31 dezembro 2014

Resenha Crítica: "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos" (The Hobbit: The Battle of the Five Armies)

     “The Hobbit: The Battle of the Five Armies” não perde tempo nenhum em introduções ou em contemplações e inicia-se precisamente no momento em que terminara o filme anterior, ilustrando com muito estilo e efeitos especiais o ataque enraivecido do dragão Smaug à indefesa cidade de Esgaroth, consumida por chamas e em vias de carbonizar. Aturdidos por este começo e impressionados com a banda sonora, testemunhamos, entretidos, o pânico dos seus cidadãos, que, em botes de madeira e entre as ruínas da povoação, remam para um cenário que os salve preservando quem podem e o que conseguem; observamos ainda, paralelamente, a aventura do heroico Bard para se libertar da cela em que o encarceraram, e testemunhamos a coragem com que, pulando de telhado em telhado, o arqueiro alcança, com perícia, o frágil topo de um campanário com uma assombrosa vista para a povoação e uma exposição direta à imponência da besta e à fúria que ela destila. Temerosamente e com uma pontaria sobrenatural, Bard desfere flechas atrás de flechas na barriga da criatura, mas sem sucesso. Necessita de uma arma maior, mais letal, uma espécie de arpão gigante e de ferro que lhe será trazido pelo filho, escapulido do barco da família para salvar a população. As circunstâncias não podiam ser mais dramáticas – o dragão cessa o ataque, olha-o nos olhos divertido com a sua insolência, e ri-se com a ausência de um suporte para lançar o projétil. Num ato de espontaneidade será a criança, amedrontada, a servir esse propósito. Bard apoia o arpão no ombro do filho, encara a fúria do animal que entretanto se lançara fulminante na sua direção e, no momento certo, interrompe o seu voo fazendo-o baquear sobre os destroços da cidade.
     Depois de testemunharem, aliviados, no cume de uma colina pouco distante, a queda do terrível animal, a companhia dos treze anões acompanhada pelo hobbit Bilbo faz a sua segunda entrada na Montanha Solitária. No seu interior deparam-se, novamente, com as indescritíveis riquezas que noutros tempos foram protegidas por Smaug mas que, agora, se encontram à mão de semear, prosseguindo o seu intento de deitarem mãos à Arkenstone e, assim, completarem a sua busca. Atormenta-os então um misterioso malefício mencionado com subtileza já no filme anterior, que vai turvando gradualmente a mente do líder Thorin Escudo-de-Carvalho, enlouquecendo-o e suscitando-lhe uma constante fúria e paranoia.
     Os anões encurralam-se por opção própria dentro da cidade construída no interior da montanha enquanto testemunham, impotentes, o endurecer do olhar de Thorin, cada vez mais sombrio e impregnado de rancor, e os seus passeios sem rumo aparente entre as toneladas de joias que tem a seus pés. Desconhecem que o detentor da pedra é na realidade Bilbo Baggins, que a esconde no seu casaco hesitando em revelá-la por se preocupar, sensatamente, com o efeito da sua revelação ao rei dos anões. Entretanto ainda receberão, e expulsarão com indignação, o contingente de sobreviventes de Esgaroth que, no dia anterior, assomara às suas portas, não se impressionando com a visão do deleitoso exército de elfos que lhes fazia companhia, resplandecente e cheio de estilo com as suas armaduras cintilantes, disciplinado como uma máquina e chefiado por um indivíduo de aparência fabulosa, empenhado em entrar na montanha pela via da força. Sabem os anões algo que os elfos não sabem, e que o espetador suspeita mas que não tem a certeza – que se aproxima ainda outro exército composto por anões em auxílio de Thorin, liderados pelo seu irmão e com sede de pancadaria.
Outra ameaça ainda vai-se fortalecendo em simultâneo, percorrendo também ela o seu caminho em direção à almejada montanha. Trata-se de um perigo movido não por ganância ou por ódios ancestrais mas sim por pura malevolência e fome de matança, fortalecido pela temida ascensão do poderoso e infame Sauron e corporizado por duas criaturas terríveis e corpulentas, nossas conhecidas dos filmes anteriores da saga, que desta vez comandam dois exércitos de orcs e de goblins e de outras criaturas do mais terrível aspeto. Tanto os anões como os elfos serão avisados antecipadamente do advento desta força, primeiro pelo mago Gandalf e depois pelos elfos Legolas e Tauriel, mas tardarão a fazer-lhe caso. Unir-se-ão apenas no momento crucial e de forma espontânea, dando início a uma batalha com cerca de uma hora de duração.
     O filme embrenhar-se-á neste conflito dirigido com imensa pompa e efeitos especiais, reforçando a ideia de que o seu realizador se sente mais confortável a ilustrar cenas de ação do que a escrever argumentos complexos e equilibrados. Como sucedera n’“ O Senhor dos Anéis”, Peter Jackson volta a retratar com alguma clareza um embate violento e em larga escala entre duas fações distintas, controlando com competência o espaço geográfico em que se desenrola a ação e filmando os combates tanto de perto como de longe, e tanto em planícies espaçosas como nos estreitos corredores de uma cidade, permitindo-nos compreender como, e por onde, se vão situando as frentes da batalha.
Apesar de nos proporcionar esta visão global a narrativa centrar-se-á nas lutas individuais de cada um dos protagonistas, cujos antagonistas deixarão de ser criaturas anónimas e facilmente esquartejáveis para irem tomando a forma dos corpulentos e assustadores líderes do exército inimigo. Estes embates são tensos e ricos em reviravoltas, beneficiam de espantosas coreografias e de uma banda sonora notável, conseguindo causar emoção pela sensação de perigo que, realmente, provocam, resultando até na queda de um ou outro anão por quem nutríramos empatia.
     Finda a batalha e vertidas as lágrimas dos seus intervenientes, o filme termina de forma discreta fazendo uma ponte com ”O Senhor dos Anéis”. De um modo geral esteve longe de resultar numa obra-prima e, aliás, nem foi essa a intenção de Peter Jackson; aliás, esmorecido o entusiasmo suscitado há três anos, já nem era disso que estávamos à espera. Já todos nos apercebemos que, mesmo que se desenrole na Terra Média, e que se apoie na coragem de um Baggins, na imponência de Gandalf e no carisma de Legolas, a trilogia de “O Hobbit” nunca se equipararia à d’“O Senhor dos Anéis” – por um lado porque o livro original de JRR Tolkien foca-se mais estritamente no percurso do seu protagonista, coibindo-se de traçar uma visão global da Terra Média e de explorar as complexidades políticas ou culturais dos territórios, e por outro porque a decisão de Peter Jackson em adaptar a obra literária em três filmes obrigou-o a alterar a estrutura da sua narrativa, deformando a harmonia com que ela foi originalmente concebida. Houve cenas de ação obrigatoriamente prolongadas em excesso nas quais o protagonista é remetido para segundo plano, um romance pouco convincente entre a elfa Tauriel e o anão Kili, e episódios que, no livro, não tinham grande relevância, mas que nos filmes foram transformados em momentos climáticos e emotivos (sobretudo o final do primeiro).
De facto, de um ponto de vista narrativo, “The Hobbit: The Battle of the Five Armies” tem uma estrutura irregular: começa imediatamente com a violenta investida do dragão Smaug à povoação de Esgaroth - que, possivelmente, teria ficado mais bem aproveitada como clímax do segundo filme, pois a sua posição introdutória retira-lhe alguma importância – pelo meio investe no conflito interior de Thorin Escudo-de-Carvalho que, finalmente, suscita uma bela contribuição do carrancudo Richard Armitage para a franquia, e na segunda metade transforma-se no desenrolar de uma longa e emocionante batalha que, por constituir o cerne da história, remete o filme para, na sua essência, uma obra de ação e entretenimento.
     “The Hobbit: The Battle of the Five Armies” acaba, assim, por ser uma confirmação do menor grau de ambição da trilogia que finalizou, que contornou o desequilíbrio da sua história ao investir em cenas de ação prolongadas que não maravilham mas que, tendo sido construídas e geridas com sagacidade por Peter Jackson, e introduzidas numa história original e coerente, entretém o espetador. É indesmentível que beneficia da existência d’”O Senhor dos Anéis” e da ligação afetiva que o espetador já tem com o universo de Tolkien, recorrendo até à introdução de Legolas para guarnecer a narrativa de uma figura forte e carismática; no entanto, de um modo geral, parece-me cumprir os objetivos a que se propôs: transportar o espetador novamente para a Terra Média, não o impressionando como noutros tempos mas, ainda assim, proporcionando-lhe algumas horas de escapismo e de entretenimento.

Ficha técnica:

Título original: "The Hobbit: The Battle of the Five Armies"
Título em Portugal: "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos"
Realização: Peter Jackson
Argumento: Fran Walsh, Peter Jackson, Philippa Boyens, Guillermo del Toro
Elenco: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, entre outros.

Nova imagem de "Inside Out". "Taken 3" ganha um novo clip. Vídeo dos bastidores de "Agent Carter". Dois quads de "Son of a Gun". Trailer final de "The Interview". Nove clips de "The Wedding Ringer". Cinco TV Spots de "Project Almanac". Novo vídeo promocional de "Cinderella". Notícias - 30 e 31 de Dezembro de 2014.

-  Já se encontra online uma nova imagem de "Inside Out", um filme de animação realizado por Pete Docter. Imagem via Omelete.
O filme conta no elenco vocal com Amy Poehler, Mindy Kaling, Bill Hader, Kaitlyn Dias, entre outros. O enredo de "Inside Out" acompanha as emoções no interior da mente de uma jovem.

- Foi divulgado um vídeo dos bastidores de "Agent Carter", uma série protagonizada por Hayley Atwell.

