30 junho 2015

Resenha Crítica: "L'homme qu'on aimait trop" (O Homem Demasiado Amado)

 André Techiné anda aos solavancos em "O Homem Demasiado Amado", deambulando entre géneros, por vezes sem estabelecer a tensão que seria expectável numa narrativa com traços de drama familiar e passional, thriller e filme de tribunal, surgindo ainda pelo meio traições, disputas de poder pelo controlo de um casino à beira da falência e a intromissão de elementos mafiosos, parecendo que o cineasta não tem engenho para controlar os ritmos deste enredo ambicioso ou pelo menos sustentar de forma orgânica as dinâmicas distintas de uma obra cinematográfica que, apesar de algumas das limitações na exposição e desenvolvimento que lhe possamos apontar, nem por isso deixa de se exibir como um trabalho digno de algum interesse e a espaços capaz de conter uma elevada carga dramática. Ter intérpretes como Catherine Deneuve, Adèle Haenel e Guillaume Canet ajuda imenso a tarefa a qualquer cineasta, uma situação comprovada pelo experiente André Téchiné, que conta ainda com todo um cuidado a nível da cinematografia e decoração dos cenários nesta obra cinematográfica inspirada no livro de memórias "Une femme face à la mafia" de Jean-Charles e Renée Le Roux, que teve como base o caso verídico do misterioso desaparecimento de Agnès Le Roux. "L'Homme qu'on aimait trop" procura explorar os acontecimentos que antecederam este desaparecimento, aventurando-se pelos bastidores das disputas pelo controlo do casino Palais de la Méditerranée, um estabelecimento que pertencera ao falecido marido de Renée Le Roux (Catherine Deneuve). Esta procura manter o controlo do casino, tendo o apoio de Maurice Agnelet (Guillaume Canet), um advogado misterioso, que parece ter um enorme poder e influência junto da personagem interpretada por Catherine Deneuve, ou pelo menos é isso que este indivíduo ambicioso pensa. Renée é a maior accionista e membro do Conselho de Administração, sendo vice-presidente e relações públicas do Palais, um casino luxuoso, decorado de forma requintada, situado na Côte d'Azur, um local marcado pela presença de praias belíssimas e um vasto conjunto de habitantes financeiramente abonados, incluindo Fratoni (Jean Corso), um italiano ligado à máfia que pretende adquirir este espaço dedicado ao jogo para posteriormente declarar bancarrota e vender o terreno para um empreendimento de condomínios de luxo. Catherine Deneuve, um dos nomes maiores da História do Cinema francês, contribui para conceder uma enorme credibilidade a Renée, uma mulher que procura zelar pelos interesses do Palais, com convicções fortes apesar de em alguns momentos ser influenciada, tendo uma relação complicada e algo conflituosa com Agnès (Adèle Haenel), a sua filha. Agnès deverá estar perto dos trinta anos ou a caminhar para tal idade, encontrando-se a tratar do processo de divórcio do esposo (uma figura que apenas encontramos numa fotografia pertencente à personagem interpretada por Adèle Haenel), sendo recebida em Nice por Maurice, tendo regressado de um país em África, onde se encontrava a viver. Inicialmente esta parece pouco impressionada por este homem que provoca um estranho efeito sobre as mulheres, com Guillaume Canet a explorar o lado persuasivo e manipulador do personagem que interpreta, embora Maurice muitas das vezes nem tenha de fazer grande esforço para conseguir os seus intentos.

 Agnès procura receber aquilo que lhe é de direito da sua herança, em particular o valor da parte das suas acções do Palais, uma situação que inicialmente é negada por Renée, com esta a procurar sensibilizar a filha para o delicado estado das finanças do casino. Diga-se que as reservas de Renée derivam da procura de ser a própria a adquirir estas acções, tendo em vista a permanecer no controlo do casino, um espaço que considera fazer parte da sua vida, embora não tenha divisas suficientes para satisfazer os anseios da filha. No entanto, Renée concede uma quantia para Agnès abrir uma pequena livraria em Nice que reúne ainda no seu interior tecidos oriundos de países asiáticos e artefactos de proveniência do continente africano, com esta jovem aos poucos a formar uma ligação de amizade com Maurice, algo que se vai traduzir em momentos sexualmente mais calorosos mas também numa relação que gradualmente ganha uma faceta doentia, com a personagem interpretada por Adèle Haenel a entrar numa espiral descendente ao aperceber-se que o seu amor não é correspondido de igual maneira, acabando em alguns momentos por ser manipulada pelo advogado. Maurice é um elemento que domina a oratória, sagaz, perspicaz e inteligente, que prefere locomover-se de mota ao invés de utilizar um carro, com Guillaume Canet a expor de forma competente um certo distanciamento emocional por parte deste personagem, algo que de forma amiúde faz com que raramente desperte a nossa simpatia. Este é um homem divorciado, tendo um filho e um caso com Françoise (Judith Chemla), uma mulher que procura desde logo avisar Agnès para a personalidade mulherenga de Maurice, embora a personagem interpretada por Adèle Haenel não pareça levar totalmente a sério os indicadores que a deveriam conduzir a desconfiar do advogado. Nos momentos iniciais, Agnès demonstra alguma confiança de que Maurice não a vai atrair, mas aos poucos começa a sentir um enorme desejo pelo advogado, com a relação entre ambos a ser desenvolvida com acerto. É este que a recebe no aeroporto, mas também que encontra o apartamento onde a mesma vai morar, com ambos a partilharem alguns momentos de intimidade, quer na loja onde Agnès dá um livro da "Odisseia" para Maurice ler ao filho, quer na habitação da protagonista, onde esta dança uma música africana, num momento em que parece libertar o seu corpo e sentimentos. A dança africana, solta de movimentos, contrasta com a rigidez do ballet que esta era obrigada a praticar durante a infância, com Agnès a exibir sempre algumas mostras de distanciamento em relação ao estilo de vida que Renée procura e procurava impor-lhe. Esta deixa-se ainda apaixonar por este indivíduo que sabe jogar com a relação problemática de Agnès com a progenitora, embora a própria mantenha desde o início o desejo de vender as acções, acabando por aceitar uma verba correspondente às mesmas e, por conseguinte, derrubar a mãe do poder. Maurice é um indivíduo calculista e ponderado, que procura gravar todas as conversas que mantém ao telefone, dominando as leis embora não tenha grandes problemas em transgredir as mesmas ou pelo menos apresentar uma imoralidade inerente à sua procura de ascensão social. O personagem interpretado por Guillaume Canet procura inicialmente que Renée assuma a presidência do Palais após a demissão de Maurice Guérin (Pascal Mercier), uma situação que foi despoletada por um conjunto de clientes ter conseguido ganhar cinco milhões de francos em pouco tempo no casino, com Maurice a colocar em causa o trabalho do anterior líder do local. Renée é eleita, em parte devido a Maurice encontrar uma brecha nos estatutos, embora esta logo estrague os planos de ascensão deste homem com ligações perigosas a elementos como Fratoni. Dá-se a ruptura entre ambos, com Maurice a utilizar Agnès para conseguir retirar Renée do poder, iniciando com esta jovem uma relação que promete ter resultados desastrosos para a personagem interpretada por Adèle Haenel, uma situação que esta deveria ter previsto já que o advogado deixa quase sempre claro que não se pretende comprometer de forma séria. Esta é um espírito livre, irreverente, problemática e algo ingénua, que se parece deixar levar muitas das vezes pelas emoções, tendo no acto de nadar, seja na piscina ou na praia, um meio de escapismo, com a actriz, um enorme talento que cada vez mais se confirma, a conseguir expressar com enorme facilidade os diferentes estados de espírito desta jovem complexa. Haenel consegue mesclar uma certa estranheza e frieza de Agnès com uma fragilidade e calor humano como poucas actrizes, algo já demonstrado no magnífico "Les Combattants", com a francesa a deixar cada vez mais a ideia de que, se não se perder num mar de más escolhas, e digamos que "L'Homme qu'on aimait trop" não é de uma grande colheita ao ficar muitas das vezes na mediania, é um nome que vai deixar marca no cinema. No caso de "O Homem Demasiado Amado", Adèle Haenel contracena com um dos "monstros sagrados" do Cinema Francês, Catherine Deneuve, com ambas a explorarem a relação complicada e conturbada entre esta mãe e filha, algo paradigmaticamente demonstrado quando Renée vota contra a progenitora numa reunião da administração, naquele que é um dos vários jogos de poder que decorrem ao longo do enredo.

