20 maio 2016

Resenha Crítica: "Zootopia" (2016)

 Com um conjunto de comentários certeiros sobre a sociedade contemporânea e uma dupla de protagonistas que funciona praticamente na perfeição, "Zootopia" surge como uma obra cinematográfica pertinente, irreverente, recheada de humor e ritmo. O visual apelativo é um bónus acrescido, bem como o bom trabalho do elenco vocal, sobretudo de elementos como Ginnifer Goodwin, Jason Bateman e Idris Elba. No entanto, aquilo que mais impressiona em "Zootopia" é a riqueza narrativa de um filme de animação que mescla assertivamente elementos do foro social com uma história de superação e investigação. A cidade do título é marcada por diversos territórios (conta com doze ecossistemas no interior das suas fronteiras) e animais de características distintas, com "Zootopia" a apresentar e aproveitar um universo narrativo surpreendentemente denso. Todos os habitantes deste espaço citadino são animais de características antropomórficas, embora as diferenças raciais quase que conduzam a um estatuto de castas, com cada uma das raças a parecer ter um papel definido na sociedade, algo que Judy Hopps (Ginnifer Goodwin), uma coelha, se prepara para tentar desfazer. Judy Hopps habita num espaço rural denominado de Bunnyburrow, onde vivem os seus pais, um casal que trabalha a cultivar e vender cenouras. Se os pais de Judy se encontram conformados em relação ao seu papel na sociedade, já a protagonista apresenta uma personalidade irreverente, enérgica, optimista e destemida, sempre sem esconder as suas fragilidades, procurando ser a primeira coelha a integrar a polícia. Não faltam elementos que tentam dissuadir Judy de cumprir o sonho de ser polícia, incluindo os pais e os seus instrutores, embora esta consiga concluir o curso com distinção, sendo destacada para a cidade de Zootopia. Este é um espaço onde supostamente tudo é possível, uma cidade recheada de oportunidades na qual todos os animais vivem em harmonia, inclusive as presas e os predadores ou, pelo menos, é assim que publicitam o território. A realidade é distinta, com esta terra de oportunidades a ser bem diferente daquela que tinha sido apresentada nos slogans. Troquem Zootopia por Nova Iorque, ou substituam Judy por qualquer pessoa que se desloque de um espaço rural para uma grande cidade e a representação daquilo que nos é apresentado não anda assim tão longe da realidade. Judy encontra uma sociedade onde as diferenças raciais são bem sentidas, algo que a desilude, embora a protagonista também tenha algum receio em relação às raposas, descritas como uma espécie de pouca confiança. O trabalho a nível de animação exibe todo um aprumo quer na concepção dos personagens, quer nos cenários, algo visível nos gestos e feições da protagonista, bem como nos espaços por onde esta circula. Diga-se que não é só o trabalho de animação que sobressai. O argumento, escrito por Jared Bush e Phil Johnston, é denso o suficiente para mesclar a investigação protagonizada pela dupla de protagonistas com as mensagens típicas dos filmes da Disney (a "conversão" de um dos personagens é mais do que esperada) e algumas temáticas relevantes sobre a intolerância e discriminação.

 Os sonhos de Judy começam a ser parcialmente desfeitos quando chega ao interior do departamento da polícia de Zootopia, com o Chefe Bogo (Idris Elba), um búfalo, a não confiar no potencial da nova agente. Essa desconfiança de Bogo em relação a Judy fica particularmente visível quando o búfalo designa a maioria dos agentes para investigarem o desaparecimento de catorze mamíferos (predadores), enquanto a coelha é obrigada a trabalhar como polícia de trânsito, ou seja, a passar multas de estacionamento. É a cumprir este ofício desmotivante que Judy conhece Nick Wilde (Jason Bateman), uma raposa matreira, mordaz e pronta a lucrar com uma série de intrujices. Judy e Nick entram em choque, com a protagonista a não suportar a personalidade desta raposa, embora o vigarista e a polícia acabem por formar uma dupla improvável. Tudo muda na vida de Judy e Nick quando a Senhora Otterton (Octavia Spencer), uma lontra, aparece na esquadra e apela para as autoridades procurarem pelo seu esposo, após este ter desaparecido misteriosamente. Judy oferece o seu apoio a Otterton, algo que irrita Bogo mas desperta a alegria de Bellwether (Jenny Slate), a vice-presidente de Zootopia, uma ovelha que responde directamente às ordens de Leodore Lionheart (J. K. Simmons). Este é um leão que trabalha como presidente da câmara, com Lionheart a surgir como o estereótipo do político que pensa acima de tudo nos votos, embora Bellwether também conte com uma agenda muito própria. Diga-se que Zootopia" não tem problemas em pegar em temáticas do foro político, tais como a tentativa de uma personagem conquistar o poder através do medo (algo que não é novo na História Mundial, inclusive nos tempos recentes, uma situação que explica a estranha popularidade da Frente Nacional em alguns sectores da sociedade francesa e o sucesso do ignóbil Donald Trump nos EUA). É de louvar a forma como os realizadores, argumentistas e restante equipa aproveitam os espaços de Zootopia e os personagens para efectuarem comentários pertinentes e inteligentes sobre a nossa sociedade, sobretudo no que diz respeito à discriminação racial e de género. A certa altura de "Zootopia", alguns predadores começam a perder inesperadamente o controlo, algo que conduz ao medo colectivo e paranóia. Os predadores fazem parte de uma minoria em Zootopia, enquanto os elementos que não integram a primeira categoria encontram-se em maioria, com estes últimos a recearem os primeiros devido aos actos de um pequeno contingente do grupo minoritário. Troquem "carnívoros" ou "predadores" por Muçulmanos ou negros e a metáfora fica feita, com os actos particulares de alguns indivíduos a surgirem como um meio para adensar o preconceito e o medo contra as minorias. Veja-se os casos recentes de terrorismo, com a onda anti-islâmica a atingir níveis pouco saudáveis, algo visível quando perdemos tempo da nossa vida a ler comentários efectuados nas redes sociais, com a paranóia, o preconceito e o medo a contribuírem para exacerbar uma confusão entre o termo muçulmano e terrorista. O próprio facto de Judy ser olhada de soslaio devido a ser uma coelha, ou seja, uma mulher ("Zootopia" assume um discurso feminista sem procurar pregar as suas ideias), ainda por cima de uma raça considerada inadequada para a função de polícia, levanta uma série de problemáticas relevantes e pertinentes.