  A série "Agent Carter" é centrada em Peggy Carter, uma personagem da Marvel que surgiu pela primeira vez no grande ecrã em "Captain America: The First Avenger". "Agent Carter" conta ainda no elenco com James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokai, Shea Whigham, entre outros.



- Foi divulgado mais um clip de "Taken 3". O filme é realizado por Olivier Megaton, através do argumento de Robert Mark Kamen e Luc Besson.

"Taken 3" conta no elenco com Liam Neeson, Famke Janssen, Maggie Grace, Forest Whitaker, entre outros. Em "Taken 3", Bryan Mills torna-se a presa após ter sido acusado de eliminar alguém próximo da sua pessoa.



- Foram divulgados dois novos quads de "Son of a Gun", um filme realizado por Julius Avery ("Jerrycan"). O filme conta no elenco com Brenton Thwaites, Ewan McGregor, Alicia Vikander, entre outros. Via IMP Awards.
O enredo de "Son Of a Gun" acompanha a complicada relação entre JR (Thwaites), um indivíduo que foi preso devido a um pequeno crime e Brendan Lynch (McGregor), um criminoso poderoso que oferece protecção ao primeiro se este posteriormente ajudá-lo a sair da prisão. A relação entre os dois começa a deteriorar-se quando os planos do grupo criminoso liderado por Brendan não começam a dar certo.

- Já se encontra online o trailer final do polémico "The Interview". O filme é realizado por Seth Rogen ("The Guilt Trip") e Evan Goldberg. Goldberg e Rogen assumem ainda o cargo co-argumentistas (repetindo a parceria de "This is the End") ao lado de Dan Sterling ("The Sarah Silverman Show"). O elenco de "The Interview" conta com elementos como James Franco, Seth Rogen, Lizzy Caplan, Randall Park, entre outros.
O enredo de "The Interview" desenrola-se em volta de um apresentador televisivo (Franco) e do seu produtor (Rogen), uma dupla que se envolve num plano rocambolesco para o assassinato do Primeiro Ministro da Coreia do Norte.



- Foram divulgados nove clips de "The Wedding Ringer", um filme realizado por Jeremy Garelick, através do argumento do próprio e Jay Lavender. O filme conta no elenco com Josh Gad, Kevin Hart, Kaley Cuoco, Olivia Thirlby, Alan Ritchson, entre outros. Kevin Hart interpreta o dono de uma empresa especializada em disponibilizar padrinhos de casamento para indivíduos pouco sociáveis. Este acaba por se ver na contingência de ter de ser o padrinho de Doug (Josh Gad).



- Já se encontra online um novo vídeo promocional da mais recente adaptação cinematográfica de "Cinderella", um filme realizado por Kenneth Branagh ("Thor"). O argumento inicial foi escrito por Aline Brosh McKenna ("27 Dresses"), tendo sido posteriormente revisto por Chris Weitz ("A Better Life"). O filme conta no elenco com Stellan Skarsgard ("Thor"), Helena Bonham Carter ("The Lone Ranger"), Sophie McShera ("Downton Abbey"), Holliday Grainger ("The Borgias"), Richard Madden ("Game of Thrones"), Lily James ("Wrath of the Titans"), Cate Blanchett ("The Good German"), Hayley Atwell ("Captain America: The First Avenger"), entre outros.


A história de "Cinderella" segue os destinos da jovem Ella, cujo pai, um mercador, decide casar com outra mulher, após a trágica morte da mãe da protagonista. Pronta a apoiar o seu pai, Ella recebe bem a sua madrasta Lady Tremaine e as duas filhas desta, Anastasia e Drisella. Quando o pai de Ella morre inesperadamente, esta fica à mercê da cruel e invejosa nova família. Relegada a pouco mais do que ser uma criada no interior da sua casa e com o seu nome alterado para Cinderella, Ella começa a perder a esperança. No entanto, apesar da crueldade a que é diariamente sujeita, Ella está determinada a honrar as palavras da sua mãe de "ter coragem e ser gentil". Esta não vai ceder ao desespero, apesar dos constantes abusos que são cometidos sobre si. É então que Ella conhece um impetuoso estranho no bosque, não estando ciente que este é um príncipe, pensando que finalmente encontrou uma alma gentil. O destino de Cinderella parece ter mudado quando é enviado um convite do Palácio para todas as donzelas da sua casa participarem no baile, algo que desperta a esperança da protagonista em reencontrar o amável estranho. Este desejo é afastado pela sua madrasta, que proíbe Cinderella de participar no baile e rasga o vestido. No entanto, tal como em qualquer bom conto de fadas, a ajuda chega de forma inesperada, no caso, através de uma mendiga, que conta com uma abóbora e alguns ratos, que mudam a vida de Cinderella para sempre.



- Foram divulgados cinco TV Spots de "Project Almanac", um filme realizado por Dean Israelite, através do argumento de Andrew Deutschman e Jason Pagan. O filme conta no elenco com Amy Landecker, Sofia Black-D'Elia, Virginia Gardner, Jonny Weston, Agnes Mayasari, Katie Garfield, Patrick Johnson, Sam Lerner, Michelle DeFraites, Gary Grubbs, entre outros.
 O enredo de "Project Almanac" acompanha um grupo de adolescentes que descobre um plano para a elaboração de uma máquina do tempo. Estes conseguem colocar o plano em prática, algo que resulta na possibilidade de poderem viajar no tempo. No entanto, o que parecia uma excelente invenção logo se transforma num problema quando tudo começa a ficar fora de controlo. 

Top 2014 - Os Meus 15 (Hugo Barcelos)

E cá estamos nós no final do ano, o que, como de costume, significa que é altura de eleger, dentro da minha cabeça, os filmes que mais me prazer proporcionaram no cinema no ano de 2014.

À semelhança do que o Aníbal fez não os vou ordenar, pois não há qualquer necessidade de o fazer.

Realço ainda que houve dois filmes que ainda não vi porque não tive oportunidade de o fazer, "Cavalo Dinheiro" e "E Agora? Lembra-me", o que deve ter sido tido em conta pelo leitor.

Seja como for, aqui estão os quinze referidos filmes, ordenados alfabeticamente (com links para críticas sobre os mesmos da nossa autoria, exceptuando aqueles sobre os quais ainda não escrevemos):

12 Years a Slave
Boyhood
Gone Girl
Her
Ida
Interstellar
L'image manquante
La Grande Bellezza
Mommy
Nebraska
The Congress

30 dezembro 2014

Top 2014 - Filmes vistos em festivais e mostras de cinema

Depois do Top sobre os filmes que menos gostei e o top sobre os meus 15 filmes de eleição de 2014, chega a vez de destacar os filmes vistos em festivais de cinema que ainda não viram a luz do dia em circuito comercial (algo que limita o critério de escolha). Neste sentido, a elaboração do top dos Filmes vistos em Festivais e Mostras de Cinema nacionais reveste-se de importância acrescida, visto que pretende dar alguma visibilidade aos filmes que apenas puderam ser vistos em festivais, algo que reflecte o papel fundamental destes eventos para darem algo de alternativo aos cinéfilos. O top está organizado por ordem alfabética e não por ordem de preferência:

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- "Les Apaches"
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Resenha Crítica: "Atonement" (Expiação)

 A sensação de engano no final de "Atonement" apenas é superada pela dor de percebermos que nem tudo correu como esperávamos para o casal de protagonistas pelo qual passámos a nutrir alguma simpatia e empatia. Joe Wright é inteligente na reviravolta final e evita a candura de "Pride & Prejudice", a sua primeira longa-metragem, investindo antes num enredo mais negro, onde o amor é prejudicado por uma mentira que se revela desastrosa e nefasta para os protagonistas. Os mal-entendidos são mais do que muitos, seja entre os personagens, seja aqueles que Joe Wright coloca para nos enganar, enquanto o personagem interpretado por James McAvoy acaba por ser um dos mais prejudicados por algo que não fez devido a uma mentira de uma pré-adolescente com uma imaginação demasiado fértil. McAvoy interpreta Robbie, um indivíduo de vinte e poucos anos, filho da governanta (Brenda Blethyn) da casa dos Tallis, sendo protegido pelo dono da extensa propriedade que lhe pagou os estudos em Cambridge. Nesta casa habitam ainda elementos como Briony Tallis (Saoirse Ronan), uma jovem de treze anos de idade, aspirante a escritora que no início do enredo, em 1935, encontramos efusiva por terminar a sua primeira peça de teatro. Está feliz da vida, mas inquieta pelos seus dois primos não quererem protagonizar a mesma, ao contrário de Lola (Juno Temple), a sua prima, com o trio a encontrar-se no local após ter sido abandonado pelos pais. Briony irá exibir desde logo a fertilidade da sua imaginação quando encontra Cecilia (Keira Knightley), a sua irmã mais velha, a tirar parte da sua roupa e entrar no chafariz com água bem profunda após alguns gestos comprometedores com Robbie. Supostamente Cecilia desprezava o mesmo, algo que descobrimos não ser verdade, tal como sabemos que Briony tem uma paixoneta por Robbie. "Atonement" mostra desde logo ao que vem ao reexibir a mesma cena, mas desta vez do ponto de vista de Cecilia e Robbie, embora tenham em comum a transparência da roupa da primeira após ter entrado na água e o aparente desejo contido e cumplicidade que ambos apresentam. Robbie partira por acidente parte do jarro com flores que Cecilia iria utilizar para receber Leon (Patrick Kennedy), o irmão mais velho, e Paul Marshall (Benedict Cumberbatch), um empresário do sector dos chocolates que se prepara para lucrar com o conflito bélico que se avizinha. Leon convida Robbie para o jantar em casa que contará com a presença de toda a família e Paul. No entanto tudo corre mal. Robbie escreve uma carta para Cecilia onde revela de forma bem explícita o desejo sexual que esta lhe desperta, algo que não deveria ser enviado mas sim uma versão bem menos "anatómica" da mesma, embora o protagonista entregue o texto mais picante por engano a Briony para esta entregar à irmã. Já a carta de Darcy a Elizabeth tinha provocado consequências em "Pride & Prejudice", mas em "Atonement" estas servem para chocar, instigar, culpabilizar e até expurgar os personagens e os seus sentimentos. Briony fica chocada e desiludida. Cecilia não parece saber bem o que fazer. Robbie mostra-se envergonhado. O resultado é uma quente cena de sexo na biblioteca entre Cecilia e Robbie, com o vestido verde desta a permitir um abrir de pernas após uma troca de beijos e um desejo notório entre ambos. São apanhados por Briony que não perdoa o momento e terá numa mentira a mais vil das vinganças. É então que é dada a notícia do desaparecimento dos irmãos de Lola, com vários elementos a encetarem a busca durante a noite, algo que culmina em tragédia devido a esta última ser violada.

