29 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Oslo, 31. august" (2011)

 Anders (Anders Danielsen Lie), o protagonista de "Oslo, 31. august", é um toxicodependente que se encontra na fase final de recuperação. Este é um tipo relativamente alto, magro, de cabelo rapado, aparentemente calmo, que conta com um passado conturbado, algo que podemos comprovar nas diversas conversas que mantém com conhecidos ao longo da segunda longa-metragem realizada por Joachim Trier. O argumento é livremente inspirado no livro "Le Feu follet", de Pierre Drieu la Rochelle, uma obra literária que já tinha sido adaptada ao grande ecrã por Louis Malle, com ambos os filmes a abordarem temáticas como a depressão, o suicídio, a solidão, a alienação no interior de um espaço urbano, a incapacidade de aceitar as mudanças, entre outras. Diga-se que "Le Feu Follet" e "Oslo, 31. august" contam com uma estrutura narrativa relativamente semelhante, colocando o protagonista, um indivíduo que padece de depressão e atravessa uma crise existencial, a contactar com diversas pessoas associadas ao seu passado. No prólogo, encontramos diversos discursos em off, onde são abordadas as percepções que alguns elementos apresentam em relação a episódios vividos no interior de Oslo, enquanto Joachim Trier brinda o espectador com algumas imagens desta cidade em constante mudança, até concluir com a exibição da implosão do edifício da Philips. A inclusão da implosão parece propositada, com esta a simbolizar as mudanças do território e das suas gentes, ou seja, algo que Anders tem dificuldade em aceitar. A implosão parece remeter ainda para a vida de Anders, ou este não estivesse prestes a conhecer um destino semelhante ao edifício, com o protagonista a cogitar cometer suicídio, embora pense num método muito mais calmo e silencioso. Diga-se que a narrativa de "Oslo, 31. august" apresenta uma estrutura perturbadoramente circular, ou o início e o final do filme não contivessem uma série de imagens em movimento da cidade, enquanto nos deixa diante da nossa pequenez perante o Mundo que nos rodeia. A própria data para um episódio marcante da vida do protagonista, em particular, o dia 31 de Agosto, remete para o crepúsculo do Verão, uma situação que contribui para exacerbar a melancolia que envolve diversos episódios do filme. Anders é uma das várias figuras anónimas que circulam pela cidade de Oslo, tendo alguma dificuldade em aceitar as mudanças que ocorreram no período de tempo em que esteve internado num centro de recuperação. É certo que aqueles que conhece também não são propriamente felizes, muitos até vivem um quotidiano recheado de aparências, embora Anders denote uma clara dificuldade em seguir em frente com a vida e soltar-se dos grilhões que impôs a si próprio. Queria ser relevante mas apenas parece poder aspirar a ser um tipo banal, um falhado destinado a contar com um estilo de vida e uma profissão que não o estimulem. Diga-se que, em parte, este também é culpado pelo seu destino. Os pais são, ou eram, figuras endinheiradas, que se endividaram para pagar despesas relacionadas com o vício do filho pelas drogas, enquanto o próprio Anders tirou o curso e é alguém descrito como inteligente e culto.

 O vício pelas drogas e a sua personalidade destrutiva contribuíram e muito para o estado em que Anders se encontra no início do filme. Anders recebe ordem para sair do centro de recuperação, durante um dia, tendo em vista a responder a uma entrevista de emprego. A entrevista é para o cargo de assistente editorial de uma revista, algo que não é fantástico mas pode significar um novo início para o protagonista embora este pareça demasiado marcado pelos actos que cometeu no passado e pela forma como é encarado por aqueles que o rodeiam. A pouca confiança que Anders demonstra em si próprio é visível quando se encontra a dialogar com Thomas (Hans Olav Brenner) e comenta que não pode começar do zero. Tem a noção de que já tem trinta e quatro anos, conta com poucos feitos e imensos objectivos falhados, com o argumento de Joachim Trier e Eskil Vogt a colocar-nos diante das frustrações inerentes à incapacidade de realizar os objectivos que preconizámos para o futuro. Thomas era um dos melhores amigos de Anders, sendo o primeiro elemento com quem este contacta antes de ir à entrevista, com o protagonista a procurar diversas pessoas que marcaram a sua vida ou acabou por desiludir (a narrativa acompanha alguns episódios deste dia marcante na vida do protagonista). O amigo de Anders é um académico, que outrora partilhara alguns momentos de diversão com o protagonista embora tenha mudado completamente de estilo de vida ao casar com Rebecca (Ingrid Olava), com quem tem um filho e uma filha. A conversa com Thomas é marcada por alguns desabafos e a noção de que Anders vai ter uma caminhada complicada ao longo deste dia de "soltura". É certo que está a duas semanas de terminar o tratamento, mas isso não impede Anders de tentar cometer suicídio, algo que podemos comprovar no início do filme. A ideia não lhe sai da cabeça, algo que expõe a Thomas. O personagem interpretado por Hans Olav Brenner procura confortar o amigo, embora não deixe de expor algum preconceito, com "Oslo, 31. august" a problematizar um assunto de relevo: a dificuldade de integração dos ex-toxicodependentes quer pelas dificuldades sentidas pelos próprios, quer pelos preconceitos existentes na sociedade. Anders revela a Thomas que existe um procedimento na clínica que consiste nos doentes interpretarem figuras que contam ou contaram com alguma relevância na vida de cada um dos elementos que se encontram internados. O protagonista salienta que um colega interpreta Thomas, algo que este último questiona: "Estás a dizer que há um viciado a fazer de mim?". A cara de Anders não engana, com este a perceber o preconceito inerente à expressão aplicada pelo amigo em relação aos doentes da clínica. No caso, Thomas não nutre preconceitos em relação a Anders, embora tenha cometido um equívoco nas palavras que decidiu utilizar e no tom como proferiu as mesmas. Thomas "esqueceu-se" que o amigo é tão viciado em drogas como o indivíduo que interpretara a sua pessoa, algo que acabou por trazer ao de cima o preconceito que alguns elementos nutrem em relação aos toxicodependentes ou ex-toxicodependentes.

 O deslize de Thomas atribui alguma sinceridade ao diálogo entre este e o amigo, com o argumento de "Oslo, 31. august" a explanar que nem sempre é fácil encontrar a palavra exacta para a altura certa. Diga-se que Thomas também conta com as suas frustrações, com a sua vida como pai de família e marido a estar longe de ser estimulante, com Anders a perceber que a maioria das figuras que o rodeiam nem sempre alcançaram a felicidade, algo que parece adensar ainda mais a sua depressão. Hans Olav Brenner sobressai como esta figura que resolveu mudar a sua conduta e formar família, embora a sua vida social e profissional pareçam pouco estimulantes, com este a surgir como um indivíduo resignado em relação ao destino. Thomas ainda procura ajudar o protagonista, com Anders Danielsen Lie e Hans Olav Brenner a terem a capacidade de nos convencerem dos laços que unem os personagens a quem dão vida. Anders e Thomas ainda têm uma conversa longa e sincera, com o segundo a demonstrar que nutre uma amizade genuína pelo primeiro, embora não saiba o melhor meio para ajudá-lo. A bem ou a mal, Thomas soube aceitar as mudanças que aconteceram na sua vida, enquanto Anders parece incapaz de aceitar que tudo e todos mudam com o passar do tempo, seja o espaço da cidade ou os seres humanos. Diga-se que esta clausura auto-imposta por Anders fica paradigmaticamente representada quando este se prepara para despedir de Thomas, com Joachim Trier a praticamente "emoldurar" os dois personagens no espaço de uma espécie de túnel que remete para os grilhões que parecem impedir o protagonista de se soltar, algo revelador do cuidado colocado na composição de alguns planos. A entrevista de trabalho começa relativamente bem, até o passado de Anders relacionado com as drogas surgir ao de cima, algo que parece perturbar o protagonista. Anders sai imediatamente da entrevista. Não sabemos se o entrevistador iria aceitar ou não o passado de Anders. Aquilo que parece relativamente certo é a incapacidade de Anders em escapar ou tentar ultrapassar o passado. A próxima pessoa que procura reencontrar é a irmã, um desejo que não consegue cumprir. Anders acaba por se deparar apenas com a companheira da irmã, que exibe o receio da familiar em reunir-se consigo. O passado conturbado de Anders parece estar bem vivo na mente daqueles que o rodearam, bem como na alma do próprio, algo que explica a procura constante deste indivíduo em contactar com Iselin, uma ex-namorada que parece ter marcado a sua vida. Liga por diversas vezes para Iselin mas esta não atende, até decidir ir a uma festa onde não resiste aos vícios antigos.

 Mais do que ceder aos vícios, Anders indica desistir da vida, com os seus objectivos a parecerem ter sido destruídos quer pelo próprio, quer pelo destino, quer pela incapacidade daqueles que o rodeiam em compreendê-lo. Veja-se os convites que alguns personagens fazem para que Anders consuma álcool, mesmo sabendo que este se encontra em recuperação, ou os diálogos que remetem para episódios nem sempre recomendáveis do passado do protagonista. Anders tem consciência que errou imenso, com "Oslo, 31. august" a fazer uso da narração em off de forma pertinente e assertiva, com este recurso a permitir fornecer alguma informação sobre a forma como o protagonista encara o passado e a relação com os pais. O personagem interpretado por Anders Danielsen Lie é uma figura atormentada e deprimida, que parece ter desperdiçado os melhores momentos da sua vida ao ponto de parecer não conseguir sentir quase nada, algo que o próprio comenta com Thomas. Todos descrevem-no como alguém que outrora foi um conquistador, com Anders a ter noção disso, embora esses tempos pareçam memórias vagas que se encontram perdidas num presente de incertezas. Num determinado momento de "Oslo, 31.august", encontramos Anders no interior de um café, onde ouve as conversas alheias. Umas jovens gozam com um suicídio, algumas mulheres falam sobre os seus rebentos, duas figuras femininas falam sobre os seus desejos, enquanto Anders surge como um entre as muitas figuras anónimas deste café. Se estivéssemos na vida real, Anders seria uma das muitas pessoas que passam por nós no meio da rua, sem que soubéssemos aquilo que pensam ou sentem. A própria utilização do rack focus, num momento no interior do café, permite exacerbar esse quase anonimato do protagonista em relação aos restantes elementos que o rodeiam no espaço do estabelecimento, ao mesmo tempo que espelha as dificuldades que este apresenta no regresso a Oslo (existe uma estranha relação de atracção/rejeição por parte de Anders em relação a esta cidade), após um largo período de tempo na clínica. Diga-se que alguns planos são compostos com algum brio. Veja-se os planos em que Anders parece enclausurado pelos espaços dos cenários, ou o estilo quase documental com que a cidade é filmada. Anders Danielsen Lie tem uma interpretação marcada pela sobriedade, com o actor a conseguir transmitir a letargia que afecta o protagonista no presente mas também os sentimentos que este tem para exprimir e parecem poder soltar-se a qualquer momento.

 É sobre esta figura atormentada que incide boa parte do enredo de "Oslo, 31. august", com Anders e a cidade de Oslo a serem os grandes protagonistas deste filme. A cidade de Oslo como um espaço cosmopolita, recheado de gentes, mas incapaz de integrar todos os seus elementos, com a cinematografia a exacerbar a relevância deste espaço urbano em constante mudança que tanto propicia a solidão como as tentações. Veja-se a facilidade com que o protagonista consegue comprar droga, ou os momentos delirantes nos espaços nocturnos do último terço, com a cinematografia e a banda sonora a parecerem acompanhar os sentimentos do protagonista. Ainda encontra uma jovem que parece atraída pela sua pessoa, com quem se diverte durante a noite, embora este pareça ser o Canto do Cisne da vida do protagonista, um elemento com uma capacidade latente para atrair as pessoas, embora seja incapaz de enfrentar os seus demónios interiores. Este é um elemento inconformado com a vida, que parece decidido a terminar com a sua existência após um conjunto de erros que marcaram a sua pessoa e aqueles que o rodeiam. Acima de tudo, Anders parece ter perdido a fé em si próprio. Teve e talvez ainda tenha ambições mas desperdiçou parte da sua vida a consumir drogas, uma situação que o conduziu a não desfrutar de tudo aquilo que viveu ao mesmo tempo que desiludiu uma série de pessoas que sempre acreditaram em si. Como combater a depressão? Como confrontar os erros do passado? Como arranjar forças quando já não se parece conseguir sentir nada? Será possível evitar cometer os erros de outrora? Estas são perguntas que parecem ocorrer na mente de Anders, com "Oslo, 31. august" a surgir como uma obra cinematográfica relevante e pertinente, capaz de nos fazer reflectir sobre as temáticas e sobre nós próprios. Existe uma certa melancolia a envolver a história de Anders, com este a ter a noção de que se arrisca a ser uma figura irrelevante. Diga-se que aqueles com quem contacta não parecem totalmente felizes, algo notório nos diálogos que o protagonista mantém com Thomas ou Mirjam (Kjærsti Odden Skjeldal). Esta é uma das suas várias ex-namoradas, uma mulher que vive de forma aparentemente feliz, embora apresente uma frustração notória por ainda não ter um filho. É na festa de Mirjam e do esposo desta que o protagonista começa a ceder e exibe a sua personalidade destrutiva, com o tratamento que efectuou na clínica a parecer completamente ineficaz diante das tentações do espaço citadino. Drama profundamente humano, capaz de problematizar as temáticas que aborda e brindar o espectador com um conjunto de diálogos acima da média, "Oslo, 31. august" surge como uma obra cinematográfica envolvente e competente, pontuada por uma interpretação notável de Anders Danielsen Lie e uma capacidade notória para nos arrasar do ponto de vista emocional.

