11 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Inside Llewyn Davis" (A Propósito de Llewyn Davis)

 No Brasil, "Inside Llewyn Davis" vem acompanhado pelo subtítulo "A Balada de um Homem Comum", uma expressão paradigmática para descrever o protagonista do novo filme de Joel e Ethan Coen, um músico de folk com uma carreira algo obscura, que procura triunfar quixotescamente num mundo onde não parece ter lugar, para o qual uma canção "se nunca foi nova e nunca envelhece é música folk". A narrativa desenrola-se no Inverno de 1961, em Nova Iorque, e acompanha a história de Llewyn Davis, um músico que se procura manter íntegro em relação aos seus ideais, mesmo que estes impliquem cantar músicas antigas nas quais os agentes não querem apostar. Este não é um indivíduo tipicamente simpático que gera empatia com o público, anda meio despenteado, sempre acompanhado do seu casaco de bombazine bege, camisa e calças pretas, luvas com os dedos descobertos e a sua viola, que pouco visita o seu pai no lar e dá-se mal com a irmã, vivendo no sofá de casas alheias enquanto procura vingar no mundo da música folk. O desiderato de Llewyn é complicado, sobretudo se tivermos em conta que a sua música não vende, a sua personalidade não é a mais fácil e o protagonista defende uma arte incompreendida, que tem neste "homem comum" um seu defensor, ao longo desta apaixonante obra cinematográfica, onde Oscar Isaac tem aquele que é até ao momento o grande desempenho da sua carreira. Isaac surpreende como este indivíduo solitário, aparentemente banal e cheio de defeitos, que vagueia sozinho ou muitas das vezes com um gato, enquanto protagoniza uma jornada marcada por uma procura em convencer tudo e todos do seu talento, onde acaba por afastar mais gente do que aproximar. A primeira vez que encontramos Llewyn Davis este encontra-se a dar um espectáculo no Gaslight, um bar meio manhoso de Greenwich Village, onde os artistas tocam a troco de gorjetas e esperam um dia ser descobertos por algum agente ou meio de comunicação famosos para serem alçados ao estrelato. Llewyn nem parece muito preocupado com a fama, este apenas pretende viver a fazer aquilo que ama, a comunicar através da música, algo que faz muito melhor do que as palavras dos seus diálogos, muitas vezes marcadas por ordinarices, embora o argumento de "Inside Llewyn Davis" seja de grande nível.

Este sai da casa dos Gorfein, um casal amigo do Upper West Side, onde dorme no sofá esporadicamente, deixando sem querer Ulisses (a remeter para a Odisseia do protagonista), o gato destes, fugir, apanhando o mesmo depois da porta fechar. Sem a chave de casa, Llewyn leva o gato até casa de Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake), um casal de músicos, com a primeira, a sua ex-namorada, a mostrar algum ressentimento para com o protagonista, sobretudo devido à atitude errática deste. Jean avisa que Troy (Stark Sands), um cantor folk que vai cantar no Gaslight, vai passar a noite em sua casa e de Jim, algo que não impede o protagonista de também ficar pela habitação, juntamente com o gato cor de mel, que acaba por escapar. Posteriormente descobrimos que Jean está grávida, não sabendo se a criança é filha de Llewyn ou de Jim. Se for de Llewyn esta pretende abortar, se for de Jim, esta pretende ter a criança, mas perante a dúvida, esta decide abortar. As razões para o aborto parecem fáceis de perceber, com Jean a considerar Llewyn Davis incapaz de ter um futuro. Como salienta Jean, Llewyn é o "irmão idiota do rei Midas", um transformava tudo em ouro, enquanto o protagonista só destrói, uma afirmação algo exagerada, que espelha bem a relação entre estes dois, que continuará com a jovem cantora a utilizar um palavreado vulgar, sugerindo que este deveria sempre utilizar dois preservativos e não descurando vários "vai-te foder". Diga-se que Mulligan surpreende como esta personagem algo distinta do que lhe estamos habituados a ver, com a sua voz doce a cantar e a sua aparente candura a contrastarem com a quantidade considerável de palavrões emitidos pela sua boca, explorando uma faceta diferente desta magnífica actriz. Llewyn tem ainda de lidar com Marty (Alex Karpovsky), um empresário que gere a sua carreira, que se encontra desactualizado e incapaz de potenciar o seu rendimento, acabando por gravar "Please Mr. Kennedy", um tema mais comercial que até trata de forma jocosa, escrito por Jim, com quem toca e canta ao lado de Al Cody (Adam Driver), outro músico algo obscuro a quem "aluga" o sofá. O personagem interpretado por Isaac contacta ainda com o bizarro Roland Turner (John Goodman), um cantor de jazz falador e arrogante, e Johnny Five (Garrett Hedlund), o funcionário deste, procurando chegar posteriormente à fala com o famoso empresário de Chicago, Bud Grossman (F. Murray Abraham, o Antonio Salieri de "Amadeus"), no The Gate of Horn, tendo em vista a conseguir convencê-lo a dar o lugar que merece na música, escolhendo para isso uma música pessoal e não comercial, revelando mais uma vez o seu toque invertido de Midas ao longo desta odisseia pouco gloriosa da sua vida.