 Briony não viu quem violou Lola mas acusa desde logo Robbie, enquanto esta última sabe quem foi o culpado mas não revela a verdade. As culpas são colocadas por Briony em Robbie, o último a aparecer, com quase todos a se acreditarem nesta menos Cecilia. Robbie é preso. A narrativa parece parar no rosto de Briony, com esta a criar na sua mente uma versão transviada de Robbie. Nós paramos estupefactos com o que vemos. Uma mentira resulta na prisão de um inocente. Uma mentira arrasa com o rumo que a narrativa tinha tido até então, onde tínhamos observado todo um contexto mais apolíneo. Uma mentira termina com uma relação que se preparava finalmente para avançar. Um close-up cada vez mais fechado é utilizado no rosto de Briony, enquanto ouvimos incessantemente sons próximos de uma máquina de escrever. Mais tarde saberemos o significado destes sons, com Joe Wright e a sua equipa a terem uma decisão feliz ao colocarem esta pista na banda sonora que irá ter todo o sentido no último terço do filme. A narrativa avança quatro anos. É dado a Robbie a opção de combater na II Guerra Mundial pelo exército britânico ou manter-se cativo, com este a escolher a primeira opção, encontrando-se inicialmente no Norte de França, integrado no Royal Sussex Regiment. Sabemos também  que Cecilia abandonou a família e foi viver para uma casa menor, trabalhando como enfermeira a cuidar dos feridos. As suas roupas são bem diferentes, marcadas por tonalidades azuladas, longe do requinte inicialmente apresentado. Encontramos Robbie e Cecilia reunidos, seis meses antes dos eventos militares, com estes a exporem o amor que os une, ao mesmo tempo que descobrimos que Briony decidiu também se tornar enfermeira para expiar os seus pecados. Se inicialmente Robbie e Cecilia pareciam separados pelas diferentes classes sociais mas unidos pelo desejo e amor que sentiam, já neste ponto da narrativa a Guerra torna tudo muito mais complicado, com a incerteza a pairar sobre as suas vidas e o ressentimento do protagonista em relação à família da amada a serem mais do que muitos. James McAvoy interpreta este personagem trágico com uma maturidade e competência notórias. É jovem, comete alguns erros, mas é considerado culpado por algo que não cometeu. No exército é notório que se encontra numa situação dolorosa, com o seu rosto a apresentar um sofrimento que advém não só do que encontra no palco de guerra mas também dos episódios passados. O próprio reencontro com Cecilia exibe dois personagens cujos rostos não apresentam a vivacidade de outrora. Cecilia perdera alguma da petulância e arrogância que por vezes a pareciam caracterizar expondo os seus sentimentos com mais frontalidade e sobriedade. Robbie encontra-se com mais incertezas sobre tudo e todos, embora ame Cecilia. Os cenários onde se encontram estão longe de demonstrar o deslumbre e a vivacidade dos momentos iniciais, enquanto a narrativa avança no tempo e ficamos perante os soldados britânicos em França, episódios como a operação Dínamo (evacuação de Dunquerque), bem como a procura de Briony em ajudar os soldados feridos que se encontram internados. Na idade adulta, Briony é interpretada por Romola Garai e posteriormente por Vanessa Redgrave, contando com três intérpretes ao longo do filme, cada uma capaz de atribuir as devidas mudanças que a personagem vai conhecendo ao longo do enredo. Saoirse Ronan atribui um lado mais misterioso e malicioso a Briony, uma jovem imaginativa, algo possessiva e capaz de cometer erros que prometem custar caro a quem a rodeia. Já Romola Garai interpreta a personagem aos dezoito anos de idade, arrependida pelos seus actos e pronta a desculpar-se perante a irmã e Robbie, enquanto Vanessa Redgrave nos surpreende numa versão angustiada desta mulher já em idade avançada e pronta a expiar os seus pecados (em grandes momentos de cinema).

As três actrizes conseguem manter uma coerência interpretativa na personagem, mas também as mudanças que teve ao longo da vida devido à maturidade e arrependimento que foi adquirindo. Briony é peça-chave do enredo. É esta que destrói duas vidas e arruma com a possibilidade de um casal poder ser feliz de forma incondicional. Foi uma birra que saiu caro a quem a rodeou, sobretudo a Robbie e Cecilia, com Keira Knightley a ser capaz de atribuir a classe e a dor necessárias a esta última, expondo os diálogos de forma sublime (é mais uma das grandes interpretações desta actriz). Knightley aparece inicialmente como uma mulher aparentemente fria, mas que se revela bem quente a nível de sentimentos, iniciando uma fugaz relação com Robbie que é interrompida por uma mentira e pela II Guerra Mundial. Na sua segunda colaboração com Joe Wright, Keira Knightley volta a brilhar, apresentando-nos uma personagem distinta de Elizabeth Benneth, a protagonista de "Pride & Prejudice", surgindo mais pragmática mas igualmente dotada de uma enorme personalidade e algumas fragilidades. O próprio guarda-roupa é revelador da mudança do quotidiano destes personagens. Cecilia deixa as roupas luxuosas, tal como Briony deixa temporariamente o conforto da sua casa, enquanto Robbie passa a utilizar as vestes militares. Temos ainda alguns personagens secundários de relevo na narrativa, tais como Paul Marshall (Benedict Cumberbatch num papel pequeno mas de algum relevo), um indivíduo pedante, de posses abastadas, vestido de forma a exibir o seu estatuto, embora até seja este o elemento que na realidade violou a jovem Lola, com quem irá casar no futuro. Já em "Pride & Prejudice" Joe Wright tinha dado relevo aos personagens secundários, algo que volta a acontecer em "Atonement" embora o enredo esteja bastante concentrado em Robbie, Cecilia e Briony, tendo como pano de fundo quase seis décadas de história, uma miríade de cenários e uma convulsão de sentimentos. O cineasta domina os ritmos da narrativa e das revelações efectuadas ao longo desta adaptação do livro homónimo de Ian McEwan, num filme de época que nos emociona e engana, ao mesmo tempo que expõe a capacidade do cineasta em dotar as suas obras de uma mistura de lirismo e realismo. No final somos confrontados com a realidade e esta pode doer. Não esperávamos e provavelmente não a pretendíamos, mas a coragem para este desenlace é uma das grandes vitórias de "Atonement" e Joe Wright, quase que nos obrigando a rever o filme para ter uma nova perspectiva do mesmo. Na realidade, ainda nos afeiçoamos mais aos personagens e ficamos num misto de sentimentos entre o final que queríamos e aquele que nos dão. Logo de início, quando vemos duas exposições diferentes sobre um momento entre Cecilia e Robbie, percebemos que Joe Wright vai procurar jogar com as nossas percepções da narrativa, enquanto avança e recua com a mesma no tempo e explora um argumento competente ao mesmo tempo que se revela um exímio contador de histórias. A própria representação da II Guerra Mundial revela-se perfeita para a exposição do carácter trágico do personagem interpretado por James McAvoy, onde até no plano bélico é derrotado e assiste a uma violência atroz (veja-se o magnífico plano sequência de um dos momentos em Dunkirk onde assistimos a Robbie a observar toda a violência que o rodeia, meio em pânico, meio desejoso de regressar a casa para rever Cecilia). Desde o início que Robbie e Cecilia não parecem destinados a serem felizes. Uma mentira inicia a desgraça, não só dos protagonistas, mas também de uma jovem que tem de lidar com os efeitos secundários da mesma, embora estes nunca estejam à altura daquilo que provocou. É doloroso ver como se separa assim alguém, com Keira Knightley e James McAvoy a dotarem os seus personagens de uma química latente ao longo do tempo em que estão em conjunto, com Joe Wright a saber como mexer com os nossos sentimentos. Com uma cinematografia belíssima capaz de explorar os diferentes sentimentos que envolvem os acontecimentos do enredo, uma banda sonora adequada e uma reviravolta surpreendente, "Atonement" surge como um drama poderosamente envolvente que se apossa de nós e não nos larga, enquanto nos deixa com interpretações de relevo de James McAvoy, Keira Knightley e Saoirse Ronan.

Título original: "Atonement".
Título em Portugal: "Expiação".
Realizador: Joe Wright.
Argumento: Christopher Hampton.
Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Vanessa Redgrave.

Top 10 de 2014 - As críticas mais lidas

2014 foi um ano relativamente movimentado aqui pelo Rick´s Cinema. Ao todo publicámos mais de 440 críticas a filmes. Perante este número elevado de textos manhosos de pendor crítico, aproveitámos o final de 2014 para revelar aquelas que foram as dez críticas publicadas neste ano que foram mais lidas pelos nossos leitores.