Título original: "Oslo, 31. august".
Título em Portugal: "Oslo, 31 de Agosto".
Realizador: Joachim Trier.
Argumento: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Anders Danielsen Lie, Hans Olav Brenner, Ingrid Olava.

26 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Marie Antoinette" (2006)

 Sofia Coppola deixa-nos perante uma visão muito própria da história de Marie Antoinette, com a cineasta a procurar jogar com as convenções dos filmes de pendor biográfico e subverter as mesmas ao longo desta obra cinematográfica que partilha o título com a sua protagonista. É um filme recheado de cor, luxo, ilusão, sentimentos fortes e frustrações, um guarda-roupa sublime e uma banda sonora deliciosamente anacrónica, com Sofia Coppola a procurar explorar as contradições desta figura feminina trágica e complexa. Marie Antoinette (Kirsten Dunst) surge representada como uma figura que inicialmente não se encontra habituada aos protocolos da corte francesa, parecendo um "peixe fora de água" em Versailles. Quando chega, oriunda da Áustria, Marie Antoinette é obrigada a despojar-se dos seus bens, incluindo do seu cão, tendo de se habituar a todo um conjunto de protocolos para os quais não parecia devidamente preparada. A forma como assina o papel do casamento, com o seu nome a ser escrito de forma mais descoordenada e acompanhado por um borrão, deixa bem saliente o não alinhamento desta mulher que inicialmente é alvo de todos os olhares da corte. Este é um espaço pontuado por futilidades e intrigas, luxos e vacuidade a nível do pensamento, com Marie Antoinette a formar amizades e inimizades, enquanto é alvo de rumores devido ao casamento com o futuro Louis XVI da França (Jason Schwartzman) tardar em ser consumado. Se Kirsten Dunst transmite a facilidade com que Marie Antoinette exprime as suas emoções e aos poucos parece sucumbir ao prazer dos luxos, já Jason Schwartzman consegue explorar o lado menos efusivo do personagem que interpreta, um indivíduo que gosta de caçar, tem nas fechaduras o seu hobbie, embora tarde em ter relações sexuais com a esposa. O facto do casamento tardar em ser consumado preocupa quer o Rei de França (Rip Torn), quer Maria Theresa da Áustria (Marianne Faithfull), a Imperatriz consorte do Sacro Império Romano-Germânico. A união entre o futuro Louis XVI e Marie Antoinette é vista como um meio de cimentar a aliança entre a Áustria e a França, com o poder da protagonista em Versailles a depender e muito da possibilidade de poder dar à luz um herdeiro. O casamento entre Marie Antoinette e Louis-Auguste é marcada por uma frieza inicial, algo latente nas cenas onde se encontram juntos na cama, com este a demonstrar pouco entusiasmo em manter relações com a esposa, uma situação que praticamente se torna numa anedota em Versailles. Maria Theresa desespera e envia missivas para a filha, tendo em vista a instigá-la a conseguir compelir o esposo a consumar o casamento, algo que também é desejado por Louis XV. Diga-se que o Rei surge com comportamentos distintos do neto, com o caso entre Louis XV e Madame du Barry (Asia Argento), a sua amante, a ser deveras conhecido. Asia Argento sobressai nos poucos momentos em que a personagem que interpreta surge no ecrã, com a actriz a interpretar uma mulher conhecida pelas suas extravagâncias, comportamentos pouco polidos e outrora ter sido uma prostituta, com Madame du Barry a ser alvo dos mais variados comentários no interior do Palácio de Versailles.

O Palácio de Versailles é representado como um espaço de luxo, poder, intrigas e excessos. A certa altura, Marie Antoinette salienta que o protocolo relacionado com as figuras que têm o privilégio de a vestir é ridículo, algo que a Condessa de Noailles (Judy Davis), a primeira-dama de honor da futura Rainha salienta "Isto, Madame, é Versailles". A Condessa surge como uma figura relativamente austera que procura ensinar e aconselhar Marie Antoinette, com a frase desta mulher sobre Versailles a deixar paradigmaticamente representado que este é um espaço onde os excessos quer a nível dos protocolos, quer a nível da exposição dos sentimentos, quer a nível dos luxos são considerados normais. Outro dos conselheiros de Marie Antoinette é Florimond Claude (Steve Coogan), o Conde de Mercy-Argenteau, um indivíduo que assume ainda as funções de embaixador, com Steve Coogan a interpretar uma figura que apresenta alguma confiança com a futura Rainha, surgindo como um dos vários elementos que procuram ensinar a protagonista a integrar-se no seu novo estilo de vida. Marie Antoinette surge como uma figura que tanto tem de extravagante como de solitária, com os boatos sobre a sua pessoa a serem mais do que muitos, embora a espaços esta contribua para os mesmos. Veja-se as festas em que esta participa, ou as suas roupas luxuosas, ou o caso extraconjugal que inicia com Axel Fersen (Jamie Dornan), um militar sueco. Jamie Dornan interpreta com eficácia um indivíduo galanteador, que desperta a atenção da protagonista num baile de máscaras, com Marie Antoinette a surgir como uma figura que procura preencher o sentimento de vazio que a espaços assola a sua vida através destes eventos. A morte de Louis XV e a coroação de Louis-Auguste como Louis XVI conduz a um aumentar dos excessos, com Sofia Coppola a colocar-nos diante de uma narrativa que é um deleite para os sentidos onde tudo parece pensado ao pormenor. Desde os vestidos e os sapatos da protagonista, passando pelas suas festas e gastronomia requintada, até às propriedades da família real, Sofia Coppola não poupa nos luxos que rodeiam Marie Antoniette, uma figura feminina complexa que procura afugentar a solidão através das mais variadas formas, embora nem sempre seja bem sucedida. Diga-se que a solidão, a complexidade das figuras femininas, o aproveitamento notável dos cenários surgem como temáticas e elementos transversais entre "Marie Antoinette", "The Virgin Suicides" e "Lost in Translation", as duas longas-metragens realizadas anteriormente por Sofia Coppola. Mesmo "Somewhere" aborda a alienação do ser humano e os excessos das figuras financeiramente mais abonadas, enquanto "The Bling Ring" explora questões ligadas com a cultura de massas ao mesmo tempo que exacerba a capacidade da realizadora em criar universos narrativos onde o estilo ultrapassa muitas das vezes a substância. No caso de "Marie Antoinette", Sofia Coppola deixa-nos diante de extremos, parecendo a espaços deixar-se levar por todos estes luxos ao mesmo tempo que aborda questões complexas, mesclando alguns factos históricos com imensa ficção, enquanto permite a Kirsten Dunst ter um dos grandes desempenhos da sua carreira. Esta consegue convencer quer em relação ao tom inicialmente naïve de Marie Antoinette, quer na solidão sentida pela protagonista, quer na capacidade de sedução e enorme carisma desta figura feminina. A espaços encontra conforto junto da Duquesa de Polignac (Rose Byrne), ou dos seus filhos, com "Marie Antoinette" a abordar o período compreendido entre a saída da personagem do título da Áustria até à Tomada da Bastilha e a fuga da família real para o Palácio das Tuileries.

 Com o avançar do filme assistimos aos ecos do descontentamento do povo, bem como do apoio dado pela França aos EUA contra os ingleses, com a miríade de personagens que nos é apresentada a parecer ignorar esta situação, embora "Marie Antoinette" não procure, nem tente explorar as questões de foro político e social. O ambiente que rodeia o Palácio de Versailles e a vida na Corte parece uma realidade completamente à parte, com os luxos dos elementos que rodeiam a realeza a contrastarem com as notícias de falta de pão para o povo. Marie Antoinette surge no meio deste turbilhão, com Sofia Coppola a contribuir para um momento memorável, em particular quando a personagem interpretada por Kirsten Dunst curva-se diante do povo, que se encontra em protesto, exibindo simultaneamente todas as suas forças e fragilidades. A própria cinematografia adensa muitas das vezes a grandeza do espaço do Palácio de Versailles em relação à figura de Marie Antoniette, com o cuidado a nível do design dos cenários interiores e do guarda-roupa a ser notório. Diga-se que Sofia Coppola teve acesso ao Palácio de Versailles para as filmagens de "Marie Antoniette", com a cineasta a procurar efectuar um retrato relativamente simpático desta fascinante figura feminina. É um retrato onde Sofia Coppola mescla factos e ficção, respeita elementos da época e insere ingredientes completamente anacrónicos, criando algo de extremamente apelativo, mesmo nos momentos onde parece ceder aos excessos, embora a artificialidade nunca se sobreponha totalmente ao desenvolvimento dos personagens e ao enredo. Acima de tudo fica a ideia de que Sofia Coppola criou algo cheio de vida, que a apaixonou e encantou, algo que consegue transmitir para o espectador, com "Marie Antoinette" a surgir como uma obra cinematográfica pontuada por momentos de algum fulgor que facilmente compensam os trechos onde a cineasta se deixa levar pelos luxos da sua protagonista. Já Jason Schwartzman consegue explorar a personalidade dicotómica de Louis XVI em relação a Marie Antoinette, com o actor a dar vida a um indivíduo representado como alguém sem pulso quer no casamento, quer como Rei de França. Diga-se que o elenco é relativamente bem aproveitado, com Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Steve Coogan, Asia Argento e Rip Thorne a terem espaço para se destacarem ao longo da narrativa, com Sofia Coppola a não deixar que os seus intérpretes se apaguem diante de todo o aparato colocado em volta dos mesmos. Com um trabalho notável a nível dos cenários, guarda-roupa e caracterização, uma utilização engenhosa e criativa da banda sonora, "Marie Antoinette" surge como um retrato pessoal que Sofia Coppola efectua sobre esta figura histórica, com a cineasta a criar algo que muito tem de seu, numa obra cinematográfica inebriante e interessante, que beneficia ainda de uma interpretação bastante recomendável de Kirsten Dunst.

Título original: "Marie Antoinette".
Realizadora: Sofia Coppola.
Argumento: Sofia Coppola.
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Judy Davis, Rip Torn, Rose Byrne.

25 janeiro 2016

Resenha Crítica: "45 Years" (2015)

 Quando encontramos Kate Mercer (Charlotte Rampling) a largar a mão de Geoff (Tom Courtenay), o seu esposo, após um momento de dança que gradualmente se transforma em algo simplesmente doloroso e arrasador, percebemos definitivamente o quanto esta relação foi afectada devido a uma notícia recebida no início do filme. É com Kate e Geoff que passamos boa parte da duração de "45 Years", a terceira longa-metragem realizada por Andrew Haigh, uma obra cinematográfica marcada pela subtileza e contenção na exposição dos sentimentos. Um momento de silêncio pode esconder uma dor arrasadora. Uma carta pode trazer consigo uma série de memórias que pareciam perdidas no passado. Um diário pode abalar os alicerces de um casamento aparentemente feliz. Uma troca de palavras pode conter um significado bem mais complexo do que o sentido aparente desses diálogos. Tudo parece simples mas ao mesmo tempo tão asfixiante e doloroso, com Andrew Haigh a colocar-nos diante de um casal que se prepara para comemorar os quarenta e cinco anos de casamento numa fase em que tudo aquilo que viveram parece ser colocado em causa ou questionado. O episódio fulcral acontece logo no início de "45 Years", com Geoff a receber uma carta enviada pelas autoridades suíças. O conteúdo da carta encontra-se relacionado com a descoberta do corpo de Katya, a falecida namorada de Geoff. Esta caíra numa fenda nos Alpes, há cinquenta anos, num acidente que ocorrera quando o casal se encontrava a caminhar pelas montanhas. Entretanto, parte da neve derretera, algo que permitiu encontrar o cadáver de Katya, embora o corpo ainda esteja preso no interior do gelo. Geoff fica perplexo com a notícia. É notório que as recordações que guarda desta mulher ainda se encontram bem vivas na sua memória, embora estivessem reprimidas no seu âmago. Tom Courtenay exibe nos seus gestos e no seu olhar que o personagem a quem dá vida ficou completamente abalado com a carta, parecendo que esta trouxe consigo um turbilhão de memórias. A preparação da festa dos quarenta e cinco anos de casamento entre Kate e Geoff é abalada por esta carta, com a missiva a trazer consigo uma miríade de questões e revelações. Kate exibe inicialmente alguma abertura para falar sobre o assunto, embora pareça assustar-se com a ideia de não conhecer alguns episódios relevantes sobre a pessoa com quem partilhou quarenta e cinco anos da sua vida.

