31 julho 2015

Resenha Crítica: "La prochaine fois je viserai le coeur" (Na Próxima, Acerto no Coração)

 Franck Neuhart (Guillaume Canet), o protagonista de "La prochaine fois je viserai le coeur", é um gendarme aparentemente tímido, de gestos relativamente comedidos, que parece dado a cumprir as regras e pouco disposto a admitir faltas de respeito para com a sua pessoa, estando, em conjunto com os seus colegas, a investigar o caso de um serial killer que se encontra a atacar brutalmente jovens mulheres e a entregar cartas ameaçadoras às autoridades (uma espécie de "Zodíaco"). A identidade do assassino não nos é escondida, bem pelo contrário, com Cédric Anger, na sua terceira longa-metragem como realizador, a jogar as suas cartas na tensão gerada por esta situação, colocando o espectador a saber mais do que a maioria dos personagens, um método utilizado de forma sublime por cineastas como Alfred Hitchcock em obras como "Rope". Ficamos desde os momentos iniciais diante da identidade do serial killer, uma revelação que é gerida de forma assertiva por Cédric Anger, com este a colocar as incertezas em relação ao momento em que o assassino será descoberto como um dos pontos fortes do enredo, com o cineasta e argumentista a saber explorar esta situação de forma competente. O assassino é Franck Neuhart, com este a assumir simultaneamente a faceta de defensor da autoridade (durante o horário de trabalho) e criminoso (durante o período de pós-laboral, ou seja, uma espécie de identidade secreta ainda que para fins menos recomendáveis), algo que permite ao argumento explorar esta dualidade do protagonista, com Guillaume Canet a conseguir desenvolver tanto o lado mais delicado deste personagem como o mais feroz, ficando quase sempre implícita uma homossexualidade reprimida do mesmo que ajuda a explicar alguma falta de conforto em relação às mulheres. Este tanto é capaz de embater brutalmente com o seu veículo em Alice (Jade Henot), uma jovem que se encontra a circular de mota, como logo de seguida, percebendo que esta continua viva, procura interrogá-la no hospital e pega suavemente na sua mão, prometendo encontrar o culpado. Este toque na mão, bem como a delicadeza inicial com que trata Sophie (Ana Girardot), são alguns dos exemplos da faceta mais "angelical" deste personagem que é visto inicialmente como um homem da confiança por parte de Lacombe (Jean-Yves Berteloot), o seu superior. Diga-se que a confiança que este personagem gera na nossa pessoa é quase sempre muito pouca, algo notório quando procura que o carro que utilizara para atropelar Alice expluda assim que seja aberto, não tendo problemas em deixar um colega seu abrir o mesmo, com Tonton (Patric Azam), o indivíduo que se encontrava a liderar o quarteto responsável por se dirigir ao local, após a tentativa de assassinato por parte Franck, a ordenar para abrirem o veículo, sem esperarem pelas autoridades competentes para o fazer. A noite é pontuada não só pela escuridão mas também pela frieza que marca a mesma, com o carro a apresentar sinais de se encontrar molhado pela chuva, com o quotidiano fervilhante destes personagens a contrastar com a temperatura ambiente.

 A explosão do carro foi um bom sinal para Franck que se esquecera das luvas no veículo, enquanto logo de seguida assistimos a mais estranhos hábitos deste homem tais como auto-flagelar-se, em actos punitivos sobre a sua própria pessoa, entre os quais vergastar-se nas costas, ou andar com pedras nos sapatos, ou a prender arame farpado no braço, mas também a escrever cartas anónimas onde revela que "Meninas de dezanove anos que passeiam de forma provocante à noite são os alvos que mais me atraem", para além de expor junto da polícia que voltará a atacar, com os seus textos a exprimirem uma certa revolta para com a humanidade. O personagem interpretado por Guillaume Canet é um indivíduo desequilibrado que vive sozinho, num apartamento que mais tarde descobrimos contar com espaços fechados que dizem muito da desorganização da sua mente e dos objectivos do protagonista, com uma das cenas iniciais, onde a iluminação, oriunda da luz reflectida nos estores, praticamente indica umas grades, a simbolizar imenso, em particular um futuro onde este gendarme será detido. Este recurso da iluminação reflectida através dos estores a dar efeitos de grades remete para os filmes noir, com o próprio enredo a ser marcado por personagens moralmente duvidosos, a noite dominada pelo crime e insegurança, uma atmosfera de malaise a ponto de não se poder confiar nem na polícia, entre outros exemplos que podem servir ainda para fazer a ligação a este subgénero que nos brindou com alguns magníficos exemplares cinematográficos. A atmosfera que rodeia o enredo de "La prochaine fois je viserai le coeur" é de malaise, com a narrativa a decorrer no período a rondar os anos de 78 e 79 do Século XX, durante o Inverno. O argumento de Cédric Anger foi baseado no livro "Un assassin au-dessus de tout soupçon" de Yvan Stefanovitch, inspirado num caso real que ocorreu entre 1978 e 1979 no departamento de Oise, em França, com "La prochaine fois je viserai le coeur" a procurar expor esta situação logo no início do filme: "Este filme foi baseado numa das mais estranhas histórias criminais francesas. O que é apresentado foi retirado de documentos oficiais, processos verbais e entrevistas com pessoas envolvidas. Sendo um filme de ficção, por vezes os autores usaram a própria imaginação para fazerem a interpretação deles da história real". Cédric Anger procura atribuir algum realismo ao enredo, algo  que, em diversos momentos, torna complicado de seguir o mesmo, parecendo quase impossível sentir simpatia pelo personagem interpretado por Guillaume Canet, com o actor a contribuir para isso, pese os momentos em que esboça alguma humanidade. Veja-se quando oferece um vinil a Sophie, ou ensina treino militar a Bruno (Arthur Dujardin), o seu irmão mais novo, ou procura demonstrar algum interesse na personagem interpretada por Ana Girardot embora não consiga esconder o pouco desejo sexual que tem pela mesma (e por qualquer outra mulher), uma situação que piora devido à sua mente ser caótica e, muitas das vezes, auto-destrutiva. O momento em que se encontra no bosque, com o irmão, é simbolizador das dicotomias deste personagem, que tanto parece estar próximo do familiar como apresenta uma frieza letal a ensinar a disparar uma espingarda. Franck tanto se encontra a meditar num momento de aparente calmaria como logo observa um conjunto de minhocas a remexerem-se na lama de forma desordenada, quase a parecer a sua mente disfuncional a trabalhar, em situações onde a cinematografia de Thomas Hardmeier se destaca, com este a fazer sobressair o território selvagem, marcado por árvores despidas, pouca iluminação e tonalidades pouco garridas, transmitindo uma frieza que muitas das vezes permeia os actos do personagem interpretado por Guillaume Canet. A luz natural é particularmente bem aproveitada nestes momentos, com a pouca presença da mesma e as tonalidades acinzentadas dos céus a contribuírem para expor toda uma atmosfera que está longe de transmitir os sentimentos mais radiantes ou felizes, embora exibam o cuidado colocado a nível estético na elaboração de "La prochaine fois je viserai le coeur". 

A saída com o irmão mais novo é precedida de um almoço de Franck na casa dos pais, onde a mãe (Hélène Vauquois) expõe a preocupação por este continuar solteiro, com o pai (Jean-Paul Comart) do protagonista a pedir algum comedimento apesar de também se rir sobre uma piada relacionada com a falta de capacidade do gendarme em perceber que Sophie encontra-se interessada no mesmo (a má relação com a mãe pode servir como outra das explicações dos ataques de Franck às mulheres). Franck é um indivíduo que vai da calma à fúria com enorme facilidade, parecendo muitas das vezes tão frio como incapaz de controlar os seus ímpetos, com algumas das suas acções contra as vítimas a nem sempre estarem totalmente preparadas contra alguns contratempos de última hora. Quando se encontra a urinar na casa de banho de um bar, Franck encontra um papel com um número de telefone de uma prostituta, procurando os serviços da mesma, embora tenha uma surpresa caricata e desagradável que vai despertar o seu lado mais violento. O enredo é repartido entre as acções de Franck durante a sua vida pessoal e a sua rotina profissional, com o protagonista a estar envolvido numa busca onde o elemento procurado é ele próprio, uma situação que lhe concede uma vantagem aparente, sobretudo por inicialmente ninguém parecer suspeitar que o assassino encontra-se no interior da própria unidade de investigação. A busca é marcada por esta situação caricata, onde ficamos na dúvida em relação ao momento em que Franck será ou não capturado e condenado, para além de observarmos algumas rivalidades entre os gendarmes e os investigadores da polícia, embora estes últimos raramente sejam devidamente desenvolvidos. A investigação é demorada e, por vezes, parece que não vai dar a lado nenhum, sendo marcada por algumas rondas efectuadas pelos polícias, sobretudo a partir do momento em que uma vítima que sobreviveu elaborou uma descrição visual do criminoso, algo que permitiu desenvolver um retrato que apresenta semelhanças notórias com o protagonista. O retrato é o primeiro sinal que a situação começa a ruir para Franck, com este a receber a notícia no interior da esquadra onde se encontra a sua unidade, um cenário utilizado de forma esporádica ao longo do enredo. Os crimes fazem parte do quotidiano de Franck com este a não conseguir controlar os seus ímpetos, ficando particularmente na memória a forma desprovida de sentimento como este atira as suas vítimas porta fora dos veículos, com Cédric Anger a apresentar-nos aos ataques de formas distintas, tornando-nos quase cúmplices destes actos do psicopata. Aos poucos sentimo-nos também culpados por estes crimes, com Cédric Anger a deixar o espectador diante da rotina deste personagem, tornando-nos quase voyeurs, algo notório em casos como aquele em que transporta Melissa (Alice de Lencquesaing) e o realizador mantém-na a falar com o protagonista, aumentando a tensão até este irromper com tiros e o carro ficar coberto de sangue. Segue-se outro ataque onde, ao invés de ficarmos maioritariamente com o serial killer e a vítima no interior do carro, o cineasta prefere optar por nos deixar a uma certa distância, enquanto assistimos aos disparos que ocorrem de rompante no veículo. O nojo que o protagonista sente em relação ao sangue é latente, bem como a sua preocupação em limpar rapidamente o veículo e retirar todas as suas impressões digitais do mesmo. Diga-se que as matrículas destes veículos são falsificadas por Franck, algo exposto ao som da canção "The Black Angel's Death Song" dos Velvet Underground, com a banda sonora a ter uma relevância notória na narrativa, sobretudo para adensar esta atmosfera de tensão e malaise que rodeia este enredo negro, onde os desequilíbrios do foro mental do protagonista prometem conduzi-lo à desgraça.