Críticas mais lidas:

1º - Resenha Crítica: "300: O Início de Um Império" (300: A Ascensão do Império) (8259)
2º - Resenha Crítica: O Duplo (The Double) (2663)
3º - Resenha Crítica: "The Wolf of Wall Street" (O Lobo de Wall Street) (1965) 
4º - Resenha Crítica: "Interstellar" (2014) (1865)
5º - Resenha Crítica: "Noah" (Noé) (1864)
6º - Resenha Crítica: "Spartacus" (1960) (1735)
7º - Resenha Crítica: "Godzilla" (2014) (1620)
8º - Resenha Crítica: "Chef" (O Chefe) (1465)
9º -  Resenha Crítica: "Closer" (Perto Demais) (1449)
10º - Resenha Crítica: "Gone Girl" (Em Parte Incerta) (1432)

29 dezembro 2014

Mary Poppins Quits...

Nova imagem de "Avengers: Age of Ultron". Salma Hayek no trailer de "Everly". Tom Hardy como Max Rockatansky na capa da nova edição da Empire. Owen Wilson em destaque no novo poster de "Inherent Vice". Sienna Miller no elenco de "The Lost City of Z", o novo filme de James Gray. "The Hobbit: The Battle of the Five Armies" volta a liderar a tabela do Box Office dos EUA. Clip de "Vice". Notícias - 29 de Dezembro de 2014

Sienna Miller ("Layer Cake") vai juntar-se a Robert Pattinson ("Maps to the Stars") e Benedict Cumberbatch ("Star Trek: Into Darkness") no elenco da adaptação cinematográfica de "The Lost City of Z", um livro escrito por David Grann. O filme será realizado por James Gray ("The Immigrant"), através do argumento do próprio. Miller deve interpretar a esposa de Percival Fawcett (Cumberbatch). As filmagens devem começar no Verão de 2015. Notícia via The Playlist.
"The Lost City of Z" foi publicado em Portugal com o título "A Cidade Perdida de Z" e tem a seguinte sinopse (via Bertrand): Ao encontrar por acaso uma valiosa colecção de diários, David Grann, consagrado escritor da New Yorker, propôs-se desvendar «o maior mistério de investigação do século XX»: o que terá acontecido ao explorador britânico Percy Fawcett e à sua busca pela Cidade Perdida de Z?
 Em 1925, Fawcett aventurou-se na Amazónia na esperança de encontrar uma antiga civilização e fazer uma das mais importantes descobertas arqueológicas da história. Durante séculos, os europeus acreditaram que a maior selva do mundo escondia o resplandecente reino do Eldorado.
 Milhares de pessoas morreram ao tentar encontrá-lo. Com o passar do tempo, muitos cientistas começaram a ver a Amazónia como uma armadilha mortífera que nunca poderia assegurar a existência de uma sociedade complexa. Mas Fawcett, cujas intrépidas expedições serviram de inspiração para O Mundo Perdido de Athur Conan Doyle, passou anos a elaborar uma base científica para este caso. Cativando a imaginação de milhões de pessoas pelo mundo, Fawcett embarcou nesta viagem com o seu filho de 21 anos determinado a provar que esta antiga civilização - que apelidou de «Z» Genéricos - existia. Depois, ele e a sua expedição desapareceram.

-  O Box Office Mojo disponibilizou online o resultado das receitas de bilheteira entre os dias 26 e 28 de Dezembro de 2014 nos EUA. A liderança vai novamente para "The Hobbit: The Battle of the Five Armies", o último filme da trilogia "The Hobbit". O filme realizado por Peter Jackson obteve mais 41,4 milhões de dólares em 3875 salas de cinema, contando com uma receita interna acumulada de 168,5 milhões de dólares. "The Hobbit: The Battle of the Five Armies" já soma 576,3 milhões de dólares ao redor do Mundo. O segundo lugar ficou para o estreante "Unbroken", um filme realizado por Angelina Jolie. O filme obteve 31,7 milhões de dólares em 3131 salas de cinema, contando com um receita interna acumulada de 47,3 milhões de dólares (devido a ter estreado mais cedo). O terceiro lugar ficou para "Into the Woods" 31 milhões em 2440 salas (o filme soma 46 milhões de dólares a nível interno devido a ter estreado mais cedo). De salientar ainda o excelente resultado obtido por "American Sniper": 610 mil dólares em 4 salas, 850 mil dólares no total).

Tabela (via Box Office Mojo):

http://boxofficemojo.com/weekend/chart/
 




















- Foi divulgado um trecho de "Vice", um filme realizado por Brian A. Miller, através do argumento de Andre Fabrizio e Jeremy Passmore. "Vice" conta no elenco com Bruce Willis, Ambyr Childers, Thomas Jane, entre outros.

"Vice" encontra-se a ser descrito como uma mistura entre "Westworld" e "Grand Theft Auto". O enredo do filme desenrola-se num futuro próximo, num resort, onde os ricos podem satisfazer as suas fantasias mais negras e os funcionários são andróides semelhantes aos humanos. O pseudo-paraíso tem uma política de deixar tudo acontecer, com as memórias dos andróides a serem apagadas todas as noites. Uma funcionária (Childers) padece de um erro que lhe permite recuperar as suas memórias. Ciente do terror que provocou, esta decide vingar-se do dono do Resort (Willis).



-  Foi divulgado um trailer de "Everly", um filme de acção protagonizado por Salma Hayek. O filme é realizado por Joe Lynch, através do argumento de Yale Hannon.

"Everly" conta no elenco com Salma Hayek, Jennifer Blanc, Togo Igawa, Gabriella Wright, entre outros. O enredo de "Everly" centra-se numa mulher que tem de enfrentar os assassinos enviados pelo seu ex-marido, um chefe da máfia.



- "Mad Max: Fury Road" está em destaque na capa da nova edição da revista Empire. O filme é realizado por George Miller (realizador dos anteriores filmes da franquia), através do argumento do próprio, Nick Lathouris e Brendan McCarthy. "Mad Max: Fury Road" conta no elenco com Tom Hardy ("The Dark Knight Rises"), Charlize Theron ("Prometheus"), Nicholas Hoult ("X-Men: First Class"), Riley Keough ("Magic Mike"), Zoe Kravitz ("X-Men: First Class"), Adelaide Clemens ("Silent Hill: Revelation 3D"), Rosie Huntington-Whiteley ("Transformers: Dark of the Moon"), Megan Gale ("Stealth"), entre outros. Via Empire.
"Mad Max: Fury Road" desenrola-se numa paisagem desértica localizada nos confins do planeta Terra, um território onde quase todos os seres humanos lutam desesperadamente pela sua sobrevivência. Existem dois rebeldes em fuga que podem ser capazes de restaurar a ordem no interior deste mundo marcado pelo sangue e o fogo: Max (Tom Hardy), um homem de acção e de poucas palavras, que procura encontrar paz interior após ter perdido a mulher e o filho. Furiosa (Charlize Theron), uma mulher de acção que acredita que o caminho para a sua sobrevivência pode ser alcançado se conseguir atravessar o deserto e regressar ao local onde cresceu.

- Foi divulgado mais um poster de "Inherent Vice", o novo filme do realizador Paul Thomas Anderson. O poster destaca o personagem interpretado por Owen Wilson (via IMP Awards). "Inherent Vice" conta com um elenco de luxo onde constam nomes como Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Martin Short, Jena Malone, Reese Witherspoon, Owen Wilson, Benicio Del Toro, Maya Rudolph, entre outros.
O argumento do filme é escrito por Paul Thomas Anderson, sendo baseado no livro Inherent Vice, de Thomas Pynchon. O livro foi publicado em Portugal com o título "Vício Intrínseco" e tem a seguinte sinopse (via Bertrand): «Em parte noir, em parte farsa psicadélica, protagonizado por Doc Sportello (Phoenix), detective privado, que de vez em quando se ergue de uma névoa de marijuana para assistir ao fim de uma era.
  Há já algum tempo que Doc Sportello não vê a ex-namorada. Mas um dia ela aparece com uma história acerca de um plano para raptar o milionário por quem por acaso se apaixonou. Esta ponta solta dos anos sessenta em Los Angeles é o mote para o livro, mas Doc sabe que o «amor» não passa de mais uma palavra que anda na moda, como trip ou «curte». Mais um livro inesquecível de um dos escritores mais influentes da actualidade»

- Já se encontra online uma nova imagem de "Avengers: Age of Ultron". A continuação de "Os Vingadores" é realizada por Joss Whedon, a partir do argumento do próprio, e conta no elenco com Robert Downey Jr como Tony Stark aka Iron Man, Samuel L. Jackson como Nick Fury, Chris Hemsworth como Thor, Mark Ruffalo como Hulk, Jeremy Renner como Hawkeye, Chris Evans como o carismático Capitão América, Jeremy Renner como Hawkeye, James Spader como Ultron, Elizabeth Olsen como Scarlet Witch, Aaron Taylor-Johnson como Quicksilver, Thomas Kretschmann como Barão Wolfgang Von Strucker, Paul Bettany como The Vision, entre outros.
O título "Age of Ultron" remete para a minissérie de Comics homónima, escrita por Brian Michael Bendis, com o enredo a contar com Ultron como antagonista. "Age of Ultron" contou com dez volumes, que foram publicados entre Março a Junho de 2013. Imagem via Coming Soon.

