parecem desenvolver uma admiração mútua. Michael Mann dá-nos a conhecer os métodos de trabalho de Hanna e McCauley, a maneira com que cada um lida com as suas equipas e as mulheres, enquanto os protagonistas se envolvem numa miríade de situações intensas.

Vincent Hanna já vai no seu terceiro casamento, contando com uma relação complicada com Justine (Diane Venora), a sua esposa. A casa de Justine e Vincent, pertencente ao ex-marido da primeira, apresenta uma decoração moderna, embora o protagonista raramente tenha tempo para desfrutar dos prazeres deste espaço e da vida em família. Por sua vez, McCauley tem uma casa de largas dimensões, pontuada por paredes de vidro, com vista para o mar, embora esteja praticamente vazia, com este a não pretender formar grandes laços, algo inerente ao lema citado no início do texto. As paredes de vidro da casa de Neil contribuem para Michael Mann brindar o espectador com alguns planos bastante inspirados e cheios de significado. Veja-se quando encontramos Neil a observar o mar, durante a noite, através das paredes espelhadas, com as tonalidades azuis a dominarem o ecrã, simbolizando a solidão do protagonista, enquanto o mar tanto parece transmitir uma ideia de liberdade como de prisão. É um dos vários momentos de "Heat" onde temos oportunidade de observar o lado mais calmo de Neil, enquanto Robert De Niro cria um personagem complexo e marcante, com o actor a demonstrar que quando quer é um intérprete magnífico. Se a cena descrita anteriormente indica alguma calmaria, já o primeiro encontro entre Neil e Vincent promete aquecer e bem o enredo. Michael Mann deixa a narrativa a ferver em banho-maria, enquanto explana e desenvolve as personalidades dos dois protagonistas e os seus planos, até colocá-los frente a frente. Não existe volta a dar, o encontro teria de acontecer, com Michael Mann a deixá-lo ocorrer no momento certo. Robert De Niro e Al Pacino aparecem com uma aura típica dos predestinados que conseguem elevar as falas que proferem, algo latente quando os encontramos no café e os personagens que interpretam conseguem expor rapidamente as suas personalidades, bem como aquilo que marca e define as suas vidas, para além de exibirem algumas semelhanças e diferenças. Essas diferenças e semelhanças ficam paradigmaticamente visíveis quando Vincent questiona Neil se este nunca pretendeu ter uma vida normal, enquanto o criminoso riposta: "O que é isso? Churrascadas e futebol? (...) A sua vida é assim?". A resposta de Vincent não se faz esperar: "A minha vida? Não, a minha vida... a minha vida é uma catástrofe. Tenho uma enteada completamente desorientada porque o pai dela é uma besta. Tenho uma mulher, e vejo o meu terceiro casamento a desmoronar-se porque passo o tempo a perseguir tipos como tu". Vincent e Neil não conseguem ter um estilo de vida calmo e "normal", algo comprovado no último terço, quando ambos poderiam seguir outro rumo, embora os seus instintos falem mais alto. A cena no restaurante é intensa, com os diálogos entre Vincent e Neil a parecerem atingir quase o poder das balas que são disparadas ao longo do filme, ou "Heat" não surgisse como uma obra cinematográfica inquietante, violenta e estilizada, com Michael Mann a reunir harmoniosamente elementos de filme policial e de gangsters.

Os momentos iniciais de "Heat" são marcados por um assalto a uma carrinha que transportava divisas e acções ao portador. O assalto é coreografado com enorme precisão e inspiração, com Michael Mann a reunir estilo e substância, enquanto nos apresenta a um roubo violento. O grupo de assaltantes é formado por Neil McCauley, Chris Shiherlis (Val Kilmer), Michael Cheritto (Tom Sizemore), Trejo (Danny Trejo), bem como por Waingro (Kevin Gage), a nova adição a esta trupe de criminosos. Tudo parecia planeado ao pormenor, com os assaltantes a conseguirem roubar as acções, embora o comportamento imprevisível e violento de Waingro venha ao de cima, com este assaltante a assassinar um dos três guardas da carrinha de valores, algo que obriga à eliminação dos outros dois elementos. Waingro consegue fugir de McCauley, com este último a demonstrar que não permite veleidades, nem alterações despropositadas aos planos delineados. Esta não é a última vez que "Heat" nos coloca diante de Waingro, um psicopata que parece apreciar a morte alheia, com Kevin Gage a conseguir sobressair em diversos momentos, sobretudo na segunda metade do filme. As acções roubadas pertenciam a Roger Van Zant (William Fichtner), um indivíduo conhecido pelos negócios obscuros, em particular, pela lavagem de dinheiro oriundo de tráfico de droga. As verbas do assalto são completamente cobertas pelo seguro, algo que conduz Nate (Jon Voight), o indivíduo responsável por vender o material roubado por McCauley e organizar novos golpes, a tentar negociar com Van Zant. A parceria não resulta, com Van Zant a tentar eliminar McCauley, com este último a prometer vingança, enquanto o primeiro tem de se preparar para uma ofensiva que pode chegar a qualquer momento. McCauley recebe ainda uma proposta aparentemente segura para assaltar um banco, algo que conduz à reunião do grupo formado pelo primeiro Shiherlis, Cheritto e Trejo, com todos a apresentarem uma relação de amizade e aparente lealdade. Veja-se a relação de amizade e cumplicidade entre McCauley e Shiherlis, algo que comprova que estamos diante de personagens guiados por alguns valores morais, com o argumento de Michael Mann a procurar evitar retratar estes elementos como meros assassinos frios e unidimensionais. Val Kilmer interpreta um dos vários personagens secundários que sobressaem, com o actor a conseguir expor as vulnerabilidades emocionais de Shiherlis, um indivíduo que ama a esposa (Ashley Judd) e o filho, embora o vício pelo jogo, o seu estilo de vida e a sua personalidade impulsiva conduzam a diversos desaguisados e traições. Se Shiherlis, Cheritto e Trejo formaram famílias, já McCauley prefere assumir uma faceta de "lobo solitário", embora acabe por iniciar uma relação com Eady (Amy Brenneman). Esta apresenta uma personalidade algo recatada e discreta, trabalhando numa livraria enquanto aguarda por conseguir singrar como designer gráfica, com Brenneman a transmitir o tom frágil da personagem que interpreta. A relação entre McCauley e Eady conta com alguns momentos de acalmia e romance, com os elementos do casal a surgirem como figuras solitárias que não parecem ter uma propensão elevada para criarem novas amizades.

 A certa altura de "Heat", encontramos Neil e Eady a observarem a cidade, durante a noite, a partir da varanda da casa da segunda, com Michael Mann a brindar-nos com alguns planos abertos belíssimos (mérito também para o trabalho de fotografia de Dante Spinotti). As luzes da cidade sobressaem, bem como a grandeza e beleza deste território, com Los Angeles a surgir representada como um espaço que tanto tem de belo como de violento. Diga-se que Mann não poupa na violência, com o cineasta a brindar o espectador com um tiroteio intenso, que promete causar estragos e trazer a morte a diversos personagens, enquanto o trabalho de câmara, de montagem e do elenco sobressai, bem como a banda sonora. O tiroteio é marcado por uma violência extrema, com as balas a irromperem e os sentimentos a explodirem, enquanto polícias e assaltantes tomam as ruas e prometem iniciar um duelo inquietante. Se existe lugar para algum lirismo quando Neil e Eady se encontram juntos, o mesmo não pode ser dito quando as balas começam a esvoaçar pelos ares e a morte se parece aproximar de diversos personagens. Mann conduz o filme com uma mestria imensa, algo que contribui para a intensidade do último terço, quando os silêncios entre De Niro e Pacino podem valer mais do que mil palavras (aqueles close-ups no rosto de Al Pacino, nos momentos finais de "Heat", permitem expor de forma vincada os sentimentos contraditórios que assolam a mente de Vincent). Al Pacino surge intenso, fervilhante, marcante e carismático como Vincent Hanna, um polícia que não tem problemas em gritar, gesticular e apresentar comportamentos nem sempre correctos, inclusive com informantes, embora pareça assumir alguma admiração em relação a McCauley. Vincent não gosta de expor os problemas do foro laboral quando está em casa, algo que contribui para pequenas fissuras no casamento que, com o passar no tempo, prometem colocar em causa o matrimónio, com o protagonista a parecer incapaz de conciliar a vida profissional e social/familiar. Diga-se que este é um dos pontos que une Vincent a Neil, com este último a fingir que é um vendedor, tendo em vista a esconder da amada que é um assaltante. Vincent e Neil apresentam diversas semelhanças, embora representem lados distintos da lei, com Michael Mann a representar isso mesmo ao longo deste thriller intenso, marcante e esteticamente apurado. Se Vincent procura engendrar a "armadilha" perfeita para capturar os criminosos em pleno delito, já Neil tenta efectuar um roubo praticamente à prova de falhas a um banco, embora os planos de ambos nem sempre decorram como o esperado, com o mínimo deslize a poder ser fatal para uma das partes. Com uma banda sonora pronta a incrementar os episódios da narrativa, um aproveitamento notório da cidade de Los Angeles ao serviço do enredo, interpretações de grande nível de Robert De Niro e Al Pacino, um argumento inteligente, "Heat" não poupa nos momentos memoráveis, daqueles que tardam em sair da memória, seja um tiroteio barulhento ou uma perseguição silenciosa, enquanto a dupla de protagonistas procura cumprir os seus intentos e Michael Mann apodera-se da mente e da alma do espectador ao longo da duração do filme.

Título original: "Heat".
Título em Portugal: "Heat - Cidade Sob Pressão".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Michael Mann.
Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Val Kilmer, Diane Venora, Amy Brenneman, Ashley Judd.