 A certa altura de "45 Years", Kate decide abrir uma mala antiga de Geoff, encontrando diversos objectos pessoais do esposo, entre os quais, um diário e um conjunto de fotografias. A iluminação, o trabalho de câmara e o olhar de Charlotte Rampling contribuem para o impacto provocado por este momento, parecendo que conseguimos partilhar o sentimento de surpresa da protagonista em relação à descoberta de uma série de segredos que se encontram relacionados com o passado de Geoff e o envolvimento deste com Katya. É simplesmente arrasador, com Kate a perceber que Geoff continua a guardar segredos sobre o passado, algo que parece mexer com tudo aquilo que pensa sobre o mesmo. Não grita. Não levanta a voz. Não efectua longas questões ou reprimendas. No entanto, o rosto de Charlotte Rampling não engana. A desilusão de Kate é grande, bem como as suas dúvidas, com um diálogo sincero entre esta última e o esposo, no último terço da narrativa, a expor paradigmaticamente que nada será como antes, por muito que tentem esquecer a situação, ou os segredos que são revelados não viessem colocar em causa diversas opções que ambos tomaram ao longo do casamento. Geoff nem sempre consegue justificar tudo aquilo que sente ou sentiu, bem como os episódios que omitiu. É verdade que namorara com Katya antes de conhecer Kate, embora esta última pareça sentir-se traída, enquanto "a presença" da primeira é imensamente sentida. Kate percebe que Geoff encara a relação de modo diferente, enquanto este se depara com uma série de memórias que o perturbam, uma situação que não consegue esconder. Charlotte Rampling e Tom Courtenay brilham e convencem como este casal que se encontra unido há praticamente quarenta e cinco anos, que apresenta uma intimidade latente ao ponto de cada elemento parecer saber interpretar um simples gesto ou uma fala do outro cônjuge. Um segredo mexe com os alicerces da relação deste casal que habita numa casa de campo, localizada em Norfolk, pontuada por imenso espaço, estantes recheadas de livros e um simpático cão. Boa parte da narrativa tem como pano de fundo esta habitação, com Andrew Haigh a procurar explorar a intimidade de um casal de reformados que se prepara para lidar com aquela que provavelmente será a maior crise da sua relação. "45 Years" procura acima de tudo levantar questões, sejam estas sobre um casamento, o estado de alma dos protagonistas, a possibilidade de nunca conhecermos totalmente aqueles que nos são mais próximos, entre outras, com Andrew Haigh a não entrar por caminhos fáceis. Aos poucos enclausura-nos ao ponto de parecermos sentir as inquietações deste casal, enquanto nos torna cúmplices das suas descobertas, dúvidas e sentimentos. Existe algo quase voyeurista no acto de observar a relação entre Geoff e Kate, com Andrew Haigh a fazer questão de reforçar que somos os únicos a testemunhar esta crise, enquanto o casal procura esconder a mesma daqueles que se encontram de fora.

O argumento, baseado no conto "In Another Country", é de uma subtileza arrasadora que ganha outra dimensão se tivermos em conta que os diálogos contribuem para o impacto dos diversos silêncios que pontuam a narrativa. Veja-se quando Kate questiona o esposo sobre os planos que este e Katya tinham efectuado em relação ao futuro, ou o modo bem vivo como o protagonista fala da antiga namorada. É óbvio que Katya ainda mexe com Geoff, apesar deste amar Kate. Por sua vez, a personagem interpretada por Charlotte Rampling começa a questionar aquilo que viveu com o esposo ou, pelo menos, a intensidade emocional daquilo que partilharam, parecendo a espaços que se sente como uma segunda escolha. Andrew Haigh foi ao sótão deste casal e trouxe ao de cima uma série de segredos e memórias que prometem abalar uma relação que parecia estável. Ambos contam com alguns amigos, embora Geoff não seja das pessoas mais faladoras, enquanto Kate parece reservar para si os sentimentos que se encontra a viver. Geoff é um indivíduo de esquerda, que aparentemente não gosta de tirar fotografias e parece algo preso ao passado, embora continue a procurar manter o casamento bem vivo, incluindo a nível sexual, apesar da "máquina" já não funcionar como outrora. Kate é uma antiga professora, de personalidade ponderada, que gosta de passear o cão e ir à cidade. Esta é amiga de Lena (Geraldine James), uma figura feminina afável, que é casada com um antigo colega de trabalho de Geoff. Lena é uma das poucas amigas que parece apresentar alguma proximidade latente com a protagonista, embora boa parte de "45 Years" esteja centrado quase exclusivamente em Geoff e Kate quer quando estão juntos, ou a efectuar actividades separadamente. Veja-se logo no início do filme quando ficamos diante de um plano aberto, onde somos expostos ao território verdejante que rodeia a habitação do casal, com Kate a encontrar-se a passear o cão, com o nevoeiro a permear o cenário, surgindo quase como uma metáfora para o estado nebuloso da relação entre a protagonista e o esposo. O trabalho de câmara é sublime, com "45 Years" a tanto parecer distanciar-nos dos seus protagonistas, como logo de seguida nos apresenta planos bem fechados, com um momento de maior intimidade a poder ganhar outra dimensão graças à proximidade entre o espectador e o casal. Essa proximidade entre o espectador e o casal contribui e muito para o impacto causado por alguns episódios protagonizados por Kate e Geoff. Os comportamentos de Geoff mudam ao longo da narrativa. Volta a fumar, procura ler livros que deixara de lado, visita a cidade às escondidas, parecendo fisicamente desgastado, embora continue a preservar as suas faculdades mentais. O papel da memória também é uma das temáticas em análise ao longo do filme. Geoff questiona se guarda as recordações do passado ou um ideal que criara na sua memória. Kate começa a duvidar de algumas opções e episódios vividos com o esposo. Não duvida que este estes episódios aconteceram. Aquilo que esta questiona é o verdadeiro significado destes episódios e o valor que Geoff atribui aos mesmos. Será que não gosta mesmo de tirar fotografias? Quais as razões para não terem filhos? Qual é o verdadeiro motivo para Geoff não apreciar Jack Kerouac? São várias as questões que atormentam o casal e o espectador a partir do momento em que chega a carta, enquanto Andrew Haigh exibe uma subtileza latente quer a explorar as temáticas, quer a levantar interrogações, quer a gerir os ritmos da narrativa e a conduzir a sua dupla de protagonistas.

O trabalho de Haigh parece simples. Com o avançar da narrativa e o término de "45 Years" percebemos o quão inspirado foi o trabalho do realizador e argumentista, com Andrew Haigh a conseguir criar um drama emocionalmente potente e devastador. Haigh divide a narrativa em pequenos capítulos que coincidem com cada dia da semana, entre a chegada da carta (Segunda-Feira) e a celebração dos quarenta e cinco anos de casamento (Sábado), enquanto ficamos com pequenos pedaços do quotidiano do casal. É Kate quem se encontra a planear o evento da comemoração dos quarenta e cinco anos de casamento, algo que, aos poucos, parece perder algum significado junto desta mulher. Como conviver com as dúvidas em relação àqueles que amamos? Será possível que uma mentira consiga colocar em causa uma relação de quarenta e cinco anos? É possível ter ciúmes de alguém que já morreu? Como encarar a comemoração como se nada tivesse acontecido? Ironicamente, a cerimónia vai decorrer no mesmo espaço do Baile de Trafalgar, um evento organizado para comemorar a vitória da Marinha Real, na Batalha de Trafalgar, a 21 de Outubro de 1805, algo realçado pelo responsável do local que contacta com Kate. Esta comenta que Horatio Nelson foi morto, embora o seu interlocutor logo saliente: "Mas a batalha foi vencida. E isso precisava ser comemorado, não é?". Existe um paralelo algo irónico entre este episódio e o casamento de Kate e Geoff, com a união a ter sofrido um rude golpe, embora o feito de quarenta e cinco anos de casamento precise ser comemorado, com o argumento a exibir mais uma vez a sua inteligência, bem como alguma mordacidade. A personagem interpretada por Charlotte Rampling selecciona a canção "Smoke Gets in Your Eyes", dos "The Platters", para abrir o baile da comemoração, uma escolha efectuada devido a ter sido a música do casamento do casal, ou seja, aparentemente perfeita para o evento. No entanto, Kate não parece estar inicialmente consciente de que a letra dessa canção pode ganhar outro significado e interpretação consoante o estado de espírito de cada um, algo que promete ter um efeito devastador. Andrew Haigh arrasa-nos emocionalmente, enquanto nos transporta para o interior de um retrato complexo e sublime sobre um casamento que é claramente afectado por um segredo. Os episódios do passado são reavaliados, bem como a relação, enquanto Charlotte Rampling e Tom Courtenay contam com interpretações de relevo que permitem incrementar os momentos entre os personagens que interpretam.

Título original: "45 Years".
Título em Portugal: "45 Anos".
Realizador: Andrew Haigh.
Argumento: Andrew Haigh.
Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James.

22 janeiro 2016

Resenha Crítica: "The Age of Innocence" (1993)