Resenha Crítica: "The Ghost Writer" (O Escritor Fantasma)

 Thriller político com muitas conspirações, intrigas e inspiração em casos reais, "The Ghost Writer" não poupa o seu protagonista, um escritor fantasma (Ewan McGregor), a um conjunto de descobertas que prometem colocar a sua vida em perigo. Roman Polanski é um mestre a gerar a paranoia e o mistério, voltando a exibir a sua mestria em "The Ghost Writer" ao transformar uma história aparentemente simples sobre um indivíduo que foi contratado como escritor fantasma pela Rhinehart Inc, uma grande empresa ligada à publicação e edição literária, para elaborar a autobiografia de Adam Lang (Pierce Brosnan), o antigo (e ficcional) Primeiro-Ministro britânico, num thriller misterioso onde os perigos podem estar onde menos se espera. O caso começa desde logo por ser bizarro devido ao protagonista conseguir o cargo após Mike McAra, o seu antecessor no trabalho e antigo assessor de Lang, ter falecido, especulando-se que este se suicidou ou sofreu um acidente, tendo morrido afogado em condições algo estranhas. No entanto, o pagamento é praticamente irrecusável com o personagem interpretado por Ewan McGregor a receber 250 mil dólares por cerca de um mês de trabalho para alterar um manuscrito praticamente finalizado, embora o resultado não agrade à maioria dos envolvidos. Ainda em Inglaterra este é assaltado após a reunião onde fora contratado, num evento que o escritor pensa estar ligado ao facto de lhe terem dado um manuscrito de outra obra, algo que poderá ter servido de isco para os assaltantes pensarem que era a autobiografia de Adam Lang. O protagonista fica visivelmente abalado, embora este incidente não o conduza a desistir do trabalho. É então que o escritor viaja até aos EUA, onde se encontra Adam Lang, acompanhado por Ruth (Olivia Williams), a esposa do ex-Primeiro Ministro, bem como Amelia Bly (Kim Cattrall), a secretária e suposta amante do personagem interpretado por Pierce Brosnan. O local é marcado pelas tonalidades frias e algumas paredes de vidro que permitem ver o exterior da casa onde estes se encontram, pertencente a Marty Rhinehart, localizada em Old Haven, um território ficcional isolado localizado no Massachusetts. A segurança no local é levada ao extremo, sobretudo a partir do momento em que eclode a notícia de que Adam Lang permitiu a utilização de soldados britânicos para capturarem supostos terroristas no Paquistão, em parceria com os EUA, algo que resultou na morte de um dos elementos torturados. Adam é acusado por elementos como Richard Rycart (Robert Pugh), o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, preparando-se para ser investigado e por ver entrar um processo contra a sua pessoa no Tribunal Europeu em Haia, algo que conta com o apoio do Governo Britânico. Neste sentido, se regressar a casa, Lang poderá ser detido para ser interrogado devido a crimes de guerra, com as suas fortes ligações aos EUA a fazerem-no ponderar ficar no território, reunindo-se até com ministros americanos para conseguir tentar mudar a opinião pública local. Os protestos são mais do que muitos, com o escritor fantasma a parecer ter aparecido no tempo errado e na altura errada da vida deste antigo político que claramente omite verdades nas poucas conversas que têm para a biografia, tais como as suas motivações para a entrada no mundo da política, embora quem guarde mais segredos seja a sua esposa. 

Roman Polanski volta a explorar um espaço maioritariamente fechado como cenário primordial, com a propriedade onde se encontra o protagonista, o político, o seu staff e Ruth a encontrar-se rodeada de alta segurança, enquanto no exterior encontramos a presença do mar e um território quase desértico, algo que adensa ainda mais o isolamento desta habitação. Este cenário é um espaço decorado de forma moderna, embora nem sempre transmita acolhimento, com a presença de elementos do staff do político a adensarem esta impessoalidade. Inicialmente é pedido ao escritor que leia todo o manuscrito em seis horas, com este a não ficar excepcionalmente impressionado com o resultado final, bem pelo contrário, algo que expõe a Ruth. A relação do escritor com Ruth parece sempre ser mais cordial do que com Adam Lang, com este último a não gostar de falar sobre certos assuntos incómodos que podem manchar ainda mais a sua reputação como político, tais como a sua actividade como actor em Cambridge. Diga-se que, apesar das várias questões colocadas, o protagonista nem é um indivíduo muito interessado em política, algo que o levou a ser seleccionado para o lugar, em parte devido a pretender chegar ao coração dos leitores e não escrever mais um texto burocrático e entediante que pouco lucro traria à editora. Este escritor fantasma aos poucos percebe que nem tudo bate certo em relação ao passado de Adam, tal como a morte de McAra parece ganhar contornos suspeitos quando um habitante local (Eli Wallach num pequeno mas marcante papel) diz que seria impossível o corpo ser levado para aquela direcção por aquelas ondas. Temos ainda a descoberta da possível ligação de Adam a Paul Emmett (Tom Wilkinson), ambos estudantes em Cambridge durante um período das suas vidas, com o protagonista a perceber que este último conta com uma ligação à CIA. Emmett ainda tenta desmentir a ligação a Adam, mas o protagonista consegue entrar em contacto com o personagem interpretado por Tom Wilkinson e exibir a foto que Mike McAra escondera num espaço pessoal do seu gabinete, com esta a servir como prova de que os dois primeiros chegaram a manter alguma proximidade nos tempos de estudantes. Tom Wilkinson surge misterioso e com um ar sempre pouco confiável como Emmett, embora só tenhamos certezas sobre o seu personagem com o avançar da narrativa, com o escritor a envolver-se por caminhos por onde provavelmente não devia ao procurar investigar a fundo a vida do biografado. Ewan McGregor interpreta com a sobriedade necessária este escritor fantasma que se envolveu num trabalho por dinheiro e acaba por encontrar uma realidade bem mais problemática do que esperava. Adam encontra-se a ser alvo de protestos populares e a ser fortemente atacado pela imprensa, a relação deste com a esposa já parece ter conhecido melhores dias, enquanto o escritor tem enormes dificuldades em avançar com o seu trabalho tendo em conta o constante turbilhão de acontecimentos que rodeiam o antigo político. Diga-se que quando tenta ir mais a fundo parece melindrar o político, ao mesmo tempo que percebe que o mito sobre a sua pessoa está completamente em queda e o livro provavelmente irá conter algumas inverdades, um pouco ao jeito da Governação de Adam. O personagem a quem Ewan McGregor dá vida ainda tenta ir para um hotel para se concentrar no trabalho, mas o staff do político não o permite devido aos protestos contra Adam que assolam as ruas, com este aos poucos a pensar, e a ter razões para isso, de que se encontra a ser perseguido. Estamos diante de um thriller de Roman Polanski por isso não poderiam faltar elementos como paranoia, mistério, algum suspense e pessimismo, numa obra que conta ainda com alguns momentos de humor, na maioria devido ao sarcasmo do escritor fantasma que não tem problemas em atirar com uma piada nos momentos mais indevidos. 

 O cineasta volta ainda a explorar os espaços fechados com a habilidade exímia do costume, algo que vai desde a espaçosa casa rodeada de elementos de vigilância para o protagonista escrever o livro, passando pelo quarto de hotel que parece ter sido invadido, para além do encontro na casa do misterioso Paul Emmett, até ao encontro do personagem interpretado por Ewan McGregor com Richard Rycart no café num momento a fazer recordar os melhores thrillers políticos dos anos 70. A paleta cromática é marcada muitas das vezes por tonalidades frias, tal como a temperatura que rodeia os espaços por onde estes personagens se deslocam está longe de ser a mais calorosa, não faltando precipitação e nuvens carregadas, embora os sentimentos estejam ao rubro e muitas das vezes prontos a entrar em erupção. Será possível que o protagonista esteja em perigo? Quais os casos escondidos por Adam? Estará o envolvimento de Paul Emmett com a CIA ligado à ascensão do político? A forte ligação de Adam aos EUA parece trazer consigo uma enorme inspiração nas políticas de Tony Blair, bem como à contestação a este último, embora Roman Polanski prefira utilizar um personagem ficcional para efectuar um thriller onde se embrenha pelos meandros da política e da escrita das biografias com recurso a escritores fantasmas. Pierce Brosnan é um dos destaques óbvios, naquele que é um dos grandes papéis deste actor nos anos mais recentes, atribuindo sempre ao seu personagem uma convicção típica dos políticos, por vezes a parecer acreditar nas suas próprias mentiras e historietas, embora carregue consigo uma aura de figura respeitável apesar dos seus actos nem sempre condizerem com a mesma. Também é eficaz a demonstrar o lado mais agressivo de Adam, enquanto Olivia Williams não se fica atrás dos seus colegas de elenco ao interpretar a aparentemente dedicada esposa do ex-político, uma mulher que conserva ainda um enorme charme, personalidade e segredos que apenas iremos descobrir nos momentos finais. A tensão é latente ao longo do filme, começando desde logo nos momentos iniciais quando vemos o corpo de Mike McAra a dar à costa, passando pelo assalto ao protagonista até a todos os episódios que rodeiam a estadia deste nos EUA e a sua curta fuga da casa do político, com Roman  Polanski a revelar-se mais uma vez exímio em criar uma inquietação crescente junto do espectador. "The Ghost Writer" surge-nos assim como um thriller inteligente e intrigante, marcado por personagens bem construídos e interpretados com mestria, numa obra onde não falta algum mistério e paranoia muito ao jeito do melhor Roman Polanski.

Título original: "The Ghost Writer".
Título em Portugal: "O Escritor Fantasma".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Roman Polanski e Robert Harris (baseado no livro "The Ghost" de Robert Harris).
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Cattrall, Olivia Williams, Tom Wilkinson, Timothy Hutton, Eli Wallach.

Top 2014 - Os Meus 15

 Todos os tops anuais são subjectivos e traduzem apenas aqueles que são os melhores filmes para os elementos que elaboram as listas, algo que não é diferente nesta casa. Tal como efectuei no ano passado, a minha lista não contará com justificações para cada escolha, visto que cada filme conta com crítica escrita por mim, ou seja, não existe necessidade de andar feito papagaio a repetir o que escrevi por lá. O top conta com algumas ausências de vulto, tais como "Mommy", "Cavalo Dinheiro", "The Congress", entre outros que ainda não tive a oportunidade de ver. Segue então o top composto por quinze filmes, estreados em circuito comercial (em Portugal) em 2014, organizados por ordem alfabética, com os links para as respectivas críticas. 

