04 dezembro 2013

Resenha Crítica: "A Touch of Sin" (China - Um Toque de Pecado)

 Jia Zhangke confirma-se cada vez mais como um dos realizadores de relevo no panorama mundial actual, tendo em "A Touch of Sin" uma das suas obras mais ambiciosas, voltando a utilizar os exemplos individuais dos seus personagens para abordar questões mais latas da China contemporânea, com um realismo nem sempre agradável de se ver. Se as três primeiras longas de Jia Zhangke tiveram primordialmente como pano de fundo a província de Shanxi, este logo mudou para Pequim na sua quarta obra cinematográfica, "The World", onde através de um parque temático, o Beijing World Park, explorava as questões ligadas aos trabalhadores deste espaço, cujas condições degradantes contrastavam com a artificialidade latente das réplicas à escala dos monumentos famosos de vários países. Diga-se que este olhar atento não se ficou por aqui por "The World". Em "Pickpocket", a sua primeira longa-metragem, efectuada praticamente sem recursos e proibida no seu país, este apresentava-nos um carteirista solitário que tinha de lidar com as transformações da China, uma sociedade em ampla transformação, mantendo-se numa luta algo quixotesca para manter os seus valores e princípios, encontrando apenas a rejeição. Já em “Platform”, a sua segunda longa-metragem, apoiada pelo Office Kitano de Takeshi Kitano, mas proibida na China, acompanhávamos as transformações sociais, culturais e económicas deste país ao longo da década de 80, através de um quarteto de artistas ligados à música e dança. Poderíamos ainda dar mais exemplos de outros filmes do cineasta, mas parece ficar evidente através deste breve conjunto citado que este tem uma enorme capacidade para apresentar uma certa reflexão para as transformações da China, através de exemplos particulares, algo que volta a acontecer em "A Touch of Sin". 

 Na sua mais recente obra cinematográfica, Jia Zhangke apresenta-nos quatro histórias aparentemente distintas, que têm em comum serem protagonizadas por quatro personagens que são colocados no limite, revoltando-se contra tudo e contra todos, cometendo actos brutais de violência, seja contra os outros ou contra si próprios. Já não temos só a representação das transformações sociais, económicas, culturais e políticas da China, através de um conjunto restrito de personagens, mas também encontramos a retaliação destes elementos contra o sistema, como se vários dos protagonistas das obras anteriores de Jia Zhangke tivessem soltado toda a sua dor e raiva contida através do quarteto de "A Touch of Sin". A partir do momento em que infligem violência semelhante à sofrida podemos continuar apenas a considerá-los vítimas? Serão estes personagens vítimas do sistema ou também eles culpados? Nada é linear em "A Touch of Sin", com Jia Zhangke a procurar expor a crescente violência e depauperamento de valores na China do seu tempo, onde não falta a exposição de crimes, violência, mortes, prostituição e um conjunto de personagens que chegam a um desespero tal que cometem actos aparentemente loucos, mas que até foram baseados em factos reais. Jia Zhangke importa-se com estes personagens, desenvolve-os gradualmente, segue-os minuciosamente com a sua câmara de filmar (muitas das vezes quando estes estão de costas, quase que nos tornando seus seguidores), expõe as suas fragilidades e integra-os no território. O futuro de todos estes personagens parece pouco brilhante, algo exposto não só pelas narrativas subtilmente ligadas, mas também pelas imagens em movimento, sobressaindo o trabalho de fotografia imaculado, com os protagonistas a ficarem muitas das vezes como os elementos em foco perante um cenário que os rodeia praticamente desfocado, algo exacerbador da incerteza que os rodeia. Quem não perde o foco é Jia Zhangke, que ao longo dos quatro segmentos apresenta-nos a quatro histórias poderosas, que se desenrolam em quatro localidades distintas, das quais sobressaem a primeira e a terceira, embora vamos tentar abordar todas com a atenção que estas merecem. 