Os momentos iniciais servem desde logo para estabelecer algumas divergências e maneiras de pensar entre mãe e filha, com o guarda-roupa a ser fundamental para a tarefa: Renée utiliza inicialmente cores mais vistosas e roupas mais caras e femininas, pretendendo que a filha conclua os estudos universitários e se vista de forma mais vivaz; Agnès veste-se de tonalidades escuras, pretende trabalhar por conta própria e procura vender as suas acções do casino, um local que pouco aprecia, com as diferenças entre ambas a serem latentes embora mãe e filha contem com as suas excentricidades. Agnès inicia um relacionamento "venenoso" com Maurice, a ponto de começar a gerar alguma obsessão pelo mesmo e a perder algum do seu amor próprio, apesar de alguns dos episódios que protagoniza parecerem também inerentes ao seu carácter. Inicialmente esta até parece apresentar um domínio sobre este homem, quer na forma como se desvia da rota para ir dar um mergulho na praia antes de ir ter com a mãe, quer quando lhe retira um cigarro da mão, embora aos poucos os jogos de poder pareçam inverter-se. A dinâmica entre Guillaume Canet e Adèle Haenel é convincente, quer na fase de maior aproximação entre os personagens que interpretam, com André Téchiné a deixar que a mesma se desenvolva de forma natural, quer nos momentos mais negativos e emocionalmente arrasadores, com a dupla a sobressair num filme que tem no seu elenco principal um dos seus baluartes fundamentais. O relacionamento entre Maurice e Agnès surge um pouco como aquela que geramos com "O Homem Demasiado Amado", ou seja, queremos sempre mais gostar daquilo que nos é oferecido, do que aquilo que o filme tem para retribuir. É certo que as interpretações de Adèle Haenel, Catherine Deneuve e Guillaume Canet elevam este filme, mas existe por vezes a sensação que André Téchiné apresenta demasiada ambição em abordar um conjunto excessivo de episódios que nem sempre são explorados de forma conclusiva, algo notório no último terço, quando o filme avança no tempo e tem o tribunal como cenário primordial, com as peripécias intrincadas do processo a surgirem resumidas ao máximo, embora Catherine Deneuve tenha mais uma vez espaço para brilhar. Deneuve é uma presença forte que transmite o seu carisma para a personagem que interpreta, com Renée a procurar manter aquilo que considera ser a sua propriedade, envolvendo-se numa disputa de poderes que a vai colocar a embater de frente com antigos aliados, com a filha e até com a máfia. O enredo começa em 1976, passa para 1977 e avança mais de trinta anos, com "L'Homme qu'on aimait trop" a procurar explorar alguma das peripécias deste caso que envolveu o desaparecimento da personagem interpretada por Adèle Haenel, sempre com o foco nos relacionamento entre Renée, Maurice e Agnès. A relação inicial de Renée e Maurice parece ser de total confiança, ao ponto de ficar a ideia de que poderá existir algo mais do que um envolvimento profissional, embora a personagem interpretada por Catherine Deneuve revele uma firmeza que vai chocar com a ambição do advogado e conselheiro, com este a procurar um papel preponderante e sair "das sombras", um desejo que esta mulher não parece estar disposta a conceder. Esta situação conduz Maurice a utilizar Agnès como um peão do seu jogo para retirar o poder a Renée, ao mesmo tempo que assistimos a Fratoni a procurar imiscuir-se nas sombras. As disputas e relacionamentos entre estes três personagens são fulcrais ao longo do enredo, com Téchiné a procurar não só abordar estas relações mas também a "guerra" pelo poder, algo salientado no press kit: "This is a war film. But on a human level. I was determined not to remove the events that drive the plot. I wanted to show the process of a takeover of power, the methods used to bring down a casino, the workings of a business in this very shady environment with all the elements of cruelty and servitude". Diga-se que começamos como uma obra onde existem disputas de poder no interior de um casino, passamos a ter pelo meio o drama familiar (entre Renée e Agnès) e passional (entre Maurice e Agnès), são inseridas algumas subtramas e personagens secundários de pouco relevo ou unidimensionais, até tudo desembocar numa procura de Renée em defender a memória da filha em tribunal.

A câmara de filmar capta os acontecimentos e os movimentos dos personagens com um olhar atento, com "L'Homme qu'on aimait trop" a ser dotado de diversos planos de longa duração, bem elaborados, para além de todo um cuidado no guarda roupa e caracterização (existe ainda uma procura em respeitar o tom das épocas representadas). Veja-se a personagem interpretada por Catherine Deneuve, quase sempre pomposa e vestida de forma cuidada, até surgir em tribunal de roupas escuras, discreta, com uma dor latente no seu rosto, um cansaço pelo caso da filha ainda não ter sido resolvido mas uma força para descobrir a verdade que a tornam numa protagonista que sobressai com facilidade. O filme é baseado num caso real, embora com algumas liberdades, para além de ser preciso salientar que Jean-Charles Le Roux, o filho de Renée na vida real, é um dos argumentistas, ao lado de Cédric Anger e André Téchiné. Diga-se que a participação de Cédric Anger insere-se neste contexto, com André Techiné a comentar: "I started out writing the screenplay with Jean-Charles Le Roux, who had all the facts to hand. We wrote a treatment, outlining a detailed sequence of events to give the film a clear structure. Jean-Charles Le Roux was involved alongside his mother in the struggle to get Maurice Agnelet convicted. He was convinced that Agnelet had murdered Agnes. I made it clear to Le Roux that I was not going to make a film that incriminated Agnelet. This remained a very sensitive issue during our time spent working together. Then I worked with the filmmaker Cedric Anger on a second version of the film to help flesh out the scenes". O argumento por vezes perde-se na procura em abordar uma miríade de situações ligadas ao trio de protagonistas, ao mesmo tempo que nos deixa perante as disputas de poder de um conjunto de personagens com algum estatuto social. Renée procura manter a sua posição no topo e o seu casino. Agnès é a herdeira irreverente, com uma educação aparentemente rígida como pode indicar a foto desta vestida de bailarina, algo que contrasta no presente com a sua personalidade errática que promete trazer estragos, com o seu desaparecimento a ser um mistério quer na ficção, quer na vida real. Maurice procura o dinheiro e o estatuto que a sua profissão por si só não consegue trazer. A relação de Maurice com o filho pouco é explorada, tal como a sua ligação com Fratoni poderia e deveria ser mais desenvolvida, ou melhor, pelo menos o mafioso poderia evoluir um pouco mais na narrativa ao invés de surgir praticamente como o estereótipo do criminoso sem escrúpulos. A própria demora em exibir este personagem, sem criar grande tensão em sua volta, apesar de um ou outro evento que coloca a vida de Renée em perigo, algo que esta expõe numa conferência de imprensa onde exibe as ligações do mafioso nos negócios de tráfico de dinheiro através dos casinos da Côte d'Azur, demonstra a dificuldade do filme em saber aquilo que pretende ser, bem como algumas das dificuldades de André Téchiné em criar tensão em volta de alguns acontecimentos. Coloca Renée aparentemente em perigo mas nunca sentimos insegurança em relação ao seu futuro, para além de existir um conjunto de cortes abruptos entre sequências que muitas das vezes não ligam. Veja-se quando temos Agnès a efectuar uma dança africana num momento de alguma irreverência, loucura e sensualidade, com André Téchiné a cortar abruptamente o momento e lançar-se logo de seguida para o aniversário de Renée. Temos ainda personagens como Françoise, uma das amantes de Maurice, que pouco são desenvolvidas ao longo da narrativa, com André Téchiné a parecer focar-se sobretudo no trio de personagens principais. Não deixa de ser um interessante retrato de uma disputa intensa pelo poder, com o espaço do casino a ser representado com um cuidado digno de atenção, algo que vai desde os caros cortinados, passando pelos seus quadros e valioso mobiliário, ao mesmo tempo que sobressai a forma como muitas das vezes os figurantes são articulados no interior do cenário. Veja-se logo nos momentos iniciais quando encontramos Maurice a falar com Renée, com este a dar a notícia da chegada de Agnès: a câmara centra-se nestes personagens mas, em pano de fundo, encontramos quer os funcionários a trabalharem, quer os clientes a falarem, parecendo estarmos mesmo diante de um casino em funcionamento, com André Téchiné a exibir pequenos pormenores de classe num filme que não sai da mediania.

