06 abril 2014

Entrevista a Carlos Gerbase sobre "Menos que nada"

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Com um estilo sincero e aberto a responder às questões, Carlos Gerbase concedeu uma entrevista ao Rick's Cinema no âmbito da exibição de "Menos que nada" no FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa. Desde questões relacionadas com a distribuição dos filmes, passando pelo livro que inspirou o enredo do filme, até aos festivais de cinema, vários foram os temas abordados ao longo desta entrevista onde Carlos Gerbase se revelou um magnífico entrevistado. A entrevista foi conduzida por Aníbal Santiago e Roni Nunes (do C7nema).

Rick's Cinema: “Menos que nada” foi exibido em transmídia (cinema, DVD, internet). Quais foram as principais motivações para tomar esta medida?

Carlos Gerbase: A constatação que no Brasil, hoje, as salas de cinema (na maioria salas de shopping, de multiplex) estão concebidas para abrigar filmes com lançamentos grandes, com uma boa mídia e um bom suporte na imprensa. Um filme pequeno como o “Menos que nada” não tinha nenhuma hipótese de ficar nas salas de cinema mais do que uma semana, talvez uma semana e meia, duas semanas no máximo. Tradicionalmente lança-se o filme no cinema e temos de esperar seis meses ou três meses para lançar em DVD e temos de esperar mais alguns meses para negociar com a tv por assinatura. Enfim, todas as famosas janelas. Para este tipo de filme não faz mais nenhum sentido fazer isso. Hoje em dia, se as pessoas querem ver um filme vão à internet e simplesmente baixam o mesmo. Se ficarmos a segurar o lançamento na internet, as pessoas vão estar a ver na internet com má qualidade, com o filme a ser colocado por terceiros e não pela Prana Filmes. Faz sentido lançar os filmes exclusivamente em sala quando tens suporte de marketing para deixar os filmes nas salas durante um bom tempo. Num filme destes não faz mais sentido. Eu não comecei a fazer isto com o “Menos que nada”, comecei em 2007 com uma obra chamada “3 Efes”, um filme menor ainda, muito pequeno, com um orçamento de 100 mil reais. Nós só conseguimos lançar no cinema porque conhecemos vários exibidores e temos amigos entre estes, algo que nos permite conseguimos lançar uma cópia em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Coritiba, Florianópolis, etc. Mas é claro que só vai ficar uma semana em sala, eu não tenho nenhuma ilusão em relação a isso. Psicologicamente o melhor para mim e para a equipa é poder deixar o filme à disposição das pessoas, até porque o filme é para ser visto. As pessoas têm de escolher onde querem ver. Quer assistir na Internet, vê na internet. Quer assistir na TV, vê na TV. Quer comprar o DVD, compra o DVD. Quer ver no cinema, vê no cinema. Claro é melhor ver em sala de cinema, eu adoro ver na sala. Mas é só uma semana.

RC: O número de visualizações online e na televisão compensa a nível financeiro ou acima de tudo a nível de público?