Na primeira parte somos desde logo colocados perante um acto de violência extrema, com Zhou San (Baoqiang Wang), o protagonista do segundo segmento, a assassinar a tiro dois elementos que o pretendiam roubar com machados. No entanto, o protagonista do primeiro segmento é Dahai (Jiang Wu), um trabalhador mineiro revoltado com a corrupção política e privada. Dahai foi colega de Jiao Shengli, um indivíduo que enriqueceu com a venda da mina, uma propriedade colectiva para o Grupo Shengli, aproveitando os benefícios das mudanças económicas e sociais da China, transformando-se numa magnata, que tem um carro topo de gama, adquiriu um avião e é "benemérito" ao ponto de dar um saco de farinha a cada um dos seus funcionários, que vão alegremente recebê-lo num episódio que tem tanto de pomposo como de deprimente, sobretudo se tivermos em conta que 40% das receitas desta mina deveriam reverter para a aldeia, mas o paradeiro deste dinheiro parece incerto. Como salienta um colega, se estivessem nos tempos da Guerra, Dahai seria "um General", como não estamos este é apenas um indivíduo revoltado, de poucas palavras mas de acção, algo solitário, que pretende apresentar queixa ao Governo central, mas acaba sempre por esbarrar na burocracia. Dahai ainda tenta a todo o custo tirar do contabilista a confissão de que este, o chefe da aldeia e Jiao são corruptos, mas perante a incapacidade de atingir esse desiderato, que apenas o levou a conseguir problemas, tais como ser brutalmente agredido pelos homens de Jiao, algo que o conduz a ser ridicularizado publicamente, sendo chamado de "Sr. Golfe". No limite das suas emoções, Dahai decide partir para a violência. O protagonista deste segmento ainda tenta falar com a irmã, mas a conversa revela-se infrutífera, com Dahai a decidir fazer justiça com as próprias mãos e atacar o sistema que tem contribuído para algumas das humilhações e injustiças que tem sofrido ao longo da sua vida. Muitas balas são disparadas, muito sangue escorre, enquanto Jia Zhangke não perdoa na brutalidade das mortes, expondo a sua dureza e destacando o olhar de desespero do seu protagonista. 

O que levará alguém a matar? Bem diz o Papa Francisco I que "Esta economia mata", e os personagens de "A Touch of Sin", pecadores por natureza ou ocasião, bem o demonstram, protagonizando momentos emocionalmente poderosos, marcantes e por vezes revoltantes, que não se ficam apenas por esta intensa primeira parte. A segunda parte centra-se em Zhou San, um trabalhador migrante, tal como boa parte dos protagonistas de "The World", que regressa a casa nas vésperas de ano novo. Este chega no dia do septuagésimo aniversário da sua mãe, embora não pareça manter uma relação lá muito próxima com a progenitora e os irmãos. Zhou venera os fantasmas, ocasionalmente utiliza um gorro dos Chicago Bulls e procura sustentar a sua esposa e o filho à distância, não tendo sequer um telemóvel para manter contacto. Fora da casa desta, as crianças e até os adultos brincam com fogo de artifício, mas quem está prestes a rebentar é Zhou, que tem numa arma um objecto perigoso e no crime uma forma desesperada de ganhar o dinheiro que não tem, encontrando na mesma um conjunto de mórbidas e nefastas possibilidades que se prepara para colocar em prática. Este fuma cigarros de marca Hope, mas a esperança não parece chegar à sua vida. Zhou entra no mesmo autocarro que o namorado de Xiao Yu, um homem casado que não parece disposto a abandonar a mulher para ficar com a protagonista do terceiro segmento. Interpretada com enorme intensidade por Zhao Tao, a musa de Jia Zhangke e esposa do cineasta, uma actriz que integrou o elenco de vários filmes do realizador (e recentemente surgiu magnífica em "Io Sono Li"), Xiao Yu trabalha como recepcionista de uma sauna, cujos serviços prestados a alguns clientes passam por muito mais do que massagens. Esta procura manter-se fiel aos seus princípios, dormitando nos quartos do edifício do seu emprego, afastando-se do homem amado, que lhe deixa uma faca devido a este objecto não poder entrar no comboio, um objecto que mais tarde terá outra utilidade, num conjunto de cenas a evocar os wuxia (o próprio título do filme remete para "A Touch of Zen", um wuxia realizado pelo lendário King Wu, embora a inspiração seja mais metafórica do literal). 