24 maio 2016

Resenha Crítica: "La tierra y la sombra" (2015)

 Pontuado por planos de longa duração cheios de significado, uma utilização sublime da luz natural, movimentos de câmara delicados, um ritmo propositadamente contemplativo e uma contenção enorme na exposição dos sentimentos dos personagens, "La tierra y la sombra" transporta-nos para o interior de um núcleo familiar que se prepara para conhecer uma série de convulsões e mudanças. Um membro dessa família regressa após dezassete anos de ausência, outro encontra-se gravemente doente, enquanto duas mulheres procuram cuidar do lar e um jovem ainda não percebe totalmente a complexidade do meio que o rodeia. O território que circunda a casa desta família é simplesmente desolador, com as canas de açúcar a ocuparem praticamente todos os espaços desta região rural da Colômbia. Veja-se quando observamos as imediações da habitação dos personagens principais de "La tierra y la sombra", a partir do interior da casa, com as canas, a poeira e as cinzas a parecerem contaminar quase tudo aquilo que se encontra à sua volta. Tudo é exposto com enorme sobriedade e delicadeza, com "La tierra y la sombra" a contar com ritmos muito próprios, enquanto os actores e actrizes incrementam a narrativa com interpretações pontuadas por um estilo discreto e contido. Os intérpretes transformam-se praticamente nos personagens a quem dão vida, com César Augusto Acevedo, na sua primeira longa-metragem como realizador, a conseguir extrair interpretações convincentes por parte do elenco principal. O personagem que regressa a casa é Alfonso (Haimer Leal), um camponês que conta com cerca de cinquenta ou sessenta anos de idade, que volta devido ao facto de Gerardo (Edison Raigosa), o seu filho, encontrar-se gravemente doente. O território que circunda a antiga habitação de Alfonso conheceu diversas mudanças, tal como o núcleo familiar do veterano, com este personagem a contar com um neto, fruto do casamento entre Gerardo e Esperanza (Marleyda Soto). Alicia (Hilda Ruiz), a ex-mulher de Alfonso, guarda um rancor que dura há dezassete anos, algo que se deve ao facto deste último ter abandonado o lar. Alfonso conta com uma personalidade aparentemente calma, com as razões para a sua partida a não ficarem totalmente claras, embora este procure reconciliar-se com tudo e com todos, inclusive com Alicia, ao mesmo tempo que tenta cuidar do filho e iniciar uma relação de amizade com Manuel (José Felipe Cárdenas), o seu neto. A doença de Gerardo é desconhecida, com este a queixar-se de dores no peito, embora também conte com enormes dificuldades em respirar, uma situação que é agravada pela poeira e pelas cinzas que rodeiam a casa, bem como pela falta de um serviço de saúde público que providencie os cuidados necessários para o tratamento deste indivíduo. Diga-se que Esperanza coloca a hipótese de abandonarem a casa, embora Gerardo não queira deixar a mãe e o lar onde cresceu, com o casal a apresentar ideias distintas para o futuro.

 O apego ao lar e às memórias é algo que marca a personalidade de diversos personagens, uma situação que se aplica a Alfonso, Alicia e Gerardo. O território mudou imenso desde que Alfonso saiu, algo que o próprio reconhece, exibindo alguma nostalgia e melancolia quando compara as memórias do passado com a situação que encontra no presente. O passado e o presente são colocados em confronto ao longo do filme, com Alfonso a evidenciar que não consegue encarar todas as mudanças que ocorreram no espaço que circunda a sua antiga habitação. O banco que fica situado nas imediações da casa, bem como uma árvore onde se encontram diversos pássaros, surgem como alguns dos poucos elementos que se mantiveram praticamente intocáveis entre a saída e o regresso de Alfonso. No entanto, tudo o resto mudou, com o território a encontrar-se praticamente desértico e pontuado pela presença quase sufocante das canas de açúcar, uma monocultura que parece ser a única fonte de emprego para os habitantes deste local. A presença das canas é notória desde os momentos iniciais. Veja-se quando somos colocados diante de um plano de longa duração no qual encontramos Alfonso a caminhar pela estrada, até um camião passar por perto, algo que praticamente obriga o veterano a desviar-se para o espaço onde se encontram as canas. A poeira levantada pelo camião que circula pela estrada de areia é imensa e praticamente toma conta do ecrã, enquanto o protagonista se depara com a nova realidade do território que abandonou. O reencontro com a família não é fácil. Percebemos desde logo que o afastamento durou imenso tempo quando o jovem Manuel questiona se o personagem interpretado por Haimer Leal é o seu avô, enquanto Gerardo faz questão de condenar o pai pelo facto do veterano apenas ter reparado nas alterações do território após estas terem ocorrido há vários anos, algo que parece mexer com Alfonso. Haimer Leal incute uma sobriedade e melancolia que contribuem e muito para acreditarmos no personagem que interpreta, enquanto César Augusto Acevedo surpreende pela facilidade com que desenvolve as relações intrincadas deste núcleo familiar e explora as características deste território rural da Colômbia. Desde a forte presença da monocultura da cana de açúcar, algo que parece ter contribuído para destruir vários territórios, passando pela falta de leis laborais fortes e de um serviço de saúde competente, até aos comportamentos de uma família que atravessa uma fase complicada, "La tierra y la sombra" transporta-nos para uma região relativamente distante dos grandes espaços citadinos, sempre com enorme sobriedade e sem falsos sentimentalismos. Os personagens principais de "La tierra y la sombra" são homens e mulheres simples, que procuram enfrentar o destino sem que tenham de ceder nos seus valores, com César Augusto Acevedo a povoar a narrativa de pequenos momentos que ganham uma enorme relevância e poder junto do espectador. Veja-se quando encontramos Alfonso a brincar com o neto, ensinando o petiz a manusear um papagaio de papel, ou o abraço sentido que Esperanza dá ao primeiro quando descobre que este comprou uma prenda de aniversário para Manuel. Alfonso é chamado a pedido de Esperanza, com esta a pretender que o sogro se reúna com Gerardo e cuide deste último.

 Se Esperanza apresenta alguma abertura em relação à presença do personagem interpretado por Haimer Leal, bem como Gerardo e o jovem Manuel, já Alicia não esconde inicialmente o ressentimento por ter sido abandonada por Alfonso, com este último a ter de reconquistar a confiança da veterana. Inicialmente, Alfonso e Alicia pouco falam. Diga-se que os personagens de "La tierra y la sombra" parecem ter muito para dizer, embora raramente troquem longos diálogos, com os actores e as actrizes a conseguirem expressar imensos sentimentos através dos seus silêncios e olhares. Essa situação é visível quando encontramos Alfonso e Alicia no banco onde parecem ter partilhado diversas memórias no período em que viveram juntos, com esta última a questionar o ex-marido se valeu a pena ter abandonado o território, algo que revela algum ressentimento mas também compreensão e curiosidade. Alicia e Esperanza laboram na recolha das canas, um trabalho árduo, que é exposto sem contemplações por César Augusto Acevedo, ou os trabalhadores não fossem tratados literalmente como meros números. Veja-se quando encontramos Alicia e Esperanza a compensarem as horas de uma greve efectuada pelos trabalhadores, ou a primeira no banho, a tirar a terra presa ao seu corpo, enquanto a areia escorre pelo ralo. César Augusto Acevedo preocupa-se genuinamente pelo quotidiano destas figuras depauperadas (interpretadas por diversos elementos estreantes ou amadores), enquanto expõe assertivamente uma realidade da Colômbia que está longe de se prender aos clichés. Não temos mafiosos, ou jovens futebolistas prontos a querem singrar num país conhecido pelos seus excelentes avançados, mas sim um núcleo familiar que vive com imensas dificuldades, ou este território não se encontrasse a ser destruído. Alicia é uma mulher conservadora, presa aos seus valores e à sua habitação, que ama o filho e guarda algum ressentimento em relação a Alfonso, com Hilda Ruiz a conseguir transmitir o poder desta personagem feminina forte, que gradualmente parece baixar a guarda no que diz respeito ao ex-marido, ou ambos não estivessem unidos pelo amor a Gerardo. Edison Raigosa expõe as fragilidades que marcam o corpo e a alma de Gerardo, com o estado de saúde deste indivíduo a piorar de dia para dia. Gerardo praticamente não consegue abandonar a cama, embora fique na memória um momento onde sai de casa, tendo em vista a passar algum tempo ao lado do pai e do filho, em particular, perto da árvore e do banco anteriormente mencionados. O quarto de Gerardo tem de estar quase sempre fechado, tendo em vista a evitar a entrada de poeira, com este cenário a ser exibido muitas das vezes com recurso a luz natural, ou pouca iluminação, transmitindo uma sensação de cativeiro, ou o personagem interpretado por Edison Raigosa não estivesse preso a uma doença grave, que parece um fogo impossível de extinguir. Este é um retrato sobre uma família que se desuniu e volta a reunir, que tem de lidar com dilemas intrincados e uma tragédia que promete trazer mudanças, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre estas figuras que pontuam a narrativa de "La tierra y la sombra". Os planos são compostos com enorme meticulosidade, o enredo é desenvolvido com sobriedade, a música diegética é bem utilizada, os personagens captam facilmente a nossa atenção, bem como o espaço onde habitam, com "La tierra y la sombra" a embalar-nos para o interior de um drama sensível e melancólico, que nos faz esquecer temporariamente que estamos diante de uma obra de ficção.

Título original: "La tierra y la sombra".
Título no Brasil: "A Terra e a Sombra".
Realizador: César Augusto Acevedo.
Argumento: César Augusto Acevedo.
Elenco: Haimer Leal, Hilda Ruiz, Edison Raigosa, Marleyda Soto, José Felipe Cárdenas.