 Ficamos diante de um gendarme pouco confiável, um criminoso desequilibrado cujos actos são imprevisíveis, escolhendo as vítimas ao acaso, desde que sejam jovens mulheres, enquanto enceta fugas que nem sempre parecem poder vir a correr bem. Ainda tenta manter um caso com a bela Sophie mas cedo demonstra a sua frieza de sentimentos, tanto sendo capaz de procurar abraçá-la atrapalhadamente numa dança como de enxotar o gato desta ou dormir com a personagem interpretada por Ana Girardot e logo de seguida mostrar-se algo repugnado e pedir para esta não se maquilhar muito para não se parecer com uma puta. A sua visita a uma zona conhecida por encontros entre homossexuais demonstra o quanto este reprime a sua orientação sexual, algo ainda latente quando um colega fala de forma pejorativa sobre o possível gendarme homossexual que procuram, com o olhar de esguelha que lhe lança a ser mais revelador do que mil palavras. O argumento explora a complexidade deste personagem de forma assertiva, colocando-nos diante do quotidiano de um louco que deveria defender a lei mas ao invés disso prefere eliminar jovens mulheres, com Guillaume Canet a conseguir sobressair como este personagem que facilmente consegue deixar marca. A espaços alguns colegas da esquadra têm peso na narrativa, sobressaindo Jean-Yves Berteloot como Lacombe, um indivíduo com uma presença forte, que inicialmente parece acreditar no protagonista, embora a figura secundária que mais se destaque talvez seja Sophie, com Ana Girardot a interpretar uma mulher que também conta com os seus segredos, embora bem menos negros do que aqueles que o protagonista esconde. Se Canet interpreta um personagem com alguma dificuldade em expressar-se de forma calorosa, já Girardot apresenta um brilho que facilmente nos convence do interesse de Sophie neste estranho gendarme, com a actriz a procurar algo que parece muito difícil de concretizar, ou seja, ser amada por Franck. Aos poucos ainda nos questionamos sobre o que poderá acontecer a esta mulher, com Franck a ser imprevisível em relação aos seus gestos, com os longos momentos em que circula pelo carro a poderem simbolizar que está em trabalho ou que vem aí perigo. Não vão faltar momentos de Franck a circular pelas estradas ou por terrenos lamacentos ou isolados, com este a alugar carros de forma amiúde, procurando escapar-se dos seus colegas embora percebamos que será uma questão de tempo até ser capturado. Os momentos dos gendarmes na estrada revelam algumas das suas dinâmicas de trabalho, embora as cenas que mais despertam à atenção são quando Franck se encontra isolado diante dos seus mórbidos pensamentos e percebemos que este tem enormes dificuldades, inclusive a conviver consigo próprio e as suas ideias. Thriller que nos transporta para o lado negro de um polícia com traços de serial killer, "La prochaine fois je viserai le cœur" embrenha-se pela mente deste homem complexo, mentalmente desequilibrado e perigoso de cujos actos aos poucos nos tornamos cúmplices, numa obra tensa, bem estruturada e marcada por uma interpretação bastante recomendável de Guillaume Canet.

Título original: "La prochaine fois je viserai le coeur".
Título em inglês: "Next Time I'll Aim for the Heart". 
Título no Brasil: "Na Próxima, Acerto no Coração".
Realizador: Cédric Anger.
Argumento: Cédric Anger.
Elenco: Guillaume Canet, Ana Girardot, Jean-Yves Berteloot, Patrick Azam, Alice de Lencquesaing.

30 julho 2015

Resenha Crítica: "The Talented Mr. Ripley" (1999)

 Tom Ripley (Matt Damon) é um jogador. Joga com as vidas humanas e os relacionamentos como se fossem meras peças de um tabuleiro de xadrez. É descrito como uma sanguessuga e em certa parte essa descrição não é assim tão descabida para caracterizar o protagonista de "The Talented Mr. Ripley", com este a exibir ao longo do enredo a sua enorme capacidade para assumir as identidades alheias. Como este salienta numa conversa, as suas maiores qualidades são "Falsificar assinaturas, contar mentiras, persuadir praticamente qualquer pessoa", algo que expõe paradigmaticamente o carácter deste personagem que não parece perder uma oportunidade para tirar benefícios das situações em que se envolve, mesmo que para isso tenha de prejudicar e matar aqueles que o rodeiam. No início deste filme cujo enredo se desenrola durante a década de 50, encontramos este personagem a tocar piano com a farda de Princeton, com Herbert Greenleaf (James Rebhorn) a acreditar que Ripley esteve na mesma turma que Dickie Greenleaf (Jude Law), o seu filho, um indivíduo que partiu para Itália, mais precisamente para Mongibello, um local situado no sul de Nápoles, tendo no jazz a sua grande paixão. Tom estava apenas a substituir o pianista que deveria estar no local mas Herbert não tem conhecimento disso, pensando que o personagem interpretado por Matt Damon conhece o filho. Herbert oferece-se a pagar mil dólares para Ripley convencer Dickie a regressar a casa, ao invés de ficar em Itália onde se encontra a gastar a mesada dada pelo pai, enquanto vive com Marge (Gwyneth Paltrow), a namorada, uma mulher que se encontra a escrever um livro. Tom Ripley inicialmente parece esboçar alguma relutância mas logo parte para Itália, procurando estudar Dickie ao máximo, ao ponto de aprender a falar italiano, observá-lo com Marge na praia, saber os seus gostos musicais, as suas saídas, até entrar em contacto com o mesmo. Primeiro fala com Dickie na praia, diz-lhe que o conhecia de Princeton embora o primeiro não se lembre de si. Ambos acabam por formar amizade, com Marge a também parecer apreciar a personalidade de Tom. Este parece fazer de tudo para agradar ao casal, algo que se deve sobretudo a ser um indivíduo estudioso, observador e dissimulado que aos poucos começa a assumir os trejeitos de Dickie em parte devido a admirar o mesmo. É então que revela a Dickie que o pai dele o enviou, com ambos a decidirem enviar uma carta a Herbert, enquanto utilizam o dinheiro do mesmo para proveito próprio. Ripley finge-se algo incomodado com a situação, mas vai aproveitando a mesma para estudar a letra do personagem interpretado por Jude Law, conhecer os seus amigos, entre os quais Freddie Miles (Philip Seymour Hoffman), um indivíduo com vários conhecimentos nos clubes nocturnos ligados a jazz, bem como Peter Smith-Kingsley (Jack Davenport). O protagonista fica a partilhar a casa de Dickie, surgindo quase como um irmão para este, embora aos poucos comece a existir alguma erosão no relacionamento entre ambos. Dickie é um indivíduo extrovertido, capaz de formar largas amizades, pensando em casar-se com Marge embora traia-a sem grandes problemas. O jazz é a paixão de Dickie, com "The Talented Mr. Ripley" a exibir isso mesmo quando desloca o personagem e Ripley a um clube nocturno e ambos participam na cantoria no palco, com a música a ter um papel de relevo no filme, enquanto Jude Law e Matt Damon exibem uma dinâmica convincente nos momentos de maior fraternidade  entre os personagens que interpretam. A morte de uma amante de Dickie, que se encontrava grávida do mesmo, traz algumas dúvidas sobre a personalidade deste homem, com uma discussão mais acalorada entre este e Ripley a conduzir o protagonista a eliminar aquele que supostamente deveria fazer regressar a casar. O assassinato parece dever-se mais a uma situação proporcionada pelo calor do momento do que algo premeditado, embora o protagonista aproveite a ocasião para expor a sua habilidade para a dissimulação.

Os momentos aparentemente idílicos em Itália poderiam tornar-se um pesadelo, mas Ripley começa um perigoso jogo ao assumir inesperadamente a identidade de Dickie. Ripley utiliza a assinatura de Dickie para levantar dinheiro do banco e comprar roupas caras, para além de alugar uma casa luxuosa, preparando-se para levar uma vida dupla ao mesmo tempo que procura esconder a verdade de Marge e dos conhecidos do personagem interpretado por Jude Law, uma tarefa que nem sempre será fácil. Matt Damon tem uma interpretação certeira como Tom Ripley, conseguindo explorar com a mesma facilidade tanto o lado observador e meticuloso do personagem que interpreta como uma faceta mais prática e violenta. A personalidade de Ripley é um enigma, com Matt Damon a conseguir explorar esta faceta enigmática do personagem que interpreta, enquanto o protagonista procura inicialmente agradar a tudo e a todos ao mesmo tempo que estuda os seus interlocutores. Não deixa de parecer um indivíduo dissimulado e pouco confiável, com o seu apagamento diante dos restantes elementos a surgir mais como uma estratégia do que propriamente algo inerente à sua personalidade, embora pareça inicialmente admirar Dickie e todo o estilo de vida deste. A sua relação com Dickie parece variar entre a cumplicidade, o interesse e o desejo sexual, com Jude Law a atribuir uma mescla de simpatia e egoísmo ao personagem que interpreta, um indivíduo que tanto é capaz de assumir a vontade em casar com Marge como traí-la com outra mulher. Dickie parece despreocupado com a vida, nunca tendo de lutar por nada para conseguir aquilo que pretende, habitando numa idílica e solarenga zona de Nápoles com a sua amada, tendo no jazz a sua maior paixão, apesar de não ter grande talento para a música, surgindo como um personagem nem sempre capaz de despertar a nossa simpatia. O relacionamento de Dickie com o pai é complicado, apesar da mãe estar doente, embora mais tarde até saibamos as razões para esta erosão da relação entre ambos, enquanto Marge fica num estranho papel da vida deste elemento, variando entre uma relevância e cumplicidade notórias e um afastamento latente devido a este por vezes dar prioridade aos amigos e não só. Marge chega a salientar que "Estar com Dickie é como o brilho do Sol estar sobre ti, quando ele se esquece torna-se muito, muito frio". Esta é uma mulher fiel ao namorado que parece amar mesmo Dickie e aos poucos desconfia de Tom, sobretudo após o desaparecimento do primeiro. Gwyneth Paltrow não tem muito para fazer, mas consegue dar à sua personagem a radiância que a levou a chamar a atenção de Dickie, surgindo como o elemento mais perspicaz a julgar Tom no último terço. O trio passa inicialmente por alguns momentos idílicos, exacerbados pela cinematografia de John Seale, mas também por diversas complicações, com Anthony Minghella a deixar-nos perante uma narrativa negra onde a imoralidade, a mentira e a dissimulação estão muito presentes. Desde o início a jornada de Tom é marcada por uma mentira, com este a não ter sido colega de Dickie, nem apreciar assim tanto quanto isso música jazz, acabando por formar amizade com a sua futura vítima ao mesmo tempo que tem de procurar estabelecer um plano pontuado por diversas improvisações para escapar incólume aos seus actos, após ter cometido um assassinato que não parece ter planeado. Pelo meio temos uma investigação policial e privada, com os pitorescos cenários italianos, explorados com acerto por Anthony Minghella, a facilmente ganharem uma aura sombria devido aos actos do protagonista desta obra cinematográfica, baseada em "The Talented Mr. Ripley" de Patricia Highsmith. O enredo facilmente consegue inquietar-nos em relação a Ripley e aos seus planos, fascinando-nos de forma mórbida pela sua desfaçatez de assumir uma identidade que não é a sua e esconder os seus actos, ao mesmo tempo que ficamos sempre com enorme curiosidade em saber os seus próximos passos, com o argumento de Anthony Minghella a sobressair pela forma sagaz como nos mantém presos a estes acontecimentos.

