19 outubro 2014

Resenha crítica: Band of Brothers

Parece-me uma ideia relativamente consensual que para cada cinéfilo, independentemente de ter uma mente aberta ou um gosto abrangente, há um subgénero cinematográfico que, por uma razão ou por outra, desperta mais facilmente a sua atenção. Atentemos, por exemplo, ao caso do Aníbal: do seu teclado, em cada ano, saem centenas de críticas de notável simpatia e admiração, relativas a filmes que vão desde a comédia até ao drama intenso e neurótico, desde os loucos anos vinte até 2014. Um caso invulgar de ecletismo e de amor ao cinema, que não impede no entanto que ele tenha as suas preferências – quando questionado sobre as mesmas, respondeu-me que residiam nos noir. Não me parece que seja caso singular. Há quem privilegie os filmes de ação dos anos oitenta tal como há quem se emocione só de pensar no “Senhor dos Anéis”. Há quem apanhe um trauma a ver o “Frozen” no cinema e há quem o reveja na sala de estar até às tantas da manhã. Há os apreciadores de comédias românticas e os maluquinhos (que nós muito prezamos) que vivem para os filmes de terror. No caso específico deste blogger, as pancadas foram-no orientando, durante a sua adolescência, para os filmes de guerra: da emoção de “Braveheart” ao pessimismo de “Apocalipse Now”, e do heroísmo de “Glory” à crueza do “Full Metal Jacket”. Passaram-lhe ao lado a “Barreira Invisível”, considerado monótono, impróprio para a minha idade, e o “Pearl Harbor”, considerado fraquíssimo, impróprio para toda a gente.
Houve um filme, no entanto, que para mim sobressaiu, lançado em 1998, dirigido por Steven Spielberg e protagonizado por Tom Hanks. “Saving Private Ryan” começava por confrontar-nos com a memorável sequência do desembarque dos soldados norte-americanos nas costas da Normandia e acabava com outra batalha desesperante numa povoação francesa em ruínas, cheia de caos e de emoção, filmada com uma clareza e um realismo invulgares. Ligava-as uma história bem contada, personagens credíveis e um cuidado notável nos pormenores. O sucesso do filme provocou uma atenção redobrada por parte do público à Segunda Guerra Mundial e ao Dia D em particular. Abriu também as portas a outro projeto igualmente ambicioso, apresentado como uma mini-série de dez episódios feita para a HBO de seu nome “Band of Brothers”. Os seus principais cérebros seriam Steven Spielberg e Tom Hanks, ambos produtores executivos.
O protagonismo da mini-série, ao contrário do filme, não se limitaria a um grupo restrito de personagens mas sim a uma companhia do exército norte-americano. A Easy Company, criada em 1942, pertencia ao 506º Regimento de Infantaria Para-quedista, incluído na 101ª Divisão de Para-quedistas. Os seus propósitos, na época, eram inovadores: o que não pudesse ser ultrapassado por terra, sê-lo-ia pelo ar. Os soldados do regimento foram, como tal, treinados física e psicologicamente para saltarem de aviões por detrás das linhas alemãs, para atacarem alvos bem localizados pela intelligence norte-americana. Combateram no Dia D (França), na Operação Market Garden (Holanda) e na Batalha das Ardenas (Bélgica). Passaram pela Alemanha, onde foram os primeiros a chegar ao Ninho da Águia de Adolf Hitler, e pelo caminho libertaram alguns campos de concentração, entretanto abandonados pelos alemães em fuga. Consistia numa das companhias mais bem treinadas do exército norte-americano, e, não obstante, foi das que maior percentagem de mortos e de feridos acumulou no teatro europeu. As suas façanhas foram relatadas em 1992 pelo historiador Stephen Ambrose, na obra Band of Brothers, E Company, 506th Regiment, 101st Airborne: From Normandy to Hitler's Eagle's Nest. Foi na sua narrativa que se centrou a série em questão, tendo o próprio Ambrose desempenhado o cargo de co-produtor executivo nalguns episódios.