22 maio 2016

Resenha Crítica: "High-Rise" (Arranha-Céus)


Ben Wheatley não poupa na violência, na procura de chocar o espectador, na exposição directa das mensagens que tem a transmitir e no humor negro em "High-Rise", a adaptação cinematográfica da obra literária homónima de J.G. Ballard. O enredo desenrola-se maioritariamente no interior de um arranha-céus, um edifício de largas dimensões que surge como uma espécie de microcosmos para retratar a sociedade londrina do final da década de 70, em particular, as suas ambições, decepções, devaneios e tristezas, com Ben Wheatley a aproveitar ainda para incutir alguns ingredientes de ficção científica. A banda sonora não engana o espectador, bem como os espaços do arranha-céus, com ambos a contribuírem para a atmosfera opressora e provocadora que envolve o enredo de "High-Rise", enquanto Ben Wheatley exibe por inúmeras vezes que se está a lixar por completo para as subtilezas. Diga-se que "High-Rise" é um filme desequilibrado e de contradições, ou a sua falta de subtileza não surgisse quer como uma das suas forças, quer como uma das suas fraquezas. Por um lado exibe o arrojo e o humor negro do cineasta, por outro, essa falta de subtileza arrasa muitas das vezes com o poder de "High-Rise", com o filme a contar com mensagens relevantes, embora apresente as mesmas de forma repetitiva e caricatural, algo que contribui não só para esbater o interesse que podemos ter em relação a alguns personagens, mas também o efeito de choque que Ben Wheatley pretende despertar no espectador. Não faltam cães a serem eliminados e cozinhados, assassinatos, suicídios, violações, orgias, muita tensão e inquietação, com o arranha-céus a surgir simultaneamente como um cenário e personagem de "High-Rise", uma obra cinematográfica pronta a expor temáticas como as desigualdades sociais, os efeitos nefastos do capitalismo selvagem e do neoliberalismo, sempre de forma completamente escancarada. A falta de subtileza é propositada, tal como o humor negro, com Ben Wheatley a procurar desafiar o espectador, enquanto aproveita o elenco que tem à disposição e explora eficazmente os cenários ao serviço do enredo. Diga-se que o trabalho a nível da decoração dos cenários, o guarda-roupa e a paleta cromática contribuem e muito para o tom que Ben Wheatley incute ao enredo de "High-Rise", com o cineasta a rodear-se de uma equipa competente. O arranha-céus é exposto como um edifício grandioso, opulento e esteticamente pouco apelativo, onde os habitantes se encontram divididos consoante os estatutos sociais. As tonalidades cinzentas pontuam o espaço exterior deste edifício grandioso, com estas cores neutras a transmitirem uma sensação de frieza, solidão e isolamento. Os pisos inferiores são habitados por inquilinos de classes trabalhadoras, de poucas posses; os sectores intermédios estão preenchidos por elementos que se encontram entre a ascensão social e a possível queda; o topo é habitado pelos mais ricos, com o terraço e a casa que o circunda a contar com a presença de Royal (Jeremy Irons), um arquitecto que desenvolveu o arranha-céus.

 O escritório de Royal transmite uma certa frieza e impessoalidade, com as paredes deste espaço, pintadas de branco, a adensarem esta situação. Diga-se que Ben Wheatley utiliza assertivamente a paleta cromática, algo latente no escritório do personagem interpretado por Jeremy Irons, ou quando a piscina é exibida com recurso a tonalidades vermelhas, uma situação que permite exacerbar um momento mais intenso que decorre neste espaço. Royal é um dos vários personagens que contam com um nome recheado de significado, ou Jeremy Irons não interpretasse um indivíduo pomposo, de largas posses, que tarda em perceber onde falhou quando concebeu o edifício, embora seja óbvio que o arquitecto se esqueceu de um detalhe: tratar todos os inquilinos por igual. Jeremy Irons concede uma mescla de altivez e humanidade a Royal, um indivíduo demasiado preso ao seu mundo, que guarda uma séries de segredos, enquanto o actor sobressai num papel que parece praticamente feito à sua medida. Após um breve prólogo, que nos expõe ao tom de "High-Rise", a narrativa recua três meses, tendo em vista a apresentar-nos a Robert Laing (Tom Hiddleston), um neurologista que lecciona na Universidade de Fisiologia. Laing mudou-se para um apartamento situado no vigésimo quinto andar deste arranha-céus, com o médico a parecer o inquilino perfeito, procurando agradar a tudo e a todos, tendo em vista a ser aceite pelos elementos do escalão social mais alto, aquele que este parece querer alcançar. Tom Hiddleston consegue incutir algum mistério e complexidade a este médico aparentemente passivo, que tarda em desencaixotar o material que trouxe para a sua nova habitação, bem como em escolher a nova tonalidade para as paredes da sua casa. Com um corpo delineado, uma situação profissional segura e uma facilidade enorme para atrair as mulheres, incluindo, Charlotte Melville (Sienna Miller), a sua vizinha de cima, Robert Laing acaba por se encontrar praticamente entre as duas franjas do arranha-céus, embora não esteja realmente integrado no interior de alguma, despertando desconfianças de ambos os lados. Por sua vez, Charlotte é uma figura feminina sensual e provocadora, que parece conhecer quase todos os habitantes do prédio, embora mantenha em segredo a identidade do pai de Toby (Louis Suc), o seu filho, um jovem inteligente, precoce e introvertido. Robert desperta a atenção de Royal, com o encontro entre ambos a ser marcado pela surpresa do primeiro em relação ao estilo de vida do segundo, com o arquitecto a contar com um elevador privado, um cavalo no jardim, bem como diversos cães. Royal é casado com Ann (Keeley Hawes), uma figura feminina altiva, que mantém uma relação fria com o esposo, com o espaço onde habitam a ser marcado por festas luxuosas, pelo menos até rebentarem os conflitos no interior do arranha-céus. Robert e Royal formam uma relação de respeito, com ambos a partilharem o gosto pelo squash, com o protagonista a apresentar alguma satisfação devido a ser aceite pelo arquitecto, uma situação que pode indicar uma possível aceitação por parte dos elementos do topo, embora Ann esteja longe de exibir a mesma cordialidade do esposo.

 Se Royal habita num espaço recheado de luxos, já os inquilinos das zonas inferiores contam com imensas limitações, algo que piora quando se deparam com contrariedades como falta de electricidade devido a falhas no sistema, uma situação que gera diversas reclamações, embora os elementos mais ricos exibam uma insensibilidade extrema em relação aos problemas sentidos pela "populaça". Nesse sentido, "High-Rise" expõe algo que é óbvio, embora a nossa sociedade não pareça conseguir compreender: as desigualdades sociais, bem como as privações extremas, podem gerar revoltas. Um personagem que sente essas desigualdades é Richard Wilder (Luke Evans), um documentarista falhado, mulherengo e impulsivo, que é casado com Helen (Elisabeth Moss), uma mulher ponderada que se encontra grávida. Como o nome indica, Wilder conta com uma personalidade selvagem e fervilhante, com este indivíduo a preparar-se para liderar revoltas e desafiar o status quo (o poster de Che Guevara na casa de Wilder deixa antever a faceta revolucionária do personagem). Veja-se quando impedem que as crianças e os habitantes dos escalões mais baixos entrem na piscina, com Wilder a organizar uma revolta colectiva e a invadir este espaço, pretendendo ter os mesmos privilégios que os residentes financeiramente abonados. Luke Evans transmite a personalidade explosiva do personagem que interpreta, um indivíduo com um corte de cabelo muito "à final dos anos 70", que se encontra revoltado com a vida, procurando contactar Royal a todo o custo, bem como iniciar um caso com Charlotte. As traições marcam as relações de diversos personagens, com "High-Rise" a apresentar-nos a uma série de figuras que sobressaem no interior deste microcosmos dotado de um conjunto de regras e estruturas hierárquicas que representam, ainda que de forma extrema, aquilo que acontece na nossa sociedade. Tudo se esbate quando o conflito entre classes irrompe, com o edifício a ganhar características claustrofóbicas. Veja-se quando estala a guerra entre os diferentes inquilinos, com o lado mais irracional e selvagem do ser humano a vir ao de cima, enquanto o edifício se transforma num território claustrofóbico onde tudo parece ser permitido. Diga-se que todos os inquilinos do arranha-céus pagam a mesma renda, inclusive aqueles que contam com menos posses e vivem nas zonas mais baixas. A espaços parece que os inquilinos dos espaços inferiores encaram o arranha-céus como um desafio, ou seja, como uma espécie de montanha social que pretendem escalar, embora este desiderato seja praticamente impossível de alcançar devido ao facto dos grupos mais poderosos pretenderem manter o status quo. Veja-se que Wilder gostava que a esposa tivesse uma personalidade e um corpo semelhante a Charlotte, enquanto Helen deseja viver num dos andares de cima, ou seja, com mais condições. O parque de estacionamento surge praticamente como um reflexo do interior deste prédio, com os veículos a encontrarem-se quase todos alinhados, pelo menos até o caos rebentar. Diga-se que os inquilinos podem frequentar alguns espaços comuns, embora em horários diferentes. Espaços como a piscina, o spa, a sala de squash, bem como o supermercado e o ginásio, podem ser utilizados pela maioria dos habitantes do arranha-céus, ainda que com algumas limitações, embora tudo comece a resvalar quando a electricidade e a comida começam a faltar.

 "High-Rise" permite ainda exibir os devaneios de Ben Wheatley em todo o seu esplendor e grandiosidade, algo que nem sempre funciona a favor do filme. A mensagem contra o capitalismo selvagem, bem como a exposição dos efeitos da ambição excessiva e das desigualdades sociais, surgem como temáticas pertinentes e relevantes, mas chega a um ponto onde Wheatley já não tem muito mais para dizer, embora continue a arrastar a narrativa, qual inquilino que não quer largar este edifício. A insensibilidade marca a personalidade da maioria dos residentes dos apartamentos mais elevados do arranha-céus, com a incompreensão destes elementos a alavancar um conflito no qual os sentimentos reprimidos se soltam de maneira violenta. Os mais ricos (expostos de forma propositadamente caricatural) procuram defender o seu estatuto, enquanto os menos abonados começam gradualmente a desafiar os primeiros, até Ben Wheatley nos deixar diante de uma torrente de violência e anarquia, onde tudo e todos parecem ceder e abandonar as barreiras morais. A partir de um determinado momento do enredo, o arranha-céus parece transformar-se numa selva, onde as leis são quebradas com enorme facilidade, com o extremar dos comportamentos, bem como a falta de electricidade, comida e água, a trazerem consequências nefastas para diversos personagens que povoam este universo narrativo distópico. Os efeitos do conflito são exibidos, embora Ben Wheatley raramente consiga desenvolver todas as temáticas que atira para o interior do enredo, algo visível na forma pueril como expõe a vida laboral de Laing. Wheatley apresenta mais competência a expor as tensões e as idiossincrasias que pontuam as relações entre os elementos dos diferentes grupos sociais que vivem no interior do arranha-céus do que a desenvolver o conflito e as suas consequências. No entanto, é impossível deixar de realçar alguns personagens secundários que se destacam em diversos momentos de "High-Rise", embora o argumento nem sempre atribua a profundidade necessária a estes elementos. Veja-se o caso de Ann, uma figura superficial, que representa o estereótipo dos ricos que não exibem a mínima sensibilidade para com os mais desfavorecidos; Munrow (Augustus Prew), um habitante do prédio, estudante de medicina, que se encontra entre as classes mais elevadas e decide cometer suicídio; Simmons (Dan Renton Skinner), um "funcionário" do prédio com ligações a Royal e aos sectores mais elevados do arranha-céus, entre outros personagens. Com um elenco competente, embora Tom Hiddleston, Luke Evans e Jeremy Irons sobressaiam acima dos demais, uma mensagem relevante sobre as desigualdades sociais e a falta de sensibilidade que marca a nossa sociedade, "High-Rise" procura provocar o choque e explorar as tensões entre os diferentes grupos de inquilinos que povoam o arranha-céus do título, um cenário que é tomado pela anarquia, tal como a narrativa, com Ben Wheatley a transmitir a ideia que não percebe, ou não quer perceber quando está a ser redundante, ou consumido pelos seus devaneios. 