Temos ainda os tensos momentos das reuniões do conselho de administração, numa sala onde muitas das vezes as emoções fervilham, com a cinematografia a adensar esta inquietação, algo notório quando Renée assume o poder, com a câmara de filmar a deambular perante os rostos que se encontram em volta de uma mesa onde são tomadas muitas decisões. Os cenários interiores são aproveitados, bem como em alguns momentos os espaços exteriores, tais como as praias, com estas a surgirem como locais para Agnès nadar e libertar-se das amarras das quais se quer ver solta, com esta a parecer procurar alguma distância do casino, pelo menos até Maurice a envolver nas negociatas do mesmo, embora esta desde cedo tenha exposto a sua vontade em vender as acções que lhe pertenciam. Agnès é um mistério. Procura ser independente mas logo se demonstra dependente de Maurice a ponto de pretender deixar o mesmo com uma solidez financeira que o livre dos estigmas que o próprio criou sobre si, tal como exibe um conjunto de comportamentos que variam entre o irreverente e o doentio. Não parece habituada a lidar com a rejeição, algo que encontra em Maurice, com este homem a parecer, pelo menos inicialmente, demonstrar algum interesse em Agnès apesar de não a amar de forma efusiva. Este é um homem demasiado querido pelas mulheres, embora esteja longe de ser uma figura confiável, com André Téchiné a saber explorar a ambiguidade deste personagem. No entanto, falta mais mistério e tensão em relação ao desaparecimento de Agnès, com Téchiné a introduzir mais um corte abrupto e aparentemente apressado ao colocar-nos diante do julgamento de Maurice, retirando alguma emoção a um momento que deveria ser fervilhante (o abrupto avanço no tempo não ajuda). Ambicioso do ponto de vista narrativo e pontuado por interpretações com alguma classe de Catherine Deneuve, Adèle Haenel e Guillaume Canet, "L'Homme qu'on aimait trop" nem sempre traduz de forma prática as aspirações de André Téchiné, embora nem por isso seja algo de se deitar fora, bem pelo contrário.

Título em Portugal: "O Homem Demasiado Amado".
Título original:"L'homme qu'on aimait trop".
Realizador: André Téchiné.
Argumento: Cédric Anger, Jean-Charles Le Roux, André Téchiné.
Elenco: Catherine Deneuve, Guillaume Canet, Adèle Haenel, Judith Chemla, Jean Corso.

29 junho 2015

Críticas publicadas em 2015: Parte 3 (81-120)

81 -

82 -

83 -

84 -

85 -

86 -

87 -

88 -

89 -

90 -

91 -

92 -

93 -

94 -

95 -

96 -

97 -

98 -

99 -

100 -

101 -

102 -

103 -

104 -

105 -

106 -

107 -

108 -

109 -

110 -

111 -

112 -

113 -

114 -

115 -

116 -

117 -

118 -

119 -

120 -

Resenha Crítica: "Older Brother, Younger Sister" (Ani imôto)

 Em "The Ballad of Narayama", uma obra realizada por Keisuke Kinoshita, o cumprimento dos valores tradicionais é considerado fundamental para a sua protagonista e para vários elementos da sociedade que a rodeiam. Nas obras de Yasurijo Ozu assistimos também muitas das vezes a um juntar da modernidade e tradição. No caso de obras de Kenji Mizoguchi, tais como "Gion no Shimai", assistimos a um tom mais crítico e denunciador de situações como o papel inferior da mulher no interior da sociedade e a falta de protecção a que estão sujeitas as gueixas. Pegando na deixa do papel da mulher na sociedade japonesa, em "Older Brother, Younger Sister" de Mikio Naruse assistimos a uma família de um espaço rural que tem de lidar com o facto de Mon (Machiko Kyō), o segundo rebento de Akaza (Reizaburô Yamamoto) e Riki (Kumeko Urabe), regressar ao território grávida. O escândalo é grande devido a esta não ser casada e o pai da criança não ter aparecido para assumir o bebé, algo ainda adensado pelos valores conservadores do território rural para o qual esta regressa. O indivíduo que engravidou Mon é Kobata (Eiji Funakoshi), um estudante universitário que apenas conhecemos mais tarde, algo que nos deixa com uma noção diferente sobre o mesmo, com Mikio Naruse a jogar com as nossas expectativas em relação aos personagens, um pouco como efectuou na representação da amante do pai da protagonista em "Wife! Be Like a Rose!". Naruse volta ainda a explorar as complicadas dinâmicas familiares, algo comum a filmes como o citado, mas também a "Inazuma", "When a Woman Ascends the Stairs", entre outros. Veja-se que Mon é desprezada por Akaza, o seu pai, bem como por Inokichi (Masayuki Mori), o seu irmão mais velho. Akaza é um indivíduo de poucas falas, amargurado em relação às mudanças que ocorreram na sua vida. Este era conhecido como um empresário de sucesso, tendo sete barcos e cerca de setenta empregados, uma situação que mudou radicalmente com as mudanças efectuadas no território. Agora limita-se a ir beber saqué com os seus antigos empregados e a esporadicamente ficar a tomar conta da loja da esposa, onde por vezes proporciona alguns momentos de humor pela forma pouco zelosa como trata os clientes. Este procura evitar falar com a filha, deixando que a mesma parta para Tóquio onde Mon deu à luz um nado-morto. Já Inokichi apresenta uma atitude violenta a nível físico e verbal para com a irmã, procurando demonstrar de forma bem viva o desprezo que sente pela mesma. Apenas Riki, a mãe desta, e San (Yoshiko Kuga), a irmã, parecem tratar Mon com algum respeito e dignidade. Riki procura manter a família unida mas nem sempre é bem sucedida neste quesito, surgindo como uma mulher relativamente calma que gere uma loja onde o pouco dinheiro que ganha é gasto pelo marido em álcool e pelo filho em divertimento com mulheres. Já San parece a mais esclarecida de toda esta família, uma jovem muitas das vezes sorridente, que tirou o curso de enfermagem graças aos fundos da irmã. San trabalha num hospital e decide adiar um possível casamento com o namorado, sendo mal-vista pela família de Taiichi (Yûji Hori), o seu pretendente, devido à má fama de Mon, com a mãe adoptiva deste último a fazer questão de salientar que a personagem interpretada por Machiko Kyō pagou o curso de enfermagem da irmã graças ao dinheiro que recebe dos homens. Taiichi pretende fugir para casar com San em Tóquio e assim evitar o casamento arranjado pela família, mas a jovem parece pouco interessada em tomar decisões precipitadas. A juntar a tudo isto temos a vinda de Kobata, um indivíduo educado que procura falar com Mon e o pai desta de forma a procurar desculpar-se pelo sucedido. Acaba por ser bem recebido por Riki e por San, embora mais tarde seja agredido por Inokichi, com este a revelar a profunda amizade que tinha pela irmã e a forma como a gravidez da mesma o desiludiu. O regresso de Mon para a época festiva traz ainda mais convulsões, com Mikio Naruse a expor-nos mais uma vez a uma família cujas tensões aumentam gradualmente com a avançar do enredo, algo que conduz à saída de pelo menos um elemento, ao mesmo tempo que nos deixa perante temáticas como a parca condição financeira dos seus protagonistas e a relevância do dinheiro no quotidiano de alguns destes personagens.