Por fim, temos ainda a história tocante do jovem Xiao Hui, interpretado pelo estreante Lanshan Luo. Este trabalha numa fábrica têxtil de Guanghzou, sendo obrigado pelo seu chefe a dar o ordenado ao seu colega até este sair de baixa, devido a ter contraído um acidente enquanto conversava com o protagonista. Perante esta situação, Xiao vai para Dongguan, uma cidade da província de Guangdong, onde um amigo lhe arranja emprego num hotel, no qual as empregadas femininas prestam todo o tipo de serviços, entre os quais sexuais. Aqui entramos outra vez no campo de "The World", com o cineasta a utilizar a opulência do hotel para expor a degradação daqueles que por lá habitam, com Lianrong (Vivien Li), o alvo do interesse do protagonista deste segmento, a ter de se prostituir para sustentar a filha, ainda criança, enquanto na fachada tudo parece ser opulento. Esta não é uma representação lá muito agradável de se ver, com Xiao Hui a ter de lidar com adversidades várias, incluindo uma família que não o pode ajudar, vivendo numa sociedade que oprime as possibilidades deste vencer na vida, algo para o qual este também contribui. No fundo Hui é um dos protagonistas que podemos entroncar noutras obras de Jia Zhangke, cujas alterações na sua sociedade influem e muito na sua agenda, embora este reaja de forma algo trágica. Muitas das vezes associado à sexta geração de cineastas chineses devido à atenção dada aos personagens à margem da sociedade, mostrando uma versão menos apolínea da vida citadina, das transformações da sociedade chinesa e da globalização, Zhangke revela-se um nome a ter muito em atenção, enquanto efectua um retrato duro, intenso, marcado por momentos de enorme tensão emocional, da China do seu tempo. Este não poupa na representação da violência, tendo adaptado casos reais para ficção (não faltando até a representação do caso do choque de comboios de alta velocidade ocorrido em 2011), dotando a história de um argumento coeso e uma narrativa bem estruturada, que começa desde logo por nos dar uma pancada inicial com o violentíssimo primeiro segmento. 

Ficamos com temáticas muito próprias da China contemporânea, é certo, mas também com problemas que até podem ser extrapolados para o caso mundial, com o cineasta a expor as disparidades sociais (os ricos cada vez mais ricos e os pobres a disputarem migalhas), as condições laborais degradantes de alguns locais, deixando-nos perante a revolta destes personagens solitários, que se revelam como guerreiros solitários dos seus tempos. Estes até poderiam ser guerreiros dos wuxia, mas na verdade são apenas humanos comuns, cujas opções para enfrentarem as adversidades estão longe de um bailado com espadas e acrobacias extraordinárias, embora o que seja mesmo notável é como estes acumularam tanta tensão e violência ao longo de tanto tempo. O cineasta não defende a violência, mas também não a condena, colocando "em cima da mesa" um tema que até tem estado bastante na ordem do dia em Portugal que passa por estas crises económicas e de valores, bem como as discrepâncias sociais acentuadas poderem gerar revoltas e violência num mundo em mudança, no qual essas alterações nem sempre parecem prever e preservar o factor humano e os seus direitos. As transformações sociais e económicas da China fizeram parte de trabalhos anteriores de Jia Zhangke, com este a apresentar um retrato muito seu dos problemas do seu país. Uma dessas obras que entroncam em "The Touch of Sin" é "The World", com o cineasta a abordar questões ligadas com os trabalhadores migrantes, prostituição e degradação moral, sendo que a opulência do hotel do quarto capítulo e o seu degradamento moral interior fazem recordar e muito o parque temático dedicado a turistas da quarta longa-metragem do Zhangke. Neste tínhamos um conjunto de monumentos históricos de vários países, tais como a Torre Eiffel, a Torre de Pisa, as Pirâmides do Egipto, representados à escala e para os turistas, mas Jia interessou-se sim pelos habitantes deste espaço, que, ironicamente, se laborarem no mesmo toda a vida nunca poderão um dia visitar os mesmos nos países aos quais estas representações pertencem. Estes trabalhadores poucas condições e opções têm para a sua vida, com o lado negro dos "milagres da globalização" e até do capitalismo a serem expostos. Podemos ainda recordar "Pickpocket", onde o livre mercado permitiu que indivíduos como Jin Xiao Yong, antigos criminosos, até se tornassem cidadãos respeitáveis, uma situação que encontra paralelo com o primeiro segmento do filme, onde Jiao prospera. 