Título original: "High-Rise".
Título em Portugal: "Arranha-Céus".
Realizador: Ben Wheatley.
Argumento: Amy Jump.
Elenco: Tom Hiddleston, Jeremy Irons, Sienna Miller, Luke Evans, Elisabeth Moss.

20 maio 2016

Resenha Crítica: "Zootopia" (2016)

 Com um conjunto de comentários certeiros sobre a sociedade contemporânea e uma dupla de protagonistas que funciona praticamente na perfeição, "Zootopia" surge como uma obra cinematográfica pertinente, irreverente, recheada de humor e ritmo. O visual apelativo é um bónus acrescido, bem como o bom trabalho do elenco vocal, sobretudo de elementos como Ginnifer Goodwin, Jason Bateman e Idris Elba. No entanto, aquilo que mais impressiona em "Zootopia" é a riqueza narrativa de um filme de animação que mescla assertivamente elementos do foro social com uma história de superação e investigação. A cidade do título é marcada por diversos territórios (conta com doze ecossistemas no interior das suas fronteiras) e animais de características distintas, com "Zootopia" a apresentar e aproveitar um universo narrativo surpreendentemente denso. Todos os habitantes deste espaço citadino são animais de características antropomórficas, embora as diferenças raciais quase que conduzam a um estatuto de castas, com cada uma das raças a parecer ter um papel definido na sociedade, algo que Judy Hopps (Ginnifer Goodwin), uma coelha, se prepara para tentar desfazer. Judy Hopps habita num espaço rural denominado de Bunnyburrow, onde vivem os seus pais, um casal que trabalha a cultivar e vender cenouras. Se os pais de Judy se encontram conformados em relação ao seu papel na sociedade, já a protagonista apresenta uma personalidade irreverente, enérgica, optimista e destemida, sempre sem esconder as suas fragilidades, procurando ser a primeira coelha a integrar a polícia. Não faltam elementos que tentam dissuadir Judy de cumprir o sonho de ser polícia, incluindo os pais e os seus instrutores, embora esta consiga concluir o curso com distinção, sendo destacada para a cidade de Zootopia. Este é um espaço onde supostamente tudo é possível, uma cidade recheada de oportunidades na qual todos os animais vivem em harmonia, inclusive as presas e os predadores ou, pelo menos, é assim que publicitam o território. A realidade é distinta, com esta terra de oportunidades a ser bem diferente daquela que tinha sido apresentada nos slogans. Troquem Zootopia por Nova Iorque, ou substituam Judy por qualquer pessoa que se desloque de um espaço rural para uma grande cidade e a representação daquilo que nos é apresentado não anda assim tão longe da realidade. Judy encontra uma sociedade onde as diferenças raciais são bem sentidas, algo que a desilude, embora a protagonista também tenha algum receio em relação às raposas, descritas como uma espécie de pouca confiança. O trabalho a nível de animação exibe todo um aprumo quer na concepção dos personagens, quer nos cenários, algo visível nos gestos e feições da protagonista, bem como nos espaços por onde esta circula. Diga-se que não é só o trabalho de animação que sobressai. O argumento, escrito por Jared Bush e Phil Johnston, é denso o suficiente para mesclar a investigação protagonizada pela dupla de protagonistas com as mensagens típicas dos filmes da Disney (a "conversão" de um dos personagens é mais do que esperada) e algumas temáticas relevantes sobre a intolerância e discriminação.

 Os sonhos de Judy começam a ser parcialmente desfeitos quando chega ao interior do departamento da polícia de Zootopia, com o Chefe Bogo (Idris Elba), um búfalo, a não confiar no potencial da nova agente. Essa desconfiança de Bogo em relação a Judy fica particularmente visível quando o búfalo designa a maioria dos agentes para investigarem o desaparecimento de catorze mamíferos (predadores), enquanto a coelha é obrigada a trabalhar como polícia de trânsito, ou seja, a passar multas de estacionamento. É a cumprir este ofício desmotivante que Judy conhece Nick Wilde (Jason Bateman), uma raposa matreira, mordaz e pronta a lucrar com uma série de intrujices. Judy e Nick entram em choque, com a protagonista a não suportar a personalidade desta raposa, embora o vigarista e a polícia acabem por formar uma dupla improvável. Tudo muda na vida de Judy e Nick quando a Senhora Otterton (Octavia Spencer), uma lontra, aparece na esquadra e apela para as autoridades procurarem pelo seu esposo, após este ter desaparecido misteriosamente. Judy oferece o seu apoio a Otterton, algo que irrita Bogo mas desperta a alegria de Bellwether (Jenny Slate), a vice-presidente de Zootopia, uma ovelha que responde directamente às ordens de Leodore Lionheart (J. K. Simmons). Este é um leão que trabalha como presidente da câmara, com Lionheart a surgir como o estereótipo do político que pensa acima de tudo nos votos, embora Bellwether também conte com uma agenda muito própria. Diga-se que Zootopia" não tem problemas em pegar em temáticas do foro político, tais como a tentativa de uma personagem conquistar o poder através do medo (algo que não é novo na História Mundial, inclusive nos tempos recentes, uma situação que explica a estranha popularidade da Frente Nacional em alguns sectores da sociedade francesa e o sucesso do ignóbil Donald Trump nos EUA). É de louvar a forma como os realizadores, argumentistas e restante equipa aproveitam os espaços de Zootopia e os personagens para efectuarem comentários pertinentes e inteligentes sobre a nossa sociedade, sobretudo no que diz respeito à discriminação racial e de género. A certa altura de "Zootopia", alguns predadores começam a perder inesperadamente o controlo, algo que conduz ao medo colectivo e paranóia. Os predadores fazem parte de uma minoria em Zootopia, enquanto os elementos que não integram a primeira categoria encontram-se em maioria, com estes últimos a recearem os primeiros devido aos actos de um pequeno contingente do grupo minoritário. Troquem "carnívoros" ou "predadores" por Muçulmanos ou negros e a metáfora fica feita, com os actos particulares de alguns indivíduos a surgirem como um meio para adensar o preconceito e o medo contra as minorias. Veja-se os casos recentes de terrorismo, com a onda anti-islâmica a atingir níveis pouco saudáveis, algo visível quando perdemos tempo da nossa vida a ler comentários efectuados nas redes sociais, com a paranóia, o preconceito e o medo a contribuírem para exacerbar uma confusão entre o termo muçulmano e terrorista. O próprio facto de Judy ser olhada de soslaio devido a ser uma coelha, ou seja, uma mulher ("Zootopia" assume um discurso feminista sem procurar pregar as suas ideias), ainda por cima de uma raça considerada inadequada para a função de polícia, levanta uma série de problemáticas relevantes e pertinentes.

 Desde as diferenças de acesso a certos trabalhos devido ao género, passando pela discriminação racial, até ao modo como o medo pode interferir na opinião pública, "Zootopia" explora temas complexos do foro político e social, enquanto nos compele a seguir uma investigação intrincada, com Judy e Nick a depararem-se com uma conspiração que promete algumas revelações surpreendentes em relação a alguns personagens, ou o desaparecimento do Sr. Otterton não estivesse associado aos desaparecimentos dos catorze mamíferos de espécies predadoras. Judy consegue envolver Nick na investigação, com ambos a deslocarem-se a uma miríade de locais e a contactarem com um conjunto alargado de figuras. Não faltam passagens por espaços como um clube de nudistas, o escritório de um gangster, um laboratório onde se encontram presos diversos animais, entre outros locais. Veja-se Tundratown, um local onde a dupla de protagonistas contacta com Mr. Big (Maurice LaMarche), um gangster poderoso, com uma voz e visual à Don Corleone, com o mafioso a surgir como um dos vários personagens secundários marcantes de "Zootopia". Entre esses personagens encontram-se Benjamin Clawhauser (Nate Torrence), uma chita anafada, que trabalha na recepção da esquadra liderada por Bogo; Yax (Tommy Chong), uma iaque que possui um clube de nudistas; Duke Weaselton (Alan Tudyk), uma doninha que comete pequenos furtos e vende dvds piratas (incluindo uma versão de "Moana", um filme da Disney que ainda não estreou); Fru Fru (Leah Latham), a filha de Mr. Big, uma jovem que gera uma relação de amizade com Judy; Gazelle (Shakira), uma estrela da música pop que prende a atenção de quase tudo e todos; Flash (Raymond S. Persi), uma preguiça que trabalha numa empresa estatal e proporciona alguns momentos hilariantes (que estranhamente me fizeram recordar as horas que demorei para tirar o cartão de cidadão). É um universo narrativo recheado de personagens secundários de relevo, embora Judy e Nick roubem quase todas as atenções. Judy com a sua personalidade algo naïf, com a protagonista a contactar com uma realidade que desconhecia, enquanto procura concluir uma investigação que ganha contornos mais intrincados, sobretudo quando alguns predadores começam a assumir comportamentos selvagens. Esta tem de provar o seu valor num meio dominado por homens, enquanto se envolve numa investigação que a transporta para o interior dos espaços citadinos que parecem saídos dos filmes noir (no caso do clube de nudistas, caberia na perfeição na loucura de "Inherent Vice"), pontuados por personagens de carácter ambíguo, com as causas para os comportamentos de alguns predadores a serem reveladas no último terço da narrativa. Por sua vez, Nick apresenta um feitio aparentemente descontraído, com a sua matreirice a surgir como um contraponto interessante a Judy, com a dupla a formar amizade e uma relação profissional que promete resultar em pleno. Diga-se que esta raposa permite ainda abordar temáticas como o bullying e evasão fiscal, com "Zootopia" a mesclar assertivamente um tom mais sério com diversos momentos de humor, enquanto nos coloca diante de uma espécie de buddy cop film com salpicos de neo-noir. "Zootopia" conta ainda com diversas doses de aventura e investigação policial, com Judy e Nick a enfrentarem uma série de perigos, enquanto conquistam o espectador e ultrapassam as adversidades. Com um trabalho primoroso a nível de animação e um argumento capaz de abordar temáticas relevantes, "Zootopia" promete integrar a lista de clássicos da Disney, com o filme realizado por Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush a superar as expectativas e a apresentar-nos a dois personagens dignos de permanecerem na memória: Judy Hopps e Nick Wilde.