A conceção do projeto

Referi que os cérebros desta operação foram Steven Spielberg e Tom Hanks, mas é óbvio que, em boa verdade, as coisas não foram assim tão simples. Só a equipa de produtores é particularmente numerosa, e observando-a atentamente evidenciam-se Erik Bork (produtor de supervisão e argumentista de dois episódio) e Terri Depaolo (produtor associado), colegas de produção de Hanks da galardoada mini-série “From the Earth to the Moon”, lançada em 1998. A produção completa-se com sete outras figuras, das quais apenas o estreante Erik Jendresen parece ter tido um protagonismo de realce.
A realização, por seu turno, dividiu-se entre oito cineastas, cada qual incumbido de dirigir um episódio, com as exceções de Mikael Solomon e David Frankel, encarregues de dois (o primeiro dirigiu "Carentan" e "Points" e, o segundo, "The Breaking Point" e "We Fight"). O critério por detrás da sua escolha não é bem claro. É certo que um ou outro cineasta tinham dirigido duas ou três obras com protagonistas conhecidos do grande público, mas nenhum deles era particularmente experiente. Sobressai apesar de tudo Tom Hanks pela curiosidade de ter realizado o quinto episódio, e Richard Loncraine por constar no currículo com “Richard II”, nomeado para dois Óscares em 1995.
Os argumentistas também constituíam uma lista extensa, que repartia funções consoante cada episódio. Ao contrário da realização, neste campo, algumas escolhas são a priori mais fáceis de entender. É o caso dos produtores Erik Jendresen e Erik Bork, que escreveram ou co-escreveram respetivamente três e dois episódios; ou de Tom Hanks, que trabalhou no primeiro. Graham Yost, por sua vez, desempenhara este cargo em “From the Earth to the Moon”, e voltou a fazê-lo na série em questão por duas vezes. Sobressaem também os estreantes John Orloff e Bruce McKenna, que participaram em três, e no segundo caso dois, episódios cada um.
A cinematografia ficou entregue a um conjunto mais reduzido de indivíduos, e desde logo se conclui a confiança depositada ao britânico Remi Adefarasin, que ganhara experiência em filmes como “Elizabeth” ou “Hollow Reed”, e que neste caso trabalhou em cinco episódios. Joel Ransom, por seu turno, outrora diretor da cinematografia de “X-Files”, foi o cinematógrafo de dois. A direção de arte, por fim, ficou a cargo do experiente Kevin Philipps, que contava nos seus créditos com “Sleepy Hollow”, “The Fifth Element” ou “1492: Conquest of Paradise”.
Terá o leitor reparado, possivelmente, que a lista de realizadores e de argumentistas que procurei apresentar não inspira níveis de confiança particularmente reconfortantes. No entanto, é impossível esquecermo-nos que o projeto fora concebido por um homem com experiência suficiente para pôr de lado qualquer ceticismo inicial, e profundamente interessado no tema. Relembremo-nos que a Segunda Guerra Mundial servira como pano de fundo para seis dos filmes de Steven Spielberg, e que o cargo de produtor era-lhe tudo menos uma novidade. Atendendo aos indícios providenciados pelos artigos e entrevistas consultados, pensa-se que enquanto Tom Hanks e a sua equipa trabalhavam por dentro, laborando no set e nas tarefas de realização e de argumento, Spielberg conferia por fora. Sabemos que controlava as filmagens diárias recolhidas por cada realizador, de modo a decidir o que resultava e o que era para descartar. Dizia Tom Hanks ao NY Times que «Steven can look at the dailies and the cuts as we're getting closer to locking them and be able to see almost instantaneously what works and what doesn't. Very seldom is it theoretical; it's almost always practical: 'Hey, move that here, don't do this here, this is confusing, this is fabulous, don't change any of it». Spielberg montou ainda uma operação de casting de consideráveis proporções, recrutando dezenas de atores residentes no Reino Unido, e descobrindo intérpretes brilhantes como Damian Lewis, Michael Fassbender, James McAvoy, Simon Pegg ou Tom Hardy. A preferência por artistas britânicos deveu-se ao facto de as filmagens terem decorrido em Inglaterra, em concreto no aeródromo de Hertfordshire, o mesmo local onde, três anos antes, decorrera a produção de “Saving Private Ryan”.
Outras semelhanças entre o filme e a série devem ser realçadas. A atenção ao detalhe, por exemplo, é evidente, e possível apenas graças ao seu orçamento de cerca de 120 milhões de dólares. Fizeram-se e destruíram-se réplicas de povoações europeias, restauraram-se tanques e metralhadoras e criaram-se centenas de uniformes, do lado nazi ou aliado. Analisaram-se fontes históricas da época como os diários de David Webster e foram tidos em conta os conselhos de Dale Dye, o marine reformado que servira de consultor durante o filme do Soldado Ryan. Os próprios veteranos que combateram pela Easy, retratados na série e cujas personagens voltaremos a abordar, foram consultados pessoalmente.
Esta atenção ao pormenor, porém, não se restringe aos recursos materiais, e alastra-se à narrativa da série. “Band of Brothers” adapta quase religiosamente os eventos descritos na obra literária de Stephen Ambrose, com enfoque (ainda mais) especial nos acontecimentos da Easy Company. A estrutura das duas obras é semelhante, as personagens exponenciadas também, e são os capítulos do livro a dar o nome a alguns episódios da série. Mais importante ainda, a ideia central por detrás da história também é a mesma - procura-se explorar, essencialmente, os sacrifícios ultrapassados pelos soldados da companhia, retratados como miúdos de origens maioritariamente humildes, outrora crianças da recessão de 1929. Apoiaram-se uns nos outros, ultrapassaram um treino terrível mas competente, e saltaram voluntariamente de aviões na retaguarda de um inimigo temível e brutal. Capturaram baterias alemãs nas costas da Normandia e protegeram, cercados em míseros abrigos escavados na neve, a povoação de Bastogne, nas Ardenas. Testemunharam horrorizados a morte dos melhores amigos e os que sobreviveram foram feridos, por vezes mais do que uma vez, por balas e estilhaços. A série descreve-os num tom elogioso, mas sem moralismos ou heroísmos forçados. É difícil não simpatizar com um grupo jovens que, depois de colocados repetidamente no centro dos horrores da Segunda Guerra Mundial, não fizeram mais do que tentar sobreviver e destruir o inimigo. Não foi caso único, mas foi ilustrado com inteligência. Fizeram-se dez episódios que irei analisar, nalguns casos individualmente, noutros em grupo.

Richard Winters, Herbert Sobel e o treino da Easy Company
Estados Unidos e Inglaterra, Julho de 1942 - Junho de 1944
Episódio 1

«"Who would like to volunteer for the Tank Corps? Who would like to volunteer for the Air Force? Who would like to volunteer for the Navy", or whatever. And then they said “Who would like to volunteer for the Airborne?” What the hell is the Airborne? Nobody ever heard of it. The guy says “well, you jump out of airplanes. You got all your army equipment and you jump out of airplanes, to fight the enemy.” And I said “go to hell”. Nobody put up their hand. And then I don’t know what it was that brought it up but the guy giving me this speech said: “but you get paid 50 dollars a month more”. So that made it 100 bucks

O objetivo introdutório do primeiro episódio de “Band of Brothers” é perfeitamente claro, e bem arquitetado. Ao retratar o treino a que a Easy Company foi sujeita durante um período de dois anos, primeiro nos Estados Unidos e depois em Inglaterra, procurou-se acima de tudo apresentar à audiência as personagens principais da série, com uma atenção especial para (o Segundo-Tenente) Richard Winters. Esta figura de cara oval e cabelos vermelhos, serena e racional mas com um carisma invulgar, será interpretada com toda a naturalidade por um talentoso Damian Lewis, e afirmar-se-á gradualmente como o verdadeiro líder da companhia durante a campanha na Europa. Acompanha-o neste percurso Lewis Nixon (Ron Livingston), um jovem expressivo e maioritariamente amigável, com aspeto, e vida, de boémio. A química assinalável entre estas figuras desenvolver-se-á ao longo da série e entreter-nos-á durante os seus períodos de maior acalmia. Outras figuras aparecerão esporadicamente neste primeiro episódio, cada qual com sotaques e personalidades distintos, mas só as conheceremos verdadeiramente nos capítulos que se seguirão.
A personagem do Primeiro-tenente Herbert Sobel, interpretada por David Schwimmer, é pelo contrário imediatamente memorável. Desempenha o cargo de comandante da Easy Company, foi encarregue do seu treino físico e técnico, e, auxiliado por um sargento silencioso interpretado por Simon Pegg, governa os seus homens com um punho de ferro. Se por acaso visse soldados da companhia vizinha a correrem cinco quilómetros, Sobel obrigará os da Easy a correrem sete, por vezes dez, noutras quinze, possivelmente com todo o equipamento, dependendo da ocasião. Ocasionalmente, escolhia alguns homens ao acaso para os mandar calcorrear uma marcha noturna de vários quilómetros. Cada soldado teria que partir com o cantil cheio e, no seu regresso, despejá-lo à frente de todos os outros. Caso se descobrisse que tivesse sido utilizado, deveria voltar a enchê-lo e repetir a marcha. Sobel era portanto não só exigente, mas também um cretino. De forma inteligente, porém, o argumento, aliado ao próprio estilo e ao tom de voz de David Schwimmer, dar-nos-ão a entender que a cretinice advém da sua própria fraqueza. Nas situações em que não se sente à vontade, exprime medo e nervosismo, e, quando descobrimos que não sabe ler mapas, percebemos que é um banana. O seu melhor momento tem lugar na segunda metade do episódio quando, inesperadamente, é chamado ao escritório do responsável pelo regimento. O seu trabalho é elogiado e não lhe é negado o reconhecimento de ter levado o treino dos seus homens ao limite. É-lhe anunciada, subsequentemente, a sua transferência para uma escola do exército, para treinar médicos e padres. Sobel senta-se numa poltrona e percebemos exatamente o que lhe vai na mente. Despido da sua aparente arrogância, desoladíssimo e sustendo lágrimas, pergunta se lhe vão retirar a Easy Company. Dizem-lhe que sim, que o esforço da guerra precisa dele noutro sítio. O seu sofrimento é tão evidente que sentimos pela pena desde frágil indivíduo e um novo respeito pelo seu intérprete. O seu afastamento não implica que a sua influência não tenha ficado registada para a posteridade, e, no seu livro, Ambrose salienta que, ao incentivar conflitos mesquinhos e ao recorrer a táticas de cariz sádico para expressar a sua autoridade, o tenente conseguiu suscitar uma união singular entre os soldados da companhia contra ele próprio e, ao mesmo tempo, formar o grupo de homens mais bem treinado do regimento, a nível físico, técnico e psicológico.
De um modo geral, a realização de Phil Alden Robinson não compromete e é geralmente discreta. O rumo do enredo é bem estruturado e equilibrado, as personagens são construídas de forma gradual, e os momentos de humor e de camaradagem são misturados com as cenas da preparação dos soldados. Percecionamos ainda com alguma curiosidade que o treino dos soldados se vai tornando cada vez mais específico - começa com o treino físico, passa para as armas e para os saltos e culmina nas manobras táticas. De seguida, é-nos explicado o plano de ataque para a invasão da Normandia. Na madrugada do Dia D, nas horas anteriores ao desembarque nas praias normandas, os para-quedistas do regimento deverão saltar sobre a retaguarda da linha de defesa costeira alemã e neutralizar alguns pontos estratégicos. A Easy aterrará perto de Ste. Marie-du-Mont e deverá avançar sobre as tropas alemãs aquarteladas na povoação vizinha, de Ste. Mere-Eglise. Capturarão uma estrada direcionada para a costa e destruirão uma linha de comunicações situada nas redondezas.
Os instantes anteriores ao ataque são particularmente dramáticos e o seu peso não é negligenciado pelo realizador – no hangar espaçoso com dezenas de aviões em que se encontram à espera de embarcar, os soldados da Easy sentam-se no chão curvados sobre o peso do equipamento. Um conjunto de close ups vai focar-se nas suas faces e é-nos dado a entender no que estarão a pensar. Terão a coragem de saltar no meio do território inimigo? Sobreviverão sequer ao salto? Como se irão comportar uma vez debaixo de fogo? Ansioso pelo desencadear desta monumental operação, o general Taylor vai circulando pelo hangar entre os paraquedistas. É acompanhado pelo coronel Sink, o líder do regimento. O coronel transmite um pequeno discurso aos soldados, que a História recordou como sendo assim:

«Today, and as you read this, you are enroute to that great adventure for which you have trained for over two years. Tonight is the night of nights. Tomorrow throughout the whole of our homeland and the Allied world the bells will ring out the tidings that you have arrived, and the invasion for liberation has begun.
The hopes and prayers of your near ever accompany you, the confidence of your high commanders goes with you. The fears of the Germans are about to become a reality. Let us strike hard. When the going is tough, let us go harder. Imbued with the faith in the rightness of our cause, and the power of our might, let us annihilate the enemy where found. May God be with each of you fine soldiers. By your actions let us justify His faith in us

A invasão da Normandia
França, Junho-Julho de 1944
Episódios 2 e 3

«They jumped much too low from planes that were flying much too fast. They were carrying far too much equipment and using an untested technique that turned out to be a major mistake. As they left the plane, the leg bags tore loose and hurtled to the ground, in nearly every case never to be seen again. Simultaneously, the prop blast tossed them this way and that. With all the extra weight and all the extra speed, when the chutes opened, the shock was more than they had ever experienced

Não obstante todo o planeamento cauteloso do exército norte-americano, a operação dos para-quedistas não decorreu como se tinha previsto. Mal atravessaram o Canal da Mancha, os aviões que os transportavam começaram a ser alvo da fúria de baterias anti-aéreas. Alguns deles irromperam em chamas com a tripulação e soldados lá dentro, e os pilotos dos restantes, para evitar um destino semelhante, deram ordem aos para-quedistas para que saltassem o quanto antes. As aterragens foram caóticas e desorganizadas; muitos soldados aterraram a quilómetros do objetivo e outros tantos, ao saltarem, perderam o equipamento. O episódio vai tentar ilustrar estas circunstâncias ao focar-se na personagem de Richard Winters. Abandonado entre os bosques normandos e envolto pela escuridão noturna, o tenente, inicialmente sem arma, reunir-se-á aos poucos com alguns dos soldados que aterraram nas redondezas, alguns deles nossos conhecidos do primeiro episódio. Com calma e ponderação, orientar-se-ão em direção ao objetivo. Montarão, até lá, uma emboscada a um pelotão de alemães que se aproximavam no meio da estrada. O ambiente é tenso, e a realização de Richard Loncraine competente.
A segunda metade do episódio foca-se mais na ação. A presença do sol entretanto já se faz sentir e a intensificação do ruído provocado pela artilharia dá-nos a entender que o desembarque nas praias já começou. Winters e os seus homens lá encontraram o caminho para Ste. Mere-Eglise e, uma vez lá, reuniram-se às centenas de soldados que procederam do mesmo modo durante a madrugada. É-lhes anunciado que o líder da companhia está desaparecido em combate – hoje, pensa-se que o seu avião tenha sido alvejado antes de os seus tripulantes terem tido a oportunidade de saltar – e que a liderança da companhia passa assim para as mãos do referido tenente. Ordenam-lhe que reúna os seus homens e que se prepare para nova missão. O objetivo passa por capturar uma bateria alemã defendida por um número desconhecido de homens. Segue-se uma sequência de ataque emocionante e filmada de forma invulgarmente clara, cortada na sua extensão relativamente ao livro mas, ainda assim, capaz de ilustrar a eficácia da companhia em ações deste género e de nos mostrar alguns episódios memoráveis mencionados por Stephen Ambrose (caso do alvejamento do traseiro de “Popeye” Wynn e da frenética corrida de Donald Malarkey entre o fogo inimigo em busca de uma luger).
O episódio culmina num período de maior pacatez, que evidencia o equilíbrio cuidadoso, visível em toda a série, entre as cenas de acalmia e as de ação, impedindo que estas se tornem supérfluas ou entediantes. Enquanto alguns soldados vão confraternizando com a naturalidade e a cumplicidade do costume, ouvimos em off a narração de Richard Winters a prometer a si próprio que, na eventualidade de sobreviver à guerra, irá comprar uma quinta num lugar isolado, onde passará o resto dos seus dias descansado e em paz.