 Martin Scorsese troca a ferocidade e violência visceral de obras como "Taxi Driver", "Goodfellas" e "Casino" por uma enorme delicadeza e subtileza em "The Age of Innocence", um drama de época sublime. Não temos gangsters a procurarem ascender ou manter o seu estatuto no mundo da máfia, nem um aspirante a comediante capaz de tudo para ser famoso, ou um antigo combatente do Vietname que tem um sentimento de justiça muito próprio. A violência que encontramos não é física, mas sim no plano dos sentimentos, com "The Age of Innocence" a colocar-nos diante de um homem que se apaixona pela prima da noiva, embora nunca se consiga soltar totalmente das amarras dos códigos de boa conduta da sociedade do seu tempo e posteriormente dos seus deveres como esposo. Ficamos perante a alta sociedade de Nova Iorque, durante o final do século XIX, inicialmente em 1870, onde os elementos das famílias de alto escalão aparentam conhecer-se a todos, vivendo imenso de aparências, parecendo guiados muitas das vezes por um código de conduta que não corresponde na prática aos seus comportamentos quotidianos. Baseado no livro homónimo de Edith Wharton, "The Age of Innocence" surge na carreira de Martin Scorsese quase como um corpo estranho, a fazer recordar "Tess" no currículo de Roman Polanski, com o cineasta a realizar um melodrama de época marcado por elevados valores de produção, cenários requintados e sentimentos que nem sempre conseguem ser controlados. Diga-se que "The Age of Innocence" conta com diversos elementos transversais a algumas obras cinematográficas realizadas por Martin Scorsese, incluindo o protagonista com sentimento de culpa; a narração em off a detalhar-nos vários pormenores do enredo e dos personagens (por vezes com alguma ironia à mistura), permitindo agilizar a narrativa e estabelecer este universo narrativo diante de nós; o interesse na história de Nova Iorque (algo que repetirá em obras como "Gangs of New York"); o trabalho de montagem de Thelma Shoonmaker, capaz de incutir uma enorme fluidez no filme; alguns planos que facilmente ficam na memória, entre outros exemplos. Os momentos iniciais de "The Age of Innocence" deixam-nos perante um espectáculo de ópera, no qual encontramos presentes vários elementos da alta sociedade, incluindo Newland Archer (Daniel Day-Lewis), um indivíduo de fino trato, culto, bem vestido, que se prepara para casar com May Welland (Winona Ryder), uma mulher aparentemente inocente em relação ao mundo que a rodeia, parecendo pouco preparada para lidar com o cinismo existente no mesmo. A grande notícia na ópera é o regresso da Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), a prima de May, uma mulher que se casara com um conde polaco mas pretende divorciar-se do mesmo, algo que é considerado um escândalo na época. Se May parece ser o símbolo da candura e inocência, já Mary é o paradigma de uma mulher misteriosa, sensual e sardónica, que carrega consigo um passado nem sempre claro que aguça o apetite por mexericos dos elementos da alta sociedade. Também aguça a curiosidade de Archer que logo procura casar o mais depressa possível com May, numa decisão que parece mesclar o seu desejo por esta mas também o medo que tem de ceder aos sentimentos que nutre por Ellen. Esta é mal vista pela alta sociedade, com a sua possível presença no baile anual dos Beaufort a ser uma das questões colocadas por vários elementos durante o espectáculo de ópera. 
Ellen decide não aparecer no baile, supostamente devido a não ter o vestido adequado, embora esta decisão pareça estar relacionada com uma procura desta mulher em não atrair ainda mais atenções sobre a sua pessoa. Diga-se que esta não é a única a ter os seus "esqueletos escondidos no armário", algo que a narradora faz questão de nos salientar ao apresentar a casa dos Beaufort: "A casa dos Beaufort era uma das poucas, em Nova Iorque, com salão de baile. Uma sala assim, fechada durante 364 dias do ano, parecia compensar algo de lamentável no passado dos Beaufort. Regina Beaufort provinha de uma antiga família da Carolina do Sul. Mas o seu marido, Julius, que passava por inglês, era conhecido por ter hábitos duvidosos, uma língua venenosa, e misteriosos antecedentes. O seu casamento assegurou-lhe uma posição na sociedade, mas não necessariamente o respeito". Julius (Stuart Wilson) é conhecido pela sua habilidade nos negócios mas também pelos casos extraconjugais, com este a deixar implícito que se encontra interessado em Ellen. A casa dos Beaufort surge como um espaço recheado de luxos, pontuado por diversos quadros e outras obras de arte, transmitindo todo o aprumo colocado no design dos cenários interiores, com "The Age of Innocence" a contar com uma representação cuidada do ambiente desta época, com os bailes, as festas e jantares sociais a terem um papel de relevo na alta sociedade de Nova Iorque, sempre dependente da manutenção das aparências. O próprio cuidado colocado em elementos como o guarda-roupa, os penteados e comportamentos dos personagens, tendo em vista a respeitarem o período representado, surge como um dos destaques de "The Age of Innocence", sobretudo no que diz respeito a Ellen, uma mulher elegante, que procura desafiar as regras da sociedade do seu tempo algo que a leva a ser inicialmente mal vista. Esta veio da Europa, procura divorciar-se e parece chocar com os valores algo retrógrados defendidos pelos elementos que a rodeiam. Archer não é propriamente um admirador de toda a puerilidade desta sociedade que é capaz de destroçar outros seres humanos pelas costas, apesar de também procurar não fugir totalmente às regras dos bons princípios que regem os seus pares. Como é salientado pela narradora, este "Era um mundo de equilíbrio tão precário que um sussurro podia destruir a sua harmonia", algo que conduz o protagonista a tentar gerir com pinças o seu discurso em público e em privado, com Ellen a parecer a figura que mais se aproxima da personalidade de Archer. Daniel Day-Lewis tem uma interpretação sublime, marcada pela procura do personagem que interpreta em restringir os seus sentimentos em relação e Ellen e expor o seu amor por May. Ellen representa o desejo pelo fruto proibido, com Michelle Pfeiffer a interpretar uma mulher de personalidade forte, experiente e inteligente que, tal como o protagonista, apresenta um gosto latente pelas artes e um conjunto de ideias e ideais muito próprios. May representa alguém ainda não corrompido por uma sociedade cuja ostentação exterior procura esconder uma vacuidade de ideias. Não faltam personagens secundários de relevo a rodear o trio de protagonistas, incluindo a Sra. Manson Mingott (Miriam Margolyes), a primeira a receber a visita dois noivos. Esta é uma das mulheres mais influentes de Nova Iorque, algo salientado pela narradora: "Ela não era só a matriarca deste mundo. Era quase a sua digníssima imperadora. Grande parte de Nova Iorque era da família dela e conhecia a restante por casamento ou reputação". Mingott é tratada por avó quer por May, quer por Ellen, surgindo como uma mulher relativamente anafada, que pouco se consegue locomover apesar de viver de forma luxuosa numa mansão com dois andares. Esta fica imensamente satisfeita com o casamento de May e Archer, não só por simpatizar com ambos, mas também por esta união permitir reunir duas das famílias mais reputadas de Nova Iorque. Já a Condessa Oleska não reúne tantos consensos quer junto da mãe e irmã de Archer, quer da alta sociedade de Nova Iorque que rejeitou em peso a festa organizada pela Srª Manson Mingott para receber publicamente a sua familiar, com "The Age of Innocence" a contar com uma narrativa povoada de figuras secundárias que nem sempre despertam a nossa simpatia, com diversos elementos a parecerem ter na vida alheia um dos poucos temas de conversa.

Esta rejeição colectiva dos elementos da alta sociedade em relação à personagem interpretada por Michelle Pfeiffer conduz a que Mingott e Archer recorram aos van der Luyden, um casal poderosíssimo que, ao convidar Oleska para o jantar que marca a chegada do Duque de St. Austrey, exibe um sinal de que esta finalmente deverá ser aceite no meio que os rodeia. O jantar permite exibir, mais uma vez, a enorme cumplicidade entre Ellen e Archer, dois elementos que apresentam uma química latente aos olhos de todos, embora May não pareça inicialmente perceber isso. Archer parece amar May, mas existe algo de irresistível em Ellen que o atrai, com o protagonista a evitar manter um affair com esta, embora acabe a certa altura por não conseguir controlar os seus ímpetos. O marido pretende o regresso de Ellen, uma situação que não parece ser o desejo desta mulher, com Archer a ser o advogado contratado para tratar do caso, algo que o coloca ainda mais em contacto com a personagem interpretada por Michelle Pfeiffer. No entanto, ambos são obrigados a fazer escolhas. É verdade que o destino os reúne e afasta diversas vezes, mas Archer parece ter um sentido ético demasiado elevado para fugir de todo às suas responsabilidades perante May, incluindo casar com esta. Ficamos perante um triângulo amoroso em pleno Século XIX, numa sociedade de Nova Iorque marcada por valores conservadores e elementos que vivem de aparências. Os sentimentos entre Ellen e Archer são bem reais, por vezes até a parecerem superar aquilo que este nutre pela esposa, mas as regras sociais e o destino imiscuem-se em demasia no quotidiano de ambos. Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer apresentam uma química latente como este casal de amantes que tarda em consumar o amor que nutre um pelo outro, enquanto Winona Ryder aparece como uma figura inicialmente apagada mas não tão inocente como poderá sempre parecer. Se Michelle Pfeiffer interpreta uma mulher que deslumbra e consegue virar todas as atenções para a sua pessoa, já Winona Ryder dá vida a uma figura feminina aparentemente mais frágil, por vezes pouco confiante e sem grandes opiniões formadas. Posteriormente percebemos que consegue ganhar influência sobre Archer e impor as suas ideias, algo que fica desde logo latente quando evita que o protagonista convide um casal para jantar devido ao amigo do personagem interpretado por Daniel Day-Lewis não ser do agrado desta. Ellen e May têm em comum o amor por Archer, um advogado que parece despertar facilmente a simpatia da maioria dos seus interlocutores. Este é um dos vários personagens dos filmes de Martin Scorsese que conta com um certo sentimento de culpa, tendo de lidar com um código de conduta que parece colidir com os seus sentimentos, acabando por tomar a opção que considera mais correcta para a sua vida. Se terá sido mais feliz assim ou se tivesse tomado outra opção nunca saberemos, embora Martin Scorsese nos deixe muitas das vezes na dúvida em relação a esta situação. A certa altura do filme, Archer encontra Ellen na praia, junto de uma das casas da Srª Mingott, quando este e May visitam a personagem interpretada por Miriam Margolyes. Diz a si próprio que apenas a contactará se esta se virar. Deixa ao destino a escolha de se reunir com Ellen mais uma vez, ou ignorar que encontrara esta bela mulher. Ela não se vira. A imagem dela ao Sol, quase como se estivesse emoldurada na mais bela das pinturas não lhe sai da cabeça, nem da nossa.

O destino tem um papel decisivo nesta relação. Ora os pais de May decidem antecipar o casamento quando Archer parecia disposto a assumir o seu amor por Ellen, ora esta última viaja, ora a esposa fica grávida. O casamento entre May e Archer está longe de ser um conto de fadas, embora este se esforce por esconder aquilo que o atormenta. A certa altura do filme, May salienta que este deixou de lhe ler poesia. É uma pequena constatação mas não deixa de ser reveladora que deixou de haver algum do lirismo inicial que marcara a relação entre ambos, onde até existia tempo para a poesia. Algo mudou em Archer. May sabe ou finge não saber as razões para estas mudanças. São muitos os sentimentos reprimidos ao longo de "The Age of Innocence", uma obra cinematográfica onde Martin Scorsese nos transporta para outros tempos da alta sociedade de Nova Iorque embora estes não estejam assim tão distantes dos dias de hoje com as aparências e a ostentação a continuarem a ter um papel muito importante. Se a poesia por vezes deixa de fazer parte do quotidiano de May e Archer, já a cinematografia de Michael Balhhaus brinda-nos com alguns momentos de grande lirismo, enquanto Martin Scorsese realiza uma obra marcada por algum romantismo e dramatismo, na qual os sentimentos são expostos e por vezes reprimidos com enorme delicadeza. É provavelmente um dos trabalhos mais distintos de Martin Scorsese, comprovando a sua versatilidade como cineasta e o seu enorme talento para gerir os ritmos da narrativa, bem como a sua capacidade para utilizar a banda sonora ao serviço do enredo. A própria paleta cromática é utilizada de forma sublime em diversos momentos, seja na já citada cena na praia marcada por tonalidades quentes, nas rosas amarelas e vermelhas oferecidas a Ellen, no contraste entre o vestido vermelho da personagem interpretada por Michelle Pfeiffer e as vestes brancas de May no jantar em casa dos van der Luyden (sedução vs. pureza), entre vários outros exemplos. Veja-se ainda a forma elegante como a câmara se movimenta e nos transporta para o interior destas casas recheadas de quadros, obras de arte, velas, candelabros, cortinados luxuosos, com os ornamentos a preencherem excessivamente as paredes das habitações, enquanto diversos personagens procuram expor a sua "saúde financeira" através destes objectos e da organização de eventos. Essa ostentação pueril fica paradigmaticamente representada na forma inicial como o salão de baile dos Beaufort é apresentado: uma sala escura marcada por vagas frestas de luz que apenas ganha vida uma vez por ano. O cuidado na elaboração dos planos é visível ainda quando encontramos Archer a jantar com a mãe, a irmã e um amigo da família, com cada um dos personagens a encontrar-se enquadrado entre duas velas de dimensões elevadas, quase que a representar uma sociedade que procura estar sempre no lugar, embora Ellen rompa muitas das vezes com as convenções. No final, "The Age of Innocence" surge como um melodrama de época que nos surpreende não só pelas interpretações e pelos elevados valores de produção, mas também pela forma sincera como Martin Scorsese nos compele a seguir com atenção a história destes personagens, embrenhando-nos para o interior de um triângulo amoroso onde os impulsos nem sempre resistem à racionalidade embora sejam muitas das vezes reprimidos pela mesma.

Título original: "The Age of Innocence".
Título em Portugal: "A Idade da Inocência".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Jay Cocks e Martin Scorsese.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Geraldine Chaplin.