Os meus quinze (ordem alfabética) - Aníbal Santiago:

- 12 Years a Slave.
- A Erva do Rato.
- Aimer, Boire et Chanter.
- Black Coal, Thin Ice.
- Boyhood.
- Gone Girl.
- Her
- Ida.
- Interstellar.
- La Grande Bellezza
- Nebraska.
- The Grand Budapest Hotel.
- The Immigrant.
- The Missing Picture.
- Vous n'avez Encore Rien Vu.

Guilty pleasure:

26 dezembro 2014

A Semana em Revista - 22 a 28 de Dezembro de 2014

 Boa Noite, caros leitores e leitoras que se dão ao trabalho de ler este blog (e também para aqueles que o ignoram  e se enganaram ao entrar nesta página). Em Agosto tomámos a decisão de "folgar" aos fins de semana, uma medida que se manteve em Setembro e regressou recentemente. Para quem não conhece, esta é uma espécie de rubrica semanal que consiste num post manhoso onde aproveito para efectuar um balanço do que foi feito no Rick´s Cinema ao longo da semana.

- O primeiro destaque vai para as cinco críticas publicadas ao longo da semana (442 críticas manhosas ao longo de 2014):

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- O segundo destaque centra-se nos posts diários ou bidiários que remetem para as notícias do dia. Cada vez mais parece inútil andar dia após dia a publicar notícias de forma sistemática, sobretudo quando cada vez mais sites, blogs, páginas de Facebook e grupos nas redes sociais fazem o mesmo. Nesse sentido, decidimos começar a publicar as notícias num post diário, algo que permite agilizar a publicação das mesmas e dar um tom mais pessoal a este espaço:

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- O terceiro destaque vai para o top dos 10 filmes que menos gostei de ver em 2014 (estreias em circuito comercial):

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- O quarto destaque vai para o post sobre as estreias da semana escrito pelo Hugo Barcelos:

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- O quinto destaque vai para o regresso (que ninguém pediu) da espécie de rubrica "Fora de Tempo". Desta vez decidi seleccionar um pequeno trecho de "Pride & Prejudice. A escolha está no post:

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Resenha Crítica: "The Ninth Gate" (A Nona Porta)

 Não faltam elementos de filmes noir, mistério, terror e um humor negro muito próprio das obras de Roman Polanski em "The Ninth Gate", um dos diversos trabalhos pouco consensuais do realizador. O seu desfecho nem sempre está à altura do estabelecimento e desenrolar dos acontecimentos, mas nem por isso deixamos de estar perante um filme inquietante, onde Johnny Depp surge como um elemento mordaz, fumador e por vezes imoral que parece saído das obras cinematográficas noir dos anos 40. Depp interpreta Dean Corso, um negociador de livros raros para coleccionadores que apresenta uma conduta reprovável, não tendo problemas em enganar vendedores e colegas de profissão para conseguir concluir com sucesso os seus negócios. Como este salienta, "(...) na minha profissão, quando falam bem de nós, pode ser um desastre", algo evidenciado logo nos momentos iniciais quando engana dois herdeiros de um coleccionador abastado tendo em vista a ficar com os exemplares raros de "D. Quixote" a baixo custo, enquanto encontramos o idoso numa cadeira de rodas, sem poder falar e se mexer devido a um ataque que teve, a efectuar um olhar de raiva que atribui algum humor negro a toda esta situação. Logo depois um colega de profissão salienta efusivamente a falta de ética do personagem interpretado por Johnny Depp, enquanto este se desloca até à livraria de Bernie (James Russo), um parceiro de negócios e amigo pessoal de Corso, para este efectuar a venda da edição em quatro volumes de "D. Quixote". Corso parece tirar um enorme prazer deste tipo de negócios, sendo conhecido como um dos profissionais mais eficazes deste meio, algo que o leva a ter em Boris Balkan (Frank Langella) um cliente habitual. Balkan é um indivíduo misterioso, disposto a tudo para conseguir os seus objectivos, tendo uma coleccção impressionante de livros sobre o Diabo na sua portentosa biblioteca pessoal. Corso e Balkan nem apreciam propriamente a personalidade um do outro, com o primeiro a adormecer numa conferência do segundo enquanto aguardava pelo cliente. No entanto, a personalidade algo "mercenária" de Corso conduz Balkan a contratar regularmente os seus serviços, algo que explica ao salientar as razões para o contratar para o seu próximo objectivo: "Nada mais confiável do que um homem cuja lealdade pode ser comprada". O próprio Corso anteriormente já tinha salientado que a sua fé é a sua percentagem, quando Balkan lhe tinha apresentado uma cópia de "The Nine Gates of the Kingdom of Shadows", edição de Veneza, 1666, tendo como autor e impressor Aristide Torchia, um indivíduo que foi queimado pela Inquisição, juntamente com as suas obras. Apenas restaram três cópias do livro, que se encontram individualmente na posse de Victor Fargas (Jack Taylor), Frida Kessler (Barbara Jefford) e Andrew Telfer (Willy Holt), com Balkan a comprar o livro a este último um dia antes do indivíduo cometer suicídio, numa cena que nos surge apresentada logo no prólogo. Acredita-se que Torchia teria adquirido o "Delomelanicon", um livro escrito pelo próprio Satanás, com as gravuras do "The Nine Gates of the Kingdom of the Shadows" a terem sido adaptadas por Torchia. Segundo Balkan estas gravuras "Formam uma espécie de enigma satânico que ao ser corretamente interpretado com a ajuda do texto original, e alguns conhecimentos especiais, diz-se que pode conjurar o próprio Príncipe das Trevas". Corso não se acredita muito na conversa mas não deixa de ficar intrigado com o livro, bem como com o pagamento para a missão. Este tem de comparar o exemplar com o de Fargas e Kessler e ver qual das obras é a original ou se as três formam um todo que permitem elaborar o ritual satânico que fascina Balkan.

A missão vai conduzir o protagonista a contactar inicialmente Liana (Lena Olin), a viúva de Telfer, uma mulher misteriosa que fica surpreendida e algo consternada pelo facto do marido ter vendido o livro. Esta revela que o exemplar foi adquirido em Espanha, em Toledo, algo que vai levar o protagonista a deslocar-se ao local, bem como a Portugal onde se encontra Fargas e a Paris onde se encontra localizada Kessler. Antes destas deslocações é perseguido, tem uma noite de sexo com Liana que posteriormente revela um lado violento por pretender o livro, acabando por descobrir que Bernie foi assassinado por ter guardado o exemplar de Balkan num local secreto da sua livraria. Corso ainda pensa em desistir da missão, com o pânico a ser visível quando liga a Balkan, mas mais um zero à direita no pagamento convence-o a seguir em frente, com este aos poucos a descobrir mais informações sobre os livros. Junto de Fargas, o protagonista percebe que as gravuras apresentam algumas diferenças, sendo assinadas por ordem distinta (contam com as iniciais AT - Aristide Torchia; LCF - Lúcifer). Corso telefona a Balkan a salientar a descoberta, bem como o facto de Fargas se encontrar irredutível na decisão de não vender o livro, com tudo a piorar quando encontra este último morto, uma situação que o conduz a deslocar-se rapidamente para Paris, ao mesmo tempo que é perseguido por elementos desconhecidos e protegido por uma estranha (Emmanuelle Seigner) que posteriormente descobre ter sido contratada pelo personagem interpretado por Frank Langella. Aos poucos os elementos sobrenaturais do enredo vão sobressaindo, com os mistérios a serem revelados, não faltando pelo meio algum terror, rituais satânicos, assassinatos, enquanto Corso vê a sua vida em perigo. Johnny Depp tem em Corso um personagem que parece claramente saído dos filmes noir. Com uma relação algo complicada com as mulheres, fumador e bebedor, cínico, pouco dado a grandes amizades e uma enorme capacidade para se envolver em confusões, Corso permite encontrarmos um Johnny Depp bem distinto das extravagâncias de um Jack Sparrow, o índio Tonto e tantos outros personagens que interpretou nos últimos anos. Surpreende pela forma como torna convincente que Corso é mesmo um especialista em livros, apesar de estar longe de estar à espera de todas as reviravoltas que envolvem toda a sua missão. É um elemento cínico que até com uma sociedade secreta satânica se depara, tendo na personagem interpretada por Emmanuelle Seigner uma protectora inesperada e em Liana uma estranha femme fatale. Roman Polanski joga na fronteira dos géneros, prometendo algo próximo a "Rosemary's Baby", onde os elementos satânicos e associados a bruxaria estavam presentes, mas também aos filmes noir ou neo-noir do qual o seu "Chinatown" é um exemplo magnífico. Se em "Rosemary's Baby" a casa da protagonista tinha um papel de relevo, já em "The Ninth Gate" encontramos o protagonista de local em local, pronto a descobrir pistas que diferenciem as gravuras dos livros e descobrir a verdade sobre as mesmas. A tarefa já por si parecia complicada, algo confirmado ainda com a morte do amigo de Corso, mas com o avançar da narrativa torna-se óbvio que a vida do personagem interpretado por Johnny Depp pode estar por um fio, sobretudo quando se aventura para fora do território dos Estados Unidos da América e se depara com informações de relevo sobre os exemplares que procura analisar. Não falta muito mistério, enigmas por revelar, misticismo e tensão a esta obra, com Emmanuelle Seigner e Lena Olin a serem o exemplo paradigmático de duas personagens inicialmente enigmáticas que aos poucos vão revelando os seus propósitos.

Lena Olin como uma viúva que inicialmente até parece afável, uma mulher de enorme sensualidade que procura tirar proveito do corpo para conseguir convencer o protagonista a dar o exemplar que agora é propriedade de Balkan. Não consegue e torna-se agressiva, devido a, como posteriormente descobrimos, esta ter sido originalmente a proprietária da obra, com o marido apenas a ter financiado a compra da mesma. Olin representa o perigo, tal como Seigner, a mulher de Polanski na vida real, com esta última a voltar a envolver-se numa investigação do protagonista, um pouco como acontecera em "Frantic". Em "The Ninth Gate" a personagem interpretada por Emmanuelle Seigner está consciente da sua missão, apresentando um lado combativo e dado para a acção que o protagonista não conta, algo que permitirá ser uma fonte de apoio relevante para este homem após Corso desconfiar da mesma. Inicialmente encontra-a numa biblioteca, posteriormente num comboio e numa mota a perseguir elementos que queriam "fazer a folha" a Corso, até revelar que está ali para protegê-lo dissipando as dúvidas em relação à sua pessoa e a tensão em volta da mesma. Numa obra de Roman Polanski espera-se também humor em momentos mais inesperados. Foi assim em "Knife in the Water", "Cul-de-Sac", "Fearless Vampire Killers" e até "Rosemary's Baby" e "The Tenant", algo que se verifica também em "The Ninth Gate". Veja-se quando depois de fazer sexo com Corso, a personagem interpretada por Lena Olin pede o livro e diz para este não a foder e este salienta "já o fiz", ou o próprio relacionamento entre o protagonista e a sua "protectora", já para não falar de quando engana a dupla no momento inicial e o elemento inválido que ouve as negociações e faz um olhar que desperta o nosso sorriso. O próprio personagem interpretado por Frank Langella varia entre o elemento culto e refinado e o tipo completamente louco que é capaz de tudo para se reunir com o diabo. Aos poucos vão sendo revelados segredos sobre estes personagens, com "The Ninth Gate" a não poupar em reviravoltas embora no final talvez tenha faltado alguma contenção. Não tira valor a uma das obras mais injustiçadas de Roman Polanski, embora este não seja um cineasta propriamente de grandes consensos (basta ler algumas críticas aos seus primeiros trabalhos) e "The Ninth Gate" esteja longe de figurar entre as suas melhores obras. A banda sonora sobressai a adensar a atmosfera tensa e misteriosa do filme, bem como a cinematografia sublime de Daris Khondji e o notável trabalho a nível da decoração dos cenários (veja-se as bibliotecas privadas dos elementos com quem Corso contacta, bem como o castelo em França onde Liana lidera um culto satânico). Nem tudo faz sentido ao longo de "The Ninth Gate", tal como nem tudo faz sentido na vida e no cinema, embora por vezes Polanski caia em alguns exageros nas reviravoltas, apesar da narrativa apresentar uma fluidez tal que não consegue fazer retirar a nossa atenção dos acontecimentos. "The Ninth Gate" consegue manter-se nas margens do neo-noir ao mesmo tempo que mescla elementos de obras associadas ao mistério e sobrenatural, com Roman Polanski a não poupar ainda em alguns pedaços de humor negro e acção, ao mesmo tempo que nos deixa perante um protagonista com carisma que poderia perfeitamente ter saído de um filme noir dos anos 40.

Titulo original: "The Ninth Gate".
Título em Portugal: "A Nona Porta".
Realizador: Roman Polanski.
Argumento: Roman Polanski, John Brownjohn, Enrique Urbizu.
Elenco: Johnny Depp, Lena Olin, Frank Langella, James Russo, Jack Taylor, Emmanuelle Seigner.

Fora de Tempo - Trecho de "Pride & Prejudice" - O toque

Resolução de final de ano: Fazer regressar a espécie de rubrica Fora de Tempo. Poderia dar uma série de desculpas para esta secção do blog estar praticamente parada: falta de vontade, falta de feedback, outras escolhas para o blog, preguiça, entre outras. Para o regresso da secção Fora de Tempo (quase a chegar aos cem posts) decidi aproveitar a publicação da crítica a "Pride & Prejudice" e seleccionar um trecho que exibe paradigmaticamente a atenção dada pelo filme aos gestos dos personagens: O momento em que Mr. Darcy toca na mão de Elizabeth Benet para ajudá-la a subir ao seu meio de transporte. O trecho é curto mas o impacto da cena é imenso. Elizabeth e Darcy são orgulhosos e apresentam personalidades bastante fortes. Darcy apresenta exteriormente uma capa de arrogância que não corresponde de todo à sua personalidade. Inicialmente é pouco agradável para com Elizabeth mas aos poucos percebemos a dificuldade de Darcy em conversar com estranhos e dançar em público. Elizabeth despreza-o e tem alguns preconceitos em relação a este homem de posses abastadas. Nesta cena assistimos à surpresa de Elizabeth em relação ao gesto de Darcy ao mesmo tempo que encontramos este homem a ficar afectado por ter tocado na mão da personagem interpretada por Keira Knightley. Joe Wright atribui especial importância aos gestos e olhares ao longo de "Pride & Prejudice", algo que podemos encontrar ainda nas sequências dos bailes, na primeira e segunda declaração de Darcy a Elizabeth, entre outros momentos. No trecho em questão podemos ver um dos vários episódios que vai contribuir para uma crescente aproximação entre Elizabeth e Darcy naquele que é um dos vários momentos memoráveis de "Pride & Prejudice":


Trailer de "Dragon Blade". Teaser da segunda temporada de "Penny Dreadful". Roberto Orci fora do cargo de argumentista do novo filme da saga "Star Trek". "Maps to the Stars" ganha um novo poster. Notícias - 26 de Dezembro de 2014

-  Foi divulgado um trailer de "Dragon Blade" (Tian jiang xiong shi), um filme que conta no elenco com John Cusack, Adrien Brody, Jackie Chan, Sharni Vinson, Peng Lin, entre outros. O filme é realizado por Daniel Lee ("White Vengeance").

  John Cusack interpreta Lucius, um general Romano que lidera uma legião de soldados em direcção à China. Adrien Brody vai interpretar Tiberius, um indivíduo sedento de poder que assassinou Crassus, um cônsul romano. Tiberius persegue Lucius, surgindo acompanhado por um contingente de cem mil militares. Jackie Chan vai dar vida ao comandante do protectorado das regiões ocidentais, procurando colaborar com Lucius tendo em vista a proteger as fronteiras e a soberania da China.



-  Já se encontra online um teaser da segunda temporada de "Penny Dreadful":



- Foi divulgado um novo poster de "Maps to the Stars", um filme realizado por David Cronenberg. "Maps to the Stars" conta no elenco com Mia Wasikowska, Olivia Williams, Evan Bird, Julianne Moore, John Cusack, Robert Pattinson e Sarah Gadon. Poster via Cinema em Cena. Crítica ao filme:


- Roberto Orci confirmou que apenas vai assumir as funções de produtor do novo filme da saga "Star Trek". Vale a pena realçar que Orci abandonou recentemente o cargo de realizador do filme. Este assumiria ainda as funções de argumentista. O filme vai ser realizado por Justin Lin ("Fast & Furious"). O enredo do novo filme da saga "Star Trek" ainda não é conhecido. Espera-se que elementos como Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg e companhia estejam de regresso ao elenco. Via Omelete.

Top 2014 - Os dez filmes que menos gostei de ver em 2014

 O final do ano é uma época dramática para quem pretende efectuar tops. Escolhas difíceis para elaborar, acompanhadas pela certeza que mais tarde nos vamos arrepender de ter colocado um filme em detrimento de outro, para além da célebre incapacidade de ver todas as obras cinematográficas que estreiam em sala. No caso deste top, dedicado aos dez filmes que menos gostei de ver nas salas de cinema (circuito comercial), as escolhas até foram facilitadas, sobretudo quando existem filmes como "Pecado Fatal", "Need For Speed", "Teenage Mutant Ninja Turtles", entre outros. O facto de não ter apreciado positivamente os filmes não significa que estes sejam horríveis, mas sim que pouco ou nada me disseram e tão depressa não os pretendo voltar a ver. Vale ainda a pena realçar que este não é um blog exclusivamente de estreias, pelo que não conseguimos ver todos os filmes que estrearam nas salas de cinema nacionais, nem pretendemos. Poderia efectuar justificações várias, mas tendo em conta que escrevi crítica a todas estas obras cinematográficas parece-me algo desnecessário andar a repetir o que foi escrito em cada uma delas (e perder mais tempo com filmes que não gostei). Segue então a lista (organizada por ordem alfabética):

- A Walk Among the Tombstones.
- Història de la meva mort.
- Lone Survivor.
- Need For Speed.
- Pecado Fatal.
- Teenage Mutant Ninja Turtles.
- The Equalizer.
- The Frozen Ground.
- The November Man.
- Trash.

- Menções (pouco honrosas):

 - Non-Stop.
- Saving Mr. Banks.
- The Expendables 3.