A narrativa do terceiro capítulo tem lugar no dia seguinte à invasão. A sua estrutura é mais ou menos semelhante à do segundo episódio, alternando entre períodos de calma e de ação desenfreada. Também à semelhança do que tínhamos vindo a observar, a história vai dar especial protagonismo a uma personagem em particular: desta vez não é Winters, mas sim Albert Blithe, um dos seus soldados. Interpretado por um jovem mas experiente Marc Warren, Blithe tem uma cara expressiva e uns olhos grandes, e apesar de não parecer um tipo sociável interage sem problemas com os companheiros quando as circunstâncias assim o exigem. Nos momentos iniciais do episódio, é-lhe ordenado, e aos restantes membros da Easy, que deem continuidade ao bom trabalho do dia anterior e que tomem, desta vez em conjunto com outras companhias do regimento, a vila de Carentan.
A refrega é violenta e o realizador Mikael Solomon consegue captar, com sagacidade, a sua brutalidade. Mostra-nos com clareza e passo a passo as movimentações dos soldados à medida que vão entrando na povoação, enfrentando o terrível fogo das metralhadoras alemãs e avançando casa a casa com fogo de cobertura e com o auxílio de morteiros em posições estratégicas. O som das armas alemãs é exacerbado, e dá-nos uma boa ideia do caos da batalha. Observamos, aos poucos, os aliados a sofrerem baixas, expostas sem pudores: vítimas de balas e de estilhaços e indivíduos a sangrar da face ou com pernas decepadas. Têm um ar abalado e confuso mas os seus companheiros dizem-lhes que daqui a uns dias estarão como novos, mesmo que isso não seja inteiramente verdade. No meio do pavor do combate, Blithe fica repentinamente cego. Horas mais tarde, sentado num canto de uma enfermaria improvisada, não poderá fazer outra coisa senão ouvir as palavras reconfortantes que lhe são dirigidas pelo Tenente Winters – o homem acalma-se e restabelece a visão.
Reconquistada Carentan, esperava-se um contra-ataque alemão nas próximas horas. Ordenou-se a algumas companhias do regimento que o intercetassem a partir de um terreno de maior altitude. Percorreram campos verdejantes e outras belas paisagens, que providenciaram a Mikael Solomon uma oportunidade para envolver os soldados no meio de belos enquadramentos, de cores invulgarmente vivas. O cineasta voltará a fazê-lo de forma ainda mais admirável no décimo episódio da série. Seja como for, a meio caminho do seu destino, os norte-americanos intercetam as forças alemãs. Depois de uma troca de tiros decidem entrincheirar-se a umas centenas de metros de distância, onde passarão a noite. Avizinham-se momentos tensos de algum fascínio.
Durante a noite, a dada altura, o silêncio é quebrado por uma convulsão no seio das tropas aliadas. Um soldado norte-americano que se encontrava a dormir no seu abrigo foi acordado por companheiro e, assustado, esfaqueou-o com a baioneta. A comoção das circunstâncias levou Blithe a abandonar o seu abrigo para ir investigar. Vemo-lo a levantar-se e a caminhar receosamente e de arma em riste no meio da escuridão. Será subitamente intercetado pelo enigmático Tenente Speirs (Matthew Settle), que não colecionara aparições de relevo nos episódios anteriores mas que tinha à sua volta uma infame reputação. Minutos antes tínhamos ouvido alguns soldados a jurar que este matara um grupo de prisioneiros alemães no Dia D a sangue frio, e outros a defender que assassinara um soldado norte-americano por desobedecer às suas ordens. É com curiosidade que vemos a câmara a finalmente dar-lhe algum relevo. A luminosidade da lua só nos permite ver a parte de baixo da sua cara, mas os seus gestos concedem-lhe uma certa descontração, desajustada à situação. O seu tom de voz é seguro e faz com que ele pareça estar em paz com o mundo todo. A conversa subsequente decorre da seguinte maneira: «Lieutenant, sir, when I landed on D-Day, I found myself in a ditch all about myself. I fell asleep. I think it was air sickness pills they gave us… When I woke up I didn’t really try to f-find my unit… to fight. I just kind of stay put.» «What’s your name, trooper?» «Blithe, sir. Albert Blithe.» «You know why you hid in that ditch, Blithe?» «I was scared.» «We are all scared… You hid in that ditch because you think there’s still hope… But Blithe, the only hope you have is to accept the fact that you’re already dead. And the sooner you accept that, the sooner you’ll be able to function as a soldier is supposed to function. Without mercy. Without compassion. Without remorse. All war depends upon it.» A convicção calma com que Settle profere estas palavras, contrastante com o tom baixo e receoso de Marc Warren, no meio do silêncio e da escuridão das vésperas de um confronto entre os exércitos alemão e norte-americano, confere a esta cena uma tensão invulgar e mantem-nos agarrados ao assento de olhos postos no ecrã.
Com o raiar do dia anuncia-se uma nova batalha através do ruído da aproximação de um tanque alemão (mais uma vez a sonoplastia a ser utilizada de forma inteligente). Os soldados entram em estado de alerta e depois de alguns sacrifícios protagonizam outra luta violenta. Blithe mata o seu primeiro alemão mas passados uns dias levará um tiro no pescoço. A vitória sorri aos norte-americanos e Winters é promovido a capitão. O primeiro período de descanso para os soldados da Easy levá-los-á a Inglaterra, onde poderão reagrupar-se e descontrair até à próxima missão.

«Easy had jumped into Normandy on June 6 with 139 officers and men. Easy was pulled out of the line on June 29 with 74 officers and men present for duty. (The 506th had taken the heaviest casualties of any regiment in the campaign, a total of 983, or about 50 percent)

Operação “Market-Garden”
Holanda e França, Julho-Dezembro de 1944
Episódios 4 e 5

«Code name was MARKET-GARDEN. The objective was to get British Second Army, with the Guards Armored Division in the van, through Holland and across the Rhine on a line Eindhoven-Son-Veghel-Grave-Nijmegen-Arnhem. (…) The 101st's task was to land north of Eindhoven, with the objective of capturing that town while simultaneously moving through Son toward Veghel and Grave, to open the southern end of the line of advance.
(…) It was a complicated but brilliant plan. Success would depend on execution of almost split-second timing, achieving surprise, hard fighting, and luck. If everything worked, the payoff would be British armored forces on the north German plain, on the far side of the Rhine, with an open road to Berlin.»

