11 novembro 2013

Resenha Crítica: "Le Passé" (O Passado)

 Depois de nos apresentar a um casal em ruptura em "A Separação", Asghar Farhadi coloca-nos perante um casal a finalizar o processo de divórcio em "Le Passé", em plenos subúrbios de Paris. Tal como na sua obra anterior, bem como em filmes como "About Elly", Farhadi revela-se exímio na construção dos seus personagens e das suas personalidades, explorando o universo narrativo de forma sublime, com ritmos muito próprios e pronto a extrair o que de melhor o seu elenco tem para nos dar. Em "Le Passé", as primeiras vezes que contactamos com Ahmad (Ali Mosaffa) e Marie (Bérénice Bejo), estes encontram-se no aeroporto, separados por um vidro que não permite ouvir o som da voz um do outro (Bejo já está habituada a expressar-se sem o som da sua voz, como pudemos verificar em "The Artist"). Posteriormente, dirigem-se para o interior do carro. Lá fora chove, no interior do carro estes são exibidos em conjunto, para logo de seguida Farhadi nos apresentar a ambos separados (ou não fosse este o futuro estado civil do casal) em planos e contra-planos enquanto dialogam. Ahmad parece calmo, pouco efusivo, mas longe de expor os sentimentos do último terço da narrativa. Marie fuma (algo que não acontecia quando estava casada com Ahmad), conta com o pulso aleijado e espera finalmente ficar divorciada de Ahmad. Na casa desta vivem Lucie (Pauline Burlet) e Léa as filhas do primeiro casamento de Marie, bem como Fouad, o filho de Samir (Tahar Rahim), o homem com quem Marie mantém uma relação. A descoberta deste caso não agrada a Ahmad, que salienta o desconhecimento deste facto, embora esta adiante que tinha comunicado a situação num e-mail. O aparente clima ameno entre ambos é algo quebrado por esta revelação. Percebemos que a comunicação entre Marie e Ahmad não é a melhor, tal como a relação entre esta e Lucie não é melhor devido à filha não aprovar a relação com Samir. 

Enquanto isso, Marie acaba por ter uma discussão com o jovem Fouad, que logo liga ao pai a mostrar o seu desagrado, enquanto a personagem interpretada por Bejo deixa Ahmad a tomar conta das crianças e vai ter com Samir. Este não fica agradado com a vinda de Ahmad, tendo ainda de lidar com o facto de ter a esposa em coma no hospital, embora mantenha um caso com Marie. "Le Passé" evita durante algum tempo reunir estes personagens no mesmo espaço, até finalmente nos apresentar a um pequeno almoço onde o ambiente é cortante, no qual Samir e Ahmad se encontram frente a frente. Diga-se que raramente encontramos toda esta família junta no mesmo cenário, com Asghar Farhadi a desenvolver primeiro a dinâmica entre Ahmad e Marie, posteriormente entre Ahmad, Lucie, Léa e Faoud, bem como entre Marie e Samir, entre outros, explorando as suas personalidades individuais e os comportamentos uns com os outros. Esta situação permite não só aos actores adultos sobressaírem, mas também os mais jovens, cujo papel ao longo da narrativa se revela bem mais interessante e relevante do que poderíamos inicialmente prever, com estes a serem parte destacada de toda esta complexa teia de relacionamentos que envolve Marie, Samir e Ahmad. A jovem Léa é a que parece mais calma, procurando manter uma relação de amizade com Faoud e com a irascível Lucie. Faoud sofre com a ausência da mãe, acabando por formar uma certa amizade com Ahmad, que não agrada a Samir ao ver o ex-marido da sua futura mulher a ter alguma influência junto do seu rebento. Vale a pena realçar que a relação entre Ahmad e Samir é deveras intrincada. Ahmad é o ex-marido que se encontra temporariamente na casa de Marie, Samir é o actual companheiro desta. Ahmad dá-se bem com Lucie, Faoud e Léa, algo que Samir tarda em conseguir, apresentando ainda sinais de alguma cumplicidade com Marie, que se escondem nos sentimentos de frieza. 

A situação entre Ahmad e Samir é deveras constrangedora, algo visível numa cena em que "Le Passé" os junta na cozinha, num cenário marcado por uma luz amena, silêncios perturbantes quebrados pelo barulho da chuva e uma tensão latente entre Samir e Ahmad. Asgar Farhadi joga muito bem com estes dois personagens, tal como o faz na relação entre Ahmad e Marie, e entre Samir e Marie. Ahmad e Marie parecem ainda partilhar ainda alguma intimidade, incluindo os remorsos por um matrimónio falhado, com a partida deste há quatro anos a ficar por explicar e a procura desta em tê-lo presente neste momento difícil a ser gradualmente revelada. Ali Mosaffa dá uma interpretação de bom nível, como este indivíduo que parece um barómetro moral, mas também conta com os seus erros, protagonizando alguns momentos emocionalmente potentes ao lado de Bérénice Bejo, Tahar Rahim e Pauline Burlet. O personagem de Mosaffa é um dos muitos personagens que parece preso ao passado, flutuando entre uma vida que teve em Paris e o seu prazer por viver no Irão, tendo criado laços com as filhas da antiga companheira. Por sua vez, Bejo deixa-nos com mais um papel marcante, talvez até mais do que a sua Peppy Miller de "The Artist", interpretando uma mulher que vive entre as marcas do passado, que se procura estabelecer com Samir no presente e recuperar a relação com a sua filha, mas com o futuro com uma grande incógnita, formando com Tahar Rahim um casal de quem não esperamos muito, que procura ser feliz, embora pareça que nada vai dar certo. O que também não parece dar certo é a sua relação com Lucie, com mãe e filha a conhecerem graves problemas, em parte devido à relação entre Marie e Samir, mas também devido a um segredo por revelar desta jovem e rebelde adolescente. Lucie é interpretada por uma surpreendente Pauline Burlet, que não se intimida frente a nomes como Rahim e Bejo, tendo um papel fulcral a partir de uma revelação efectuada um momento-chave da narrativa. 

Estes elementos citados interpretam personagens fortemente marcados pelo passado, que deixa marcas notórias no seu presente: Marie encontra-se marcada pelo casamento falhado com Ahmad, por quem ainda parece nutrir alguns sentimentos; Samir ainda sente algo pela sua esposa e nota-se um desejo para que esta desperte do estado de coma; Lucie vive com a culpa de um acto do passado. O título original do filme não se poderia adequar melhor a estes personagens, cujas feridas do passado continuam a deixar cicatrizes por sarar no presente, enquanto Asghar Farhadi nos vai revelando alguns segredos sobre os seus protagonistas, surpreendendo-nos em diversos momentos e dinamizando a narrativa com algumas reviravoltas pertinentes. Farhadi é ainda exímio na utilização dos espaços da narrativa, utilizando primordialmente a casa de Marie e as suas divisões, por vezes adornadas com uma luz ambiente, propiciadora de uma atmosfera algo intimista, extravasando posteriormente para outros cenários, tais como a farmácia onde trabalha a protagonista, o restaurante do amigo de Ahmad, a lavandaria de Samir, entre outros. Pelo meio, utiliza ainda o carro como um dispositivo fulcral ao serviço da narrativa, um pouco como o seu compatriota Abbas Kiarostami, deixando os seus personagens a dialogarem (ou por vezes em silêncios cortantes), enquanto os bólides avançam pelas estradas e ficamos a conhecer um pouco do território circundante. No entanto, a maior viagem que estes personagens fazem é às memórias do passado, aos episódios que os marcaram e tardam em ser esquecidos, com "Le Passé" a explorar um conjunto de temáticas universais que vão muito para além das barreiras da língua e da cultura. 

Temas como os problemas causados pelo divórcio nos casais e nos filhos, depressões, discussões entre pais e filhos, crianças de pais diferentes a viverem sob o mesmo tecto, discussões entre casais, entre outros elementos, são temáticas facilmente identificáveis, com o filme a aproveitar ainda a nacionalidade iraniana de Ahmad para a espaços abordar um pouco da sua cultura, mas nada de demasiado aprofundado. O que temos presente em "Le Passé" é um conjunto de personagens profundamente humanos, que lidam com problemas diversos, sem que a narrativa caia no melodrama açucarado, tudo acompanhado por uma fotografia elegante e um conjunto de diálogos bem escritos. O argumento sublime escrito por Massoumeh Lahidji e Farhadi sobressai perante a capacidade deste último em saber contar uma história, em gerir os ritmos da narrativa, em conseguir que as reviravoltas se tornem pertinentes, construindo os relacionamentos e os seus personagens com perícia, numa obra que pode não ser "Uma Separação", mas nem por isso é um filme de menor quilate. Curiosamente, esta é a primeira vez que o cineasta realiza uma obra fora do seu Irão natal, nomeadamente em França, algo que praticamente não se nota, com Farhadi dominar a representação das problemáticas relacionadas com uma família ocidental, que como já foi anteriormente mencionado, são temáticas bem universais e com as quais facilmente temos alguma facilidade em nos rever. "O Passado" deixa os seus personagens entre as marcas do passado e o desafio de enfrentar o presente, colocando-nos perante um drama sublime, onde Asghar Farhadi continua a mostrar que só podemos ter as expectativas elevadas em relação aos seus trabalhos.

Classificação: 4 (em 5). 

Título original: "Le Passé". 
Título em Portugal: "O Passado".
Realizador: Asghar Farhadi.
Argumento: Asghar Farhadi e Massoumeh Lahidji.
Elenco:  Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet, Elyes Aguis, Jeanne Jestin, Sabrina Ouazani, Babak Karimi.

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