Título original: "Zootopia".
Título em Portugal: "Zootrópolis".
Realizadores: Byron Howard, Rich Moore  e Jared Bush.
Argumento: Jared Bush e Phil Johnston.
Elenco vocal: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, Jenny Slate, Nate Torrence, J.K. Simmons.

17 maio 2016

Resenha Crítica: "Kiss Kiss Bang Bang" (2005)

 "Kiss Kiss Bang Bang" confirma quer o talento de Shane Black para a escrita de argumentos, quer para mesclar elementos de acção e humor, quer para a realização. Diga-se que a irreverência, confiança e argúcia de Shane Black surpreendem pela positiva, ou não estivéssemos a escrever sobre uma obra cinematográfica realizada por um estreante na direcção de longas-metragens. É certo que Shane Black escreveu o argumento de "Lethal Weapon" e a sua sequela, bem como de obras cinematográficas como "The Monster Squad", algo que alçou as expectativas em relação ao seu trabalho em "Kiss Kiss Bang Bang", com o realizador a não desiludir e a superar as melhores previsões. "Kiss Kiss Bang Bang" surge como uma pequena pérola que merece ser (re)descoberta, com a irreverência e o humor a dominarem um enredo rocambolesco, que conta com desempenhos dignos de atenção por parte de intérpretes como Robert Downey Jr., Val Kilmer e Michelle Monaghan. Shane Black pega em diversas referências relacionadas com filmes noir e policiais, utilizando as mesmas quer para as satirizar, quer para fazerem parte do enredo, enquanto realiza uma obra cinematográfica recheada de humor, acção, violência, reviravoltas e um enredo rocambolesco. As influências dos filmes noir são bem visíveis ao longo do filme. Não falta o protagonista que se envolve no interior de uma investigação intrincada, os personagens de carácter ambíguo, a narração em off, as figuras fumadoras, os clubes nocturnos, a noite como companheira e testemunha de diversos episódios marcantes, entre outros elementos. É um neo-noir irreverente e delirante, que aproveita o talento de Robert Downey Jr. para o humor, com o actor a interpretar o protagonista e narrador de serviço, algo que contribui para diversos momentos sardónicos. Veja-se quando encontramos Harry Lockhart (Robert Downey Jr.), o protagonista, a ironizar com a sua inabilidade para narrar os episódios que apresenta, ou os recuos e paragens que este elemento efectua propositadamente na narrativa, com o argumento de Shane Black a contar com diversos momentos que mesclam irreverência e inspiração. "Kiss Kiss Bang Bang" não poupa nos flashbacks, bem como nos momentos em que o narrador se dirige para o espectador e procura efectuar piadas, enquanto somos envolvidos para o interior de uma investigação que envolve assassinatos, fugas, identidades trocadas e imensas confusões. Harry é um ladrão que entra por engano na audição para um filme, com o protagonista a aproveitar a mesma para se esconder da polícia, após um assalto falhado. O casting decorre de forma bastante positiva, com o protagonista a ser convidado para uma festa que tem lugar em Los Angeles (a cidade onde se desenrola boa parte do enredo). O evento conta com diversos convidados ligados à indústria cinematográfica, ou aspirantes a integrarem a mesma, com a festa a ter sido organizada por Harlan Dexter (Corbin Bernsen), um milionário, outrora um actor, que se reconciliou com a filha.

 A festa conta com a presença de elementos como Dabney Shaw (Larry Miller), o produtor do filme que supostamente pode contar com Harry como protagonista; Perry Van Shrike (Val Kilmer), também conhecido por Gay Perry, um detective privado, consultor de cinema e televisão; Harmony Faith Lane (Michelle Monaghan), uma aspirante a actriz e antiga paixoneta do personagem interpretado por Robert Downey Jr. A tensão, o humor, a violência, os enganos e os momentos nonsense vão marcar o quotidiano de Harry, Perry e Harmony. Harry tem de seguir Perry, tendo em vista a aprender os métodos de trabalho de um detective, o oficio do personagem que este poderá interpretar no filme para o qual está cotado. Harmony é alvo do interesse de Harry, um indivíduo que comete quase tantos erros nos relacionamentos como a nível da gramática, com Robert Downey Jr. e Michelle Monaghan a apresentarem uma dinâmica convincente. Diga-se que a química entre Downey Jr. e Monaghan é sentida logo no primeiro terço do filme, quando Harry mete conversa com Harmony num clube nocturno (não poderia faltar um espaço do género num noir). Não faltam falas mordazes, brincadeiras relacionadas com as semelhanças entre alguns clientes e diversos actores, mas também um sentido de humor muito peculiar por parte de Harry e Harmony, até esta última conseguir que o primeiro se recorde que foram amigos durante a infância e adolescência. Harry sempre teve uma paixoneta por Harmony, embora "Kiss Kiss Bang Bang" se prepare para desafiar as expectativas em relação aos actos cometidos pelos personagens. Veja-se que Harry procura seduzir Harmony, mas embebeda-se de tal maneira que vai para a cama com... a amiga da personagem interpretada por Michelle Monaghan. Este é um dos vários momentos de humor que funcionam praticamente na perfeição, com Shane Black a contar com intérpretes que conseguem elevar um argumento dotado de um conjunto de falas e situações que ficam na memória. Black sabe quando o filme deve apresentar um tom mais sério, quando deve apostar as fichas no humor, ou utilizar uma faceta politicamente incorrecta. Esse cariz politicamente incorrecto é possível graças à personalidade de Harry, bem como ao tom que Downey Jr. incute ao personagem que interpreta, com o ladrão a não ter problemas em ironizar de forma gratuita com o facto de Perry ser homossexual, ou comentar sobre as pernas de Harmony, entre outros exemplos. Michelle Monaghan incute um estilo sensual e misterioso a Harmony, uma aspirante a actriz que dispara palavrões com uma facilidade notória, é fã de uma série de livros baratos de detectives e prepara-se para protagonizar alguns episódios intensos.

 O detective da saga literária admirada por Harmony tinha de lidar quase sempre com dois casos separados, aparentemente sem ligação entre si, que se interligavam perto da conclusão, algo que vai acontecer ao trio de protagonistas. Tudo começa quando Perry e Harry se encontravam a investigar um caso aparentemente banal, embora se deparem com um carro que cai no lago. O porta-bagagens do carro contém o corpo de uma mulher que foi assassinada, com o detective e o antigo ladrão a preparem-se para entrar de cabeça num caso intrincado, recheado de reviravoltas e momentos que variam entre o inquietante e o cómico. Não falta Perry a acertar com um tiro na cabeça da defunta quando procurava abrir o porta-bagagens, gags relacionados com os erros gramaticais de Harry e o facto do personagem interpretado por Robert Downey Jr. ter perdido um dedo, entre outros exemplos. A juntar a tudo isto, a irmã de Harmony é encontrada morta, tendo cometido suicídio, embora a personagem interpretada por Michelle Monaghan não se acredite nesta teoria. Harry promete investigar o caso, algo que enfurece Perry. No entanto, os dois casos encontram-se interligados, algo que promete diversas revelações surpreendentes e obrigar Harry e Perry a terem de utilizar as suas capacidades para a investigação, ou melhor, para sobreviverem a uma situação que parece transcender as capacidades de ambos. A dinâmica entre Downey Jr. e Val Kilmer é convincente, com os actores a beneficiarem de um argumento que apresenta uma enorme eficácia a explorar a relação de amizade e profissional entre Perry e Harry, uma dupla improvável que se envolve no interior de uma investigação rocambolesca e perigosa. Robert Downey Jr. apresenta um timing notável para os momentos de humor, mas também uma versatilidade notória que permite atribuir credibilidade aos trechos mais sérios. Downey Jr. corre, faz piadas, não tem problemas em envolver-se situações ridículas, enquanto enche o ecrã de talento e carisma. Val Kilmer adere ao tom delirante e a espaços absurdo que Shane Black atribui ao enredo, com o actor a interpretar um detective experiente que conhece os podres de Hollywood, bem como aquilo que os produtores pretendem fazer a Harry. "Kiss Kiss Bang Bang" surge também como uma sátira a Hollywood, com Shane Black a colocar o espectador diante de um meio deveras peculiar. Não falta um actor em decadência que invade uma casa com o fato de um super-herói que outrora alçara a carreira do intérprete ao sucesso, um ladrão que aspira a protagonizar um filme, um assassino que protagonizara uma adaptação cinematográfica manhosa dos livros venerados por Harmony, festas pontuadas pela vacuidade dos seus convidados, entre outros exemplos. Pontuado por investigações intrincadas, episódios rocambolescos, momentos de humor, dinâmicas convincentes entre o trio de personagens principais, diversas cenas de acção e reviravoltas, boas interpretações por parte de Robert Downey Jr., Val Kilmer e Michelle Monaghan, "Kiss Kiss Bang Bang" surge como um neo-noir delirante e irreverente que comprova a capacidade de Shane Black a escrever argumentos e a realizar longas-metragens.