Se Jiao prospera, já Jia Zhangke sobressai naquela que é a sua obra mais ambiciosa do ponto de vista narrativo e até de recursos. Veja-se que as quatro histórias se desenrolam em quatro locais distintos, tendo sido filmadas nos mesmos, sendo aproveitada a simbologia e especificidades destes territórios. O primeiro segmento tem lugar em Shanxi, província de nascimento do cineasta e local primordial dos seus três primeiros filmes. Este local rural é palco de corrupções várias, trabalhadores mineiros e mortes, onde o imponente Wu Jiang brilha, bem como a estátua de Mao Tsé-Tung, sempre muito presente, ou não estivéssemos perante uma China bem distinta daquela do tempo do carismático líder. O segundo segmento desenrola-se em Chongqing, uma província localizada no interior da China, cujos territórios rurais surgem expostos ao longo do filme, não faltando a presença de um indivíduo a cortar o pescoço de um pato e a colocar o sangue num recipiente. Diga-se que a presença e a violência sobre os animais é algo comum ao longo do filme, ficando particularmente na memória uma cena em que Xiao Yu está junto de cobras (menos ameaçadoras do que alguns humanos) e acima de tudo quando um cavalo é violentamente espancado pelo seu dono. Esta cena do cavalo é particularmente chocante, existindo uma certa alegoria pelo cavalo que procura resistir à pancada e os protagonistas, com este a vergar ocasionalmente, mas a resistir, enquanto o quarteto humano até retalia e promete ser bem mais feroz do que o equídeo. Temos ainda presente o símbolo do tigre no primeiro segmento, com o enredo a explorar a presença de vários animais do Zodíaco chinês e a sua simbologia ao longo das quatro partes, numa obra onde tudo parece ter sido pensado ao pormenor. A terceira história desenrola-se em Hubei, uma cidade no centro da China, um território exposto desde o seu comboio, passando pela sauna e os vários edifícios urbanizados, que contrastam com os segmentos anteriores. Por fim, mas nem por isso menos importante, o quarto segmento desenrola-se em Dongguan, uma cidade no sul da China, descrita pelo realizador como uma zona de livre mercado, onde é notório o investimento estrangeiro, algo visível na fábrica têxtil de uma companhia de Taiwan e os clientes deste mesmo local que frequentam o estabelecimento de "convívio" onde trabalha Xiao Wui. 

Temos assim um retrato de Norte a Sul da China, sendo demonstradas as distintas localidades do país e os diferentes dialectos, mas também os mesmos problemas de opressão pelos quais passam os diferentes personagens. Através das histórias destes personagens, a narrativa apresenta-nos a problemas da China contemporânea, tais como a corrupção, o crime, as dificuldades dos trabalhadores migrantes, num país cujas transformações têm sido dolorosas para alguns personagens. Jia Zhangke quer traçar um retrato global da China e não o esconde, uma situação bem representada nas suas notas no dossier de imprensa, onde este salienta: "China is still changing rapidly, in a way that makes the country look more prosperous than before. But many people face personal crisis because of the uneven spread of wealth across the country and the vast disparities between the rich and the poor. Individual people can be stripped of their dignity at any time". O cineasta explora assim os conflitos dos seus quatro personagens com a sociedade que os rodeia e consigo próprios, mostrando as suas personalidades vincadas, sempre sem procurar dar grandes lições de moral ou desfechos prontos a deixarem-nos bem connosco próprios. Bem pelo contrário. "A Touch of Sin" por vezes arrasa-nos emocionalmente, inquieta-nos, deixa-nos a sentir-mo-nos mal pelos seus personagens e é capaz de gerar uma reflexão que vai muito para além de um grito de alerta para aquilo que se passa na China e no Mundo. É a interpretação efectuada por Jia Zhangke sobre estes problemas, é certo, mas não deixa de ser um bom ponto de partida para reflectirmos sobre os mesmos, com as quatro narrativas a não deixarem grande espaço para a indiferença. Estas histórias são expostas por vezes num tom documental, com Zhangke a mesclar actores profissionais e amadores, enquanto nos conduz pela China, expondo os efeitos das evoluções e regressões do país ao longo do tempo, tendo por vezes como fonte de inspiração os wuxia, ou não tivessem estas obras também como temáticas a luta contra entidades opressoras. 