CG: Temos de comparar as expectativas em relação ao lançamento tradicional com as expectativas do lançamento em simultâneo. Tanto em relação ao “3 Efes” como ao “Menos que nada”, eu não tenho dúvida nenhuma que nós tivemos mais rendimento com este lançamento em simultâneo do que no lançamento tradicional. Porquê? Porque quando eu vou vender o filme para a internet e para o canal Brasil, o que é que eu digo para eles que estou a vender um filme inédito. Eu digo “tu vais lançar o filme no Portal Terra e no Canal Brasil em simultâneo com o lançamento no cinema” e isso aumenta o valor. Um filme lançado há dez anos vale muito menos do que um filme lançado há um ano atrás, sendo que um filme lançado agora vale muito mais. Podes dizer que é muito pouco, mas vais comparar com o quê? Eu queria deixar dois meses na sala, mas os exibidores é que não querem. As salas não vão deixar. Me parece muito mais lógico este lançamento em simultâneo. Eu vi na Columbia um realizador ligar para lá na Segunda-Feira e lhe dizerem “o seu filme está morto, vamos enterrá-lo dignamente”. Ou seja, na Segunda-Feira está morto, porque nós estamos reproduzindo no Brasil a mesma estratégia dos Estados Unidos da América. O primeiro fim de semana é decisivo. Eles têm cálculos. Calculam o que têm de fazer com os filmes, o número de salas em exibição, qual é o circuito, as janelas, têm tudo planeado para aquele fim de semana. Mas o que é que eles fazem? Gastam um monte de dinheiro em marketing, na televisão e na mídia, nas duas semanas anteriores à estreia da obra. Se o filme é bom avança, se o filme é ruim pelo menos tem um bom início. No Brasil nós estamos a reproduzir esta estratégia sem termos dinheiro nenhum. Do que é que adianta? Se me disserem que faço o filme e vou ter três milhões para marketing, então aí vamos discutir. Um realizador que pensa assim: “o meu filme é muito bom, maravilhoso. Nós temos de estrear para render”. Ele não vende. A não ser que ele tenha feito um filme extremamente popular da Globo Filmes. Essas comédias que estão a fazer agora eu não sei fazer, eu não saberia fazer porque eu nunca fiz isso.

RC: E em termos de Festivais como porta de lançamento?

CG: Isso é uma discussão muito interessante. O “Menos que nada” podia ter muitos mais festivais. A Luciana que é minha sócia e minha esposa, ela acha-me muito ansioso. Quando termino um filme eu quero lançar logo. Eu disse para ela: “vamos tentar colocar nos festivais que consideramos que valem a pena, que ajudam o filme: Cannes, Berlim, Toronto, Veneza. Esses não deram. Então vamos ver outros onde podemos ter alguma ajuda, como Lausanne”. Aí quando o filme não entra nestes festivais, mais vale lançar. Os outros festivais são importantes do ponto de vista cultural, eu adoro estar aqui, é maravilhoso, a discussão que tivemos aqui foi legal. Mas ajuda o filme? Nada, zero. Então eu digo para a Luciana, nós não esperamos. Ainda vamos estrear em mais festivais, entre os quais no Chipre. O Festival do Gramado é a minha casa, mas eu colocar o filme no Festival do Gramado para lançar o mesmo é uma coisa que não faz mais sentido. O filme tem de ter um pouco a cara de festival, tem de agradar a programadores de festivais. Agradou ao Victor (Serra) e ao pessoal do Chipre, mas nos outros festivais não.

RC: Não acha que começamos a ter cada vez mais um “padrão de cinema independente”?

CG: Eu não sei dizer. Eu vou a muitos festivais. Eu vou a Cannes, vou a outros festivais. A ideia que tenho é que de um lado temos o cinema Hollywoodano narrativo, tradicional, bem feito, algum ruim também, mas na maioria dos casos cinemão bem feito. E os filmes muito contemplativos, que não têm história nenhuma. Tem outras coisas também, mas hoje esses parecem ser os dois grandes universos e eu não estou nem num, nem no outro. Os filmes contemplativos de um modo geral eu não gosto. Admiro Tarkovsky, o Gus Van Sant, mas não é a minha onda. Alguns alunos meus têm feito alguns filmes contemplativos bem interessantes, mas em curta-metragem.

RC: O “Menos que Nada” é produzido pela Prana Filmes, criado por si e a Luciana Tomasi. O que o conduziu a avançar para a criação desta produtora?

CG: Em 2011, justamente no meio da produção do “Menos que nada”, quando ainda não tínhamos filmado o "Menos que Nada", eu e a Luciana decidimos sair da Casa do Cinema. Depois de mais de vinte anos juntos nós decidimos que já não estava a funcionar direito e saímos. Por um lado foi bom, visto que tínhamos um trabalho específico para fazer e conseguimos montar uma nova estrutura. O filme recebeu 600 mil reais do programa cultural Petrobrás de Mídias Digitais. É interessante isso, o filme não ganhou o concurso de longa metragem, mas sim de Mídias Digitais. Já na origem em que fiz o projecto eu disse que não ia ser aquele lançamento tradicional, mas sim que iria estar em simultâneo na internet e na TV, que iria estar disponível para o público. Isso teve relevo na escolha do projecto. Conseguimos ainda o apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, mais outros apoios e com um “Puxa daqui, puxa dali”, o filme acabou por ser efectuado por 850 mil reais.