Título original: "Kiss Kiss Bang Bang".
Realizador: Shane Black.
Argumento: Shane Black (inspirado no livro "Bodies Are Where You Find Them" de Brett Halliday).
Elenco: Robert Downey, Jr., Val Kilmer, Michelle Monaghan.

16 maio 2016

Resenha Crítica: "Gomorra" (2008)

 A morte, a violência, a vingança, as rivalidades e as disputas pelo poder marcam a narrativa de "Gomorra", a sexta longa-metragem realizada por Matteo Garrone. A câmara de filmar encontra-se constantemente em movimento, pronta a captar as emoções e a transmitir um tom imediato aos acontecimentos vividos pelos personagens ao longo desta narrativa que efectua um retrato complexo sobre a máfia e o impacto provocado por alguns dos seus integrantes no interior do território que dominam ou procuram dominar. O argumento teve como base o livro "Gomorra" de Roberto Saviano, com Matteo Garrone a conseguir articular uma série de histórias centradas em personagens que lidam de perto com os elementos da Camorra, um grupo mafioso conhecido pela sua faceta implacável. A máfia parece dominar este espaço napolitano localizado entre os subúrbios de Scampia e Secondigliano, com o conflito entre elementos do clã Di Lauro e os chamados scissionisti (separatistas) a mexer com o quotidiano de diversos personagens, algo exposto de forma brutal e intensa. Amizades perdem-se, as disputas pelo poder podem culminar na morte de vários inocentes, as lealdades são testadas, a ganância predomina regularmente em relação ao bom senso, com as atitudes à margem da lei a serem muitas das vezes encaradas com normalidade por diversas gentes deste território. O início de "Gomorra" é intenso e violento, com as luzes azuis e a banda sonora a darem o tom para um assassinato que ocorre no interior de um solário. Um grupo de gangsters é eliminado por outro bando de criminosos, com este momento introdutório a servir de aperitivo para uma obra cinematográfica pontuada por um tom quase documental, com Matteo Garrone a colocar o espectador diante de uma série de personagens que habitam no interior deste meio marcado pela violência. O filme apresenta uma estrutura praticamente coral, algo que permite colocar diversos personagens em destaque. Veja-se o caso de Totò (Salvatore Abruzzese), um adolescente de treze anos de idade, que ajuda a sua mãe, a dona de uma pequena mercearia. Totò habita neste bairro onde as casas se encontram praticamente interligadas, com os edifícios a surgirem amontoados, recheados de figuras que dependem dos elementos da máfia, com a própria estrutura arquitectónica a transmitir uma sensação de prisão, como se estes personagens estivessem presos a uma teia que os reúne de forma indelével. Diga-se que a utilização do espaço arquitectónico ao serviço da narrativa e os efeitos provocados pelo mesmo nos personagens, remete para obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni como "L'avventura", "La Notte", "L'eclisse", "Il deserto rosso", entre outras. Se Antonioni colocou o espectador diante de personagens com algumas posses financeiras (no caso dos exemplos citados), já Garrone apresenta uma miríade de figuras anónimas que pertencem maioritariamente aos escalões mais baixos da Camorra. O personagem interpretado por Salvatore Abruzzese é amigo de Simone (Simone Sacchettino), um adolescente, embora este último decida unir-se aos secessionistas ou separatistas, enquanto o primeiro junta-se ao grupo dominante, algo que vai dividir estes dois jovens.

 A entrada de Totò e Simone no mundo do crime organizado promete trazer repercussões para os mesmos e para as respectivas famílias. Totò junta-se ao grupo criminoso após ter devolvido uma pistola e um saco com drogas que pertenciam a um integrante do gang, que se tivera de desfazer desse material devido a uma intervenção da polícia. O personagem interpretado por Salvatore Abruzzese passa os testes de coragem com sucesso, começando a trabalhar para estes criminosos em crimes como tráfico de droga, embora perceba rapidamente que entrou num mundo onde não existe meio termo: ou está a favor do seu líder ou está contra. Esta situação conduz a um episódio violento que interliga a história de diversos personagens, incluindo a mãe de Simone, uma mulher que deixou de receber uma verba do grupo criminoso, algo que é efectuado como represália devido ao facto do rebento ter integrado os secessionistas. Quem efectua os pagamentos do clã Di Lauro é Don Ciro (Gianfelice Imparato), um indivíduo de personalidade calma e reservada, aparentemente fiel aos seus superiores. Estas verbas, pagas a elementos que prestaram serviços ou que contam com familiares na prisão devido a trabalhos para a máfia, contribuem para que os integrantes da Camorra mantenham a sua rede de influências e poder no interior deste espaço. Gianfelice Imparato conta com uma interpretação sóbria, eficaz e certeira, que contrasta em certa medida com os exageros e devaneios de Marco (Marco Macor) e Ciro (Ciro Petrone), dois aspirantes a gangsters. Marco e Ciro são fãs dos gangsters dos filmes dos EUA, em particular de "Scarface" versão Brian De Palma, procurando cometer delitos por conta e risco, algo que promete irritar Giovanni (Giovanni Venosa), um líder mafioso local. Estes jovens tanto são capazes dos actos mais violentos como cometem as atitudes mais infantis, roubando droga, armas e divisas, embora não pareçam ter a noção de que a realidade é bem distinta dos filmes de Hollywood. Diga-se que Matteo Garrone procura incutir um tom cru na representação destes gangsters e do quotidiano das gentes destes espaços napolitanos. Não existe lugar para paixões ou idealismos, com quase todos os personagens a serem confrontados por uma realidade onde a imoralidade e a máfia parecem estar enraizados, um pouco a fazer recordar "A ciascuno il suo" de Elio Petri, uma obra cinematográfica onde o protagonista, um professor (Gian Maria Volontè), descobre da pior maneira a teia criminosa que envolve o território no qual habita. Marco Macor e Ciro Petrone protagonizam um dos momentos mais memoráveis e infantis do filme, em particular, quando os personagens que interpretam se encontram de cuecas a testar as armas que roubaram. É um momento violento, idiota, infantil e revelador de que Ciro e Marco não se encontram conscientes que se estão a envolver num mundo bem mais perigoso e cruel do que aquele que idealizaram nas suas mentes. "Gomorra" explora a brutalidade deste espaço sem concessões ou falsas lições de moralismo, com Matteo Garrone a exibir a "normalidade" com que os moradores deste território encaram toda esta realidade que envolve a Camorra, parecendo que a presença dos elementos desta organização criminosa e os seus actos se encontram enraizados no quotidiano da população.

 Matteo Garrone efectua um comentário sobre a forma como estes grupos dominam alguns espaços de Itália, mas também a naturalidade com que parecem ser encarados no estrangeiro, algo notório nos intertítulos finais onde ficamos diante do comentário "A Camorra também investiu na reconstrução das Torres Gémeas", que explana paradigmaticamente como o dinheiro sujo é reinvestido em negócios considerados legais. A ilegalidade nos negócios é algo que marca o quotidiano de Franco (Toni Servillo), um indivíduo com poucos escrúpulos, que ganha a vida com o despejo de lixo considerado tóxico. Franco enriqueceu graças a diversas ilegalidades e à exploração dos trabalhadores, uma situação evidenciada em diversos actos, tais como colocar crianças a conduzirem camiões após os camionistas se terem revoltado. Toni Servillo cria um dos vários personagens de "Gomorra" que aparecem desprovidos de valores morais, um indivíduo que não é propriamente um gangster, embora actue como um criminoso, algo percepcioando por Roberto (Carmine Paternoster), um funcionário de Franco que começa a exibir algum desconforto em relação às atitudes do seu superior. Quem também mantém uma relação intrincada com o patrão é Pasquale (Salvatore Cantalupo), um alfaiate que trabalha para o dono (Gigio Morra) de uma fábrica de roupa que mantém ligações com a Camorra. Pasquale é um alfaiate competente, que é aliciado para trabalhar na fábrica de roupa dos chineses que habitam o local, uma situação que promete trazer problemas para ambas as partes, ou a violência não fizesse parte do dia a dia destes personagens. A narrativa centrada em Pasquale permite não só reforçar a violência no território e alguma xenofobia, mas também a hipocrisia de algumas grandes marcas que vendem vestidos a valores elevadíssimos, embora as vestimentas sejam produzidas em condições pouco dignas. A ironia também faz parte deste filme pontuado pela violência, com Matteo Garrone a efectuar um retrato pungente deste território napolitano. Não existem concessões para com os personagens, com Garrone a ser fiel ao espírito da narrativa, colocando o espectador diante de um meio onde os tentáculos da máfia parecem enraizados no seio da população. Veja-se o delírio de Ciro e Marco em relação aos mafiosos de Hollywood, ou a entrada do personagem interpretado por Salvatore Abruzzese no mundo da máfia. Abruzzese interpreta um jovem de poucas falas, que gosta de utilizar camisolas com manga de cava, brincos e anéis, procurando integrar-se neste quotidiano violento que sempre rodeou a sua vida. Os actores e actrizes apresentam uma enorme naturalidade nas suas interpretações, com Matteo Garrone a acertar na decisão de mesclar elementos conhecidos com estreantes ou amadores, bem como em filmar "Gomorra" no espaço onde se desenrola parte da narrativa. Diga-se que o cineasta é bastante eficaz a incutir um tom quase documental ao filme, procurando que o espectador praticamente se esqueça de que está diante de elementos ficcionais, algo que foi propositado, como Matteo Garrone comentou ao IndieLondon: "I wanted to make Gomorrah like a documentary or like a piece of war reportage. Of course, it’s all a reconstruction and there are actors, yet I wanted to make the audience forget there is a film-crew behind the camera. The source material is so real and true and the locations are so powerful,that I didn’t need to embellish things visually".

