07 março 2016

Resenha Crítica: "Divorzio all'italiana" (1961)

 Quem pretende ser propositadamente traído pelo seu cônjuge? É provável que poucas pessoas tenham esse desejo. Ferdinando Cefalù (Marcello Mastroianni), o protagonista de "Divorzio all'italiana", uma "comédia à italiana" realizada por Pietro Germi, pretende que a sua esposa cometa adultério, tendo em vista a poder eliminá-la e utilizar a traição como atenuante para defender o seu acto em tribunal. Estamos em plena sociedade siciliana, no período após a II Guerra Mundial, com Pietro Germi a utilizar os estereótipos e alguns elementos associados a este território italiano ao serviço da narrativa, proporcionando ao espectador uma comédia recheada de humor negro, momentos farsescos e situações delirantes. Não faltam sonhos delirantes, discussões acaloradas, escutas planeadas de forma trapalhona, traições, seduções, desejos impossíveis de serem contidos, barões arruinados, uma sociedade marcada por valores conservadores e falsos pudores, enquanto Marcello Mastroianni domina o filme como esta figura peculiar, que pouco ou nada faz na vida para além de planear um meio de se livrar da esposa e poder iniciar uma relação com Angela (Stefania Sandrelli), a sua prima, uma adolescente atrevida. Ferdinando é o protagonista e o narrador de serviço, um sacana armado em esperto que, tal como em diversas "comédias à italiana", prepara-se para bebericar um pouco do próprio veneno no final do filme, com Pietro Germi a não poupar no humor negro. Veja-se os sonhos delirantes do protagonista, com este a pensar em meios peculiares para a morte da esposa, tais como ser cozinhada num caldeirão a ferver, engolida pela areia ou enviada para a Lua. A mente deste indivíduo é bastante criativa e imaginativa, algo notório quando começa a imaginar a defesa que vão efectuar da sua pessoa em tribunal. A esposa de Ferdinando é Rosalia (Daniela Rocca), um mulher extremosa, que ama o esposo, embora este pareça enfadado pela rotina pouco motivante que partilha com uma figura que não deseja. Já Angela representa o fruto proibido, aquilo que o protagonista não pode, ou não deveria tentar, embora a jovem de dezasseis anos de idade procure seduzir o primo e estimular ainda mais a mente delirante do mesmo. Angela é filha de Fifidda (Laura Tomiselli), a irmã de Don Gaetano Cefalù (Odoardo Spadaro), o pai do protagonista, um indivíduo que contraiu dívidas elevadas junto de Don Calogero (Ugo Torrente), o progenitor da primeira e esposo da segunda. As dívidas de Gaetano a Calogero conduzem a que este último habite na melhor ala do palácio, onde vive com Fifidda e recebe a visita de Angela quando esta regressa das aulas, com a jovem a encontrar-se a estudar em regime de internato. Calogero é um indivíduo calvo, algo rude a expor os sentimentos, sem problemas em utilizar a violência e defender os costumes conservadores. Gaetano é um jogador inveterado que perdeu os bens mais valiosos da família, sendo casado com Donna Matilde Cefalù (Bianca Castagnetta), uma mulher relativamente submissa. Estes vivem de rendimentos, com o núcleo familiar a utilizar boa parte do tempo livre para discutir, procrastinar ou visitar a igreja, um espaço religioso onde todos se procuram redimir dos seus pecados, embora isso não impeça a má língua e os constantes falatórios sobre as vidas uns dos outros. Pietro Germi apresenta este território e as suas gentes de forma mordaz, com o cineasta a aproveitar os espaços exteriores, filmados na Sicília, ao serviço da narrativa, algo que atribui um tom relativamente realista a uma obra cinematográfica que não tem problemas em expor e explorar os absurdos dos valores conservadores pelos quais se regem diversos personagens deste espaço.