RC: Como é que o Carlos Gerbase tomou conhecimento do conto “O Diário da Redengonga” de Arthur Schnitzler (obra que inspirou a história de “Menos que nada”)?

CG: Eu vou contar-te a história toda com grande velocidade. Eu conheci o autor devido ao “De Olhos Bem Fechados” do Stanley Kubrick, que é baseado no romance “Dream Story” de Arthur Schnitzler. O Kubrick quando leu o livro ficou tão alucinado que disse para “sequestrar” todos os exemplares disponíveis do livro para que ninguém pudesse roubar a ideia. Ele era louco. No Brasil não tinha nenhuma edição do Schnitzler. É então que começam a ser lançadas as obras do Schnitzler, em 1999, quando é lançado o “De Olhos Bem Fechados”. Um dos tradutores das obras do Arthur Schnitzler é o Marcelo Backs, um gaúcho que traduz as obras de outros autores alemães. E aí a Mercado Aberto, uma editora do Brasil começou a lançar os livros e eu comecei a ler tudo. No Brasil, tudo o que saiu eu li, incluindo o “O Diário de Redengonga”, que é um conto bem curto. Eu gostei e comecei a escrever, demorou cerca de quatro a cinco anos a terminar o argumento. E mudou muito em relação à obra do Schnitzler. Se eu pegar no conto e disser que é uma adaptação nem dá para ver. É uma história de perturbação mental, forte e violenta. O tipo tinha uma alucinação “doze horas por dia” por causa de um grande amor. Ele se apaixonou por alguém e essa paixão perturbou-o a um nível de doença mesmo, algo que não é novo mas é apresentado de forma interessante. Está também presente essa ideia que tu és pequeno e o objecto amado é grande, de que nunca vou conseguir chegar lá porque ela é muito maior do que eu. No caso do conto, ela é casada com o capitão do exército austríaco, enquanto o protagonista é um escriturário, um burocrata. No filme temos um arqueólogo a contrato que é apaixonado por uma grande arqueóloga. A parte da arqueologia e da pré-história não estava presente no conto. Eu pensei nessa situação de existir uma relação entre a profissão e o drama dele. Entre os livros que li para escrever o argumento eu encontrei ainda “A Gradiva de Jensen” de Sigmund Freud. É a história de um indivíduo que se apaixona pelos pés de uma mulher e o Freud faz um ensaio sobre a obra, a analisar as motivações do sujeito, etc. Eu comecei a misturar e a estudar um pouco a arqueologia do Rio Grande do Sul. Até podem dizer que está cientificamente errado, mas eu sei o que fiz. E aí uma coisa leva a outra: o que é que detonou o indivíduo? O que é que o desequilibrou? Podem me questionar sobre o porquê de tantos personagens e tanta história, mas é o meu jeito.

RC: O Dante é um personagem bastante complexo e misterioso que padece de esquizofrenia, permitindo ao Felipe Kannenberg ter um desempenho poderosíssimo. Pode falar-nos um pouco da experiência de criar este personagem com o actor?

