04 maio 2016

Entrevista a Roni Nunes sobre a edição de 2016 do FESTin

 A edição de 2016 do FESTin decorre entre os dias 4 e 11 de Maio de 2016. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar online Roni Nunes, um dos programadores do Festival. Tal como no ano passado, o Roni Nunes apresentou uma enorme disponibilidade para responder às questões. As perguntas vão desde o processo de selecção dos filmes, passando por questões específicas sobre as obras cinematográficas, até a novidades como o FESTin Arte e o Júri Imprensa.


Rick's Cinema: A edição de 2015 do FESTin correspondeu às expectativas relacionadas com o número de espectadores e da cobertura dos meios online e da imprensa profissional? O que consideras que funcionou melhor e pior na edição do ano passado?


RN: Sim, de uma maneira geral penso que correu bem. De qualquer forma também foi uma edição muito complexa, com mais de um espaço e várias mostras paralelas. Esse ano investimos radicalmente numa racionalização da programação, até para fazermos uma divulgação mais precisa e focada. Quanto à cobertura não temos razões de queixa – o festival foi noticiado na maior parte dos veículos.




RC: Como decorreu o processo de selecção dos filmes?

RN: Este ano recebemos um número recorde de inscrições e alguns filmes da competição saíram deste lote – assim como as obras que compõem todas as outras seções. A competição de longas-metragens de ficção, a Mostra de Cinema Brasileiro e o FESTin Arte, no entanto, foram compostas também através de um olhar atento aos principais festivais de cinema do Brasil. Neste caso, o Festival do Rio, por exemplo, tinha uma quantidade impressionante de títulos e fomos atrás de alguns; o de Brasília contribuiu com dois e “Ausência”, que tinha passado por Berlim, foi o grande vencedor de Gramado.



RC: Nesta fase estamos na "época alta" dos festivais e mostras de cinema, as distribuidoras chegam a marcar catorze estreias para o mesmo dia, ou cinco visionamentos de imprensa para a mesma data, ou seja existe uma torrente de obras cinematográficas para o público e crítica ver, parecendo impossível absorver tudo, ou pior do que isso, conseguir dar o devido valor a cada filme. Tendo em conta este cenário relativamente caótico, como é que consideras que o FESTin se pode posicionar para conseguir chegar quer ao público, quer à imprensa? Basta uma boa programação ou também é preciso ser certeiro na comunicação?

RN: Bom, os festivais têm a grande vantagem de terem um público alternativo – justamente aquele que procura filmes diferentes dos que estão disponíveis no cinema comercial. Essa enorme quantidade de filmes lançados no mês de maio não ajuda esse circuito, mas penso que não afecta os festivais. Quanto à imprensa, no que se refere às notícias o festival não se ressente, pois recebe sempre espaço depois do anúncio da programação e na véspera do arranque.


RC:  O ano passado a programação contou com surpresas, ou confirmações, bastante boas. Veja-se os casos de "A Despedida", "A Vizinhança do Tigre", "O Rio nos Pertence", "Quando eu era vivo", entre outros exemplos. Quais os principais desafios para programar um festival que procura chegar a um leque alargado de público? Conseguiram todos os filmes que pretendiam?

RN: O desafio é equilibrar-se entre o acessível e o exigente – correndo sempre o risco de não agradar a nenhum deles. Mas pelo retorno que tivemos do público no ano passado, todos os filmes, mesmo aqueles mais experimentais, tiveram uma boa acolhida. No entanto, houve uma exceção, o que nos fez ter isso em mente.
 De qualquer forma, não abrimos mão de manter-nos fiel ao espírito dos festivais – de oferecer propostas alternativas e experimentais. Uma das formas de enquadramento foi a criação do FESTin Arte, mesmo contando com o quão vago e abrangente o termo “arte” pode ser. Mas a competição está cheia de títulos que desafiam o espectador, embora convivam com filmes de género. Estes, no entanto, são maioria na Mostra do Cinema Brasileiro. Quanto aos filmes que queríamos, conseguimos todos.  