A certa altura do filme, podemos ouvir numa opereta: "Sabes qual é o teu pecado?" Provavelmente nenhum dos protagonistas será capaz de apontar paradigmaticamente os seus pecados. Conseguiremos nós distinguir a linha que separa as vítimas e culpados em "A Touch of Sin"? Serão vítimas ou culpados das situações em que se encontram? Jia Zhangke desenvolve as histórias gradualmente, dando tempo a cada personagem e os seus relacionamentos serem estabelecidos, explorando pelo caminho o meio que rodeia cada elemento até finalmente os colocar perante o desespero. Todos os personagens têm o seu "toque de pecado", mas também é indesmentível que todos surgem como fruto da sociedade e cultura do seu tempo, sendo levados a situações extremas, destacando-se desde logo Dahai, que protagoniza momentos de violência que fariam Takashi Miike sentir-se orgulhoso, entrando numa fúria difícil de sair da memória. Esta não é uma violência gratuita, mas sim sentida, exposta com alguma poesia, onde as balas entram pelos corpos e o fumo exala dos mesmos, após penetrarem na carne, como se representasse as almas que se soltam dos restos mortais, num conjunto de momentos morbidamente poéticos. A assertividade com que a história é apresentada surge acompanhada por uma banda sonora a rigor, marcando os ritmos da narrativa, comprovando o excelente trabalho de Gion Lim, o mesmo que efectuou um trabalho marcante em "Millenium Mambo" de Hou Hsiao-hsien e colaborou com Zhangke em "The World", "Still Life", entre outras obras. O nome de Hsiao-hsien pode e também deve ser ligado às obras de Zhangke. Boa parte das obras de Hou Hsiao-hsien abordam questões ligadas com a história e as transformações em Taiwan, representando as mesmas através dos seus personagens, de forma subtil e até elíptica (veja-se os brilhantes "A City of Sadness", "Three Times", entre outras obras). 

Já Zhangke também não foge a apresentar uma reflexão sobre as transformações sociais, económicas e culturais na China do seu tempo, algo paradigmaticamente representado em filmes como "Platform", onde parecia que estávamos perante uma obra do mestre Hou, não faltando alguns planos longos e uma representação dessas alterações através de um grupo de personagens restrito, numa narrativa elíptica e marcante. No caso de "A Touch of Sin" Jia Zhangke parece querer que os seus personagens coloquem "a mão na massa" e expressem a sua revolta, expondo as consequências destas alterações abruptas na China e colocando-nos perante quatro histórias protagonizadas por quatro personagens bem construídos. Outro dos grandes méritos de "A Touch of Sin" passa exactamente pela sua capacidade de nos apresentar personagens com quem nos importemos, com personalidades vincadas, figuras solitárias, quase espectrais, que em algum momento enfrentam a rejeição e lidam com as transformações do seu país, uma nação que apresenta um crescimento algo desigual, cujos efeitos são sentidos pelos protagonistas e rechaçados por estes com alguma ferocidade. A violência não é gratuita, a morte não é banalizada e desvalorizada, mas sim colocada em confronto com a vida, aquelas vidas que se revelam por vezes madrastas e complexas, com Jia Zhangke a deixar-nos a reflectir sobre as temáticas apresentadas e os seus personagens, abrindo espaço para a reflexão sobre os seus actos e atitudes. As histórias foram baseadas em três casos de assassinato e um suicídio ocorridos na China, que Jia Zhangke resolveu adaptar para o grande ecrã, não descurando o passado literário e cinematográfico do seu país e colocando em prática um filme intenso e marcante que nos deixa perante uma das obras cinematográficas mais relevantes a estrear comercialmente em Portugal no ano de 2013.

Classificação: 5 (em 5).

Título original: "Tian zhu ding".
Título em inglês: "A Touch of Sin". 
Título em Portugal: "China - Um Toque de Pecado".
Realizador: Jia Zhangke. 
Argumento: Jia Zhangke.
Elenco: Zhao Tao, Jiang Wu, Wang Baoqiang, Lanshan Luo.

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