CG: O Felipe Kannenberg entrou no projecto quando faltavam dois meses para começarmos a filmar. O outro actor saiu, arranjou um trabalho na TV. Eu já conhecia o Felipe, mas nunca tinha trabalhado com ele. Eu disse “é assim Felipe, daqui a dois meses começamos a filmar, eu gostaria que lesses o argumento, mas se aceitares não vais fazer mais nada na vida durante estes dois meses, é pegar ou largar”. Ele estava a fazer uma novela na Record, “A Bíblia”, mas já tinha acabado e aceitou. Foi muito intenso. Eu já tinha começado a ensaiar com outros actores, tais como a Rosane, Branca. A Maria Manoella entrou mais ou menos ao mesmo tempo que o Felipe. Nós marcámos os ensaios no Rio e foi bem intenso. Vimos muitos filmes, conversámos bastante, encontrámo-nos com médicos, sendo que o São Pedro (hospital psiquiátrico) foi fundamental. Ir para lá permitiu ter toda uma atmosfera diferente, encontrávamos pessoas a comerem relva, a baterem com a cabeça nas paredes. O que ficou no final foram os gritos das pessoas, mas não tem nenhum doente na zona do São Pedro onde filmámos, aquela é a zona administrativa, por isso é que pudemos filmar naquele local. O São Pedro que funciona a nível de tratamento encontra-se atrás da zona onde filmámos.

RC: Os actores chegaram a conviver com os doentes?

CG: O Felipe ficou uma semana na ala dos esquizofrénicos. Ficou lá de manhã a acompanhar as actividades. Eles caminham, jogam à bola, conversam, recebem a medicação, ele ficou a acompanhar esse dia a dia. É então que o Felipe conheceu um sujeito e me disse “eu vi o Dante”. Todos tinham medo desse doente devido a ter partido o braço a uma enfermeira. Em alguns dias em que ficava mais agitado ele ficava preso. O Felipe ficou muito impressionando com esse indivíduo e chegou a falar com ele. Não só conversou sobre a vida dele, como pedia para o Felipe dar autorização para sair devido a pensar que este era um médico. Também vimos alguns documentários de indústrias farmacêuticas sobre o antes e depois dos remédios. Nós reunimos vários elementos e ele foi criando o personagem. Foi tudo sendo mapeado no argumento.

RC: O que é que achaste da recepção dos críticos ao filme no Brasil?

CG: Teve de tudo. Teve gente que gostou muito do filme e teve gente que detonou o mesmo. Eu acho a crítica super importante. Eu quero saber o que as pessoas acham do filme e acho que devíamos dialogar mais com os críticos, não para devolver os desaforos, mas sim para falar sobre o filme. O apoio que nós tivemos dos críticos foi fundamental, mesmo quando fazíamos filmes em Super 8 nós tínhamos matéria no jornal. Hoje em dia, nos jornais tradicionais, não existe espaço para a crítica, tirando algumas excepções. Nos dias de hoje onde é que estão as críticas mais importantes? Na internet. Temos 59 blogs, 50 podem não interessar, mas 9 pensam cinema e esses interessam-me. Tem muita crítica hoje escrita no meio académico e aí também podemos trocar ideias. Eu gosto de ler críticas. O que nós constatamos é que se o crítico der quatro estrelinhas em cinco, mesmo que ataque o filme, o que vai sobressair são as estrelas. Se o crítico escrever super bem do filme mas der duas estrelinhas, ferrou, porque pessoal conta muito as estrelinhas ou as bolinhas ou o bonequinho triste ou contente. Cada pessoa entende o filme do seu jeito, toda a pessoa tem o seu direito a não gostar. O que eu não gosto é de falta de educação e xingamento. Um crítico cínico destrói qualquer filme. Eu digo aos meus alunos para terem uma pela grossa para se prepararem para esse tipo de críticas, para não darem muita bola aos críticos cínicos que gostam do sofrimento alheio, se não deixam de fazer cinema. Têm de distinguir entre o que é uma crítica e o que não é uma crítica. 

RC: Está familiarizado com o cinema português e algum dos nossos cineastas?

CG: Não conheço tanto assim, mas actualmente no Brasil os DVDs chegam. A Prana faz a programação do Santander Cultural, onde são exibidos alguns filmes portugueses. Eu vi recentemente um filme chamado “Complexo – Universo Paralelo”. Lembro-me também do “Fantasma”, é um filme interessante, meio contemplativo mas com história, esse realizador (João Pedro Rodrigues) é interessante. Eu fui por duas vezes a Santa Maria da Feira e vi muitas curtas portuguesas.

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