 Este é um retrato complexo da Camorra, bem como dos laços criados entre os mafiosos e os cidadãos locais, enquanto ficamos diante do quotidiano destes elementos. As oportunidades laborais nem sempre são as melhores, a vida escolar dos jovens é descurada, enquanto a entrada no mundo da máfia parece ser muitas das vezes a única possibilidade quer para sobreviver, quer para ter dinheiro, quer para alguns elementos se sentirem integrados no meio que os rodeia. Não existe glamour a rodear os actos destes personagens, bem pelo contrário, algo que a espaços contribui para alguns murros no estômago do espectador que sente e de que maneira algumas mortes. A morte de uma figura feminina é particularmente dolorosa de se ver, com "Gomorra" a expor a brutalidade que rodeia este espaço. Nesse sentido, não encontramos um retrato unidimensional da máfia e deste espaço citadino, mas sim uma procura em explorar a complexidade desta teia que envolve o território napolitano, com o próprio Governo a ser alvo de alguns comentários. Veja-se a exploração laboral, pouco regulada pelas entidades competentes, ou o comentário efectuado pelo personagem interpretado por Toni Servillo: "Resolvemos os problemas criados pelos outros". Diga-se que este despeja o lixo tóxico em locais propícios ao crescimento de frutas e legumes, com estes produtos a surgirem contaminados desde a sua génese, algo que parece surgir quase uma metáfora para os diversos personagens que povoam esta narrativa. Retrato cru, marcante e complexo sobre a máfia napolitana e os elementos que contactam directamente ou indirectamente com os seus membros, "Gomorra" não cede espaços a facilitismos, ou sentimentalismos, com Matteo Garrone a procurar estimular o espectador a questionar este espaço e as suas gentes.

Título original: "Gomorra".
Realizador: Matteo Garrone.
Argumento: Matteo Garrone, Roberto Saviano, Maurizio Braucci, Ugo Chiti, Gianni Di Gregorio, Massimo Gaudioso.
Elenco: Toni Servillo, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale, Salvatore Cantalupo, Gigio Morra, Salvatore Abruzzese, Marco Macor, Ciro Petrone.

15 maio 2016

Resenha Crítica: "10 Cloverfield Lane" (2016)

 Realizado por Dan Trachtenberg (estreante na realização de longas-metragens), um dos novos Minions de J.J. Abrams, "10 Cloverfield Lane" surge como uma proposta intrigante dentro do cinema de género, embora nem sempre cumpra tudo aquilo que promete, sobretudo no último terço. O elenco é competente, com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr. a segurarem muitas das vezes o enredo, mesmo quando o argumento tropeça, com o trio a contar com interpretações sólidas, enquanto Dan Trachtenberg dota "10 Cloverfield Lane" de uma atmosfera tensa e misteriosa. Como o título do filme indica, existem alguns elementos a ligarem "10 Cloverfield Lane" e "Cloverfield", apesar do primeiro não surgir como uma sequela directa do segundo, com esta união a tornar-se relativamente visível no último terço. Por vezes parece que a ligação é forçada, ou incutida de forma não harmoniosa (o filme viveria bem sem a referência a "Cloverfield"), embora faça algum sentido, com Dan Trachtenberg a aproveitar o último terço quer para destruir a estrutura contida de "10 Cloverfield Lane", quer para revelar aquilo que está a acontecer fora do abrigo onde se desenrola boa parte da narrativa. A introdução e desenvolvimento de "10 Cloverfield Lane" apresentam uma estrutura contida, pronta a exacerbar o baixo orçamento do filme (para os padrões de Hollywood), bem como o cuidado colocado na decoração e aproveitamento do cenário do abrigo, com este espaço a ser fundamental quer para demonstrar elementos da personalidade de Howard (John Goodman), quer para adensar a atmosfera inquietante e misteriosa que envolve o enredo, quer para Dan Trachtenberg construir episódios que contribuem para atribuir dimensão ao trio de protagonistas. As estranhas relações que se formam entre os personagens interpretados por Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr. são essenciais para "10 Cloverfield Lane" funcionar, com Dan Trachtenberg e a sua equipa a contarem com a noção de que seria impossível "comprarmos" algumas das suas ideias se não nos preocupássemos com os protagonistas. Não é um filme que arrebata, mas consegue despertar alguns sorrisos nervosos, inquietar, surpreender e exibir que existe espaço nas salas de cinema (em circuito comercial) para esta mescla entre a ficção científica low cost e o mistério. É certo que em determinados momentos a banda sonora é demasiado intrusiva e procura insuflar a narrativa, sobrepondo-se a algumas cenas, embora Dan Trachtenberg consiga manter a tensão e a atmosfera claustrofóbica em volta do trio de protagonistas, com o enredo a incidir especialmente em Michelle (Mary Elizabeth Winstead).

Com uma carreira mal gerida, Mary Elizabeth Winstead, demonstra mais uma vez que com o argumento e o papel certo é uma actriz a ter em atenção, com a intérprete a elevar muitas das vezes o filme (mesmo quando assume uma faceta de "MacGyver"), surgindo quase como o nosso duplo em "10 Cloverfield Lane". O que faríamos se, após um acidente rodoviário, acordássemos presos no interior de um abrigo que é liderado por um indivíduo aparentemente perturbado? Michelle procura fugir e ligar a algum conhecido, embora o telemóvel não tenha rede e esta acabe por ser dissuadida, ainda que temporariamente, de abandonar o local. O abrigo pertence a Howard, um personagem que apresenta um conjunto de atitudes peculiares que variam entre a agressividade e a afabilidade. Goodman muda de registos com enorme facilidade, tanto surgindo completamente lunático como simpático, com o actor a contribuir para o mistério que envolve o personagem que interpreta, um indivíduo paranóico que criou um abrigo a pensar na possibilidade de um dia ocorrer um desastre brutal (o cuidado que este antigo marinheiro colocou na construção e decoração do abrigo exacerba a sua faceta dada a teorias da conspiração). Supostamente esse desastre apocalíptico ocorreu, algo que conduziu Howard a prender Michelle no interior do abrigo, embora esta se encontre céptica em relação aos comportamentos do primeiro. Howard procura comprovar que o desastre aconteceu ao deixar que Michelle observe os corpos de dois porcos dilacerados, que se encontram no espaço exterior do abrigo, algo que supostamente permite demonstrar que é praticamente impossível sobreviver fora desta espécie de bunker. O abrigo conta com televisão, dvds e vhs, um sistema de ventilação (supostamente é impossível respirar no espaço exterior ao bunker), mantimentos, revistas, algo que evidencia o cuidado que Howard colocou nesta sua espécie de Arca de Noé. O olhar de John Goodman, as suas expressões e movimentos corporais demonstram que estamos diante de um actor capaz de elevar um personagem, algo que contribui para manter a tensão em volta de Howard, enquanto este procura ditar as suas leis junto de Michelle e Emmett (John Gallagher Jr.). De barba por fazer, chapéu na cabeça, uma personalidade aparentemente ponderada e medrosa, Emmett acredita inicialmente que Howard pretende proteger o grupo, enquanto Dan Trachtenberg diverte-se a jogar com as emoções do seu trio de protagonistas. Todos parecem contar com relacionamentos falhados ou objectivos por concretizar ao longo da vida, com o espaço fechado onde se encontram a contribuir para adensar os sentimentos que assolam a alma destes personagens. Michelle saíra recentemente de casa, tendo abandonado o namorado. Emmett não teve coragem para concretizar os seus sonhos. Howard apresenta uma estranha obsessão pela filha, que supostamente saiu de casa com a mãe. É um trio de características distintas, embora Emmett e Michelle pareçam ter algumas afinidades, com esta última a desconfiar de Howard, tal como o espectador, enquanto o personagem interpretado por John Goodman apresenta um conjunto de comportamentos que exibem os seus desequilíbrios emocionais.

Os planos fechados adensam a atmosfera tensa e claustrofóbica que a espaços pontua a narrativa, bem como alguns episódios que Dan Trachtenberg utiliza para dinamizar o enredo. As relações entre o trio de protagonistas são marcadas pela atmosfera de suspeição em volta dos objectivos de Howard, enquanto John Goodman se parece divertir a explorar as questões levantadas pelo personagem que interpreta. Revelar mais do que aquilo que já foi contado neste texto seria estragar o prazer da visualização de "10 Cloverfield Lane", com Dan Trachtenberg a pontuar a narrativa com algumas reviravoltas e episódios inquietantes. Veja-se quando a conduta de ar avaria, com Michelle a ter de penetrar pelo interior dos tubos, tendo em vista a consertar o aparelho, enquanto é criada a dúvida se esta vai conseguir sair deste local, até a personagem interpretada por Mary Elizabeth Wintead se deparar com outra revelação. As reviravoltas pontuam boa parte do enredo de "10 Cloverfield Lane". Será que Howard está a enganar Emmett e Michelle? O que aconteceu na zona exterior ao abrigo? Quais são os objectivos de Howard? Será que Emmett e Michelle vão ter coragem para desafiar as directivas de Howard? Será que é impossível respirar no espaço exterior ao abrigo? Quem vai sobreviver? É certo que poderia existir uma tensão psicológica ainda mais acirrada entre o trio de protagonistas, mas Dan Trachtenberg prefere construir algo certinho, sempre sem cometer grandes riscos, com excepção do último terço (curiosamente, aquele que é o ponto fraco do filme). O secretismo marcou todo o desenvolvimento do filme, bem como a campanha de marketing, algo que perpassa para o enredo, sempre muito marcado pelo mistério, paranóia e insegurança. Michelle surge quase como o nosso duplo, com esta a questionar as atitudes de Howard e as contradições do discurso deste indivíduo, algo que acaba por contaminar a mente de Emmett, até então mais resignado em relação a toda esta história. O perigo marca o quotidiano dos personagens interpretados por Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher Jr., com as vidas de Michelle e Emmett a encontrarem-se em risco, sobretudo quando ameaçam desobedecer a Howard. Mary Elizabeth Winstead tem um papel intenso, com a actriz a convencer quer nas cenas emocionalmente inquietantes, quer nos trechos onde é obrigada a exibir uma intensidade notória a nível corporal, com Michelle a envolver-se em fugas, corridas, entre outros episódios. Com um trabalho notável na decoração e utilização do abrigo ao serviço do enredo, interpretações de grande nível de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead, uma atmosfera inquietante e misteriosa, "10 Cloverfield Lane" tropeça um pouco no último terço mas tem material de sobra para nos prender ao longo da sua duração.

