14 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Mandela: Long Walk to Freedom" (Mandela: Longo Caminho para a Liberdade)

Crítica de Aníbal Santiago a "Mandela: Long Walk to Freedom": 

 Poucas obras que estrearam nas salas de cinema portuguesas em 2013 conseguem ser tão desequilibradas como "Mandela: Long Walk to Freedom", o novo filme do não menos irregular Justin Chadwick. Baseado na autobiografia "Long Walk to Freedom", de Nelson Mandela, o filme realizado por Chadwick mescla um primeiro terço sofrível, marcado por momentos "à bullet point das apresentações em Powerpoint", onde nos apresenta de "raspão" um pouco da juventude de Mandela, a sua vida como advogado, a sua relação conturbada com a primeira esposa (incluindo uma traição), o relacionamento deste com a mãe e a sua entrada no African National Congress, a defesa que este faz da luta armada após falharem os outros meios de resistência, tudo de forma algo pueril e deslavada, até chegar ao momento em que o sul africano é julgado em tribunal e condenado a prisão perpétua. Estamos em pleno regime do Apartheid, cada vez mais contundente nas leis xenófobas e segregacionistas, que Mandela e os seus companheiros procuram derrubar, sendo que a batalha do protagonista passa a travar-se na prisão, tendo ficado encarcerado ao longo de vinte e sete anos. A partir daqui a narrativa solta-se da incessante busca de dar muitos dos momentos-chave da vida de Mandela, para se concentrar na sua busca por conquistar o respeito no interior da prisão da Ilha de Robben, onde encontra poucas condições e guardas abusivos e desrespeitadores dos direitos humanos, conseguindo gradualmente pequenas conquistas, tais como ter calças compridas, receber a visita de Winnie e da filha, a partir do momento em que esta faz 16 anos de idade. São muitos anos de cárcere representados num curto espaço de tempo, é certo, mas Idris Elba protagoniza alguns dos momentos mais marcantes do filme, tais como quando vê pela primeira vez a filha já crescida ou toca na esposa passado muitos anos depois de ter sido preso, bem como o momento em que fala com os homens do Presidente F.W. de Klerk e a sua soltura parece ser uma realidade, embora não abdique de defender os seus valores morais e os direitos do seu povo.

O momento da soltura de Mandela surge acompanhado por uma enorme carga emocional, não só pela capacidade de Justin Chadwick em expor a relevância deste episódio, mas também por toda a carga histórica que o envolve. Não devemos esquecer que estamos perante a representação de uma das figuras mais relevantes e inspiradoras da história recente, que lutou como poucos por direitos como a igualdade e paz, cujo filme biográfico procura respeitar, retratando de forma paradigmática a procura de Mandela para pacificar a África do Sul após ter saído da prisão. A mesma assertividade não acontece na representação da transformação de Winnie, da traição desta a Mandela, da relação de Mandela com os filhos e a mãe antes de ser preso, na representação dos personagens secundários (tirando Winnie, as figuras que rodeiam Mandela raramente sobressaem ou são desenvolvidas), na luta armada protagonizada pelo protagonista, entre outros elementos, que tornam esta obra ambiciosa num produto final algo desigual no desenvolvimento das suas temáticas, embora nem por isso deixe de merecer pelo menos uma visualização. Tem falhas básicas na caracterização (veja-se Mandela envelhecido e o facto de Winnie parecer nunca envelhecer), o argumento nem sempre consegue estar à altura da natureza épica do filme (falta-lhe conteúdo), algumas omissões e liberdades históricas, mas nem por isso deixa de despertar à atenção para esta procura de Nelson Mandela em fazer valer os seus valores, em expor o clima de crescente violência da África do Sul e a dar a Idris Elba uma das grandes interpretações da sua carreira, algo que vai muito para além do sotaque, mas também dos gestos do seu personagem chegando até a protagonizar alguns momentos emocionantes. Essa é uma das qualidades de "Mandela: Long Walk to Freedom": a sua capacidade de emocionar, de nos expor perante pequenos pedaços (ainda que de forma ficcional) da existência de uma figura inspiradora, cuja história de vida é simplesmente arrebatadora. Com uma banda sonora que varia entre os temas africanos e o evocativo "Ordinary Love" dos U2 e um Idris Elba com uma interpretação de grande nível, "Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade" tropeça em alguns momentos na sua ânsia de nos mostrar este "longo caminho" percorrido por Mandela, não conseguindo fazer completamente justiça à vida deste ENORME líder, mas isso também seria completamente impossível.

Crítica a "Mandela: Longo Caminho para a Liberdade" de Aníbal Santiago.
Classificação: 3 (em 5). 
Título original: "Mandela: Long Walk to Freedom".
Título em Portugal: "Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade".
Realizador: Justin Chadwick.
Argumento: William Nicholson.
Elenco: Idris Elba, Naomie Harris, Terry Pheto, Fana Mokoena, Gys de Villiers.