25 dezembro 2014

Resenha Crítica: "The Tenant" (O Inquilino)

 Trelkovsky (Roman Polanski) é um indivíduo introvertido, aparentemente calmo e ponderado que procura alugar um apartamento no prédio de Monsieur Zy (Melvyn Douglas), um idoso que vive com a esposa e tem pavor a qualquer espécie de barulho. A casa que Trelkovsky pretende alugar pertencia a Simone Choule, uma mulher fascinada pelo Antigo Egipto que saltou da janela tendo em vista a cometer suicídio, encontrando-se entre a vida e a morte. Este fica curioso em relação ao estado de Simone, algo que o leva a visitar esta mulher ao hospital, fingindo ser amigo dela, acabando por travar conhecimento com Stella (Isabelle Adjani), uma visitante que conhece Simone. A antiga inquilina de Zy encontra-se quase toda enfaixada, sem conseguir comunicar, soltando um vigoroso e perturbador berro na presença de Trelkovsky e Stella. Os dois ficam notoriamente perturbados, indo a um café onde ambos tomam uma bebida, seguindo-se uma ida ao cinema para verem "Enter the Dragon", onde se beijam após um momento de maior tensão sexual onde Stella toca nas partes baixas de Trelkovsky e este mexe-lhe nos seios. Termina o filme e ambos partem para as suas vidas. Trelkvosky aos poucos procura arrumar a casa com os seus pertences e mudar alguns móveis de lugar, ficando intrigado com o material que ficou de Simone no apartamento, incluindo as roupas. Este fica a viver no local após a morte de Simone, tendo de pagar uma maquia elevada ao seu avarento senhorio, num espaço marcado por estranhos e perturbados vizinhos que o prometem levar à loucura. O personagem interpretado por Roman Polanski ainda tenta levar alguns amigos a sua casa e socializar, mas logo estes momentos são perturbados pelo seu vizinho de cima que não pretende barulho. A habitar o prédio temos ainda elementos como a Madame Dioz (Jo Van Fleet), uma mulher aparentemente desprezível e mesquinha que pretende expulsar Madame Gaderian e a sua filha devido ao suposto barulho que causam, para além da porteira (Shelley Winters), sempre pronta a meter-se nos assuntos e a acusar indevidamente ou talvez não o protagonista de fazer demasiado ruído, entre outros elementos. Todos parecem ter a paranoia pelo barulho, enquanto o protagonista começa cada vez mais a entrar numa espiral descendente, com o seu estado mental a piorar de forma notória, começando a pensar que os inquilinos do prédio pretendem que este assuma a figura da falecida. Roman Polanski é especialista em thrillers psicológicos que apresentam cenários primordiais fechados, tais como "Repulsion" e "Rosemary's Baby", tendo em "The Tenant" uma obra mais uma vez marcada por enorme mistério e uma habitação pronta a ter influência na vida do protagonista. Será que aquilo que o protagonista vê ao longo da narrativa é mesmo real? Estará mesmo a ser alvo de uma conspiração? Ou estará a ficar louco? A última questão parece fazer mais sentido ou então uma mescla de ambas, com Trelkovsky aos poucos a suspeitar que o querem levar ao suicídio, com o espaço da sua casa a tornar-se um local opressor, enquanto Roman Polanski aborda temáticas que já tinha exposto nos filmes citados embora a linha entre a realidade e a imaginação fique demasiadas vezes esbatida ao longo de "The Tenant". Polanski deixa-nos na dúvida em relação aos actos do protagonista e daqueles que o rodeiam, surgindo por vezes questões sobre as situações que envolvem Trelkovsky. Ficamos numa situação incómoda numa obra que por vezes nos causa algum desconforto, tal a forma como Roman Polanski consegue jogar com as nossas percepções em relação aos personagens e ao contexto que os rodeia, com Trelkvosky a parecer claramente entrar numa espiral descendente, começando aos poucos a rever-se na figura de Simone Choule, enquanto lida com um conjunto de vizinhos de difícil trato. A curiosidade que este tem em relação a Simone e as atitudes dos elementos que o rodeiam não o favorecem, tal como Trelkovsky contribui muitas das vezes para afastar aqueles de quem se querem aproximar de si, afundando-se numa perigosa solidão.

 Stella poderia ser um possível interesse amoroso do protagonista, com este até a reencontrar a mesma, mas embebeda-se e tem uma conversa de tal forma mórbida sobre um dente que encontrou num buraco da sua casa, para além de divagações sobre corpos mutilados que tiram qualquer interesse a esta e até nos deixa a questionar onde este tem a cabeça. Roman Polanski cria um personagem complexo, um indivíduo que no seu exterior parece calmo e ponderado, mas gradualmente tem atitudes que beiram a loucura. Não ajuda entrar num café e lhe dizerem que este se senta no mesmo local da falecida e darem-lhe o mesmo pequeno almoço que Simone tomava, para além de pretenderem que o protagonista compre a mesma marca de cigarros desta, algo que aos poucos o deixa a sentir-se cada vez mais como esta mulher que se decidiu suicidar. Mesmo o seu apartamento parece demasiado marcado pela presença de Simone, algo que inicialmente apenas o intriga mas começa a transtorná-lo de forma latente. Gradualmente começa até a utilizar as roupas e maquilhagem de Simone, procurando emular a mesma, chegando ao ponto de comprar uma peruca e sapatos de mulher de forma a andar assim de noite pela casa. Pelo caminho ainda encontra personagens como Georges Badar (Rufus), um apaixonado por Simone que fica devastado com a morte desta mulher, para além de um inspector da polícia que faz mais uma vez questão de salientar a origem polaca de Trelkovsky, apesar deste ter cidadania francesa, após o protagonista ter sido intimado a apresentar-se devido a queixas de barulho nocturno da parte dos vizinhos, algo que este desmente de forma categórica. O que "The Tenant" propõe-se a apresentar-nos é a degradação mental deste personagem, que gradualmente começa a tomar os hábitos de Simone, começando até a fumar Marlboro e a apresentar tendências suicidas. Como é que alguém aparentemente normal cai num estado como o do protagonista? Sentimo-nos impotentes, sem poder nada fazer, enquanto Trelkvosky vai de acto bizarro em acto bizarro até aos momentos de loucura finais, onde nem sempre sabemos se o que este está a ver é mesmo real ou fruto da sua imaginação, incluindo um estranho jogo de tortura efectuado pelos seus vizinhos a Gaderian e a sua filha. Tudo começa com a repressão dos seus actos por parte dos vizinhos. Primeiro sugerem que não faça barulho, nem leve mulheres e amigos para sua casa, depois insistem que este ande de chinelos como a antiga moradora, enquanto nos questionamos porque é que Trelkvosky se mantém neste apartamento situado no interior de um prédio recheado de gente peculiar. Este ao invés de fugir parece seguir aquele ditado do "se não podes vencer junta-te a eles", embora por vezes o seu estado mental também não pareça estar na melhor das condições ao longo deste intrigante thriller psicológico. "The Tenant" completa a chamada "trilogia do apartamento" de Roman Polanski iniciada por "Repulsion" e "Rosemary's Baby", com a casa dos protagonistas a ser palco e personagem para a instabilidade emocional que apresentam. Ao contrário de Rosemary, o protagonista de "The Tenant" não conta com vizinhos prestáveis nem entidades demoníacas, mas nem por isso deixa de estar numa habitação que aos poucos se torna um local opressor da sua liberdade e sanidade mental.

 O personagem interpretado com eficácia por Roman Polanski ainda parece ter uns momentos de regresso à sanidade quando se reúne com Stella pela terceira vez, mas logo volta a deixar a sua paranoia levar a melhor. Não é agradável de se ver esta queda do protagonista em desgraça, ao mesmo tempo que nem sempre percebemos as decisões. Mas será que é possível compreender totalmente alguém que começa a entrar num estado de loucura? Este até parece ter alguns amigos, mas gradualmente afasta-se de tudo e de todos, parecendo inclusive descurar o emprego. Nem este parece ter capacidade para trabalhar. Quando o vemos vestido como se fosse a falecida questionamo-nos sobre o que irá na cabeça deste homem, mas é demasiado inexplicável, com Roman Polanski a criar uma atmosfera de enorme mistério em volta do personagem que interpreta e a explorar mais uma vez a temática da repressão sexual. O realizador nem era para ter dirigido esta adaptação cinematográfica do livro "Le locataire chimérique" de Roland Topor, mas sim Jack Clayon, com o projecto a acabar nas mãos de Polanski que consegue incutir o seu estilo pessoal na obra cinematográfica. Este cria toda uma conjuntura que gradualmente nos deixa a acompanhar este personagem a degradar-se mentalmente e emocionalmente, quer pela sua mente, quer pelo efeito dos outros, ao mesmo tempo que desconfiamos por vezes daquilo que as imagens nos dão, parecendo existir uma ténue linha entre a realidade fabricada pela imaginação do protagonista e aquela que está mesmo a acontecer no enredo. O filme tem ainda espaço para deixar alguns elementos secundários sobressaírem. Veja-se Isabelle Adjani como Stella, uma amiga da falecida que estabelece contacto com o protagonista. Numa ocasião normal Stella e Trelkovsky até poderiam ter iniciado um romance, mas o estado deste encontra-se pouco dado a conseguir iniciar uma relação sentimental. Temos ainda Melvyn Douglas como o vetusto senhorio do protagonista, um homem austero a nível de sentimentos, que coloca regras rígidas de funcionamento no interior do seu prédio, com o actor a conseguir explorar quase sempre o lado pouco simpático do seu personagem, enquanto este vigia rigorosamente as entradas e saídas dos seus inquilinos. O prédio é composto por todo um conjunto de personagens peculiares ao longo de uma obra onde a paranoia e a loucura surgem muito presentes, com Roman Polanski a revelar-se mais uma vez exímio a criar uma enorme inquietação em volta dos acontecimentos da narrativa. A própria situação dos vidros partidos do local onde Simone caiu são perturbadores, com a cinematografia e o trabalho de som a contribuírem para todo o mistério e paranoia que rodeia o enredo. O protagonista envolve-se numa situação complicada, com o ambiente claustrofóbico que grassa no prédio onde habita a não ajudar, para além de um conjunto de coincidências que não contribuem para a manutenção da sua sanidade, com este a passar de alguém céptico em relação ao suicídio para se tornar num indivíduo que contempla o mesmo. Claustrofóbico, arrepiante e capaz de nos causar algum mau estar, "The Tenant" coloca-nos perante um indivíduo que cai em desgraça e cede à loucura, encontrando-se rodeado de todo um meio que sufoca a sua capacidade para tentar levar uma vida minimamente estável do ponto de vista psicológico.

Título original: "The Tenant".
Título em Portugal: "O Inquilino". 
Realizador: Roman Polanski. 
Argumento: Gérard Brach e Roman Polanski.
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Bernard Fresson, Lila Kedrova, Claude Dauphin, Shelley Winters, Josiane Balasko.