Ripley é um protagonista de uma malícia extrema e enorme capacidade para improvisar, mas nem por isso apaga os restantes personagens que o rodeiam. Veja-se os casos de Philip Seymour Hoffman como Freddie, um indivíduo bem relacionado, com uma personalidade semelhante a Dickie, mas também Cate Blanchett, com esta a interpretar Meredith, uma mulher que se envolve várias vezes no caminho de Ripley e ameaça poder perigar o disfarce deste. É no aeroporto, logo quando se encontra a chegar a Itália, que Ripley finge junto desta ser Dickie, algo que aos poucos passará a ser um hábito do protagonista a partir do momento que se livra do personagem interpretado por Jude Law. Anthony Minghella consegue quase sempre manter o nosso interesse nos próximos actos do seu protagonista. Irá escapar à justiça? Irá ser apanhado pelos amigos ou conhecidos de Dickie? Quais os seus próximos passos? "The Talented Mr. Ripley" deixa-nos perante os actos do protagonista como se este fosse um exímio jogador de xadrez, de uma frieza e inteligência extremas, antecipando-se aos seus opositores. Gradualmente envolve-se na vida de Dickie, passando a habitar na sua casa, passeando com este, Marge e Freddie no barco, para além de visitar o clube de jazz preferido do mesmo. Aos poucos começa até a assumir hábitos e um visual próximo a Dickie, algo revelador da aproximação entre ambos mas também de algum plano mais malicioso. Essa proximidade não impede que elimine Dickie de forma violenta e brutal. A violência é algo que está presente ao longo do filme, sobretudo devido aos actos do protagonista, com Matt Damon a conseguir, apesar de todos os gestos de Ripley, que este não seja um personagem que nos consiga repelir. É exactamente esse ar de "boa pessoa" que faz com que Ripley passe incólume perante tantas situações delicadas, sobretudo junto do pai de Dickie, quando este se desloca a Itália para saber novidades sobre o filho, com Matt Damon a nunca atribuir um tom temível ao personagem que interpreta. Existe um momento que define bem Ripley. Quando Dickie está prestes a colocá-lo fora, finge deixar cair a pasta que traz consigo, na qual se encontram vinis de cantores jazz. É revelador do calculismo de Tom Ripley, da sua preparação extrema e frieza nos momentos decisivos, conquistando desde logo o interlocutor com o gosto em comum. O próprio guarda-roupa combina com os personagens. Dickie e Marge quase sempre mais descontraídos, enquanto que Ripley mais introvertido e pronto a não se expor, até começar a aproximar-se do estilo do primeiro. A própria orientação sexual de Ripley não é inicialmente clara. Tanto procura seduzir Meredith como tem momentos de intimidade com Peter Smith-Kingsley e parece ter um claro interesse sexual em Dickie, com os últimos episódios a desfazerem as dúvidas em relação a este quesito, embora demonstre por várias vezes admirar e desejar o personagem interpretado por Jude Law. Ripley é um enigma que muitas das vezes procuramos decifrar, um homem que fica fascinado pelo estilo de vida que conquista ao assumir a identidade de outra pessoa, ao longo desta obra onde as lições morais são deixadas de lado, a imoralidade toma conta dos actos de vários personagens e os idílicos cenários italianos são palco de vários crimes, com Anthony Minghella a mesclar a beleza destes territórios com a morbidez de alguns actos do protagonista. Vale a pena realçar que esta é a segunda adaptação de "The Talented Mr. Ripley" ao cinema, com a primeira a ter o título "Plein Soleil" e a ser protagonizada por Alain Delon. Nem todos os remakes e novas adaptações são maus, algo comprovado por Anthony Minghella com este a controlar praticamente na perfeição os ritmos da narrativa e criar um thriller envolvente, permeado por romances fugazes e relações de interesse, amizades forjadas e destruídas, paisagens belíssimas e cenários luxuosos que se podem transformar em locais claustrofóbicos, num filme que nos compele a querer seguir todos os passos do seu dissimulado e intrigante protagonista, um elemento com uma enorme capacidade de improvisação, interpretado assertivamente por Matt Damon.

Título original: "The Talented Mr. Ripley".
Título em Portugal: "O Talentoso Mr. Ripley".
Realizador: Anthony Minghella.
Argumento: Anthony Minghella.
Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Jack Davenport, James Rebhorn, Sergio Rubini.

29 julho 2015

Estreias da semana - 30 de Julho de 2015

Boa-tarde, caros leitores, e bem-vindos a mais um post das estreias da semana.

A partir de amanhã, dia 30 de Julho, vão estrear sete novos filmes nas salas de cinema portuguesas, que como de costume separarei, inicialmente, por género e nacionalidade.

Nesta semana denota-se que as nacionalidades são particularmente diversas, como se comprova logo na co-produção internacional "Pixels", protagonizada por Adam Sandler, que provém dos Estados Unidos, do Canadá e da China. Também dos Estados Unidos chega-nos o thriller "À Prova de Fogo",

Chegam-nos igualmente algumas obras europeias, como a britânica de ação e ficção-científica "A Supremacia dos Robots"; a comédia francesa "Babysitting - Loucura Fora de Horas" e o português "O Pátio das Cantigas", uma "nova versão" do famoso filme de 1942.

Teremos ainda o australiano "O Predestinado" e o drama chinês "Regresso a Casa", que são as obras que mais destaque merecem, nesta semana que, de resto, não levanta grandes expectativas.


O filme que realçamos antes de mais é "Regresso a Casa", o novo do cineasta chinês Zhang Yimou, que o Aníbal já viu e apreciou, tendo-lhe mesmo escrito uma crítica que termina da seguinte maneira: «Temos também o marcante momento em que Dandan chora à chuva, num cenário tão escuro e obscuro como os sentimentos que esta sente, após ter sido colocada de fora de uma posição de relevo da peça devido a ser filha de um criminoso. Diga-se que não vemos ninguém a dizer directamente a esta que não foi seleccionada para protagonizar o espectáculo de ballet, com Zhang Yimou a não ficar refém de demasiadas explicações, confiando na inteligência do espectador, embora em alguns momentos se repita nas questões relacionadas com a perda parcial de memória da protagonista, ao longo de um enredo que teve como base o livro "The Criminal Lu Yanshi" de Geling Yan (autora de "13 Flowers of Nanjing", um livro que serviu de base para "Flowers of War"). Entre um casamento apenas vivo pelas memórias do passado e uma relação conspurcada pelos traumas de outrora, "Coming Home" surge-nos como um drama humano terno e delicado, capaz de nos envolver na sua teia narrativa e emocionar. Zhang Yimou pode ter alguns tropeções ao longo da sua carreira, mas este certamente não é um deles.»

O argumento do filme foi escrito por Zou Jingzhi, e o seu elenco é composto por Chen Daoming, Gong Li, Zhang Huiwen, entre outros.

Sinopse: Durante a Revolução Cultural da China no início de 1970, Lu Yanshi é enviado para um campo de trabalho forçado. Ele tenta fugir, mas por causa da sua filha, uma estudante de ballet mimada chamada Dandan, o plano fracassa. Com o fim da revolução, Lu retorna a casa, mas encontra a sua esposa, Feng Wanyu, sem memória. Sem conseguir reconhecê-lo, ela espera pacientemente pelo retorno de seu marido. Lu Yanshi vai ter que lutar para ressuscitar o seu passado e despertar a memória da sua esposa.

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É particularmente difícil encontrar grandes motivos de interesse, da nossa parte, no visionamento dos restantes filmes, mas ainda assim pode-se destacar o drama de ficção-científica "Predestinado", que tem tido alguma aceitação por parte da crítica norte-americana.

A obra foi realizada pelos irmãos Michael e Peter Spierig (as The Spierig Brothers), a partir de um argumento da autoria dos mesmos.

Ethan Hawke, Noah Taylor, Sarah Snook, Christopher Kirby, Madeleine West, Jim Knobeloch e Freya Stafford fazem parte do seu elenco.

O enredo de "Predestination" acompanha um agente que utiliza as viagens no tempo como recurso para resolver os casos para os quais é designado. A última missão da carreira do protagonista passa por encontrar o único criminoso que conseguiu enganá-lo ao longo do tempo.

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Teremos também nas nossas salas o thriller "À Prova de Fogo", protagonizado por Michael Douglas, que talvez seja uma opção razoável para os aficionados deste género de filmes ou do ator.

A obra foi realizada por Jean-Baptiste Léonetti, a partir de um argumento de Stephen Susco.

O elenco é composto por Michael Douglas, Jeremy Irvine, Ronny Cox, Hanna Mangan Lawrence, Martin Palmer, entre outros.

Sinopse: A história de um arrogante empresário que também é um exímio caçador da natureza vai contratar um jovem guia que o conduzirá até ao deserto americano, em busca da sua máxima glória. Algo corre mal e o empresário acaba por matar um homem inocente. A partir desse momento, inicia-se um jogo de gato e rato assim que o guia se nega a participar no abafamento do caso.


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Resenha Crítica: "The Silence of the Lambs" (O Silêncio dos Inocentes)

 Durante alguns momentos de "The Silence of the Lambs" podemos ver Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) numa prisão semelhante a uma jaula após ter sido transportado num acordo para ajudar a revelar informações sobre "Buffalo Bill" (Ted Levine), o nome dado a um perigoso serial killer. A cela ainda parece ter algum espaço, embora seja diminuta em termos de mobilidade, encontrando-se instalada num local marcado por apertada vigilância da polícia. Se esse espaço pode parecer claustrofóbico, em nada se compara com a enorme clausura e tensão que Jonathan Demme nos coloca ao longo de "The Silence of the Lambs", onde uma procura para encontrar um psicopata que retira a pele das suas vítimas resulta numa intrincada investigação que tem como elemento principal a jovem Clarice Starling (Jodie Foster), uma promissora candidata a agente do FBI que se encontra a treinar na academia em Quantico, na Virginia, quando é chamada por Jack Crawford (Scott Glenn), o director da Behavioral Science Unit. O local é marcado pela presença predominante de figuras masculinas, com Clarice a parecer quase uma intrusa num espaço onde aparentemente apenas os melhores e mais aptos parecem ter lugar, embora as mulheres não pareçam ser lá muito apreciadas para além das qualidades físicas. Crawford vê qualidades a nível de trabalho e físicas que considera poderem ser valiosas para Clarice poder entrevistar o psicopata canibal Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), tendo em vista a avaliar o perfil psico-comportamental do mesmo e assim conseguirem pistas para outros casos de serial killers. Lecter rejeitou todos os outros elementos, pelo que a ida de Clarice ao local é uma jogada para Crawford ir apalpando terreno para ver até que ponto o serial killer e antigo psicólogo está disposto a colaborar na captura de "Buffalo Bill". Após um momento de leve assédio por parte de Frederick Chilton (Anthony Heald), o elemento do Baltimore State Hospital for the Criminally Insane responsável por dar informações sobre Lecter e de indicar a Clarice como se deve comportar diante do criminoso, a protagonista tem de finalmente encontrar-se com o psicopata. As instruções e apertadas medidas de segurança já nos deixam de pé atrás, bem como as tonalidades vermelhas que antecedem a entrada no corredor onde se encontra a cela do canibal, mas nada nos prepara para as cenas entre Clarice e Lecter. Esta é uma agente determinada e perspicaz, que treina de forma dura, mas é aparentemente algo frágil em alguns momentos mais emocionais embora procure mostrar sempre um lado mais frio. Jodie Foster tem uma interpretação de encher o olho como esta mulher que sobressai num meio dominado por homens, com a actriz a ser capaz de cometer a proeza de não se deixar apagar e até estar ao nível da memorável interpretação de Anthony Hopkins como Hannibal Lecter. De fala calma, quase sibilina, comportamentos a parecerem de fino trato, Lecter é um assassino inteligente, capaz de jogar com o lado psicológico do seu interlocutor, avaliá-lo e desarmá-lo. Clarice procura estar à altura deste desafio, enquanto assistimos a uma utilização exímia dos planos e contraplanos entre os personagens, com os close-ups a incrementarem a atmosfera claustrofóbica que rodeia estes momentos inquietantes nos quais a dupla dialoga. Assistimos quase a um jogo de pingue pongue onde cada jogada pode ser decisiva e o mínimo erro fatal para este duelo mental entre Lecter e Clarice. Esta continua a procurar encontrar pistas junto desta misteriosa figura que a coloca perante um conjunto de anagramas. Primeiro diz para esta contactar Martin de Oseque, que remete para o anagrama "O que resta de mim", com Lecter a parecer tirar um enorme prazer destes jogos psicológicos onde expõe a sua inteligência e desafia a dos seus interlocutores, algo que por vezes os coloca à beira de um ataque de nervos.