20 janeiro 2016

Resenha Crítica: "The King of Comedy" (1982)

 A procura por uns minutos de fama e o desejo de exibir o seu suposto talento conduzem Rupert Pupkin (Robert De Niro), um aspirante a comediante, a fazer de tudo para se encontrar com Jerry Langford (Jerry Lewis), um conhecido humorista e apresentador televisivo. Rupert, o protagonista de "The King of Comedy", é um falhado a nível profissional e pessoal, que habita com a mãe e delira com hipotéticos diálogos com Jerry. Com um bigode e penteado peculiares, fatiotas que contribuem muitas das vezes para a pouca seriedade com que é encarado por aqueles que o rodeiam, Rupert procura ainda conquistar Rita (Diahnne Abbott), a empregada de um bar e antiga colega de escola, ao fingir ser amigo de várias celebridades, embora esse desejo pareça quase tão complicado como conseguir uma oportunidade para mostrar o seu "talento" a Jerry. O prólogo de "The King of Comedy" é acalorado, com os fãs a não darem descanso a Jerry, incluindo Masha (Sandra Bernhardt), uma stalker do comediante e apresentador, que logo se enfia no interior do carro do mesmo. Rupert procura ajudar Jerry, tendo em vista a entrar no veículo do comediante e praticamente implorar por uma oportunidade para exibir o seu talento. Jerry diz para este marcar uma reunião com Cathy (Shelley Hack), a sua secretária, algo que o personagem interpretado por Robert De Niro leva demasiado a sério, sobretudo se tivermos em conta que esta foi uma medida para o primeiro se livrar do protagonista. São várias as cenas dos delírios do protagonista que Martin Scorsese nos apresenta, por vezes interrompidas pelos berros da mãe de Rupert no fora de campo a pedir para o filho fazer menos barulho. Estes momentos variam entre o hilariante e o constrangedor, ao mesmo tempo que Martin Scorsese ironiza com o culto às celebridades e a procura da obtenção da fama a todo o custo. Perante várias tentativas fracassadas de se reunir com Jerry e a rejeição da produtora do programa, Rupert acaba por tomar medidas drásticas. Inicialmente visita a casa de Rupert para impressionar Rita, algo que não cai bem junto do personagem interpretado por Jerry Lewis e deixa a jovem envergonhada, até decidir raptar o apresentador com a conivência de Masha. O pedido para deixarem Jerry sair é simples: Rupert apresentar os dez minutos iniciais do programa de Jerry, onde contam com um momento de stand-up comedy. De forma rocambolesca, Rupert consegue o seu momento de fama, proclamando-se como o "Rei da Comédia", enquanto aguarda pela detenção. É um personagem trágico e patético, iludido pela fama e pelos seus próprios delírios, embora até se safe no seu primeiro número ao vivo, procurando exibir o seu suposto talento diante do grande público, mesmo que para isso tenha de saltar etapas e cometer um crime. Robert De Niro tem aqui um personagem bem mais leve do que aqueles que interpretar(i)a em filmes realizados por Martin Scorsese como "Mean Streets", "Taxi Driver", "Raging Bull", "Goodfellas", "Casino" e "Cape Fear", embora Rupert esteja longe de ser uma figura pouco complexa, com este aspirante a comediante a surgir como um indivíduo solitário que está disposto a tudo para alcançar a fama. Este procura ter uns minutos de sucesso, surgindo como o produto de uma sociedade capaz de "criar" celebridades com a mesma facilidade que as deixa cair no ocaso. Rupert quer uma oportunidade, apesar de ser largamente desprezado, incluindo por parte de Jerry, embora não pareça disposto a esforçar-se para comprovar e aprimorar o seu talento. Em certa medida, Rupert até nos remete para o desejo de ascensão do personagem interpretado por Harvey Keitel em "Mean Streets" ou a procura de Henry Hill (Ray Liotta) em integrar o mundo da máfia em "Goodfellas", embora raramente acreditemos que o primeiro consiga vir a ter sucesso.

Os momentos finais deixam o espectador na dúvida se os acontecimentos apresentados serão realidade ou ilusão, tal a forma como os delírios do protagonista por vezes entram sem aviso na narrativa, com estes a assumirem uma grande influência na vida de Rupert, sobretudo devido ao facto do personagem interpretado por Robert De Niro não parecer conseguir manter a barreira entre as suas divagações e a realidade. A cena em que visita a casa de Jerry de forma a dar a ideia de que é amigo do apresentador exemplifica paradigmaticamente a forma como Rupert transporta as suas ilusões para a realidade, parecendo que acredita na possibilidade de ter criado uma relação de amizade com o personagem interpretado por Jerry Lewis. É também um momento revelador da perturbação deste personagem e do quão perigoso e hostil pode ser ao invadir a casa de um elemento que praticamente lhe é um estranho. Jerry Lewis tem uma interpretação de enorme destaque, num papel que parece inspirado em episódios da sua vida (a cena em que uma fã deseja que este tenha cancro, depois de Jerry dizer que estava com pressa, foi baseada num episódio real, com Martin Scorsese a deixar o actor a coordenar o timing do trecho para incutir maior veracidade ao mesmo). Lewis é conhecido por protagonizar filmes de humor, embora interprete uma figura de características mais sérias e comedidas em "The King of Comedy", incutindo o carisma necessária a esta lenda da comédia, um indivíduo que praticamente não consegue ter descanso, sendo constantemente assediado pelo público. Existe um momento em que Jerry salienta "Sou apenas um ser humano, com todos os defeitos e fraquezas. O programa, a pressão, as groupies, os caçadores de autógrafos, a equipa. Os incompetentes que pensas serem teus amigos, sem saberes se sobreviverás por causa deles. Pressões maravilhosas que fazem os teus dias radiantes". Este desabafo acaba por descrever um pouco o quotidiano deste personagem e o lado mais desencantado dos talk shows e do humor, num filme que procura apresentar-nos às dificuldades em ascender neste meio, bem como a faceta mais trabalhosa do mesmo. Jerry trabalhou imenso para merecer a sua oportunidade, tendo conquistado o direito a apresentar o seu próprio programa e a granjear uma base de fãs, mas o seu quotidiano está longe de ser marcado apenas pela felicidade, bem pelo contrário, ou este não surgisse como uma figura solitária que praticamente não pode confiar em ninguém (quase todos os personagens acabam por ter as suas frustrações ao longo do filme). Veja-se quando tem de lidar com Rupert, mas também com Masha, a mulher que fica a tomar conta do apresentador durante o sequestro, dois elementos que ficam obcecados por aquilo que a estrela representa. Masha é uma figura feminina desequilibrada e instável, interpretada com a eficácia necessária por Sandra Bernhard, com a actriz a conseguir expor a obsessão desta mulher em relação ao personagem interpretado por Jerry Lewis. Tenta contactá-lo imensas vezes, mas Jerry nunca corresponde aos anseios desta perigosa stalker. O ambiente que esta cria quando tem a estrela em cativeiro é de algum intimismo, rodeado da luz das velas, embora o apresentador esteja atado e sinta tudo menos amor e/ou desejo por esta. Masha é uma mulher frustrada que surge como o paradigma das obsessões que alguns elementos geram pelas estrelas e pela imagem que criam em volta das mesmas, com Martin Scorsese a realizar uma comédia negra que nos expõe ao lado nem sempre positivo do show business e da cultura de massas.

Rupert é o paradigma desse lado negativo da obsessão pelas estrelas, surgindo como alguém que toda a vida ambicionou ser rico e famoso, embora continue a viver com a mãe aos trinta e poucos anos de idade, parecendo incapaz de alterar esta situação. As suas longas esperas na recepção do estúdio são penosas e degradantes, as ilusões que cria de ter uma amizade com Jerry também, num filme que procura incutir algum humor negro, dramatismo e estranheza a estas situações mencionadas. A certa altura do filme Rupert salienta: "É melhor ser rei por uma noite do que idiota a vida inteira". Esta frase resume na perfeição as razões para ter tomado o acto drástico de raptar Jerry com o auxílio de Masha, com o protagonista a encontrar nesta acção desesperada uma medida para poder apresentar o seu número de stand-up ao vivo na televisão. Este anseia pela sua oportunidade. Ela não chega mas Rupert força a sua chegada. Em certa medida Rupert faz-nos recordar Travis Bickle, o protagonista de "Taxi Driver", e o seu estranho sentimento de justiça. Ambos são personagens solitários, algo psicóticos e psicopatas, capazes de cometerem crimes em situações extremas, ao mesmo tempo que parecem quase sempre desfasados do mundo que os rodeia. Rupert necessita de atenção, do reconhecimento daqueles que nunca confiaram em si, mas nem por isso deixa de apresentar uma perigosa instabilidade emocional que o torna num personagem nem sempre agradável de seguir. O resultado final é inesperado, com "The King of Comedy" a apresentar-nos a um personagem disposto a tudo para conseguir apresentar o seu número, que se encontra obcecado com a ideia de ser famoso, embora também surja como o representante de alguém que nunca teve a oportunidade desejada para singrar na vida. Será que trabalhou para isso? Será que este quer ser comediante ou famoso? Ainda não tinha casa dos segredos e reality shows do género para ter fama temporária, mas parece desejar sobretudo alcançar a adoração ao nível de Jerry, ao mesmo tempo que também quer provar o seu valor. Algo parece certo, Rupert mostra-se sempre indisponível para provar inicialmente o seu valor em clubes nocturnos e ser observado in loco pela equipa de produção do programa, algo que demonstra alguma da sua falta de esforço e humildade. Por vezes faz-nos rir com os seus actos, por vezes gera desconforto, com "The King of Comedy" a não ter problemas em deixar o espectador diante de diversas situações desconfortáveis e algumas temáticas pertinentes. É uma comédia negra, mesclada com algum dramatismo e sátira social, com Rupert a surgir como indivíduo complexo, enquanto Martin Scorsese realiza de forma imaculada uma obra cinematográfica capaz de abordar questões complexas e extrair interpretações de peso a Robert De Niro e Jerry Lewis.

Título original: "The King of Comedy".
Título em Portugal:"O Rei da Comédia".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul D. Zimmerman.
Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Tony Randall, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard.

18 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Carol" (2015)

 Pontuado por uma enorme delicadeza, atenção ao pormenor, um conjunto de valores de produção assinaláveis e desempenhos magníficos de Cate Blanchett e Rooney Mara, "Carol" surge como uma das grandes estreias nas salas de cinema portuguesas em 2016, com Todd Haynes a criar um romance que nos deleita quer pelos pequenos detalhes, quer pela sua dupla de protagonistas, quer pela capacidade do cineasta em conseguir reunir harmoniosamente estilo e substância. Os gestos, os olhares, as palavras, os silêncios, o guarda-roupa, os planos, surgem recheados de significado e intenção, enquanto Cate Blanchett e Rooney Mara teimam em demonstrar que são duas actrizes magníficas, com a dupla a interpretar personagens de características distintas que se parecem complementar na perfeição. Cate Blanchett comprova mais uma vez que é uma das melhores actrizes em actividade, sendo capaz de elevar cada personagem a quem dá vida e transcender regularmente as nossas expectativas. Em "Carol", Blanchett tanto surge no controlo como apresenta sinais latentes de fragilidade, com esta a dar vida à personagem do título, uma mulher elegante, charmosa, fumadora que se encontra a protagonizar um doloroso processo de divórcio. Carol ainda é casada com Harge Aird (Kyle Chandler), de quem tem uma filha, a jovem Rindy, com ambos a disputarem a custódia da mesma. Harge é um indivíduo ciumento e possessivo, que não se conforma com o divórcio, nem consegue esconder o seu desprezo em relação a Abby Gerhard (Sarah Paulson - presença sempre competente), a melhor amiga, ex-namorada e confidente de Carol. A personagem interpretada por Cate Blanchett conhece Therese Belivet (Rooney Mara) numa loja de brinquedos, em Manhattan, durante a época de Natal, em 1952. Therese parece sentir algo de estranho e magnético quando contacta com Carol, uma mulher mais velha, que transmite uma aura digna de uma diva, aparentemente muito segura de si própria, embora esteja a atravessar um período adverso da sua vida. Se Carol vive de forma relativamente segura, utiliza roupas caras e uma maquilhagem saliente, já Therese ainda se encontra a procurar afirmar a sua identidade. Therese trabalha temporariamente numa loja de brinquedos, tendo ambições como fotógrafa, embora tarde em sentir-se à vontade para fotografar seres humanos, pelo menos até conhecer Carol. De unhas pintadas de vermelho, expostas de forma amiúde pela câmara, símbolo de desejo e das emoções descontroladas, Carol procura uma boneca para oferecer à filha no Natal. A boneca já se encontra esgotada, pelo que Therese sugere um comboio e uma pista de brincar, algo que Carol considera uma boa ideia. Carol deixa a morada da sua casa para os elementos da loja transportarem e montarem o brinquedo no domicílio, com Therese a aproveitar o envio para devolver as luvas da protagonista, que ficaram por esquecimento, ou propositadamente na loja. Embora namore com Richard (Jake Lacy), um indivíduo que a propõe em casamento e apresenta largos planos para o futuro, Therese parece sentir uma certa atracção por Carol. Não é algo de fulminante. Diga-se que Todd Haynes oferece-nos muitas das vezes um espectáculo de contenção dos sentimentos, com lampejos de "Brief Encounter" pelo meio, ou os encontros esporádicos entre Carol e Therese não pareçam gradualmente conduzir a algo maior, com estas personagens a conquistarem o coração uma da outra e o nosso, ou pelo menos, o meu.

