23 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Like Father, Like Son" (Tal Pai, Tal Filho)

 Ter um filho(a) é (em boa parte dos casos) um acto de enorme investimento emocional por parte de dois seres humanos, que exige um comprometimento para toda a vida. "Like Father, Like Son", o novo filme do realizador japonês Hirokazu Koreeda (do magnífico "I Wish"), aborda aquele que é um dos piores pesadelos dos pais: descobrir que o seu filho foi trocado na maternidade. No caso de Ryota (Masaharu Fukuyama) e Midori Nonomiya (Machiko Ono), esta descoberta dá-se quando Keita, o filho do casal, já tem seis anos de idade e se encontrava prestes a fazer os testes para entrar na escola primária. O que faria numa situação destas? Trocaria o seu filho adoptivo pelo biológico ou manteria a situação como está? Quais os laços mais importantes, os afectivos ou os de sangue? Será possível para as duas famílias visadas voltarem a manter a situação como estava anteriormente? Para perguntas difíceis sem respostas paradigmáticas a dar, Hirokazu Koreeda responde com uma obra delicada na abordagem destes temas, explorando as dicotomias entre os dois casais e as duas crianças, explorando assertivamente as questões ligadas com os adultos e os petizes, demonstrando todo o seu talento na abordagem das relações humanas complexas e claro está em extrair o que de melhor o elenco infantil tem para dar. Koreeda começa para nos apresentar Ryota, Midori e Keita quando estes se encontravam a ter uma reunião junto de elementos da escola, com o filho a mentir em relação a actividades lúdicas mantidas com o pai, cujo tempo para cuidar do filho é bastante escasso, ou não fosse um indivíduo obcecado pelo trabalho e sucesso. A casa destes é espaçosa, algo vazia a nível de decoração, transmitindo uma certa frieza, embora seja notório que os três elementos se amam. A vida destes muda quando recebem um telefonema do hospital, tendo em vista a discutirem um caso que apenas pode ser abordado de forma pessoal. No hospital o casal recebe a notícia de que o filho de ambos foi trocado pelo bebé de Yudai (Lily Franky) e Yukari Saiki (Yoko Maki) e vice-versa. 

A outra família não pode ser mais distinta do casal formado por Ryota e Midori, sobretudo se compararmos o primeiro com Yudai. Ryota veste-se formalmente, demonstra de forma algo discreta os seus sentimentos, tem um carro topo de gama e dedica-se como poucos ao trabalho, mostra alguma incompreensão com a dificuldade do filho em aprender piano e até solta um "já faz tudo sentido". Yudai veste-se de forma casual, gosta de se divertir muito e trabalhar pouco, brincar com os seus filhos e expor os seus sentimentos de forma efusiva, vivendo com a esposa e os seus três filhos no interior de um espaço diminuto, que serve também de local para a sua loja. Os dois casais procuram entrar em consenso e conviver, embora essa situação pareça algo complicada, devido à delicadeza do caso e aos feitios dicotómicos dos elementos dos patriarcas de ambas as famílias, apesar das esposas até se darem relativamente bem. Ryota procura a todo o custo saber quem foi o culpado deste erro, enquanto Yudai procura receber o máximo possível de indemnização, um gosto pelo dinheiro que conduzirá o primeiro a fazer a proposta de pagar uma boa maquia para ficar com a guarda de ambas as crianças, algo que deixa o personagem interpretado por Lily Franky e a sua esposa bastante ofendidos. Estes casais começam gradualmente a trocar de filhos, começando por um fim de semana, fazendo testes graduais embora as duas crianças não pareçam estar a adaptar-se da melhor maneira. O jovem Ryota é mais comedido, habituado às aulas de piano para as quais não tem muito jeito e a um pai algo austero na exposição de sentimentos, mas que ama. Ryu está habituado ao ambiente de saudável anarquia, que destoa do conservadorismo do seu pai biológico. Estes dois jovens são interpretados de forma sublime por Keita Ninomiya (que partilha praticamente o nome com o seu personagem) e Shogen Hwang, duas crianças que revelam a habilidade que Hirokazu Koreeda tem em lidar com actores de tenra idade, explorando elementos próprios da idade destes, enquanto os coloca perante um turbilhão de emoções, sempre sem esquecer que estes ainda estão longe de atingir a maturidade. 

 Tal como tinha feito em "I Wish", Hirokazu Koreeda volta a conseguir explorar as temáticas dos personagens adultos com as das crianças, embora desta vez o enfoque seja nos primeiros, com os efeitos das decisões destes a repercurtirem-se e muito nos petizes. Diga-se que as temáticas relacionadas com a família e as relações famíliares não são uma novidade no cinema de Koreeda, algo visível em obras como "Nobody Knows" e "I Wish". Em "Like Father, Like Son", Koreeda explora habilmente os dilemas dos dois casais, expõe as dificuldades que as suas decisões têm nas crianças, sempre sem julgar ou tomar partido pelos seus personagens, expondo-nos perante estas duas famílias em convulsão perante as decisões importantes que têm de tomar. Não existe uma única resolução  paradigmática para decidir este problema sem aparente solução, algo que contribui para uma certa imprevisibilidade em relação aos destinos dos personagens, embora até desejemos que estes sejam felizes, ou não fossem os mesmos capazes de despertar o nosso interesse e fazer com que nos importemos com as suas escolhas. O elenco contribui para este acreditar nos personagens, mas também o argumento coeso, marcado por diálogos aparentemente casuais que exacerbam o realismo da narrativa, bem como a realização delicada de Hirokazu Koreeda, que alicerçadas numa fotografia eficaz e numa banda sonora que se coaduna com a narrativa, resulta em algo de bastante acima da média. Nada é deixado ao acaso, com os personagens e os seus relacionamentos a serem desenvolvidos gradualmente, com o filme a não ter problemas em explorar a relação complexa de Ryota com Keita, a relação entre o primeiro com a esposa, os relacionamentos entre os casais, a relação entre cada uma das duas crianças com a respectiva nova família. 

 Sem ter problema em estender o enredo ao longo de duas horas, Koreeda aproveita esse tempo para colocar os personagens em confronto, seja entre si, seja consigo próprios. O exemplo máximo é o de Ryota, com o personagem interpretado por um muito convincente Masahara Fukuyama, a expor as suas dúvidas em relação ao que fazer com os filhos, procurando conselhos junto dos pais e dos colegas, mas apenas encontrando mais dúvidas. Este parece desprezar a incapacidade do filho em atingir os rigorosos objectivos propostos, mas nem por isso esconde uma ternura para com o mesmo, notando-se um enorme debate interno entre escolher o seu filho por afeição ou por consaguinidade. A escolha não é fácil, sobretudo quando este continua tão envolvido no trabalho, com o enredo a nunca esquecer a vida laboral do protagonista e a relação com a esposa. Hirokazu Koreeda tem um grande mérito em não deixar cair os personagens nos estereótipos fáceis, expondo-lhes algumas ambiguidades, qualidades e defeitos, onde até a responsável pelo erro é apresentada de forma delicada, numa obra que mescla os momentos de tensão associados à decisão difícil que os personagens têm que tomar, com algumas cenas marcadas por enorme candura, tais como as brincadeiras dos protagonistas com os seus filhos, onde os sentimentos tomam conta do ecrã e do espectador. Os sentimentos fluem, as emoções por vezes aquecem, os personagens parecem em alguns momentos chegarem aos limites das suas possibilidades emocionais, mas nada nos faz esquecer que estas famílias amam os seus filhos e sofrem com toda esta situação, transportando-nos para a causa que defendem, conduzindo-nos a que fiquemos a pensar sobre como reagiríamos perante esta situação intrincada e a questionar as atitudes dos personagens, quase que a nos fazer falar a meio do visionamento. A partir do momento que a história e os personagens nos conquistam e emocionam, nos fazem pensar e ecoam para além da primeira visualização, pouco mais há a dizer sobre "Like Father, Like Son", a não ser que Hirokazu Koreeda é um realizador magnífico e os elogios recebidos cada vez mais pecam por escassos.

Título original: "Soshite chichi ni naru".
Título em inglês: "Like Father, Like Son". 
Título em Portugal: "Tal Pai, Tal Filho". 
Realizador: Hirokazu Koreeda.
Argumento: Hirokazu Koreeda. 
Elenco: Masaharu Fukuyama, Yōko Maki, Jun Kunimura, Machiko Ono, Kirin Kiki, Isao Natsuyagi, Lily Franky, Jun Fubuki, Megumi Morisaki.

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