Anthony Hopkins transforma-se neste personagem macabro e representativo do mal, que tanto é capaz de demonstrar uma enorme inteligência como uma enorme irracionalidade nos seus actos. É um jogador hábil, conduzindo o companheiro da cela ao lado ao suicídio, enquanto a investigação decorre. No local indicado por Lecter, a protagonista encontra uma cabeça, guardada pelo personagem interpretado por Anthony Hopkins embora saibamos que não foi este o assassino. A entrada de Clarice no armazém é marcada por enorme inquietação, com esta a ter alguma dificuldade em passar pelo portão, conseguindo abrir uma pequena fresta no mesmo, existindo sempre a possibilidade da queda desta divisória, algo que poderá conduzir à morte da protagonista. O espaço é apenas iluminado pela lanterna utilizada pela protagonista, com a descoberta da cabeça de um antigo paciente de Lecter a trazer mais uma pista ao caso. É então que é encontrado o corpo de mais uma vítima, embora consigam efectuar a descoberta de um novo elemento: a presença de uma Sphingidae, um insecto oriundo da Ásia, que tem de ser importado, no interior do corpo da mulher assassinada. Lecter diz saber quem é o assassino, uma informação que lhe dá uma maior importância quando "Buffalo Bill" rapta Catherine Martin (Brooke Smith), a filha de uma senadora dos EUA. É feito um transporte meticuloso do criminoso para Tennessee, onde este contacta com a senadora Ruth Martin (Diane Baker) utilizando anagramas e fazendo perguntas sobre os seus seios que a atormentam, percebendo que o personagem interpretado por Anthony Hopkins não está disposto a dar grandes facilidades. Com Lecter em risco de poder escapar, Clarice e o FBI em plena busca por "Buffalo Bill" antes que este assassine Catherine, "The Silence of the Lambs" coloca-nos perante momentos de enorme inquietação, onde nada nem ninguém parece estar em segurança e o perigo aparenta estar em qualquer lugar. O lado mais feroz de Hannibal vem ao de cima, enquanto Clarice começa a juntar as peças, protagonizando um momento de enorme tensão no último terço, onde a cinematografia sobressai, bem como o trabalho de montagem, capazes de contribuírem para o aumentar do sentido de perigo que rodeia a protagonista. Jonathan Demme tem em "The Silence of the Lambs" um dos grandes filmes de terror psicológico da História do Cinema, tendo sido a primeira obra cinematográfica do género a ser agraciada com os Oscars de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Melhor Actriz e Melhor Argumento Adaptado (não é que estes prémios sejam indicadores precisos de qualidade, mas permitem expor a aceitação gerada pelo filme). O cineasta cria uma obra inteligente e inquietante, emocionalmente e visualmente violenta, onde parecemos enjaulados perante os acontecimentos que são expostos dos quais dificilmente conseguimos sair. É quase hipnótico ver Hannibal a falar, sendo fenomenal ver este a revelar informações sobre o serial killer em troca de pormenores sobre o passado de Clarice, algo que nos permite conhecer mais esta mulher mas também a frieza deste homem a estudar os seus interlocutores. É isso que o leva a conseguir algo impensável, com o filme a deixar-nos perante os seus actos canibalescos mas também diante da sua inteligência. Jodie Foster (sublime no trabalho a nível vocal e corporal, conseguindo explanar na perfeição os sentimentos da personagem que interpreta) e Anthony Hopkins (arrepiante e sombrio como Lecter) quase que apagam os restantes actores e actrizes presentes no elenco, embora valha a pena realçar Scott Glenn como Jack Crawford, o superior de Clarice, um elemento que a coloca na "toca do lobo" e descobre ter nesta mulher uma das suas agentes mais competentes. Curiosamente, nem Anthony Hopkins, nem Jodie Foster eram as opções iniciais de Jonathan Demme, com o cineasta a pretender inicialmente Sean Connery e Michelle Pfeiffer, uma dupla que em boa hora rejeitou os papéis. Hoje parece praticamente impossível imaginar este duelo psicológico entre Clarice e Hannibal sem Foster e Hopkins, com a dupla a conseguir ter uma enorme dinâmica, ancorada na realização sublime de Jonathan Demme. A iluminação e a paleta cromática que rodeiam o filme contribuem muitas das vezes para a frieza e a atmosfera macabra que rodeia os assassinatos e até os encontros entre a protagonista e Hannibal, com Jonathan Demme a voltar a contar com Tak Fujimoto como director de fotografia, um nome bastante competente e colaborador habitual do cineasta que contribui para o dinamizar da narrativa.

O argumento do filme teve como base o livro "The Silence of the Lambs" de Thomas Harris, com  Jonathan Demme a ter aqui uma das obras mais populares da sua carreira. O cineasta fez por isso. Os personagens têm dimensão e evoluem ao longo da narrativa, a criação da tensão é feita de forma gradual e com enorme classe, ao mesmo tempo que ficamos perante elementos típicos deste tipo de filmes, tais como a protagonista no terreno em busca de pistas, algumas reviravoltas e um assassino em série que se esconde com enorme habilidade (no caso de "Buffalo Bill", este esconde-se no interior da sua habitação, após caçar as suas vítimas fora da mesma). Os cenários exteriores são bem aproveitados, mas é quando encontramos Hannibal e Clarice frente a frente em espaços fechados, por vezes marcados por pouca iluminação, que o filme ganha toda uma outra dimensão. Existe malícia da parte dele. Existe determinação da parte dela. Ambos são inteligentes mas parece certo que Hannibal é o elemento mais sagaz, procurando jogar com as informações das quais dispõe. Aos poucos esta desrespeita ordens internas para falar com o antagonista, um elemento com maior profundidade do que "Buffalo Bill", contando com enorme conhecimento sobre os instintos de um psicopata. Ted Levine atribui alguma extravagância ao personagem que interpreta, um assassino louco cujos únicos sentimentos demonstrados parecem ser para com a sua caniche branca, retirando a pele das suas vítimas. A psicologia deste personagem é explorada através da investigação de Clarice e das pistas de Hannibal, que contactara o namorado de "Buffalo" outrora, embora não pareça facilitar na exposição de informação. Do lado do FBI parece existir já algum desespero para encontrar este criminoso, algo que justifica o contacto de Clarice com Hannibal, embora estes dois pareçam estar quase à altura um do outro. A certa altura do filme esta revela que fugiu dos familiares que a acolheram, após o assassinato do pai em serviço para a polícia, devido a ouvir cordeiros a gritar por estarem a ser eliminados para posterior venda. Esta ainda os tentou libertar mas à noite ainda ouve a espécie de choro destes animais. O título remete para este episódio, com Clarice a procurar silenciar o barulho dos cordeiros que atormentam-na à noite, mas também a honrar a memória do seu pai e revelar-se uma agente competente. Quem também apresentou enorme competência foram os elementos responsáveis pela criação dos cenários interiores, sobressaindo desde logo a cela com divisórias de vidro onde se encontra inicialmente Hannibal Lecter, com a câmara de filmar a gerar regularmente a sensação de que esta barreira não existe, uma situação que aumenta ainda mais a inquietação em volta das falas trocadas entre Clarice e o psicopata. Intenso, inteligente, emocionalmente envolvente e contundente na abordagem das suas temáticas, "The Silence of the Lambs" é um dos grandes filmes de terror psicológico da História do Cinema e uma das obras mais memoráveis de Jonathan Demme.

Título original: "The Science of the Lambs". 
Título em Portugal: "O Silêncio dos Inocentes". 
Realizador: Jonathan Demme.
Argumento: Ted Tally.
Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine.

28 julho 2015

Resenha Crítica: "L.A. Confidential" (1997)

Lynn Bracken (Kim Basinger): "You say "fuck" a lot".
Bud White (Russell Crowe): "You fuck for money".

 Entre polícias corruptos e agentes da autoridade que pretendem respeitar a lei, crimes cometidos que trazem na sua génese segredos melindrosos para um ideal de modelo de vida criado para a cidade de Los Angeles e revelações surpreendentes, "L.A. Confidential" não poupa em reviravoltas, momentos de tensão, inquietação e um cuidado latente na representação deste espaço citadino em plenos anos 50, com Curtis Hanson a contar ainda com um elenco de luxo a elevar o enredo, povoado por nomes como Russell Crowe, Kevin Spacey, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito, James Cromwell, David Strathairn, entre outros. Desde o guarda-roupa aos cenários, incluindo uma sala de cinema a exibir "The Bad and the Beautiful" de Vincente Minnelli, passando pelas menções a várias estrelas da época como Veronica Lake e uma piada hilariante a envolver Lana Turner, esta adaptação do livro homónimo de James Ellroy, realizada por Curtis Hanson, um cineasta com uma carreira extremamente irregular, consegue transportar-nos com sucesso para uma visão sobre esta época, com a citação colocada no topo deste texto a surgir como um dos exemplos dos vários diálogos mordazes que envolvem alguns dos personagens de "L.A. Confidential". No caso, um dos intervenientes é Bud White, um polícia conhecido por ser impulsivo e agressivo, sobretudo quando se depara com agressões a mulheres, formando geralmente dupla com Dick Stensland (Graham Beckel), outro agente da autoridade com uma conduta nem sempre recomendável. Estes reportam as informações que recolhem ao capitão Dudley Smith (James Cromwell), uma figura aparentemente respeitável embora, tal como na maioria dos filmes noir, não seja completamente confiável, com o avançar do enredo a brindar-nos com algumas surpresas em relação a este personagem. Diga-se que este aparentemente encontra-se a efectuar um bom trabalho, apesar da conduta nem sempre própria dos elementos às suas ordens, com muitos dos actos à margem da lei até a serem incentivados por Dudley. A certa altura do filme começamos a encarar este indivíduo como uma variante mais elegante e polida do personagem interpretado por Orson Welles em "Touch of Evil", um polícia aparentemente respeitável e com um currículo imaculado que conta com alguns segredos obscuros. A menção a "Touch of Evil" não é gratuita. Esta obra cinematográfica é considerada como um dos últimos exemplares dos filmes noir, com Orson Welles a colocar-nos perante um filme onde as forças policiais nem sempre são confiáveis, com Miguel "Mike" Vargas (Charlton Heston) a ser uma das raras excepções. No caso de "L.A. Confidential", o duplo de Mike quase que poderia ser Edmund Exley (Guy Pearce), um elemento conhecido mais pelo seu trabalho de escritório que procura sair da sombra do legado deixado pelo seu pai, procurando sempre respeitar a lei. A certa altura do filme, Dudley elogia Edmund, mais conhecido como Ed, mas não deixa de salientar que este não tem estômago para a função de detective da polícia, a ponto de questionar se este seria capaz de colocar provas falsas para incriminar um suspeito evidente, ou eliminar um criminoso para este não ter hipótese de ser solto com um bom advogado, ou agredir um delinquente para conseguir uma confissão, um conjunto de situações com as quais o personagem interpretado por Guy Pearce recusa a comprometer-se, não apresentando intenções de o fazer (embora ao longo do filme seja colocado diante de episódios que o vão fazer questionar os seus ideais). Na esquadra, na divisão de narcóticos, encontramos ainda Jack Vincennes (Kevin Spacey), um indivíduo carismático, também pouco dado a seguir as regras, conhecido por ter detido Robert Mitchum, mas também por ser o consultor da série policial "Badge of Honor", mantendo ainda uma ligação de proximidade com Sid Hudgens (Danny DeVito), o editor da "Hush-Hush", um tabloide (inspirado no Confidential).