É o dinheiro de Mon que faz com que San possa estudar, bem como poder dar prendas à mãe, tal como é a falta de trabalho e de fundos que conduz a uma maior amargura de Akaza. O dinheiro de Mon advém muitas das vezes dos relacionamentos que esta mantém com os homens, uma situação que contribui para a má fama que a protagonista tem no território rural, ficando implícito que a personagem interpretada por Machiko Kyō prostitui-se para ganhar a vida. Já Inokichi faz a espaços recordar Kasuke, um dos personagens de "Inazuma", também ele o único irmão entre irmãs, um elemento irresponsável e pouco correcto nos seus comportamentos. Masayuki Mori, um actor que colaborou em duas obras-primas de Mikio Naruse, nomeadamente "Floating Clouds" e "When a Woman Ascends the Stairs", para além de ter trabalhado com cineastas como Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, consegue transmitir o quão incontrolável e violento pode ser Inokichi, sobretudo nos momentos do último terço onde discute violentamente com a irmã, uma mulher com quem mantém uma relação complicada. Inokichi não consegue suportar o facto de Mon ganhar a vida às custas dos homens, algo que condena de maneira violenta, tendo uma forma bastante estranha de mostrar a sua preocupação em relação à irmã. Mesmo a cena em que persegue Kobata é marcado por alguma tensão, com o seu interlocutor a não responder aos gestos violentos de Inokichi. Se Inokichi parece estar quase sempre em completa efervescência, já a personagem interpretada por Yoshiko Kuga exibe uma calma e ponderação que surpreendem, surgindo como mais uma protagonista feminina de Mikio Naruse que mescla no seu interior as contradições da modernidade e da tradição. Procura estudar e ser independente, embora não descure o casamento, mantendo uma relação de afinidade com a irmã e a mãe, algo que claramente nos remete para Kiyoko (Hideo Takamine), a protagonista de "Inazuma". Os dois filmes apresentam grandes semelhanças no seu enredo: o choque entre a tradição e modernidade, no caso exposto em elementos como Mon e San mas também no território rural mais associado às tradições do que a cidade de Tóquio, com o rio que separa estes dois espaços a ser exibido numa clara associação simbólica ao elemento divisório de dois territórios que não se encontram assim tão longe um do outro; os problemas financeiros e a forma como a falta de dinheiro afecta alguns dos gestos dos protagonistas; a tensão entre elementos da mesma família; personagens a beberem mais do que a conta; o papel considerado inferior da mulher (veja-se que Inokichi tem casos com mulheres consideradas pouco recomendáveis mas nem por isso é duramente criticado); a casa dos pais como local pouco acolhedor para uma das personagens femininas principais (Mon), entre outros. Diga-se que a tradição e a ligação ao passado afectam e de que maneira os personagens de "Older Brother, Younger Sister": Akaza continua amargurado em relação ao passado onde era um indivíduo respeitado com poder a nível financeiro e laboral; Inokichi não aceita as mudanças da irmã mais velha; os pais de Taiichi não querem este unido a San devido à família desta; a comemoração da festividade, para além dos exemplos já citados. No entanto, é na profundidade a explorar as relações familiares que "Older Brother, Younger Sister" mais sobressai, pese alguns momentos onde parece existir algum melodrama excessivo, com Mikio Naruse a deixar-nos diante de uma família que está longe de ser a mais unida, mas nem por isso existe um total quebrar de laços. A personagem interpretada por Machiko Kyō surge muitas das vezes como elemento essencial para disparar o gatilho para os acontecimentos, quer pela sua presença, quer pelos seus actos, com esta a procurar sobreviver da forma que pode em Tóquio, após ter sido alvo de comentários menos positivos no território onde habitava. Esta tem uma relação de relativa amizade com a irmã, com quem partilha uma longa caminhada no último terço, algo comum aos filmes de Mikio Naruse, com o cineasta a ter nos momentos exteriores, em que os personagens se encontram a falar e a caminhar pelo território e a câmara se move a acompanhá-los, alguns trechos de grande influência na narrativa. "Older Brother, Younger Sister" surge assim como um melodrama emocionalmente intenso, onde a tradição e os valores conservadores afectam e de que maneira a forma como uma mulher é vista pela sua família, enquanto Mikio Naruse volta a explorar temáticas como as relações familiares (entre irmãos e irmãs, bem como entre pais e filhos), o papel das figuras femininas na sociedade do seu tempo, o contraste entre a modernidade e a tradição, entre outras. É um melodrama competente que se desenvolve a um ritmo fluído, marcado por interpretações bastante recomendáveis e uma realização assertiva de Mikio Naruse.

Título original: "Ani imôto".
Título em inglês: "Older Brother, Younger Sister".
Realizador: Mikio Naruse. 
Argumento: Yōko Mizuki.
Elenco: Machiko Kyō, Masayuki Mori, Yoshiko Kuga, Eiji Funakoshi.

Resenha Crítica: "Sound of the Mountain" (Yama no oto)

 No papel a premissa de "Sound of the Mountain", uma obra cinematográfica realizada por Mikio Naruse, tendo como base o livro "Yama no oto" de Yasunari Kawabata, poderia parecer excessivamente melodramática mas o cineasta facilmente introduz uma enorme dose de humanidade e complexidade que evitam essa possível colagem. "Sound of the Mountain" é mais uma das obras de Mikio Naruse onde assistimos aos relacionamentos intrincados de uma família numa sociedade japonesa em mudança entre a tradição e a modernidade, onde um pai procura chamar o filho à razão e inesperadamente forma uma relação de enorme proximidade com a sua nora. Este indivíduo é Ogata Shingo (So Yamamura), um homem de meia idade (já a caminhar para os seus sessenta anos), casado com Yasuko (Teruko Nagaoka), de quem tem uma filha e um filho. O filho de Shingo é Shuichi (Ken Uehara), um indivíduo que trabalha na empresa do progenitor e vive na casa dos pais, sendo casado com Kikuko (Setsuko Hara), uma mulher que parece muitas das vezes desprezar, apesar desta ser quase sempre gentil e cuidadosa para com o mesmo e os sogros. Setsuko Hara, colaboradora habitual de Yasujiro Ozu e também de Mikio Naruse, consegue como poucas actrizes expressar-se imenso através dos seus gestos, transmitindo a enorme candura da personagem que interpreta, uma mulher que reprime muitas das vezes os seus sentimentos, mesmo quando está em enorme sofrimento e sabe que se encontra a ser traída. Shuichi trai a esposa com Kinuko (Reiko Sumi), uma costureira, viúva de guerra, algo que é do conhecimento de Tanizaki Hideko (Yoko Sugi), a secretária da empresa de Ogata Shingo, uma mulher que por vezes acompanha o protagonista. Diga-se que praticamente nunca vemos Shuichi com Kinuko, com esta mulher apenas a surgir no último terço da narrativa, algo que permite a Mikio Naruse surpreender-nos em relação à personalidade da mesma, com esta a também ter sido alvo do lado menos recomendável do personagem interpretado por Ken Uehara, tendo decidido afastar-se do mesmo. Esta procura de Mikio Naruse em surpreender-nos em relação ao carácter dos personagens é algo que remete desde logo para obras como "Wife! Be Like a Rose!", onde a filha descobre que a amante é que se encontra a sustentar o pai, bem como o facto deste ser mais feliz com a mesma, entre vários outros exemplos, com o realizador a procurar exibir a complexidade inerente às relações humanas. No caso de "Sound of the Mountain" encontramos ainda algo nem sempre comum nas obras de Mikio Naruse, uma família de classe média capaz de viver sem grandes dificuldades financeiras a atormentá-la, algo visível na própria alimentação destes personagens, sem grandes restrições. Veja-se no início do filme com a mesa a contar com camarões, lagostas e caracóis verdes, bem como o facto da própria empresa de Shingo não ser notícia de problemas. Já a representação do lar como um local onde por vezes os sentimentos aquecem em demasia e fica desconfortável para alguns elementos é transversal a diversos filmes do cineasta, tais como "Inazuma", "Older Brother, Younger Sister", "Meshi", entre outros, algo latente em "Sound of the Mountain". No caso, assistimos ao crescente desconforto de Kikuko em relação ao desprezo do esposo, algo que esta nem sempre demonstra mas vai culminar com um acto da parte desta que é considerado incompreensível pela parte de Yasuko mas facilmente é compreendido por Ogata. Apesar de ser descrito pela esposa como um homem que não compreende as mulheres, Ogata é dos poucos que parece profundamente preocupado com a nora, formando laços de enorme amizade com esta, surgindo algo angustiado em relação à forma pouco digna como o filho trata Kikuko. Veja-se quando Kikuko tem uma hemorragia nasal, algo que desperta a preocupação de Ogata e a indiferença de Shingo, mas também a procura do veterano em conseguir que o filho deixe a amante. Kikuko procura cuidar dos sogros e das lides da casa, esforça-se para agradar a todos, mas claramente encontra-se presa a um casamento cuja felicidade parece ser algo que ficou pelo passado e assaz difícil de reacender no presente.

