20 dezembro 2013

Resenha Crítica: "The Secret Life of Walter Mitty" (A Vida Secreta de Walter Mitty)

 Remake de "The Secret Life of Walter Mitty", o novo filme realizado por Ben Stiller tem como ponto de partida a agradável obra cinematográfica realizada por Norman Z. McLeod e o conto homónimo da autoria de James Thurber para desenvolver um filme que mantém a ingenuidade da película de 1947, bem como o carácter sonhador e solitário do seu protagonista. Este trabalha como gestor de negativos da revista Life Magazine, vive sozinho, inscreveu-se no eHarmony, um site de encontros on-line para conhecer Cheryl, uma colega de trabalho, procurando ainda tratar da mudança da mãe para um lar. O quotidiano de Walter é marcado por algumas "paragens", nas quais este sonha que se encontra a combater o seu chefe, que é um alpinista saído de um território cheio de neve, que se declara facilmente à mulher alvo da sua paixão platónica e até que salta no meio do ar para entrar num prédio prestes a explodir, ou até que é o convidado especial de Conan O'Brien (numa participação especial do carismático apresentador e de Andy Richter), com a sua rotina a ser quebrada por estes devaneios que lhe valem alguns momentos embaraçosos na vida real e de escapismo no campo dos sonhos. A vida de Walter muda quando uma nova empresa adquire o grupo empresarial da revista onde trabalha, sobretudo com a chegada de Ted Hendricks (Adam Scott, com uma barba falsa pavorosa), o indivíduo responsável pela transição entre o meio escrito e on-line, que vai significar o despedimento de vários trabalhadores. Ted pretende que o negativo vinte e cinco das fotografias tiradas pelo famoso Sean O'Connell (Sean Penn) seja a capa da última edição impressa da Life, a pedido deste último. No entanto, o negativo é o único que falta no arquivo, algo que conduz o protagonista a ter de fazer de tudo para encontrar o mesmo, uma tarefa complicada, sobretudo se pensarmos que Sean não utiliza telemóvel, não tem uma morada certa e apenas deixou uma carteira com uma frase inspiradora para Walter. Este tem assim de tentar encontrar Sean e o paradeiro do negativo, tendo para isso um inesperado apoio de Cheryl, até decidir partir para a aventura, algo que o conduz a um conjunto de lugares exóticos, enfrentando o isolamento da Gronelândia, o perigo dos mares onde se depara com um perigoso tubarão, passando pela Islândia onde lida com um vulcão em erupção e os Himalaias, vivendo um conjunto de peripécias dignas dos seus sonhos.

 A jornada pela procura do negativo surge associada a um conjunto de peripécias meio surreais, tão irreais como os sonhos do protagonista, com Walter Mitty a finalmente enfrentar os seus medos, viver episódios inesperados e modificadores da sua vida, enquanto Ben Stiller parece incapaz de manter a coesão de uma narrativa que conta com um argumento demasiado frágil para as suas duas horas de duração. É verdade que respeita algum do espírito do filme original, que apresenta algumas belas imagens em movimento (veja-se as cenas na Islândia), a banda sonora embora se sobreponha em alguns momentos à narrativa e por vezes pareça que estamos em momentos de um videoclipe nem por isso deixa de ter algum relevo (não falta a referência a Major Tom, um personagem criado por David Bowie), mas perde-se perante um último terço e um conjunto de reviravoltas que pouco acrescentam ao enredo. Junte-se ainda um conjunto de personagens estereotipados (veja-se Adam Scott como o típico chefe sem sentimentos) e pouco desenvolvidos (como no caso do personagem interpretado por Patton Oswalt, ou a irmã e mãe do protagonista), uma necessidade premente de explicar tudo (a certa altura podemos ver o protagonista isolado nas montanhas onde aparece a legenda "sozinho", mais redundante do que isto seria difícil), bem como um último terço "açucarado" até mais não, resolvendo tudo a despachar quando o seu tempo de duração dava mais do que tempo para algo mais elaborado. O filme apresenta algumas alterações em relação à obra de Norman Z. McLeod (que diga-se estava longe de ser uma obra irretocável): a mãe deixa de ser uma presença castradora na vida do protagonista e surge como alguém cúmplice; Walter não tem de lidar com "A Bota", um grupo criminoso que pretendia encontrar um livro com o mapa das jóias escondidas na Holanda durante a II Guerra Mundial, mas tem de encontrar um negativo que supostamente está na posse de Sean; as cenas dos sonhos duram menos tempo. No entanto, vale a pena salientar os vários elementos em comum, não faltando a personalidade do protagonista, alguma ingenuidade e por vezes até infantilidade da narrativa, sendo que as cenas onde o protagonista sonha acordado permitem também alguns momentos dignos de atenção. Não temos Danny Kaye como um piloto da RAF ou a cantar e imitar instrumentos, mas temos Ben Stiller numa paródia a "The Curious Life of Benjamin Button", em cenas de acção algo emotivas com Adam Scott, para além da presença da principal personagem feminina em alguns dos seus sonhos, ou não fosse esta a mulher que desperta a sua atenção.

Esta mulher é interpretada por Kristen Wiig, uma actriz que não sobressai, nem desilude por completo, como o típico interesse amoroso do protagonista, uma mulher divorciada, com um filho e um cão com três patas, cuja relação com Walter é desenvolvida de forma pouco subtil e nem sempre elaborada. Se formos comparar a relação de Walter com a protagonista feminina do filme original (e prometo que é a última comparação que faço com este), a dinâmica do casal fica sempre mais pálida, faltando uma capacidade de dar relevo a Cheryl na história do protagonista, com Ben Stiller a dar quase todo o destaque ao seu personagem, embora não tenha a versatilidade de Danny Kaye. Stiller surge surpreendentemente credível (um pouco a fazer recordar o seu bom trabalho em "Greenberg") como Walter Mitty, um tipo envergonhado, que se envolve nas situações mais intrincadas e surreais, desde andar de skate pela Islândia e correr em territórios imensos, subir montanhas, entre muitos outros, que permitem à sua realidade ficar quase tão próxima dos seus sonhos. Vale ainda a pena destacar a presença de Sean Penn, numa participação especial a espaços memorável, embora Stiller resolva pelo meio colocar o personagem a jogar à bola com Mitty e um conjunto de afegãos, num momento que parece mais para encher do que propriamente para acrescentar algo à narrativa. A incapacidade de Ben Stiller em cortar trechos do filme que pouco ou nada servem para a narrativa é algo de latente ao longo da obra, embora seja de realçar todo o esforço colocado por este ao longo de "The Secret Life of Walter Mitty", procurando não trair o tom "feel good" da obra, sendo até capaz de mostrar alguns momentos de grande criatividade, embora o seu argumento não esteja à altura da ambição. Embora estejamos numa obra que privilegia o irreal, não deixa de ser caricato a forma como o personagem de Stiller encontra rede em todas as chamadas, ou a facilidade com que o argumento se esquece da “vida secreta” de Walter Mitty, procurando entroncar a história do protagonista no presente, fazendo publicidade a aparelhos electrónicos e ao Google à descarada (bem como ao “Papa John's”, “McDonalds”, ao site eharmony, etc.), expondo (mas não explorando) as dificuldades dos meios de comunicação escritos, a personalidade peculiar do seu protagonista e pontuando a narrativa de algum humor, que a espaços resulta. Entre o filme que Ben Stiller promete fazer e aquele que concretizou vai uma distância algo notória, existindo boas ideias, algumas cenas dignas de relevo, mas longe de apresentar uma consistência que o tire da mediania e o torne digno de perdurar na memória. Tendo em conta o potencial que a obra tinha esperava-se e pedia-se mais, muito mais.  

Título original: "The Secret Life of Walter Mitty".
Título em Portugal: "A Vida Secreta de Walter Mitty".
Realizador: Ben Stiller. 
Argumento: Steve Conrad.
Elenco: Ben Stiller, Kristen Wiig, Sean Penn, Patton Oswalt.

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