 Sid arranja muitas das vezes os furos de escândalos relacionados com alguma celebridade ou figura mais conhecida, procurando saber desde cedo quando se encontram a planear efectuar algo considerado indecoroso ou passível de manchar a sua reputação. Hudgens é uma figura que se move pelo submundo, surgindo inicialmente como o nosso narrador ao expor que Mickey C., o líder principal do crime organizado, foi detido devido a evasão fiscal, ou seja, à Al Capone, com o personagem interpretado por Danny DeVito a salientar de forma sardónica que a medida não poderia ser "(...) nada de muito original, pois isto é Hollywood", em mais um momento onde o olhar ácido de Curtis Hanson é exposto. Mickey C. contou ainda com Johnny Stompanato como guarda-costas principal, um indivíduo que terá alguma relevância no desenrolar da trama ao servir esporadicamente como informador, sobretudo quando "apertado" pelos polícias. É sobretudo este grupo de personagens que vai povoar o enredo de "L.A. Confidential", com os momentos iniciais a colocarem-nos diante da violência de White no cumprimento do dever ao agredir um indivíduo que se encontrava a espancar a esposa. Posteriormente, White segue com Dick até uma loja, tendo em vista a comprar um conjunto generoso de bebidas alcoólicas para comemorar o Natal na esquadra com os seus colegas. Neste espaço, White depara-se com Lynn Bracken, uma prostituta sensual, de longos e cuidados cabelos loiros, conhecida pelas feições semelhantes a Veronica Lake, encontrando-se vestida de forma misteriosa. Na saída, o personagem interpretado por Russell Crowe encontra Susan Lefferts (Amber Smith), uma mulher com um curativo na zona do nariz, no interior de um carro, pensando que esta fora agredida, detendo imediatamente Leland "Buzz" Meeks (Darrell Sandeen), um antigo polícia, cujo passado mais tarde descobrimos ter sido marcado por casos pouco recomendáveis, envolvendo elementos ainda no activo. White logo é travado pelo colega, dirigindo-se até à esquadra onde um grupo de criminosos mexicanos, que supostamente agrediu dois colegas dos polícias, encontra-se a ser levado para a prisão. Gera-se um burburinho, com Dick a agredir brutalmente os presos, White a envolver-se na escaramuça, bem como Vincennes, com Ed a procurar travar todo este conflito, parecendo o elemento à parte desta esquadra onde a brutalidade parece dominar as acções da maioria dos polícias. O que estes não esperavam é que um jornalista tirasse fotografias deste caso e este tivesse direito a capa de jornal com o título: "Bloody Christmas". Ninguém parece disposto a testemunhar contra os colegas, com excepção de Ed e posteriormente Vincennes, com o primeiro a ser odiado pelos seus pares, uma situação resultante ainda do facto de Dick ter sido demitido. No entanto, Ed é colocado à prova num macabro caso de assassinato no Nite Owl, um café onde Dick é eliminado, bem como Susan, com os principais suspeitos a serem três indivíduos de raça negra, que contam com caçadeiras e um Mercury coupé avermelhado. Dois elementos são capturados e interrogados de forma exímia por Ed, com este a revelar uma frieza impressionante sem utilizar a força, conseguindo jogar psicologicamente com estes dois elementos. Por sua vez, White procura desde logo encontrar Lynn, devido a uma possível conecção com Susan, descobrindo que esta trabalha com Pierce Patchett (David Strathairn), um indivíduo de largas posses, conhecido por investir nos negócios das estradas mas também por ser o proprietário do Fleur-de-Lis, um espaço que proporciona aos seus clientes serviço de luxo com prostitutas que se parecem com estrelas de cinema. O encontro entre Patchett e White é marcado pelo estilo confrontador do segundo, embora não consiga obter grandes informações. No entanto, White acabará aos poucos por envolver-se com Lynn, a típica mulher fatal que pode trazer problemas ao protagonista, embora Kim Basinger atribua algumas fragilidades a esta personagem que lhe vão dar características muito especiais, sobretudo quando está na companhia do primeiro. Russell Crowe tem uma interpretação intensa como este polícia a fazer recordar alguns personagens interpretados por Dana Andrews nos filmes noir, tais como "Where the Sidewalk Ends", com ambos a partilharem traumas em relação à figura do progenitor mas também atitudes violentas diante dos criminosos. A relação com Lynn é marcada por uma mescla de desejo e da atitude protectora de Bud em relação às figuras femininas, com Kim Basinger a explorar o lado misterioso e sensual da personagem que interpreta, uma femme fatale pronta a atrair os homens embora também se pareça deixar seduzir verdadeiramente pelo protagonista.

É com Lynn que Bud apresenta algumas das fragilidades e traumas do passado, apresentando uma atitude muito distinta quando está diante de Ed, com este último a representar o polícia disposto a tudo para subir na carreira, embora sempre a cumprir as leis, o que não agrada ao protagonista. Guy Pearce interpreta aquele personagem que mais surpreende ao longo do enredo, com este a efectuar um arco onde começa como um indivíduo aparentemente inapto para as funções que aos poucos começa a assumir um papel activo e corajoso numa investigação, não tendo problemas em colocar a sua reputação em causa quando descobre que os criminosos que eliminara não eram os verdadeiros responsáveis pelo assassinato no Nite Owl, com a conspiração a envolver elementos nos sectores mais elevados da polícia, ex-agentes da autoridade, entre várias outras figuras que povoam o enredo, com "L.A. Confidential" a mesclar elementos neo-noir com filme policial, numa narrativa marcada por diversas reviravoltas e algumas surpresas em relação a diversos personagens. Num filme noir, é sabido que nem sempre podemos confiar dos personagens, incluindo nos protagonistas, com "L.A. Confidential" a respeitar diversos elementos deste subgénero. Não falta a femme fatale, o clube nocturno, a utilização do chiaroscuro (veja-se a inquietante cena no último terço onde Bud e Ed encontram-se isolados num espaço escuro a procurarem defender-se de um tiroteio para os silenciar de vez, ainda que esta técnica seja utilizada com muita parcimónia), uma narrativa convulsa, personagens moralmente ambíguos, entre outros elementos. Embora tenham formas diferentes de encarar a função, Bud e Ed procuram acima de tudo fazer justiça, com o segundo a procurar seguir as regras, surgindo muitas das vezes como o "polícia bom", enquanto o primeiro é a espaços o "polícia mau" que não tem problemas em fazer uso da força bruta. Essa situação é latente logo nos momentos iniciais, mas também quando Bud agride Ed, ou quando utiliza a força para que Ellis Loew (Ron Rifkin), um procurador do Ministério Público, ceda informações sobre o caso, com este último a sentir-se comprometido devido a existirem fotos que comprovam a sua homossexualidade e um caso esporádico com um jovem que supostamente cometeu suicídio. Este fora fotografado pelo personagem interpretado por Danny DeVito, com o actor a conseguir mesclar um lado mais leve de Sid com outro mais aproveitador, surgindo como uma figura próxima de Vincennes. Kevin Spacey interpreta um personagem muito ao seu estilo, marcado por um enorme carisma e sarcasmo, um pouco de malícia, embora no final os valores deste pareçam falar mais alto. Diga-se que esta é uma situação com a qual vários dos personagens de "L.A. Confidential" vão ser confrontados ao longo do enredo, com diversos elementos a terem de escolher entre a decisão certa ou o lucro fácil da corrupção. Ed, Bud e Vincennes a certa altura acabam por ver uma investigação interligar os seus destinos, com os dois últimos a deambularem pelas margens da lei, embora procurem fazer justiça. Já Patchett simboliza a promiscuidade entre o poder político e policial e os elementos civis, conseguindo agir muitas das vezes sem grandes problemas, tendo apenas em Bud e Ed duas figuras sem pejo em confrontá-lo, encontrando-se envolvido num negócio de tráfico de droga que remete ainda para figuras como Stensland e Buzz. Como se pode reparar pela menção a este último, até os personagens mais secundários acabam por ter algum relevo no desenrolar de "L.A. Confidential", com o argumento de Curtis Hanson e Brian Helgeland a apresentar uma densidade e coesão notáveis na forma como consegue explorar estas diferentes peças e interligá-las de forma orgânica.

 A densidade do argumento, pontuado por um conjunto de diálogos marcantes, permite fazer sobressair os intérpretes. Veja-se os casos já citados de Russell Crowe, Guy Pearce, Kim Basinger, Kevin Spacey e Danny DeVito, com os dois primeiros a serem relativamente desconhecidos na época, mas também James Cromwell e David Strathairn. Cromwell por manter sempre a ambiguidade do personagem que interpreta, embora apresente alguma aura de respeitabilidade que se vai desvanecendo com o avançar da narrativa. Percebemos que Dudley Smith parece pouco preocupado com as regras desde que os criminosos sejam punidos, tendo em Bud White um valente "cão de caça", pelo menos até este último e Ed começarem a descobrir alguns segredos em relação ao primeiro, bem como Vincennes. Já David Strathairn interpreta um proxeneta dado a luxos que parece agir com uma enorme impunidade, algo que vamos perceber ao longo do filme, embora esta situação não dure sempre. Aos poucos percebemos que existe uma enorme teia de corrupção a envolver a esquadra e a cidade, com as ramificações a atingirem até elementos ligados a cargos políticos, com o lado negro de Los Angeles a vir ao de cima. Curtis Hanson lança gradualmente as peças, por vezes de forma algo solta, embora pareça ficar quase sempre claro que Ed resolveu demasiado cedo o caso do Nite Owl, uma situação que o próprio percebe quando Inez Soto (Marisol Padilla Sánchez), uma mulher violada pelos supostos culpados do crime expõe peremptoriamente que mentiu. Esta revelou que não tinha a certeza do horário em que saíram do Nite Owl, tendo dito a mesma hora do assassinato para que fosse efectuada justiça pelos actos cometidos contra si. Parecia fácil demais e o próprio estereótipo dos negros com armas que efectuam um assalto a parecer ser uma solução que não encaixaria na complexidade da trama, embora remetesse para um estigma da época. Se a perseguição a estes elementos é marcada pela violência, já no último terço assistimos ainda a um conjunto de mentiras e jogos psicológicos que vão resultar naquele que é um dos momentos mais claustrofóbicos de "L.A. Confidential", em particular quando Curtis Hanson isola Ed e Bud no mesmo espaço, como se fossem dois bastiões da lei a lutarem sozinhos contra a corrupção. Pelo meio ocorrem diversas mortes de personagens de relevo, enquanto Ed e Bud aproximam-se gradualmente da verdade, com diversos reveses pelo caminho que expõem a decadência e os podres da cidade de Los Angeles, num ambiente já desencantado, ou não estivéssemos no tempo da narrativa no período do pós-II Guerra Mundial. Em certa parte Curtis Hanson quase que nos remete para os filmes noir de Otto Preminger, onde este procurava explorar o lado psicológico dos personagens que rodeavam a narrativa, algo visível em obras como "Laura", "Daisy Kenyon", o já citado "Where the Sidewalk Ends", entre outras. O cineasta procura também esconder muitas das vezes algumas peças importantes do jogo, deixando-nos de forma amiúde com dúvidas em relação ao rumo da narrativa e dos personagens que a povoam, inclusive no que diz respeito às justificações para o crime cometido no Nite Owl, ao mesmo tempo que aproveita para abordar questões relacionadas com a época que retrata. Este é também um filme que explora os exageros do culto das celebridades, quer pelo aparecimento e florescimento de revistas que ganham os seus rendimentos através de mexericos, quer no serviço de prostituição onde as mulheres têm de fazer plásticas para se parecerem com vedetas dos filmes, entre outros exemplos. Marcado por uma atmosfera negra, diálogos por vezes mordazes, alguma sensualidade inerente à figura da personagem interpretada por Kim Basinger, polícias corruptos e outros que procuram fazer justiça, "L.A. Confidential" transporta-nos sem grandes nostalgias e contemplações para outro período da História de Los Angeles e dos EUA, resultando num filme neo-noir complexo, bem estruturado e marcado por interpretações de relevo.