 Setsuko Hara e Ken Uehara já tinham interpretado um casal a viver uma fase problemática em "Meshi", de Mikio Naruse, mas em "Sound of the Mountain" este último interpreta um indivíduo praticamente incapaz de despertar simpatia. Em "Meshi" existia uma crise na relação. Em "Sound of the Mountain" nem parece existir grande relação entre ambos, com Shuichi a chegar tarde a casa e a ignorar o esforço da esposa para lhe agradar, não conseguindo compreender bem como o pai nunca traiu a mãe. Diga-se que mais tarde descobrimos que Shingo era apaixonado pela irmã da esposa, uma mulher que faleceu ainda bastante jovem, algo de que Yasuko está consciente, embora este ressentimento tenha sido habilmente reprimido ao longo dos anos. No entanto, este nunca descura os cuidados com a esposa, procurando manter o casamento estável, apesar de um ou outro arrufo, tal como toda a sua vida pessoal e profissional. A casa de Yasuko e Shingo, para além de contar com Shuichi e Kikuko, irá ainda receber a visita de Fusako (Chieko Nakakita), a outra filha do casal, com esta a chegar com a sua filha e o seu filho. Fusako encontra-se também a atravessar uma fase menos positiva do casamento, procurando apoio junto dos progenitores, quer a nível pessoal, quer a nível financeiro (esta sim faz parte das personagens típicas dos filmes de Naruse que padecem de problemas a nível monetário). Esta parece ressentir-se um pouco pelo facto do pai mais facilmente dar atenção à nora do que a si, com o filme a abordar a complexa relação entre pais e filhos, mas também entre os primeiros e os cônjuges destes últimos. Yasuko também parece agradada com a presença de Kikuko, tal como quase todos os elementos, excepção feita a Shuichi. Ken Uehara é exímio em tornar o seu personagem como alguém pouco simpático que, por vezes, esperamos que venha a mudar, mas continua a manter um caso extra-conjugal e a tratar a esposa com um desprezo notório parecendo por vezes difícil compreender como esta relação se mantém. Nesse sentido, é fundamental a companhia dos sogros para Kikuko não se sentir sozinha, com estes a surgirem como um baluarte da sua existência, proporcionando-lhe o carinho que não é dado pelo esposo. Shingo procura ajudar Kikuko como pode, chegando até a reunir-se com a amante de Shuichi, algo que mais uma vez o vai surpreender em relação aos comportamentos incorrectos do filho em relação às mulheres. "Sound of the Mountain" é, também, uma das várias obras de Mikio Naruse onde este demonstra a sua real preocupação pelas mulheres e em exibir a forma como por vezes são tratadas de forma inferior numa sociedade supostamente mais moderna, ao mesmo tempo que exibe a relevância das figuras femininas na mesma. Ficamos ainda perante as célebres cenas de dois personagens a dialogarem enquanto caminham pela rua, típicas das obras de Mikio Naruse, em alguns momentos fundamentais do enredo, com a câmara de filmar a acompanhar delicadamente os protagonistas, algo que podemos encontrar no último terço numa conversa entre Kikuko e Shingo, onde tudo é elaborado e exposto de forma harmoniosa. Existe um enorme cuidado na composição dos planos, mas é na sobriedade na abordagem dos relacionamentos humanos que Mikio Naruse mais sobressai, algo latente neste filme onde nos deixa perante várias gerações da mesma família, uma situação ainda mais notória quando chega Fusako acompanhada pelas netas de Shingo e Yasuko. Fusako também passa por alguns problemas no casamento, parecendo algo indecisa em relação ao próximo passo a tomar, embora ainda ame o esposo. No entanto, os únicos elementos que parecem relativamente estáveis são mesmo Shingo e Yasuko, com estes a contarem com a experiência de vários anos em comum a ajudar a que percebam melhor cada cônjuge, embora também pareçam ter vivido alguns problemas no passado (algo latente quando Yasuko que se refere à irmã).

 So Yamamura, colaborador habitual Yasujiro Ozu, é a par de Setsuko Hara um dos elementos que mais se destaca no elenco, com este a conseguir transmitir o carisma, presença e sapiência do personagem que interpreta (por vezes a fazer recordar alguns dos personagens interpretados por Chishu Ryu nos filmes de Yasujiro Ozu), um elemento que nem sempre parece compreender tudo o que o rodeia mas procura sempre tomar a atitude mais sensata. Por vezes queixam-se que este dá mais atenção a Kikuko do que à filha, mas a verdade é que este é dos poucos que está ao corrente dos actos praticados pelo filho, uma situação que o transtorna tendo em conta o comportamento sempre correcto da personagem interpretada por Setsuko Hara. A dinâmica entre Setsuko Hara e So Yamamura é latente, com os dois a interpretarem personagens muito próximos, ambos algo conservadores nos seus valores em relação à família. Também Yasuko aprecia a presença de Kikuko, embora não compreenda uma decisão desta no último terço do enredo, desconhecendo que o filho engravidou a amante. É perante este lar meio fervilhante que Mikio Naruse nos deixa, enquanto mais uma vez se revela exímio a abordar as relações familiares e a atribuir uma notória densidade aos personagens principais. Mesmo a amante do personagem interpretado por Ken Uehara está longe de ser como esperamos, com "Sound of the Mountain" a surgir como um drama competente, capaz de nos exibir a forma distinta como Shuichi e Fusako encaram o matrimónio em comparação com os pais, com o primeiro a ter numa amante uma forma de encontrar algo que não tem no casamento e a segunda a ter muitas dúvidas em relação ao futuro da relação matrimonial. Por sua vez, Shingo e Yasuko procuraram sempre manter o casamento, existindo um claro confronto de gerações na forma de lidar com o matrimónio, algo mais uma vez revelador de um território em mudança onde as tradições encontram-se a ser esbatidas diante da modernidade. Fusako já conta com dois filhos, enquanto Shuichi e a esposa ainda não contam com um rebento, algo que, tal como em "Meshi", permite ao casal ter uma maior facilidade no acto de reavaliar o estado da (não) relação. Diga-se que Kikuko ainda chega a engravidar mas opta por abortar ao invés de ter o filho, preferindo apenas ter uma criança numa fase estável que reflicta o desejo do casal e não num momento em que serviria apenas para segurar uma relação matrimonial que se encontra a atravessar uma grave crise. O próprio lar onde vivem está longe de ser propício a que tenham momentos de maior intimidade, com a presença dos pais a ajudar, mas também a muitas das vezes parecer que pode ser um empecilho para que marido e esposa se reúnam e procurem resolver de forma adulta os seus problemas. Diga-se que esta é uma conclusão à qual o próprio Shingo parece chegar, embora pareça incerto que alguma vez Shuichi e Kikuko possam atingir a felicidade. Ficamos assim diante de um drama competente, onde um casamento se encontra prestes a ruir e um sogro forma uma forte ligação de amizade com a sua nora, num território do Japão a conhecer diversas mudanças, embora o fulcro da narrativa esteja mesmo é no fervilhante lar de Shingo e Yasuko.

