20 março 2014

Resenha Crítica: Wadjda (O Sonho de Wadjda)

     Em 2012, na Arábia Saudita, altura em que Haifaa Al-Mansour se encontrava a realizar “Wadjda”, as mulheres estavam proibidas de votar. Também não podiam conduzir, ou sequer andar de bicicleta. Estava-lhes ainda vedado trabalhar em público com homens, razão pela qual a realizadora foi obrigada a dirigir algumas cenas à distância, dentro de uma carrinha, a espreitar pela janela, e a dar indicações através de um walkie-talkie. Ciente destas restrições, e com o propósito de criar uma história que se enquadrasse na abertura de mentalidades que, todavia, ocorria no seu país, a realizadora, na sua segunda longa-metragem (dirigira o documentário “Women Without Shadows” em 2005), elaborou o filme que me proponho a analisar. Sem procurar chocar ou criar discórdia, a ideia passava por transpor o estilo de vida das mulheres sauditas para o cinema e, ao mesmo tempo, sugerir que a garantia de maiores liberdades passava por uma maior assertividade e espírito de iniciativa por parte da população feminina do país.
     Não é de admirar, portanto, que a narrativa de “Wadjda” se centre numa rapariga independente e irreverente (interpretada por Waad Mohammed), que contra a vontade da mãe, e ignorando as censuras da professora, almeje acima de tudo comprar uma bicicleta. Só desse modo poderá fazer uma corrida com Abdullah (Abdullrahman Al Gohani), um amigo com a mesma idade, que não obstante algumas parvoíces parece ser, de um modo geral, um miúdo bastante simpático. Neste contexto não devemos entender a bicicleta apenas como um brinquedo, pois tal como Al-Mansour revelou numa entrevista posterior este veículo simboliza a aceleração e a possibilidade de comandar o próprio destino. A irreverência de Wadjda, no entanto, não se limita à aquisição do referido velocípede, manifestando-se igualmente na sua abertura a alguns aspectos da cultura mainstream ocidental como o gosto por jogos de vídeo e por música, que só pode ouvir mediante um leitor de cassetes, e pelos seus inseparáveis all-star de atacadores roxos, que tiveram que ser todos pintados de preto de modo a não infringir as regras sociais em vigor. A jovem sobressai assim sem dificuldade entre as suas colegas de escola, que de véu preto bem apertado e encorajadas a agir com discrição para não perturbar os homens são caracterizadas maioritariamente como indivíduos sem o mínimo traço de personalidade, como de resto lhes parece ser exigido pela sociedade. As excepções, neste caso, limitam-se a duas colegas de Wadjda, que parecem ser ligeiramente mais velhas do que ela, que ao serem apanhadas a pintar as unhas com verniz e a ler revistas no recreio vão ser advertidas em frente de toda a escola, num procedimento muito pouco dignificante e ligeiramente incomodativo.
     Também nos são dados a conhecer alguns aspectos da personalidade da mãe de Wadjda (Reem Abdullah), uma mulher que independentemente da sua beleza e simpatia é obrigada a sofrer algumas das limitações impostas às mulheres do estado saudita. A impossibilidade de conduzir, por exemplo, obriga-a a recorrer aos serviços de um condutor extremamente rude, pois de outro modo não teria hipóteses de se deslocar de casa para o trabalho, e, pior do que isso, por motivos que serão revelados no decorrer da narrativa, o seu marido, praticamente ausente, de qualquer maneira, vai ser obrigado a ceder às pressões da família e a casar com outra mulher, relembrando-nos que neste canto do mundo a poligamia é um costume aceite e perfeitamente natural.
     É, contudo, na personagem de Wadjda que este filme se vai centrar, mostrando-nos a forma como a jovem vai contornar as restrições que lhe são impostas pela sociedade saudita para adquirir o desejado brinquedo, servindo-se mesmo de um dos seus principais alicerces - a religião - para consegui-lo, ao decidir entrar num concurso de memorização e recitação de passagens do Corão. Haifaa Al-Mansour já realçou em diversas entrevistas que procurou fazer um filme que fosse geralmente bem recebido pelo público do seu país, que fosse relembrado pela sua história e pelas suas ideias e não pelo choque que iria causar nas populações mais conservadoras (apesar de, por vezes, tal ter sido inevitável), e talvez por isso estejamos perante uma obra tão simpática e essencialmente bem disposta. É verdade que há alguns momentos mais tensos e dramáticos relacionados principalmente com a subtrama da mãe da protagonista, mas nunca chegam a ser demasiado intensos ou a retirar o foco da narrativa de Wadjda.