 Voltando ao filme, antes que me deixe perder por caminhos pouco pragmáticos, ou seja, a salientar repetidamente o quanto estou apaixonado por esta obra cinematográfica magnífica, bela e envolvente. Carol liga a Therese, tendo em vista a agradecer o facto desta última ter enviado as luvas que ficaram esquecidas na loja, aproveitando a oportunidade para convidar a personagem interpretada por Rooney Mara para almoçar. Therese parece nervosa. Carol no controlo. O próprio guarda-roupa indica isso mesmo, com Carol a aparecer com vestes caras, pontuadas por adereços dominados por tonalidades encarnadas, cabelo loiro penteado ao pormenor, batom vermelho, enquanto os seus comportamentos são próprios de alguém experiente e preparado. Therese aparece mais discreta, sem o gorro de Pai Natal que utilizava na loja quando encontrara Carol pela primeira vez, com as suas vestes a apresentarem tonalidades negras (colete) e brancas (camisa), enquanto os seus comportamentos indicam alguma inexperiência e nervosismo. Estamos diante de duas mulheres distintas, igualmente complexas e capazes de desafiarem as nossas expectativas. Todd Haynes desenvolve a relação entre Carol e Therese em lume brando. Concede espaço para Rooney Mara e Cate Blanchett comporem as suas personagens, exporem as personalidades e receios de Therese e Carol, até reunir as protagonistas numa viagem que promete marcar as suas vidas. Estamos em plenos anos 50, um período onde uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo é encarada com enorme preconceito por parte de diversos elementos que rodeiam Carol e Therese. Diga-se que, nos dias de hoje, a intolerância ainda existe, embora esteja relativamente mais matizada, com "Carol" a efectuar um diálogo entre o passado e o presente, ao mesmo tempo que expõe gradualmente que é completamente redutor catalogar o filme em análise com expressões pueris como "romance lésbico". "Carol" é acima de tudo um romance, ou um melodrama, protagonizado por dois seres humanos com sentimentos completamente naturais, com os rótulos fáceis a servirem mais para o clickbait do que para comentar o filme e a subtileza com que Todd Haynes aborda a relação entre a dupla de protagonistas. Cate Blanchett e Rooney Mara elevam as personagens que interpretam, denotando uma química latente, enquanto "Carol" troca as nossas voltas desde o início. Veja-se que ficamos no início do filme com uma cena muito à "Brief Encounter", onde Carol e Therese se encontram no interior de um restaurante, quando são interrompidas por um conhecido da segunda (não falta inclusive uma mão no ombro, semelhante ao gesto do personagem interpretado por Trevor Howard). Só mais tarde saberemos o que antecede e se sucede a esta cena, com Todd Haynes a deixar-nos na dúvida, enquanto efectua quase um movimento circular em volta da narrativa. O argumento, escrito por Phyllis Nagy, inspirado no livro "The Price of Salt", de Patricia Highsmith, é inteligente o suficiente para estabelecer bastante bem estas duas figuras complexas, deixando espaço para evoluírem ao longo da narrativa, enquanto desenvolve subtilmente o nascimento de um romance marcante, com laivos de "Brief Encounter" quer na cena mencionada, quer nos trechos das viagens de Therese no comboio, quer na delicadeza que acompanha a abordagem deste envolvimento. Existe um receio mútuo em relação à exposição dos sentimentos, algo notório nos diálogos e nos silêncios entre Carol e Therese. Uma mão no ombro pode significar muito, tal como uma fotografia ou um disco oferecido. Comecemos pela mão no ombro: o olhar de Rooney Mara exprime o turbilhão de sentimentos que perpassa pela alma de Therese, com Todd Haynes a ter um controlo exímio na forma como gere os timings para exacerbar a relevância desta cena. A fotografia remete para o hobby de Therese, com esta a não ter coragem ou vontade de fotografar seres humanos até conhecer Carol. Therese fotografa Carol a preto e branco, quando esta se encontra desprevenida, mas graciosa e charmosa o suficiente para causar impacto, até se tornar numa espécie de divindade adorada pela objectiva da primeira. O disco oferecido remete para uma música que a personagem interpretada por Rooney Mara toca ao piano, num momento de maior intimidade com Carol, com a primeira a oferecer posteriormente um vinil onde consta essa canção.

 A música tem um papel de relevo, com Todd Haynes a procurar capturar uma atmosfera próxima dos anos 50, uma situação notória na banda sonora de Carter Burwell (um colaborador habitual dos irmãos Coen - mais uma vez excelente), bem como no guarda-roupa, nos cenários, nos veículos, nos gestos e diálogos dos personagens, entre outros exemplos. A banda sonora sobressai muitas das vezes nos momentos de silêncio entre as protagonistas, tais como algumas viagens de carro em que Rooney Mara e Cate Blanchett conseguem transmitir imenso apenas com os seus gestos e olhares. O guarda-roupa é paradigmático do trabalho meticuloso efectuado em "Carol", bem como a maquilhagem. Veja-se quando Cate Blanchett surge com um casaco de peles, uma boina vermelha e luvas, até deixar estas últimas em cima da mesa para assinar um cheque, tendo em vista a adquirir o comboio na loja de brinquedos. A câmara foca as mãos de Carol, enquanto escreve, com o anel a indicar que esta ainda é comprometida. O plano das mãos é inserido de forma orgânica, numa cena que é bem trabalhada quer a nível da cinematografia, quer do trabalho de montagem. O verniz das unhas, vermelho, tal como a cor do batom de Carol, não esconde os sentimentos inquietos desta mulher, mas também o desejo que esta desperta e a curiosidade que parece sentir em relação a Therese. Rooney Mara, nessa cena específica, encontra-se com um gorro de Pai Natal e vestes discretas. As cores das vestimentas de Therese, na loja, quando contacta pela primeira vez com Carol são marcadas por tonalidades neutras, ou discretas, que reforçam o enigma em volta desta mulher. O gorro transmite uma certa inocência a esta figura feminina que se encontra prestes a descobrir uma série de sentimentos que florescem incontroladamente no seu âmago. Rooney Mara consegue muitas das vezes esconder no seu rosto os sentimentos de Therese, com a actriz a explorar o mistério em volta desta mulher. O olhar de Therese parece muitas das vezes vazio. Sente algo novo, que a deixa recheada de dúvidas e muitas incertezas. Não sabe como lidar com os seus sentimentos, muito menos como expor os mesmos diante daqueles que conhece, para além de ser notório que receia a resposta de Carol. Inicialmente procura acima de tudo agradar, até começar a soltar-se um pouco mais diante da personagem do título. Por sua vez, Carol parece mais confiante, embora também denote algumas dúvidas em relação aos sentimentos de Therese. Rooney Mara e Cate Blanchett são simplesmente maravilhosas a desenrolar este novelo sentimental e explorar como Therese e Carol, aos poucos, começam a sentir algo mais forte e apresentam uma abertura gradual para exporem aquilo que sentem. Todd Haynes deixa-nos inicialmente na dúvida se relação vai mesmo avançar, ou se já terá avançado aquando da viagem que a dupla efectua, ao mesmo tempo que explora não só o lado mais cândido dos sentimentos amorosos mas também alguns revezes nem sempre desejáveis. É tudo tão delicado e inserido de forma tão orgânica na narrativa que, quando estas personagens se beijam pela primeira vez, quase que nos sentimos felizes e aliviados por Carol e Therese finalmente soltarem os seus sentimentos e desejos em momentos de enorme beleza. O momento é filmado com bom gosto, enquanto Cate Blanchett e Rooney Mara conseguem incutir a carga emocional necessária para que tudo resulte.

 Carol e Therese são duas figuras complexas que, muito provavelmente, não vamos esquecer tão depressa. Therese é apresentada inicialmente como uma personagem desejada pelas figuras masculinas, que mantém um namoro que parece atravessar uma crise e uma situação profissional pouco segura. Ainda chega a ser incentivada por Dannie (John Magaro), um amigo de Richard, que escreve para o New York Times, para se reunir com o editor da secção de fotografia do jornal, embora Therese inicialmente não avance para essa opção. Dannie é um dos pretendentes de Therese, uma mulher que desperta um enorme fascínio naqueles que a rodeiam, que o diga Carol. Já a personagem interpretada por Cate Blanchett encontra-se a enfrentar um processo de divórcio intrincado, com Kyle Chandler a interpretar um indivíduo magoado e pronto a magoar sentimentalmente a protagonista. Kyle Chandler a espaços consegue sobressair num filme onde Cate Blanchett e Rooney Mara roubam por completo as atenções com interpretações sublimes e marcantes. É certo que o argumento ajuda, mas Blanchett e Mara são as pedras de toque para muito do filme funcionar, com a química entre as personagens que interpretam e a naturalidade que incutem nos gestos, silêncios e diálogos das mesmas a "facilitarem" a tarefa de Todd Haynes. O próprio guarda-roupa das personagens e os seus penteados (reparem no último terço como o penteado de Therese se aproxima daquele que é utilizado por Carol) contribuem para expressar os estados de espírito das mesmas. Veja-se quando partem em direcção incerta, numa viagem de carro de motel em motel, com os sentimentos entre ambas a parecerem começar a aparecer mais à flor da pele. Encontramos pela primeira vez a personagem interpretada por Rooney Mara com vestes vermelhas (se não contarmos com os adereços), algo que simboliza um pouco o seu maior à vontade, com Todd Haynes a certa altura a começar a trocar-nos as voltas. Carol parecia no controlo. Therese aos poucos toma essa papel, sem que Carol deixe de apresentar uma postura digna. A certa altura do filme, Carol é alvo de preconceitos por parte dos familiares e elementos da justiça, com a sua orientação sexual a ser encarada como uma "doença". Therese não é o primeiro caso de Carol com uma mulher. Não é um crime, esta sabe disso, tal como Therese, embora aqueles que as rodeiam tratem de encarar a situação de forma distinta. Todd Haynes não diaboliza os interlocutores, procurando antes exibir o preconceito e, ao mesmo tempo, fazer com que o espectador questione se as mentalidades mudaram assim tanto, repetindo, em parte, algo que efectuara com sucesso em obras cinematográficas como "Far From Heaven". A certa altura, a personagem interpretada por Cate Blanchett tem um momento libertador que quase nos faz levantar da cadeira e aplaudir. O seu discurso é sincero, sem soar a algo que "Carol" procura pregar ao espectador, enquanto a personagem do título exibe o seu carácter forte. Também é frágil, mas parte do interesse deste filme realizado por Todd Haynes resulta exactamente das contradições inerentes à personalidade destas personagens femininas. A própria diferença de idades pode ou não ser encarada como um problema, uma questão levantada por Abby, bem como o facto de Carol e Therese pertencerem a grupos sociais distintos, embora essas barreiras aos poucos pareçam ser diluídas. Vale a pena recuperar o exemplo de "Far From Heaven", uma obra cinematográfica realizada por Todd Haynes, onde o cineasta nos coloca diante de temáticas como o papel da mulher na sociedade, o racismo, as diferenças sociais, a homossexualidade, a solidão, tendo como pano de fundo um espaço nos subúrbios Connecticut, em plena década de 50, algo que, em parte, entronca com o enredo de "Carol".

 "Far From Heaven" e "Carol" contam com a mesma década como pano de fundo, partilhando ainda a capacidade de Todd Haynes em explorar o período que representa quer a nível das temáticas, quer a nível do guarda-roupa, quer a nível dos cenários, embora o primeiro procure espelhar uma realidade que parece saída de um filme dos anos 50, enquanto o segundo coloca o espectador diante de algo mais realista. "Carol" exibe mais uma vez Todd Haynes como um cineasta magnífico a transmitir o espírito da época que representa, algo que tinha efectuado com enorme inspiração em "Safe", "Far From Heaven", bem como no delirante "Velvet Goldmine". Tal como em "Far From Heaven", também em "Carol" a homossexualidade é encarada como uma doença por alguns personagens, enquanto Todd Haynes explora a situação com enorme delicadeza e humanidade. "Carol" exibe ainda a preocupação de Todd Haynes quer a nível do design dos cenários interiores, quer da exposição dos espaços exteriores. O cuidado nos cenários interiores é visível em momentos como Carol a pentear a filha, enquanto se encontra ao espelho, quase como se estivéssemos diante das facetas distintas desta personagem. Diga-se que é através de um espelho que, em parte, somos expostos ao primeiro beijo entre Carol e Therese, algo que exacerba essas dicotomias entre as duas mulheres e as facetas distintas que marcam as suas personalidades complexas. O modo como os espaços citadinos interiores e exteriores são representados e filmados remetem para a época, algo notório em estabelecimentos como o bar onde encontramos Therese, o namorado e os amigos no início do filme, ou a loja de brinquedos onde esta mulher trabalha, um local onde não faltam bonecas de porcelana, pistas de comboios de brincar (cujo movimento circular pode remeter para uma metáfora relacionada com o estado em que se encontra vida das protagonistas no período em que se encontram, ou envolver a própria estrutura narrativa de "Carol"), entre outros materiais para crianças. O próprio cineasta, em entrevista ao Film Comment, salientou ainda a relevância da paleta cromática para a representação da cidade de acordo com a época: "(...) the muted palette, the almost indecipherable temperatures, partly as a result of that palette but also because of how the city looked at this time". Toda esta atenção ao pormenor nunca se sobrepõe ao desenvolvimento dos personagens, à procura em abordar uma relação amorosa complexa e profundamente humana, com a temática da homossexualidade a ser problematizada, embora "Carol" aborde o envolvimento da dupla de protagonistas como este deve ser encarado: naturalidade. Sim, continuam a existir preconceitos, mas aquilo que interessa a "Carol" são os sentimentos da dupla de protagonistas, com estas a desafiarem alguns tabus da época, embora também sejam muitas das vezes afectadas pelos mesmos. Diga-se que Todd Haynes recupera ainda algo transversal a diversos dos seus trabalhos: personagens femininas complexas, algo latente em "Safe" e "Far From Heaven", com Julianne Moore a brilhar em ambos os filmes citados. Com uma atenção ao detalhe primorosa, um trabalho notável e imaculado de Todd Haynes na realização, uma cinematografia pontuada por pormenores de classe, "Carol" promete sobreviver à passagem do tempo, ser reverenciado e apaixonar quem se deixar envolver por este universo narrativo. Como brinde temos ainda interpretações marcantes de Cate Blanchett e Rooney Mara, duas actrizes magníficas que elevam uma obra cinematográfica simplesmente apaixonante.