Título original: Yama no oto.
Título em inglês: "Sound of the Mountain".
Realizador: Mikio Naruse.
Argumento: Yoko Mizuki.
Elenco: Setsuko Hara, So Yamamura, Ken Uehara, Yoko Sugi.

28 junho 2015

Críticas publicadas em 2015: Parte 2 - (41 a 80)

41 -

42 -

43 -

44 -

45 -

46 -

47 -

48 -

49 -

50 -

51 -

52 -

53 -

54 -

55 -

56 -

57 -

58 -

59 -

60 -

61 -

62 -

63 -

64 -

65 -

66 -

67 -

68 -

69 -

70 -

71 -

72 -

73 -

74 -

75 -

76 -

77 -

78 -

79 -

80 -

27 junho 2015

Críticas publicadas em 2015: Parte 1 - (1 a 40)

1 -

2 -

3 -

4 -

5 -

6 -

7 -

8 -

9 -

10 -

11 -

12 -

13 -

14 -

15 -

16 -

17 -

18 -

19 -

20 -

21 -

22 -

23 -

24 -

25 -

26 -

27 -

28 -

29 -

30 -

31 -

32 -

33 -

34 -

35 -

36 -

37 -

38 -

39 -

40 -

Parte 2 - (41-80).
Parte 3 - Brevemente.
Parte 4 - Brevemente.

26 junho 2015

Resenha Crítica: "Hideko, the Bus Conductor" (Hideko no shashô-san)

 A presença de guias femininas nos autocarros é algo de natural em algumas das obras cinematográficas de Mikio Naruse, com estas a surgirem em filmes como "Meshi" (1951) e "Inazuma" (1952), algo que permite ao cineasta colocar-nos perante algo de comum no território japonês na época. Em "Hideko, the Bus Conductor", uma obra lançada originalmente em 1941, Mikio Naruse deixa-nos perante Okoma (Hideko Takamine), uma mulher que trabalha a auxiliar Sonoda (Kamatari Fujiwara), o condutor, no autocarro da Kohouku, a empresa onde laboram. Ele conduz, enquanto ela recolhe o dinheiro dos bilhetes e avisa sobre os locais por onde passa o autocarro, num negócio que está longe de prosperar, quer pela falta de clientes, quer pela concorrência que conta com veículos mais modernos do que o decrépito autocarro onde laboram. Se não tiverem clientes no período em que trabalham no autocarro, a empresa não lhes paga, pelo que a dupla começa a pensar em novos meios para atrair a clientela. É então que Okoma sugere utilizarem um conjunto de textos para a protagonista ler no autocarro tendo em vista a servir como um guia para descrever os principais espaços do território aos passageiros, algo que esta ouviu na rádio e pareceu-lhe ser uma boa medida para chamar clientela. É já o primeiro sinal de que Mikio Naruse pretende expor a relevância crescente da mulher na sociedade, algo comum nas suas obras cinematográficas (veja-se a relevância que este atribuiu às protagonistas de obras como "No Blood Relation", "Apart From You", "Every-Night Dreams", "When a Woman Ascends the Stairs", entre outras), com Okoma a surgir com a ideia para salvar o seu trabalho e o de Sonoda. O chefe (Yôtarô Katsumi), um indivíduo muito peculiar mas nem por isso bem intencionado, não parece ser avesso à ideia, desde que esta não seja mais dispendiosa. É então que estes decidem contratar os serviços de Ikawa (Daijirô Natsukawa), um escritor pouco famoso que aceita escrever o argumento que vai constar nos textos que vão ser decorados por Okoma. Ikawa faz questão de salientar a necessidade de Okoma ter de apresentar o tom de voz certo, bem como de enfatizar alguns momentos, de forma a transmitir alguma emoção para os clientes. Felizes da vida, logo começam a treinar no autocarro, mesmo que pelo caminho ignorem clientes, para além de se gerar um acidente cujas repercussões iniciais evidenciam bem a personalidade pouco recomendável do chefe dos protagonistas. Okoma e Sonoda regressam ao trabalho graças à influência do escritor, embora tenham de esperar para colocar o guião em prática, enquanto circulam pelas ruas de Kofu. Quando consegue expor as suas falas, Okoma revela um enorme entusiasmo, embora esteja longe de conhecer os planos do seu chefe, naquela que aparentemente parecia ser uma obra mais leve de Mikio Naruse, com a própria banda sonora a contribuir para a atmosfera aparentemente apolínea que rodeia o filme, mas nem por isso livre de alguns momentos de maior dramatismo (o final é mais trágico do que cómico). Os momentos de humor são muitas das vezes associados aos clientes do autocarro, bem como ao entusiasmo dos protagonistas mesmo tendo muito a melhorar no cumprimento dos seus objectivos, embora seja de realçar a procura de Mikio Naruse em explorar temáticas mais sérias, bem como em exibir a figura feminina como alguém inteligente, que procura a sua independência, trabalha e consegue fazer valer a sua opinião. Não é alguém que depende da mãe, embora ainda a chegue a visitar a progenitora, naquele que é a primeira de dezassete colaborações entre Hideko Takamine e Mikio Naruse.

Hideko Takamine já tinha participado numa série de filmes, tendo entrado no meio cinematográfico desde muito jovem, com "Haha", lançado em 1929, a marcar a estreia nestas lides, quando tinha apenas cinco anos de idade. A partir daí esta foi acumulando trabalhos (dez filmes em 1937), chegando a integrar o elenco de "Tokyo Chorus" de Yasujiro Ozu, tendo em "Hideko, the Bus Conductor" uma das personagens mais leves entre as que interpretou nos filmes realizados por Naruse. Veja-se o aclamado "Floating Clouds", mas também "When a Woman Ascends the Stairs", onde interpretava mulheres marcadas pela dor e pela sua condição pouco forte numa sociedade dominada pelas figuras masculinas. No caso de "Hideko, the Bus Conductor" assistimos já ao interesse de Mikio Naruse pelas personagens femininas e pela sua crescente independência, num filme menos denso do que algumas obras-primas do cineasta mas nem por isso desprovido de conteúdo e dramatismo, sendo capaz de nos proporcionar alguns momentos de entretenimento e reflexão, para além de apresentar alguma sátira social. Esta foi também a última obra cinematográfica realizada por Mikio Naruse antes do Japão ter oficialmente entrado na II Guerra Mundial, com o filme a procurar aparentemente alhear-se das questões políticas, existindo uma certa leveza que certamente contrasta com a realidade do território e até dos personagens. Ficamos perante as gentes e os territórios por onde o autocarro circula em Kofu, mas também diante de uma dupla de protagonistas de classe trabalhadora que vive com algumas dificuldades e procura a todo o custo manter o seu posto de trabalho. Hideko Takamine é quem mais sobressai, com esta a ser capaz de incutir mais uma vez uma enorme credibilidade, carisma e até alguma candura à personagem que interpreta, conseguindo que as suas expressões faciais transmitam imenso daquilo que tem para nos dizer. Já Kamatari Fujiwara não deslumbra mas consegue convencer-nos da procura do personagem que interpreta em conseguir mais clientes, trabalhando para um indivíduo que está longe de ser recomendável do ponto de vista moral, algo visível não só quando procura convencer o funcionário a mentir para a seguradora mas também pelos actos finais. O chefe dos protagonistas é interpretado por Yôtarô Katsumi, um actor capaz de atribuir nuances ao seu personagem que mesclam a frieza dos seus actos com um lado aparentemente mais leve. Veja-se quando procura convencer o empregado a mentir de forma a conseguir o dinheiro do seguro, mas também pelos seus actos finais que dão a "Hideko, the Bus Conductor" um tom trágico que exibem a subtileza de Mikio Naruse. Mal damos por isso, mas muito da atmosfera leve que rodeia alguns dos episódios do enredo acaba por contrastar com este acto final e as dificuldades pelas quais passam os protagonistas, uma dupla optimista que não poupa a esforços no cumprimento dos seus objectivos. Temos ainda Daijirô Natsukawa como o escritor cuja carreira está longe de conhecer mediatismo, com o actor a destacar-se como este indivíduo que procura expor à protagonista a forma ideal de expressar os textos elaborados para ilustrar as viagens aos passageiros. Diga-se que em "Meshi" percebemos o quão mal pode funcionar o trabalho dos guias se o tom de voz for mais esganiçado, algo que conduz Satoko, a sobrinha do protagonista, a ironizar com a situação, durante o intervalo de uma viagem turística de autocarro por Osaka. 