Em retrospetiva, parece-me que os episódios quatro e cinco tenham sido os menos impressionantes de todos os dez. O que não quer dizer que tenham sido maus – longe disso, até. Não só nos entretiveram, como nos proporcionaram momentos numerosos de interesse e umas quantas sequências de alguma intensidade. O problema reside no facto de não demonstrarem nada que não tivéssemos visto nos episódios anteriores.
O título do quarto episódio, “Replacements”, remete para as dezenas de novos soldados que chegaram à Easy para substituir aqueles que tinham sido mortos ou feridos em território francês. Um desses recrutas é interpretado por James McAvoy, de quem voltaremos a falar. O período compreendido entre o descanso concedido à companhia após a sua participação na campanha da Normandia e o início deste episódio é de pouco mais de dois meses, tempo suficiente, na opinião do exército, para os homens voltarem à ação e reforçarem os avanços que o exército aliado estava a efetuar em territórios franceses. O seu destino, porém, desta vez não era a França, mas sim a Holanda.
Ao contrário do que sucedera no Dia D, o salto decorreu sem percalços. Os norte-americanos não só avançaram sem oposição, como foram recebidos como heróis libertadores pelos habitantes das povoações por onde passaram. A câmara de David Nutter faz questão de ilustrar, de forma competente, a euforia da multidão de holandeses que saíram às ruas com os propósitos de incentivar, beijar, dar abraços e tirar fotografias com os soldados. Ofereceram-lhes comida e bebidas, obrigando os oficiais da companhia a voltarem atrás para arrastarem os homens que não queriam ir embora. Em simultâneo, Nutter faz-nos contemplar o tratamento que alguns desses cidadãos, em todo o seu júbilo, dão às mulheres da vila que tinham dormido com os alemães durante a ocupação. Arrastam-nas à força para o meio da rua e, entre aplausos e encorajamentos, rapam-lhes a cabeça e marcam as suas faces com suásticas. As imagens incomodam-nos (é esse o propósito) e fazem-nos pensar se apesar de tudo é mesmo assim que se celebra uma vitória.
No dia seguinte, ao chegarem a outra povoação, os norte-americanos depararam-se com uma quantidade imprevista soldados alemães. São obrigados a retirar entre disparos de espingardas e de metralhadoras e entre uma torrente de explosões provocadas por tanques e morteiros. A personagem de McAvoy é cravejada de balas e o seu cadáver deixado no local. A fuga finaliza-se com sucesso (que é como quem diz poucas baixas), mas um homem corpulento e de aspeto duro mas amigável ficou encurralado entre a turba dos soldados alemães. Chama-se “Bull” Randleman (Michael Cudlitz) e é um sargento que entretanto reconhecêramos pelo seu porte e por estar sempre de charuto na boca. O homem vai-se escondendo onde pode e, a sangrar das costas, dirige-se a um estábulo abandonado para passar a noite. Depara-se inesperadamente com dois holandeses, que pensamos ser pai e filha. Estes, ao invés de o denunciarem, ajudam-no a retirar o estilhaço que se enterrara nas suas costas, fortalecendo a imagem que a série deixa perpassar, de que os holandeses eram uns tipos bem porreiros (ideia que, de acordo com o livro de Ambrose, foi partilhada na época pelos norte-americanos). Instantes depois de finalizada a operação, um grupo de soldados alemães irrompe no estábulo. Levam a cabo uma revisão à pressa do local e abandonam-no prontamente. Um deles, no entanto, demora-se mais do que os outros. Ouviu um ruído, viu um pano ensanguentado caído no meio da palha e, de arma em riste e com a voz a tremer, questiona se está mais alguém no estábulo. Randleman não tem escolha senão atirar-se ao indivíduo e assassiná-lo com a baioneta. Olha com vergonha para a jovem holandesa que observara, chocada, este duelo emocionante. O sargento agradece tudo o que fizeram por ele e expulsa os holandeses do edifício. Espera pela madrugada e nem precisa de se esforçar muito para reencontrar os seus companheiros porque os alemães já tinham abandonado a povoação. No dia anterior, em cidades e povoações distintas do norte europeu, tinham conseguido rechaçar vários segmentos de uma das maiores ofensivas conjuntas aliadas da Segunda Guerra Mundial.
O quinto episódio, dirigido por Tom Hanks, é o único que não gravita em torno de uma ideia concreta, funcionando ao invés como uma espécie de capítulo de transição (da primeira para a segunda metade da participação da companhia na guerra, e em certa parte das temperaturas amenas da Holanda e da França para a neve gélida de Bastogne, na Bélgica). Foca-se novamente em Winters, e mostra-o a escrever um relatório sobre uma operação que nos vai sendo mostrada através de flashbacks, na qual os homens da Easy apanharam de surpresa mais de uma companhia inteira de soldados alemães, neutralizando dezenas de inimigos em fuga com um número reduzido de baixas. As cenas ação foram filmadas com clareza e alguma emoção e confirmam a segurança deste realizador estreante. O protagonismo dado a Winters permite-nos vê-lo a confraternizar com naturalidade com o amigo Nixon, cujo alcoolismo é pela primeira vez abordado com assertividade e com um certo sentido de humor. Aborda-se também a promoção da personagem de Damian Lewis, que passou a ir trabalhar entre os oficiais do batalhão e a desempenhar um cargo com maior poder de decisão e como tal com mais burocracia. O resto do episódio concentrar-se-á nas preocupações do protagonista em relação à liderança da sua companhia e à sua frustração por ter sido afastado da linha da frente. Somos ainda confrontados com a sua visita à capital francesa onde o vemos absorto em reflexões pessimistas sobre a natureza da guerra.
O episódio acaba de forma particularmente encorajadora. Os soldados da Easy tinham sido afastados das suas posições na Holanda e enviados para Mourmelon para “lamberem as feridas”, mas o seu descanso é interrompido por um anúncio de tom grave. O exército alemão furou as linhas aliadas das Ardenas e precisam-se de todos os homens para travar este avanço. Os soldados são colocados em camiões e encaminhados para a referida região belga. Não têm munições ou rações em número suficientemente aconselhável, nem roupas de inverno apesar de estarem em meados de Dezembro e no meio da neve. Ao chegarem ao seu destino deparam-se com um espetáculo assombroso: uma coluna de soldados, de olhares fixos no vazio e envolta em farrapos de inverno, caminha pesadamente em retirada do local que os homens da Easy deverão defender:
«The columns marched on both sides of the road, toward the front; down the middle of the road came the defeated American troops, fleeing the front in disarray, moblike. Many had thrown away their rifles, their coats, all encumbrances. Some were in a panic, staggering, exhausted, shouting, "Run! Run! They'll murder you! They'll kill you! They've got everything, tanks, machine-guns, air power, everything!" "They were just babbling," Winters recalled. "It was pathetic. We felt ashamed.

Bastogne
Bélgica, Dezembro de 1944-Janeiro de 1945
Episódios 6 e 7

Depois de dois episódios sólidos e bem construídos mas pouco esmagadores, a chegada dos homens da Easy a Bastogne ir-nos-á providenciar, provavelmente, o melhor que “Band of Brothers” tem para nos dar. A companhia recebe ordens para se entrincheirar num bosque para defender a povoação de Bastogne, que será posteriormente cercada pelo exército alemão. Carece, como já se referiu, de munições e de rações de combate, e de roupas de inverno apesar das temperaturas abaixo dos zero graus. Estão impossibilitados de receber abastecimentos por via aérea por causa do nevoeiro cerrado que se impõe sobre o local, uma dificuldade da qual os alemães têm a perfeita noção. Os homens vivem em pequenos abrigos escavados na neve, que constituem a única proteção contra as chuvas de artilharia que, ocasionalmente, incidem de forma violenta sobre a área, e que tolham mortos e feridos com alguma regularidade. Estas condições miseráveis serão exploradas no sexto episódio por intermédio do médico Eugene “Doc” Roe, em quem a ação se vai centrar. Roe (que já aparecera pontualmente nos episódios anteriores), interpretado por um competente Shane Taylor, é um jovem pouco sociável, de olhar atento, preocupado em zelar pelo bem-estar dos que estão à sua volta. A sua função é tão, ou mais, ingrata do que a dos restantes soldados. Não foi treinado para empunhar uma metralhadora, mas na eventualidade de um ferimento é obrigado a acorrer à linha da frente, mesmo que isso implique prostrar-se entre o fogo da artilharia inimiga. A realização de David Leland vai explorar de forma sensata e progressiva o peso que as circunstâncias adversas vão provocar na moral da companhia em geral, e na deste indivíduo em particular. Contemplaremos as lutas internas de Roe que tenta desesperadamente superar o medo não apenas da sua morte mas também da visão das feridas horrendas que vai ter de socorrer diariamente, expostas mais uma vez com uma frieza impressionante. Observamos o médico a ir-se gradualmente abaixo, a fitar cada vez mais o vazio, sempre sem o julgar.
Há uma similitude particular entre o sexto e o sétimo episódios, na medida em que temos uma perfeita noção do perigo a que as suas personagens estão sujeitas, sabendo que é uma questão de tempo até que surja outro vítima de um ataque da artilharia alemã. Temos também em conta que a câmara não nos poupará à visão dos soldados com quem entretanto já criamos uma sensação de empatia a definhar no meio da neve, a gemer e a engasgar-se no próprio sangue, sem um braço ou sem uma perna. No sexto episódio em particular, tememos ainda pelo momento em que Roe ceda de vez ao medo e deixe de cumprir o seu trabalho. Estes momentos até são contrastados por alguns momentos de interação bem-humorada entre alguns membros da companhia, mas não impedem a consolidação de um clima de permanente tensão e ansiedade durante a estadia da companhia em Bastogne.

O sétimo episódio mantém o seu foco no tema da fadiga mental dos soldados da companhia, focando-se desta vez nas ações do sargento Carwood Lipton (Donnie Wahlberg), um indivíduo reservado e racional que os capítulos anteriores já nos tinham dado a conhecer. A sua preocupação com a manutenção da sanidade mental dos soldados é partilhada com o espetador através da narração de alguns dos seus pensamentos em off. O seu superior, o líder da companhia, é um tenente meio chalado com uma cara de urso de peluche e uns gestos à Mr. Bean, que todos os dias vai “fazer um telefonema”, desaparecendo durante algumas horas para escapar dos bombardeamentos alemães. O número de vítimas vai-se amontoando, e a sucessiva queda de personagens que tomáramos como tipos porreiros vai incrementar a referida tensão. É com algum choque que vemos Joe Toye (Kirk Acevedo) a perder uma perna após um bombardeamento caótico e brutal, e com ansiedade que nos é dado a entender que os alemães interromperam subitamente o ataque porque sabiam que, eventualmente, os norte-americanos seriam obrigados a sair dos respetivos abrigos para ajudar os feridos. Lipton avisa os homens para ficarem quietos mas não ignora os gemidos de Toye. Levanta-se e vai acudi-lo em conjunto Bill Guarnere (Frank John Hughes), e deparam-se com o soldado a deixar um rasto de sangue no chão enquanto se tenta levantar, sem uma perna, gemendo desesperadamente «I gotta get up. I gotta get up, I gotta get up!». O bombardeamento recomeça, e desta vez é Bill Guarnere a ser apanhado e a perder uma perna.
Para além de evidenciar uma sucessão de mortes e de ferimentos, o realizador David Frankel vai ainda mostrar ao espetador, de forma assertiva, as personagens que se mantêm incólumes fisicamente, mas quebradas a nível psicológico. Foi o que sucedeu com o sargento “Buck” Compton, interpretado pelo carismático Neal McDonough, obrigado a encaminhar-se para a retaguarda para descansar. A missão da companhia termina com um ataque intenso à povoação de Foy, em cujo desenrolar o referido tenente com ares de peluche entra em pânico e é substituído pelo enigmático tenente Speirs, que desse momento em diante desempenhará o papel de comandante da Easy.

«An estimate is that Easy went into Belgium with 121 officers and men, received about two dozen replacements, and came out with 63.The best description of the cost of the Battle of the Bulge to Easy Company comes from Private Webster, who rejoined the company during the truck ride to Alsace. He had been wounded in early October; now it was mid-January. He wrote, "When I saw what remained of the 1st platoon, I could have cried; eleven men were left out of forty. Nine of them were old soldiers who had jumped in either Holland or Normandy or both (…). Although the other two platoons were more heavily stocked than the 1st, they were so understrength that, added to the 1st, they wouldn't have made a normal platoon, much less a company.

Haguenau
França, Janeiro-Fevereiro de 1945
Episódio 8

Rechaçada a última e poderosa ofensiva germânica nas Ardenas, os alemães encontravam-se por esta altura no seu último fôlego. A invasão da Alemanha era quase uma certeza e o fim da guerra uma possibilidade palpável. Pela primeira vez desde o início do conflito, os soldados da Easy começaram a refletir sobre a possibilidade de sobreviverem à guerra, desde que se mantivessem a salvo e cometesse erros desnecessários. O realizador Tony To retrata-os como um grupo mentalmente exausto, desanimado e cínico. Este abatimento é personificado pelo outrora bem-disposto sargento Donald Malarkey (Scott Grimes), que, depois de ter visto os amigos Toye e Guarnere a perderem uma perna e “Buck” Compton a ser evacuado graças à decadência do seu estado psicológico, limita-se nestes momentos a observar pela janela, sem energia e com olhos tristes e com a sua barba por fazer, os soldados alemães aquartelados no outro lado do rio. Nem eles, nem os americanos, querem correr um risco que seja. Se se mantiverem nos respetivos abrigos e evitarem a pontual artilharia inimiga, poderão até ser capazes de sobreviver a esta guerra.
O episódio nem é particularmente memorável, mas consegue perpassar esta ideia de forma bem eficaz. Principalmente a partir do momento em que os homens da Easy são notificados para organizar uma patrulha destinada a atravessar o rio e capturarem um grupo de prisioneiros para serem interrogados. A operação decorre de forma quase perfeita, com apenas uma baixa: um dos soldados, Jackson, feriu-se na sua própria granada. Transportam-no de volta para a margem norte-americana e colocam-no numa mesa bem no centro de uma adega. Ao contemplarem a sua cara envolta em sangue com um olho inchado e o pescoço ferido, alguns soldados entram em pânico. O próprio ferido, ciente da situação, grita que não quer morrer e implora para que o salvem. No mesmo instante, um dos soldados empunha num revólver e tenta alvejar um prisioneiro alemão, mas é impedido por via da força. Doc Roe chega finalmente ao local e, no meio deste tenso e frenético ambiente de exaltação, pede para que lhe deem espaço. Observa a ferida, envolve-a numa ligadura, mas é tarde de mais. Assim que o tentam transportar, Jackson fecha os olhos.
Grande parte do episódio gravita em torno de duas personagens: por um lado David Webster (Eion Bailey), um simpático intelectual a tirar um curso de literatura em Harvard que, por ter demorado quatro meses a juntar-se à companhia depois de ter sido baleado na Holanda, tendo-se recusado a fugir do hospital como muitos outros haviam tinham feito, é tratado como um marginal; e por outro o tenente Jones, um oficial vindo de West Point interpretado por Colin Hanks, que tem aqui um belo tacho, e que como grande parte das personagens a que o ator dá vida é um tipo sério mas profissional. Tanto um como o outro parecem ser uns gajos porreiros com quem vamos simpatizar. Webster permanecerá nos episódios seguintes, enquanto Jones vai ser promovido e prosseguir a carreira noutro cargo, noutro lugar.

“Why we fight”
Alemanha, Abril de 1945
Episódio 9

«"The memory of starved, dazed men," Winters wrote, "who dropped their eyes and heads when we looked at them through the chain-link fence, in the same manner that a beaten, mistreated dog would cringe, leaves feelings that cannot be described and will never be forgotten. The impact of seeing those people behind that fence left me saying, only to myself, 'Now I know why I am here!

O nono episódio da série comprova-nos mais uma vez que, na série em causa, a um episódio sólido mas discreto segue-se um intenso e impressionante. A narrativa desta vez não se foca tanto numa personagem em particular, apesar de dar um certo protagonismo a Lewis Nixon e à sua busca incessante por uma garrafa de Vat 69. Ron Livingston faz mais uma vez um papel competente e não tem quaisquer problemas em interpretar uma personagem com quem é fácil simpatizar, mesmo que nos sejam expostos o seu alcoolismo e a explosão de ira que se forma gradualmente após este ler uma carta da sua esposa a anunciar-lhe o divórcio: «She’s taking everything… she’s taking the house… taking the kid… she’s taking the dog… It’s not even her dog! It’s my dog, SHE’S TAKING MY DOG!!
Por esta altura os norte-americanos já entraram na Alemanha e vão avançando confortavelmente pelo país adentro (tal como os russos, que nunca são mencionados), aceitando pelo caminho diversos pedidos de rendição em massa do exército germânico. Durante o percurso, é dada aos soldados aliados a permissão para pernoitarem nas povoações por onde passam. Basta-lhes escolher uma casa, avisar os atuais ocupantes que têm cinco minutos para a abandonar e ordenar-lhes que voltem, apenas, no dia seguinte. Entretanto roubam-lhes as pratas, as jóias e os objetos de valor que saltarem à vista, que serão posteriormente enviados para casa. A pilhagem é evidenciada como um comportamento levado a cabo de forma perfeitamente natural pelos soldados, deixando-nos a pensar qual é o direito que eles têm para o fazer.
Estes momentos são pontuados não só por alguns momentos de boa disposição dos soldados, mas também por algumas reflexões sobre a razão de terem participado na guerra. Vemos alemães a serem executados a sangue frio e outros a serem simplesmente insultados de longe por norte-americanos à procura de explicações. No último terço do episódio, Winters dá a ordem à companhia para pernoitar na povoação a que acabaram de chegar. Os soldados descem dos seus camiões e organizam uma patrulha para explorar as redondezas. Caminham, com descontracção, por um matagal bizarramente morto e silencioso, e ao longe avistam uma vedação de arame farpado. Percebemos imediatamente que descobriram um campo de concentração. Perto do arame, movimentam-se dezenas de figuras de aspeto terrível – esqueléticas e de olhar vazio, pálidas como fantasmas e a arrastarem-se lentamente mexendo-se o menos possível. A realização de David Frankel foca-se demoradamente nestes cadáveres andantes e obriga-nos a contemplá-los impressionados em toda a sua miséria. Minutos depois de os soldados entrarem no campo, observamos um judeu, magríssimo, a dirigir-se aos norte-americanos e a carregar um idoso ao colo, esquelético, mole como uma boneca de trapos de um filme de terror. A magnífica banda sonora de Michael Kamen exacerba ainda mais a negrura da cena. A visão impressionante dos judeus será novamente explorada quando os moradores da povoação forem obrigados a limpar o campo. É com um misto de assombro e de prazer que os vemos as esboçar ares de choque, de repulsa e de vergonha.

O Ninho da Águia e o final da guerra
Alemanha e Áustria, Maio-Julho de 1945
Episódio 10

«Berchtesgaden was a magnet for the troops of all the armies in southern Germany, Austria, and northern Italy. South of Salzburg, the Bavarian mountain town of Berchtesgaden was Valhalla for the Nazi gods, lords, and masters. Hitler had a home there and a mountain-top stone retreat called the Aldershorst (Eagle's Nest) 8,000 feet high. Thanks to a remarkable job of road building, cars could get to a parking place within a few hundred feet of the Aldershorst. There a shaft ran into the center of the mountain to an elevator which lifted into the Aldershorst. The walls of the elevator were gold leaf

A narrativa do último episódio de “Band of brothers” começa por desenrolar-se na Alemanha dias depois do anúncio do suicídio de Adolf Hitler e, ao longo da sua duração, ser-nos-á ainda noticiado o culminar da guerra na Europa (Maio) e a rendição incondicional do exército japonês (Agosto). O enredo começa por nos mostrar a chegada dos soldados da Easy Company à povoação montanhosa de Berchtesgaden, um reconhecido e faustoso reduto do nazismo durante a governação de Hitler, e horas depois ao refúgio que este mandara construir montanha acima, denominado o Ninho da Águia (Eagle’s Nest). Tanto a vila como o retiro de Hitler são ricamente ornamentados e retratados com muito detalhe pela equipa de produção e serão, consequentemente, pilhados de imediato pelos soldados da companhia em questão (facto verídico) – um soldado toma posse de um álbum de fotografias pertencente ao führer, outro rouba-lhe um faqueiro, outro dá uma volta num dos seus luxuosos carros, todos fazem questão de se servir das garrafas da sua adega pessoal.
O otimismo das celebrações, contudo, acabará por ser contido momentaneamente quando a narração em off, novamente de Damian Lewis (cuja personagem fora entretanto promovida a major), nos dá conta dos excessos cometidos pelos soldados aliados. Embriagados, e na posse de belos automóveis, os acidentes de viação tornaram-se numa ocorrência comum, e por vezes mortal (John A. Janovec, interpretado por Tom Hardy, foi vítima de um deles). Diz-nos, pouco animado, o oficial que «a guerra já tinha acabado mas, de alguma maneira, os homens continuavam a morrer.» É posteriormente retratado um acontecimento de consequências gravosas, sendo-nos mostrado um norte-americano, encharcado em álcool, a assassinar um grupo de cidadãos alemães a sangue frio porque estes não lhe queriam dar gasolina. Dois membros do exército britânico, um deles oficial de cargo elevado, deparam-se com a cena e, ao tentarem desarmá-lo, acabam por sofrer o mesmo destino. Chega ao local, outro norte-americano leva um tiro na cabeça. O criminoso será prontamente perseguido e espancado, numa cena intensa, pelos homens da Easy.
O episódio retrata ainda, num tom crítico para com o exército como instituição, a questão dos “pontos”. Aparentemente, o método utilizado pelos altos cargos para filtrar os indivíduos que, tendo servido o suficiente o seu país, poderiam ser enviados para casa, baseava-se num sistema de pontos, concedidos por objetivos, com critérios duvidosos. Como a quase totalidade dos homens da companhia, muitos deles veteranos que combateram em três países diferentes, não alcançaram os 85 pontos necessários, foram obrigados a deixar o tempo passar na Áustria. As paisagens envolventes são monumentais (e expostas de forma exímia por Mikael Solomon), a temperatura agradável e as raparigas locais simpáticas, mas o desânimo dos soldados é compreensível. O final do episódio é de belo efeito, ao serem colocadas as imagens verídicas dos homens (agora idosos) em que se inspiraram as personagens da série. Os seus percursos de vida após o conflito são-nos explicados, enquanto vamos lutando para combater as lágrimas.