Título original: "Carol".
Realizador: Todd Haynes.
Argumento: Phyllis Nagy.
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler.

15 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Taxi Driver" (1976)

 O que falamos quando falamos de Travis Bickle (Robert De Niro)? Falamos de um antigo marine que ainda parece padecer dos traumas do cumprimento do serviço militar na Guerra do Vietname, um indivíduo solitário que tem enormes dificuldades em comunicar com outros seres humanos, um elemento paranoico e psicótico que se irrita facilmente com as injustiças existentes na sociedade. É também um dos personagens mais marcantes da carreira de Robert De Niro, com "Taxi Driver" a surgir como mais uma das célebres colaborações entre o actor e Martin Scorsese, com o cineasta a voltar a utilizar a narração na primeira pessoa para incrementar a narrativa e expor aquilo que ocorre no interior da mente do protagonista. Travis vive sozinho no seu pequeno apartamento onde não consegue dormir, parecendo atormentado por algo que nem o próprio sabe. Muitas das vezes não sabemos aquilo que este indivíduo pensa embora, quando descobrimos os seus pensamentos, até tenhamos medo daquilo que este pode vir a fazer, algo paradigmaticamente representado quando salienta: "Listen, you fuckers, you screwheads. Here is a man who would not take it anymore. A man who stood up against the scum, the cunts, the dogs, the filth, the shit. Here is a man who stood up". A certa altura do filme podemos encontrar Travis a observar atentamente uma cápsula efervescente a desfazer-se na água. Martin Scorsese dá especial atenção a este pequeno episódio que encontra paralelo na personalidade de Travis ou o ex-marine não surgisse como alguém que a qualquer momento esperamos ver a efervescer ao ponto de praticamente se destruir. Decide inscrever-se como taxista, de forma a encontrar uma ocupação nocturna, mas facilmente se irrita a circular pelas estradas, com Martin Scorsese a deixar-nos diante dos bares, das ruas, dos cinemas, mas também perante a prostituição, o tráfico de droga e a violência presente nos espaços urbanos. Travis revolta-se com aquilo que observa, ao contrário dos seus colegas, uma situação que expõe em vários dos seus pensamentos: "All the animals come out at night - whores, skunk pussies, buggers, queens, fairies, dopers, junkies, sick, venal. Someday a real rain will come and wash all this scum off the streets (...)". É alguém revoltado com a vida, uma bomba relógio que traz consigo todas as contradições de uma sociedade incapaz de reintegrar os seus antigos combatentes, com Travis a parecer ter saído claramente traumatizado pelos serviços militares prestados na Guerra do Vietname. Ainda gera uma obsessão amorosa por Betsy (Cybill Shepherd), uma mulher que se encontra a trabalhar na campanha do Senador Charles Palantine (Leonard Harris) ao cargo de Presidente. Consegue convencer esta mulher a ir consigo ao café e até ao cinema, mas o seu jeito para conviver com outros seres humanos é completamente desastrado, algo notório quando Betsy percebe que o convite é para ver filmes pornográficos numa sala que exibe essas obras cinematográficas. São elementos completamente distintos. Ela é bela, frágil, culta e inteligente, sente alguma curiosidade para descobrir quem é Travis, embora seja notório que ambos pertencem a "dois Mundos" diferentes. Ele é feroz, imprevisível, pronto a expor todas as dicotomias de um território fervilhante e a explanar a sua raiva.

A relação implode antes mesmo de começar, com Travis a apresentar uma revolta cada vez maior em relação à realidade que o rodeia, sobretudo quando é rejeitado por Betsy. Travis considera que é completamente normal ver filmes pornográficos, ou estes acto não fizesse parte da sua rotina. Betsy encara a ida ao cinema como algo insultuoso, com esta saída e os comportamentos meio loucos do protagonista a contribuírem para a primeira decidir findar esta relação pontuada por alguma proximidade e estranheza. Temos ainda alguns momentos do protagonista com os colegas, bem como com um cliente (Martin Scorsese) que procura observar a esposa com o amante através do táxi de Travis, pretendendo eliminar a mesma. Martin Scorsese dispara as suas falas como ritma o seu filme: fulgurante, intenso e sentido. No entanto é a Robert De Niro que cabe o maior destaque, com este a expor toda a psicose e fragilidades emocionais do personagem que interpreta, algo que se adensa quando Travis decide começar a treinar o seu físico e comprar armas, assumindo uma faceta de justiceiro vingador, sobretudo quando conhece Iris (Jodie Foster), uma jovem prostituta que conta com "Sport" (Harvey Keitel) como proxeneta. Iris é uma jovem que inicialmente pretende fugir de "Sport", mas este obriga-a a sair do táxi. Travis volta a encontrá-la, procurando proteger e libertar a jovem, mesmo que esta não pareça ser a vontade da personagem interpretada por Jodie Foster, com a actriz a protagonizar alguns momentos dignos de atenção ao lado de Robert De Niro. O taxista ainda parece preparado para protagonizar um atentado e eliminar Palantine, já com o seu visual com o cabelo à moicano, utilizando trajes muito próprios e um olhar cada vez mais perturbador. A presença de Travis desperta a atenção dos seguranças, com estes elementos a procurarem evitar um possível atentado, com "Taxi Driver" a trazer ecos dos assassinatos de John F. Kennedy e Robert F. Kennedy, enquanto o argumento explora temáticas típicas da atmosfera de malaise deste período da História dos EUA (o filme foi lançado originalmente em 1976). Ficamos perante um thriller psicológico intenso, marcado por um argumento de excelência de Paul Schrader, enquanto Martin Scorsese nos deixa diante da mente complexa deste personagem perturbado. Em certos momentos, Travis até nos faz recordar o protagonista de "The Diary of a Country Priest", um indivíduo que partilha muito do seu quotidiano no diário, apresentando uma enorme incapacidade para lidar com os restantes seres humanos, embora no caso do filme realizado por Robert Bresson a contenção e repressão de sentimentos seja a ordem do dia. Travis é explosivo, inquietante e inquieto, revoltando-se com enorme facilidade, embora reprima inicialmente os seus ímpetos enquanto circula por um espaço citadino representado de forma algo pessimista e violenta. A rotina do protagonista pela noite é marcada por enorme realismo, com as suas viagens solitárias no táxi a serem expostas de forma amiúde, enquanto o personagem deixa-nos perante os seus pensamentos. Robert De Niro chegou a conduzir um táxi durante várias semanas, tendo em vista a preparar-se para interpretar o personagem, para além de ter perdido peso de forma a compor com maior cuidado este ex-marine complexo que se encontra prestes a explodir. Travis não é capaz de iniciar grandes amizades, nem parece ter formado grandes amigos no passado, procurando a determinada altura do filme traçar um plano para eliminar Palantine, exibindo-se incapaz de controlar os seus impulsos violentos, sendo rejeitado por quase tudo e todos aqueles de quem se aproxima. Este surge quase como um vingador que procura exterminar os crimes e pecados da Terra, mas também como alguém perturbado e frágil que aos poucos começa a soltar os seus demónios interiores. É um tipo solitário, algo que tem consciência quando salienta que "Loneliness has followed me my whole life, everywhere. In bars, in cars, sidewalks, stores, everywhere. There's no escape. I'm God's lonely man", embora os seus comportamentos nem sempre ajudem. Ainda conta com alguns momentos de conversa com colegas como Wizard (Peter Boyle), Charlie T (Norman Matlock) e Doughboy (Harry Northup) mas são situações demasiado pueris e momentâneas para causarem qualquer impacto no quotidiano do protagonista.

É o quotidiano de Travis que "Taxi Driver" se propõe a apresentar-nos, bem como a sua personalidade e a sua alma, com a banda sonora de Bernard Herrmann a adornar na perfeição os ritmos do filme, enquanto Martin Scorsese deixa-nos perante uma escalada gradual de violência por parte parte do protagonista, naquela que é uma das obras definidoras da carreira do cineasta. Não faltam momentos marcantes como Travis a treinar com as armas o seu posicionamento e falas, tais como a célebre "You Talkin' to Me?" ou o sangrento último terço onde Martin Scorsese nos deixa mais uma vez perante uma representação visceral da violência. Temos ainda a representação deste espaço citadino, com "Taxi Driver" a surgir como um neo-noir a fazer recordar a atmosfera algo pessimista dos filmes do subgénero noir do pós-II Guerra Mundial, não faltando espaços nocturnos, a criminalidade e insegurança, para além de um protagonista que é muito fruto do seu tempo. Não sabemos grandes pormenores sobre o seu trabalho no Vietname, nem este nos conta grandes elementos sobre o seu passado, tais como possíveis missões, amizades ou traumas. O que sabemos é que o seu presente é complicado e pouco promissor, numa obra marcada por uma atmosfera negra onde a qualquer altura esperamos que Travis expluda e solte todas as suas psicoses. Robert De Niro surge exímio como este indivíduo meio louco, meio justiceiro, enquanto elementos como Cybill Shepherd, Jodie Foster e Martin Scorsese também conseguem sobressair, apesar de "Taxi Driver" ser o "espectáculo" do primeiro. Este encarna todas as dicotomias e complexidade de Travis com um à vontade notável, ao mesmo tempo que ficamos perante a alienação cada vez maior deste personagem perante a sociedade e a sua vontade em efectuar algo de relevante, mesmo que isso implique actos completamente extremistas. Diga-se que "Taxi Driver" surge como um produto que é paradigmaticamente fruto de um período algo pessimista dos EUA, com o final do Código Hays e o contexto histórico a contribuírem para esta representação visceral, algo que a espaços até nos remete para obras cinematográficas desta década como "Death Wish" onde também tínhamos um justiceiro por conta própria, ou "Dirty Harry", uma filme onde Clint Eastwood interpreta um polícia que transgride as regras para deter os criminosos. A violência nos espaços urbanos surge presente nos três exemplos mencionados, com "Taxi Driver" a remeter ainda para os traumas de Guerra e a solidão, num filme onde o génio de Martin Scorsese surge bem patente. Este explora os cenários de Nova Iorque, a complexidade inerente à personalidade do protagonista, extrai interpretações de bom nível por parte do elenco, utiliza de forma amiúde a tonalidade vermelha com enorme inspiração e significado, com "Taxi Driver" a roçar praticamente a perfeição. Com uma interpretação marcante de Robert De Niro e um retrato realista dos espaços nocturnos de Nova Iorque, "Taxi Driver" surge como um filme neo-noir pontuado por uma atmosfera de malaise e traços de thriller psicológico, onde a Guerra do Vietname e os seus efeitos se fazem sentir no protagonista, um homem solitário e pouco falador que tem no seu âmago uma violência irascível difícil de controlar.

Título original: "Taxi Driver".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul Schrader.
Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Albert Brooks, Harvey Keitel, Leonard Harris, Peter Boyle, Cybill Shepherd.