O escritor é talvez o personagem que resulta do paradigma em que se encontram muitos artistas do seu tempo, com o seu trabalho a ser pouco reconhecido mas também a estar sujeito a certas regras. Veja-se quando este salienta de forma irónica o trecho do seu argumento: "You can see a round mound; That's called Niwazuka. In the old days this area was called Wado-no-hara. Whenever the government changed, the refugees were forced to come here...", mas logo sente a necessidade de alterar o mesmo. Ou seja, existe uma auto-censura, ainda que num tom humorístico, num território que lida com a mesma, com vários artistas a terem de efectuar obras que estivessem comprometidas com os ideais do Governo durante a II Guerra Mundial (o Japão viria a declarar Guerra em Dezembro de 1941), algo que aconteceu a cineastas como Kenji Mizoguchi em filmes como "Chûshingura", "Meito Bijomaru", entre outros. As obras citadas de Mizoguchi remetem para o passado do Japão e para os valores tradicionais, algo que o texto do escritor também procura fazer, com este a salientar que as pessoas devem imaginar que estão a viajar nos velhos tempos. Diga-se que este não parece totalmente avesso à ideia de escrever estes textos, embora o trabalho seja mal remunerado, algo a que este está habituado. A título de curiosidade, os dois protagonistas consideram o argumento demasiado longo, provavelmente a fazer recordar alguns dos produtores dos filmes de Naruse mas, certamente, esta comparação, tal como a interpretação sobre a alteração do texto por parte do escritor, já será esticar muito a corda em termo de divagações. Vale a pena realçar que o cineasta pode não reflectir directamente na obra a atmosfera pré-Guerra no território, mas nem por isso deixa de incutir a crise financeira, algo latente nos sapatos desgastados da protagonista bem como na falta de clientes e até na falta de condições do autocarro. Temos ainda os irónicos momentos finais em que, mesmo numa suposta comédia, o destino e a acção de outrem intrometem-se na vida dos protagonistas dos filmes de Mikio Naruse, com estes a cumprirem os seus desejos ainda que de forma temporária, já que o seu chefe apresenta outros planos em relação ao autocarro e à empresa. Por um lado Naruse faz-nos esboçar um sorriso perante o facto dos protagonistas cumprirem o seu objecivo, por outro exibe que esta alegria de Okoma e Sonoda não irá durar muito tempo, tal como o Japão se prepara para mudar com a entrada na II Guerra Mundial. A realidade nem sempre é aprazível e diga-se que Mikio Naruse não é um optimista por natureza em relação às reviravoltas do destino, com os personagens a lutarem contra o mesmo embora esta luta pareça algo quixotesca. Ficamos assim diante de uma obra marcada por elementos cómicos, trágicos e melancólicos, capaz de realçar a importância do papel da mulher na sociedade e a sua procura em ser independente, ao mesmo tempo que subtilmente conta com temáticas que geram discussão, num filme que marca o início da frutuosa colaboração entre Hideo Takamine e Mikio Naruse.

Título em inglês: "Hideko, the Bus Conductor".
Título original: "Hideko no shashô-san".
Realizador: Mikio Naruse.
Argumento: Mikio Naruse (tendo como base um livro de Masuji Ibuse).
Elenco: Hideko Takamine, Kamatari Fujiwara, Daijirô Natsukawa.

25 junho 2015

Resenha Crítica: "Scattered Clouds" (Midaregumo)

 Última longa-metragem realizada por Mikio Naruse, "Scattered Clouds" deixa-nos perante uma história onde nos deparamos com a dor de uma perda irreparável e a formação de uma relação destinada ao fracasso muito ao estilo daquelas que encontramos nas obras do cineasta. Diga-se que no seu último filme Mikio Naruse coloca-nos diante de uma espécie de compêndio de várias das temáticas que surgem transversais às suas obras cinematográficas, para além do seu habitual interesse em explorar as complexidades dos seus protagonistas. Não falta a personagem feminina complexa e marcada pelo seu papel ainda inferior na sociedade, o choque entre a modernidade e a tradição (veja-se a publicidade à Coca-Cola, bem como a televisão, símbolos de modernidade e ocidentalização do território, em contraste com o facto da protagonista, uma viúva, não querer assumir um romance devido à "vergonha" em que viveria com o amado), a relação amorosa destinada ao fracasso e marcada pelo desejo reprimido, um protagonista que adoece gravemente e é alvo de cuidados da cara metade, as relações familiares complicadas (veja-se que a viúva perde o nome da família do falecido esposo devido aos sogros pretenderem ficar com a totalidade da pensão inerente à morte do mesmo), as descobertas efectuadas num território rural, os personagens a caminharem imenso, o aceitar do destino, entre vários outros temas e elementos que povoam "Scattered Clouds" e diversas obras de Mikio Naruse, tais como "Apart from You", "Wife! Be Like a Rose", "Floating Clouds", "Inazuma", entre outras. Em "Scattered Clouds" os momentos iniciais aparentemente idílicos vão contrastar com a dor de uma perda para Yumiko (Yôko Tsukasa), a protagonista do filme. No início de "Scattered Clouds" encontramos esta a trocar diálogos bem humorados com Hiroshi (Yoshio Tsuchiya), o esposo, um indivíduo que trabalha para o Ministro da Indústria e Comércio, tendo sido recentemente promovido. A promoção envolve a ida deste personagem e de Yumiko para Washington, com Hiroshi a ironizar com o facto da esposa não ter aprendido a falar inglês, algo que terá de fazer rapidamente para se adaptar ao local. A juntar a tudo isto, Yumiko encontra-se grávida de Hiroshi, com a felicidade a parecer rodear estes personagens. No entanto, esta dura pouco. Muito pouco. Hiroshi tem de ir para o trabalho em Hakone, enquanto Yumiko desloca-se a casa de Ayako (Mitsuko Kusabue), a sua irmã, e Ishikawa (Yû Fujiki), o cunhado. Quando a protagonista sai da casa da irmã, Ishikawa atende o telefone e recebe a notícia de que Hiroshi foi atropelado, tendo falecido devido a este acidente. Os momentos de felicidade transformam-se em dor. O ambiente no funeral é pesado, sobretudo quando aparece Shiro Mishima (Yûzô Kayama), o motorista que atropelou o marido da protagonista, um elemento claramente afectado pelo episódio pouco feliz e completamente acidental. Shiro ia em serviço para a empresa comercial Meiji, o seu local de trabalho, tendo sido temporariamente suspenso pelo seu chefe até terminar o processo em tribunal, apesar do superior saber que este se encontra inocente. O chefe de Shiro obriga-o ainda a ser transferido para a sucursal em Aomori, não só devido a evitar levantar publicidade negativa para a sua empresa, mas também para conseguir terminar de vez o envolvimento do funcionário com a sua filha. Shiro é ilibado em tribunal de qualquer culpa em relação ao acidente, não tendo a obrigação legal de pagar uma indemnização à família do falecido. No entanto, decide que tem de doar uma parte do salário a Yumiko, uma mulher que não esconde o desprezo pelo elemento que matou o seu esposo, apesar de ser notório que o protagonista ficou completamente abalado com o episódio. Yumiko rejeita inicialmente o dinheiro, diga-se que mal consegue olhar nos olhos de Shiro, mas a irmã desta logo aceita o acordo, enquanto a primeira tem de enfrentar ainda mais revezes. Os sogros revogam o nome  de família do esposo de forma a esta não ter direito à pensão, perde o bebé e o local onde trabalha foi encerrado, algo que torna o apoio financeiro de Shiro como algo absolutamente necessário. 