 O filme aborda assim a jornada pessoal de Llewyn Davis, transportando-nos para o interior dos Estados Unidos da América em inícios dos anos 60, exibindo-nos uma realidade distinta do mundo da música e da indústria fonográfica, bem como a um território marcado pelos bares e clubes nocturnos, com "A Propósito de Llewyn Davis" a nunca perder o foco naquilo que interessa, ou seja, o seu protagonista. É neste personagem que tudo se concentra, ao longo desta obra marcada por diálogos que variam entre a linguagem vulgar e uma mordacidade deliciosa, permitindo aos seus actores sobressaírem e o argumento destacar-se. Não é só Oscar Isaac que sobressai como este indivíduo falhado que tem uma visão idealista da sua arte, mas também a secundária Mulligan como a aparentemente doce Jean, uma cantora de folk que tem uma língua viperina e pronta a disparar ordinarices, embora mantenha alguma candura e até dê alguma cor ao ecrã quando está com a sua camisola avermelhada, uma cor quente que contrasta com a frieza cromática do filme. Temos ainda um cada vez menos surpreendente e mais certo Justin Timberlake, como um indivíduo que provavelmente é o paradigma daquilo que o protagonista queria ser, tendo sucesso na vida profissional e amorosa, embora Llewyn provavelmente nunca abdicasse do seu estilo de música. Vale ainda a pena não esquecer um eficaz John Goodman, pronto a expor a arrogância e bizarrias do seu personagens, sem esquecermos a presença fundamental do gato cor de mel, um personagem que acrescentar cor (e alguma ternura) à narrativa e muito tem a ver com o protagonista. Estamos a falar do gato de rua que este apanha depois de deixar sair Ulisses, o gato dos Gorfein, da casa de Jean e Jim, pensando ser a mesma criatura, embora seja um gato abandonado. Estes são dois sem-abrigos, independentes, mas prontos a aceitar a afeição exterior, embora raramente o consigam, com Llewyn até a ter algumas atitudes menos próprias para com o animal de estimação, tal como terá com a condição debilitada do pai e com aqueles que o envolvem, ao mesmo tempo que tenta vencer na vida. Esta procura de Llewyn Davis em marcar a sua posição no meio musical é acompanhada por momentos nem sempre agradáveis e dificuldades várias, expondo as adversidades muitas das vezes encontradas pelos artistas em se imporem, numa obra que nunca cai para o dramalhão lamechas e ainda conta com vários momentos de humor e mordacidade.

 Por vezes quase que nos questionamos se não existe aqui um pouco da história dos Coen, dois cineastas que conseguiram a pulso impor-se em Hollywood, embora estes tenham-se inspirado em artistas como Dave von Ranke (que até tem um álbum chamado "Inside Dave von Ranke", tal como o protagonista tem "Inside Llewyn Davis", sendo que o livro de memórias de Ranke, "The Mayor of MacDougal Street", também serviu de inspiração para o filme), entre outros elementos oriundos de diversas partes dos EUA, que procuravam vingar no mundo da música folk. "Inside Llewyn Davis" capta paradigmaticamente essa atmosfera, quer no guarda-roupa, quer nos cenários, quer na magnífica banda sonora. A nível musical "Inside Llewyn Davis" é algo de fenomenal, colocando Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake a cantar covers de músicas conhecidas (não falta "Dink's Song de Bob Dylan, "Green Green Rocky Road" de Dave von Ranke, entre outras) e até originais, enquanto nos apresenta à apaixonante história deste músico oriundo de Greenwich Village. Llewyn Davis é um falhado, solitário, idealista, talentoso, teimoso, frio, sentimental, ou seja um poço de contradições complexas, tão tipicamente humanas que acabam por em certa medida o tornar num "homem comum", como qualquer um de nós, que pretendemos vencer na vida e acabamos por muitas das vezes fazer merda, e procuramos pelo caminho aprender com os erros e respeitar os nossos ideais. Este não tem super poderes e se os tivesse provavelmente acabaria por destruir mais com as suas boas intenções do que construir, ou melhor, isso até é o que na maioria das vezes este faz ao longo do filme, parecendo gradualmente destruir as suas hipóteses de sucesso na sua vida profissional e particular, tendo no The Gaslight Cafe uma fonte dos seus sonhos e dos seus pesadelos. A escolha deste café não foi ao acaso, ou não tivesse sido na realidade o palco de vários espectáculos musicais, onde despontaram artistas lendários como Bob Dylan. Infelizmente, Llewyn não é Dylan e nas poucas vezes que tem sucesso logo desaproveita as oportunidades, como quando abdica das royalties de "Please Mr. Kennedy" para poder pagar as suas despesas, incluindo o aborto de Jean.

O sucesso nem sempre esteve afastado do personagem interpretado por Oscar Isaac. Llewyn formou outrora um dueto de sucesso, mas agora actua a solo. Mais tarde percebemos a causa, mas não vamos aqui revelar. "Inside Llewyn Davis" também é feito de pequenas descobertas, de pequenos pedaços da personalidade de Llewyn Davis que se vão exibindo diante de nós, enquanto este erra, repete os mesmos erros, exprime os seus sentimentos quando canta e toca guitarra, revela uma personalidade nem sempre agradável e lida com um conjunto de pessoas que influenciam a sua vida e são influenciadas por este, procurando a todo o custo evitar ter uma actividade profissional que não seja a música. Não vive com luxos nem glamour (bem pelo contrário, visto que as espeluncas fazem mais parte do seu quotidiano), estando distante das grandes estrelas da música, num tempo representado como de um grande fervilhar de artistas de música folk (veja-se que ainda aparece um jovem Bob Dylan, interpretado por Benjamin Pike), antes do género se popularizar em pleno. São artistas que procuram triunfar, sejam em grupo ou isolados, numa Nova Iorque exibida com algum cinzentismo e palidez cromática (a fazer recordar a capa de "The Freewheelin'" de Bob Dylan), quente de sentimentos, sendo cenário daquela que pode ser considerada como uma das obras maiores dos irmãos Coen. Desde o argumento, passando pelas interpretações e a realização, terminando na banda sonora (de T-Bone Burnett, o mesmo de "O Brother, Where Art Thou?, uma obra que também sobressaía pela sua música, e Marcus Mumford) e na belíssima fotografia, tudo parece resultar nesta magnífica obra cinematográfica. Composto por imagens em movimento marcadas por cores esbatidas, por vezes frias e até cenários marcados pela neve, "Inside Llewyn Davis" não nos dá a história de alguém perfeito, bem pelo contrário, mostrando que existe muito para nos interessarmos no interior dos defeitos e virtudes de Llewyn Davis, ao longo de um filme cujos sentimentos que desperta contrastam com a sua paleta cromática, revelando-se quente e simplesmente apaixonante.

Classificação: 5 (em 5). 
Título original: "Inside Llewyn Davis".
Título em Portugal: "A Propósito de Llewyn Davis". 
Título no Brasil: "Inside Llewyn Davis - A Balada de um Homem Comum". 
Realizadores: Joel e Ethan Coen. 
Argumentistas: Joel e Ethan Coen.
Elenco: Oscar Isaac, Cary Mulligan, Garrett Hedlund, John Goodman, Justin Timberlake. 

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