13 janeiro 2016

Resenha Crítica: "Raging Bull" (1980)

 Jake LaMotta é incontrolável, indomável, violento, possessivo, ciumento e algo inseguro. Pode conseguir reunir algumas pessoas junto de si, mas facilmente afasta as mesmas com os seus comportamentos irascíveis ao longo de "Raging Bull", uma das obras mais populares da carreira de Martin Scorsese, com Robert De Niro a confirmar novamente o seu enorme talento para a representação. O actor transforma-se fisicamente e a nível dos comportamentos, criando um "animal feroz" altamente auto-destrutivo, machista e pouco dado a grandes amizades ou simpatias, que apenas parece estar bem quando se encontra no ringue a distribuir e levar pancada. Inspirado no livro "Raging Bull: My Story" de Jake LaMotta, Martin Scorsese apresenta-nos à ascensão e queda do protagonista, entre 1941 e 1964, com "Raging Bull" a surgir como uma obra cinematográfica que se desenrola a um ritmo intenso, ao mesmo tempo que é capaz de nos dar a perfeita noção da complexidade deste pugilista nascido no Bronx e do meio que o rodeava. Na cena do genérico inicial, encontramos Jake LaMotta sozinho, num ringue de boxe. As imagens são a preto e branco, marcadas pelo fumo que rodeia muitos dos cenários que encontramos nos combates. É um dos vários momentos de "Raging Bull" que ficam gravados na memória. O pugilista solitário, pronto a combater tudo e todos, incluindo a si próprio, esquecendo-se muitas das vezes do papel essencial dos outros na sua vida. Jake tem em Joey LaMotta (Joe Pesci), o seu irmão mais novo, aquele que talvez seja o seu maior apoio, embora até com este arranje problemas. Estes partilham vários momentos e comportamentos em comum, seja a violência descontrolada, o machismo, ou um sentido muito próprio de família. Joe Pesci tem em "Raging Bull" o primeiro grande papel do seu currículo, após ter participado no telefilme "The Death Collector", com o actor a dar vida a Joey, um indivíduo que vive na sombra do irmão, procurando ajudá-lo na sua carreira, trabalhando como o seu agente, algo que o leva a manter uma relação nem sempre clara com elementos como Tommy Como (Nicholas Colasanto) e Salvy (Frank Vincent), dois mafiosos ligados ao ramo das apostas. A certa altura do filme, Jake pede a Joey para esmurrar-lhe a cara. Joey fica meio estupefacto mas acede ao pedido do irmão. A relação entres estes dois irmãos é marcada por muitos momentos onde a violência é notória, seja esta física ou verbal, sobretudo quando estão a lidar com as mulheres. No início do filme, Jake é casado, mantendo uma relação pouco cordial com a esposa, com um simples bife bem passado a servir para um discussão violenta. Este combatera há pouco tempo com Jimmy Reeves, naquela que foi a sua primeira derrota num combate de boxe, algo que nos é exposto no início de "Raging Bull", com os comportamentos de Jake a exibirem paradigmaticamente a incapacidade do protagonista em lidar com o insucesso. Não é só o combate que é violento, também o ambiente que o envolve é fervilhante, com a decisão final a favor de Reeves a ser acompanhada de um enorme burburinho por parte dos espectadores, com "direito" a uma cadeira a ser atirada para o ringue. Os combates não se ficam por aqui. Jake ainda defrontaria por mais duas vezes Sugar Ray Robinson (Johnny Barnes), em 1943, tendo vencido o primeiro combate e perdido o segundo, com a derrota neste último a ser atribuída por decisão do júri, especulando-se que a opção tomada pelos jurados se deve ao facto do rival do protagonista se preparar para integrar o exército.

Os combates são expostos com brutalidade e realismo (até o sangue que cai nas cordas do ringue é exibido), com Martin Scorsese a criar momentos intensos e memoráveis. Diga-se que, quando os combates são considerados pouco relevantes, Martin Scorsese não tem problemas em exibir os mesmos em trechos rápidos que se limitam a salientar as vitórias do protagonista. No entanto, quando as lutas são expostas em toda a sua magnitude, o espectador é colocado diante de momentos magnificamente coreografados e realistas, onde o ringue facilmente se transforma num espaço onde a violência e os sentimentos esvoaçam. O trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker é mais uma vez fundamental para Martin Scorsese, com este a conseguir atribuir uma enorme fluidez e sentido de ritmo à sua obra e aos combates, enquanto que a cinematografia de Michael Chapman concede algum lirismo a estes momentos de grande violência. Diga-se que as polémicas de Jake não se limitam aos ringues. Jake acaba por iniciar uma relação com Vickie (Cathy Moriarty), uma jovem de quinze anos de idade, loira, belíssima, apesar de ser casado e esta ser menor, algo que não impede o protagonista de cortejar a mesma. Vickie e Jake acabam por casar e ter filhos, mas a violência do segundo logo acaba por vir ao de cima, com esta mulher a procurar obter alguma independência, embora seja constantemente alvo dos actos menos próprios do pugilista e do irmão dele. Joey também está longe de ser um exemplo no tratamento dado às mulheres, com este e Jake a serem dois misóginos e machistas do pior. O personagem interpretado por Joe Pesci tenta tratar do lado mais pragmático da carreira de Jake, embora este último nem sempre compreenda a situação, procurando seguir sobretudo os seus instintos. Quando vence Tony Janiro (Kevin Mahon), Jake LaMotta espera finalmente ter uma oportunidade de disputar o título de peso-médio, mas logo cai na realidade e percebe que apenas poderá entrar nessa contenda com a ajuda de Tommy e da máfia. Joey serve sobretudo de mediador, mas é impossível não ver e sentir a desilusão de Jake por ter de perder um combate de propósito para os mafiosos conseguirem ganhar dinheiro nas apostas e proporcionarem a oportunidade para o personagem interpretado por Robert De Niro poder disputar o combate do título. Este é um lutador e vencedor nato para quem uma derrota comprada é capaz de deixá-lo num pranto latente, numa das raras vezes em que assistimos a sinais de fragilidade por parte de Jake. A derrota é contra Billy Fox, um pugilista medíocre, com o caso a suscitar a atenção dos media devido à forma pouco convincente como LaMotta perdeu o combate. Dois anos depois, a 16 de Junho de 1949, venceria Marcel Cerdan e conquistaria o título de campeão, um estatuto que manteria até perder para Sugar Ray Robinson em 1951, naquela que seria a sua entrada em declínio no ponto de vista profissional. Os filmes sobre pugilistas não são uma novidade. Desde "Kid Galahad", passando por "Champion", "The Harder They Fall" (onde o papel da máfia foi fundamental para a ascensão de um incompetente), até à emotiva saga de "Rocky", o dramático "Million Dollar Baby" e o irregular "Southpaw", não faltam exemplos de obras cinematográficas centradas nestes atletas. Martin Scorsese opta por uma vertente mais realista, menos "feel good", contando com um protagonista complexo, que apresenta uma enormidade de defeitos e comportamentos violentos que nem sempre despertam a nossa simpatia e empatia.

Estamos longe de ficar perante um herói em "Raging Bull", com Martin Scorsese a colocar-nos diante de um ser humano complexo e violento, com todas os seus defeitos (que são muitos) e virtudes, com estas a serem sobretudo a habilidade para o combate. Jake LaMotta faz justiça ao título de Touro Enraivecido, enquanto Martin Scorsese faz questão de expor o quão auto-destrutivo era este homem quer nos ringues, quer no plano familiar, quer nas amizades. Diga-se que raramente encontramos Jake a formar uma amizade verdadeira. A relação com Vickie floresce com facilidade, com esta a parecer ficar encantada com os bens adquiridos por Jake, mas rapidamente percebemos que o vínculo entre ambos não vai durar muito tempo. Cathy Moriarty interpreta convincentemente esta jovem que fica a conhecer da pior maneira o lado violento e possessivo de Jake, surgindo inicialmente fascinada e posteriormente desencantada com o estilo de vida do protagonista, um elemento que procura provar constantemente o seu valor nos ringues, embora aparente contar com complexos de inferioridade. Veja-se quando se chateia veemente com a esposa por esta descrever Janiro como um lutador "bonito" e "popular", ou os ataques de ciúmes quando encontra Vickie a conversar com outros homens, chegando até a duvidar das intenções de Joey. Aos poucos tudo parece servir como motivo de discussão, com Vickie a perceber que a relação caminha para um abismo difícil de sair, quer pela violência crescente de Jake devido aos ciúmes constantes do pugilista, quer por este estar mais preocupado nos combates do que na vida sexual de ambos. LaMotta surge como mais um personagem de um filme de Martin Scorsese que não confia totalmente nas mulheres (veja-se o protagonista de "Casino"). Pensa que Vickie pode ter mantido um caso extraconjugal com Salvy, bem como com Joey, procurando a todo o custo que esta conviva o menos possível com outros homens, algo que contrasta com os momentos (a cores - num dos trechos mais inspirados de "Raging Bull") meio idílicos que serviram para Martin Scorsese ilustrar o casamento entre a primeira e o protagonista. Temos ainda a presença da máfia, influente para a ascensão e queda de um pugilista, embora o maior inimigo de Jake pareça ser ele próprio. Ao invés de investir imenso nas cenas de treino de LaMotta ou em combates de boxe excessivos, Martin Scorsese procura desenvolver com alguma profundidade a personalidade deste homem, um indivíduo que descura muitas das vezes a sua forma física. Robert De Niro encarna este personagem de corpo e alma. Transforma-se no mesmo. Emagrece, engorda, fica mais musculado, expõe as fragilidade e forças de LaMotta, bem como a sua capacidade de destruir. Destrói relações amorosas e de amizade, destrói os adversários no ringue e em certa medida até se destrói a si próprio ao longo desta história apresentada em flashback, inspirada numa figura real. Estamos longe do simpático e inspirador Rocky Balboa, num filme de boxe que procura sempre dar mais atenção à personalidade do protagonista e ao meio que o rodeia do que propriamente aos treinos e combates.

A narrativa começa inicialmente em 1964, retrocedendo até 1943, com "Raging Bull" a deambular no tempo enquanto nos apresenta à história deste homem complexo e violento. A rivalidade com Sugar Ray Robinson fica bem saliente, bem como o estilo indomável de LaMotta nos ringues, com os combates a serem expostos de forma precisa, concisa e imensamente violenta. Veja-se quando temos LaMotta a recusar-se a cair, algo que o leva a ser violentamente espancado no ringue por Sugar Ray Robinson, parecendo no final ficar orgulhoso pelo feito de não ter sido derrubado. Mais do que estar em causa o seu talento, estava em jogo o seu amor próprio, com Jake LaMotta a procurar nos ringues o sucesso que nem sempre consegue alcançar no plano privado. LaMotta parece ainda procurar encontrar uma espécie de redenção nos ringues, algo que facilmente nos traz à memória a busca por redenção de Charlie (Harvey Keitel) nas idas à igreja em "Mean Streets", com a arena de combate a surgir como o espaço sagrado do personagem interpretado por Robert De Niro. A cinematografia, a preto e branco, contribui ainda mais para atribuir um tom intemporal ao filme, enquanto assistimos por vezes a uma utilização expressionista da iluminação, numa obra cinematográfica realizada num período pouco positivo da vida privada de Martin Scorsese. Terá sido Robert De Niro a convencer Martin Scorsese a envolver-se no desenvolvimento do filme, algo que resultou em mais uma grande colaboração entre ambos, após a recepção pouco calorosa de "New York, New York". "Raging Bull" consegue ainda transportar-nos para o território do Bronx deste período, enquanto nos apresenta as suas gentes, as suas habitações e clubes nocturnos, bem como a máfia local, com o enredo a acompanhar um período de tempo que varia entre a II Guerra Mundial e o pós-Guerra, existindo sempre um cuidado notório na representação da época. A influência da máfia é exposta através de elementos como os personagens interpretados por Nicholas Colasanto e Frank Vincent, com este último a surgir como uma presença relativamente regular em alguns filmes de Martin Scorsese, destacando-se em "Raging Bull" pela carga de pancada que leva de Joey, com Joe Pesci a protagonizar um momento de enorme violência (algo que viria a ser uma imagem de marca nos filmes deste actor com Martin Scorsese). A máfia está presente, bem como o desporto e o drama humano que envolve os personagens, com Martin Scorsese a ter em "Raging Bull" uma obra cinematográfica que transcende o rótulo de "filme de boxe" e "filme biográfico", tendo como base a história verídica de Jake LaMotta. Este encontra-se longe de gerar uma enorme simpatia ou de ser um dos personagens mais agradáveis de seguir, embora Martin Scorsese, o magnífico argumento de Paul Schrader e Mardik Martin e a interpretação de Robert De Niro consigam que Jake LaMotta se transforme numa figura intrigante e complexa, pronta a despertar a nossa atenção, enquanto pretende provar o seu valor nos ringues, um espaço onde exibe uma competência que não consegue transportar para a vida privada e social. O resultado final é um triunfo magistral de Martin Scorsese e do cinema, um drama humano emocionalmente potente e envolvente, onde os elementos de boxe apresentam grande relevância e realismo.

Título original: "Raging Bull".
Título em Portugal: "O Touro Enraivecido".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Paul Schrader e Mardik Martin.
Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto.