18 dezembro 2013

Resenha Crítica: "Casablanca" (1942)

 Em "Casablanca", a chegada ao local do título, localizado em Marrocos, significa acima de tudo um ponto de passagem para a liberdade, para uma breve estadia de forma a apanhar o avião em direcção a Lisboa e assim essas pessoas poderem viajar em direcção aos Estados Unidos da América. Estávamos em plena II Guerra Mundial, a Europa estava a ferro e fogo, enquanto a Alemanha Nazi e as forças do Eixo pareciam avançar de forma implacável. No entanto, como é anunciado pelo narrador, nem todos conseguem sair de Casablanca. Alguns elementos ficam presos no território, arriscando a permanecer no mesmo até ao fim dos seus dias. Quem também é capaz de nos prender vezes sem conta a este território é "Casablanca", a obra-prima de Michael Curtiz, um cineasta algo subvalorizado, que conta na sua carreira com filmes com “Captain Blood” (1935), “The Adventures of Robin Hood” (1938), “Angels With Dirty Faces” (1938), “Yankee Doodle Dandy” (1942), “Mildred Pierce” (1945), entre muitos outros, que podem não ter o mesmo mediatismo do memorável filme protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, mas não deixam de revelar um cineasta muito acima da média. Em “Casablanca” tudo se parece ter conjugado a favor do filme, até os seus erros, ao longo de uma obra recheada de cenas memoráveis, falas inesquecíveis, magníficas interpretações, uma realização segura de Michael Curtiz e um eficaz trabalho de fotografia, onde os seus ideais de propaganda facilmente são esquecidos perante o drama romântico apresentado. Sim, "Casablanca", em parte, também foi desenvolvido com objectivos propagandísticos anti-alemães e para aliciar os norte-americanos a aderirem com maior facilidade a esta causa, mas também convém salientar que é muito mais fácil "engolir" propaganda anti-nazi do que o contrário. Tendo como pano de fundo o cenário de Casablanca, durante a II Guerra Mundial, na época um protectorado francês, a história acompanha o norte-americano Rick Blaine (Humphrey Bogart), um indivíduo aparentemente cínico e frio, que procura acima de tudo mostrar a sua independência política, salientando que quando questionado sobre a sua nacionalidade comenta “I’m a drunkard”, embora aos poucos este demonstre que esconde um lado mais humano. Rick é o dono do famoso Rick's Café Américain (que deu título a este blogue), um local que todos parecem frequentar, quer sejam alemães, franceses, norte-americanos, marroquinos, naquela que é a mescla de culturas e povos no território de Casablanca apresentado pelo filme.

 Este bar de Rick Blane conta entre os seus clientes com o Capitão Louis Renault (Claude Rains), um francês sem grandes escrúpulos, que cumpre ordens alemãs devido a colaborar para a França de Vichy, ou seja, a França Ocupada. Após apresentar o território de Casablanca e o contexto histórico ao espectador, a narrativa logo avança para uma intriga relacionada com dois passaportes que se encontram na posse do criminoso Ugarte (Peter Lorre, um secundário de luxo), um aldrabão de primeira que pretende vender os mesmos a dois clientes importantes. Perante a suspeita de que está a ser seguido, este deixa os passaportes com Rick, que apenas se comprometeu a guardar os mesmos até ao final da noite. Com Ugarte preso e posteriormente assassinado, Rick fica com os passaportes sem que ninguém saiba, não tendo consciência que estes se destinam ao revolucionário checoslovaco Victor Laszlo (Paul Henreid) e... Ilsa Lund (Ingrid Bergman). Ilsa é uma das causas para a frieza de Rick Blaine para com as mulheres e promete voltar a alterar a sua monótona vida. A chegada de Ilsa ao Rick's Café Américain é um dos vários momentos memoráveis do filme, sobretudo quando a personagem interpretada por Ingrid Bergman pede a Sam (Dooley Wilson) para cantar "As Time Goes By", a música desta e de Rick, algo que este reluta em fazer, mas logo acede, despertando a ira de Rick, pelo menos até este ver Ilsa, com os close-ups nos rostos a exporem o impacto desta cena para o antigo casal. Cala-se o “You must remember this. A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh. The fundamental things apply. As time goes by” e entra em cena uma troca de olhares intensa entre ambos. Longos anos se passaram desde que Ilsa abandonou Rick sem uma explicação em Paris, mas os sentimentos entre os dois claramente não mudaram muito. Rick logo muda o discurso, bebe com o casal, uma raridade vinda de alguém que não bebe com clientes, com o seu coração a balançar bem forte, apesar da aparente frieza. Com os passaportes na mão, Rick terá de decidir entre manter a neutralidade, ajudar Victor e Ilsa, procurar reconquistar o seu antigo amor ou aceder aos desejos do Major Strasser (Conrad Veidt), um dos líderes nazis no território e entregar Laszlo. Não falta intriga política, romance, traições, acção, melancolia, a "Casablanca", com o argumento a explorar o contexto histórico para apresentar um romance magnificamente elaborado que resistiu ao tempo e continua a conquistar grande parte dos cinéfilos (tal como em qualquer filme, é impossível agradar a todos).

 Se a objectividade na escrita de uma crítica é algo impossível de acontecer, ou não fosse o seu autor um ser humano racional, marcado por gostos e emoções, então escrever um texto de pendor crítico sobre o nosso filme preferido torna-se ainda mais complicado, com “Casablanca” a ser provavelmente a obra que mais marcou a minha vida cinéfila. Desde o encontro entre Ilsa e Rick, ao momento em que este se excede no consumo de álcool a pensar na mesma, passando pela arrepiante cena no Rick's onde os elementos da resistência cantam com a sua alma a Marselhesa, até aos momentos finais recheados de tensão, “Casablanca” não poupa nos elementos marcantes e apaixonantes, onde tudo parece dar certo. A cena onde os elementos da Resistência cantam A Marselhesa é arrepiante, mas não é a única a deixar marca. Ver Sam a tocar "As Time Goes By" é simplesmente encantador, arrasador e memorável. Ver Ilsa e Rick em Paris é doce, terno e igualmente de partir o coração. Ver Rick e Ilsa a trocarem diálogos emocionados em Casablanca é simplesmente arrasador do ponto de vista emocional. Ver Rick a apontar a pistola ao Capitão Renault é emocionante, expondo paradigmaticamente o verdadeiro carácter deste complexo personagem, capaz de sacrificar o amor por uma causa. Muitas outras cenas poderiam ser colocadas também em destaque, bem como diálogos, com o filme realizado por Michael Curtiz a não poupar nas falas que ficam na memória. "Casablanca" é um exemplo paradigmático de um filme onde tudo parece dar certo, sendo capaz de chegar aos espectadores como poucas obras cinematográficas o conseguem. É verdade que existem muitos filmes tecnicamente e narrativamente superiores, mas poucos tiveram a capacidade de "Casablanca" em conquistar, arrebatar e emocionar o espectador e é aqui que reside um dos factores de força do filme realizado por Michael Curtiz. Constituído por um belíssimo trabalho de fotografia do qual sobressai a utilização do chiaroscuro (bem como uma utilização sublime  dos close-ups), um domínio notório da mise-en-scène, um conjunto de cenários que se tornaram míticos (veja-se o café de Rick), "Casablanca" junta a essa atenção ao pormenor uma história soberba da qual sobressai a história de Rick Blaine e Ilsa Lund.

 Rick e Ilsa podem guardar as felizes recordações de "Casablanca", mas o espectador ficará com as gratas recordações de ter conhecido estes dois personagens. Bogie tem aqui um personagem dicotómico dos gangsters que até então interpretara em "The Petrified Forest", “Dead End”, "High Sierra", "The Roaring Twenties" ou do detective Sam Spade de "The Maltese Falcon". Não que este não tenha interpretado alguns personagens distintos (veja-se o peculiar Dr. Maurice Xavier em “The Return of Doctor X”), mas poucos lhe deram o reconhecimento de Rick Blaine e isso é facilmente explicado não só pela interpretação de Bogie, mas também pela química magnífica com Ingrid Bergman. Bogie dá ao personagem tudo aquilo que ele precisa: cinismo, um ar meio melancólico e soturno, mas também uma enorme credibilidade, fazendo com que facilmente acreditamos que este claramente sofre as convulsões sentimentais quando revê Ilsa e recorda o passado. Dono de um clube nocturno conhecido por ser frequentado por aliados e forças do eixo, onde é possível jogar à vontade, divertir-se e beber, Rick é o cínico que não bebe com clientes, não dá fiado, procura ser imparcial e politicamente correcto em todas as questões, que aos poucos cede à causa aliada, mas acima de tudo a Ilsa. Claro que existe em todo este personagem uma ideologia representativa de que se este se consegue converter à causa aliada, também todos os norte-americanos o conseguem, mas já lá vamos a essa parte. Antes de abordarmos questões relacionadas com a ideologia no filme, vale a pena salientar que todo este desempenho de Humphrey Bogart não seria o mesmo sem a companhia de Ingrid Bergman. A estrela sueca é daquelas actrizes que surgem praticamente como sinónimo de talento e tem em Ilsa uma personagem claramente relevante e que nos marca. Esta é a mulher que conquistou e devastou o coração de Rick, uma personagem doce, aparentemente frágil, que mantém uma enorme lealdade para com Victor Lazlo e a causa que este defende. Ao longo do filme percebemos que esta personagem é bem mais complexa, enquanto Bogie e Bergman protagonizam alguns momentos memoráveis, que vão desde o mais romântico (as cenas em flashback de Paris) ao tenso (quando Ilsa pretende a todo o custo os passaportes). Claro está que estes não são os únicos nomes que se destacam e esta é uma das forças de "Casablanca". Não falta Peter "merece mais do que papéis secundários" Lorre como um indivíduo de índole duvidosa, Claude Rains como o traiçoeiro capitão Renault que até acaba por iniciar "uma bela amizade" com Rick, Conrad Veidt (estrela de vários clássicos do chamado Expressionismo Alemão) como um nazi frio e perigoso e já agora Paul Henreid como o imponente líder da resistência Victor Laszlo.

 A juntar aos elementos já citados, vale a pena salientar a magnífica banda sonora do filme, da qual sobressai o tema "As Time Goes By", propiciador de alguns momentos memoráveis, aquecendo a alma e o coração dos espectadores, enquanto desperta sentimentos antigos em Rick e Ilsa. No entanto, vale a pena mudar a corda do texto do romance para outras temáticas, pois este já está a ficar longo e não queremos que ninguém abandone a leitura por tédio. Se o romance sobressai, vale a pena salientar a mensagem política do filme, que aparece expressa não só directamente nas temáticas do filme e tem como ponto alto o arrepiante momento em que se canta "A Marselhesa" perante um Rick's Café Américaine recheado de alemães, mas também indirectamente, através de Rick Blaine. Rick é o sujeito impassível, neutro, que não quer problemas. Este é os Estados Unidos da América antes de decidirem participar na II Guerra Mundial. Se os EUA foram acossados no seu orgulho com o Ataque a Pearl Harbor, já Rick tem aquele pequeno "pormaior" de ter de decidir não só o futuro de Lazlo, mas também da eterna amada Ilsa. É verdade que este já não mantém uma relação com Ilsa e a bela mulher quebrou o seu coração, mas estes ainda têm as memórias Paris, enquanto Rick tem os seus ideais de justiça, que passam por uma vitória da liberdade. Embora a propaganda seja uma das tentativas claras de "Casablanca" (Hollywood torna-se muito mais interventiva na conquista dos corações e das mentes a partir da II Guerra Mundial e quando os Estados totalitários europeus começam a fechar-se às suas obras), também vale a pena salientar que é completamente redutor e simplista considerar "Casablanca" um mero filme de propaganda. No seu fulcro está o romance, a história de Ilsa e Rick, ao mesmo tempo que coloca Casablanca como um território praticamente neutral e Lisboa como ponto de passagem para os EUA. Claro que a própria associação dos EUA a liberdade encerra um conceito algo propagandístico, embora deva ser matizado pelo contexto histórico, social e económico da época, a juntar que o filme é norte-americano e faz claramente mais sentido os personagens quererem viajar para os EUA em busca de liberdade do que para a Sibéria ou para umas férias nos Gulag. O que surpreende em "Casablanca" é como todas estas temáticas poderiam descambar em algo insonso, mas tudo resulta e cria uma enorme empatia, sendo capaz de nos emocionar e marcar, com Michael Curtiz a realizar uma obra digna de toda a atenção que tem conhecido ao longo dos anos.

 Michael Curtiz tem nesta obra cinematográfica baseada na peça (na época por lançar) "Everybody Comes to Rick's" aquele que é um dos pontos altos da sua carreira. Realizador com um conjunto de obras acima da média, poucas foram aquelas que continuam a gozar do estatuto de "Casablanca", um filme recheado de momentos memoráveis que perduram facilmente na memória, tais como aqueles que foram citados ao longo do texto, tão capazes de gerar amores, paixões e também algumas reticências. As paixões não se explicam, mas sentem-se. Desde o primeiro dia que contactei com "Casablanca" que este se tornou "O FILME" da minha vida. Já vão mais de doze anos e ver "Casablanca" tornou-se quase um ritual e nunca uma obrigação. Ilsa, Rick, Sam, Victor Laszlo, Ugarte, Louis Renaut, mais do que meros personagens, tornaram-se figuras familiares cujos diálogos foram praticamente decorados e redescobertos a cada visualização.Tal como as pessoas, os filmes não são perfeitos. Nem por isso nos deixamos de relacionar melhor com umas do que com outras. "Casablanca" é daqueles filmes cujos defeitos não chegam para lhe tirar o seu valor, a paixão e emoção que transmite, os seus momentos arrebatadores e inesquecíveis, algo que leva a construir uma relação única com quem vê esta obra-prima. Existem filmes que com o tempo vão crescendo dentro de mim e outros que me fazem sentir o amargo sabor de já não gostar tanto deles como na primeira visualização. "Casablanca" é sempre uma doce descoberta a cada nova visualização, um filme que apaixona, comove e emociona, no qual a cidade de Paris de Rick e Ilsa se transforma no local de todos os sonhos e desilusões, Casablanca a cidade da qual não queremos sair e perder a companhia de Rick e Ilsa, numa obra arrebatadora e simplesmente apaixonante.

Classificação: 5 (em 5). 
Realizador: Michael Curtiz. 
Argumento: Joan Alison.
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Peter Lorre, Conrad Veidt, Paul Henreid, Claude Rains, Sydney Greenstreet.

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