  O território da Sicília e as suas gentes é algo que atravessa parte da filmografia de Pietro Germi, incluindo "Sedotta e abbandonata", o segundo volume de uma trilogia informal de "comédias à italiana", iniciada por "Divorzio all'italiana" e concluída com "Signore & signori", pontuada por uma sátira a uma sociedade dominada pelas falsas aparências, leis e hábitos muito próprios (ou retrógrados), personagens peculiares, traições, entre outros exemplos. No caso de "Divorzio all'italiana", Ferdinando procura aproveitar os valores do território para conseguir uma pena de prisão diminuta, com os seus planos a conhecerem um avanço quando descobre que Carmelo Patanè (Leopoldo Trieste), um pintor que supostamente tinha falecido a cumprir serviço militar durante a II Guerra Mundial, é a antiga paixão de Rosalia. Ferdinando contrata os serviços de Carmelo para restaurar os frescos do palácio, procurando reunir regularmente a esposa com o antigo namorado, enquanto grava atentamente as conversas entre ambos. A chama antiga que existe entre o antigo casal demora a reacender, com Ferdinando a procurar fazer de tudo para conseguir que Carmelo e Rosalia desfrutem de algum tempo a sós e coloquem a conversa em dia. O plano não corre totalmente como o esperado, embora o resultado seja o desejado pelo protagonista, com este a ter de utilizar a imaginação para conseguir atingir os seus desideratos. Na conclusão, Pietro Germi dá a ilusão de que Ferdinando se safa, embora os planos finais despertem um sorriso no espectador e exibam o humor negro que pontua o enredo de "Divorzio all'italiana". Marcello Mastroianni é o elemento do elenco que mais se destaca, com o actor a sobressair como um sacana entediado que desperta a nossa simpatia, apesar de procurar cometer um assassinato, enquanto nos deliciamos a tentar perceber como esta figura patética vai conseguir colocar as suas tramoias em prática. O actor incute um estilo descontraído a este personagem que vive de rendimentos e deseja a prima, algo latente quando espreita regularmente a mesma, com Pietro Germi a explorar os desejos de cariz sexual dos personagens ao mesmo tempo que nos faz rir das figuras de Ferdinando, também conhecido como Fefè. Pedir o divórcio está fora de questão, com os desejos de Fefè a chocarem de frente com os valores da sociedade da época, enquanto este apresenta uma alegria notória a partir do momento em que é apelidado de "corno" por boa parte da população. Diga-se que esta é uma sociedade patriarcal, muito marcada pelas aparências, algo latente quando a igreja estimula os fiéis a falharem a estreia de "La Dolce Vita", embora a maioria dos elementos aproveite a oportunidade para visionar o filme de Federico Fellini. O argumento é inteligente a explorar as temáticas e as dinâmicas entre os personagens, apresentando alguns momentos de humor deveras inspirados ao mesmo tempo que "finca o dente" na sociedade siciliana da época e explora as especificidades deste território, a partir do qual que parece ser possível evidenciar as assimetrias culturais e sociais de Itália. Todos em Agramonte, a cidade onde se desenrola o enredo, parecem viver de aparências, com as idas à Igreja a esconderem os longos diálogos dos homens sobre mulheres, enquanto a aparente pompa de Ferdinando não passe de uma fachada, com o seu título de barão a trazer prestígio embora não condiga com as finanças deste indivíduo.

  Pietro Germi consegue aproveitar boa parte do elenco principal do filme, com uma fatia importante do sucesso de "Divorzio all'italiana" a resultar exactamente da capacidade do cineasta em apresentar uma miríade de figuras que despertam o nosso interesse. Veja-se o caso de Rosalia, com Daniela Rocca a conseguir exprimir a ingenuidade desta mulher que apresenta um riso estridente, um buço saliente e uma incapacidade notória para estimular o protagonista, encontrando em Carmelo uma figura capaz de terminar com a sua solidão. Carmelo é um elemento tímido e casado, algo que promete ser um problema acrescido para o casal adúltero, com "Divorzio all'italiana" a não poupar nas relações intrincadas e nas traições. A jovem Angela é uma falsa ingénua, com esta a gostar de provocar os homens que a rodeiam, despertando o desejo do primo mais velho, um sentimento que é mútuo. A personagem interpretada por Stefania Sandrelli surge como o motor que alavanca os desejos mais negros de Ferdinando, com esta adaptação cinematográfica do livro "Un delitto d'onore", a colocar o espectador diante de um indivíduo entediado que engendra um plano intrincado, tendo em vista a aproveitar a lei e os valores locais. Diga-se que, logo no início de "Divorzio all'italiana", somos colocados diante do protagonista, a expor de forma sardónica o espaço de Agramonte e as suas gentes, até Pietro Germi utilizar um flashback que termina apenas no último terço, com uma viagem de comboio a unir estes dois momentos situados entre o presente e o passado de Fefè. Os cenários exteriores deste espaço citadino são bem aproveitados ao serviço do enredo, embora seja impossível deixar de destacar o interior do palácio da família de Ferdinando. Este é um espaço de largas dimensões, construído há muito tempo, sendo povoado por gentes com valores morais tão diminutos como as suas posses financeiras, com Pietro Germi a utilizar este cenário de forma inspirada. Veja-se as longas correrias de Ferdinando, em direcção a uma sala fechada, para conseguir ouvir as conversas entre a esposa e Carmelo, ou a presença de uma ventoinha na primeira divisória para expressar o calor que assola este território, as almas e os corpos; a utilização do espaço da casa de banho para ver o interior do quarto onde Angela se encontra instalada, entre outros exemplos. A cinematografia é importante, sobretudo nos momentos voyeuristas dos personagens, com o trabalho de câmara a sobressair ainda no final, quando uma troca de carícias entre pés transmite sedução e desperta o riso junto do espectador. A casa conta ainda com a presença de Agnese (Angela Cardile), a irmã do protagonista, uma mulher expansiva, que procura contrair matrimónio com Rosario Mulè (Lando Buzzanca), um indivíduo que trabalha numa agência funerária. É sobre estes personagens que incide boa parte da narrativa de "Divorzio all'italiana", com Pietro Germi a abordar diversas questões associadas aos costumes das gentes deste território da Sicília, ao mesmo tempo que nos coloca diante de um protagonista com poucos valores morais, que se procura livrar da esposa e assumir uma relação com a prima, com Marcello Mastroianni a criar um personagem que resulta na perfeição no interior desta comédia negra recheada de momentos e diálogos memoráveis.

Título original: "Divorzio all'italiana". 
Título em Portugal: "Divórcio à Italiana".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Ennio De Concini, Pietro Germi, Alfredo Giannetti, Agenore Incrocci.
Elenco: Marcello Mastroianni, Daniela Rocca, Stefania Sandrelli, Leopoldo Trieste, Odoardo Spadaro.

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