Título original: "L.A. Confindential".
Título em Portugal: "L.A. Confidencial".
Realizador: Curtis Hanson.
Argumento: Curtis Hanson e Brian Helgeland.
Elenco: Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito.

27 julho 2015

Resenha Crítica: "Gangs of New York" (2002)

 Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio): "My father told me we was all born of blood and tribulation, and so then too was our great city. But for those of us what lived and died in them furious days, it was like everything we knew was mightily swept away. And no matter what they did to build this city up again... for the rest of time... it would be like no one ever knew we was even here". Esta fala proferida pelo protagonista de "Gangs of New York" resume paradigmaticamente alguns dos objectivos de Martin Scorsese ao realizar esta obra cinematográfica: exibir um pedaço da História da fundação da cidade de Nova Iorque e da Democracia dos EUA, bem como as transformações ao longo da mesma. Martin Scorsese regressa aos filmes de gangsters, desta vez tendo como pano de fundo os EUA na entrada para a segunda metade do Século XIX, em particular no território do bairro de Five Points, exibindo-nos a violência reinante na época, ao mesmo tempo que assistimos a fenómenos como a imigração para o território, em particular dos irlandeses, os efeitos do início da Guerra Civil e uma mescla diversificada de gangs. Assistimos a gangs como os nativistas, liderados por Bill "the Butcher" Cutting (Daniel Day-Lewis), um nativo-americano que é contra a vinda de chineses, irlandeses e negros para o "seu" território, para além dos "Dead Rabbits", um grupo de irlandeses católicos, entre vários outros elementos que facilmente utilizam a violência para conseguir os seus objectivos. Martin Scorsese mais uma vez consegue que a violência seja sentida, com este épico a conter algumas batalhas viscerais, seja pela posse do território, seja para marcar uma posição, seja por uma vingança ou simples prazer, ritmadas por um trabalho quase imaculado a nível de câmara, montagem e da utilização da banda sonora, ao mesmo tempo que assistimos a interpretações dignas de relevo de nomes como Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis e até Cameron Diaz. Logo no prólogo assistimos a um duelo que envolve Cutting e Vallon (Liam Neeson), respectivamente os líderes dos nativistas e dos Dead Rabbits, com o primeiro a eliminar o segundo, algo que gera uma enorme comoção junto de Amsterdam, o filho do personagem interpretado por Liam Neeson. Divergem a nível da religião e da posse da terra, com Cutting e o seu gang a considerarem que o território de Five Points lhes pertence. A batalha decorre em plena Paradise Squad, com a neve a permear o território, várias lâminas e facas são utilizadas, enquanto a morte envolve os cenários bem como a defesa acirrada dos valores de parte a parte. Os momentos que antecedem o conflito são memoráveis, com Vallon e o seu grupo a saírem de uma espécie de catacumbas, enquanto a banda sonora exacerba o fervilhar de sentimentos a que vamos assistir. Estamos em pleno ano de 1846, com "Gangs of New York" a brindar-nos com um conjunto elevado de valores de produção, não faltando cenários elaborados para dar maior veracidade ao enredo, notando-se todo um trabalho de pesquisa, algo visível a nível dos edifícios públicos, das habitações, dos esconderijos dos personagens, mas também no guarda-roupa e até nos penteados. Os cenários foram recreados no estúdio Cinecittà, em Itália, com Dante Ferretti, o designer de produção, a inspirar-se na pintura de George Catlin para representar Five Points. Todo este cuidado permite dotar a obra de enorme realismo, com Martin Scorsese a conseguir criar toda uma atmosfera que nos parece transportar para Five Points no período de tempo representado, enquanto o cineasta liga o nascimento da Democracia dos EUA ao mundo do crime e violência.

As próprias interpretações e cuidado nos sotaques dos personagens contribuem para este retrato credível de um período conturbado da história de Nova Iorque. A narrativa logo avança para 1862, data que representa o regresso de Amsterdam a Five Points, agora em idade adulta, após ter estado em Hellgate, surgindo pronto a não levantar inicialmente grandes ondas e manter-se no anonimato em relação ao seu apelido, apesar de no seu âmago desejar ardentemente pelo dia em que poderá vingar o assassinato do progenitor, qual Edmond Dantès pronto a cozinhar a sua vingança em "O Conde de Monte Cristo". Amsterdam depara-se com um território relativamente mudado, embora continue marcado pela mesma corrupção de valores, com Leonardo DiCaprio a conseguir expor a miríade de emoções que passam por este personagem no regresso ao local onde outrora tivera um dos episódios mais nefastos da sua vida. A narração de William na primeira pessoa, uma técnica utilizada de forma sublime por Martin Scorsese em "Goodfellas" e "Casino", é essencial para que percebamos as mudanças que ocorreram, tais como a criação de novos gangs consoante os seus estatutos e etnias, a crescente vinda de imigrantes da Irlanda, a presença chinesa e dos negros no local, bem como a enorme teia de influências criada por Bill Cutting, algo que conduziu a que o termo "Dead Rabbits" tenha sido proibido. Mesmo um elemento como "Happy Jack" Mulraney (John C. Reilly), antigo membro dos "Dead Rabbits", tornou-se um polícia corrupto que presta alguns favores a Cutting, enquanto todos os gangs são obrigados a pagar um tributo a este último. Daniel Day-Lewis tem em Bill Cutting mais uma criação demonstrativa do seu enorme talento, transfigurando-se por completo no personagem, quer a nível de comportamentos, quer a nível vocal, quer nos seus gestos, surgindo num registo coerente ao longo de todo o filme, protagonizando alguns momentos intensos ao lado de Leonardo DiCaprio. Cutting é um indivíduo conservador, xenófobo e violento, que procura evitar a todo o custo a presença estrangeira no território mesmo que para isso tenha de tomar atitudes completamente extremistas e violentas. Este é conhecido pela utilização exímia do cutelo e das facas, numa fase onde as armas são cada vez mais utilizadas, comemorando todos os anos a morte de Vallon, aquela que considera ter sido a sua única vítima memorável. O personagem interpretado por Daniel Day-Lewis caracteriza-se ainda pela lealdade a aqueles que lhe são leais, cabelo marcadamente oleoso, um olho de vidro, um bigode ostensivo e um longo chapéu preto, uma imagem de marca do seu grupo. No território, Amsterdam encontra ainda Walter "Monk" McGinn (Brendan Gleeson), um barbeiro que supostamente procurou receber uma verba que Vallon tinha em dívida, poucos momentos depois da sua morte, embora aos poucos percebamos que este era um leal defensor do personagem interpretado por Liam Neeson. Amsterdam encontra ainda Johnny Sirocco (Henry Thomas), um elemento que outrora o procurara ajudar aquando da morte do seu pai, com este último a integrá-lo no seu gang. Estes praticam pequenos furtos, entre os quais a um prédio em chamas, algo que efectuam com sucesso pois, como é explicado, existiam trinta e sete brigadas de incêndio voluntárias e rivais, algo que conduzia estes elementos a entrarem em conflito antes de resolverem apagar os fogos. O momento é completamente caricato, com estes desacatos entre aqueles que supostamente deveriam garantir a segurança a exibirem o quão mal organizado e preparado está este território. Amsterdam, Johnny e o grupo chegam ainda furtar o corpo de um indivíduo recentemente morto, tendo em vista a vender o mesmo para a Faculdade de Medicina, algo que gera algum escândalo. Johnny tem um fraquinho por Jenny Everdeane (Cameron Diaz), uma ladra de forte personalidade que seduz tudo e todos. No entanto, esta fica impressionada é com Amsterdam, algo que aos poucos conduz a uma relação improvável entre os dois, após esta tê-lo furtado e convidado o protagonista para dançar consigo no baile, algo que desperta o ciúme de Johnny.