Título original: "10 Cloverfield Lane".
Título no Brasil: "Rua Cloverfield, 10". 
Realizador: Dan Trachtenberg.
Argumento: Josh Campbell, Matt Stuecken, Damien Chazelle.
Elenco: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr.

13 maio 2016

Resenha Crítica: "Sedotta e abbandonata" (1964)

 Recheado de episódios farsescos, diversos momentos de drama, situações rocambolescas, sentimentos expostos de forma exagerada, traições e figuras conservadoras, "Sedotta e abbandonata" aborda e satiriza algumas das tradições associadas à sociedade siciliana, um pouco a fazer recordar "Divorzio all'italiana", uma "comédia à italiana" realizada por Pietro Germi. "Sedotta e abbandonata" é o segundo volume da trilogia informal sobre a "Itália provinciana", iniciada em "Divorzio all'italiana", com Pietro Germi, o realizador, a colocar o espectador diante de um núcleo familiar que entra em polvorosa perante a descoberta de que Agnese Ascalone (Stefania Sandrelli), uma adolescente que conta com quinze anos de idade, teve relações sexuais com Peppino Califano (Aldo Puglisi), um estudante universitário que se encontrava noivo de Matilde (Paola Biggio), a irmã da personagem interpretada por Stefania Sandrelli. A notícia causa uma enorme comoção junto de Don Vincenzo Ascalone (Saro Urzì), o patriarca desta família, um empresário conservador e rígido, que procura evitar que Matilde descubra esta informação, enquanto tenta forçar Peppino a casar com Agnese, uma tarefa que promete ser deveras complicada. A jovem procura cumprir penitência e esconder este "pecado" dos pais, embora o segredo não dure muito tempo. A penitência não é obra do acaso, com os valores religiosos a estarem bastante impregnados nas figuras que vivem em Sciacca, o território siciliano onde se desenrola boa parte da narrativa de "Sedotta e abbandonata", com Pietro Germi a utilizar alguns estereótipos associados a este espaço ao serviço do humor, enquanto expõe vários problemas ligados às leis e práticas locais no período em que a obra cinematográfica foi lançada. O conservadorismo e a violência deste território surgem como temáticas presentes em comédias à italiana como "Divorzio all'italiana", "La ragazza con la pistola", entre outras, algo que se repete em "Sedotta e abbandonata". Veja-se que a jovem é agredida e trancada no quarto pelo pai, com o casamento a ser visto como o único meio desta poder "limpar o nome da família", independentemente de Agnese pretender ou não esta opção. Diga-se que o filme aborda ainda o facto caricato do casamento anular crimes como um rapto, ou uma menor ter mantido relações com um indivíduo maior de idade. Este indivíduo é Peppino, um estudante universitário imaturo, irresponsável e incoerente, que não pretende casar com Agnese devido ao facto desta ter sido "desonrada" antes do matrimónio. Pietro Germi recorre ao exagero para acentuar os momentos de humor, aliviar as situações mais dramáticas e satirizar alguns costumes, beneficiando do facto de contar com um argumento coeso e um elenco competente, com diversas das situações mais cómicas a resultarem da interacção entre os vários personagens. Veja-se quando Vincenzo entra pela casa de Peppino e começa a agredir o jovem, com Amalia (Lola Braccini) e Orlando Califano (Rocco D'Assunta), os pais do estudante universitário, a serem apanhados de surpresa. Diga-se que Amalia também começa a agredir Peppino quando descobre que o filho engravidou a jovem Agnese, com Pietro Germi a não ter problemas em abraçar os exageros e despertar o sorriso do espectador com alguns momentos de humor bem elaborados.

 Se Agnese é uma jovem bela, insegura, impulsiva e aparentemente algo frágil, já Vincenzo é um indivíduo violento, retrógrado e expansivo na exposição das suas emoções, não tendo problemas em gritar, cometer agressões e colocar o quotidiano da primeira e de Peppino em polvorosa. Nesse sentido, Vincenzo obriga Peppino a escrever uma carta a Matilde, tendo em vista a terminar o noivado, enquanto procura unir esta última a Rizieri (Leopoldo Trieste), um barão suicida, desdentado, falido e destrambelhado. Rizieri é uma das várias figuras secundárias que sobressaem ao longo do filme, tal como Matilde, uma jovem sonolenta, anafada e pouco inteligente, que pensa ter sido abandonada por Peppino devido ao facto da irmã ter sido "desonrada" por um estranho. Para além de Matilde e Agnese, Vincenzo Ascalone e Francesca Ascalone (Lina Lagalla) contam ainda com mais duas filhas e um filho, com este último a ganhar algum destaque a partir da segunda metade da narrativa. O filho é Antonio (Lando Buzzanca), um indivíduo algo cobarde e pouco expedito, que é designado por Vincenzo para assassinar Peppino, embora não pareça muito convencido desta ideia. Vincenzo pretende aproveitar a lei e os costumes locais, que permitem uma pena entre três a sete anos de prisão para crimes relacionados com ofensas à honra familiar, tendo em vista a eliminar o personagem interpretado por Aldo Puglisi e limpar o nome da jovem Agnese. Diga-se que este é o argumento utilizado por Ferdinando Cefalù (Marcello Mastroianni), o protagonista de "Divorzio all'italiana", para se tentar livrar da esposa, procurando que esta inicie um caso extraconjugal para contar com uma justificação para eliminá-la. Os personagens de "Sedotta e abbandonata" são movidos por um estranho sentimento de honra, talvez com excepção de Peppino, um jovem que procura evitar contrair matrimónio com Agnese, embora Vincenzo não esteja para brincadeiras, tal como a protagonista não parece entusiasmada com a ideia de casar com alguém que foge da sua pessoa. A narrativa torna-se gradualmente mais rocambolesca e recheada de exageros, com Pietro Germi a não poupar os personagens a uma miríade de episódios marcantes. Veja-se quando os elementos das duas famílias e os respectivos advogados encontram-se junto de um juiz, algo que promete contar com situações delirantes, recheadas de gritaria, emoções à flor da pele e muito humor. "Sedotta e abbandonata" coloca o espectador diante de uma sociedade patriarcal e machista, que valoriza imenso as aparências, com a virgindade das figuras femininas a surgir quase como um estranho troféu. Vincenzo é o paradigma desse conservadorismo, com este indivíduo a procurar que as filhas não "manchem" a "honra" da família, ou seja, que não lhe proporcionem problemas que contribuam para ser alvo dos comentários e má língua dos habitantes desta cidade. Saro Urzì é um dos elementos em destaque, com o actor a ter momentos dignos de atenção, sobretudo quando Vincenzo exprime as suas emoções de forma bem viva, com este personagem a surgir como uma das várias figuras conservadoras desta sociedade que aparece representada com recurso a diversos estereótipos.

O enredo conta com diversas situações delirantes. Veja-se quando encontramos Vincenzo no comboio a cogitar a identidade do indivíduo com quem a sua filha terá mantido relações sexuais, num trecho pontuado pelo bom humor e imaginação, enquanto a expressividade de Saro Urzì, bem como o trabalho de som e montagem ajudam e muito para tudo funcionar. O trabalho de montagem sobressai ainda num delírio de Agnese, com esta a sonhar que se encontra a ser perseguida pelos locais, após saberem a verdade sobre a gravidez e perda da virgindade, com a banda sonora, a expressividade da actriz e a cinematografia a contribuírem para que este momento cause impacto e exponha os receios da personagem interpretada por Stefania Sandrelli. Esta parece destinada a interpretar jovens sedutoras nos filmes de Pietro Germi, ou não tivesse integrado o elenco principal de "Divorzio all'italiana", onde deu vida a Angela, a sobrinha e interesse amoroso de Ferdinando. A actriz é um dos vários nomes do elenco que sobressaem, com os momentos de humor a beneficiarem da interacção entre estas estranhas figuras que povoam o enredo de "Sedotta e abbandonata", uma das várias comédias recomendáveis realizadas por Pietro Germi. O cineasta tanto aposta no humor mais físico ou de situação, como procura utilizar a sátira para evidenciar alguns problemas na sociedade retrógrada que retrata (a reunião entre tragédia e comédia é algo muito comum nas "comédias à italiana"). O caso do rapto de Agnese, tendo em vista a esta "ser desonrada" publicamente para ser obrigada a casar é exemplo disso, com "Sedotta e abbandonata" a exibir a prática transviada de fuitina, algo que também aconteceu em filmes do género como "La Ragazza con la Pistola". Diga-se que os espaços exteriores são essenciais para incrementar a narrativa, com Pietro Germi a não ter problemas em exibir alguns territórios de Sciacca, com os personagens a circularem regularmente pelos mesmos, enquanto ficamos diante destas gentes que deliram com um bom rumor (não faltam figuras algo "tacanhas"). O cineasta aproveita ainda os cenários interiores de forma bastante assertiva, algo notório no caso da habitação dos pais de Agnese, com esta casa a contar com uma dimensão assinalável, embora os efeitos da passagem do tempo sejam latentes, algo que permite criar uma ligação interessante e mordaz entre os valores ancestrais e as habitações deste território siciliano. Com diversos momentos de humor bem arquitectados, boas interpretações, a procura destrambelhada de um indivíduo em manter o "bom nome" da sua família, "Sedotta e abbandonata" aproveita alguns dos estereótipos associados ao território siciliano e aos seus habitantes tendo em vista a denunciar e satirizar algumas situações merecedoras de serem questionadas, enquanto diverte o espectador e exibe o talento de Pietro Germi para a realização de "comédias à italiana".

Título original: "Sedotta e abbandonata".
Título em Portugal: "Seduzida e Abandonada".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Pietro Germi, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni.
Elenco: Stefania Sandrelli, Saro Urzì, Aldo Puglisi, Lando Buzzanca, Lola Braccini.