RC: O filme de abertura é "Cartas de Amor são Ridículas", enquanto a fechar temos "Jonas", com o primeiro a ser realizado por uma cineasta experiente e o segundo por realizadora estreante em longas-metragens. Existiu essa procura de contrabalançar entre a experiência e os novos rostos do cinema brasileiro? Quais as razões para a escolha destes filmes para abrir e fechar o festival?

RN: Segundo a minha experiência como alguém que percorre os festivais todos de Lisboa, as aberturas e encerramentos funcionam bem quando são “feel good movies”. É isto que estes dois filmes são – com o primeiro ainda a estabelecer um vínculo interessante entre Brasil e Portugal, já que o título foi inspirado num poema de Fernando Pessoa. “Jonas” é um filme bastante divertido, que tem romance, policial, drama e aventura – tudo muito bem equilibrado pela realizadora Lô Politi.
 

RC: Quer o "Cartas de Amor são Ridículas", quer o "Jonas", quer o "O Touro", entre outros exemplos são realizados por mulheres. Numa fase onde o debate sobre a igualdade de oportunidades no Cinema (e não só) encontra-se cada vez mais vivo, existiu essa procura de atribuir um destaque às vozes femininas do cinema brasileiro?

RN: Na verdade foi coincidência, o que prova que as mulheres vão cada vez menos precisando de protecionismos, pois podem realizar filmes tanto quanto qualquer homem. Não quero com isso tornar leviano o debate das reivindicações femininas. O ano passado um filme realizado por uma mulher, “Que Horas Ela Volta”, fez uma grande carreira internacional e a realizadora, Anna Muylaert, queixou-se muito do enorme machismo da indústria. No nosso caso posso dizer que foi uma feliz coincidência.



 

RC: O ano passado tiveram o "A Vizinhança do Tigre" na secção de documentários. Este ano voltam a apostar na docuficção, ou pelo menos, num filme que se parece esgueirar entre os diversos géneros e fugir às catalogações fáceis, em particular "O Touro". Existiu esse cuidado de apresentar uma visão da diversidade a nível de documentários que existe no cinema brasileiro? Aproveitando a deixa, o que podemos esperar de "O Touro"?

RN: A docuficção é uma das mais fortes tendências dos grandes festivais internacionais dos últimos anos. Veja-se o caso recente, para dar um pequeno exemplo, de “O Olmo e a Gaivota”, novo trabalho de Petra Costa. O filme ganhou o prémio de Melhor Documentário no Festival do Rio, mas traz, claramente, vários diálogos e cenas inventadas para enquadrar o drama da protagonista.
 No ano passado tínhamos “A Vizinhança do Tigre” como representante deste tipo de registo, que tanto pode competir em ficção quanto em documentário. Este ano dois filmes enquadram-se na tendência – e ambos, cada um a sua maneira, são surpreendentes. De um lado temos “O Touro”, que você cita, um filme que é um documentário tradicional até um certo ponto, quando se transforma em outra coisa… O caso de “Fome” é ainda mais desestabilizador, mas sobre isso não digo nada para não estragar a surpresa.


RC: No caso do "O Touro", encontramos algo que parece marcar algumas obras do Festin, que passa por uma parceria entre Portugal e o Brasil. O "O Touro" conta com a Joana de Verona. A Beatriz Batarda encontra-se no elenco de "Beatriz". Podemos dizer que estes dois exemplos encaixam paradigmaticamente num dos objectivos do Festival, nomeadamente "Fomentar a interculturalidade, a inclusão social e o intercâmbio cultural nos países de língua portuguesa (...)"? Aproveitando ainda a temática do intercâmbio e da interculturalidade, consideras que os filmes oriundos dos países dos PALOP é um dos elementos fundamentais do FESTin?"

RN: Sim, certamente. Há outros exemplos, como “África Abençoada”, que é uma produção portuguesa sobre um ciclista da Guiné que viaja por vários países do seu continente. Já em “O Outro Lado do Atlântico” vai-se ainda mais longe – relatando um intercâmbio de estudantes provenientes de países lusófonos numa pequena cidade brasileira. Certamente que a presença destes filmes é que define a identidade do FESTin como um Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa.



 
RC: Na Competição de Longas-metragens, um dos filmes que mais tem dividido a crítica é "Mundo Cão", realizado por Marcos Jorge. O Rodrigo Fonseca deu quatro estrelas no Omelete e considerou "Mundo Cão": "(...) um filme sólido, que consolida a trajetória autoral de Jorge e sua parceria com Lusa em diálogos que traduzem brutalidade, inquietação e o senso de revanche". Por sua vez o Pablo Villaça deu duas estrelas ao filme e salientou que "(...) a obra não consegue disfarçar sua falta de ambição ou mesmo sua covardia (...)". Como é que te posicionas em relação ao filme e aos trabalhos do Marcos Jorge?  

RN: Bom, concordo com o Fonseca (risos). Acho que o filme é um grande momento do cinema de género, com um argumento magnífico e atores muito bem dirigidos – em especial Lázaro Ramos como um vilão aterrador. A tensão está sempre no pico e há várias cenas memoráveis.



 


RC: Outro dos destaques, ou muito provavelmente, o maior destaque é a presença de "A História da Eternidade", uma obra cinematográfica que foi recebida de forma calorosa pela crítica. Podemos dizer que é um dos grandes destaques desta edição do FESTin? Quais são as justificações para este sucesso junto da crítica?  

RN: Este filme tem sido unanimemente considerado como um exemplo de união de rigor plástico e técnico com emotividade. Há um trabalho de fotografia e arte magníficos, para além dos atores de primeira linha – como o incontornável Irhandir Santos.
 

RC: A secção "FESTin Arte" permite englobar algumas obras cinematográficas destinadas a um público que espera ser desafiado nas salas de cinema. Esse foi um dos objectivos para a criação desta secção? O FESTin Arte é para continuar ou está dependente do sucesso junto dos espectadores? 

RN: Dias Gomes dizia algo como “se não for para provocar, não vale a pena viver”. Bom, as palavras não eram bem essas, mas o sentido é precisamente este: o FESTin Arte é como entrar num outro mundo, numa outra perceção de cinema… é um desafio. E, como tal, veio para ficar. É o caso de “Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois” – um desafio absoluto à sensibilidade do espectador.



 


RC: A FESTin Arte permite ainda exibir a diversidade das produções cinematográficas brasileiras. Veja-se que nesta edição do FESTin contamos com filmes como o "O Touro", ou exemplos que se esgueiram quase para o género como "Mundo Cão", ou "A Floresta que se move", para além de obras cinematográficas que contam com um apelo mais alargado como "Cartas de Amor São Ridículas". Podemos dizer que o cinema brasileiro (com todas as limitações que esta designação envolve) vive um bom período?

RN: O cinema brasileiro vive um excelente momento em termos de produção – sofrendo, como todos os países que não os Estados Unidos, de imensas dificuldades na hora da distribuição. E o FESTin tenta captar esse momento – trazendo obras de género e de autor – e, principalmente, muitos trabalhos entre um e outro. O bom cinema de género foi uma das apostas notórias da programação – encontrar exemplares feitos com inteligência e emoção. Mas trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival.



 

RC: Sei que é uma pergunta delicada para um programador, mas não poderia deixar de efectuar a questão. Quais são os cinco filmes da edição de 2016 do FESTin que aconselharias os leitores a não perderem por nada deste Mundo?  

RN: Muito difícil, realmente. Gosto de pensar que criamos uma competição de longas-metragens de ficção de grande qualidade – de um modo geral.
 

RC: Em termos de júris, existe uma novidade este ano, que é o Júri Imprensa…

RN: Sim, é muito recorrente nos festivais terem vários júris. Não acho que no FESTin, dada a nossa dimensão, tais artifícios se apliquem, mas achamos que havia um espaço para um júri especial, composto exclusivamente por quem vê o cinema do ângulo da crítica. E tivemos sorte de construir um de alto nível – com jornalistas que estiveram no comando das duas maiores revistas de cinema de Portugal e da editoria de cinema num jornal de grande circulação. Foi o caso da Sara Afonso (Empire), do Jorge Pinto (Premiere) e da Aisha Rahim (jornal O Sol).



 

RC: Fazes parte da equipa de programadores e assessores, mas também escreves em meios online como o Sapo e o C7nema. Quais as principais diferenças entre os meios online e impressos, ou imprensa online e escrita, naquilo que diz respeito à cobertura do FESTin/festivais de cinema?

RC: A imprensa escrita costuma se interessar por menos eventos e dedica-se, principalmente, a entrevistas e retrospectivas. No online faz-se de tudo! (risos). Talvez pela própria rapidez de propagação que o online permite - para além de ser menos efémero: um jornal impresso vai para o lixo no mesmo dia; no online as críticas e artigos e ficam visíveis por vários dias, para além de irem parar à uma base de dados que pode ser consultada depois.  


RC: Este ano efectuaste a cobertura da Berlinale. Para além disso, costumas ainda cobrir diversos festivais de cinema nacionais. Essas experiências têm contribuído para o teu trabalho como programador? Existe algum festival a nível nacional que encares como exemplo a seguir a nível da programação e do relacionamento com a imprensa? 

RN: Bom, a Berlinale, tal como o IndieLisboa e Lisbon & Estoril Film Festival, são festivais dedicados, essencialmente, ao cinema de autor. Como jornalista claro que gosto imenso de todos eles e o Festival de Berlim foi uma experiência maravilhosa. Mas, como programador, penso que o FESTin está em melhor sintonia com mostras como as dos cinemas Italiano e Francês, por não trazerem apenas registos autorais mas também bastante espaço ao cinema de género. E, normalmente, com excelente qualidade.
 O Queer também costuma ter uma seleção equilibrada e o Motelx não serve como exemplo para o FESTin, mas serve para mim pessoalmente! Não só por ser fã de terror, mas por também observar um raro trabalho de prospeção que eles fazem de obras obscuras do cinema português.
Eu gosto de cinema como um todo – na verdade o cinema com o qual ando com bem menos paciência é o de Hollywood, com as suas fórmulas, suas pirotecnias para garotos e a sua propaganda política grosseira. Talvez por isso goste tanto de festivais. A nível de imprensa, gosto de todas as assessorias, como uma desonrosa exceção… que obviamente não vou mencionar! (risos).





RC: O Cinema Brasileiro continua a ser mal-tratado em circuito comercial (em Portugal). Veja-se o ano passado a forma pouco criteriosa e praticamente despercebida como o "O Lobo atrás da Porta" foi lançado. O 8 1/2 Festa do Cinema Italiano tem conseguido distribuir alguns filmes que lança no festival. A pergunta que te faço é se está no vosso horizonte conseguir que o FESTin se expanda a esse ponto, ou seja, conseguir trazer e valorizar o cinema brasileiro para o circuito comercial? 

RN: Adoraria que o FESTin conseguisse fazer isso. Talvez no futuro, quem sabe… De resto o cinema brasileiro apenas com raras exceções é lançado por uma distribuidora que o consiga colocar em salas de Lisboa e que faça um mínimo esforço de divulgação. Na verdade só conheço uma – o resto é para queimar filmes. 



 

RC: Última pergunta (que costuma ser a primeira). Expectativas para a edição de 2016 do FESTin?

RN: Espero que consigamos, com os nossos poucos recursos, divulgar o FESTin o suficiente para que o público apareça para a nossa melhor programação de sempre.

RC: Obrigado Roni Nunes pelo tempo despendido nas respostas às questões

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