     A protagonista, aliás, consegue cativar ininterruptamente o nosso interesse durante todos os momentos da sua história, não apenas porque a personagem foi eficazmente construída por Al-Mansour, que soube equilibrar a sua manha com a sua preserverança e simpatia, mas também porque foi interpretada irrepreensivelmente por Waad Mohammed. A actriz estreante conseguiu interpretar com surpreendente capacidade os diferentes estados de espírito de Wadjda, sendo impressionante, por exemplo, a alegria e o orgulho que consegue espelhar numa das melhores cenas do filme, hilariante e incómoda, decorrente nos seus últimos dez minutos, que o leitor certamente identificará quando a visualizar. Cria-se assim uma protagonista adorável, com um estilo muito próprio e por quem é muito fácil de torcer, que reflecte os ideais da sua criadora ao não desanimar perante as adversidades que estão à sua volta e a tomar a iniciativa de lutar pela concretização do seu próprio destino.
     Não obstante o carisma e o talento de Waad Mohammed é Haifaa Al-Mansour quem mais brilha neste filme. A história de “Wadjda” não é particularmente elaborada, mas é simples e sólida (tal como a sua fotografia) e foi estruturada de forma muito sensata, assentando na construção de uma protagonista interessante e na elaboração gradual de uma trama que culmina com um final simpático e surpreendente. O elenco, por seu turno, apesar de ser quase todo amador – exceptua-se Reem Abdullah (a mãe da protagonista), encarregue de algumas das cenas mais exigentes da obra – representou o que lhe foi pedido com total naturalidade, sinal de uma boa direcção de actores. Mais interessante do que tudo isso, porém, foi a forma como a realizadora nos transportou para um universo completamente distinto do nosso, proporcionando-nos por vezes subtilmente uma imagem muito elucidativa sobre as suas normas sociais, ridículas e retrógradas aos nossos olhos, mas perfeitamente naturais aos de grande parte da população saudita. Contemplamos assim uma sociedade profundamente ligada à religião, frequentemente temente do diabo, e que rebaixa as mulheres de forma inacreditável, sendo curiosa a forma como mesmo as professoras de Wadjda vinculam enfaticamente este tipo de comportamentos e defendem, face às suas alunas, que o verdadeiro lugar da mulher é precisamente na sombra dos respectivos maridos. Exige-se às mulheres quem tapem o rosto em público e que não sejam vistas a conviver. Devem também refrear-se de cantar, para não incomodar os homens com a sua voz, e não podem conduzir carros ou bicicletas, porque tal afectaria a sua fertilidade. Aliás, a sua função parece ser essencialmente a de reproduzir filhos varões que dêm continuidade à família.
     Haifaa Al-Mansour, ela própria estudante de cinema em universidades ocidentais, pareceu ter uma boa noção dos contrastes que pretendeu transmitir na sua obra, e soube reproduzi-los com muita cautela e sensibilidade. Deste modo, ao mesmo tempo que conseguiu dar-nos (a nós, ocidentais) a conhecer uma sociedade tão diferente da nossa, que quase parece parada no tempo, realizou um filme que consegue ser não só simples, simpático e bem elaborado, mas também subtil e inteligente em abordar certos tópicos considerados tabu. Rodou-se, assim, o primeiro filme inteiramente filmado na Arábia Saudita, e uma obra cinematográfica que, sem precisar de ser uma obra-prima, se revestiu de especial importância. Ajudou, ainda, a que se alargassem as liberdades femininas, e hoje em dia até já é permitido às mulheres sauditas andarem de bicicleta à vista de todos – é verdade que apenas em parques, e desde que acompanhadas por um guardião masculino. Estas pequenas liberdades parecem peaners, mas não são; são ao invés sinais de um progresso que está a ser lento e gradual como sempre. E se pelo meio desta evolução surgirem bons filmes como “Wadjda”, de Haifaa Al-Mansour, então aí tanto melhor.

Ficha Técnica:

Título original: Wadjda
Realização: Haifaa Al-Mansour
Argumento: Haifaa Al-Mansour
Elenco: Waad Mohammed, Reem Abdullah, Abdullrahman Al Gohani, Ahd, entre outros.

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