Entre a realidade e a ficção – alguns reparos impossíveis de ignorar

Não obstante as qualidades apontadas a “Band of Brothers”, é inegável reconhecermos-lhe algumas limitações que poderiam ter sido evitadas, nalguns casos, e pensa este blogger, com alguma facilidade. E sendo verdade que, como referi no início deste texto, a série segue quase religiosamente a ordem da narrativa do livro de Stephen Ambrose, há algumas liberdades criativas que sobressaem da pior maneira. Uma delas, e a única que, apesar de tudo, é verdadeiramente censurável, é a ausência de referências ao exército britânico, que combateu em muitos dos mesmos infernos dos soldados norte-americanos, tendo sofrido da mesma maneira e, em certas ocasiões, tendo morrido mais ainda. Por exemplo, sabemos através de Ambrose que, só na Operação Market Garden, morreram cerca de oito mil soldados do Reino Unido. No entanto, no episódio da série que lhe é referente, só nos aparece um à frente, meio enfiado num tanque, morto indecorosamente alguns segundos depois. É verdade que,no episódio oito, há uma aparição de um grupo de britânicos, mas estes são colocados na narrativa com o propósito de serem salvos pelos homens da Easy, acabando por irromper em graças e a gritar hurras em nome dos norte-americanos que os salvaram dos alemães.
Também há outro detalhe que só não passa despercebido para quem leu a obra literária. Durante os seus dez episódios, a série ignora os períodos conturbados que a companhia passou em certos momentos, quando afastada das linhas da frente. Depois da campanha da Normandia, por exemplo, os homens foram enviados para Londres para descontrair. O que se sucedeu ficou para a História e foi bem (mas parcamente) relatado por Stephen Ambrose: «The men of Easy have little memory of that week in London. The American paratroopers were the first soldiers to return to England from Normandy; the papers had been full of their exploits; everyone in town wanted to buy them a meal or a beer— for the first day or so. But the young heroes overdid it. They drank too much, they broke too many windows and chairs, they got into too many fights with nonparatroopers. It was one of the wildest weeks in London's history. One newspaper compared the damage done to the Blitz.» A ausência de menções a episódios deste género, apesar de tudo, é compreensível. Não apenas porque, como a série “The Pacific” viria a provar alguns anos depois, elaborar um episódio centrado no tempo de folga dos soldados poderia provocar desvios desnecessários à narrativa, mas também porque interferiria com os esforços da equipa de produtores em manter uma imagem positiva dos seus protagonistas, em cuja relação com as audiências se alicerça, verdadeiramente, a série.

Conclusão

Mencionei no longínquo início deste texto que ver “Saving Private Ryan” pela primeira vez foi uma experiência invulgarmente marcante. Assim sendo, não é difícil de adivinhar quais eram as minhas expectativas quando soube que estava a ser feita uma série sobre a Segunda Guerra Mundial, criada por Steven Spielberg. Não fiquei desapontado, e “Band of Brothers” tornou-se na minha série de eleição durante longos anos. Ao revê-la, algumas impressões mantiveram-se iguais, e outras foram mitigadas ou exacerbadas. As cenas de ação continuaram a parecer bem filmadas, mas deixaram de ser o principal ponto de interesse. Este passou a residir na tensão e no ambiente desesperante e eximiamente criado nos episódios referentes a Bastogne, no assombro e no realismo com que foi criado o campo de concentração, e no fascínio dos momentos de maior acalmia do terceiro episódio.
A minha impressão do elenco, em contraste, manteve-se. A quantidade de atores, na altura desconhecidos, e não obstante talentosos, selecionados por Steven Spielberg permanece motivo de admiração – Damian Lewis e Ron Livingston estão irrepreensíveis em toda a série, e o mesmo se pode dizer de muitos outros (Donnie Wahlberg, Neal McDonough ou Frank John Hughes, por exemplo, saltam logo à memória). Michael Fassbender também anda por lá, em meia dúzia de episódios, mas o seu protagonismo não passa de uma anuência ocasional ou de um olhar penetrante. A interação natural, e a química surpreendente entre as personagens de "Band of Brothers", fazem-nos perguntar se os próprios intérpretes não serão amigos de longa data na vida real, e impõem-se como um dos pilares principais desta série. 
A tudo isto, junta-se uma cinematografia competente, com momentos de grandiosidade, decorrentes principalmente nos episódios realizados por Mikael Solomon (que antes de ser realizador até foi cinematógrafo), que não tem dificuldades em nos mostrar paisagens monumentais e belos enquadramentos de uma forma orgânica e nunca forçada; sobressai ainda uma banda sonora utilizada de forma muitíssimo eficaz, da autoria de Michael Kamen; destaca-se um trabalho assombroso a nível de adereços e dos cenários, e efeitos visuais quase sempre realistas. Acima de tudo, realça-se o argumento equilibrado supervisionado por Hanks e pela sua equipa de produtores. Tudo é gradual e estruturado com sensatez. As personagens vão-nos sendo introduzidas aos poucos, são interessantes o suficiente para manter a nossa atenção, e os seus diálogos são escritos com sentido de humor e uma naturalidade que raramente nos desaponta. Cada episódio tem como base uma ideia definida, e equilibra-se sagazmente ao oscilar entre momentos de tensão, bem construída, e de desconcentração. As cenas de ação não são gratuitas nem repetitivas, e, sendo o seu desfecho incerto, tememos pelo destino das personagens que as protagonizam.
A própria mentalidade em torno da qual se desenvolve a série pode ser elogiada. A contrastar com a pouca importância dada aos exércitos aliados de outras nacionalidades, nota-se um grau de respeito pelos soldados germânicos que os desassocia das monstruosidades cometidas pelo seu líder. São ao invés encarados como simples jovens que, à semelhança dos norte-americanos, se limitaram a acorrer à defesa da sua pátria, seguindo as suas ordens e matando e morrendo conforme lhes tinha sido ensinado. Este esbatimento entre as noções absolutas do que está certo e do que está errado é reforçado nalguns episódios, sendo disso exemplo a exposição assertiva das vinganças dos holandeses contra os colaboradores, ou as pilhagens alegremente levadas a cabo pelos norte-americanos em solo germânico.

No caso deste blogger, não há volta a dar. “Band of Brothers” não é perfeita, mas é interessante e emocionante. Vê-la, do início ao fim, é um acontecimento. Consegue transmitir como poucas a brutalidade e o desespero da guerra, e com a mesma facilidade retrata o divertimento ingénuo e a forte amizade e entreajuda de um grupo de soldados dos Estados Unidos. Tudo parece funcionar de forma apurada, e tal deve-se a um grupo de notáveis indivíduos com um talento acima da média, a quem posso perfeitamente agradecer - a Spielberg, a Hanks, a Erik Bork, a Damian Lewis, a Ron Livingston, mas acima de tudo a Herbert Sobel, por ter criado, graças às suas profundas e abundantes neuroses, uma das mais memoráveis companhias de paraquedistas do exército norte-americano.



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