 Desde as diferenças de acesso a certos trabalhos devido ao género, passando pela discriminação racial, até ao modo como o medo pode interferir na opinião pública, "Zootopia" explora temas complexos do foro político e social, enquanto nos compele a seguir uma investigação intrincada, com Judy e Nick a depararem-se com uma conspiração que promete algumas revelações surpreendentes em relação a alguns personagens, ou o desaparecimento do Sr. Otterton não estivesse associado aos desaparecimentos dos catorze mamíferos de espécies predadoras. Judy consegue envolver Nick na investigação, com ambos a deslocarem-se a uma miríade de locais e a contactarem com um conjunto alargado de figuras. Não faltam passagens por espaços como um clube de nudistas, o escritório de um gangster, um laboratório onde se encontram presos diversos animais, entre outros locais. Veja-se Tundratown, um local onde a dupla de protagonistas contacta com Mr. Big (Maurice LaMarche), um gangster poderoso, com uma voz e visual à Don Corleone, com o mafioso a surgir como um dos vários personagens secundários marcantes de "Zootopia". Entre esses personagens encontram-se Benjamin Clawhauser (Nate Torrence), uma chita anafada, que trabalha na recepção da esquadra liderada por Bogo; Yax (Tommy Chong), uma iaque que possui um clube de nudistas; Duke Weaselton (Alan Tudyk), uma doninha que comete pequenos furtos e vende dvds piratas (incluindo uma versão de "Moana", um filme da Disney que ainda não estreou); Fru Fru (Leah Latham), a filha de Mr. Big, uma jovem que gera uma relação de amizade com Judy; Gazelle (Shakira), uma estrela da música pop que prende a atenção de quase tudo e todos; Flash (Raymond S. Persi), uma preguiça que trabalha numa empresa estatal e proporciona alguns momentos hilariantes (que estranhamente me fizeram recordar as horas que demorei para tirar o cartão de cidadão). É um universo narrativo recheado de personagens secundários de relevo, embora Judy e Nick roubem quase todas as atenções. Judy com a sua personalidade algo naïf, com a protagonista a contactar com uma realidade que desconhecia, enquanto procura concluir uma investigação que ganha contornos mais intrincados, sobretudo quando alguns predadores começam a assumir comportamentos selvagens. Esta tem de provar o seu valor num meio dominado por homens, enquanto se envolve numa investigação que a transporta para o interior dos espaços citadinos que parecem saídos dos filmes noir (no caso do clube de nudistas, caberia na perfeição na loucura de "Inherent Vice"), pontuados por personagens de carácter ambíguo, com as causas para os comportamentos de alguns predadores a serem reveladas no último terço da narrativa. Por sua vez, Nick apresenta um feitio aparentemente descontraído, com a sua matreirice a surgir como um contraponto interessante a Judy, com a dupla a formar amizade e uma relação profissional que promete resultar em pleno. Diga-se que esta raposa permite ainda abordar temáticas como o bullying e evasão fiscal, com "Zootopia" a mesclar assertivamente um tom mais sério com diversos momentos de humor, enquanto nos coloca diante de uma espécie de buddy cop film com salpicos de neo-noir. "Zootopia" conta ainda com diversas doses de aventura e investigação policial, com Judy e Nick a enfrentarem uma série de perigos, enquanto conquistam o espectador e ultrapassam as adversidades. Com um trabalho primoroso a nível de animação e um argumento capaz de abordar temáticas relevantes, "Zootopia" promete integrar a lista de clássicos da Disney, com o filme realizado por Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush a superar as expectativas e a apresentar-nos a dois personagens dignos de permanecerem na memória: Judy Hopps e Nick Wilde.

Título original: "Zootopia".
Título em Portugal: "Zootrópolis".
Realizadores: Byron Howard, Rich Moore  e Jared Bush.
Argumento: Jared Bush e Phil Johnston.
Elenco vocal: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, Jenny Slate, Nate Torrence, J.K. Simmons.

Sem comentários: