17 março 2016

Resenha Crítica: "La grande guerra" (1959)

 Mario Monicelli é exímio a encontrar o humor na tragédia. "La grande guerra" exibe essa perícia, bem como o talento de Vittorio Gassman e Alberto Sordi para o humor, com a dupla a apresentar uma dinâmica assinalável e uma capacidade indelével para incutir uma enorme naturalidade na transição entre os momentos mais cómicos e as situações mais sérias. O caso não é para menos, ou Gassman e Sordi não interpretassem dois soldados italianos que se deparam com as dificuldades inerentes aos conflitos bélicos, com a dupla de protagonistas a participar na I Guerra Mundial. Vittorio Gassman interpreta Giovanni Busacca, um indivíduo preguiçoso, armado em esperto, que gosta de questionar os seus interlocutores se já leram Bakunin, tentando evitar cumprir o serviço militar, embora acabe por ser enganado por Oreste Jacovacci (Alberto Sordi). Os dois entram neste conflito sem grande vontade de participarem no mesmo, ou correrem riscos, embora acabem por se deparar com episódios de enorme perigo, incluindo na primeira batalha do Piave. Oreste e Giovanni reencontram-se no comboio que se prepara para transportar alguns soldados até à fronteira, algo que proporciona o primeiro conflito entre estes dois indivíduos que se procuram safar dos perigos, embora acabem por perceber a importância da batalha que se encontram a disputar, o valor da amizade e os sacrifícios protagonizados pelos seus colegas. "La grande guerra" usa assertivamente os planos gerais ou de conjunto para exibir o estranho grupo formado por este contingente humano que padece de enormes privações, enquanto somos apresentados ao quotidiano destes indivíduos quer nos treinos, quer no alojamento onde ficam instalados até partirem para as trincheiras, quer no palco de guerra. É um retrato cru e doloroso, embora pontuado por diversos salpicos de humor, a fazer recordar outras obras de Mario Monicelli como "I compagni", com as influências neorrealistas a parecerem notórias. Monicelli não parece interessado em apresentar heróis livres de defeitos, ou efectuar discursos patrióticos grandiloquentes, preferindo abordar uma história centrada num grupo de militares depauperados, que procura sobreviver e cumprir as ordens, apesar de alguns elementos se insubordinarem e protagonizarem situações de humor. Veja-se no início do filme, quando Giovanni enche a mochila com palha, tendo em vista a não se cansar nos treinos, ou o momento do reencontro entre os personagens interpretados por Gassman e Sordi. Giovanni é um soldado com uma compleição física imponente, uma infantilidade e ingenuidade notórias, bem como um descaramento e uma mordacidade que facilmente conquistam o espectador, algo que se deve não só ao magnífico argumento de Age & Scarpelli (colaboradores habituais do realizador), Luciano Vincenzoni e Mario Monicelli, mas também à interpretação de Vittorio Gassman. Este volta a trabalhar com Mario Monicelli, com quem teve oportunidade para explanar os seus dotes para a comédia em "I soliti ignoti", algo que repete em "La grande guerra", tendo em Alberto Sordi um companheiro de peso.

Sordi e Gassman apresentam uma dinâmica convincente quando estão em conjunto, com Mario Monicelli a dar espaço para os actores comporem personagens que facilmente despertam a simpatia dos espectadores. Monicelli volta a abordar temáticas como a amizade entre um grupo de homens, dá o protagonismo aos elementos à parte da sociedade ou depauperados, expõe um conjunto de figuras que procuram cumprir uma missão ambiciosa que nem sempre parecem capazes de colocar em prática, quase sempre num tom de tragicomédia, exibindo ainda uma habilidade indelével para desferir murros no estômago do espectador ao "livrar-se" novamente de personagens relevantes. Parece praticamente impossível que Oreste e Giovanni consigam escapar das agruras da I Guerra Mundial, algo latente quando são enviados para as trincheiras, após o grupo receber a companhia dos elementos que regressaram da linha de frente. Um desses elementos que integra o grupo de militares que vai partilhar missões com a dupla de protagonistas é Giuseppe Bordin (Folco Lulli), um indivíduo anafado, corpulento, imprevisível, que procura ganhar sempre uns tostões a mais para sustentar a sua esposa e os seus filhos, algo que o conduz a protagonizar alguns episódios mais perigosos. Folco Lulli é um dos vários elementos secundários que se destacam, bem como Tiberio Murgia como Rosario Nicotra, um soldado oriundo de Catânia, que tem uma enorme devoção pela artista Francesca Bertini. Temos ainda figuras como o tenente Gallina (Romolo Valli), um indivíduo que é desde logo alvo de ironia devido ao seu nome, embora esteja habituado às piadolas, surgindo como um elemento dotado de enorme humanidade, algo notório quando ajuda Giacomazzi, um soldado analfabeto, a corresponder-se com a amada. A correspondência de Giacomazzi e a notícia pouco agradável que lhe é ocultada permite explorar as relações que se desfazem ou são mantidas à distância durante este conflito, com os soldados a encontrarem-se privados da presença de figuras femininas. Veja-se o breve momento de destaque dado à esposa de Bordin, um trecho que tanto tem de terno como de comovente e arrasador, com Monicelli a conseguir que nos preocupemos com esta plêiade de personagens. Existe uma dimensão humana indelével nestes personagens, com Mario Monicelli a não ter problemas em mesclar actos estapafúrdios com momentos de algum heroísmo, tendo como pano de fundo alguns dos palcos italianos da I Guerra Mundial, sempre sem enaltecer o conflito. Estes soldados estão longe de serem perfeitos, tal como os seus superiores, com "La grande guerra" a expor-nos a um grupo que nem sempre parece compreender todos os sacrifícios cometidos, contando com condições maioritariamente miseráveis. A comida escasseia, bem como as roupas, as condições de higiene e segurança, com "La grande guerra" a exibir um contingente que se prepara para conhecer baixas de relevo, tomar decisões complicadas e a espaços encontrar algum divertimento no interior de um meio marcado pela violência e a morte. As presenças femininas são escassas, destacando-se Costantina (Silvana Mangano), uma prostituta que desperta a atenção de quase todos os militares, acabando por se envolver com Giovanni (algo que permite reunir Gassman e Mangano, uma dupla que esteve presente no elenco principal de "Riso Amaro"). Silvana Mangano destaca-se nos momentos em que está presente, com a actriz a incutir um tom descontraído e espevitado a esta figura feminina que desperta facilmente as atenções. Constantina tem um filho, algo que permite a Monicelli efectuar um comentário que tanto tem de trágico como de mordaz, quando é dito que o bebé não terá de ir para a guerra, algo que se revela completamente errado, ou a Itália não se envolvesse alguns anos mais tarde na II Guerra Mundial. Os episódios entre Constantina e Giovanni surgem dotados de algum humor, enganos e tentativas de sedução, com Mario Monicelli a conseguir balancear com sucesso os momentos de comédia e os trechos mais trágicos, beneficiando não só de um bom argumento e de um elenco competente, mas também de uma banda sonora capaz de elevar a narrativa, com Nino Rota a ter um trabalho inspirado.

No final, Mario Monicelli deixa-nos diante da puerilidade da guerra, do anonimato daqueles que cometeram grandes feito e as dificuldades sentidas pelos militares, com o cineasta a apresentar um contingente heterogéneo que procura travar os planos do inimigo e vencer o conflito. Veja-se quando procuram destruir uma ponte a todo o custo, embora esse episódio traga perdas humanas, com estes elementos a procurarem combater os adversários austríacos. Por vezes existe espaço para algum humor no meio do conflito, em particular nos tempos mortos, que parecem tão complicados de enfrentar como os momentos em que os soldados se encontram no activo, algo notório quando procuram caçar uma galinha, embora esta passe para a fronteira austríaca. O conflito é violento e exposto sem contemplações, com a morte a poder chegar a qualquer momento. Veja-se quando encontramos Giovanni e Oreste a procurarem ligar a linha ao comando, uma missão de risco, enquanto decorre toda uma acção militar que promete colocar a vida de todos os elementos em perigo. Oreste e Giovanni apresentam muitas das vezes uma atitude temerosa, algo notório quando encontram um austríaco sozinho e receiam disparar, enquanto os seus colegas, a alguma distância, tratam de cumprir a missão. Esta cena permite evidenciar todo o bom trabalho no aproveitamento da profundidade de campo, com Mario Monicelli a expor diversas acções em simultâneo. Veja-se ainda quando encontramos o Tenente Gallina no seu escritório, a falar com Giacomazzi, enquanto conseguimos observar pela janela as movimentações dos soldados. Estes militares contam com diversas proveniências, algo que adensa a heterogeneidade do batalhão. Oreste é proveniente de Roma, Giovanni de Milão, Rosario de Catânia, com cada um a apresentar especificidades muito próprias inerentes às suas personalidades mas também ao local onde habitam. Mario Monicelli preocupa-se com estes personagens, transmitindo esse sentimento para o espectador, enquanto nos confronta com as contradições dos conflitos bélicos. Veja-se o jornal que apresenta os períodos de pausa dos soldados de forma apolínea, embora estes se encontrem a experienciar uma série de privações, ou um acto heroico protagonizado pela dupla de protagonistas que nunca chegará a ter o reconhecimento que merece. Giovanni e Oreste a certa altura começam a exibir uma humanidade desarmante. É certo que são preguiçosos, que temem inicialmente perder a vida, que apresentam atitudes que arrasam por completo com os protocolos e colocam a cabeça em água aos seus superiores, mas também são capazes dos actos mais corajosos e ternos, algo visível quando contactam com a esposa de Bordin. Mario Monicelli mescla eficazmente elementos de comédia e tragédia em "La grande guerra", uma obra cinematográfica que procura explorar o lado mais duro da guerra e as privações dos soldados, bem como o quotidiano destes elementos, enquanto ficamos diante da dinâmica magnífica entre Alberto Sordi e Vittorio Gassman como duas figuras que tanto são capazes de despertar o nosso riso como de comover.

Título original: "La grande guerra".
Título em Portugal: "A Grande Guerra"
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Mario Monicelli, Age & Scarpelli, Luciano Vincenzoni.
Elenco: Alberto Sordi, Vittorio Gassman, Silvana Mangano, Romolo Valli, Folco Lulli, Tiberio Murgia.

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