Mais inesperado do que este romance inserido no interior desta trama, que envolve as fundações de Nova Iorque e uma vingança preparada em lume brando, é a improvável relação de proximidade entre Cutting e Amsterdam, com o segundo a ganhar a confiança do primeiro que aos poucos começa a tratá-lo quase como se fosse o filho que nunca teve. Amsterdam não tem problemas em enfrentar McGloin, um antigo "Dead Rabbit", agora ao serviço de Bill, quando este o insulta, surpreendendo tudo e todos pela sua desenvoltura para o combate. Este gesto surpreende Cutting, bem como a audácia e inteligência do jovem, capaz de resolver problemas como transformar um combate de boxe ilegal em algo legal ao passar o mesmo para o interior de um barco. Bill e Amsterdam formam uma relação de aparente confiança, algo que a espaços até nos leva a questionar se o segundo terá a frieza necessária para eliminar o assassino do seu pai, com Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio a protagonizarem alguns momentos de cinema que ficam na memória. Veja-se quando Cutting ensina Amsterdam a esfaquear correctamente o seu oponente através de um porco, algo que o protagonista procura absorver de forma a utilizar contra o personagem interpretado por Daniel Day-Lewis. Enquanto isso vamos assistindo a algumas mudanças no território, com Tweed (Jim Broadbent), um político corrupto que procura conquistar o eleitorado a todo o custo, a procurar controlar o antagonista, um aliado que toma atitudes que fogem muitas das vezes dos planos do primeiro. É uma cidade em construção, com Tweed a procurar pelo menos manter a ilusão da lei, algo visível no enforcamento de quatro inocentes para parecer que a cidade faz algo contra os criminosos. Tudo parece correr bem a Amsterdam até Johnny revelar a Cutting a identidade do protagonista, de forma a vingar-se do amigo ter conquistado a bela Jenny. A relação entre Jenny e Amsterdam é marcada por avanços e recuos, com Martin Scorsese a conseguir inserir este romance de forma harmoniosa no enredo, ao apresentar-nos mais uma vez a uma personagem feminina de personalidade duvidosa. Foi assim em "Mean Streets", em "Goodfellas" e sobretudo "Casino", embora Jenny esteja longe da versão da barbie transviada interpretada por Sharon Stone neste último. Cameron Diaz tem aquela que é provavelmente uma das melhores interpretações da sua carreira, com Martin Scorsese a efectuar o que fez a Sharon Stone e desafiar os aparentes limites interpretativos da actriz, algo que permite termos uma personagem feminina forte, marcada por uma enorme confiança na hora do roubo, embora conte com um passado problemático, incluindo uma ligação a Bill. Esta parece ser independente e à prova de qualquer homem, com excepção de Amsterdam, um elemento que a vai desafiar. Leonardo DiCaprio consegue expor as inquietações do seu personagem, um indivíduo com fortes valores morais, que procura vingar a morte do seu pai embora aos poucos acaba por se envolver com Jenny e fique sob a alçada de Cutting. A química entre Leonardo DiCaprio e Cameron Diaz é convincente, com ambos a interpretarem personagens com passados complicados e personalidades difíceis. Já a relação entre os personagens interpretados por Leonardo DiCaprio e Daniel Day-Lewis surge quase sempre vincada pela inquietação criada por Martin Scorsese em volta dos mesmos, parecendo certo que mais cedo ou mais tarde estes homens vão enfrentar-se e colocar fim a uma contenda que remonta ao prólogo. Por vezes parece que Amsterdam chega a desenvolver alguma afinidade com o rival do progenitor, mas o ressentimento cedo toma o lugar, com o último terço a ser rodeado de enorme violência, algo que advém não só do ansiado confronto, mas também dos distúrbios ocorridos em Nova Iorque entre os dias 13 e 17 de Julho de 1863, devido à revolta popular contra o recrutamento para a Guerra Civil. Seria necessário pagar trezentos dólares para ficar isento, algo que tornava este conflito apenas obrigatório para a "raia miúda" que aos poucos apercebe-se do seu poder quando age em conjunto. Existe um certo comentário de Martin Scorsese que pode ser adaptado até aos dias de hoje, com a revolta popular a surgir também associada às assimetrias sociais, ao mesmo tempo que assistimos a uma representação pouco simpática dos políticos e até da polícia local, com quase tudo e todos a parecerem passíveis de serem corrompíveis.

Martin Scorsese volta ainda a conseguir dotar a narrativa de um conjunto de personagens secundários dignos de interesse, algo que eleva a narrativa e, tal como em obras como "Mean Streets", "Goodfellas" e "Casino", permite dar maior impacto ao enredo em volta dos protagonistas. Veja-se o caso de Brendan Gleeson como o barbeiro que guarda vários segredos sobre o passado, um homem com enorme jeito para a oratória e a política, para além de Jim Broadbent como um político oportunista cujos interesses flutuam ao sabor do vento, John C. Reilly como um polícia corrupto, entre muitos outros elementos. Temos ainda a representação da mescla cultural em que se transforma o território, com elementos da cultura irlandesa e chinesa a serem inseridos aos poucos nos hábitos dos americanos, ao mesmo tempo que assistimos ainda a uma enorme descriminação em relação aos negros. Ficamos perante uma representação bem viva deste espaço de Five Points, com a cinematografia de Michael Balhaaus a contribuir para alguns planos belíssimos, mesmo quando a violência conspurca o território, algo visível no belíssimo contraste entre luz e sombras notório em momentos como no esconderijo do gang onde se insere Amsterdam. Veja-se ainda as cenas iniciais, marcadas por enorme violência, quer na batalha, quer na montagem feroz de Thelma Shoonmaker, quer na banda sonora, proporcionando desde logo uma espécie de prólogo intenso e inquietante cujos episódios estabelecem desde logo o universo narrativo destes personagens, muito marcado pela violenta defesa daqueles que consideram ser os seus valores. O orçamento elevado de "Gangs of New York" e o papel coercivo de Harvey Weinstein não fizeram temer Martin Scorsese, que defendeu com unhas e dentes um dos projectos dos seus sonhos desde os momentos iniciais da carreira que passava por adaptar o livro "The Gangs of New York: An Informal History of the Underworld" de Herbert Asbury  ao grande ecrã. Existe todo um enorme cuidado na construção de uma narrativa pungente, marcada por uma diversidade de temáticas que na sua maioria são exploradas assertivamente, para além de toda a criação de um conjunto de cenários magníficos não só pela atenção ao detalhe mas também pela forma como são inseridos no enredo, ao mesmo tempo que Martin Scorsese consegue envolver-nos para um trabalho apaixonado e capaz de despertar os mais variados sentimentos. No final, não parecem existir vencedores ou vencidos, com "Gangs of New York" a exibir-se como um épico de diversas facetas. É um pedaço da história de uma cidade que nos é contado ainda que de forma ficcional. É uma história de vingança exposta de forma sentida e marcante. É um filme de época marcado por elevados valores de produção que nos transporta para as alterações ocorridas nos EUA durante o período representado. É um romance que nos envolve de forma surpreendente. É o resultado da paixão de um realizador por um projecto e a exibição da sua capacidade em explorar o talento do elenco que tem à disposição. Assistimos ainda à violência existente na época, ao racismo e à presença de diferentes grupos étnicos que povoavam o território, com Martin Scorsese a não poupar ainda em elementos do quotidiano destes personagens. Entre o filme de época, o romance e uma história de vingança, "Gangs of New York" transporta-nos para outro período dos EUA, com Martin Scorsese a não poupar na violência e na atenção ao pormenor, exibindo-se mais uma vez como um dos grandes cineastas do nosso tempo. 

Título original: "Gangs of New York". 
Título em Portugal: "Gangs de Nova Iorque".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento:
Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz, Liam Neeson, Jim Broadbent, John C. Reilly, Henry Thomas, Brendan Gleeson.

24 julho 2015

Resenha Crítica: "Goodfellas" (Tudo Bons Rapazes)

 O ritmo de "Goodfellas" é praticamente imparável e delirante, com Martin Scorsese a deixar-nos perante os meandros do mundo da máfia, numa obra violenta e intensa naquele que é um dos grandes filmes de gangsters da História do Cinema. A narração na primeira pessoa é utilizada de forma exímia, o trabalho de montagem é essencial para manter o ritmo imparável do filme, enquanto ficamos perante um enredo baseado em factos reais onde assistimos à ascensão e queda de Henry Hill (Ray Liotta), um indivíduo que sempre admirou o estilo de vida dos elementos pertencentes ao gang da família Lucchese (Cicero no filme) que habitam e dominam o seu bairro em Brooklyn. Os momentos iniciais do filme não enganam. Estamos em Nova Iorque, em 1970, com Henry Hill, Tommy DeVito (Joe Pesci) e James Conway (Robert De Niro), três mafiosos, a ouvirem um barulho estranho no porta-bagagens. Param o carro. Saem do mesmo. As luzes vermelhas do veículo permeiam os corpos do trio e expõem todo o significado desta tonalidade, com o porta-bagagens a contar no seu interior com Billy Batts (Frank Vincent), um indivíduo que estes agrediram violentamente e julgavam morto. Tommy esfaqueia-o com enorme raiva e fulgor. James tira a pistola e dispara várias vezes sobre Batts. Scorsese dá desde logo o mote para o que vamos encontrar na narrativa, com a brutalidade e a morte a permearem a vida destes elementos, indo mais tarde expor-nos aos acontecimentos que rodearam o assassinato de Batts. Após este aviso de "Goodfellas", a narrativa logo recua até 1955, para a pré-adolescência de Henry Hill (interpretado por Christopher Serrone durante a juventude do personagem) e a sua ascensão no interior do Mundo da máfia, algo que vai sendo efectuado de forma gradual, com este a ganhar a confiança de Paul Cicero (Paul Sorvino), um indivíduo aparentemente calmo que controla o bairro e presta "protecção" a vários elementos. Como salienta Hill durante a narração: "O Paulie podia ser lento mas era só porque não tinha de se apressar por ninguém". Os momentos que se seguem ao prólogo são essenciais para "Goodfellas" estabelecer desde logo o fascínio que Henry Hill apresenta pelo estilo de vida destes homens, mas também a forma como estes controlavam e dominavam o território, com cada elemento a ter tarefas específicas para efectuar. Martin Scorsese traça-nos um retrato bem vivo deste mundo que fascina Henry Hill, com estes homens a regerem-se por leis e medidas muito próprias, surgindo quase como uma grande família onde as traições são punidas com a morte e as alianças podem ser desfeitas consoante as conveniências. "Goodfellas" consegue dar dimensão à miríade de personagens que rodeiam o enredo, embora tenha sempre como elemento central Henry Hill. Este é um indivíduo de ascendência irlandesa e italiana, que durante a infância decidiu largar por completo a escola para trabalhar para Paul e os seus homens, algo que desagrada por completo aos seus pais. Paul tem um papel fundamental junto do protagonista, surgindo quase como uma figura paternal que o procura iniciar neste mundo, enquanto Martin Scorsese retrata este bairro localizado em Brooklyn com um enorme realismo, atenção ao pormenor e capacidade de expor as idiossincrasias dos elementos que o habitam. Henry começa a tratar dos negócios destes elementos, seja a cobrar dívidas, seja a rebentar com um conjunto de carros, seja a vender maços de tabaco roubados, ao mesmo tempo que passa a integrar este meio onde a violência e o espírito de entreajuda parecem andar lado a lado. Estes não se regem pelas regras da sociedade e pela lei, procurando controlar as autoridades ao subornar as mesmas, algo que explica a forma como os seus crimes passam de forma impune, enquanto roubam, contrabandeiam, matam e protagonizam episódios deveras caricatos. 