Crítica de Hugo Barcelos a "Mandela: Long Walk to Freedom"

É inegável que as expectativas com que vamos ver um certo e determinado filme têm, por mais que o tentemos evitar, um papel relevante no nível de satisfação com que, findo o seu visionamento, saímos da sala de cinema. Satisfação essa que por seu turno vai influenciar as opiniões inevitavelmente subjectivas que vamos formular e partilhar com amigos, conhecidos, leitores ou ouvintes. Neste sentido, “Mandela: Long Walk to Freedom” não é excepção. Aliás, a biopic de Nelson Mandela realizada por Justin Chadwick é mesmo um caso particular, pois o seu visionamento vai, na sua primeira hora, destruir qualquer tipo de expectativa que até então tínhamos concebido em relação ao filme, para depois nos surpreender com uma segunda parte – mais ou menos a partir do julgamento do estadista sul-africano em 1962 - surpreendentemente competente, que no final nos consegue emocionar mais do que estaríamos à espera.
    Essa infame primeira hora é de facto incompetente, e ficamos com a noção de que Chadwick e William Nicholson, o argumentista, se limitaram a seleccionar e a tentar ilustrar alguns dos momentos mais importantes da vida de Nelson Mandela até ao início da década de 60, tendo-o feito porém com pouca subtileza e ainda menor perspicácia, efectuando uns quantos saltos cronológicos na narrativa e elaborando contextos que por norma parecem ser insuficientes para cada um dos acontecimentos retratados. Assim, o primeiro casamento de Mandela, que na realidade correspondeu a treze anos, despachou-se em dez minutos; os contornos das suas acções como opositor durante uma década ao regime do apartheid, em sensivelmente meia hora; no matrimónio com a sua segunda mulher, Winnie Madikizela, nem dez minutos se investiram. E sempre que se avizinhava um momento intenso, éramos arrastados para uma cena desenrolada cinco, oito ou dez anos mais tarde, cortando-se a tensão e o interesse entretanto suscitado da nossa parte.
De certo modo, compreende-se - ordenara-se tanto a realizador como a argumentista que adaptassem ao cinema a biografia homónima que Mandela publicou em 1994. Porém, se a ideia era ilustrar os momentos mais importantes da vida do sul-africano até ao início do seu período de cárcere, estamos perante um caso de pouca eficácia. Uma ida posterior à wikipédia revelar-nos-ia a existência de uma vasta quantidade de informação que o filme simplesmente ignorou, e apercebemo-nos de que no seu visionamento ficámos com uma ideia superficial e demasiado simplista do que tinha sido o percurso pessoal e político do futuro célebre estadista até então.
Felizmente, o seu julgamento, ou talvez o seu período de cárcere, vai dar início a uma nova fase do filme, que a posteriori nos faz pensar se até então não nos limitáramos a assistir a uma introdução demasiadamente extensa e extenuante. Nesta fase a narrativa vai sorrateiramente ganhando coesão, e apesar de se manterem os saltos temporais os acontecimentos não se diferenciam tanto uns dos outros, o que origina um fio narrativo mais bem ligado e agradável de ser seguido (compreensivelmente, a própria vida de Mandela também não foi tão atribulada em termos de eventos marcantes durante a sua estadia na terrível prisão da Ilha Robben). A vulnerabilidade e a impotência do revoltoso durante o encarceramento vão ser eficazmente evidenciadas por Justin Chadwick, e vão dar oportunidade a Idris Elba para libertar o seu carisma e o seu talento. A sua personagem continua a ser relativamente superficial, mas ao menos alguns dos seus princípios encontram-se bem definidos. Durante o seu aprisionamento também a sua esposa, interpretada a um bom nível por Naomie Harris, é encarcerada e torturada, e Chadwick explora esta situação de forma competente o suficiente para nos sentirmos incomodados com o sofrimento que lhe é imposto. De um modo geral a história capta o nosso interesse, tal como a trajectória do seu protagonista. Alguns momentos são emotivos, outros interessantes de se seguir, e o clímax final, acompanhado por uma banda sonora que até então fora um bocado excessiva, consegue finalmente conceder-lhe alguma grandiosidade, característica que o seu realizador almejava alcançar desde o seu primeiro minuto de duração.
É claro que a estas qualidades se contrapõem alguns defeitos, sendo particularmente evidente a superficialidade com que são abordadas todas as personagens secundárias. Winnie Madikizela (a esposa), por exemplo, tem uma evolução de comportamentos repentina e um envolvimento e impacto na luta contra o apartheid que nem sempre é bem explicado. Mesmo os companheiros de Mandela, que se juntaram a ele no cárcere e que partilharam o seu sofrimento, são negligenciados, sendo o conhecimento que temos sobre as suas vidas quase nulo e o estilo que alguns dos seus intérpretes tinham demonstrado (principalmente Tony Kgoroge) um desperdício. Salta ainda à vista a escandalosa caracterização das personagens, que se estatelou por completo ao tentar envelhecer as personagens de Idris Elba e de Naomie Harris. O primeiro ostenta próteses escandalosas nos maxilares que provocam mais distracção do que indiferença, causando-nos particular estranheza a cena em que a filha de Mandela o vai visitar pela primeira vez à Ilha Robben, altura em que a cara irreconhecível de Elba se parecera transfigur de forma bizarra, como se este tivesse sido vítima de um ataque assassino de uma seringa de botox. Harris, em contraste, simplesmente não envelhece, e enquanto devia parecer ter cinquenta ou sessenta anos, aparenta ter quarenta.
    “Mandela: Long Walk to Freedom” apresenta-se, em conclusão, como um filme profundamente desequilibrado, que pareceu ter um conceito demasiado exigente para o grau de talento e perspicácia do seu realizador, que se limitou a fazer o que podia ao apostar numa hora e vinte minutos finais relativamente inteligentes e coesos e alicerçando-se num desempenho notável de Idris Elba. Apesar de não passar da razoabilidade, porém, a obra em questão não nos sabe a pouco, nem sequer a desperdício. É a questão das expectativas, que abordei no início deste texto. Fosse o início do filme muito melhor que o seu final, sairia frustrado e incomodado da respectiva sala de cinema. Assim não sendo, dou-me por satisfeito, descansado e agradado.


 Classificação: 2.5 (em 5).

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