A vida não está fácil para Yumiko. Os sorrisos doces iniciais são trocados por expressões taciturnas, com Yôko Tsukasa a conseguir expor paradigmaticamente o estado de espírito pouco feliz da personagem que interpreta. Tsukasa consegue ainda transmitir imenso com as suas expressões faciais e movimentos corporais, com Mikio Naruse a saber explorar os momentos de silêncio entre os personagens, algo que vai resultar em cenas de grande impacto no último terço. Perante tantas adversidades, Yumiko decide aceitar a oferta de Katsuko (Mitsuko Mori), outra das suas irmãs, para ir viver e trabalhar no hotel desta. A ideia não agrada inicialmente a Yumiko, mas parece ser a decisão ideal e pragmática a tomar. Coincidências do destino, e para adensar ainda mais a narrativa, o hotel fica perto do Lago Towada, tendo sido o local de nascimento da protagonista, mas o que interessa é que o estabelecimento fica muito perto do trabalho de Shiro. Ela bem tenta esquecer o episódio e procurar que este desapareça mas, ou as deslocações de Shiro, ou o destino fazem questão de os juntar em diversos momentos. Shiro leva uma rotina completamente destrutiva, surgindo como mais um dos personagens de Mikio Naruse que bebe mais do que a conta, embora no caso deste homem seja claramente um sinal de fragilidade, procurando entorpecer a sua alma da realidade quotidiana ao sair do trabalho. Yûzô Kayama expõe paradigmaticamente a dor do seu personagem, um elemento que parece sentir um certo vazio em relação ao seu quotidiano, encontrando-se claramente atormentado pela morte que provocou acidentalmente. Bebe muito, trabalha imenso, viu o seu romance com a namorada terminar e esta ficar noiva de outro homem, enquanto todas as medidas para tentar mudar a opinião de Yumiko em relação à sua pessoa parecem falhar. A mãe deste ainda tenta convencer Yumiko a mudar de opinião, mas esta compreensivelmente continua bastante magoada com Shiro, procurando esquecer a existência do mesmo. Yumiko desperta a atenção dos homens que frequentam o hotel, incluindo Inohue (Naoya Kusakawa), um elemento financeiramente abastado, mas procura rechaçar todo o tipo de interesses. Já a relação desta com Shiro é mais complexa. Reúne-se com este no café onde recebeu a notícia de que o marido foi promovido, com os momentos de felicidade a serem contrastados com a dor provocada pela perda, com esta a rejeitar inicialmente o dinheiro de Shiro. Os dois voltam a reunir-se, incluindo no hotel, com ambos a acabarem por expor algumas palavras desagradáveis um ao outro até se iniciar uma inesperada relação de afecto. É algo que se desenvolve de forma gradual, com Mikio Naruse a mais uma vez explorar com enorme subtileza o quão complicadas e contraditórias podem ser as relações humanas. Estes personagens pareciam ter tudo para se afastarem para sempre mas, um pouco como os protagonistas de "Floating Clouds", acabam quase sempre por se reunir. Mesmo quando Shiro sai de Tóquio para Aomori, o destino acaba por conduzir a que Yumiko acabe por ir viver para perto do local. Os dois têm diversos momentos marcados por enorme dramatismo, mas também algo idílicos, ficando particularmente na memória quando Yumiko se encontra a colher plantas num espaço verdejante, quando Shiro se reúne com a mesma, ou quando ambos estão num barco a remos, pelo menos até este adoecer neste meio de transporte, com as nuvens cinzentas a terem dado o mote para algo de pouco apolíneo. O espaço verdejante permite a Mikio Naruse explorar a cor ao serviço da narrativa, com as tonalidades verdes, símbolo de esperança, a deixarem no ar que estes elementos podem ser felizes (diga-se que os tons verdes e castanhos dominam os espaços da narrativa). Ela encontra-se relutante em relação a assumir os seus sentimentos, tal como este parece saber que existe uma enorme cicatriz devido a uma ferida no passado de ambos que pode abrir a qualquer momento. 

Mikio Naruse volta a deixar-nos perante um amor impossível, iniciado no mais improvável dos momentos por um casal cujos elementos pareciam ter tudo para sentir um enorme ressentimento em relação um ao outro. A dinâmica entre Yûzô Kayama e Yôko Tsukasa é convincente, não só nos momentos em que estes personagens se encontram a dialogar, mas também nos longos silêncios. É sobretudo nos silêncios onde muito encontramos a ser transmitido, algo notório quando estes se deparam com um acidente de viação no último terço e as consequências do mesmo, um episódio que vai representar paradigmaticamente o quão facilmente a relação destes pode estar destinada ao fracasso. Inicialmente este queria apenas dar-lhe dinheiro, mas aos poucos procura compreender o ódio desta por si e fazer com que a mesma o perdoe. Diga-se que o dinheiro e a falta dele é uma temática muito comum às obras de Mikio Naruse, algo que volta a ser explorado em "Scattered Clouds". Veja-se como é o dinheiro que potencia as divisões de Yumiko com os sogros, mas também é a quantia monetária oferecida por Shiro que conduz a que este escreva sempre pequenos recados à protagonista, tal como será um dos motivos para esta mais tarde reunir-se com o personagem interpretado por Yûzô Kayama. É também o dinheiro que conduz Katsuko a procurar manter amizades com elementos como Inohue, mas também um caso com Hayashida, um homem casado. Diga-se que Katsuko apresenta sempre uma postura mais dependente aos elementos masculinos do que a protagonista, com ambas a apresentarem claras diferenças comportamentais na forma como encaram a viuvez e a relação com os homens. No entanto, e regressando ao tema do dinheiro, não são os yenes que fazem Shiro pedir a transferência de Aomori para outro local, mas sim cumprir aquilo que foi inicialmente pedido pela protagonista. Shiro e Yumiko são dois personagens marcados por uma desgraça passada. Ela perdeu o esposo. Ele matou acidentalmente um homem. A complicar a tarefa desta em desprezá-lo encontra-se o facto de Shiro estar longe de ser alguém completamente inconsciente, com este a saber o mal que provocou a esta mulher. Do ressentimento e dor entre ambos parece nascer algo mais, embora estes personagens procurem ao máximo restringir os seus sentimentos. "Scattered Clouds" é também um exemplo da restrição a nível sentimental da dupla de protagonistas, mas também de Mikio Naruse em não cair em momentos melodramáticos excessivos. Tudo parece fluir de forma natural, as elipses são bem utilizadas, os planos compostos de forma cuidada, enquanto ficamos perante interpretações dignas de relevo por parte de Yûzô Kayama e Yôko Tsukasa, uma dupla capaz de nos convencer da complexidade que envolve a relação dos personagens que interpretam. A própria banda sonora por vezes parece atribuir alguma melancolia ao enredo, enquanto a cinematografia de Yuzuru Aizawa destaca-se pela sobriedade e beleza que concede a alguns momentos da narrativa. Ficamos assim perante um terminar de carreira em beleza para Mikio Naruse, com este a exibir várias temáticas e qualidades que marcaram as obras que realizou, com "Scattering Clouds" a exibir-nos o quão maravilhoso pode ser assistir a um filme deste cineasta. Pode não dar o final que queremos, nem rodear o enredo de momentos açucarados para fazer as nossas vontades mais românticas, procurando antes apresentar-nos a uma relação complexa, marcada por um realismo muito próprio onde os sentimentos expressos pelos protagonistas conseguem causar ressonância junto do espectador, ou pelo menos junto da pessoa que escreve este texto.

Título original: "Midaregumo".
Realizador: Mikio Naruse. 
Argumento: Nobuo Yamada.

Elenco: Yûzô Kayama, Yôko Tsukasa, Mitsuko Kusabue, Mie Hama, Mitsuko Mori.