Quando Henry é detido por contrabandear tabaco, logo é felicitado por James e pelos vários elementos da máfia, não só por ter "perdido a virgindade" nestas lides de detenções, mas também por não ter revelado para quem trabalhava, algo representativo da sua lealdade para com o grupo. Estes momentos iniciais são de algum entusiasmo e vivacidade, marcados por alguma leveza que vão contrastar com os frenéticos episódios do último terço do filme. Sem tempo a perder a narrativa logo avança para 1963, onde ficamos perante os assaltos que o grupo montava no Aeroporto de ldlewild, mais uma vez narrados pelo protagonista: "Quando cresci, passavam 30 biliões por ano em mercadorias pelo aeroporto de Idlewild, e nós tentávamos roubar tudo. É que crescemos perto do aeroporto. Pertencia ao Paulie. Os nossos amigos e familiares trabalhavam lá. Avisavam-nos de tudo o que entrava e saía". Nesta fase já encontramos o protagonista na idade adulta, surgindo como um dos homens da confiança de Paulie, ao mesmo tempo que efectua vários golpes ao lado de Tommy e James. Henry é um gangster frio, leal para com os seus companheiros, aparentemente calmo, que tem um enorme prazer neste estilo de vida que lhe permite ter todos os luxos e extravagâncias que um emprego normal não possibilitariam. Ray Liotta tem em Henry um dos grandes personagens da sua carreira, um gangster fascinado com esta vida, sagaz no cumprimento das regras pelas quais se regem estes homens ao mesmo tempo que parece apresentar sempre algum incómodo no que à matança diz respeito, embora utilize a violência quando esta é necessária. Ao longo do filme vamos assistir a Henry a casar com Karen (Lorraine Bracco), uma mulher judia que inicialmente não parece apreciar a presença deste homem mas aos poucos começa a sentir um enorme entusiasmo pelo estilo de vida do mesmo; a ter amantes como Janice (Gina Mastrogiacomo); a participar em furtos como o da Air France e da Lufthansa que lhes permitem apropriarem-se de uma quantia elevada; a passar boa parte do seu tempo com os gangsters; a ser preso; a envolver-se no negócio de tráfico de droga enquanto a escalada de violência parece rodear o seu quotidiano. A narrativa desenrola-se entre 1955 e os anos 80, um espaço alargado de tempo cujas mudanças e permanências são expostas de forma eficaz por Martin Scorsese, ou não tivesse ele durante a sua juventude vivido em Little Italy, em Nova Iorque. Quando regressamos ao episódio do início do filme descobrimos que Billy Batts é um perigoso e poderoso gangster da família Gambino, que foi eliminado por estes após ter insultado Tommy. Diga-se que este não é o primeiro elemento a ser eliminado por Tommy, com Joe Pesci a conseguir explorar com enorme facilidade o lado agressivo e incontrolável do seu personagem, um indivíduo que nunca sabemos quando está a falar a sério ou quando está a brincar, que não tem problemas em tirar a arma do bolso e matar quem acha que o ofende. Isso explica que elimine um indivíduo protegido pela máfia, algo que lhe trará repercussões gravosas. É provavelmente o indivíduo mais descontrolado e intempestivo do grupo que envolve Henry, ao mesmo tempo que Martin Scorsese procura apresentar com enorme realismo o quotidiano destes elementos. É verdade que temos os fatos e carros caros, a violência e os roubos associados aos filmes de gangsters, bem como a ascensão e queda destes criminosos, mas também temos elementos como a exploração da vida familiar dos mesmos e a forma como estes se integram ou não no mundo exterior ao "casulo" que criaram. Veja-se quando Tommy decide ir buscar uma pá a casa da mãe para ir enterrar Batts, acabando por ficar a jantar com a progenitora, acompanhado por Henry e James. Os momentos chegam a ser algo cómicos, sendo contrastados com a violência do assassinato, mas também com o episódio em que têm de desenterrar Batts devido ao terreno onde o cadáver foi colocado ter sido vendido, com Scorsese quase a deixar-nos perante o cheiro putrefacto dos restos do corpo, enquanto Tommy se diverte a ironizar com o facto deste estar partido em partes.

 A própria banda sonora por vezes traz alguma ironia aos acontecimentos do enredo. Veja-se quando temos Tommy e Jimmy a espancarem brutalmente Billy Batts e Martin Scorsese brinda-nos com "Atlantis" de Donovan, uma música que transmite sentimentos completamente dicotómicos daqueles que nos são expostos no grande ecrã. A utilização da banda sonora, por vezes de forma provocativa e para se adaptar às diferentes épocas, é utilizada de forma exímia por Martin Scorsese, com este a procurar respeitar o período de tempo representado. Temos ainda a utilização de Layla (Piano Exit) dos Derek and the Dominos, enquanto ficamos diante dos assassinatos cometidos por James a vários elementos que participaram no assalto ao Lufthansa, ao mesmo tempo que Ray Liotta narra os episódios. A narração de Ray Liotta e a espaços de Lorraine Bracco é essencial para acrescentar informação ao enredo, mas também para nos colocar praticamente como cúmplices destes personagens que nos parecem tão reais. Martin Scorsese consegue atribuir um enorme realismo a este universo narrativo, ao mesmo tempo que avança com o enredo a uma velocidade notável (muito mérito para o trabalho de Thelma Schoonmaker na montagem) e ficamos perante este grupo de gangsters e o seu quotidiano. Veja-se o casamento de Henry com Karen, com a narração desta a expor a estranheza do acontecimento, com todos a parecerem ter nomes e gestos semelhantes, enquanto assistimos ao quotidiano de uma enorme família da máfia. Este é um grupo fechado, algo que torna a integração de novos elementos como uma situação rara, com Karen a formar amizade apenas com as esposas dos vários mafiosos, enquanto procura aprender a lidar com o lado menos agradável da vida de Henry apesar de apreciar os luxos inerentes à mesma. Lorraine Bracco tem uma interpretação convincente como esta mulher que não tem problemas em enfrentar a amante do marido, numa obra marcada por excelentes interpretações, onde Joe Pesci, Ray Liotta, Paul Sorvino e Robert De Niro têm espaço para se destacar. Se Pesci e Liotta já foram realçados, vale a pena destacarmos Robert De Niro como James, também conhecido como Jimmy, um gangster calculista e violento, pronto a controlar um grupo alargado de homens, que tem uma relação de relativa amizade e confiança com Tommy e Henry. Jimmy não tem problemas em eliminar aqueles que considera serem empecilhos para os seus objectivos, algo comum aos vários personagens que rodeiam o enredo de "Goodfellas" para os quais as traições são punidas de forma implacável. Já Paul Sorvino surge como um personagem aparentemente calmo, conseguindo transmitir a aura de respeito que envolve o mesmo, formando uma relação quase de pai e filho com Henry apesar deste último no final trair o seu mentor, num filme que atravessa várias décadas da história dos EUA e destes homens. É por isso que nos anos 80 encontramos o protagonista envolvido com drogas, com Martin Scorsese a não poupar nas cenas de consumo de cocaína (algo que viria a repetir e muito em "The Wolf of Wall Street"), violência e algumas falas memoráveis, para além de algum humor. Veja-se quando encontramos Joe Pesci a proferir a célebre "Funny like I'm a clown? I amuse you?", após Henry ter dito que este era engraçado, com Tommy a revelar toda a sua imprevisibilidade. Estará a brincar ou a falar a sério? Percebemos que levou a fala de Tommy como brincadeira se não lá o personagem teria ido desta para melhor no interior do bar de Paul, com os espaços nocturnos a serem locais onde decorrem alguns episódios relevantes do enredo. Tommy é o paradigma da violência, visceralidade e imprevisibilidade que rodeiam o filme, com a morte a parecer quase sempre o destino mais provável destes personagens. Temos ainda figuras secundárias como Morrie Kessler (Chuck Low), um jogador inveterado, que participa em anúncios de venda de perucas, com este a entrar num dos grandes golpes dos mafiosos, embora os seus comportamentos considerados pouco adequados facilmente gerem algumas animosidades, entre outros elementos que povoam uma narrativa onde assistimos estes gangsters a irem desde assaltos a mercadorias e divisas, até passarem ao tráfico de droga, com o argumento a explorar as mudanças nos EUA e na vida destes homens.

O argumento, escrito por Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, a partir do livro "Wiseguy: Life in a Mafia Family", escrito pelo primeiro, é baseado em factos reais, nomeadamente sobre a história da ascensão de Henry Hill no interior dos Lucchese, uma família do crime, até cair em queda e ver-se na contingência de funcionar como informante das autoridades contra aqueles de quem outrora fora aliado, algo que o desilude por completo já que traiu os seus ideais. É um regresso de Martin Scorsese aos filmes da máfia depois de "Mean Streets", embora "Goodfellas" seja uma obra que marcou de forma indelével este subgénero ao qual o cineasta voltaria em "Casino" e "The Departed". Diga-se que "Casino" apresenta vários elementos transversais a "Goodfellas", tais como uma cena inicial que nos remete para um episódio mais avançado da narrativa, um protagonista fascinado pelo mundo da máfia, uma utilização paradigmática da narração na primeira pessoa, Joe Pesci a interpretar um gangster violento e imprevisível, uma enorme violência e realismo, um exímio trabalho de montagem de Thelma Shoonmaker, um aproveitamento notável dos cenários, entre vários outros elementos. "Goodfellas" remete ainda para uma longa tradição dos filmes de gangsters dos EUA, com Martin Scorsese a apresentar-nos à ascensão e queda de um gangster, uma premissa que já valeu obras magníficas a Hollywood como "The Roaring Twenties". Curiosamente, o filme foi distribuído e produzido pela Warner Bros., um estúdio com uma longa tradição neste subgénero nos anos 30, tendo lançado obras como "Little Caesar", "The Public Enemy", "Dead End", o já citado "The Roaring Twenties", entre outros. No caso de "Goodfellas", este marcaria ainda a reunião de Scorsese com Robert De Niro, com quem colaborou em algumas das suas obras mais memoráveis, tais como "Taxi Driver", Raging Bull", entre outras, ao mesmo tempo que nos deixa perante um enredo por vezes apresentado de forma quase documental, marcado por uma miríade de personagens com personalidades muito próprias. No entanto, são Ray Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci quem mais sobressaem, enquanto Scorsese avança com o enredo de forma imparável, sempre sem descurar o desenvolvimento dos personagens e temáticas que aborda. O sonho de Henry de ser um gangster torna-se real, com este mundo a fasciná-lo mais do que a repeli-lo, enquanto Martin Scorsese embrenha-se de forma visceral pelo mesmo, não tendo problemas em exibir assaltos, assassinatos, traições, com estes elementos a criarem regras que logo quebram quando sentem necessidade, sendo capazes tanto de dar um sorriso como de logo de seguida disparar uma bala quando se sentem em perigo. Tommy é o incontrolável do grupo, enquanto James é o calculista e Henry procura manter-se cauteloso e no apogeu. A câmara de filmar acompanha os acontecimentos de forma sublime e dinâmica, ficando na memória planos-sequência como aquele em que Henry leva Karen a um clube nocturno e entra pela cozinha de forma a passar pela fila, enquanto ficamos perante a sensação de poder transmitida por este momento onde o gangster procura expor a relevância e respeito que conquistou. Diga-se que o respeito é algo de muito querido a Henry, algo que este salienta desde o início, quando os jovens da rua levam as compras a sua casa em sinal de deferência por este trabalhar para a máfia. Nem tudo são bons momentos para estes elementos, com Martin Scorsese a não ter problemas em embrenhar-se pelo lado negro destes personagens, sendo raro o protagonista de "Goodfellas" que não comete o seu pecado e não ambiciona ascender o mais rapidamente possível. Estes desprezam o estilo de vida dos trabalhadores comuns, conseguem condições aprazíveis quando são presos, parecendo à prova de tudo e todos, ou pelo menos é o que estes pensam, ao longo de um filme onde a prosperidade destes gangsters chega a ser latente embora temporária e ilusória. As cenas alucinantes de Henry ao longo de um dia no último terço do filme em que pensa estar a ser observado por elementos que se encontram num avião, consome cocaína, vai buscar o irmão ao hospital, tem de preparar a refeição, ir buscar a dose de cocaína para vender, visitar a amante, entre vários outros episódios que vão culminar na sua detenção, são simplesmente delirantes e deliciosas de observar, enquanto Ray Liotta tem alguns dos melhores momentos do filme, exibindo um turbilhão de sentimentos, ao mesmo tempo que Martin Scorsese não poupa em jump-cuts, movimentos bruscos de câmara e todo um conjunto de recursos que adensam toda a loucura deste dia do personagem. É a história destes elementos que acompanhamos ao longo deste violento, intenso e dinâmico filme sobre a máfia, com Martin Scorsese a exibir-se no topo das suas capacidades e a realizar algo de simplesmente memorável, delirante e inesquecível.

Título original: "Goodfellas".
Título em Portugal: "Tudo Bons Rapazes".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese.
Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino.