18 novembro 2013

Resenha Crítica: "The Grandmaster" (O Grande Mestre)

 Wong Kar-Wai convida-nos a viajar em "The Grandmaster". Viajar por parte da história da China. Viajar por parte da história de Yip Man. Viajar a temáticas exploradas em obras do seu passado. Viajar pelo grande ecrã. Este já nos fez ser um gangster rufia que se apaixonou pela prima em "As Tear Go By", já nos arrebatou para os seus personagens solitários em "Chungking Express" e nos fez idolatrar latas de ananás, já nos deixou disponíveis para amar um casal cuja moral não permitiu trair os seus cônjuges em "In The Mood For Love", já nos fez largar várias mulheres em "Days of Being Wild" e abrir estabelecimentos nocturnos em "Fallen Angels". Já se aventurou por um imaginário de 2046 através das memórias e da escrita do seu protagonista em "2046" e agora adapta a história do conhecido Yip Man, um mestre em artes marciais, que dominou o Wing Chun como poucos e treinou o não menos lendário Bruce Lee. Várias foram as adaptações relacionadas com este personagem, incluindo, "Ip Man", "Ip Man 2", “The Legend Is Born – Ip Man”, entre outras. A adaptação de Wong Kar-Wai destaca-se pelo cuidado dado à representação das diferentes escolas e técnicas de artes marciais da época, por nos traçar um fresco da história da China entre os anos 30 e os anos 50, procurando retratar a história desta figura lendária numa perspectiva mais problematizante, integrando-o no contexto histórico do seu tempo e dando espaço a outros personagens sobressaírem, entre as quais Gong Er. Esta surge interpretada por Zhang Ziyi, uma das actrizes integrantes do elenco de "2046", cuja personagem certamente se orgulharia de ver Gong Er em cenas de pancadaria com o personagem interpretado por Tony Leung. Em "2046", Zhang interpretara Bai Ling, uma mulher que se envolvera com Chow (Leung), mas nunca conquistara o amor deste e apenas se magoara. Em "The Grandmaster", Zhang tem um combate magnificamente coreografado, onde se trava de razões com Yip Man, tendo em vista a honrar o nome do seu pai. A luta é marcada por uma enorme ferocidade, mas também sensualidade, com os gestos trocados a indicarem alguma troca de sentimentos que foge muito ao plano da raiva e revanchismo.

 Muito do filme se centra nos gestos e olhares. Nos pés que se posicionam certeiramente durante os combates, nas posições corporais, nas trocas de olhares e toques sublimes. Yip salienta que a sua mulher é de poucas palavras pois valoriza demasiado o seu valor e esta situação é paradigmaticamente seguida por Wong Kar-Wai. O cineasta não perde tempo a apresentar-nos ao seu protagonista e à arte que o mesmo tem para o combate, colocando-o num emotivo combate à chuva, acompanhado pelo seu chapéu branco, numa luta magnificamente coreografada, onde os golpes são sentidos e o bom trabalho de sonoplastia é notado. Pouco depois, a narrativa recua e somos apresentados a vários trechos da vida do protagonista entre o período de tempo acima sugerido. Este refere-se aos primeiros quarenta anos da sua vida como a "Primavera". Vamos então debruçar-nos um pouco sobre este período primaveril, onde a China prospera e este também. Yip é natural de Foshan, um território do Sul da China, tendo iniciado o treino de kung fu aos sete anos, sendo oriundo de uma família com algumas posses e tradições, com o seu pai a ser conhecido por exportar mercadorias para Hong Kong (as relações comerciais entre China e Hong Kong a serem representadas). Este é casado com Zhang Yongcheng (Song Hye Kyo), de quem tem duas filhas, tendo no Pavilhão Dourado, um bordel decorado com ouro, um local de convívio com outros lutadores de Kung Fu, onde até as mulheres parecem ser peritas em artes marciais. A vida do protagonista muda com a chegada de Gong Baosen (Wang Qingxiang), o líder do mundo das artes marciais do norte da China, que procura celebrar a sua reforma desta actividade, indo desafiar um lutador mais jovem junto dos elementos do sul, tendo em vista a encontrar um herdeiro para o território, tal como efectuara com Ma San (Zhang Jin) no Norte, algo que desperta o interesse de Yip em enfrentá-lo. Yip enfrenta três mestres até chegar a Gong, embora a disputa entre Gong e Yip centre-se sobretudo numa disputa de ideias filosóficas sobre as artes marciais, que terminam com o primeiro a regressar ao Norte da China.

 No entanto, o protagonista logo é desafiado por Gong Er (Zhang Ziyi), a filha do mestre, uma especialista na técnica Bagua das 64 mãos, que pretende recuperar a honra da família. Quem partir algo perde o combate, algo que conduz a momentos de grande intensidade entre os dois, até Yip perder o combate perante esta mulher feroz, intensa e bela. Entretanto, rompe a II Guerra Sino-Japonesa, deixando o protagonista no "Inverno" da sua vida, perdendo as suas posses e as duas filhas, acabando por se afastar da mulher. Enquanto isso, Ma San torna-se um hanjian, traindo os chineses e assassinando Gong Yutian, algo que conduz a sua filha a procurar a vingança. Yip Man muda-se para Hong Kong onde procura ganhar fama como professor de artes marciais. Gong Er procura vingar o pai. A narrativa centra-se sobretudo nestes personagens, com Wong Kar-Wai a fazer até muitas das vezes sobressair a sua protagonista feminina. As mulheres marcantes sempre permearam as obras de Wong Kar-Wai e Zhang Ziyi tem espaço para explorar uma mulher perita em artes marciais, cujo código de valores é bastante elevado, procurando preservar a memória do pai, iniciando uma relação com "Navalha" e mantendo uma paixão secreta pelo protagonista. O amor que é exposto ou surge nos momentos mais inadequados não poderia faltar numa obra de Wong Kar-Wai e em "The Grandmaster" a situação não é diferente. O cineasta explora mesmo essa situação, bem como o sentido de inacção dos personagens perante o destino e as contrariedades, sobretudo no que diz respeito à vida sentimental, com estes a tornarem-se gradualmente figuras solitárias. Zhang Ziyi surge aparentemente frágil e misteriosa, até se dar a conhecer na arte para o combate, dominando as técnicas ensinadas com o seu pai, enquanto a actriz expõe o seu talento para a arte do combate, algo que já tinha evidenciado em "Crouching Tigger, Hidden Dragon" e "House of the Flying Daggers". Esta é a herdeira da sua Bai Ling em "2046", não conseguindo atingir a felicidade junto do protagonista, embora o amor entre os dois seja algo que nunca chega a ser verdadeiramente expresso até uma fase muito avançada da narrativa.

Yip Man amava a sua esposa, sendo um personagem marcado por fortes valores morais, digno de uma técnica apurada para o combate, tendo em Tony Leung o intérprete ideal. Este foi comparado a Humphrey Bogart por Roger Ebert, uma comparação que em nada é descabida, com o actor a dar uma enorme credibilidade aos seus personagens naquela que é a sua sétima colaboração com o cineasta. Kar-Wai gosta de trabalhar com actores em quem já colaborou noutras obras e em "The Grandmaster" não é diferente, com Ziyi a ter a sua segunda colaboração e Chang Chen a quarta. Chang Chen é um dos exemplos dos personagens secundários pouco construídos ao longo da narrativa. A versão exibida no Lisbon & Estoril Film Festival contém a mesma duração que a cópia exibida na Berlinale, pelo que depreendermos ser a mesma, contendo cento e vinte e três minutos de duração. Não sabemos se a versão original terá mais informação, embora fique a dúvida, apesar do argumento do filme ser bastante eficaz a explorar a sua dupla de protagonistas. Não nos faz apaixonar por estes como em outros trabalhos, mas nem por isso estes deixam de ser figuras complexas, que merecem e despertam a nossa atenção. Para quem esperava um filme de artes marciais com muita pancadaria e pouco conteúdo certamente "The Grandmaster" poderá ser uma desilusão, embora também esteja bem recheado nesse quesito. Para quem espera algo mais de um filme do género, Wong Kar-Wai sobressai ao imprimir um estilo muito próprio, concentrando as atenções da narrativa nas histórias separadas e por vezes em conjunto de Yip Man e Gong Er, enquanto nos transporta para períodos algo turbulentos da história da China. Wong Kar-Wai não se limita a apresentar guarda-roupas e cenários adequados à época, este também explora o período histórico e o lado mais filosófico das artes marciais, colocando-nos perante algo mais do que um simples filme sobre as mesmas.

As lutas também são componentes importantes da narrativa e o cineasta percebe isso, tendo em Yuen Wo Ping um aliado importante no desenvolvimento das coreografias ou não estivéssemos perante um indivíduo que trabalhou em obras como "The Matrix", "Kill Bill", "Crouching Tiger, Hidden Dragon", entre outras. Outra nova parceria do cineasta é na direcção de fotografia, com Phillipe Le Sourde a apresentar um trabalho diferente de Christopher Doyle, menos dado à exploração dos filtros (como o vermelho) e da paleta cromática, mas capaz de contribuir para um trabalho refinado, sobressaindo as cenas na neve e até quando encontramos os cenários cobertos de nevoeiro, contribuindo para a beleza das imagens em movimento. Por vezes quase que apetece parar o ecrã para ficar a contemplar algumas das imagens em movimento, pequenos pedaços de arte dignos da mais apurada das pinturas. Os tons mais frios são explorados com uma assertividade notável ao longo do filme, exacerbando os sentimentos destes personagens e dos tumultos, enquanto somos colocados perante a história dos dois protagonistas. O nevoeiro presente ao longo de um momento onde estes apresentam alguma nostalgia transporta-nos para os sentimentos pouco claros que sempre rodearam a relação, ou talvez seja mais adequado a não relação entre ambos. Rick e Ilsa ainda tiveram Paris para recordar em "Casablanca", mas Yip e Gong apenas têm um combate, onde uma desforra nunca chegou, embora muitos gestos tenham sido trocados (é um filme marcado pelo significado exacerbado do gesto), numa China e Hong Kong em mudança. As memórias do passado marcam os protagonistas e o território, uma temática já vista em outras obras de Wong Kar-Wai, tais como "Ashes of Time", "Chungking Express", "2046", entre outras, com o cineasta a não ter problemas em colocar os seus protagonistas perante as recordações dos seus actos e dos episódios que viveram.

Kar-Wai volta a explorar elementos e temáticas transversais a outro dos seus filmes. Não falta a presença do relógio, as narrações em off, os personagens solitários que parecem incapazes de enfrentar o destino no que diz respeito ao amor, uma preocupação por abordar temáticas sociais do tempo histórico representado e até um paradigmática utilização da música, que ritma a narrativa e adequa-se de forma sublime à mesma. Temos ainda uma composição cuidada dos planos, existindo toda uma procura em criar algo de relevante, com Wong Kar-Wai a justificar os cerca de cinco anos que o filme demorou a ser desenvolvido. Raras são as obras que demoraram tanto tempo a "cozinhar", mas Kar-Wai já mostrara no passado que as suas obras demoram tempo a apurar, até surgirem prontas a apresentar ao público. Esta situação torna-se complicada pelo aumentar de expectativas que se vão gerando ao longo dos anos em volta do trabalho do cineasta, que não surgem defraudadas por esta adaptação algo pessoal da história e lenda de Yip Man. Pelo caminho encontramos alguns erros históricos e um desenvolvimento nem sempre correcto dos personagens secundários, mas nada que nos tire por completo da narrativa, enquanto somos apresentados a este "Grande Mestre" das artes marciais, sempre com o contexto histórico como pano de fundo importante para o desenvolvimento dos personagens (por vezes apresentando em pequenos textos que dividem as cenas). Para Yip, "Na vida, assim como no xadrez, um movimento, quando feito, permanece no tabuleiro. O que temos é apenas destino". Esta situação é paradigmaticamente representativa de como o protagonista encara a vida e o destino. Wong Kar-Wai mexeu nas várias peças do seu tabuleiro de xadrez e mostrou-se mais uma vez um "Grande Mestre" na realização cinematográfica, realizando um filme que pode estar longe de ser imaculado, mas nem por isso deixa de ser uma das mais interessantes obras cinematográficas a chegar às nossas salas de cinema em 2013.

Classificação: 4 (em 5). 

Título original: "Yi dai zong shi".
Título em inglês: "The Grandmaster".
Título em Portugal: "O Grande Mestre".
Realizador: Wong Kar-Wai. 
Argumento: Wong Kar-Wai, Zou Jingzhi, Xu Haofeng.
Elenco: Tony Leung, Zhang Ziyi, Chang Chen, Zhao Benshan.

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